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  • Refugiados na Líbia organizam um crowdfunding para ajudar à sua sobrevivência e à sua luta

    Refugiados na Líbia organizam um crowdfunding para ajudar à sua sobrevivência e à sua luta

    «Estamos expostos a raptos, ataques de milícias e extorsão», afirmou um manifestante depois de o ACNUR fechar o seu centro de dia comunitário em Tripoli.

    Um grupo de cerca de 1600 pessoas tem-se manifestado diariamente à porta do centro de dia comunitário (CDC) da agência das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR), em Tripoli, ao longo dos últimos três meses, exigindo ser enviadas para um local seguro, conforme fomos dando conta aqui, aqui, aqui e aqui.

    Os refugiados que estão acampados no centro da capital da Líbia lançaram agora uma campanha de crowdfunding para angariação de fundos para medicamentos, comida e abrigo e para ajudar a cobrir os custos do seu protesto prolongado.

    «Estamos a angariar fundos para ajudar a combater a nossa situação angustiante», disse Yambio David Oliver, originário do Sudão do Sul e porta-voz dos Refugees In Libya – assim são conhecidos enquanto grupo.

    «Precisamos de medicamentos e comida. Precisamos de comprar faixas e tinta. Precisamos de pagar a renda e encontrar abrigo e muitas outras coisas», acrescentou em entrevista ao site The Civil Fleet. Também para manter o mundo a par da situação, para aspirar a receber maior solidariedade, é preciso dinheiro: «dados [móveis], apoio técnico, material eléctrico».

    De acordo com Yambio Olivier, neste último mês, as coisas pioraram no local. «Alguns dos nossos activistas foram raptados por forças de segurança diferentes, várias milícias», afirmou. «Há alguns dias», continuou, «o ACNUR começou a desmontar o seu CDC, à porta do qual temos estado acampados, e a colocar as suas instalações em várias localizações, o que aumenta o nosso sofrimento. Estamos expostos a raptos, ataques de milícias e extorsão.

    Corremos mesmo o risco de sermos despejados à força do local em que estamos. O ACNUR reuniu uma lista dos manifestantes no dia 22 de Dezembro do ano passado e prometeu-nos assistência monetária, kits de higiene, comida, sacos plásticos e intervenções médicas. Mas, até agora [6 de Janeiro], nada disso foi feito. O nosso desespero continua a aumentar para um nível insuportável de solidão e angústia, quando olhamos para os nossos futuros. A comunidade internacional mantém-se calada à medida que os nossos apelos para que sejamos evacuados para local seguro sobem de tom».

    Podes contribuir no crowdfunding aqui: gofundme.com/f/solidarityrefugeesinlibya

     


    Fotografia [em destaque] de  Yambio David Oliver
, retirada de https://thecivilfleet.wordpress.com/


    #ACNUR #Tripoli #crowdfunding #solidariedade #refugiados #líbia #fronteiras #migraçōes

     

  • Uma paisagem em transformação

    Uma paisagem em transformação

    Uma fotografia das novas e velhas feridas abertas do Alentejo

    André Paxiuta deparou-se com a acelerada transformação da paisagem alentejana pela primeira vez enquanto guia de natureza no litoral alentejano. A fotografia acompanhou desde muito cedo a vida deste geógrafo de formação, hoje com 38 anos de idade. Daí nasceria o projeto de ensaio fotográfico Oil Dorado, que testemunha as transformações da agricultura intensiva no sul de Portugal. Este acabou por se centrar na expansão agroindustrial do olival do interior alentejano do Baixo Alentejo, menos mediatizado do que as estufas do litoral, com o propósito de proceder ao retrato ambiental e social da indústria do azeite em Portugal, centrado na degradação sem precedentes da paisagem, na poluição de recursos naturais e no contexto de escravatura moderna que afeta milhares de trabalhadores migrantes que trabalham nos campos do Alentejo.


    Um crowdfunding foi agora lançado para possibilitar a edição em livro com data de lançamento prevista para Fevereiro de 2022. Livro em capa dura de 200 páginas, contendo 90 fotografias e contributos escritos em português e inglês de Pedro Horta do Movimento Alentejo Vivo, Fátima Mourão e Rosa Dimas da aldeia das Fortes, Alberto Matos da Solidariedade Imigrante de Beja e Tumbul Kamara, migrante que relata o seu percurso do litoral da Gâmbia a Beja. Coube ao autor destas linhas contribuir com o texto inicial, resultado do cruzamento, ao longo destes 4 anos (2017-2020), de André Paxiuta com o Jornal MAPA e das conversas tidas à volta do «território prometido do Alqueva».


