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  • Monstros debaixo da cama

    Monstros debaixo da cama

    Crise financeira, crise pandémica, crise geopolítica, crise energética, crise climática, crise inflaccionária.

    Longe vai o tempo em que a «crise» ainda podia ser anunciada como um acontecimento conjuntural de onde todos sairíamos colectivamente renovados e com uma lição aprendida. Mesmo para aqueles que sempre viveram em crise, parecia possível acreditar que o infortúnio era uma espécie de nuvem a pairar sobre uns quantos e não uma tempestade a cercar-nos sem permitir qualquer fuga. Mas agora são tantas as rupturas a eclodir em simultâneo, que se tornou evidente que já não é de uma simples fissura que se trata. A crise parece ter-se transformado convenientemente em guerra: uma guerra permanente com várias frentes, capaz de legitimar os múltiplos «sacrifícios» e de mobilizar o «esforço colectivo salvífico» que se exige em nome de um bem maior. Perante a sucessão de catástrofes anunciadas, torna-se difícil distinguir que «valores» e «estilo de vida» são esses pelos quais nos devemos sacrificar. Mas o que é certo é que a deterioração das condições de vida, o crescimento das desigualdades económicas e o sacrifício das «liberdades e garantias» em nome da «segurança» vão-se banalizando com eficácia. Talvez por uma certa aura de inevitabilidade. Talvez porque a guerra desloca o inimigo para algo exterior a um «nós» e nos permite imaginar que somos parte de uma comunidade.

    Essa comunidade tem que ser constantemente encenada através da ritualização e rememoração permanente do que nos transforma num «nós». Mas a massa fundamental que une essa comunidade é o «outro», o bárbaro que ameaça a nossa paz e bons costumes. Esse «outro» não é apenas o inimigo longínquo que se aproxima das nossas fronteiras e ameaça saltar a barreira que nos separa a qualquer momento. Ele está entre nós. E há que recordar quem é esse inimigo e onde é que ele está, mesmo quando não o vemos. Agentes e instituições governamentais e independentes unem-se, frequentemente, nessa tarefa, reproduzindo os diagnósticos de uns e de outros para materializar a realidade que fantasiam como profecias auto-realizáveis. Falam-nos de um país que é estranho à maioria e que só eles conhecem, logo o seu grau de eficácia é imperscrutável e a sua autoridade intangível.

    O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), obra do Governo, identificou um aumento na «criminalidade grupal» durante o ano de 2021, associando-o às «Zonas Urbanas Sensíveis» (ZUS) e a expressões musicais como o hip-hop ou o drill.

    Nas últimas semanas, contudo, um dos documentos oficiais que mede a temperatura à «nossa» ordem pública e um dos institutos independentes que a «observa» – um gesto passivo que lhe permite assegurar a sua neutralidade e distanciamento – causaram alguma perplexidade nas redes sociais. O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), obra do Governo, identificou um aumento na «criminalidade grupal» durante o ano de 2021, associando-o às «Zonas Urbanas Sensíveis» (ZUS) e a expressões musicais como o hip-hop ou o drill. Jorge Bacelar Gouveia, «observador» independente, enquanto actual Presidente do Conselho Directivo do Observatório sobre Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), deu visibilidade ao diagnóstico na comunicação social, referindo uma «nova cultura hip-hop» por trás desse crescimento da «delinquência» colectiva. A surpresa que estas declarações causaram é injusta. Afinal de contas, constituem um exercício recorrente que serve a identificação e criação dos «nossos» inimigos internos. E os alvos nem mudam muito: expressões artísticas e culturais «marginais», populações que habitam em territórios periféricos («zonas sensíveis»), populações racializadas, culturas políticas que desafiam a norma (nesse relatórios, há sempre umas linhas que assumem despudoradamente vigilância política sobre «anarquistas» e «autónomos»).

