Etiqueta: cinema

  • 4 de Julho: Jornada Anarquista de Cinema em Lisboa

    4 de Julho: Jornada Anarquista de Cinema em Lisboa

    É com espírito de insubmissão que nasce a 1ª Jornada Anarquista de Cinema, organizada pelo Jornal MAPA em parceria com a Casa da Achada. Propomos cinema de resistência sob a lógica «faz tu mesm@» (DIY), livre de barreiras académicas, institucionais ou profissionalizantes.

    Queremos tornar visíveis experiências silenciadas, corpos esquecidos, resistências abafadas, aproximar povos, fortalecer redes de apoio mútuo e romper o isolamento que nos querem impor. Queremos lutar por melhores condições de vida ou pela destruição das existentes, e incitar à solidariedade e aos valores humanos e revolucionários que estão em nós.

    Propomos assim também cultivar um espaço de encontro, de organização coletiva e de solidariedade entre diferentes pessoas e comunidades em luta, reunidas à volta de filmes, debates e bancas.

    + info em breve em jornalmapa.pt e em redes da resistência!

    JORNADA ANARQUISTA DE CINEMA

    4 JULHO 2026

    CASA DA ACHADA, LISBOA

    Contacto: cinemaanarquista@proton.me

  • Fulgor animal

    Fulgor animal

    Escolhi viver muito com animais, não por estar desiludida dos homens, mas por crer nos animais; entre os homens e a terra, encontro neles o meu repouso, descubro que eles têm um código que nos será útil decifrar juntos.
    Maria Gabriela Llansol

    Os Fulgores de Outono são sobre a convivência: convivência animal, mineral e vegetal. Este texto envereda brevemente pelos trilhos da convivência animal, correndo o risco de mal os aflorar.

    Para o Fulgor Animal convocámos dois filmes em que o javali e as javalis são protagonistas: Va, Toto!, de Pierre Creton, e Notes for Les Sanglières, de Elsa Brès. Brès e Creton são autores de gerações, géneros, e estéticas distintas, mas têm em comum uma abordagem situada, e de longo alcance, com as comunidades e os lugares onde escolheram habitar no mundo rural francês. Se os pomos em relação, através destes filmes, é porque nos interessa propor uma convivência interespecífica, através de narrativas guiadas pelo desejo e pela possibilidade de uma partilha entre humanos e animais, a contrapelo de narrativas de discórdia e de dominação.

    Pierre Creton, cineasta, agricultor, pintor de domingo, vive em Vattetot-sur-mer, na Normandia, onde filma o seu território e o seu quotidiano. Va, Toto! é da ordem da fábula ou do conto de fadas, e entrelaça três histórias. A primeira, e a que nos parece formalmente mais interessante, com o ecrã dividido em dois (splitscreen), em forma de livro ilustrado, é a história de Tótó, o javali adoptado por Madeleine. Madeleine é vizinha de Pierre Creton, e vinte anos antes tinha-se recusado a ser filmada por ele. Com o aparecimento de Tótó, Madeleine não só aceita como convida Pierre a entrar na sua vida de câmara em mãos. Creton diz-nos que esta longa espera está de acordo com a sua ideia de território: “é preciso paciência, observação, deixar as coisas acontecerem ao seu ritmo e à sua maneira. Incluindo os animais, porque foi a chegada súbita do Tótó que deu início a tudo.” Tótó devém animal de companhia, e vai crescendo em coexistência com o cão, com o cavalo, com as numerosas galinhas, com os humanos ao redor. É possível esta convivência? É, bem o sabemos, mas não é duradoura: logo virá o caçador, virá a lei…

    A segunda história é a de Vincent, companheiro de Pierre, que tem uma obsessão com macacos e viaja até à Índia ao seu encontro. A terceira é povoada por gatos, que entram e saem dos sonhos translúcidos de Joseph, outro vizinho de Pierre, trabalhador rural ligado a uma máquina respiratória. O sono e o sonho, as aparições e as desaparições ecoam por todo o filme, bem como a figura do duplo e o corpo.

    O elo entre as três histórias é Pierre, com as suas relações de proximidade e vizinhança, mas também o animal, esse outro que nos é tão próximo, e que, com Llansol, intuímos que possui «um código que nos será útil decifrar juntos».

    O que seria estabelecer uma aliança com javalis? Quem teria interesse nesta aliança? Talvez aqueles que são excluídos da propriedade privada.

    Em Notes for Les Sanglières, a artista Elsa Brès ensaia uma aproximação às javalis, enquanto bando de guerrilheiras, e aos seus movimentos nocturnos pelo território das Cévennes. Encontra nelas a potência de quem não reconhece a propriedade privada. Como o título antecipa, estas notas, ou imagens em fragmentos, pressupõem um filme por vir: Les Sanglières. Agrada-nos que o processo de investigação artística que conduz a este filme (agora em pós-produção), se materialize em diversos vídeos, instalações, cartazes, objectos, que abraçam a sua incompletude e a multiplicam, e são fruto de uma escrita colectiva.

