Autor: Diogo Duarte

  • Monstros debaixo da cama

    Monstros debaixo da cama

    Crise financeira, crise pandémica, crise geopolítica, crise energética, crise climática, crise inflaccionária.

    Longe vai o tempo em que a «crise» ainda podia ser anunciada como um acontecimento conjuntural de onde todos sairíamos colectivamente renovados e com uma lição aprendida. Mesmo para aqueles que sempre viveram em crise, parecia possível acreditar que o infortúnio era uma espécie de nuvem a pairar sobre uns quantos e não uma tempestade a cercar-nos sem permitir qualquer fuga. Mas agora são tantas as rupturas a eclodir em simultâneo, que se tornou evidente que já não é de uma simples fissura que se trata. A crise parece ter-se transformado convenientemente em guerra: uma guerra permanente com várias frentes, capaz de legitimar os múltiplos «sacrifícios» e de mobilizar o «esforço colectivo salvífico» que se exige em nome de um bem maior. Perante a sucessão de catástrofes anunciadas, torna-se difícil distinguir que «valores» e «estilo de vida» são esses pelos quais nos devemos sacrificar. Mas o que é certo é que a deterioração das condições de vida, o crescimento das desigualdades económicas e o sacrifício das «liberdades e garantias» em nome da «segurança» vão-se banalizando com eficácia. Talvez por uma certa aura de inevitabilidade. Talvez porque a guerra desloca o inimigo para algo exterior a um «nós» e nos permite imaginar que somos parte de uma comunidade.

    Essa comunidade tem que ser constantemente encenada através da ritualização e rememoração permanente do que nos transforma num «nós». Mas a massa fundamental que une essa comunidade é o «outro», o bárbaro que ameaça a nossa paz e bons costumes. Esse «outro» não é apenas o inimigo longínquo que se aproxima das nossas fronteiras e ameaça saltar a barreira que nos separa a qualquer momento. Ele está entre nós. E há que recordar quem é esse inimigo e onde é que ele está, mesmo quando não o vemos. Agentes e instituições governamentais e independentes unem-se, frequentemente, nessa tarefa, reproduzindo os diagnósticos de uns e de outros para materializar a realidade que fantasiam como profecias auto-realizáveis. Falam-nos de um país que é estranho à maioria e que só eles conhecem, logo o seu grau de eficácia é imperscrutável e a sua autoridade intangível.

    O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), obra do Governo, identificou um aumento na «criminalidade grupal» durante o ano de 2021, associando-o às «Zonas Urbanas Sensíveis» (ZUS) e a expressões musicais como o hip-hop ou o drill.

    Nas últimas semanas, contudo, um dos documentos oficiais que mede a temperatura à «nossa» ordem pública e um dos institutos independentes que a «observa» – um gesto passivo que lhe permite assegurar a sua neutralidade e distanciamento – causaram alguma perplexidade nas redes sociais. O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), obra do Governo, identificou um aumento na «criminalidade grupal» durante o ano de 2021, associando-o às «Zonas Urbanas Sensíveis» (ZUS) e a expressões musicais como o hip-hop ou o drill. Jorge Bacelar Gouveia, «observador» independente, enquanto actual Presidente do Conselho Directivo do Observatório sobre Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT), deu visibilidade ao diagnóstico na comunicação social, referindo uma «nova cultura hip-hop» por trás desse crescimento da «delinquência» colectiva. A surpresa que estas declarações causaram é injusta. Afinal de contas, constituem um exercício recorrente que serve a identificação e criação dos «nossos» inimigos internos. E os alvos nem mudam muito: expressões artísticas e culturais «marginais», populações que habitam em territórios periféricos («zonas sensíveis»), populações racializadas, culturas políticas que desafiam a norma (nesse relatórios, há sempre umas linhas que assumem despudoradamente vigilância política sobre «anarquistas» e «autónomos»).

    O hip-hop é, desde sempre, um desses fenómenos identificados como fonte de variadas perturbações da ordem pública e ameaças à «nossa» segurança colectiva. No início, a ameaça era o hip-hop como um todo. Depois veio o Grime. Hoje é o Drill. Na impossibilidade de conter a crescente popularidade do hip-hop, foram-se criando cordões sanitários dentro do próprio estilo, separando as expressões «boas» das expressões «más». Em Inglaterra, o surgimento do Grime nos bairros sociais londrinos, no início da década de 2000, fez soar os alarmes (sempre pela mesma razão: relacionando o estilo e o aumento da criminalidade violenta) e os debates sucederam-se, criaram-se comissões políticas e task forces, entre elas a absurda e famosa Respect Agenda, promovida por Tony Blair como o remédio para salvar o país da decadência dos costumes e dos valores. O problema, como o próprio Blair afirmava, nada tinha que ver com a pobreza, nem com devastação de imensas zonas do território londrino pela especulação imobiliária e pela alta finança. As postcode wars, como eram conhecidas, e que também o Drill reproduz como forma de afirmação identitária e criação de rivalidades territoriais, em nada se relacionava, obviamente, com o crescente isolamento e restrição do acesso de determinadas populações à cidade. Era tudo uma questão de «bons costumes» e «boas maneiras». A culpa da pobreza e do isolamento que afectava essas comunidades era fruto das letras e da estética do estilo, sempre a verbalizar beef’s entre gangs e tão inventivos a criar variações da palavra «facadas» quanto os esquimós o foram com a palavra «neve» (a comparação é de Dan Hancox, o autor da melhor história do Grime, “Inner City Pressure”).