    O hip-hop é, desde sempre, um desses fenómenos identificados como fonte de variadas perturbações da ordem pública e ameaças à «nossa» segurança colectiva. No início, a ameaça era o hip-hop como um todo. Depois veio o Grime. Hoje é o Drill. Na impossibilidade de conter a crescente popularidade do hip-hop, foram-se criando cordões sanitários dentro do próprio estilo, separando as expressões «boas» das expressões «más». Em Inglaterra, o surgimento do Grime nos bairros sociais londrinos, no início da década de 2000, fez soar os alarmes (sempre pela mesma razão: relacionando o estilo e o aumento da criminalidade violenta) e os debates sucederam-se, criaram-se comissões políticas e task forces, entre elas a absurda e famosa Respect Agenda, promovida por Tony Blair como o remédio para salvar o país da decadência dos costumes e dos valores. O problema, como o próprio Blair afirmava, nada tinha que ver com a pobreza, nem com devastação de imensas zonas do território londrino pela especulação imobiliária e pela alta finança. As postcode wars, como eram conhecidas, e que também o Drill reproduz como forma de afirmação identitária e criação de rivalidades territoriais, em nada se relacionava, obviamente, com o crescente isolamento e restrição do acesso de determinadas populações à cidade. Era tudo uma questão de «bons costumes» e «boas maneiras». A culpa da pobreza e do isolamento que afectava essas comunidades era fruto das letras e da estética do estilo, sempre a verbalizar beef’s entre gangs e tão inventivos a criar variações da palavra «facadas» quanto os esquimós o foram com a palavra «neve» (a comparação é de Dan Hancox, o autor da melhor história do Grime, “Inner City Pressure”).

    Magicamente, palavras como «pobreza», «desigualdade» ou mesmo «racismo» não aparecem nas 338 páginas do RASI.

    O propósito é evidente: profiling e targeting das populações que habitam as ditas ZUS, situando, através de uma lógica perversa, a origem de qualquer «problema» nesses hábitos peculiares – como fazer música – e nas vivências de certas camadas populacionais, geralmente minoritárias. Magicamente, palavras como «pobreza», «desigualdade» ou mesmo «racismo» não aparecem nas 338 páginas do RASI (para ser rigoroso, «racismo» aparece em referência a eventos desportivos e não como causa de nada). Tal como em Inglaterra, o «problema» resulta, certamente, dos costumes pervertidos e do mau-feitio de quem os pratica. O resultado, neste caso, é a reprodução de estigmas raciais e a justificação da violência policial, da vigilância e da segregação territorial alimentada pelo mercado e por políticas públicas. O Drill até pode ter uma carga niilista inédita no género (mas não no campo musical; porém, nem uma linha sobre Black Metal, por exemplo) e, em alguns casos, a violência que descreve pode muito bem ir além da mera dimensão performativa. Mas só uma miopia pouco inocente permite apontar que estas expressões são a causa e não uma representação da violência quotidiana com que coabitam. É a forma mais conveniente de evitar pegar nos problemas pela raiz. O rapper Ice Cube, há uns anos, em resposta a quem o acusava de ser responsável pela corrupção moral da juventude, dizia que If I’m more of an influence on your son as a rapper than you are as a father, you got to look at yourself as a parent. E é precisamente para evitar que nos olhemos ao espelho e enfrentemos os problemas pela raiz que esses diagnósticos existem. Na luta do bem contra o mal em que somos convidados a participar, é fundamental isolar a origem dos problemas, identificar os lugares onde se escondem os inimigos e moldar a sua existência espectral para que a ameaça pareça real. Como os monstros debaixo da cama que nos mantêm acordados, mas que vivem, afinal, na nossa imaginação.

     


    Ilustração [em destaque] de  José Smith Vargas.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #35, Setembro|Novembro 2022.

  • Descolonização, Retornados e Descolonialidade

    Descolonização, Retornados e Descolonialidade

     

    “Que a sorte é de quem
    
A terra amou”

    Vitorino

    “Ils sont venus d’abord en explorateurs
    Ensuite en missionnaires
    Après en colonisateurs, puis en coopérants.”
    Tiken Jah Fakoly

    Apesar do tema, que levanta mágoas, suspeitas e animosidade, este texto pretende revolver no período histórico contemporâneo da Descolonização com lucidez, sem cair nas malhas do politicamente correcto nem no maniqueísmo. Para estar em paz com o passado.