    O que seria estabelecer uma aliança com javalis? Quem teria interesse nesta aliança? Talvez aqueles que são excluídos da propriedade privada. Como adoptar o ponto de vista do animal? O que significa adoptar o ponto de vista do javali como espécie? Para Elsa Brès: “o javali pode ser um aliado na reflexão sobre as lutas anti-capitalistas/anti-patriarcais contemporâneas, se nos colocarmos ao seu lado, no seu lugar. Esta ideia de aliança levanta então questões sobre o que liga o homem e o animal, especialmente a partir deste ambiente particular que é a floresta.” Coloca também questões de como filmar javalis, não como objecto de estudo mas como companheiros, a questão essencial de como fazer um filme «com, ou falar perto, e não sobre». Brès envereda por uma abordagem física e sensorial, recorrendo a ferramentas de mapeamento especulativo para antecipar os movimentos das javalis. Figura de recusa nómada e sem fronteiras.

    Em Mértola, no Cineteatro Marques Duque, iniciámos o fulgor com Notes for Les Sanglières e continuámos com Va, Toto!. Em São Luís invertemos a ordem. Para o Fulgor de São Luís, no Palheiro da Cultivamos Cultura, convidámos caçadores e o grupo de cooperação com animais da comunidade de Tamera. Ouvimos que há demasiados javalis, que não têm predador, destroem tudo. Ouvimos que também adoptaram um javali que perdeu a mãe, e que depois ao crescer foi à sua vida. Ouvimos que seguem as suas pistas e apanham os seus ossos pela floresta. Ouvimos que caminham lado a lado, no escuro, sem se verem, só ruído e co-presença. Ouvimos que se falarmos com os javalis eles poupam as hortas e até sulcam a terra, preparando-a para a sementeira. Não havia fogueira, mas em torno destes filmes, houve vagar para escutar as histórias de convivência com javalis, que quase todas tínhamos para partilhar.

    Num território em que os cães fazem parte das aldeias, e os seus nomes são por todos conhecidos, cabras, ovelhas, porcos e vacas são domesticadas, em que se chega à cooperativa de burro, e se ensaiam processos de cura com cavalos e sapos, selvagens são os lacraus, as ginetas, os saca-rabos, as raposas, os javalis…Os seres que não se deixam domesticar, nem governar. (O almejado lince ainda não vimos.)

    Podem animais e humanos coexistir pacificamente, perguntamos, para além das relações de poder, dominação, submissão e domesticação?

    Enquanto escrevemos, chegam-nos os uivos do animal companheiro que estamos a curar, mordido por javalis lá para os lados da ribeira do Torgal. Penso em Val Plumwood e no seu encontro com o crocodilo no parque nacional de Kakadu, penso em Nastassja Martin e na sua luta com o urso nas montanhas da Camecháteca, penso em todas as fronteiras implodidas e por implodir entre os mundos, e penso em Lin May Saee, que este ano nos deixou, e que dedicou toda a sua obra artística à libertação animal.

    Repetimos que a oferenda destes filmes é a convivência, a potência de uma vida partilhada com os animais. Volvidos dois dias destes fulgores houve em São Luís uma montaria com 50 caçadores. Nenhum javali foi morto.

     


    Texto de  Sílvia das Fadas
    Legenda da fotografia [em destaque]: cinemafulgor.org, poster do evento.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #39, Outubro|Dezembro 2023.

  • Férteis Periferias

    Férteis Periferias

    Por um cinema combativo, que informe e transforme a sociedade

    O Periferias – Festival Internacional de Cinema de Marvão e Valência de Alcântara chega este ano, em Agosto, à sua 10ª edição. Produção colectiva dum evento cinematográfico ao ar livre, em aldeias e lugares históricos da fronteira luso-espanhola, tem por base um projecto de descentralização cultural dirigido prioritariamente às comunidades rurais. De natureza itinerante, o Periferias dá vida ao espaço público, escolhendo cenários inesperados como uma desactivada estação da CP, uma antiga alfândega, um lagar de azeite ou as ruínas duma cidade romana. A sua aposta centra-se no cinema documental e de autor, abrangendo direitos humanos, arte e meio ambiente.

    Festival organizado de forma participativa e inclusiva, tendo em conta o carácter social, histórico e ambiental do seu contexto, constitui um elemento dinamizador das economias locais e um excelente embaixador da identidade sociocultural dum território transfronteiriço. Associa o cinema e as artes à participação cidadã e ao desenvolvimento rural, representando um novo canal de difusão da cultura em áreas rurais menos expostas aos circuitos formais de produção, exibição e distribuição de filmes. Falámos, em Marvão, com a sua criadora e directora, Paula Andrea Duque Giraldo, cidadã colombiana e do mundo que há mais de uma década, por amor, se fixou nesta região.

    Como começou o Periferias? Foi um desejo pessoal?

    Começou num almoço em Sevilha, em conversa com Mane Cisneros, directora do Festival de Cinema Africano de Tarifa-Tânger (FCATT), que admiro profundamente e que acompanha a minha vida pessoal e profissional há mais de vinte anos.

    Estávamos em 2011 e eu preparava-me para uma grande mudança: sair de Sevilha, onde morava, para viver em Marvão e empreender uma nova existência criando uma família. Nunca tinha estado em Marvão, nem decidi mudar de vida por querer morar no campo ou desligar-me do mundo urbano. Aconteceu, a vida trouxe-me para aqui por amor, e amor foi o que recebi.