    Magicamente, palavras como «pobreza», «desigualdade» ou mesmo «racismo» não aparecem nas 338 páginas do RASI.

    O propósito é evidente: profiling e targeting das populações que habitam as ditas ZUS, situando, através de uma lógica perversa, a origem de qualquer «problema» nesses hábitos peculiares – como fazer música – e nas vivências de certas camadas populacionais, geralmente minoritárias. Magicamente, palavras como «pobreza», «desigualdade» ou mesmo «racismo» não aparecem nas 338 páginas do RASI (para ser rigoroso, «racismo» aparece em referência a eventos desportivos e não como causa de nada). Tal como em Inglaterra, o «problema» resulta, certamente, dos costumes pervertidos e do mau-feitio de quem os pratica. O resultado, neste caso, é a reprodução de estigmas raciais e a justificação da violência policial, da vigilância e da segregação territorial alimentada pelo mercado e por políticas públicas. O Drill até pode ter uma carga niilista inédita no género (mas não no campo musical; porém, nem uma linha sobre Black Metal, por exemplo) e, em alguns casos, a violência que descreve pode muito bem ir além da mera dimensão performativa. Mas só uma miopia pouco inocente permite apontar que estas expressões são a causa e não uma representação da violência quotidiana com que coabitam. É a forma mais conveniente de evitar pegar nos problemas pela raiz. O rapper Ice Cube, há uns anos, em resposta a quem o acusava de ser responsável pela corrupção moral da juventude, dizia que If I’m more of an influence on your son as a rapper than you are as a father, you got to look at yourself as a parent. E é precisamente para evitar que nos olhemos ao espelho e enfrentemos os problemas pela raiz que esses diagnósticos existem. Na luta do bem contra o mal em que somos convidados a participar, é fundamental isolar a origem dos problemas, identificar os lugares onde se escondem os inimigos e moldar a sua existência espectral para que a ameaça pareça real. Como os monstros debaixo da cama que nos mantêm acordados, mas que vivem, afinal, na nossa imaginação.

     


    Ilustração [em destaque] de  José Smith Vargas.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #35, Setembro|Novembro 2022.

  • Canções de traidores

    Canções de traidores

    Em 1990, tinha o muro caído pouco antes, um grupo de anarquistas provocou a ira das autoridades fazendo circular pelas praças da «antiga» Alemanha Oriental uma estátua, em pasta de papel, a representar um fugitivo. Chamaram-lhe «Monumento ao desertor das duas guerras mundiais» e tinha como legenda «Para quem se recusou a matar o seu semelhante». Nos anos seguintes, também noutros países, surgiram vários monumentos a homenagear os desertores e a desafiar as estátuas oficiais dedicadas aos «soldados desconhecidos» das grandes guerras que se erigiram um pouco por todo o mundo. Assim se transformou num gesto heróico algo que todas as nações procuraram apresentar como um dos exemplos máximos de cobardia e traição.

    Por trás destas acções, está uma longa história de desobediência. Nas muitas guerras que atravessaram todo o século XX, foram milhares os que se recusaram a obedecer a ordens e a participar na execução de milhões de pessoas, geralmente em nome de valores e fins que os grandes líderes fizeram crer ser os seus, mas que não eram mais do que disputas por interesses que só beneficiavam uns poucos que não saíam dos seus gabinetes. Na I Guerra Mundial, uma parte daqueles que compunham as fileiras das correntes antiautoritárias recusaram-se a tomar partido pelos seus países e alianças militares. Em Portugal, a propaganda e as campanhas antimilitaristas promovidas pelos anarquistas estiveram entre as acções que mais assustaram os governos e elites nacionais, disseminando apelos à deserção, à indisciplina e à sabotagem de material militar. Como sublinhava um editorial do jornal anarco-sindicalista A Batalha, em 1926, o Estado arrancou «milhares de indivíduos que viviam do trabalho de suas utilíssimas profissões» para «fabricar homens capazes de assassinar». Estes actos de dissenso repetiram-se na II Guerra Mundial. Em 1945, quatro anarquistas, autores do jornal War Commentary, entre eles Vernon Richards e Marie Louise Berneri, eram detidos em Inglaterra, acusados de semearem a indisciplina e a deserção nas forças militares britânicas. Entre o material apreendido, estava um poema, “Fight! What for?”, em que se dizia: “You are wanted for the Army,/ Do you know what you’ll have to do?/ Just murder to save your country/ From men who are workers, like you.”