    Guerra Colonial

    Em 1961 anos o Portugal salazarista começava a guerra pela manutenção das colónias. Convém escrever que o regime do Estado Novo nunca reconheceu a existência de uma guerra, considerando que os movimentos independentistas eram apenas terroristas e que os territórios não eram colónias, mas províncias e parte integrante de Portugal.
    Nas três frentes de guerra estavam, no terreno oposto ao exército português, o Partido Africano para Independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau (PAIGC) na Guiné, a União do Povos de Angola (UPA) e mais tarde o Movimento de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) em Angola e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) em Moçambique.
    A mobilização massiva de jovens para combaterem em África foi enorme, no início dos anos 70 Portugal era o quarto estado mais militarizado do mundo.
    Apesar dos efectivos militares portugueses serem em maior número face às guerrilhas locais nas três guerras, existia uma superioridade política local e internacional que determinou o curso dos acontecimentos.
    Apesar de alguma ilusão sobre a continuidade da presença portuguesa em África, o império desfez-se após o fim do Estado Novo no 25 de Abril de 1974 e quando as colónias adquiriram a independência.
    Na Guiné, o PAIGC, depois de assassinado Amílcar Cabral, retrocedeu no seu projecto pós-colonial (talvez o mais avançado dos três movimentos de libertação africanos) e grande parte da ex-colónia sucumbiu a uma forte violência de manutenção do novo estado e a uma política de sobrevivência à custa de donativos internacionais.
    Em Angola o MPLA estabeleceu o seu domínio e as diferenças entre as várias facções nacionalistas-tribais levaram a trinta anos de guerra civil.
    Em Moçambique a FRELIMO reclamou o poder político sem passar por uma legitimação eleitoral e na sua direcção autoritária pelo progresso passou a considerar como inimigos a sociedade tradicional camponesa, as organizações religiosas e os antigos funcionários do aparelho colonial. O país também passou pela guerra civil.

    25 de Abril e a Descolonização

    A luta anticolonialista em Portugal foi tardia e apenas nos finais dos sessenta as esquerdas radicais e o PCP, assim como os movimentos que deram origem ao PS, assumiram uma atitude de entregar a independência aos povos que viviam nas colónias.
    O lado trágico, negreiro e explorador dos descobrimentos, calado em Portugal, já se escutava na comunidade internacional e influenciou a juventude que era obrigada ao serviço militar, tanto por via das esquerdas como até pelo catolicismo.
    No dia 25 de Abril de 1974 através do Movimento das Forças Armadas (MFA), levantou-se um período revolucionário que transformou o Estado e a sociedade portuguesa. Era fundamental para Portugal que existisse um cessar-fogo, um ponto final na guerra.
    Num consenso pela descolonização, por parte das forças políticas que alcançaram o poder nesse período, ela foi considerada “exemplar”. A sua gestão, manifestada num dos 3 D’s (Democratizar, Descolonizar e Desenvolver), coube ao MFA, com apoio dos principais partidos políticos.
    Entretanto, o império significava para a maioria dos portugueses um ideal, não um local real e as organizações políticas não tiveram capacidade de promover ligações com as populações dos países que estavam destinados a ser independentes.
    O custo da descolonização mais visível foi o êxodo duma parte da população do ultramar, calcula-se que entre 1974 e 1979 entre 500 000 e 800 000 colonos portugueses abandonaram as suas residências em África, a maioria deslocando-se para Portugal (60% haviam nele nascido) mas também para a África do Sul, Venezuela e Brasil.
    O repatriamento de população residente nas colónias foi comum a vários países europeus (França, Reino Unido, Itália, Bélgica e Holanda), a originalidade portuguesa foi o reduzido espaço temporal em que aconteceu.
    Algumas razões do êxodo português foram a insegurança e a violência, a falta de bens essenciais, o medo da vingança por parte dos novos detentores do poder e uma situação política que dificultava a criação dos próprios partidos. Os estrangeiros residentes nas ex-colónias também foram aconselhados a abandonar esses países.
    Para o regresso, o meio utilizado em larga escala foi o avião, com a criação de uma ponte aérea entre as antigas colónias e Portugal.

    Tropas portuguesas abandonam quartel português no Norte de Angola. Foto de Luís Vasconcelos|Jornal Público.

    IARN
    O Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, criado em Março de 1975 e extinto em 1981, levou a que denominassem de Retornados a grande massa de desalojados, regressados, repatriados, fugitivos, deslocados e refugiados que chegavam a Portugal continental e ilhas.
    Em instâncias internacionais Aga Khan (Comissário da Agência das Nações Unidas para Refugiados) considerou que, como a maioria dos retornados possuíam nacionalidade portuguesa não eram refugiados.