    A falta de estruturas culturais no mundo rural e de acesso a programações independentes de qualidade levou-me a criar este festival, não só por desejo, mas também por necessidade. Oriunda do estudo das Humanidades e sendo a cultura uma construção social, comecei a geri-la identificando os problemas e necessidades da comunidade e do território onde passei a viver. Mas não tinha pensado que isto se iria converter numa das minhas grandes paixões.

    Nunca fui cinéfila, mas aprendi a ser amante do cinema africano, graças ao meu vínculo com o FCATT durante mais de quinze anos. Gosto do bom cinema, mas sobretudo aprecio o cinema combativo, que informe e transforme a sociedade.

    Quando lançaste o festival, que objectivo tinhas em mente? A temática central foi desde o início os direitos humanos?

    Em 2013, quando lançámos a primeira edição, eu e o José Conde, o meu companheiro [admirável músico, natural de Portalegre], não pensámos que íamos fazer um festival de cinema que perdurasse. Não partimos dum projecto previamente modelado, mas da nossa situação, procurando identificar o potencial do que estávamos a fazer e como desenvolvê-lo. Foi um processo de relacionamento com a comunidade territorial.

    O nosso propósito era simples: partilhar uma selecção de filmes extraordinários, aproveitando o fundo fílmico que tínhamos do FCATT, com o qual colaborava havia mais de doze anos. Começámos com uma forte programação de cinema africano de língua portuguesa e suas diásporas, nas pequenas aldeias do concelho de Marvão, com obras tão relevantes como Virgem Margarida, de Licínio Azevedo (Angola-Moçambique), Terra Sonâmbula, de Teresa Prata (Moçambique-Portugal) ou Moro no Brasil, de Mika Kaurismäski (diáspora africana do Brasil). Começámos assim a exibir obras com uma componente cultural e social muito marcante, que foi definindo a linha programática do festival.

    Os objectivos foram-se descobrindo conforme íamos conhecendo o território transfronteiriço, e descobrindo, sobretudo, como a linha invisível duma fronteira física e imaginária, como é a da raia entre Portugal e Espanha, separava duas culturas.

    os objectivos foram-se descobrindo conforme íamos conhecendo o território transfronteiriço, e descobrindo, sobretudo, como a linha invisível duma fronteira física e imaginária.

    Os preços dos bilhetes são muito acessíveis e por vezes as entradas são grátis. Como consegue o festival financiar-se?

    Os preços são acessíveis para a programação no seu conjunto; não apenas para ver um filme, mas também para desfrutar dum concerto ou duma actividade destinada a conhecer melhor o património natural da região. Partimos do princípio de que o direito à cultura deve ser universal e gratuito; ter bilhetes pagos ajuda-nos a melhorar os conteúdos e a reforçar a estrutura organizativa.

    O festival conta com uma rede de patrocínios, em Portugal e Espanha, que se têm consolidado com o tempo, os quais vêem no Periferias um contributo para o estreitamento de laços entre o Alentejo e a Estremadura espanhola. Mas este financiamento é básico e escasso, tendo em conta tudo o que fazemos ao longo de um ano.

    Nesta região, quando começaste, o hábito popular de ir ao cinema já devia ser quase inexistente, se é que existia. Como foi a recepção inicial, nos primeiros anos?

    Creio que uma proposta como o Periferias marcou um antes e um depois na vida cultural dos marvanenses, porque não havia aqui nada no sentido de descentralizar a cultura, mesmo dentro do próprio município. Criando uma estrutura de cinema itinerante, não só propúnhamos uma programação cuidada e para todos os públicos, como levávamos outras pessoas a aproximarem-se das aldeias. Conhecemos pessoas que nunca tinham ido a um cinema.

    Nos primeiros anos, sem deixar de trazer obras internacionalmente premiadas, centrámo-nos na parte mais etnográfica e fizemos para a nossa programação uma extensa busca de cinema documental, desejando recuperar todo o material possível sobre o património cultural alentejano, as suas gentes, saberes e tradições, levando ao mesmo tempo os forasteiros a compreender esta ampla geografia. Queríamos que o cinema nos falasse da memória histórica dos seus habitantes e que fizesse uma ponte com as novas gerações que aqui chegavam, como era o meu caso. A aceitação foi formidável: o Periferias passou a ser um encontro iniludível.

    Outro factor determinante foi a reivindicação do espaço público, porque não só fazíamos projecções ao ar livre, como começámos também a dar vida ao património natural e arquitectónico da região, incluindo espaços públicos fechados ou esquecidos durante décadas, como a emblemática Alfândega e sítios como La Fontañera, situada no percurso histórico do contrabando e da resistência ao fascismo e onde, nas projecções, o ecrã fica em Espanha e a plateia em Portugal.

    Começámos igualmente a pôr em ligação o tecido associativo de ambos os países, para levar a cabo iniciativas em conjunto, como foi o caso da Cruz Vermelha, de associações ambientalistas ou de pessoas com mobilidade reduzida, que nunca se tinham conhecido ou não tinham tido oportunidade de saber como se faziam as coisas no país vizinho. Dessas experiências resultaram projectos conjuntos.

    Como passou o Festival de Cinema de Marvão a ser também de Valência de Alcântara?

