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  • Hardcore e pirataria

    Hardcore e pirataria

    A propósito de uma compilação-benefit para o capítulo português da Sea Shepherd, editado pela Believe Hardcore[ref] facebook.com/believehcdistro[/ref] , que reúne vinte bandas da cena punk-hardcore nacional.

    O território cinge-se cada vez mais ao propósito de servir a circulação de mercadorias. E é apenas enquanto mercadoria que também nós encontramos a liberdade para nos movermos dentro das suas barreiras.

    Pouco nos resta para lá do movimento que nos leva entre a habitação e o trabalho ou entre a habitação e o centro comercial. Esse parece ser o principal significado de estar confinado: liberdade para só circular entre espaços privatizados. Acabou o espaço público. O espaço público é uma app. Quando chegar o recolher obrigatório, até as ruas ou bairros das nossas habitações serão pouco mais do que paisagem. Só restarão as paredes que nos cercam. E é nessa prisão que vemos a escassez abater-se sobre nós. Vemo-nos cada vez mais esvaziados para que aqueles que sempre se encheram de nós possam continuar a fazê-lo; e com cada vez menos obstáculos. O futuro parece não reservar muito mais possibilidades senão a de nos tornarmos uma espécie de piratas. Deslocações furtivas de um ponto ao outro, provavelmente entre territórios clandestinos e libertados onde o Estado nunca se deu bem; raids estratégicos a tudo aquilo de que nos desapossaram e a tudo aquilo que se apossou dos nossos lugares, movendo-se e ocupando as ruas que nos vedaram: é esse o horizonte que já se avista, apesar de ainda não ouvirmos as sirenes para recolher e os corpos policiais e militares ainda não terem a exclusividade de caminhar pelas ruas.

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    Felizmente os piratas nunca deixaram de existir. E alguns permaneceram em alto mar, em desafio constante dos limites territoriais e dos fluxos de produção e distribuição de mercadorias. Foi o caso da Sea Shepherd Conservation Society (SSCS). Fundada em 1977, pelo Capitão Paul Watson, co-fundador e dissidente da Greenpeace, a SSCS tomou como missão impedir a destruição dos oceanos e do ambiente pela acção directa. O respeito incondicional pelas convenções legais e políticas, as campanhas de marketing e a espectacularidade circense seguidas pela generalidade das organizações ambientais, como aquela que Paul Watson ajudou a fundar e veio a renegar, eram demasiado estreitos para responder à urgência de evitar um mundo em colapso. Mesmo quando actuou contra práticas punidas por leis internacionais, a SSCS foi alvo de perseguições por parte de vários Estados, entre eles o norte-americano e o japonês, frequentemente sob a acusação de ecoterrorismo (uma daquelas ironias: para o Estado é terrorista ecológico quem procura impedir a destruição ambiental e não quem o destrói). Em 2019, fundou-se em Portugal um capítulo desta organização, com o propósito principal de desenvolver, em território nacional, acções de consciencialização contra determinadas práticas e promover algumas actividades de defesa ambiental.

    Felizmente os piratas nunca deixaram de existir. E alguns permaneceram em alto mar, em desafio constante dos limites territoriais e dos fluxos de produção e distribuição de mercadorias.

    Vem isto a propósito de uma compilação-benefit para o capítulo português da Sea Shepherd, editado pela Believe Hardcore, que reúne vinte bandas da cena punk-hardcore nacional. Chega vinte e três anos depois do mítico Split-CD dos portugueses X-Acto e dos norte-americanos Ignite, também a reverter para a SSCS. Esta edição reúne veteranos (como os New Winds, Simbiose e For the Glory) e projectos mais recentes (Cicatriz, Dead End ou Fonte), sonoridades oldschool, new school e post-hardcore ou até o hip-hop vegan straight edge de GAEA. Só por dar conta da diversidade da «cena» portuguesa, a que muitos se dedicam a escrever obituários todos os anos, a compilação já merecia a atenção de todos os apreciadores do género. Mas ser um benefit, com todo o dinheiro a reverter para a SSCS, dá-lhe o significado que muitas vezes falta ao cliché associado ao punk-hardcore: mais do que música.

    Esta edição saiu numa altura em que também a cultura se viu confinada. Aqueles que não se importaram com a sua industrialização, vêem-se agora enredados nas dificuldades de escoar comercialmente uma mercadoria incapaz de saciar a ganância voraz daqueles a quem o medo e a saúde pública se mostram mais capazes de fazer crescer o seu poder e os seus monopólios. Pelo caminho lixaram-se também aqueles que nunca confundiram cultura com uma prateleira do supermercado, recusando-se a reduzi-la a uma actividade de lazer ou de entretenimento, mas que, independentemente disso, tinham que pagar as contas. Restam aqueles que nunca reservaram uma linha da sua folha de Excel para a cultura. E são esses que nos dão esta compilação. Não são melhores nem piores, mas são quem há mais tempo conhece as artes da sedição e da marginalidade de que em breve necessitaremos. Como os piratas de outros tempos, ajudarão a desviar a cultura (seja sob que forma for) dos caminhos em que querem encerrá-la e não permitirão que se torne uma mercadoria de luxo para aqueles a quem o actual estado de coisas melhor serve.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #29, Dezembro 2020|Fevereiro 2021.


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  • Música Sem Filtros

    Música Sem Filtros

    Música Sem Filtros (vol.1) é a primeira do que se pretende que sejam várias compilações de diferentes artistas e projetos que se identificam com o Jornal MAPA. A ideia é juntar mais uma vez a música e a informação crítica. Cada um@ participa com a doação de um tema próprio, revertendo as receitas desta compilação para o MAPA, descarregando as músicas através da página no Bandcamp.