    Nesta recusa, não estava apenas em causa um pacifismo idílico ou gesto cobarde de rendição, como alguns insinuam agora sobre quem exige a paz. Entre os “crimes” apontados aos membros do War Commentary, estavam os apelos que faziam para que os trabalhadores não largassem as armas, mas que as usassem para a acção revolucionária. E sempre que foi necessário, aqueles que “carregam um mundo novo nos seus corações”, como dizia Buenaventura Durruti, não hesitaram em ocupar a linha da frente do combate, contra a tirania soviética, contra os poderes ditatoriais e contra o imperialismo ocidental, como aconteceu na Guerra Civil de Espanha ou como fez Nestor Makhno na Ucrânia. Estes combatentes seguiam o seu próprio caminho e não na direcção para que queriam empurrá-los. Lutavam por um mundo diferente, sem deuses nem amos, e sabiam que o inimigo estava em qualquer dos campos ideológicos que se apresentasse como a única opção possível e a quisesse impor pela força. A “igualdade” e a “liberdade” que os seus inimigos diziam defender não era a sua.

    A música teve sempre um papel fundamental na construção destas resistências. Pouco tempo depois de duas bombas nucleares terem caído sobre Hiroshima e Nagasaki, Gordon Dean, presidente do Comité de Energia Atómica dos Estados Unidos da América, dizia com orgulho que “hoje, os Estados Unidos afirmam-se perante o mundo com a tocha da liberdade numa mão e a bomba atómica na outra”. Vernon Partlow, um jornalista norte-americano, não partilhava o mesmo entusiasmo, e escreveu aquela que foi, provavelmente, a primeira música antinuclear: “Old Man Atom”. Nela expunha a igualdade que se escondia nos desígnios destes idiotas: “We hold this truth to be self-evident: / That all men may be cremated equal”. A tocha da liberdade rapidamente proibiu a canção. Afinal, só eram livres aqueles que se deixassem arregimentar e não cedessem a heresias antipatrióticas.

    Em Inglaterra, no final dos anos 70, bandas como os Crass, pegavam na “anarquia” do golpe publicitário dos moribundos Sex Pistols e transformavam-na num movimento que desejava ir além das manchetes jornalísticas e queria ser muito mais do que uma brincadeira para assustar velhinhas ou perturbar o sossego dos lares britânicos. Nascia o anarcopunk e um novo capítulo na longa guerra que tinha como fim a destruição do capital e dos Estados. Bandas, fanzines e okupas germinaram por todo o país para desafiar a sonolência da aparente inevitabilidade que os arsenais nucleares cultivavam. Entre essas bandas, poucas captaram tão vividamente o imaginário da época, pelas suas letras cinematográficas, como os Lack of Knowledge, uma das bandas da Crass Records. Nas suas letras, o sujeito era, geralmente, um indivíduo anónimo, “o último humano na Europa”, a tropeçar em destroços de vidas espalhados por ruas silenciadas (como em “Radioactive man”) ou perante um presente ameaçado pela iminência de um apocalipse nuclear e pelo peso dos céus de mercúrio vermelho prestes a abater-se sobre nós. Estas imagens sombrias e o som inquietante que as acompanhava, mais do que a combatividade e a raiva de bandas como os Crass, pareciam evocar o fatalismo e o negrume de bandas como Joy Division. Mas as cores que pintavam eram aquelas que vemos agora ressurgir no horizonte e que alimentavam a fúria das bandas que procuravam desafiar a ordem da guerra fria. No catálogo da Crass Records, não deve ter existido uma banda que tenha escapado ao escrutínio das autoridades e das secretas britânicas. Crass, em particular, foram interrogados, perseguidos e caricaturados em retratos mediáticos, acções policiais e até em debates parlamentares. Um dos momentos altos foi o caso que ficou conhecido como Thatchergate, uma gravação forjada de uma conversa telefónica entre Ronald Reagan e Margaret Thatcher, mas baseada num leak real de declarações da dama-de-ferro inglesa, em que esta revelava que o navio de guerra HMS Sheffield tinha sido propositadamente sacrificado para fazer escalar a guerra das Malvinas e em que ambos partilhavam a intenção de fazer da Europa uma frente de batalha nuclear contra a União Soviética.

    Partilho estas histórias porque, em todas elas, encontrámos uma guerra diferente daquelas em que nos querem obrigar a participar, mesmo que seja apenas como espectadores ou como soldados das redes sociais. O papel daqueles que se recusam a enfileirar nos exércitos de Estados e do capital, foi e é, antes de mais, o de denunciar as farsas patrióticas e as manipulações demagógicas dos grandes líderes que nos chantageiam com o «se não estás connosco estás contra nós». A barricada onde nos situamos é das pessoas comuns e anónimas, sejam elas russas ou ucranianas, que pagam sempre o preço das decisões de quem se senta nos seus gabinetes e que só contam para embelezar discursos parlamentares e para os defender nas horas de aperto. Para quem decide estas guerras, sempre fomos carne para canhão, vidas descartáveis e sem sentido.

    Esta guerra não é a primeira, nem é diferente de todas as guerras que conhecemos. Mas diz muito sobre o momento que vivemos que muitos daqueles que reclamam ideais emancipatórios sintam, hoje, perante uma guerra imperialista, a obrigação de se situarem de um dos lados da contenda. Numa guerra imperialista, não há, nunca houve, um império melhor do que outro – tivesse ele na sua bandeira uma foice e um martelo ou um cifrão, ou clamasse ele defender os nossos “valores” e “estilo de vida”. O nosso papel continua a ser o de traidores das pátrias e impérios e o de detractores das ideias de «liberdade», «igualdade» e de «Europa» em que nunca coubemos.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #34, Maio|Julho 2022.