    Logo no seu terceiro ano, o Periferias passou a ser também da Estremadura espanhola. Não só porque as pessoas que vivem na fronteira entendem os dois países como um território, mas também porque não fazia sentido desaproveitar esta potencialidade, estando o país vizinho a 20 km. A participação espanhola foi iminente, porque há ali uma cultura da rua e da vida social fora de casa que suscita um acesso mais activo a conteúdos culturais, facilitando-nos a criação de públicos mais diversos. Além das povoações próximas de Valência, o Periferias acolhe pessoas vindas de Madrid, Sevilha, Badajoz, Cáceres.

    Por outro lado, o apoio da Comunidade Autónoma da Estremadura foi incisivo para a consolidação do festival, que passou a ser reconhecido nacionalmente pelo Ministério da Cultura espanhol e se tornou uma referência importante no sector cultural estremenho, posicionando-se entre os melhores festivais da região. Um governo descentralizado como este permitiu uma comunicação mais horizontal, directa e activa entre as instituições e a estrutura cultural, tornando possível, com o tempo, dar continuidade e estabilidade ao nosso festival.
    Da parte portuguesa contamos com o apoio incondicional do município de Marvão, que desde o início apostou neste projecto e constitui a sua base fundamental, e também com o valioso apoio de Cultura do Alentejo e dos municípios aderentes (Arronches, Campo Maior e também aldeias transfronteiriças).

    Mas tenho de confessar que trabalhar em prol da cultura em Portugal não é fácil. Não se valorizam devidamente os projectos culturais independentes e ainda menos os que se realizam nos meios rurais; vemo-nos perante muita precariedade, a cultura é encarada como algo de meramente espectacular e momentâneo.

    Julgo ser urgente reflectir sobre a centralização das práticas culturais nos núcleos urbanos. Há espaços que têm sentido ali, mas o mundo rural não deve passar para segundo plano. No nosso caso, nem sequer podemos candidatar-nos a projectos europeus como o Europa Criativa, porque as nossas características não se encaixam em coisas concebidas para grandes massas ou estruturas que permitem a contratação de colaboradores durante todo o ano.

    Precisamos de uma «Europa Criativa» mais próxima do mundo rural, que conheça as nossas necessidades e trabalhe com as pessoas que habitam no território. São também necessárias políticas transversais que saibam aproveitar culturalmente o potencial existente na ruralidade. É importante dizer que as instituições públicas não podem esquecer as necessidades das pessoas que trabalham neste sector, amiúde com rendimentos paupérrimos que as impedem de garantir a sua actividade.

    Um festival como o Periferias exige muita preparação. Como se processa isso?

    Começámos com uma pequena estrutura de amigos, de que faz parte, desde o início, o Carlos Baptista. Presentemente, temos duas associações culturais, uma em Portugal (Periferias) e outra em Espanha (Gato Pardo). Contamos com uma equipa de 18 pessoas, que abarcam a pré-produção, produção e pós-produção do festival ao longo de todo o ano, sem deixar de contar com o apoio das câmaras municipais e da população local. A nossa equipa é a mesma desde há dez anos, embora tenham colaborado muitas pessoas.

    E a internacionalidade do festival, que começa logo na sua programação?

    Esta internacionalidade é profundamente raiana, com um fundo e uma mensagem sociopolítica muito fortes. Encaro o Periferias como uma estrutura permeável e viva, onde se habita o comum e onde há um imaginário de fronteira partilhado . Onde desenvolvemos um vínculo de pertença e participação cidadã colectiva.

    Como tem sido a relação do Periferias com os e as cineastas seleccionados?

    A melhor possível. De início não dispúnhamos de meios para os convidar; só para pagar os direitos dos filmes e fazer com que eles chegassem às pessoas. Mas muitos vieram por conta própria, o que sempre nos alegrou. Têm passado pelo nosso festival cineastas tão especiais como Diana Gonçalves, Sérgio Tréfaut, João Salaviza, Nick Willi (filho de Paula Rego), Mariana Gaivão, Victor Hugo Costa, Alejandro Gonzales Salgado. A Agnès Varda desejou muito vir, mas infelizmente a falta de saúde já não lho permitiu.

    O Periferias foi pensado para decorrer em Agosto, ou este mês foi escolhido para permitir as suas diversas particularidades?

    São diversas, de facto, as nossas particularidades, porque nos tornámos uma plataforma cultural onde estamos conscientes da inter-relação do ecossistema social, ambiental e político em que habitamos e da importância do comunitário.

    O festival tinha de ser em Agosto porque andamos com toda a estrutura às costas, transportada numa furgoneta, e, claro, tinha de estar bom tempo… Também porque era o período de férias de muitos dos integrantes da nossa equipa luso-espanhola, e até de María Orellana e Manolo Ruiz, alma do festival, que vêm de Cádis, todos os anos, e cujo empenhamento tem sido uma das forças para nos mantermos.

     


    Paula Duque entrevistada por Joëlle Ghazarian e Júlio Henriques


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #34, Maio|Julho 2022.

  • A cigarra, a formiga e o insecto-insulto

    A cigarra, a formiga e o insecto-insulto

    Leiam um dos melhores momentos de escrita da edição 25 do Jornal MAPA, sobre como as plataformas de tradução e legendagem criaram um novo tipo de trabalhador: o insecto-insulto. Os tempos laborais que virão com Covid-19 reforçam esta leitura.