    Voltámos a falar com o fotógrafo André Paxiuta, sobre o culminar destes anos de trabalho fotográfico que documentou a mutação silenciosa gerada pela corrida ao “Oil Dorado”…

    ©Apaxiuta_OilDorado

     

    Filipe Nunes: Que objectivos tinha este projecto e que novas metas eventualmente lhe acrescentaste no seu decorrer?

    André Paxiuta: O objectivo inicial foi documentar a transformação do território. Mas, com o avançar do trabalho, rapidamente me apercebi da complexidade dos processos e da sua inter-relação. Ficou nesse momento clara a necessidade de tocar as diversas consequências ambientais e sociais que se desenvolvem a partir da permissividade instalada de exploração industrial da paisagem.   

    FN: De quatro anos a percorrer o Alentejo em torno de uma paisagem em acelerada transformação, resultou um retrato ambiental e social da paisagem. Por que motivo as questões ambientais da terra (degradação solos, perda de biodiversidade, etc.) não puderam ser separadas, enquanto processos de luta, das questões sociais da terra (a posse da terra, quem nela manda e quem e como a trabalha)? 

    AP: Quando falamos de abordagens megalómanas de transformação territorial, como é o caso do Alqueva e da agroindustrialização que se seguiu, encontramos por norma a elas associadas uma linguagem profética de revolução regional, que coloca os procedimentos adoptados como a panaceia para todos os problemas do mundo rural.  No espectro das relações de causa-efeito que se seguiram, basta percorrer os 50 kms de estrada entre Ferreira do Alentejo e Serpa para, com uma ou duas paragens obrigatórias, perceber a dissonância entre a profecia e a realidade experimentada no terreno. Esta noção ganha particular importância quando reconhecemos que a raiz de muitas das feridas abertas ao longo da história do Alentejo partilha o mesmo solo que as problemáticas a que hoje se assiste, ambas instaladas num regime de propriedade ainda fortemente concentrado.  Não há, por esse motivo, espaço para a dissociação de fenómenos. Falar do Alentejo e de agricultura é falar de posse da terra e dos impactos que sucedem dos modelos implementados.

    ©Apaxiuta_OilDorado

    FN: Nas fotografias de Oil Dorado há uma forte presença humana, de quem sofre as consequências deste modelo económico monocultural do azeite. Adivinhado por entre o semblante das sombras de uma das fotos, teríamos o rosto de quem negoceia e explora essas vidas. Mas, por entre esses actores opostos, talvez possamos enquadrar o cenário numa multitude de pessoas em silêncio. Quem aqui é enraizado, aqui nasceu ou vive, e percorre o dia-a-dia com uma indiferença difícil de explicar, como que afastado de uma questão que lhes diz respeito, julgando-a uma mera disputa entre ambientalistas, associações de migrantes, donos dos olivais e o governo público. Tive já ocasião de comentar contigo esta impressão em os «Olhares de Catarina». Da tua parte, o que te suscita?

    AP: Vivemos tempos de polarização e não esperava encontrar nesta temática algo de diferente. Mas penso que esta dualidade de compromisso perante a realidade experimentada tem origem na sensibilidade, nos laços que cada interveniente possui com o território. No essencial, esta dinâmica explica-se pela apropriação do território por agentes externos, cuja preocupação assenta na maximização a curto prazo da produção, ao serviço de uma visão mercantilista da agricultura. Os restantes intervenientes, levados pela sede de uma terra produtiva e pela maravilha da narrativa económica, optam pelo caminho da justificação, da alusão ao bem maior, do compromisso que se exige para atingir os fins esperados. É uma forma de cegueira selectiva. Espanta-me, no entanto, o silêncio e a inércia de muita gente perante casos dramáticos como aquele que se vive nas Fortes… ou nas situações de exploração humana que ocorrem pelo território. 
Mas há igualmente uma dimensão do meu trabalho que me leva a dizer que não acredito que as imagens que recolhi sejam portadoras de uma verdade absoluta. Sinto, no entanto, que estas acarretam uma visão honesta sobre um território que se apregoa renascido, mas em cujas entrelinhas da narrativa económica e tecnológica se encontram feridas antigas por sarar e o acumular de erros que comprometem a aceitação generalizada das visões proféticas que colocam as novas formas de superprodução agrícola no pedestal das soluções para todos os problemas do mundo rural. Isto está a acontecer. O que se segue a partir desta exposição fica na mão do leitor.  