  • Variantes de um vírus mais insidioso

    Variantes de um vírus mais insidioso

    Há pouco mais de um mês, o rapper Estraca – de quem já falamos nesta rubrica – lançou “Jornalixo”. Na letra da música, Estraca visa o consenso podre que foi necessário alimentar para justificar muitas das medidas de gestão da pandemia e coloca em causa farmacêuticas, jornalistas e governantes, acusando-os de assassinos, ou cúmplices, e de manipularem a informação. A letra é leviana, falha o alvo repetidas vezes e abusa de uma série de tropos perigosos, a roçar o pior do populismo reaccionário (tal como já acontecia no single anterior, “Terra Nostra”), o que comprova que sempre que Estraca abandona a crónica da vida no subúrbio, e se põe a dissertar sobre política nacional, perde todo o interesse. O intuito apreciável de questionar o pior que esta pandemia nos trouxe perde-se no meio de uma caricatura transviada. A internet caiu-lhe rapidamente em cima e empurrou-o para o campo do “negacionismo”, uma barricada em que o próprio mergulhou com prazer, passando a integrar a horda de tarados que arrasta pela internet e a participar nas suas manifestações públicas. Em parte, a rapidez com que Estraca foi colado aos conspiracionistas explica-se por, numa das linhas da letra, estender o seu exercício crítico à vacinação, quando diz “eu sou louco/ E assumidamente louco/ Se loucura é questionar/ Aquilo que injetam no meu corpo”.

    Sublinhe-se, porém, independentemente da qualidade da música e da mensagem, que o que o rapper tenta dizer sobre a pandemia não é o mais problemático. Mesmo nos versos atrás citados, não está uma declaração explicitamente negacionista, mas antes a afirmação de um exercício que devia ser básico: questionar. Pode-se ser vacinado e questionar a sua eficácia plena. É, aliás, tão salutar quanto a vacina que esse escrutínio não seja monopolizado por quem a produz e seja feito, também, por aqueles que a recebem. Não é segredo para ninguém que, para as farmacêuticas, a saúde pode ser sacrificada no altar do Deus Milhão quando assim é oportuno (basta recordar as patentes das vacinas). Lembremo-nos, além disso, que a vacina foi brandida como a chave da liberdade e não como algo que “apenas” permitiria “achatar a curva” e reduzir os casos graves, como passou a acontecer entretanto, como se sempre tivesse sido assim. Como bem sabemos, nem tudo mudou com a vacina e o anunciado “dia da liberdade” ainda continua por chegar: continuamos sujeitos ao medo e a restrições derivadas da ameaça pandémica, sejam elas justificadas ou não.

    A reacção que Estraca recebeu remete-nos, portanto, para um problema bem mais profundo: a polarização perigosa, particularmente acentuada em Portugal, que cola automaticamente o selo de “negacionista” a quem se atreva a destoar do coro oficial – mediático e político – da pandemia. Para que fique claro: o “negacionismo” é um problema, mas é um problema porque nega a própria existência da pandemia, e as suas terríveis consequências, sem colocar devidamente em causa a forma como foi, e é, gerida politicamente; é um problema porque nega a vacinação com base em fantasias conspiracionistas, sem questionar eficazmente as condições materiais de produção dessas vacinas; é um problema porque, neste caso, tem sustentado uma noção perversa de liberdade, egoísta e fundada na atomização do indivíduo, consonante por isso com o neoliberalismo que por vezes aparenta desejar combater.

    O que não é, nem pode ser, «negacionismo» é questionar a promiscuidade entre política e ciência, que serve para abençoar decisões governamentais com o selo «científico» e protegê-las com uma capa técnica e «neutra».

    É um problema, enfim, porque, por todas estas razões, resvala para um eugenismo e segregacionismo que contrariam qualquer ideia de liberdade e de igualdade social e reproduzem o que há muito existia de pior no mundo. O que não é, nem pode ser, “negacionismo” é: questionar a promiscuidade entre política e entre ciência, que serve para abençoar decisões governamentais com o selo da “ciência” e protegê-las com uma capa técnica e “neutra”; denunciar o poder obscuro das farmacêuticas e a sua motivação puramente comercial; ou criticar a própria espetacularização da pandemia pelos média, a que assistimos desde o início, que fez dos usos políticos do medo uma nova forma de entretenimento.

    A pandemia acentuou e iluminou tendências que já se manifestavam há muito tempo no mundo. E o caminho que seguíamos não era certamente o de quem procura um caminho emancipatório e deseja uma sociedade mais igualitária e livre. Quando hoje se diz que “nada voltará a ser como antes” sabemos que ninguém quer com isso dizer que as nossas condições de vida melhoraram. Não “vai ficar tudo bem” porque já estávamos longe de estar bem há muito tempo. E o que era passou a ser ainda mais: as desigualdades aumentaram, os ricos viram as suas fortunas crescer, a saúde tornou-se um negócio mais rentável, a nossa frágil saúde mental ficou reduzida a cacos, e os Estados reforçaram a sua capacidade de controlo e vigilância. O mundo continua a ser movido pelo dinheiro e pela ganância. E as “novas” possibilidades que se abriram são muito mais causas de alerta do que de optimismo quanto ao futuro, não estivesse a pandemia a servir como a desculpa perfeita para introduzir e intensificar novas formas de governação (que vão desde a banalização do uso de drones para vigilância pública até à massificação do próprio certificado digital). No fundo, assumir que quem nos levou a esse estado de coisas se tornou subitamente responsável e preocupado com o nosso bem-estar é, também, uma forma de “negacionismo”; e não é necessariamente menos perigoso que o “negacionismo” de quem nega a pandemia e as vacinas. Em ambos os casos, de resto, estamos perante a mesma perplexidade que nos persegue há séculos: por que é que a humanidade luta tão afincadamente pela servidão como se fosse a sua salvação?

