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Lendo: A temível Red Emma

A temível Red Emma

A temível Red Emma


“Viver a Minha Vida”, a autobiografia de Emma Goldman, acaba de sair pela Antígona . O jornal MAPA falou com o tradutor Luís Leitão à volta da cativante vida e obra desta incontornável anarquista, num conversa conjunta com Pedro Morais, tradutor do “Anarquismo e Outros Ensaios” (Letra Livre e A Batalha,2020) e Laure Batie a tradutora francesa da autobiografia que agora finalmente se encontra disponível em língua portuguesa.


emma
 

Os debates sobre o uso da violência nos meios anticapitalistas e nas lutas sociais não são de agora. A discussão enfrenta a legitimação do monopólio da violência pela ordem estabelecida, o que sustenta a repressão de todas as forças sociais que se lhe oponham. Na atualidade, quanto mais radical um protesto se apresentar, mais rapidamente é associado ao terrorismo. Uma categoria usada recorrentemente e de forma imprecisa para alarmar as pessoas e esvaziar os protestos, criminalizando-os. A distância que vai de um Banco vandalizado a um atentado à vida humana é deliberadamente encurtada.

No final do século xix e inícios do xx, a chamada propaganda pelo ato, associada a atentados bombistas e assassinatos de reis, políticos e patrões, marcou uma época. Mas entre os insurgentes instalou-se igualmente o debate sobre o alcance e a eficácia da propaganda pelo ato, em face de um avassalador tratamento mediático que reduzia qualquer atentado a um acto de violência tresloucada. Revisitar Emma Goldman sobre um dilema que viveu e presenciou continua, portanto, a ser essencial para contextualizar o uso do atentado nessa mesma época. A perseguição de que foi alvo, motivada em parte por acusações de instigação de atos sediciosos, fez com que o seu nome sobressaísse nos então emergentes meios de comunicação sensacionalistas: a temível Red Emma. Todo esse processo, por sua vez, pode ser visto, em retrospetiva, como uma antecâmara do poder demolidor dos media, que manipulam informação para fabricar consenso e medo, segundo Noam Chomsky em A Manipulação dos Media: Os Efeitos Extraordinários da Propaganda (ed. portuguesa, 2003).

O Atentado

É preciso recordar, como nos diz Luís Leitão, que foi «a brutal matança de um punhado de trabalhadores por ocasião de um movimento grevista, em 1892, que levou Alexander Berkman (o companheiro de sempre de Emma Goldman) a cometer um atentado contra a vida de Henry Clay Frick, “patrão da indústria e assassino de operários”. Goldman apoiou-o no seu propósito: “O nosso fim era a causa sagrada dos oprimidos e dos explorados. Era por eles que íamos dar a vida. Mesmo que alguns tivessem de morrer, a maioria seria livre e poderia viver uma vida de beleza e de conforto. Sim, neste caso, o fim justificava os meios”» (Viver a Minha Vida).

Berkman avançou sozinho, o plano falhou e foi condenado a 22 anos de prisão. A análise desse momento, tão lapidar na vida de Emma, leva-a em 1901 a referir que o atentado é um ato «nobre, mas errado».

«Como chegou ela a esta tomada de posição ao mesmo tempo que partilhava e apoiava totalmente a decisão de Alexandre Berkman?», questiona Laure Batier, respondendo simultaneamente que «foi ao analisar a reação dos operários a este atentado que Emma Goldman compreendeu que este ato, que tinha como objetivo original permitir o desenvolvimento da propaganda anarquista, foi visto pelos próprios operários como forma de fazer publicidade ao diretor da siderurgia! Dito doutra forma, os operários interpretaram-no da forma exatamente oposta à pretendida. Uma grotesca inversão da situação! Isso foi, para Emma Goldman, a prova de que os cálculos estavam errados, que este tipo de atos individuais podia ter consequências sociais opostas às que se pretendiam. Foi a partir deste momento que rejeitou clara e firmemente “a propaganda pelo ato”, a violência individual, posição que defendeu nomeadamente no momento do assassinato do presidente americano McKinley, por Leon Czolgosz, em 1901».

não se pode comparar a natureza e o objetivo dos atentados cometidos em nome da ”propaganda pelo ato” com a natureza do terrorismo atual