    Prometem a vida airada da cigarra, com a segurança da formiga, mas as plataformas de tradução e e legendagem estão a criar um novo insecto, paranóico e nervoso

    lafontainecigalefourmi

    6:30 da manhã. Acordo, já em stress, e vou até à sala, para abrir o computador. O café, os dentes lavados, o chichi, fica tudo para depois. Primeiro tenho de fazer log in nas plataformas das agências de tradução e abrir o email para ver se não perdi nada. Não sei o que vou fazer hoje. Ainda estou triste por ter recusado traduzir a série toda do Monstro do Pântano em prol de uma sitcom dos anos 90, mas a sitcom dos anos 90 representou, pela primeira vez em quatro anos no mundo das legendas, uma fonte de trabalho regular. Durante um mês, trabalhei em dois ou três episódios por dia. Só foi chato ter tido de traduzir temporada sim, temporada não. Depois a malta queixa-se da falta de consistência nas legendas e é chato, pois. Por isso, para bem da nação e por orgulho profissional, ainda preenchi um glossário à borla e propus uma tabela de referência, não fosse o Sr. José começar a ser tratado por tu nas temporadas que não eram minhas.

    Hoje não tenho nada, excepto um email da companhia americana-com-funcionamento-na-Índia, que me pede, às 3:45 da manhã, para traduzir qualquer coisa para daí a duas horas, apesar de lhes ter dito que só estava disponível das 8 às 20. Boa. Hoje posso tratar de outras coisas da vida, de limpar a casa, ir ao supermercado, quem sabe, até, ao cinema? Não, o cinema não dá. Não posso consultar o email a cada cinco minutos no cinema. Sabem, já perdi trabalhos por causa disso. O tempo médio de que disponho para responder a um email são uns sete segundos. Consegui a tal sitcom porque consultei o email duas vezes de seguida quando estava numa bicha, numa loja de plantas. Foi chato, também isso. Chegou a minha vez de pagar e não podia despachar-me porque tinha de carregar no botão para aceitar o trabalho, escrever cinco códigos, autentificar e coiso e tal, e esperar ter reagido a tempo.

    Por isso, o meu dia será assim. Vou alternar as tarefas da casa com a consulta obsessiva do email. Quando for ao café, tenho de ter atenção e ir vendo pelo caminho se chega alguma coisa. Olha! Chegou um email do meu amigo do MAPA. Desafia-me a escrever um texto. Assim sendo, vou deixar as plataformas abertas no fundo do ecrã, a página do email bem à vista, e vou contar-lhe tudo. Ora ouçam.

    Quem são estas agências de tradução?

    Vou começar por lhe contar um pouco como são os meus dias. Depois, na segunda parte do texto, passo à exposição séria. O problema é que acho que já toda a gente percebeu como funcionam os Ubers (até já há aquele termo horroroso da «uberização»), que a malta que anda aí a distribuir Glovos não tem condições mínimas de trabalho e nem sabe para quem trabalha, e que o maravilhoso mundo da «economia colaborativa», para copiar o que dizia o meu amigo do MAPA, é uma «biscatização» das relações laborais. Mas será que já toda a gente viu até onde vão essas novas formas de trabalho? Eu própria não sei, por isso vou falar do caso das legendas. Hoje em dia toda a gente vê Netflixes, HBOs e afins, não é?

    Não lhe vou enviar o texto como se fosse um debate. Não há aqui muito a debater: a solução devia ser clara. Vou antes dizer-lhe que as agências de legendagem para audio-visual são assim umas coisas, todas com nomes parecidos, que trabalham com freelancers de todo o mundo. As agências recrutam através de sites que funcionam como páginas amarelas dos tradutores e aceitam candidaturas espontâneas. A primeira coisa que acontece, independentemente de se fazerem testes de entrada ou não, é a assinatura de um acordo de confidencialidade. Imagino que não seja tanto para garantir que ninguém vende informação sobre a última temporada da Guerra dos Tronos, e mais para garantir que o mar de trabalhadores anónimos não troca informações entre si. Sabe-se lá, ainda ganhavam noção de classe, ou outro horror do género.

    Depois, cada língua tem um ou vários «PMs», os «gestores de projectos». Estes PMs, que, nalguns casos, mudam todos os dias, são, frequentemente, as únicas pessoas com nome a que se terá acesso durante todo o tempo de trabalho. Na melhor das hipóteses, são gente bestial e simpática, com quem dá gosto trocar emails, mesmo não lhes vendo a cara. Na pior, são gente que mal articula a língua franca (quase tudo se passa em inglês, claro) e que só responde passados três meses, se responder.

    A atribuição de tarefas é feita por email, pelos tais PMs, com os tais sete segundos para responder, ou através das plataformas que convém consultar o dia todo (dizem eles, não eu). Em geral, aparece uma lista de episódios ou filmes, completamente à toa, que o tradutor pode aceitar ao carregar num botão. Com sorte, o prazo ainda não passou e é só para o dia seguinte. Muitas vezes, é para ontem. Já os temas podem ser de tudo, dos filmes pornográficos às corridas de escaravelhos, dos programas sobre peças de motores aos filmes do Hitchcock.