    Está na altura de deixar de entregar de bandeja qualquer exercício crítico da gestão da pandemia, ou de quem nos governa, àqueles que o fazem para reforçar o status quo e para promover soluções autoritárias em nome de uma suposta liberdade. O próprio conspiracionismo é o sintoma de um vírus maior e mais insidioso, prenhe de significado político, e não o resultado de uma disfunção cognitiva inexplicável, como sugere o termo “chalupas”. Se tudo o que temos para responder a quem desafia a nossa linguagem, e algumas das nossas convenções, é a sobranceria e o moralismo, deixamos o terreno livre para que seja a extrema-direita a apropriar-se de qualquer expressão embrionária de descontentamento. E, pior, o cenário distópico pós-pandémico, narrado pelo poeta Roger Robinson na faixa de abertura do último álbum de The Bug (“Fire”, um dos grandes lançamentos de 2021 e uma verdadeira banda-sonora para os tempos que vivemos), revela-se uma realidade mais próxima do que estamos dispostos a reconhecer: “after the fourth year of being cooped up/ we realized that there was no end to this” (in “The Fourth Day”).

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #33, Fevereiro|Abril 2022.

  • Há que violentar o sistema

    Há que violentar o sistema

    Passavam apenas quatro anos da Revolução de Abril de 1974, e já havia quem quisesse mandar tudo abaixo. Em 1978, na primeira gravação Punk feita em Portugal, os Aqui D’el Rock lançavam o mote para violentar o sistema, «a coisa (…) que de tanto mudar continua igual» (in Há que violentar o sistema). Fundados num dos territórios mais miseráveis da cidade de Lisboa, o Bairro do Relógio, conhecido como Bairro do «Cambodja», os Aqui D’el Rock usavam a música para anunciar que, para muita gente, pouca coisa tinha mudado. Para além da persistência da pobreza, do desemprego e do tédio quotidiano, as possibilidades abertas pela revolução esbarravam no conservadorismo dos costumes. Mesmo a música, tão importante para a revolução e para o período que se lhe seguiu, insistia em continuar virada para dentro e indiferente às rupturas estéticas que explodiam noutros países. As formas de expressão cultural toleradas e domesticadas pelo regime ditatorial deram lugar a outro cânone, dominado pela música de intervenção e mais interessado em celebrar um certo povo e tradição do que em desbravar novos caminhos. Reflexo disso era a opinião de Zeca Afonso que, anos antes, criticava aqueles que importavam «música fabricada na Europa e na América» e considerava o Ié-Ié (o nome dado ao Rock em Portugal) um «ritual do chinfrim», «a expressão de um processo de decadência de uma sociedade» e «destituído de valores intelectuais».

    Mais do que a pretensão de chocar os papás e os vizinhos, ou fazer carreira artística, a intenção era “violentar o sistema” pós-revolucionário que fazia do presente e do futuro uma miragem de promessas.

    A democracia só lentamente se foi fazendo sentir na criação musical, especialmente nas áreas urbanas. Os instrumentos, e o tempo para aprender a dominá-los, eram um luxo acessível a poucos. E no Rock que se fazia em Portugal nos anos 70 predominavam as marcas de um certo elitismo que celebrava o virtuosismo. O próprio Punk desenvolve-se em Portugal pela mão dos «meninos-bem» da Avenida de Roma. É neste cenário que surge uma «pedrada no charco» chamada Aqui D’el Rock, tão distante dos «amanhãs que cantam» da revolução como do conforto da burguesia lisboeta. Contra o «sistema que nos querem meter pelos cornos abaixo» e contra um socialismo que não passava de uma «reformulação do sistema capitalista» (in Rock em Portugal, Maio/ Junho de 1978), Zé Serra (bateria), Fernando Gonçalves (baixo), Alfredo Pereira (guitarra) e Óscar Martins (guitarra e voz) pegavam em instrumentos em elevado estado de degradação, ou fabricados pelos próprios, e estreavam-se nos palcos em Abril de 1978. No mesmo ano gravavam o single Há que violentar o sistema, com o Lado B ocupado pela música Quero tudo, onde o vocalista Óscar cantava «sem vontade nem futuro». Em 1979, saía o segundo e último single da banda, Eu não sei. A capa já denunciava o desvio para a New Wave que se concretizaria pouco depois, com um grafismo mais colorido e o nome da banda em néon, mas a música era ainda mais imediata e directa do que no registo de estreia. Nas letras mantinha-se a mesma atitude: Eu não sei prometia «não deixar nenhum símbolo de pé» e em Dedicada (A quem nos rouba) a mensagem disparava «para quem nos rouba/ a quem nos rouba/ morre, morre se puderes/ morres, se um dia vier». Em 1981, em parte para escapar do estigma Punk, os Aqui D’el Rock davam lugar aos Mau-Mau e adoptavam uma sonoridade mais polida, desaparecendo definitivamente pouco tempo depois.