    FN: Considerando que a defesa da paisagem que é lançada em Oil Dorado alerta, mais do que para uma transformação desta, para a perda irreversível de factores naturais e da sua capacidade de regeneração, qual é o olhar sobre a paisagem que mais te magoa veres desaparecer?

    AP: Reporto-me aqui à definição formulada por Orlando Ribeiro na sua obra Portugal, Mediterrâneo e Atlântico, em que refere que «a paisagem é um produto do passado». Ao longo destes quatro anos fui levado a questionar esta afirmação. Assistimos a uma implementação cumulativa de processos transformativos do território, inicialmente agrícolas e agora energéticos, como a febre do fotovoltaico, que empurram a paisagem como a conhecemos, a biodiversidade e o património cultural, para o plano do esquecimento e da memória, eliminando as ligações visíveis e sensoriais à realidade que a precedeu. Neste processo, sinto que, sem necessidade, delegamos de forma consciente à história, à antropologia e, em circunstância última, à arqueologia, o papel futuro de reconstruir o que não soubemos valorizar e proteger. 
Questiono-me aqui que tipo de paisagem queremos preservar e criar. E a imagem que retenho e que melhor responde a esta questão é aquela que captei na praia de Cinco Reis. Em Cinco Reis, um dique separa a praia fluvial do imenso olival intensivo que se estende em todas as direcções. Este é apenas visível para quem chega ou abandona o local. Famílias, amigos, turistas, trabalhadores rurais reúnem-se junto à água para fugir ao calor de Agosto. Temos aqui o culminar do processo de transformação a que assistimos na região. A reboque do regadio, reformulou-se o paradigma agrícola. Criam-se, agora, paisagens artificiais ao serviço do povo, apelando a uma re-apropriação da paisagem e a uma renovação do vínculo com o território industrializado. Envolta numa redoma recreativa, Cinco Reis desenha um novo conceito de paisagem onde a cultura que lhe deu propósito fica, estrategicamente, ocultada. Não há, aqui, neste modelo, sequer espaço para o orgulho pelas paisagens que se criam.

    Apaxiuta_Oildorado


    Fotografias de André Paxiuta


    #Alentejo #fotografia #AndréPaxiuta #paisagemalentejana #transformação #azeite #indústriadoazeite #OilDorado #livro #territórios #crowdfunding

     

  • Uma história de autogestão no renascer das cinzas

    Uma história de autogestão no renascer das cinzas

    Entre-ajuda e auto-gestão na zona de Benfeita/Arganil. Da forma como uma vibrante e diversa comunidade de pessoas ali instaladas nos últimos anos tem lidado com o incêndio devastador do ultimo verão (ajudadas regulares, crowdfundings colectivos, criação de oficina de ferramentas comunitárias e lojas grátis, jantares populares, etc).

    Benfeita/Arganil

    Os incêndios do outono passado foram a maior catástrofe de que há memória em Luadas e Benfeita, na Serra do Açor. Foram também um convite às suas habitantes – naturais da região e a recém-chegada comunidade internacional – a cuidar da terra e umas das outras.

    Na encosta pintada a cinza, entre o canto ensurdecedor do riacho e dos pássaros, sobressai uma yurt de chaminé fumegante. Em outubro passado, a casa da Mara foi salva por milagre, entre cinco oliveiras em chamas. Agora o fogo limita-se à salamandra, no aconchego interior. «Lutámos até ao fim», lembra a jovem holandesa, que há três anos se instalou aqui em Luadas, no meio da Serra do Açor, região de Arganil.

    Da yurt atravessamos as hortas às quais vem dedicando a vida. Até aos incêndios, era das caixas de legumes vendidas semanalmente que tirava um magro rendimento. Descendo o carreiro de enxada às costas, um octogenário de Luadas saúda Mara carinhosamente. «Tens de dar mel às abelhas!», aconselha, face à penúria de flores. «O Senhor Ângelo adoptou-nos. Ensinou-nos tanto! É a pessoa mais generosa e genuína que já conheci».

