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Lendo: Por baixo do solo, tudo arde

Por baixo do solo, tudo arde

Por baixo do solo, tudo arde


De repente, a sociedade portuguesa parece dividida. A extrema-direita entra no parlamento, em simultâneo com a eleição de três mulheres negras para deputadas. Antes disso, o «caso Jamaica» colocou o racismo policial em cima da mesa e fez grande parte dos racistas saírem da toca, escandalizados, ora para dizer que não há racismo em Portugal, ora para dizer que a polícia devia entrar com tanques de guerra «naqueles bairros» e varrer tudo «porque não se atiram pedras à autoridade e aquilo é uma lixeira». A intenção de construir um «Museu dos Descobrimentos» trouxe, também, a discussão pública do passado colonial português, com um lado da barricada a defender o heroísmo daqueles que só ocuparam novos territórios para fazer novos amigos, e com o outro a recordar a violência de todo o processo, com a escravatura, as violações, a expulsão dos nativos das terras que habitavam. Noutra esfera, mas com igual impacto mediático, Valete, o embaixador do rap político e consciente português, enfia o pé na argola e decide «contar apenas uma história» cujo resultado, fosse qual fosse a intenção, é um tratado de sexismo e de legitimação da violência doméstica (refiro-me a BFF).

A verdade é que a sociedade portuguesa sempre esteve dividida. Portugal é um país racista, sexista, homofóbico. De tal maneira que durante décadas todas essas «medalhas» conseguiram ficar na sombra, banalizadas e relativizadas, reduzidas a meros fait-divers cuja existência só se notava, vagamente, quando aparecia com barulho a empunhar tacos de baseball e de soqueiras na mão. A diferença é que muitos daqueles e daquelas a quem foi negada a voz – e eram invisibilizados com ordens para se comportarem bem, viverem civilizadamente e andarem vestidos/as condignamente – começaram a irromper, pouco a pouco, na esfera pública. Começou a surgir uma massa crítica que começou a remexer no lixo e a destapar a violência com que um sistema inteiro lhes cai em cima quotidianamente. E, inevitavelmente, quando se remexe no lixo, as baratas que nele habitam começam a correr desenfreadamente em todas as direcções. Não há dia em que não surja alguém a agitar o pânico moral do seu mundinho perturbado, assustado com o «politicamente correcto», o «marxismo cultural» e outros espantalhos fantasiosos. É caso para dizer: mil vezes os excessos desse tal «politicamente correcto» do que o silêncio paralisante que reduzia, e reduz, uma parte tão grande da sociedade ao «come e cala». A sociedade portuguesa, como todas as outras, é uma guerra. Essa guerra é, por vezes, silenciosa, outras vezes, ruidosa. Mas a verdade é que, por baixo do solo“ já tudo arde, há muito tempo.

O caso Valete é «apenas» mais uma parte deste episódio em que as chamas do subsolo nos começam a queimar os pés. Este ano, em Portugal, segundo os números da comunicação social, são já 30 as vítimas fatais de violência doméstica. No ano de 2018, foram reportados 26432 casos de violência doméstica. É fácil perceber que os números oficiais dificilmente captam a extensão do que arde nesse mesmo subsolo. É neste contexto, e, também, pelo seu estatuto de rapper consciente política e socialmente, que se deve entender a dimensão do «caso Valete» («Rap Consciente», é, aliás, o nome de uma das suas últimas músicas). Neste cenário, nenhuma história que remeta para a banalidade desta forma de violência «conta apenas uma história», reclamando uma neutralidade que não existe (há alguma história que exista só por si?), muito menos numa letra em que as duas personagens têm uma espessura digna do maniqueísmo da Disney. Na letra de BFF, a mulher é sempre a «cabra», a «puta, cona alargada, pura insana / encharcada de moralismo sempre armada em puritana»; e o homem a vítima, enganado e usado, com o seu «direito» de posse sobre a mulher violado – «uma vida debitada, dedicada a ti / o esforço que fiz para teres a vida acautelada, (…) quando fui eu que comprei as tuas jóias, as tuas roupas». Como agravante, há antecedentes: o mesmo sexismo e a mesma culpabilização moralista da vítima e ilibação do culpado já aparece na letra de Colete Amarelo, numa antecipação de BFF, ora lamentando a sina de outro amigo que assassinou «a dama dele» («cobiçar a dama dum tropa é o máximo desrespeito»), ora apontando às damas que comem «manos» e “engravidam só para prender homens» (o homem, nestas «simples histórias», é sempre passivo, coitadinho).

Tal como disse, o estatuto de Valete não é alheio à discussão que se gerou. Não só porque um rap que se considerava de intervenção, como o de Valete, faz falta neste mundo em ebulição, mas, especialmente, porque faz falta no presente do rap em Portugal, invadido que tem sido por um bando de trogloditas (diria TRAPloditas, não quisesse eu evitar a generalização sobre o Trap, o estilo que escolheram), cuja rebeldia se resume a reclamar ouro para o pescoço, dinheiro, grandes carros e em tratar as mulheres como objectos descartáveis. Labels como a Think Music têm-nos oferecido um desfile de misoginia e materialismo ostentador, em vídeos com milhões de views, com artistas como Sippinpurpp, Lon3er Johny, ProfJam, entre outros. Para além de numa boa parte dos casos nos brindarem com mau Trap, agridem-nos também com letras cujo sumo a tirar, depois de tudo muito bem espremidinho, não é muito mais do que uma lista de prendas para o pai natal: «eu quero um Lambo[rghini]», «anéis para pôr no meu dedo», «um bom Benz», «quero dinheiro», «quero um AMG Mercedes», «só quero ouro no pescoço» e até o regalo de um retrato do convívio familiar natalício, «eu estou com a minha família a juntar o cash». Sem rap de intervenção, é para estes cromos que a passadeira fica estendida. E, entretanto, a guerra continua.

Texto de Diogo Duarte [diogo.mainselduarte@gmail.com]

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