    Tudo isto seria suficiente para celebrar a recente reedição destes singles, em formato LP, pela Zerowork Records – edição a que se junta um poster desdobrável com um texto do fundador Zé Serra, fotos ao vivo, a lista de todos os concertos da banda, uma das primeiras entrevistas que deram e, como não podia deixar de ser, as letras. Mas há mais motivos para aplaudir o gesto da Zerowork. Desde logo, porque o lugar dos Aqui D’el Rock na história da música portuguesa nem sempre mereceu o destaque devido. O seu lugar no panteão do Punk em Portugal é incontestável, mas a sua importância dilui-se na de outras bandas surgidas em simultâneo, e sem registos sonoros, como os Faíscas e os Minas & Armadilhas, cujos membros fizeram posteriormente carreira artística (p. ex. Pedro Ayres Magalhães) ou afirmaram com maior destaque a sua voz no espaço público (p. ex. Paulo Borges). Não fossem estes dois singles e, provavelmente, os Aqui D’el Rock ocupariam uma nota de rodapé ainda mais discreta. Pelo estatuto marginal que tinham na «movida» artística lisboeta então em ascensão, os betinhos da Avenida de Roma viam os Aqui D’el Rock, já na altura, como oportunistas, e, posteriormente, procurando firmar o seu pioneirismo, nunca deixaram de relativizar o estatuto Punk da banda do Bairro do «Cambodja». Para Rui Pregal da Cunha (Heróis do Mar, LX 90), o Punk nem tinha grande nexo num país recém-saído de uma revolução; era uma moda importada que rapidamente viria dar lugar a outra, tal como o percurso destes ilustres pioneiros demonstrava. Os Aqui D’el Rock, contudo, não foram atraídos para o Punk pelo aparato estético do estilo. Sem posses para viajar para os epicentros dos acontecimentos que abalavam a Europa ou para adquirir as novidades discográficas, o Punk dos Aqui D’el Rock não se afirmava pelas roupas certas e pelos alfinetes espetados na cara. Mais do que a pretensão de chocar os papás e os vizinhos ou fazer carreira artística, a intenção era «violentar o sistema» pós-revolucionário que fazia do presente e do futuro uma miragem de promessas. O guião, construíam-no eles próprios, conjugando a realidade que conheciam com os rumores dispersos que chegavam a este país à beira mar plantado.

    Reafirmar o lugar dos Aqui D’el Rock na história do Punk em Portugal, tal como o faz a edição da Zerowork Records, é confrontar uma memória elitista da cultura portuguesa.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.

  • Hiroshima Palastina

    Hiroshima Palastina

    Uma das formas mais eficazes para não ter de tomar posição sobre um assunto é descartá-lo através da fórmula «é uma situação complexa» (como se houvesse alguma coisa simples). Israel devia ter essas palavras escritas na bandeira, tantas são as vezes que servem para relativizar o projecto colonial, o regime de apartheid e a limpeza étnica do povo palestiniano por que são responsáveis há décadas. A complexidade desta «situação» particular é adensada por factores emocionais e históricos. Não há como não sentir um misto de perplexidade e de desconforto ao ver o Estado de Israel repetir os mesmos actos que vitimaram o povo judeu ao longo de séculos e séculos de perseguição. E não há como não recordar que o holocausto foi feito mesmo à nossa porta e com a nossa conivência. Foi ontem e os seus fantasmas ainda convivem nas fotos e nas memórias de muitas famílias.

    Para além destes complexos de culpa, na tolerância ocidental escondem-se, ainda, com pouca discrição, os mesmos preconceitos e mecanismos de que se fizeram muitos genocídios. O racismo e os processos de construção da identidade que insistem em estabelecer uma diferença entre um «nós» e um «eles» continuam a alimentar comunidades. E a legitimação dos actos mais perversos por via de processos de «racionalização» sinistros não desapareceram. Israel, ainda por cima, parece-se «connosco». É vista como um bastião de democracia num mar de fundamentalismos. Participa na Eurovisão e nas competições desportivas europeias, tem gente jovem e progressista e é um paraíso queer e vegan. Podia muito bem ser na Europa. No fundo, o que torna a «situação complexa» e faz de Israel um país melhor do que os «outros» é – parafraseando os punks israelitas Dir Yassin – «pedir desculpa quando mata inocentes»; é os seus «soldados terem olhos azuis e escreverem poesia»; é usar tecnologia militar avançada e não ter esconderijos nem recorrer a pedras, mísseis toscos e bombistas suicidas (in “All our planes have returned safely”).

