Numa análise fria do massacre de Melilla, pode dizer-se com segurança que, se tivesse servido para alguma coisa, seria para desmascarar a generalização da radicalização da política fronteiriça da União Europeia (UE). Depois de, através dos habituais argumentos da «excepcionalidade» e do «carácter temporário», ter legalizado os pushbacks na fronteira leste, a UE abriu o mesmo tipo de hostilidades numa das suas fronteiras a sul, mais precisamente em Melilla, elevando o seu potencial mortífero para níveis inauditos. É verdade que, a apenas 20 Km dessa fronteira, nos locais onde milhares de migrantes se abrigam e sobrevivem à espera da oportunidade de «salto», esse potencial é igualmente elevado. Mas, até ao massacre de Melilla, havia determinados tipos de barbaridade que estavam reservados para territórios que tivessem essa característica básica de ficarem relativamente longe dos limites fronteiriços da UE.
Os pushbacks acontecem por todo o lado, estejam ou não resguardados por decisões a que a política chama «legais» para fingir que não são «políticas». Na Lituânia, na Letónia, na Polónia, assim como na Grécia, Espanha, Itália ou Malta. Habitualmente, esses pushbacks deixam as pessoas entregues ao seu destino em situações em que correm perigo, mas longe das vistas, sem a certeza de que o perigo se vá tornar efectivamente real. Em Melilla, os pushbacks foram efectuados com o conhecimento explícito de que essas pessoas seriam espancadas e tratadas de forma degradante e desumana pelos seus parceiros não-UE.
O nível de repressão sobre migrantes em Marrocos é, aliás, directamente proporcional com a qualidade das suas relações com Espanha. Os raids às habitações e acampamentos de migrantes dão-nos números interessantes: em 2020, houve 43, em 2021, houve 37 e não houve nenhum entre Janeiro e Março de 2022. Em anos anteriores, os níveis eram completamente diferentes: 311 em 2014, ou 340 em 2018, por exemplo. O que aconteceu, então, foi que, entre 2020 e Março de 2022, as relações entre os reinos dos dois lados do Mediterrâneo estiveram «congeladas». Em Março, o governo espanhol cedeu às pretensões do rei Mohamed VI sobre o plano de autonomia do Saara Ocidental e, de acordo com a Associação Marroquina dos Direitos Humanos (AMDH), nos 84 dias subsequentes, houve logo 31 raids. Curioso, ou não, é que, nesse mesmo período, não se registaram quaisquer tentativas de saltar a fronteira. Os picos das tentativas aconteceram em 2021 (com as relações congeladas) e em Março deste ano (ainda em situação de congelamento). Logo a seguir, em Abril e Maio (depois do degelo nas relações), a AMDH assinalava um decréscimo acentuado.
Daqui se depreende que, quando há boas relações, os raids aumentam e as tentativas de saltar as vedações diminuem. O fluxo de migrantes é detido sem que os olhos da Europa fortaleza cheguem a vê-lo.

24 de Junho
No dia do masssacre, a multidão de migrantes demorou cerca de uma hora a chegar à fronteira. Durante todo esse tempo, e ao contrário do que é habitual, não houve qualquer intervenção policial que visasse parar o movimento dessas pessoas. Quando o grupo chegou à barreira fronteiriça do Barrio Chino, várias pessoas começaram a subir as grades ou a tentar abrir os portões. Ainda antes de haver confrontos físicos directos entre polícias e migrantes, já alguns de entre estes caíam, ao serem atingidos por pedras atiradas pelas forças marroquinas ou vítimas de dificuldades respiratórias causadas pelo gás lacrimogéneo que acompanhou as pedras.
Cerca das 10 e meia da manhã, o grupo de pessoas, já cercado entre a polícia e a vedação (atrás da qual estavam outras forças policiais, as espanholas), foi alvo de um ataque frontal. Centenas de agentes marroquinos lançaram-se sobre aquele grupo de pessoas, algumas das quais estavam no chão, feridas, com dificuldade em respirar. Muita gente acabou por desmaiar durante este ataque e muita outra acabou detida e algemada. A AMDH afirma que, durante muito tempo não houve sinais de qualquer cuidado médico, notando mesmo a ausência de ambulâncias.