    Integração
    No período 1974-79 Portugal passava por uma precária situação económica com problemas de habitação, emprego, saúde e ensino, onde também os militares desmobilizados se queixavam de falta de emprego.
    Com algum sentimento de discriminação, a viver de forma precária na sociedade de acolhimento e com dificuldades em obter vínculos legais, os antigos colonos agitaram o país. Refira-se que cerca de 20 000 africanos de cor tiveram ainda mais dificuldade em serem aceites como cidadãos portugueses apesar de provirem do mesmo império colapsado.
    O regresso dramático levou à ocupação de casas e bairros e à intervenção da Cruz Vermelha Portuguesa assim como de organizações humanitárias internacionais, também se criaram Associações para o problema dos espoliados das colónias, actualmente existindo tais organizações desde os anos ’80.
    Passada a crise humanitária da chegada, os regressados fixaram-se nas localidades donde provinham e nas principais cidades de Portugal. Consistiam numa população jovem (63% tinham menos de 40 anos) e detinham qualificações superiores à média portuguesa.
    Salienta-se que os retornados não se constituíram como uma força de reivindicação política ou como um movimento de afirmação de uma identidade distintiva e participaram, por vontade própria ou por resignação, num processo de ocultação, omitindo o seu percurso e a sua condição quer do espaço público, quer do espaço das suas sociabilidades quotidianas, apontando-se as razões da vergonha, pois Portugal refundava-se num ideário anticolonial e da perda (dos seus bens, da casa, da terra), assim como a sociedade portuguesa procurava esquecer o passado. Tudo resultou num silêncio, a chamada fractura colonial.
    O rótulo de retornado como que conferiu à população descolonizada o peso de 500 anos de descobrimentos nas suas vertentes de esclavagismo e opressão e passou pela identificação dos seus sujeitos como colonialistas, racistas e fascistas. Apesar dum grupo social precarizado e frustrado pelo desleixo da política, não se verificou o apoio a movimentos políticos saudosistas do anterior regime, embora por intermédio de blogs e Facebook se notem mágoas e insultos aos políticos responsáveis pelo 25 de Abril.

    Descolonialidade

    Os processos de colonização europeus impuseram, pela destruição, exclusão, silenciamento e violência uma única geopolítica do conhecimento. A descolonização apenas significou a independência política formal dos estados colonizados.
    O futuro do Ocidente de expansão planetária, de que Portugal fez parte desde o início, está estreitamente ligado ao mundo não-ocidental, a quem a modernidade europeia deve muito do seu esplendor e riqueza.
    Os actuais fenómenos migratórios entre os, agora independentes, territórios coloniais e as suas metrópoles relacionam-se numa partilha e disputa de pós-memórias. Inscrevem-se neste tempo uma geração de artistas, intelectuais e activistas que se considera estarem “em trânsito” por uma transnacionalidade e uma consciência composta pela vivência na Europa e as suas origens coloniais, por vezes apenas familiares.
    Ao recurso de narrar a História desde uma mitologia universalista, tanto a cultura como a política descolonial remexem actualmente pelo avesso da história combatendo os projetos de cristianização, colonização, civilização, modernização e desenvolvimento que configuraram as relações entre a Europa e suas colônias em termos de uma oposição nítida entre um Ocidente superior e seus outros inferiores
    Através da mobilidade transcontinental e a difusão da informação e conhecimento pela internet, as identidades coletivas (re)constroem-se de formas inéditas através de uma articulação complexa de fontes de identificação ainda típicas, tais como a religião, territorialidade, raça, classe, etnicidade, género e nacionalidade, porém condicionadas por discursos universais de direitos humanos, leis internacionais, ecologia, feminismo, direitos culturais e outros meios de fazer respeitar as diferenças dentro da igualdade.
    As diásporas pós-modernas colocam o estado-nação não como um local cultural homogéneo, mas plural, com uma localização subjetiva instrumental. Esbate-se a presença de exílios identitários e, simultaneamente, pátrios, pois a impossibilidade de identificação, quer com uma narrativa subjetiva que seja coerente, quer com uma pátria, evoca os hibridismos e intercâmbios culturais que sempre existiram e se prolongaram até ao presente pós-colonial.
    Em Portugal, existe o conceito estatal da Lusofonia, que (consciente ou inconsciente) pode restabelecer a ideia da centralidade portuguesa; a reconstrução de narrativas do antigo império, o luso-tropicalismo e a ideia de colonização doce ou a narrativa de uma história do ressentimento.
    Com a globalização, sofremos a vigência dum pensamento único, monocultural e que impõe a todos os povos e culturas um destino para a vida, para o mundo, para a educação e para as sociedades em geral. A descolonialidade remete para um espaço crítico complexo e perturbado, onde as rupturas se misturam com as continuidades, formando um objeto de difícil interpretação. No entanto, não se pode negar a sua existência nem a do fim do último Império Europeu, em direcção a um futuro no qual todos os seres humanos possam ocupar um lugar digno num planeta que todos compartilhamos provisoriamente.