    Talvez ajude deixarmos de nos deslumbrar com alegadas afinidades «identitárias» e largar a insistência em confundir a história do povo judaico com o Estado de Israel. O assunto perde parte da sua complexidade se recusarmos cair na armadilha da «culpa» e da «vergonha» que tantas vezes serve os interesses dos mais poderosos. E é de poder que se trata. Episódios como esses fazem parte de um mesmo contínuo irredutível a religiões ou culturas: fazem parte de uma história de poder. Só a presença de forças mais insidiosas permite compreender que aqueles que ainda têm visíveis as feridas de um passado recente possam fazer do holocausto que as provocou um pechisbeque, como alguém dizia na televisão há dias. Nenhum Yom HaShoah (Dia da Memória do Holocausto) evitará que o passado se repita enquanto não forem destruídas as estruturas e os mitos que sustêm a persistência das formas de dominação e de autoridade que alimentaram os actos mais tenebrosos da história da humanidade.

    AkrabutPosto isto, é possível compreender que quem vive num Estado militar e seja doutrinado no ódio para com o vizinho desde que nasce possa acreditar que reside num Oásis protegido por um muro. O que não é tão compreensível é que os cidadãos do «mundo ocidental» dito democrático dêem as cambalhotas mais espalhafatosas para justificar cada crime cometido por Israel. Especialmente quando, há décadas, nos chegam vozes do território israelita que não demonstram a mesma tolerância com o governo do sítio onde vivem e nasceram. Foi, aliás, na cena punk-hardcore israelita que se concentraram algumas das expressões mais dissonantes. Particularmente pujante nos anos 90, dela jorraram palavras e acções que poucos no Ocidente se atrevem a pronunciar com medo de serem rapidamente estigmatizados e apodados de «anti-semitas». A banda que mais terá contribuído para a explosão da cena punk-hardcore israelita foi Nekhei Na’atza, surgida na primeira metade da década de 90 e movida por um profundo desprezo por um Estado fundado na religião e no militarismo (o primeiro EP, editado 1994, intitulava-se Renounce Judaism). Em 1997, tornar-se-ia a primeira banda punk a lançar um LP em Israel, Hail the New Regime. Na capa, o então recém-nomeado primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o mesmo que anos depois voltaria a ocupar o cargo e nele permanece até aos nossos dias, aparecia a fazer uma saudação romana. Um dos legados mais importantes de Nekhei Na’atza foi a influência que teve na renúncia e na deserção do serviço militar obrigatório por uma parte da juventude israelita que circulava no meio underground, o que a tornou um alvo frequente das autoridades. Das suas cinzas surgiriam os já referidos Dir Yassin, banda que viria a alcançar maior projecção internacional. Formada em 1997, fez de cada uma das suas músicas a garantia de que não soariam apenas «músicas calmas e bonitas» enquanto as bombas continuassem a cair (in “Brotherly Mass Grave”). Na denúncia destemida da ocupação da Palestina pelo Estado Israelita não hesitavam em usar a palavra «genocídio» e em denunciar o «complexo do holocausto» como uma desculpa (in “Independence Day”).

    Foi na cena punk-hardcore israelita que se concentraram algumas das expressões mais dissonantes.

    Nos dias que correm a virulência da «cena» punk israelita parece ter esmorecido. Para isso terá contribuído o crescimento da extrema-direita na sociedade e no Estado israelitas e uma dinâmica demográfica em que muitos dos seus integrantes emigraram para fugir ao serviço militar, para além de um número maior de imigrantes entrou no país em busca da «terra prometida». Para Federico Gomez, vocalista dos Nekhei Na’atza, a sociedade israelita é hoje mais intolerante e racista do que era nos anos 90. Como consequência, a crítica à ocupação da Palestina tornou-se mais dissimulada e a mensagem mais críptica e focada na vida dentro do Estado de Israel. Algumas das excepções podem ser encontradas na compilação Standing Together Against Annexation, que foi lançada em 2020 e reúne 38 bandas de punk israelitas, na sua maioria com letras em hebraico. Entre elas encontramos nomes como Akrabut, Kids Insane (que já tocaram em Portugal), Useless ID, Deaf Chonky e MooM. No geral, confirmam-se as referências menos directas à ocupação e as críticas dirigem-se mais para a «doutrina do medo» e para a «cultura de violência» de um Estado militar. Mas em bandas como os Akrabut, na música “Hiroshima Palastina” (também nome do EP que lançaram em 2018), encontramos preservada a intransigência dos anos 90. Há pouco, em plena ofensiva israelita, deixavam nas redes sociais uma pequena frase: «ninguém viverá em paz enquanto a Palestina não for livre». O que nos recorda que os bombardeamentos podem ter parado entretanto, mas a paz continua a ser uma miragem.

    Bandas e compilações como estas podem parecer pouco mais do que pedras lançadas a tanques. Mas, para além do impacto que têm no próprio contexto asfixiante em que existem, recordam-nos que o Estado de Israel nunca agradou sequer a muitos daqueles que pretende representar. Para os mais púdicos, talvez ajude a classificar aquilo que fazem nos termos adequados e que de complexo tem pouco:«“limpeza étnica», «colonização» e «apartheid». Libertem a Palestina!

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.


