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Lendo: A cigarra, a formiga e o insecto-insulto

A cigarra, a formiga e o insecto-insulto

A cigarra, a formiga e o insecto-insulto


Leiam um dos melhores momentos de escrita da edição 25 do Jornal MAPA, sobre como as plataformas de tradução e legendagem criaram um novo tipo de trabalhador: o insecto-insulto. Os tempos laborais que virão com Covid-19 reforçam esta leitura.




Prometem a vida airada da cigarra, com a segurança da formiga, mas as plataformas de tradução e e legendagem estão a criar um novo insecto, paranóico e nervoso

lafontainecigalefourmi

6:30 da manhã. Acordo, já em stress, e vou até à sala, para abrir o computador. O café, os dentes lavados, o chichi, fica tudo para depois. Primeiro tenho de fazer log in nas plataformas das agências de tradução e abrir o email para ver se não perdi nada. Não sei o que vou fazer hoje. Ainda estou triste por ter recusado traduzir a série toda do Monstro do Pântano em prol de uma sitcom dos anos 90, mas a sitcom dos anos 90 representou, pela primeira vez em quatro anos no mundo das legendas, uma fonte de trabalho regular. Durante um mês, trabalhei em dois ou três episódios por dia. Só foi chato ter tido de traduzir temporada sim, temporada não. Depois a malta queixa-se da falta de consistência nas legendas e é chato, pois. Por isso, para bem da nação e por orgulho profissional, ainda preenchi um glossário à borla e propus uma tabela de referência, não fosse o Sr. José começar a ser tratado por tu nas temporadas que não eram minhas.

Hoje não tenho nada, excepto um email da companhia americana-com-funcionamento-na-Índia, que me pede, às 3:45 da manhã, para traduzir qualquer coisa para daí a duas horas, apesar de lhes ter dito que só estava disponível das 8 às 20. Boa. Hoje posso tratar de outras coisas da vida, de limpar a casa, ir ao supermercado, quem sabe, até, ao cinema? Não, o cinema não dá. Não posso consultar o email a cada cinco minutos no cinema. Sabem, já perdi trabalhos por causa disso. O tempo médio de que disponho para responder a um email são uns sete segundos. Consegui a tal sitcom porque consultei o email duas vezes de seguida quando estava numa bicha, numa loja de plantas. Foi chato, também isso. Chegou a minha vez de pagar e não podia despachar-me porque tinha de carregar no botão para aceitar o trabalho, escrever cinco códigos, autentificar e coiso e tal, e esperar ter reagido a tempo.

Por isso, o meu dia será assim. Vou alternar as tarefas da casa com a consulta obsessiva do email. Quando for ao café, tenho de ter atenção e ir vendo pelo caminho se chega alguma coisa. Olha! Chegou um email do meu amigo do MAPA. Desafia-me a escrever um texto. Assim sendo, vou deixar as plataformas abertas no fundo do ecrã, a página do email bem à vista, e vou contar-lhe tudo. Ora ouçam.

Quem são estas agências de tradução?

Vou começar por lhe contar um pouco como são os meus dias. Depois, na segunda parte do texto, passo à exposição séria. O problema é que acho que já toda a gente percebeu como funcionam os Ubers (até já há aquele termo horroroso da «uberização»), que a malta que anda aí a distribuir Glovos não tem condições mínimas de trabalho e nem sabe para quem trabalha, e que o maravilhoso mundo da «economia colaborativa», para copiar o que dizia o meu amigo do MAPA, é uma «biscatização» das relações laborais. Mas será que já toda a gente viu até onde vão essas novas formas de trabalho? Eu própria não sei, por isso vou falar do caso das legendas. Hoje em dia toda a gente vê Netflixes, HBOs e afins, não é?

Não lhe vou enviar o texto como se fosse um debate. Não há aqui muito a debater: a solução devia ser clara. Vou antes dizer-lhe que as agências de legendagem para audio-visual são assim umas coisas, todas com nomes parecidos, que trabalham com freelancers de todo o mundo. As agências recrutam através de sites que funcionam como páginas amarelas dos tradutores e aceitam candidaturas espontâneas. A primeira coisa que acontece, independentemente de se fazerem testes de entrada ou não, é a assinatura de um acordo de confidencialidade. Imagino que não seja tanto para garantir que ninguém vende informação sobre a última temporada da Guerra dos Tronos, e mais para garantir que o mar de trabalhadores anónimos não troca informações entre si. Sabe-se lá, ainda ganhavam noção de classe, ou outro horror do género.