     


    Texto de Noé Alves [noe.alves1@gmail.com]

    Fotografia [em destaque] de https://alicenews.ces.uc.pt/index.php?lang=1&id=30328.
    Legenda:A remoção da estátua de Mouzinho de Albuquerque, pouco antes da independência de Moçambique, em junho de 1975″.

  • Uma paisagem em transformação

    Uma paisagem em transformação

    Uma fotografia das novas e velhas feridas abertas do Alentejo

    André Paxiuta deparou-se com a acelerada transformação da paisagem alentejana pela primeira vez enquanto guia de natureza no litoral alentejano. A fotografia acompanhou desde muito cedo a vida deste geógrafo de formação, hoje com 38 anos de idade. Daí nasceria o projeto de ensaio fotográfico Oil Dorado, que testemunha as transformações da agricultura intensiva no sul de Portugal. Este acabou por se centrar na expansão agroindustrial do olival do interior alentejano do Baixo Alentejo, menos mediatizado do que as estufas do litoral, com o propósito de proceder ao retrato ambiental e social da indústria do azeite em Portugal, centrado na degradação sem precedentes da paisagem, na poluição de recursos naturais e no contexto de escravatura moderna que afeta milhares de trabalhadores migrantes que trabalham nos campos do Alentejo.


    Um crowdfunding foi agora lançado para possibilitar a edição em livro com data de lançamento prevista para Fevereiro de 2022. Livro em capa dura de 200 páginas, contendo 90 fotografias e contributos escritos em português e inglês de Pedro Horta do Movimento Alentejo Vivo, Fátima Mourão e Rosa Dimas da aldeia das Fortes, Alberto Matos da Solidariedade Imigrante de Beja e Tumbul Kamara, migrante que relata o seu percurso do litoral da Gâmbia a Beja. Coube ao autor destas linhas contribuir com o texto inicial, resultado do cruzamento, ao longo destes 4 anos (2017-2020), de André Paxiuta com o Jornal MAPA e das conversas tidas à volta do «território prometido do Alqueva».


    Voltámos a falar com o fotógrafo André Paxiuta, sobre o culminar destes anos de trabalho fotográfico que documentou a mutação silenciosa gerada pela corrida ao “Oil Dorado”…

    ©Apaxiuta_OilDorado

     

    Filipe Nunes: Que objectivos tinha este projecto e que novas metas eventualmente lhe acrescentaste no seu decorrer?

    André Paxiuta: O objectivo inicial foi documentar a transformação do território. Mas, com o avançar do trabalho, rapidamente me apercebi da complexidade dos processos e da sua inter-relação. Ficou nesse momento clara a necessidade de tocar as diversas consequências ambientais e sociais que se desenvolvem a partir da permissividade instalada de exploração industrial da paisagem.   

    FN: De quatro anos a percorrer o Alentejo em torno de uma paisagem em acelerada transformação, resultou um retrato ambiental e social da paisagem. Por que motivo as questões ambientais da terra (degradação solos, perda de biodiversidade, etc.) não puderam ser separadas, enquanto processos de luta, das questões sociais da terra (a posse da terra, quem nela manda e quem e como a trabalha)? 

    AP: Quando falamos de abordagens megalómanas de transformação territorial, como é o caso do Alqueva e da agroindustrialização que se seguiu, encontramos por norma a elas associadas uma linguagem profética de revolução regional, que coloca os procedimentos adoptados como a panaceia para todos os problemas do mundo rural.  No espectro das relações de causa-efeito que se seguiram, basta percorrer os 50 kms de estrada entre Ferreira do Alentejo e Serpa para, com uma ou duas paragens obrigatórias, perceber a dissonância entre a profecia e a realidade experimentada no terreno. Esta noção ganha particular importância quando reconhecemos que a raiz de muitas das feridas abertas ao longo da história do Alentejo partilha o mesmo solo que as problemáticas a que hoje se assiste, ambas instaladas num regime de propriedade ainda fortemente concentrado.  Não há, por esse motivo, espaço para a dissociação de fenómenos. Falar do Alentejo e de agricultura é falar de posse da terra e dos impactos que sucedem dos modelos implementados.