    A legendagem é feita de origem, ou seja, com o tradutor a programar também o momento em que as legendas devem surgir no ecrã, ou a partir de modelos em inglês, a ser adaptados para todas as outras línguas. Estes modelos são, só por si, problemáticos. Cá para mim, metade destes textos são escritos por programas de reconhecimento de voz, mas admito que ande a ficar paranóica e que a literacia básica não seja um dos requisitos para quem faz esta tarefa…
    A tradução, depois, faz-se com os programas adquiridos por cada pessoa (um programa de tradução decente pode custar entre 1000€ e 2000€ por ano), ou com os programas da companhia, online, nas nuvens, ultra-secretos, e que não permitem ao tradutor guardar a sua tradução.
    O pagamento é feito entre um mês e 45 dias depois, por paypal ou equivalente, com regimes de impostos mais ou menos claros, e acabou a história. Talvez venha mais trabalho no dia seguinte, talvez só volte a haver alguma coisa cinco meses mais tarde, talvez não volte a haver, de todo.

    Avaliações, competição e anonimato

    As traduções são assinadas, ou não, segundo os critérios de cada «cliente final», ou seja, da Disney, Netflix, Apple, etc. Ainda que a Netflix tenha vindo a ditar muitas das regras deste novo mercado, cada companhia gosta de ser diferente e publicar o seu livro de estilo, frequentemente inconcebível.

    Fora isso, todo o processo é anónimo e visto como concorrência nas suas diversas etapas. A revisão, que devia ser coisa natural e fundamental para qualquer texto escrito (vocês vão rever este texto, não vão, MAPA?), é feita, não para melhorar o resultado final, mas para tramar o tradutor. Segundo as gralhas, dão-se ou tiram-se pontos. Podia ser pior… uma vez apanhei uma companhia que queria fazer os tradutores pagar vinte cêntimos por gralha, um euro por cada hora de atraso na entrega, e já não sei mais o quê, até que o tradutor se arriscava a pagar pelo trabalho. Mas a coisa mais perversa é que os revisores, também eles tradutores, são incitados a pontuar de forma a desfazer os outros, com a ideia de que terão mais trabalho para eles próprios. E nunca, nunca, nunca, se põe um tradutor em contacto com o respectivo revisor. Credo, que isso ainda dava cabo das estatísticas!

    Todo este sistema assenta no anonimato. No dia em que os tradutores passarem a ter colegas, cai o castelo ao chão. Ou seja, as agências, que podiam estar a fomentar os benefícios da discussão e do trabalho conjunto, vivem da competição desenfreada. Os tradutores começam a ter medo de traduzir, não vá um revisor dar um ponto negativo. Eu cá, que já tive este problema no exame nacional de Latim, já lá vão muitos anos, aprendi a lição: deixo notas e comentários onde possível, para explicar cada escolha de tradução que possa parecer mais estranha. Defender antes do ataque e tal. O exemplo do meu exame nacional de Latim até é engraçado. O texto falava sobre a cor das togas. A palavra era ostrum, que eu traduzi por «púrpura».
    Perdi um ponto, imaginem, porque o professor que corrigiu queria «da cor da tinta extraída das ostras». É mais ou menos este o nível das revisões nestas agências. Sim, guardei este rancor até ter uma ocasião de falar dele em público. Pronto, já passou. Isto tudo para dizer o quê? Que, tal como no exame nacional, não vemos a pessoa que corrige. Tudo seria mais simples se um tradutor pudesse dizer ao revisor «ó pá, essa das ostras é muito literal!»

    Todas estas companhias se estão nas tintas para a qualidade da tradução. Claro que o pilar fundamental deste anonimato e dos acordos de confidencialidade obrigatórios é outro: ninguém pode discutir a tarifa e as condições de trabalho. E haverá sempre alguém disponível a trabalhar por menos. Por curiosidade, conto-vos que a tarifa habitual de base para traduções simples (com modelo), em português europeu, ronda os 2€ por minuto de vídeo. Na vizinha França, dizem as más-línguas que 10€ a 20€ por minuto é normal, ou mesmo o dobro se for um vídeo institucional. Mas o que rende mesmo é trabalhar para o Mélenchon, que esteve aqui há tempos envolvido num escândalo, porque, entre outras coisas, estaria a pagar 200€ por minuto de legendagem à sua directora de campanha.[ref] Simplifico, claro. Mas, se não acreditam em mim e querem o escândalo todo, podem ver aqui: https://www.franceculture.fr/politique/sophia-chikirou-une-campagne-de-bonnes-factures.  [/ref]Vive la France!

    A automatização e a transformação dos tradutores em revisores

    Para além do trabalho anónimo e das pontuações, a outra grande moda é vender traduções baratas, com recurso aos programas de tradução automática. Quem já usou o Google Translate, por exemplo, sabe que o que sai daquele forno não está pronto a consumir. Qual é a solução do mercado das traduções? Pagar aos tradutores para rever os textos automáticos. Não estou a falar das «memórias de tradução», ferramenta útil nalguns ramos em que as nuances e subtilezas da linguagem não contam. Estou mesmo a falar de pagar uns tostões a alguém para rever uma tradução do Google, pagar mais uns tostões a alguém para pontuar essa revisão, manter os tradutores sempre com pontuações baixas, e pagar sempre o menos possível.