Essa rejeição não significou, porém, incompreensão relativamente ao ato em si. Sobre Czolgosz, Goldman referiria, como nos cita Luis Leitão de um artigo intitulado «A Tragédia de Buffalo», que «Leon Czolgosz e outros homens como ele não são criaturas depravadas e de baixos instintos, mas, sim, seres hipersensíveis, incapazes de suportar uma tensão social demasiado grande. São levados a expressarem-se violentamente, mesmo com o sacrifício da própria vida, porque não conseguem ser testemunhas passivas da miséria e do sofrimento dos seus semelhantes. Devemos imputar a culpa de tais atos aos responsáveis pela injustiça e desumanidade que dominam o mundo». Para Leitão, «parece resultar daqui que, para ela, não seria o anarquismo enquanto tal que levara a estes atos, mas a sensação de revolta individual por uma sociedade injusta e desumana, não os defendendo propriamente como ações de propaganda.» Por isso, como é frisado por Laure Batier, «perante a repressão estatal, nunca renunciou a defender publicamente estas pessoas».

De ontem para hoje

Para a tradutora francesa, a posição de Goldman (o ato é nobre, mas errado) «mantém toda a sua força nos dias de hoje, ainda que não se possa comparar a natureza e o objetivo dos atentados cometidos em nome da ”propaganda pelo ato” com a natureza do terrorismo atual, termo ainda por cima utilizado pelos poderes de forma imprecisa e que cobre diversas ações, que vão da barbárie religiosa às ações de oposição a projetos destrutivos para o ambiente.»

Efetivamente, analisar os tempos que Emma viveu, sob o olhar contemporâneo de um mundo assolado de ameaças terroristas, não só é abusivo, como resulta de uma deliberada ignorância instalada. Como é sublinhado por Pedro Morais, «parece-me complicado analisar o ”terrorismo” (de tendência religiosa) contemporâneo do ponto de vista do ”terrorismo” (de tendência política) de há cem anos. Até porque os casos apontados não se comparam ao terrorismo de hoje. Tanto o atentado a Henry Clay Frick protagonizado por Alexander Berkman quanto o assassinato de William McKinley às mãos de Leon Czolgosz têm um objetivo pessoal muito específico, pois a finalidade era abater símbolos de poder». «Ainda que em alguns casos possa haver pontos que se tocam, as motivações e as próprias condições socioeconómicas das diferentes épocas são bem distintas. Os atentados anarquistas, tendencialmente chamados de ”propaganda pelo ato”, mas que a mim me parece terem mais que ver com uma noção de irmandade e com o redimir de injustiças através de atos de vingança, são acima de tudo uma resposta a uma violência maior protagonizada pelos detentores do poder político, económico e eclesiástico.» Quanto a «se hoje se justifica a mesma violência? Parece-me que a violência política é proporcional à violência do Estado e das suas forças de repressão. É óbvio que hoje, pelo menos neste nicho que habitamos chamado Europa Ocidental, seria impensável uma chacina estatal. Mas a violência estatal encontra-se sempre latente, apesar de estar mais sofisticada e ser menos explícita, e, nesse sentido, aludindo ao título de um livro de Albert Camus, haverá sempre um “homem revoltado” para lhe dar resposta caso algum dia se volte a manifestar mais concretamente.»

Assombrações

O fantasma dos violentos anarquistas permanece tanto nas bocas de políticos como Trump quanto nas de juízes das democracias europeias (espanhola e italiana à cabeça), assombrando a esfera sociopolítica ao ser mediaticamente alimentado nas redes sociais. À pergunta sobre esse percurso, Laure Batier replica que «ela não tem outra resposta que o próprio curso da história das sociedades, que é o de reprimir todas as forças sociais que se insurgem contra a ordem dominante».

Para Pedro Morais, «Emma Goldman foi de facto demonizada pela comunicação social da época, foi constantemente vilipendiada, julgada na praça pública, a ponto de ter de ocultar o seu nome para sequer poder arrendar um quarto para viver. Principalmente depois da morte do presidente McKinley às mãos de Leon Czolgosz, pois o seu nome apareceu constantemente ao lado do do magnicida, como tendo sido a autora moral do atentado». Mas o certo é que, sublinha, «todas as condenações que sofreu foram somente pelo crime de opinião». E, nesse campo de batalha, «já alguém dizia que a caneta é mais poderosa do que a espada, e a verdade é que essa caneta pode muito bem ser usada por uma pessoa como Emma Goldman, que com o poder da palavra conseguia mobilizar multidões, como pode ser usada, com muito mais poder, pela comunicação social para abater um ou mais alvos, formando opinião pública de acordo com a sua própria agenda política».

a violência política é proporcional à violência do Estado e das suas forças de repressão