    Benfeita/ArganilPelos vales de Benfeita, rompendo um cerco de monoculturas e desertificação, são cerca de 100 adultos e 40 crianças que se instalaram nos últimos anos, procurando uma vida simples e conectada com a natureza. «Há pessoas da Argentina, Japão, Itália, França… Cada um traz a sua energia, a sua cultura, a sua comida, a sua música…  É super colorido», conta Wendy. Mãe solteira com três crianças, trocou em 2010 uma vida de permanentes contas para pagar na Escócia por uma quinta entre Luadas e Benfeita ( permaculturinginportugal.net), onde cultiva a sua comida, experimenta com bioconstrução e energias alternativas. «Foi este lugar que me descobriu a mim. Há uma mistura de estrangeiros e jovens portugueses a regressar ao campo, projectos de permacultura e coisas incríveis a acontecer».

    Em outubro, quase todo este inusitado mundo auto-construido em anos de ardor, feito de yurts e ruínas reconstruídas, pomares e fornos a lenha, esvaneceu-se em cinzas. Vinte e duas famílias perderam a casa. É caída a noite que Mara ousa dar os seus passeios pelo bosque: «Não vês o queimado». Noventa por cento da floresta, incluindo boa parte do oásis de biodiversidade da Mata da Margaça e quase toda a área agrícola, arderam.
    «Mas a natureza vai regenerar-se – e nós vamos ajudá-la». Do tronco chamuscado dos castanheiros, brotam rebentos verdejantes. Da tragédia, germinam as manifestações de solidariedade.
    «O fogo traz o melhor e o pior das pessoas». Mara podia falar durante horas sobre o dia do incêndio. A lutar contra as chamas, a revesar-se para os turnos de vigia, a verter lágrimas nos braços uns dos outros – nunca se vira por cá tal fraternidade entre os naturais desta serra e os estrangeiros recém chegados.
    «Até aos incêndios, entre nós éramos muito bons a organizar festas, mas não muito mais…», riem-se. Foi de resto graças a um dos festivais que Mara aqui chegou. O tipo de organização – voluntária, orgânica, horizontal, entusiasmada – não é diferente da que está a mover o formigueiro do renascimento de Benfeita.

    Benfeita/Arganil

    Com os seus amigos e o apoio das famílias nos países-natal, Mara tem dinamizado uma campanha de crowdfunding internacional. Nos vales, três dias por semana, juntam-se em grupos de trabalho para ir de terreno ardido em terreno ardido, ajudar na limpeza e reconstrução. O crowdfunding paga um salário diário a cada uma. «Apoiando financeiramente quem trabalha nas ajudadas, permitimos às pessoas ficar. Não gosto da ideia de dar simplesmente dinheiro. Assim mantém-nos pro-activos, motiva a entre-ajuda». Noutras ajudadas voluntárias, replantam as encostas ardidas, semeiam flores para as abelhas.

    «Ainda que relativamente poucos de nós tenhamos perdido tudo o que temos, todos nós perdemos a nossa forma de subsistência», explica Wendy. «Claro que ainda precisamos de interagir com o mundo lá fora, pôr combustível, etc. Mas tivemos de descobrir formas de nos apoiarmos uns aos outros sem precisar de dinheiro».
    Uma experiência colectiva que os reaproxima da forma de vida ancestral nestas montanhas isoladas.  «Até chegar a resina e os pinheiros, estas aldeias viviam autónomas, mal participavam na economia do dinheiro. Tudo era feito com cooperação mútua e com base na troca», conta Wendy. «Para quebrar este sistema de que estamos todos a sofrer, precisamos de entrar nessa economia de partilha outra vez e trabalhar juntos», diz a permacultora, que já antes dos incêndios participava num grupo de trabalho de cinco mulheres, onde se desafiavam a fazer projectos de construção. É esse o entusiasmo de habitar nesta comunidade dispersa. «É como viver numa experiência social: estamos no processo de descobrir como fazê-lo».