    O meu primeiro encontro com este mundo foi uma agência portuguesa chamada Unbabel, que se gabava de pagar pouco aos tradutores. Para estes senhores, um texto é uma coisa que se pode dividir em blocos, e cada parágrafo pode ser dado a um tradutor diferente, para fazer no metro ou na paragem de autocarro. É importante estar sempre a fazer dinheiro, não é? Uma pequena visita ao site deles ilustra tudo isto, mas com a linguagem da moda do mundo dos empreendedores. Pessoalmente, adoro o testemunho de um dos clientes: «A Unbabel funciona de forma ágil e o elemento humano proporciona realmente uma sensação de segurança. Os nossos clientes estão claramente mais felizes.» Olha que bem, o elemento humano.
    O mundo das legendas estava relativamente livre disto, dado o facto de que a linguagem oral tem de ser resumida, reinterpretada ou desenvolvida para ser transformada em texto legível. Não me posso esquecer de dizer ao meu amigo que não se preocupe, que já toda a gente começou a receber emails das agências a anunciar o futuro da tradução automática. «Adaptem-se, ou vão ao ar» é o tom geral das mensagens.

    Cesar Monteiro

    A concorrência do mercado dos fãs e as «ameaças à profissão»

    Mas não é isso que mete medo a muitos dos tradutores. O que me leva ao assunto da organização das pessoas que se meteram nesta profissão. Hoje em dia, passa-se quase tudo online, claro, com grupos vários no Facebook ou em sites especializados. Para muitos, a «desvalorização da profissão» faz-se ao «deixar entrar toda a gente», em vez de se fechar o mundo a quem tenha um canudo especial e vinte cursos de técnicas disto e daquilo. O medo resulta da existência de um mundo paralelo de traduções de programas e filmes feitas por fãs (como se costuma chamar-lhes), como na base de dados do site Addic7ed.com. A ideia é que, enquanto houver fãs a trabalhar à borla, os preços baixarão sem parar.

    Aqui confunde-se, acho eu, o problema das qualificações reais para fazer qualquer coisa (sim, toda a gente acha que sabe traduzir, mas a competência real é verificável com testes e demonstrações práticas, assunto arrumado), o problema do «trabalho» por prazer (eu cá, revejo à borla para o MAPA e não estou a roubar trabalho a ninguém, porque não é um trabalho que fosse ser pago, para começar) e o problema da exploração do trabalho real. Não é a existência de traduções à borla que faz com que a Cinemateca tenha reduzido para metade os preços que pagava aos tradutores há dez anos, ou que faz com que o Paulo Branco demore mais de um ano a pagar a quem trabalha para ele, ou que a maior parte dos festivais contrate quem cobra menos, mesmo que a qualidade seja duvidosa (achavam que não ia tocar em exemplos nacionais? Das agências locais, no entanto, não posso falar, mas não me parecem muito diferentes das internacionais). O que faz com que a Cinemateca, o Paulo Branco e os Festivais Variados explorem os trabalhadores é o desprezo que têm por um serviço tantas vezes anónimo e tantas vezes feito nas piores condições, sem guião, com cópias velhas, e sem a oportunidade de ouvir o som nas melhores condições. A tradução transformou-se no biscate para estudantes ou diletantes e dizer mal dos próprios tradutores tornou-se regra. Rancor n.º 2, ouvido na Cinemateca: «Não vamos pôr Racine nas mãos dos nossos tradutores». E o senhor merece uma resposta em alexandrinos.

    Aqui, o meu amigo do MAPA vai dizer que estou a divagar. Deve estar aborrecido e sem vontade de ler legendas. É assim como os filmes sobre a produção alimentar que deixam toda a gente meio enjoada com a comida por uns dias. E eu devia era fazer um intervalo para ver se chegou trabalho. Esperem aí…
    Já está. Não havia nada. Deve ser porque é meio do semestre.
    O meu amigo tem razão, dizia eu. Era suposto estar a falar das formas de organização dos tradutores. Não havendo nenhum sindicato sobre o assunto em Portugal, criou-se recentemente uma associação para tradutores do audio-visual. Tem só dois ou três meses, acreditem ou não. Ainda é cedo para falar das suas propostas e áreas de intervenção, sobretudo num ramo onde muito do trabalho se passa no estrangeiro (já agora, em França, os tradutores recebem direitos de autor sobre os filmes que legendam). Por enquanto, a grande medida foi promover um software qualquer, com desconto no preço. Já ajuda, imagino. Mas como se combate um patrão sem cara? Será esta associação capaz de transformar alguma coisa, pelo menos a nível local? Os meus anos de optimismo passaram. A ameaça real à profissão é, obviamente, a produção desenfreada, o mercado instável, a precaridade dos seus trabalhadores, a falta de contratos, a impunidade dos donos das empresas. A ameaça real à profissão é a ameaça real a tantas profissões hoje em dia. As Netflixes e assim são companhias com escala mundial, que delegam em muitas outras empresas cada uma da etapas que lhes permitem viver.

    Da revolta contra os patrões passámos a ter revolta no vazio, sem patrões identificáveis nem colegas, nem sequer um país certo onde esta guerra se possa travar. Se calhar, ou mesmo muito provavelmente, a resposta a tudo isto passa pela coordenação destas profissões invisíveis. A malta dos biscates devia conversar. Afinal, o sistema sinistro a combater é o mesmo.