    ©Apaxiuta_OilDorado

    FN: Nas fotografias de Oil Dorado há uma forte presença humana, de quem sofre as consequências deste modelo económico monocultural do azeite. Adivinhado por entre o semblante das sombras de uma das fotos, teríamos o rosto de quem negoceia e explora essas vidas. Mas, por entre esses actores opostos, talvez possamos enquadrar o cenário numa multitude de pessoas em silêncio. Quem aqui é enraizado, aqui nasceu ou vive, e percorre o dia-a-dia com uma indiferença difícil de explicar, como que afastado de uma questão que lhes diz respeito, julgando-a uma mera disputa entre ambientalistas, associações de migrantes, donos dos olivais e o governo público. Tive já ocasião de comentar contigo esta impressão em os «Olhares de Catarina». Da tua parte, o que te suscita?

    AP: Vivemos tempos de polarização e não esperava encontrar nesta temática algo de diferente. Mas penso que esta dualidade de compromisso perante a realidade experimentada tem origem na sensibilidade, nos laços que cada interveniente possui com o território. No essencial, esta dinâmica explica-se pela apropriação do território por agentes externos, cuja preocupação assenta na maximização a curto prazo da produção, ao serviço de uma visão mercantilista da agricultura. Os restantes intervenientes, levados pela sede de uma terra produtiva e pela maravilha da narrativa económica, optam pelo caminho da justificação, da alusão ao bem maior, do compromisso que se exige para atingir os fins esperados. É uma forma de cegueira selectiva. Espanta-me, no entanto, o silêncio e a inércia de muita gente perante casos dramáticos como aquele que se vive nas Fortes… ou nas situações de exploração humana que ocorrem pelo território. 
Mas há igualmente uma dimensão do meu trabalho que me leva a dizer que não acredito que as imagens que recolhi sejam portadoras de uma verdade absoluta. Sinto, no entanto, que estas acarretam uma visão honesta sobre um território que se apregoa renascido, mas em cujas entrelinhas da narrativa económica e tecnológica se encontram feridas antigas por sarar e o acumular de erros que comprometem a aceitação generalizada das visões proféticas que colocam as novas formas de superprodução agrícola no pedestal das soluções para todos os problemas do mundo rural. Isto está a acontecer. O que se segue a partir desta exposição fica na mão do leitor.  

    FN: Considerando que a defesa da paisagem que é lançada em Oil Dorado alerta, mais do que para uma transformação desta, para a perda irreversível de factores naturais e da sua capacidade de regeneração, qual é o olhar sobre a paisagem que mais te magoa veres desaparecer?

    AP: Reporto-me aqui à definição formulada por Orlando Ribeiro na sua obra Portugal, Mediterrâneo e Atlântico, em que refere que «a paisagem é um produto do passado». Ao longo destes quatro anos fui levado a questionar esta afirmação. Assistimos a uma implementação cumulativa de processos transformativos do território, inicialmente agrícolas e agora energéticos, como a febre do fotovoltaico, que empurram a paisagem como a conhecemos, a biodiversidade e o património cultural, para o plano do esquecimento e da memória, eliminando as ligações visíveis e sensoriais à realidade que a precedeu. Neste processo, sinto que, sem necessidade, delegamos de forma consciente à história, à antropologia e, em circunstância última, à arqueologia, o papel futuro de reconstruir o que não soubemos valorizar e proteger. 
Questiono-me aqui que tipo de paisagem queremos preservar e criar. E a imagem que retenho e que melhor responde a esta questão é aquela que captei na praia de Cinco Reis. Em Cinco Reis, um dique separa a praia fluvial do imenso olival intensivo que se estende em todas as direcções. Este é apenas visível para quem chega ou abandona o local. Famílias, amigos, turistas, trabalhadores rurais reúnem-se junto à água para fugir ao calor de Agosto. Temos aqui o culminar do processo de transformação a que assistimos na região. A reboque do regadio, reformulou-se o paradigma agrícola. Criam-se, agora, paisagens artificiais ao serviço do povo, apelando a uma re-apropriação da paisagem e a uma renovação do vínculo com o território industrializado. Envolta numa redoma recreativa, Cinco Reis desenha um novo conceito de paisagem onde a cultura que lhe deu propósito fica, estrategicamente, ocultada. Não há, aqui, neste modelo, sequer espaço para o orgulho pelas paisagens que se criam.