Os detidos, e eram centenas, foram levados, despejados e empilhados num local vedado, sem qualquer preocupação quanto ao estado de saúde de cada pessoa. Ao mesmo tempo que os feridos pediam ajuda, havia nova gente a ser despejada sobre eles, num ambiente de violência contínua, às vezes sobre pessoas algemadas e deitadas de barriga para baixo. Nesta altura, a AMDH identificou as primeiras cinco vítimas mortais.
Parceria Espanha-Marrocos
As imagens que, felizmente, alguém captou não deixam dúvidas quanto à participação das autoridades policiais espanholas, que usaram gás lacrimogéneo e balas de borracha contra os migrantes quando estes se encontravam do lado marroquino da fronteira, numa demonstração cabal da coordenação entre as polícias dos dois países. Uma coordenação que não se traduziu em assistência médica espanhola às pessoas feridas.
Foram mobilizados nove autocarros para levar e abandonar os detidos, entre os quais bastantes feridos, em locais longe da fronteira, sem comida, água ou apoio médico. Entre testemunhos e provas fotográficas, a AMDH afirma que pelo menos uma pessoa morreu durante estas viagens.
Num contexto de violência partilhada pelas forças policiais espanhola e marroquina (composta por alguns membros que chegaram a passar para território espanhol durante o incidente), a AMDH estima que cerca de 100 migrantes foram vítimas de pushbacks através de um portão. Noutras palavras, uma centena de pessoas que tinham conseguido saltar a vedação, e que, em território da UE, já tinham tido contacto com um agente da autoridade, ao invés de verem reconhecido o seu direito legal de requerer asilo, foram empurradas para umas mãos que estavam, naquele preciso momento, a exercer uma violência desumana sobre pessoas como elas.
Oficialmente, tudo terá resultado em 23 mortes, há quem fale em cerca de 4 dezenas, mas os números podem ser maiores, se se tiver em atenção que, um mês depois dos acontecimentos, ainda havia 64 pessoas desaparecidas. Nesse mesmo Julho, a UE assinou uma nova «parceria operacional» com Marrocos para o controlo de migrações e, no mês seguinte, em Agosto, Bruxelas comprometia-se com um pacote financeiro de 500 milhões de euros para que Marrocos prossiga o excelente trabalho de controlo de fronteiras de que tinha acabado de dar provas.
No seguimento deste caso, 65 migrantes foram divididos em dois grupos e levados a tribunal. Trinta e seis foram acusados de insultar e agir de forma violenta em relação a forças de segurança, desobediência, destruição de bens públicos, ameaça à segurança pública, das pessoas e dos bens, de porte de armas brancas, ataque com recurso a arma e organização de uma tentativa ilegal de abandonar território nacional para entrar clandestinamente noutro território. Um segundo grupo de 29 pessoas, onde se incluía uma menor, foi acusado de organização criminosa, rapto, incêndio, ameaças de morte, porte de armas capazes de ferir, insultar e agir de forma violenta em relação a forças de segurança, desobediência passiva e activa, destruição, acordo colectivo para organização de um grupo para abandonar ilegalmente o território nacional, residência ilegal em Marrocos e de representar uma ameaça à ordem pública e à segurança interna. Neste momento, 60 pessoas estão confrontadas com penas de prisão.

Apenas mais um caso
Em resumo: as autoridades marroquinas são notoriamente mais brutais com as pessoas migrantes quando o clima com Espanha é de cooperação; no caso de Melilla, as forças policiais marroquinas, tradicionalmente tão eficazes a impedir este tipo de tentativa colectiva de atravessar a fronteira, deixaram cerca de 2 mil pessoas aproximar-se da vedação; de seguida, perante o olhar das autoridades espanholas do outro lado da fronteira, apedrejaram, encurralaram e atacaram o grupo; do lado da UE, as forças da ordem, apesar de estarem a ver a violência do outro lado do arame farpado, levaram a cabo devoluções forçadas, os tais pushbacks ilegais, de volta para as mãos da guarda marroquina (que, entretanto, empilhava corpos sem qualquer consideração médica básica –quanto mais humanitária – de, pelo menos, uma centena de pessoas); os migrantes detidos foram metidos em autocarros e despejados em locais longínquos sem água ou alimento; o resultado, em termos de mortes, apesar de incerto, é o maior de sempre naquela fronteira; em termos legais, o resultado foi a condenação de 60 migrantes; a resposta imediata da UE foi o aprofundamento das ligações e dos financiamentos para que Marrocos continue neste «bom» caminho; no estado Espanhol, o elogio do trabalho das forças policias foi imediato e, agora, o silenciamento é a palavra de ordem: ainda há dias, o governo, com o apoio do PP e do VOX, não permitiu que houvesse um inquérito às mortes de Melilla.