Depois, cada língua tem um ou vários «PMs», os «gestores de projectos». Estes PMs, que, nalguns casos, mudam todos os dias, são, frequentemente, as únicas pessoas com nome a que se terá acesso durante todo o tempo de trabalho. Na melhor das hipóteses, são gente bestial e simpática, com quem dá gosto trocar emails, mesmo não lhes vendo a cara. Na pior, são gente que mal articula a língua franca (quase tudo se passa em inglês, claro) e que só responde passados três meses, se responder.

A atribuição de tarefas é feita por email, pelos tais PMs, com os tais sete segundos para responder, ou através das plataformas que convém consultar o dia todo (dizem eles, não eu). Em geral, aparece uma lista de episódios ou filmes, completamente à toa, que o tradutor pode aceitar ao carregar num botão. Com sorte, o prazo ainda não passou e é só para o dia seguinte. Muitas vezes, é para ontem. Já os temas podem ser de tudo, dos filmes pornográficos às corridas de escaravelhos, dos programas sobre peças de motores aos filmes do Hitchcock.

A legendagem é feita de origem, ou seja, com o tradutor a programar também o momento em que as legendas devem surgir no ecrã, ou a partir de modelos em inglês, a ser adaptados para todas as outras línguas. Estes modelos são, só por si, problemáticos. Cá para mim, metade destes textos são escritos por programas de reconhecimento de voz, mas admito que ande a ficar paranóica e que a literacia básica não seja um dos requisitos para quem faz esta tarefa…
A tradução, depois, faz-se com os programas adquiridos por cada pessoa (um programa de tradução decente pode custar entre 1000€ e 2000€ por ano), ou com os programas da companhia, online, nas nuvens, ultra-secretos, e que não permitem ao tradutor guardar a sua tradução.
O pagamento é feito entre um mês e 45 dias depois, por paypal ou equivalente, com regimes de impostos mais ou menos claros, e acabou a história. Talvez venha mais trabalho no dia seguinte, talvez só volte a haver alguma coisa cinco meses mais tarde, talvez não volte a haver, de todo.

Avaliações, competição e anonimato

As traduções são assinadas, ou não, segundo os critérios de cada «cliente final», ou seja, da Disney, Netflix, Apple, etc. Ainda que a Netflix tenha vindo a ditar muitas das regras deste novo mercado, cada companhia gosta de ser diferente e publicar o seu livro de estilo, frequentemente inconcebível.

Fora isso, todo o processo é anónimo e visto como concorrência nas suas diversas etapas. A revisão, que devia ser coisa natural e fundamental para qualquer texto escrito (vocês vão rever este texto, não vão, MAPA?), é feita, não para melhorar o resultado final, mas para tramar o tradutor. Segundo as gralhas, dão-se ou tiram-se pontos. Podia ser pior… uma vez apanhei uma companhia que queria fazer os tradutores pagar vinte cêntimos por gralha, um euro por cada hora de atraso na entrega, e já não sei mais o quê, até que o tradutor se arriscava a pagar pelo trabalho. Mas a coisa mais perversa é que os revisores, também eles tradutores, são incitados a pontuar de forma a desfazer os outros, com a ideia de que terão mais trabalho para eles próprios. E nunca, nunca, nunca, se põe um tradutor em contacto com o respectivo revisor. Credo, que isso ainda dava cabo das estatísticas!

Todo este sistema assenta no anonimato. No dia em que os tradutores passarem a ter colegas, cai o castelo ao chão. Ou seja, as agências, que podiam estar a fomentar os benefícios da discussão e do trabalho conjunto, vivem da competição desenfreada. Os tradutores começam a ter medo de traduzir, não vá um revisor dar um ponto negativo. Eu cá, que já tive este problema no exame nacional de Latim, já lá vão muitos anos, aprendi a lição: deixo notas e comentários onde possível, para explicar cada escolha de tradução que possa parecer mais estranha. Defender antes do ataque e tal. O exemplo do meu exame nacional de Latim até é engraçado. O texto falava sobre a cor das togas. A palavra era ostrum, que eu traduzi por «púrpura».
Perdi um ponto, imaginem, porque o professor que corrigiu queria «da cor da tinta extraída das ostras». É mais ou menos este o nível das revisões nestas agências. Sim, guardei este rancor até ter uma ocasião de falar dele em público. Pronto, já passou. Isto tudo para dizer o quê? Que, tal como no exame nacional, não vemos a pessoa que corrige. Tudo seria mais simples se um tradutor pudesse dizer ao revisor «ó pá, essa das ostras é muito literal!»