    Apaxiuta_Oildorado


    Fotografias de André Paxiuta


    #Alentejo #fotografia #AndréPaxiuta #paisagemalentejana #transformação #azeite #indústriadoazeite #OilDorado #livro #territórios #crowdfunding

     

  • Povos indígenas do Mexico junto com populações do Barroso contra as minas

    Povos indígenas do Mexico junto com populações do Barroso contra as minas

    Após uma semana de encontros na região de Barroso entre uma dúzia de pessoas de diferentes povos indígenas do México – no âmbito da Caravana Zapatista pela Vida – e os movimentos anti-mineração do Barroso, terá lugar este sábado,13 de Novembro, às 16h em frente à Câmara Municipal de Boticas, um acto público sob o mote “Não às Minas! Sim à Vida”. Está agenda em seguida uma conferência de imprensa com a presença de vários movimentos contra a mineração e do Congresso Nacional Indígena.

    Ao longo da semana que passou as/os zapatistas puderam testemunhar da parte das populações do Barroso o seu modo de vida, as práticas ancestrais de agricultura e pastoreio e as lutas em curso contra os diferentes projectos mineiros com que querem destruir a nossa região.

    O movimento Zapatista é formado por camponeses e indígenas mexicanos que defendem uma gestão mais democrática do território e o respeito pelos seus hábitos e tradições. Durante os últimos 30 anos, desenvolveram um sistema de auto-governo e autonomia em que o poder reside nas comunidades.

    Além das zapatistas, faz parte desta Viagem pela Vida também uma delegação do Congresso Nacional Indígena, que agrupa cerca de meia centena de povos originários do México. A “Viagem pela Vida” tem como objetivo partilhar a sua experiência numa luta por autonomia contra a agressão ao meio ambiente, ao seu território e às suas comunidades. O Congresso Nacional Indígena tem dado voz às lutas indígenas contra projectos mineiros, mega-projectos turísticos, como o Tren Maya, ou o “Proyecto Integral Morelos” que, em nome das supostas “energias verdes”, ameaça com a destruição de territórios onde, conforme referem os povos indígenas, «hoje há natureza, há cultura, há vida».

     

     


    #zapatistas #territórios #CongressoNacionalIndígena #ViagempelaVida #mineração #Barroso

     

  • Manifestação contra a narrativa do Green Mining a 5 de Maio em Lisboa

    Manifestação contra a narrativa do Green Mining a 5 de Maio em Lisboa

    Várias associações e movimentos de territórios que são alvo da «febre mineira» [ref]Associação Montalegre Com Vida; Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso;
    Corema – Associação de Defesa do Património | Movimento de Defesa do Ambiente e Património do Alto Minho; Em Defesa da Serra da Peneda e do Soajo; Movimento Minas Não; Movimento ContraMineração Beira Serra; Movimento Contramineração Sátão e Penalva; Movimento Estrela Viva; Movimento Não às Minas – Montalegre; Movimento SOS Serra d’Arga; PNB – Povo e Natureza do Barroso; SOS – Serra da Cabreira – BASTÕES ao ALTO!!; SOS Terras do Cávado; Fundação Montescola.[/ref] vão manifestar-se em Lisboa, no próximo dia 5 de Maio, a partir das 11h, junto ao Centro Cultural de Belém, para repudiar a narrativa «verde» que serve de mote à Conferência Europeia sobre Green Mining que aí decorre nesse dia no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia (UE). Na véspera, a 4 de Maio, o Jornal MAPA, em conjunto com a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, promove uma conversa com elementos desses movimentos sob o tema «Qual é a cor das minas aos olhos de quem lá vive?». E, ainda antes, no dia 1 de Maio, na Disgraça, há uma outra conversa, organizada pela Agenda virtual de luta contra as minas na Península Ibérica. Mais a norte, na Galiza, de 2 a 9 de Maio, a Contraminacción, rede contra a minaría destrutiva de Galiza organiza o seu 5º Encontro sobre os impactos da mineração.