    Junto ao rio criaram um banco de ferramentas comunitário, com ferramentas chegadas de todo o lado. «Nem toda a gente tem os meios de substituir um gerador, uma moto-serra… Agora temos moto-serras, roçadoras, betoneiras… e as pessoas podem reservá-las pelo tempo que precisarem. É fantástico de ver». Com a caridade que inundou o vale de cobertores e comida enlatada, organizaram lojas grátis. Todos os sábados há um jantar popular, confeccionado com legumes das hortas, e por donativo livre.
    «Não há uma pessoa que diz “tem de ser desta forma”. Não é super-organizado, com pessoas a gerir. Tudo acontece de forma muito orgânica. Juntamo-nos e as pessoas voluntariam-se para trabalhar em conjunto. Não é hierárquico: é cooperativo».

    Um laboratório vivo

    Benfeita/Arganil

    Enquanto Luadas e Benfeita renascem das cinzas, há a noção de que este incêndio foi um grito de alerta para o caminho por onde nos leva o capitalismo predatório e a propriedade privada, a desconexão com a terra, o ciclo da água, a comunidade, a própria vida. «O meu maior medo é que este ecossistema não possa mais regenerar-se, como sempre fez, por haver agora demasiados factores contra: alterações climáticas, verões mais longos e quentes, tempo imprevisível», confessa Mara, logo lembrando a indústria do papel e as monoculturas de eucalipto: «Portugal arde e o resto da Europa está literalmente a limpar o cu com isso».

    Como lhe diz o Senhor Ângelo, não há nenhum corta fogo como a terra cultivada. «Estes campos eram mantidos por centenas de pessoas e rebanhos. Esta paisagem precisa de gente, mais do que qualquer outra coisa, e animais para manter o mato baixo, fertilizar as encostas, trazer de volta a floresta – e a vida», concorda Wendy. «Isto é a cordilheira central. É a reserva de água para Lisboa, para Coimbra. A água está a ir embora. Se isto se tornar um deserto…».

    As aldeias da zona estão de facto a começar a ver problemas com as reservas de água no verão. «As câmaras municipais estão com dificuldades, não têm os recursos, e estão abertas a sugestões», lembra Wendy. «Gostavámos que abrissem mais a conversa, a projetos como Reflorestar Portugal ou Terracrua» [ref] Reflorestar Portugal é uma plataforma para a articulação de iniciativas que querem construir coletivamente um projeto nacional de reflorestação e que tem promovido  cursos e encontros baseados na permacultura, agrofloresta e agricultura sintrópica. A Terracrua tornou-se uma empresa em 2015 depois de ter existido como colectivo informal. Baseada em Loulé, tornou-se uma referência na consultoria e design de projectos ecológicos regenerativos.[/ref].

    Benfeita/Arganil

    Na sua quinta, são quase dez anos de experimentação com infraestruturas off grid: hidroeléctrica construída localmente, estufa geodome em aquoponia, ou um tratamento de dejectos humanos com vermicompostagem. Quando houve um problema com uma fossa séptica do municipio, foi à câmara apresentar a sua solução caseira, invulgar, económica, ecológica e mais bem adaptada ao local que as fossas. «Podiam ter dito: estás a processar esgotos sem licença, toma lá uma multa enorme». Mas como resultado desse encontro foi mesmo aprovado um primeiro tratamento de resíduos com vermicompostagem na aldeia de Pais das Donas.

    O sonho de Wendy é tornar a freguesia de Benfeita numa eco-zona, e experimentar com todo o tipo de tecnologias off grid, formas de cultivo e reflorestação realmente radicais. Um exemplo? «Com a cascata da Fraga da Pena podemos produzir ar comprimido naturalmente. Tem o potencial para fazer funcionar máquinas, refrigeração, até carros…! E aqui há as pessoas com as competências necessárias para o desenvolver: soldadores, engenheiros, electricistas…». Uma área protótipo para estratégias que pudessem ser usadas em toda a serra e noutras áreas. «Tudo o que se faz à água aqui pode ser medido. Se se plantar floresta indígena, se instalarmos vermicompostagem para tratar os esgotos, podemos medir a quantidade e qualidade da água. Não vem de mais lado nenhum, foi gerado e regenerado aqui – o que faz uma área de estudo interessantíssima, um laboratório vivo». A ideia implica envolver universidades para monitorizar e conseguir legitimidade para procurar financiamentos.

    Entretanto, pelas encostas de Benfeita, as castanhas rebolam e pequenos castanheiros e carvalhos brotam como ervas. «É incrível a vontade que estas árvores têm de se reestabelecer!», entusiasma-se Wendy. Como que dizendo que tudo acontecerá tal como deve acontecer.