Todas estas companhias se estão nas tintas para a qualidade da tradução. Claro que o pilar fundamental deste anonimato e dos acordos de confidencialidade obrigatórios é outro: ninguém pode discutir a tarifa e as condições de trabalho. E haverá sempre alguém disponível a trabalhar por menos. Por curiosidade, conto-vos que a tarifa habitual de base para traduções simples (com modelo), em português europeu, ronda os 2€ por minuto de vídeo. Na vizinha França, dizem as más-línguas que 10€ a 20€ por minuto é normal, ou mesmo o dobro se for um vídeo institucional. Mas o que rende mesmo é trabalhar para o Mélenchon, que esteve aqui há tempos envolvido num escândalo, porque, entre outras coisas, estaria a pagar 200€ por minuto de legendagem à sua directora de campanha. 1Vive la France!

A automatização e a transformação dos tradutores em revisores

Para além do trabalho anónimo e das pontuações, a outra grande moda é vender traduções baratas, com recurso aos programas de tradução automática. Quem já usou o Google Translate, por exemplo, sabe que o que sai daquele forno não está pronto a consumir. Qual é a solução do mercado das traduções? Pagar aos tradutores para rever os textos automáticos. Não estou a falar das «memórias de tradução», ferramenta útil nalguns ramos em que as nuances e subtilezas da linguagem não contam. Estou mesmo a falar de pagar uns tostões a alguém para rever uma tradução do Google, pagar mais uns tostões a alguém para pontuar essa revisão, manter os tradutores sempre com pontuações baixas, e pagar sempre o menos possível.

O meu primeiro encontro com este mundo foi uma agência portuguesa chamada Unbabel, que se gabava de pagar pouco aos tradutores. Para estes senhores, um texto é uma coisa que se pode dividir em blocos, e cada parágrafo pode ser dado a um tradutor diferente, para fazer no metro ou na paragem de autocarro. É importante estar sempre a fazer dinheiro, não é? Uma pequena visita ao site deles ilustra tudo isto, mas com a linguagem da moda do mundo dos empreendedores. Pessoalmente, adoro o testemunho de um dos clientes: «A Unbabel funciona de forma ágil e o elemento humano proporciona realmente uma sensação de segurança. Os nossos clientes estão claramente mais felizes.» Olha que bem, o elemento humano.
O mundo das legendas estava relativamente livre disto, dado o facto de que a linguagem oral tem de ser resumida, reinterpretada ou desenvolvida para ser transformada em texto legível. Não me posso esquecer de dizer ao meu amigo que não se preocupe, que já toda a gente começou a receber emails das agências a anunciar o futuro da tradução automática. «Adaptem-se, ou vão ao ar» é o tom geral das mensagens.

Cesar Monteiro

A concorrência do mercado dos fãs e as «ameaças à profissão»

Mas não é isso que mete medo a muitos dos tradutores. O que me leva ao assunto da organização das pessoas que se meteram nesta profissão. Hoje em dia, passa-se quase tudo online, claro, com grupos vários no Facebook ou em sites especializados. Para muitos, a «desvalorização da profissão» faz-se ao «deixar entrar toda a gente», em vez de se fechar o mundo a quem tenha um canudo especial e vinte cursos de técnicas disto e daquilo. O medo resulta da existência de um mundo paralelo de traduções de programas e filmes feitas por fãs (como se costuma chamar-lhes), como na base de dados do site Addic7ed.com. A ideia é que, enquanto houver fãs a trabalhar à borla, os preços baixarão sem parar.