Este é apenas mais um caso, sim. Mas é um caso demasiadamente demonstrativo de que as políticas migratórias ultrapassaram todos os limites, com um balanço especialmente doloroso em termos de mortos e feridos, de nível de violência e desumanização e de participação directa das autoridades europeias em actos de uma barbaridade quase inexcedível.
Fotografias de https://www.flickr.com/photos/noborder



A lista das mães de Tiananmen, reproduzida em Le Grand massacre du 4 juin, poderia ser uma leitura macabra, mas, pelo contrário, é um texto intenso e, embora perturbador, rico de informações e instrutivo. O seu aspecto sociológico, especificando a composição social das vítimas, permite sublinhar a natureza de classe da revolta que respondeu à intervenção militar e que terminou no massacre. Sem diminuir a importância e o sentido do movimento essencialmente estudantil que animava a ocupação da praça, o documento confirma o que já se sabia. Foi a insurreição dos bairros populares de Pequim e o empenho progressivo dos trabalhadores da capital na revolta democrática contra o regime da burocracia vermelha que marcou uma reviravolta e obrigou o poder a optar pela repressão sangrenta. Da mesma maneira que o Maio 68 não foi só um movimento estudantil, o movimento à volta da ocupação de Tiananmen foi muito mais que uma simples mobilização estudantil. Liao Yiwu lembra que a máquina da comunicação social ocidental insistiu sempre em apresentar os estudantes como «os heróis de Tiananmen», esquecendo assim a real composição de classe da revolta. E lembra também que os estudantes, que se consideravam como uma elite de classe, tentaram, desde as primeiras horas, utilizar os trabalhadores que acorreram à praça como seus servidores, atribuindo-lhes funções de polícia e de protecção dos chefes estudantis, indo mesmo ao ponto de tentar opor esta «guarda pretoriana» ao povo revoltado e enraivecido [ref] Des balles et de l’opium, Op. cit., p. 23, p. 34, p. 41.[/ref]. Foi manifesto o fraco entusiasmo dos trabalhadores para desempenhar este papel de mercenários dos chefes estudantis, e alguns destes jovens trabalhadores revoltados iriam constituir os «arruaceiros» que Liao Yiwu vai conhecer e entrevistar na prisão, sobreviventes do selvagem massacre dos dias 3 e 4 de Junho e dos dias e meses seguintes. Na sua introdução, Hervé Denès chama a atenção para o facto de que se assistiu na praça Tiananmen a uma tentativa de auto-organização operária, apesar da arrogância e do desprezo de classe que a grande maioria dos estudantes democratas formados na escola maoista das elites exprimia relativamente aos trabalhadores e ao povo em geral. A tentativa de criação de «Uniões Operárias Autónomas» constituiu um desenvolvimento inquietante para o poder comunista, perturbado pela revolta polaca do Solidarnosc e pela Perestroika soviética [ref] Pode ler-se uma análise destas tentativas de auto-organização no livro de Hsi Hswan-wou e Charles Reeve, Bureaucratie, bagne et business, L’Insomniaque, 1997, capítulo « Tian’anmen ». Veja-se também a entrevista de Cai Chongguo, estudante presente na praça e sensível às questões sociais, em Hsi Hswan-wou e Charles Reeve, China Blues, Verticales-Gallimard, 2008. De Cai Chongguo, L’Envers de la puissance, Mango, 2005. No exílio, Cai Chongguo vai aproximar-se da organização de Hong-Kong China Labor Bulletin, uma referência importante sobre a informação das lutas operárias na China de hoje.[/ref].





Os seus povoadores actuais animam a que se conheça a aldeia, a ir e participar nas actividades diárias, descobrir o seu meio ambiente patrimonial e cultural; conhecer a realidade da ruralidade que resiste. O modelo rural comunitário é um desafio às dinâmicas da exploração capitalista, e atualmente o projecto de Fráguas tem 8 anos de vida. A acompanhar esta iniciativa, existem outros 4 projectos colectivos, mais na zona norte de Guadalajara, que se reúnem em assembleia mensalmente para definir em comum experiências e ajudar uma das aldeias colaboradoras para realizar tarefas de trabalho juntas.