    Benfeita/Arganil

    Texto de Francisco Colaço Pedro [franciscocolacopedro@gmail.com]

  • Objectivo do Crowdfunding atingido!

    Objectivo do Crowdfunding atingido!

    O Crowdfunding do Jornal Mapa foi um sucesso!

    É com alegria que anunciamos que atingimos e ultrapassámos o objectivo inicial de angariar o suficiente para um 2018 sem sobressaltos financeiros e com novas portas abertas para a manutenção do Mapa nas ruas durante vários anos.

    É também com muito orgulho que vemos que os últimos 5 anos de empenho se concretizaram no impressionante apoio de leitores e colaboradores. De facto, este é um processo colectivo entre a equipa do Jornal MAPA e uma cada vez mais extensa e diversa comunidade que demonstra conseguir, através da solidariedade, garantir a continuidade de um projecto de informação e crítica.

    Como não podia deixar de ser, todo este apoio obriga-nos a redobrada responsabilidade, da qual tentaremos estar à altura, mantendo o Mapa como um jornal de informação crítica, no sentido duplo de urgente e não conformada, um meio de comunicação atento que, partindo duma visão libertária do mundo, olhe para além da sua própria rama e seja espaço para todas as vozes que cantem a resistência e a liberdade.

    Bem hajam. Ir-nos-emos encontrando.

     

  • St. Louis ainda longe da paz

    St. Louis ainda longe da paz

    stluis_violenciapolicialDois meses após a morte de Michael Brown em Ferguson, a polícia de St. Louis volta a matar um adolescente negro desarmado.

     

    Vonderrit Myers Jr, de 18 anos, foi morto após o disparo de 16 tiros por um agente, Sam Dotson, que trabalhava paralelamente como segurança privado (embora estivesse uniformizado), na passada quarta-feira, 8 de Outubro, em Shaw, St. Louis, próximo de Ferguson. Segundo um comunicado da polícia, o agente estaria a fazer uma “rusga pedonal”. Embora o agente afirme que Myers estava armado, várias testemunhas confirmam que o jovem apenas tinha uma sandes na mão. As ruas foram imediatamente tomadas por protestos, tendo a polícia cortado algumas estradas.

    Segundo Jackie Williams, tio de Myers, o jovem estaria a regressar de uma loja após comprar uma sandes quando foi abordado por um segurança que o atingiu com um taser. “Não sei como é que isto aconteceu mas eles alvejaram-no 16 vezes. É pura e simplesmente assassinato”, afirma Jackie Williams. Outra testemunha, Lavel Boyd, declarou ao St. Louis Post-Dispatch ter ouvido vários disparos e, quando parou perto do local, viu o agente por cima de Myers, apontando a arma a quem passasse dizendo para se afastarem.

    Embora seja um caso recente, as semelhanças com o caso de Michael Brown (e tantos outros casos) já se vão acumulando. Tal como aconteceu com Brown, a polícia iniciou imediatamente uma campanha de difamação contra Myers, afirmando que o jovem “não era desconhecido da polícia” e que estava armado, contrariando várias testemunhas no local. Recorde-se que após a morte de Michael Brown, o jovem foi falsamente acusado (num trabalho conjunto entre polícia e média) de ter agredido o agente, assaltado uma loja e, em geral, de “não ser nenhum anjo” (New York Times).

    E tal como Darren Wilson, o agente Sam Dotson foi imediatamente afastado do seu emprego, continuando a receber salário. Embora este afastamento seja na prática umas férias pagas, foi criada uma conta de apoio a Darren Wilson na plataforma de crowdfunding GoFundMe que já recolheu cerca de 433.000$. A GoFundMe foi alvo de várias críticas por se recusar a cancelar a conta, lucrando assim 21.650$ (5%) com o assassinato de um jovem negro.

    Simultaneamente, as autoridades do Missouri, juntamente com o FBI, estão a preparar um plano de contingência para possíveis protestos, caso Darren Wilson não seja acusado pela morte de Michael Brown, conforme noticiado pela Reuters. Desde 20 de Agosto que um júri está a decidir se o agente será ou não acusado, sendo esperada uma decisão no próximo mês. Embora mais calmos, continuam os protestos em Ferguson, exigindo justiça para Michael Brown e para todas as vítimas do racismo policial.

    J.P. Araújo