Aqui confunde-se, acho eu, o problema das qualificações reais para fazer qualquer coisa (sim, toda a gente acha que sabe traduzir, mas a competência real é verificável com testes e demonstrações práticas, assunto arrumado), o problema do «trabalho» por prazer (eu cá, revejo à borla para o MAPA e não estou a roubar trabalho a ninguém, porque não é um trabalho que fosse ser pago, para começar) e o problema da exploração do trabalho real. Não é a existência de traduções à borla que faz com que a Cinemateca tenha reduzido para metade os preços que pagava aos tradutores há dez anos, ou que faz com que o Paulo Branco demore mais de um ano a pagar a quem trabalha para ele, ou que a maior parte dos festivais contrate quem cobra menos, mesmo que a qualidade seja duvidosa (achavam que não ia tocar em exemplos nacionais? Das agências locais, no entanto, não posso falar, mas não me parecem muito diferentes das internacionais). O que faz com que a Cinemateca, o Paulo Branco e os Festivais Variados explorem os trabalhadores é o desprezo que têm por um serviço tantas vezes anónimo e tantas vezes feito nas piores condições, sem guião, com cópias velhas, e sem a oportunidade de ouvir o som nas melhores condições. A tradução transformou-se no biscate para estudantes ou diletantes e dizer mal dos próprios tradutores tornou-se regra. Rancor n.º 2, ouvido na Cinemateca: «Não vamos pôr Racine nas mãos dos nossos tradutores». E o senhor merece uma resposta em alexandrinos.

Aqui, o meu amigo do MAPA vai dizer que estou a divagar. Deve estar aborrecido e sem vontade de ler legendas. É assim como os filmes sobre a produção alimentar que deixam toda a gente meio enjoada com a comida por uns dias. E eu devia era fazer um intervalo para ver se chegou trabalho. Esperem aí…
Já está. Não havia nada. Deve ser porque é meio do semestre.
O meu amigo tem razão, dizia eu. Era suposto estar a falar das formas de organização dos tradutores. Não havendo nenhum sindicato sobre o assunto em Portugal, criou-se recentemente uma associação para tradutores do audio-visual. Tem só dois ou três meses, acreditem ou não. Ainda é cedo para falar das suas propostas e áreas de intervenção, sobretudo num ramo onde muito do trabalho se passa no estrangeiro (já agora, em França, os tradutores recebem direitos de autor sobre os filmes que legendam). Por enquanto, a grande medida foi promover um software qualquer, com desconto no preço. Já ajuda, imagino. Mas como se combate um patrão sem cara? Será esta associação capaz de transformar alguma coisa, pelo menos a nível local? Os meus anos de optimismo passaram. A ameaça real à profissão é, obviamente, a produção desenfreada, o mercado instável, a precaridade dos seus trabalhadores, a falta de contratos, a impunidade dos donos das empresas. A ameaça real à profissão é a ameaça real a tantas profissões hoje em dia. As Netflixes e assim são companhias com escala mundial, que delegam em muitas outras empresas cada uma da etapas que lhes permitem viver.

Da revolta contra os patrões passámos a ter revolta no vazio, sem patrões identificáveis nem colegas, nem sequer um país certo onde esta guerra se possa travar. Se calhar, ou mesmo muito provavelmente, a resposta a tudo isto passa pela coordenação destas profissões invisíveis. A malta dos biscates devia conversar. Afinal, o sistema sinistro a combater é o mesmo.

Um mundo Candy Crush

Resumindo, e sem conclusão, porque isto é só um esboço daquele texto bestial que ia escrever para o meu amigo. Prometem-nos a vida airada da cigarra, com a segurança da formiga: «faça 1000 dólares por mês a ver TV!». Na verdade, estão a criar uma nova espécie de insecto, em stress permantente. Num mundo de aplicações e jogos, até carregar no botão para aceitar trabalho se torna um jogo perverso e viciante, em que o dinheiro é transferido por uma entidade estranha e aparecem umas barras de ouro no canto do ecrã. «Mas ainda posso fazer mais uns trocos este mês, caso não tenha nada na Primavera», e lá estamos nós a aceitar trabalhar mais um dia de seguida, que as folgas são para quem tem contrato. Já não falamos na cigarra e na formiga. Nasceu um outro insecto qualquer, paranóico e nervoso, com medo de não poder estar doente e de nunca vir a ter reforma. O Alexandre O’Neill falava no insecto-insulto. Vamos roubar-lhe o nome. E vamos assinar este texto como «Albertina», por causa dos acordos de confidencialidade.

Texto de Albertina

Notas:

  1. Simplifico, claro. Mas, se não acreditam em mim e querem o escândalo todo, podem ver aqui: https://www.franceculture.fr/politique/sophia-chikirou-une-campagne-de-bonnes-factures

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Jornal Mapa

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