    Se quiséssemos olhar às origens do jornal, iríamos certamente encontrar gente que se terá cruzado num concerto numa okupa, num qualquer outro espaço animado pelo espírito punk do Faz Tu Mesmo (DIY), ou num bairro de auto-construção das periferias de Lisboa, epicentros de culturas e de lutas. Foram momentos à volta da música livre e comprometida que deram asas ao espírito libertário do qual, anos depois, veio a resultar o MAPA. Por isso, é sabido que haverá sempre uma ligação umbilical da informação com a música. Do Punk, Metal, Rock ao Hip Hop, Reggae, Folk ou à Música Portuguesa Popular, a dita «música de intervenção» – da mais ativista à mais pessoal – não é uma categoria para ser arrumada numa gaveta perdida no tempo, antes persiste nos nossos dias com muita denúncia mas também com muito gozo, lazer e prazer. A criação, à margem do mercado e da indústria musical, é só por si um dos mais belos atos de rebeldia.

    Nesta primeira compilação – já depois da re-edição em CD da k7 VIVER / FESTA, dos C.O.M.A., um coletivo Hip Hop de Carcavelos de finais de 1990, originalmente editada em 1998 – vamos encontrar o rap de Karlon Krioulo, Calla La Orden, Bruce Gee e Boss, juntamente com a rudeza de Scúru Fitchádu, o punk rock de Anarchiks, Albert Fish, Sharp Knives ou o reggae de Freddy Locks.

    KARLON nasceu na Pedreira dos Húngaros e é descendente de cabo-verdianos. Está ativo na cena desde a década de 1990, quando ajudou a fundar os NIGGA POISON, e pode ser considerado um dos veteranos do Hip Hop crioulo em Portugal. Desde essa altura, nunca mais parou e foi criando as suas próprias estruturas, como a editora Kreduson Produson, que celebra hoje os seus 20 anos. Do mesmo modo, BOSS situa-se entre os pioneiros do rap criolo das periferias de Lisboa, oriundo do B.F.H. (Bairro das Fontainhas) e ativo nos MENTIS AFRO, que reclama como sua base o respeito, a solidariedade e a entreajuda. Valores que surgem, nas palavras de Boss, na vida do bairro acossada pela «exclusão social, o abuso policial e as cicatrizes que nos marcaram na perda dos nossos manos nas mãos da policia». Das cumplicidades de quem não se cala, veja-se BOSS ao vivo na Casa Viva no Porto em 2015, junto com os companheiros de Burgos CALLA LA ORDEN, rap anarquista que marca presença igualmente nesta compilação. E, neste mesmo diapasão de hip hop da Música Sem Filtros, junta-se BRUCE GEE, que se apresenta como rapper/ativista Luso-Angolano que compõe as suas músicas com o intuito de informar das injustiças sociais em Angola.

    SCÚRU FITCHÁDU dá voz, igualmente através do crioulo cabo-verdiano, à crescente tomada de posição de critica social das comunidades de descendência africana, através do seu Electro Funaná Punk Hardcore que não tem deixado ninguém indiferente. Como referia ao Jornal MAPA, «sendo filho de uma geração que veio de África na década de 1970, mas nascido em Portugal, vivi na primeira pessoa situações de racismo, verbalmente como fisicamente. Nesta altura, e trabalhando na cultura, vejo racismo todos os dias, que parte de um racismo estrutural. A cultura parece ser um bem comum a todos e que une comunidades. Mas o que vemos é uma capinagem e apropriação cultural para o sumo económico, tudo embrulhado num papel paternalista. O racismo vem camuflado.» Por sua vez, no punk rock no feminino das ANARCHICKS que aparece nesta Música Sem Filtros, somos devidamente avisados da sua irreverência e atitude. No seu recente No Freedom Under Fascist Rules alertam para como «quando, na penumbra e na calada da noite, sentimos o bafejar fétido de um fascismo que pensávamos adormecido, tornou-se urgente lembrarmos que um mundo sem liberdade é um mundo incompleto, violento e que não serve uma sociedade de pessoas iguais nos seus direitos.»

    Em igual e sempre marcada e declarada posição antifascista, encontramos os ALBERT FISH, no ativo desde 1995 e uma referência de sempre do streetpunk e do hardcore português. São perentórios: «Não dissociamos a banda, o punk com que nos identificamos, de uma componente de intervenção social.» O mesmo sucede com os SHARP KNIVES, o anarcopunk folk gerado em Lisboa que dispensa a eletricidade para mostrar a energia da música, ao transpor, como referem, «as nossas esperanças, medos, dúvidas, frustrações, inconsistências e sonhos para as palavras, gritando-os em voz alta como auto-empoderamento, viajando e brincando» e, assim, criando «uma rede de afinidade de amigos, ao mesmo tempo que nos unimos contra todas as formas de autoridade, coerção e opressão». Por fim, resta falar ,nesta primeira compilação do Jornal MAPA, do reggae de FREDDY LOCKS que, a partir do punk e depois no reggae, canta e toca desde 1997 e nunca descurou a importância da atitude interventiva da música e da sua importância para nos aproximarmos em comunidade.

    musica sem filtros

    O nosso desejo de construir comunidade em liberdade é, nesse sentido, o ponto de encontro da música e da informação sem filtros que ouvimos e lemos e a partir da qual não podemos mais deixar de agir.