    Um mundo Candy Crush

    Resumindo, e sem conclusão, porque isto é só um esboço daquele texto bestial que ia escrever para o meu amigo. Prometem-nos a vida airada da cigarra, com a segurança da formiga: «faça 1000 dólares por mês a ver TV!». Na verdade, estão a criar uma nova espécie de insecto, em stress permantente. Num mundo de aplicações e jogos, até carregar no botão para aceitar trabalho se torna um jogo perverso e viciante, em que o dinheiro é transferido por uma entidade estranha e aparecem umas barras de ouro no canto do ecrã. «Mas ainda posso fazer mais uns trocos este mês, caso não tenha nada na Primavera», e lá estamos nós a aceitar trabalhar mais um dia de seguida, que as folgas são para quem tem contrato. Já não falamos na cigarra e na formiga. Nasceu um outro insecto qualquer, paranóico e nervoso, com medo de não poder estar doente e de nunca vir a ter reforma. O Alexandre O’Neill falava no insecto-insulto. Vamos roubar-lhe o nome. E vamos assinar este texto como «Albertina», por causa dos acordos de confidencialidade.

    Texto de Albertina

  • Corpos castigados, corpos recuperados

    Corpos castigados, corpos recuperados

    REGARDE ELLE A LES YEUX GRAND OUVERTS YANN LE MASSON FRANÇA, 1980 90 min
    REGARDE ELLE A LES YEUX GRAND OUVERTS
    YANN LE MASSON
    FRANÇA, 1980
    90 min

    Existem poucos filmes capazes de levar-nos a superar o papel de mero espectador e conceder-nos esse raro privilégio que é sentir-se parte daquela história que nos contam, sentir que os nossos olhos acompanham cada momento, que podemos desfrutar com cada sorriso ou sofrer com cada lágrima, sentir o aroma mais prazenteiro ou o fedor mais repugnante; e quando aparece uma obra assim estamos perante uma dádiva que não podemos recusar. Regarde Elle A Les Yeux Grand Ouverts é um desses filmes, cinema militante sem preconceitos, filma-o Yann Le Masson mas os créditos deixam bem claro que é um trabalho colectivo, e não podia ser de outra maneira porque o realizador sabiamente permanece espectador de experiências que, enquanto homem, jamais pode entender na sua plenitude, e como qualquer bom documentarista sabe que existem histórias que se contam apenas observando-as.

    Quando em 1975 foi promulgada em França a lei sobre a interrupção voluntária da gravidez, o MLAC d’Aix en Provence (Movimento pela Liberdade do Aborto e da Contracepção) já existia desde há dois anos, perante as carências médicas foi criado para terminar com a carnificina clandestina em que mulheres mais desfavorecidas economicamente eram as vítimas. Como movimento foi possível graças a todas as lutas feministas dos anos precedentes, donde se reivindicava o direito da mulher ao domínio do seu próprio corpo.

    Na “Commune” de Aix as mulheres iam abortar e as mulheres praticavam abortos sem assistência médica directa, mulheres que sabiam que a única forma de recuperar esse ansiado “direito” ao próprio corpo era recuperando os conhecimentos que lhes tinham sido arrebatados por uma medicina e uma ciência sempre patriarcais.

    O documentário acompanha estas mulheres no seu itinerário criminal, à margem da lei – finalmente julgadas por prática ilegal da medicina e por praticar um aborto a uma menor –, onde pouco a pouco vão propondo, não apenas uma rede de apoio necessária por contingências legais, mas também uma verdadeira alternativa à prática hospitalar, nesses dois casos limites e de importância extrema para qualquer mulher, o aborto e o parto. E se a interrupção voluntária da gravidez volta a ser sequestrada em países cujo “progresso moral” ninguém se atreve a questionar, o domínio do parto torna-se absoluto. Numa conversa colectiva uma das mulheres diz “É lógico que te queiram controlar o parto, porque se as mulheres se dão conta da força que têm dentro imaginam donde podemos chegar? Se temos essa força para parir temos a força necessária para tudo!”, e essa força há muito que lhes foi roubada, foi- lhes roubada para que triunfasse a civilização, somente sequestrando a força que produz vida poderiam triunfar as instituições da morte.

    Infinidade de momentos de ternura, gestos que acompanham, vozes que sussurram, controlo e poder de uma mulher sobre o seu corpo com o apoio colectivo de outras mulheres, tudo isto destrói o carácter aterrador de um aborto dentro da sua banalidade cirúrgica. Tudo aquilo que a pressão social produz, dúvidas, temores, desaparece no momento colectivo, nenhum aborto deveria ser praticado num hospital, são centros de gestão da morte, ali não existe espaço para os afectos.

    É possível que Yann Le Masson seja o único realizador que se pode orgulhar de ter realmente captado através de uma câmara esse momento singular (sublime para muitos, trágico para alguns) que é o nascimento de um pequeno ser-humano. As cenas finais que acompanham o parto de Nicole que dá à luz uma menina num ritual de celebração colectiva, onde o acto de parir recupera a sua função simbólica, sem preconceitos, transformam-se em momentos tangíveis: sofremos com cada alento e entusiasmamo-nos com cada sinal de vida. No entanto, se à morte não devemos nada, nascer no único dos mundos possíveis sim que tem um preço.

    Ver (torrent):  http://www.les-renseignements-genereux.org/videos/4091

    Cláudio Duque