    #palestina #apartheid #nekheina’atza #diryassin #punk #Israel #música #punk-hardcore #mapa31

     

  • Hardcore e pirataria

    Hardcore e pirataria

    A propósito de uma compilação-benefit para o capítulo português da Sea Shepherd, editado pela Believe Hardcore[ref] facebook.com/believehcdistro[/ref] , que reúne vinte bandas da cena punk-hardcore nacional.

    O território cinge-se cada vez mais ao propósito de servir a circulação de mercadorias. E é apenas enquanto mercadoria que também nós encontramos a liberdade para nos movermos dentro das suas barreiras.

    Pouco nos resta para lá do movimento que nos leva entre a habitação e o trabalho ou entre a habitação e o centro comercial. Esse parece ser o principal significado de estar confinado: liberdade para só circular entre espaços privatizados. Acabou o espaço público. O espaço público é uma app. Quando chegar o recolher obrigatório, até as ruas ou bairros das nossas habitações serão pouco mais do que paisagem. Só restarão as paredes que nos cercam. E é nessa prisão que vemos a escassez abater-se sobre nós. Vemo-nos cada vez mais esvaziados para que aqueles que sempre se encheram de nós possam continuar a fazê-lo; e com cada vez menos obstáculos. O futuro parece não reservar muito mais possibilidades senão a de nos tornarmos uma espécie de piratas. Deslocações furtivas de um ponto ao outro, provavelmente entre territórios clandestinos e libertados onde o Estado nunca se deu bem; raids estratégicos a tudo aquilo de que nos desapossaram e a tudo aquilo que se apossou dos nossos lugares, movendo-se e ocupando as ruas que nos vedaram: é esse o horizonte que já se avista, apesar de ainda não ouvirmos as sirenes para recolher e os corpos policiais e militares ainda não terem a exclusividade de caminhar pelas ruas.

    compilacao

    Felizmente os piratas nunca deixaram de existir. E alguns permaneceram em alto mar, em desafio constante dos limites territoriais e dos fluxos de produção e distribuição de mercadorias. Foi o caso da Sea Shepherd Conservation Society (SSCS). Fundada em 1977, pelo Capitão Paul Watson, co-fundador e dissidente da Greenpeace, a SSCS tomou como missão impedir a destruição dos oceanos e do ambiente pela acção directa. O respeito incondicional pelas convenções legais e políticas, as campanhas de marketing e a espectacularidade circense seguidas pela generalidade das organizações ambientais, como aquela que Paul Watson ajudou a fundar e veio a renegar, eram demasiado estreitos para responder à urgência de evitar um mundo em colapso. Mesmo quando actuou contra práticas punidas por leis internacionais, a SSCS foi alvo de perseguições por parte de vários Estados, entre eles o norte-americano e o japonês, frequentemente sob a acusação de ecoterrorismo (uma daquelas ironias: para o Estado é terrorista ecológico quem procura impedir a destruição ambiental e não quem o destrói). Em 2019, fundou-se em Portugal um capítulo desta organização, com o propósito principal de desenvolver, em território nacional, acções de consciencialização contra determinadas práticas e promover algumas actividades de defesa ambiental.

    Felizmente os piratas nunca deixaram de existir. E alguns permaneceram em alto mar, em desafio constante dos limites territoriais e dos fluxos de produção e distribuição de mercadorias.

    Vem isto a propósito de uma compilação-benefit para o capítulo português da Sea Shepherd, editado pela Believe Hardcore, que reúne vinte bandas da cena punk-hardcore nacional. Chega vinte e três anos depois do mítico Split-CD dos portugueses X-Acto e dos norte-americanos Ignite, também a reverter para a SSCS. Esta edição reúne veteranos (como os New Winds, Simbiose e For the Glory) e projectos mais recentes (Cicatriz, Dead End ou Fonte), sonoridades oldschool, new school e post-hardcore ou até o hip-hop vegan straight edge de GAEA. Só por dar conta da diversidade da «cena» portuguesa, a que muitos se dedicam a escrever obituários todos os anos, a compilação já merecia a atenção de todos os apreciadores do género. Mas ser um benefit, com todo o dinheiro a reverter para a SSCS, dá-lhe o significado que muitas vezes falta ao cliché associado ao punk-hardcore: mais do que música.

    Esta edição saiu numa altura em que também a cultura se viu confinada. Aqueles que não se importaram com a sua industrialização, vêem-se agora enredados nas dificuldades de escoar comercialmente uma mercadoria incapaz de saciar a ganância voraz daqueles a quem o medo e a saúde pública se mostram mais capazes de fazer crescer o seu poder e os seus monopólios. Pelo caminho lixaram-se também aqueles que nunca confundiram cultura com uma prateleira do supermercado, recusando-se a reduzi-la a uma actividade de lazer ou de entretenimento, mas que, independentemente disso, tinham que pagar as contas. Restam aqueles que nunca reservaram uma linha da sua folha de Excel para a cultura. E são esses que nos dão esta compilação. Não são melhores nem piores, mas são quem há mais tempo conhece as artes da sedição e da marginalidade de que em breve necessitaremos. Como os piratas de outros tempos, ajudarão a desviar a cultura (seja sob que forma for) dos caminhos em que querem encerrá-la e não permitirão que se torne uma mercadoria de luxo para aqueles a quem o actual estado de coisas melhor serve.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.


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