Luís Leitão traça um percurso que parece não ter descolado do seu ponto de partida. «Com toda a sua fama de terra da liberdade e da democracia, os EUA passaram ao longo da sua história por períodos negros de repressão, em que os meios de comunicação social e muitos jornalistas tiveram o seu papel, criando um clima de histeria na sociedade. No final do século xixxixxix e início do século xxxx, houve verdadeiras campanhas contra os anarquistas e os comunistas, a que se veio juntar a xenofobia, sob o pretexto de que os agitadores seriam sobretudo imigrantes da Europa, a que se seguiram deportações em massa. A própria Emma Goldman acabaria por ser deportada para a Rússia soviética em 1919. Nos anos 50 do século XX assistir-se-ia às perseguições policiais e judiciais de intimidação, censura e difamação contra os intelectuais acusados de espionagem a favor da União Soviética – durante o período do macarthismo. Neste momento, talvez ainda não abarquemos na sua globalidade as consequências da política da administração Trump, mas aí estão a tentativa de controlo da justiça, a nova/velha xenofobia manifestada na diabolização dos imigrantes, o racismo institucionalizado, o autoritarismo e, last but not least, as inefáveis redes sociais, que vieram tomar o lugar, com êxito acrescido, da imprensa tabloide.»

Para Morais, «atualmente, a força de opinião da comunicação social é ubíqua e ultramanipuladora, por usar constantemente o selo da verdade, autenticado de cada vez que uma notícia vem a publico. E a verdade é que enquanto seres finitos e tendencialmente não críticos da informação que recebemos, assumimos como verdade aquilo que nos é dito quando a própria narração da história (ou das histórias) é unilateral. Ontem o inimigo eram Emma Goldman, os anarquistas e os comunistas, hoje são os anarquistas, os antifascistas, os fundamentalistas ou até mesmo um vírus desprovido de intencionalidade. As narrativas da comunicação social tendem a criar dicotomias, formando linhas de separação entre o que é moralmente aceitável ou não, e assim geram opinião pública e ajudam a moldar a moral dos nossos tempos».

Sobre o fracasso das prisões

Emma Goldman conheceu a prisão em vários momentos da sua vida. Pedro Morais inscreve a sua crítica do sistema prisional «na linha daquela que era normalmente a crítica anarquista das prisões, ou seja, de que são principalmente as desigualdades sociais que promovem a criminalidade e que as prisões servem apenas para punir e não para redimir as pessoas, não sendo solução, mas um meio de reprodução das desigualdades existentes. E que é muitas vezes o espectro da pena que demove as camadas mais baixas de lutarem por melhores condições de vida, que as faz não se rebelarem contra a opressão e a miséria a que normalmente estão votadas. Esta poderia sucintamente ser a tese da linha de pensamento abolicionista de qualquer anarquista como Emma Goldman. E de ontem para hoje, a despeito de algumas mudanças sociais, é uma tese que me parece ainda ter valência, pois são normalmente as pessoas dos estratos sociais mais baixos que, por um conjunto extenso de razões, ocupam os espaços nas prisões e servem de exemplo para a restante sociedade».

A sua crítica do sistema prisional decorre da sua experiência pessoal e está refletida no ensaio «Prisões: Um Fracasso e Um Crime Social», que integra o livro Anarquismo e Outros Ensaios. Este texto, diz-nos Luís Leitão, «refere o absurdo de manter atrás das grades verdadeiros exércitos de seres humanos; rejeita a asserção de que as prisões tenham alguma coisa que ver com a proteção social; sublinha o falhanço da resposta da sociedade ao crime, e a evidência de que são as condições económicas e sociais que alimentam as tendências criminosas». No fundo, «que a sociedade capitalista só lidou com os criminosos em termos de vingança, punição, dissuasão pelo terror e correção, mas a experiência mostrou a inutilidade das prisões como meio de dissuasão ou de correção».

Já Laure Batier acentua a importância da experiência prisional na vida de Emma, não só da perceção das desigualdades, mas também da solidariedade: «Sentiu na pele a brutalidade e a crueldade da ordem carcerária, assim como as terríveis condições de trabalho que regiam o quotidiano das prisioneiras. Como resultado das suas convicções, não cessava de lutar por uma melhoria das condições de detenção. Mas a força do seu testemunho residia também na sua extraordinária capacidade de se mostrar sempre próxima e profundamente solidária com as suas companheiras de detenção, cuja maioria vinha de camadas sociais com as piores condições de vida, nomeadamente as detidas afro-americanas. Amizades, manifestações de solidariedade, faziam o quotidiano deste universo carcerário que ela descreveu por vezes com muito humor e onde soube encontrar uma humanidade e lições de vida.»

 


Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.


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Written by

Filipe Nunes

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