    «Aproveitando a ocasião da Conferência Europeia sobre Green Mining, que se realiza em Lisboa no próximo dia 5 de Maio e conta com a presença dos ministros do ambiente da zona Euro, os movimentos cívicos anti-mineração portugueses, juntamente com alguns parceiros estrangeiros, irão manifestar-se à porta do evento, junto ao Centro Cultural de Belém, às 11h, para mais uma vez declarar a sua oposição ao projecto de fomento mineiro do governo português». Eis o que se pode ler no comunicado que os grupos organizadores enviaram à imprensa a anunciar a manifestação em que pretendem alertar para a falácia que é a mineração verde, ou green mining», que, para estes colectivos, é apenas «uma outra forma de extractivismo e poluição, com consequências dramáticas para os territórios afectados, sobretudo a destruição do ambiente e dos recursos indispensáveis à vida e ao futuro das gerações vindouras».

    Para enquadrar a manifestação, as associações e movimentos organizadores lançaram um Manifesto de repúdio à narrativa Green Mining, onde afirmam que a própria opção pelo método de mineração a céu aberto demonstra que a exploração «é impulsionada por proporcionar menores custos e maiores lucros» e não por qualquer preocupação ambiental ou social. O Manifesto começa por analisar o quadro político em que a febre do minério se dá, ou seja, o momento em que, depois da «crise económica de 2008, a Europa [se] viu confrontada com a necessidade de se aprovisionar de matérias-primas que designou críticas, antecipando circunstâncias geopolíticas e financeiras que pudessem obstaculizar o acesso aos seus fornecedores habituais». Ao mesmo tempo, perante a necessidade de combater as alterações climáticas, «a Europa traçou planos e objectivos de descarbonização alicerçados na substituição dos veículos com motores de combustão por veículos eléctricos (assumindo neste âmbito um compromisso com a indústria automóvel)». Em consequência, e ao invés de dar prioridade à redução do parque automóvel e à substituição do transporte individual pelo transporte colectivo, a UE «passou a afirmar a necessidade de desenvolver a produção de baterias, cujos componentes são, na sua generalidade, obtidos pelo recurso à mineração».

    Para os signatários, estamos «perante um grave conflito entre Ecologia e Economia, uma vez que atingir um objetivo aparentemente benéfico para o Ambiente, assente numa eventual redução dos gases de efeito de estufa, passa por exigir o sacrifício de vastas áreas perdidas para a mineração. Uma verdadeira Economia, com uma gestão adequada do planeta e dos seus recursos finitos, deveria sempre ser ecologicamente sustentável, o que é incompatível com a indústria extractiva massiva».

    minasOs promotores desse extractivismo são, assim, acusados de desenvolver «a narrativa do Green Mining» para ultrapassar a dificuldade de «obter aprovação da sociedade e das populações directamente afectadas» e também como forma de escamotear que «a mineração nunca é sustentável, uma vez que os recursos minerais não são renováveis». Para reforçar o seu ponto de vista, expõem detalhadamente uma quantidade de dados, entre os quais alguns relacionados com a perda de biodiversidade, a diminuição da área fértil, a «alteração, que pode ser permanente, do funcionamento hidrogeológico do subsolo», os «incalculáveis consumos de energia das operações de extracção, lavagem, concentração e transporte dos minérios», as possibilidades de reacções químicas que produzam ácido sulfúrico ou poluição radioactiva ou «a impossibilidade de retomar o uso dos terrenos mobilizados».

    minasFinalmente, para além de notarem que «a participação cívica (…) é sistematicamente reduzida a consultas multi-stakeholder ou outros protocolos não vinculativos com as comunidades afectadas», os movimentos signatários «exigem a abolição do eufemismo Green Mining e do marketing Green Washing associado, e o acesso à informação verdadeira, clara e transparente que urge sobre as operações de fomento mineiro que envolvem Portugal e a União Europeia. Perspectivando o futuro, exigimos a adopção de um modelo de desenvolvimento que se afirme como intrinsecamente sustentável, assente na valorização do território, na preservação do ambiente e no papel activo da cidadania, factores promotores da qualidade de vida, do bem-estar social e do respeito pelos valores naturais, patrimoniais e culturais enquanto elementos de manutenção e construção da sociedade que pretendemos delegar para as gerações vindouras. A mineração nunca é verde!»