Etiqueta: Repressão

  • Priii!!! Fora de Jogo!

    Priii!!! Fora de Jogo!

    Portugal foi o vencedor do campeonato europeu de futebolda UEFA financiado pela GazProm, empresa estatal Russa de gás natural que nos serve a nós, europeus. Pouco sabemos sobre o que se passa na Rússia e o que «defende» um golo de campeão pago por uma empresa estatal de um país que viola não só os direitos humanos mas também os direitos democráticos.

    Para não ficarem fora de jogo, os anarquistas e anti-fascistas russos iniciaram campanhas que foram brutalmente reprimidas pelos serviços de segurança russos. Partilho convosco o apelo espalhado virtualmente pelo mundo “a toda a pessoa honesta que só pode aprender a verdade sobre a situação”:

    Dos anarquistas Russos:

    18 de Março – acto de solidariedade com os anarquistas Russos!

    Durante os últimos meses os serviços secretos russos prenderam vários anarquistas e antifascistas nas cidades de Penza e São Petersburgo. Foram acusados de organização terrorista. Os detidos foram torturados com cabos elétricos e tasers durante várias horas, espancados violentamente sem preocupação com lesões greves ou marcas exteriores. Os oficiais humilharam constantemente os detidos, tentando que os próprios apresentassem provas da sua culpa e que acusassem os outros detidos. Estas acções tipo Gestapo do Serviço Federal de Segurança Russa (FSB) só podem provocar vigorosos protestos.

    Ao mesmo tempo dos raids do FSB e das detenções de anarquistas em São Petersburgo, eram realizados detenções na Crimeia.

    A acção de solidariedade internacional na semana de 7 a 12 de Fevereiro mostrou uma grande reação do movimento libertário mundial a esta terrível repressão com enorme efeito ao nível de informação na Rússia. Mas parece não ser suficiente para ultrapassar a situação. Pouco depois surgiu a informação de que vários anarquistas voltaram a ser torturados e intimidados. Foram obrigados pelos oficiais do FSB a recusarem comparecer ou participar em campanhas de resistência contra a tortura e a repressão. Mais – depois de acções de solidariedade na Rússia, a polícia reprimiu os participantes. Perseguiram e acusaram pessoas em Moscovo e Chelyabinsk. Anarquistas em Chelyabinsk foram torturados pela polícia com eletricidade acusados de «Hooliganismo» (!)

    É necessário continuar e fortalecer a campanha de solidariedade para forçar as autoridades de Moscovo a parar as torturas e a repressão política. A melhor data para novas acções será 18 de Março – dia de eleições presidenciais na Rússia. Neste dia o regime é mais vulnerável e os olhos do mundo estão virados para a situação do país.

    Urgente e desesperadamente, apelamos a todos os anarquistas, esquerdistas, antifascistas, grupos democráticos e comunidades de todo o mundo para que organizem ações de protesto e resistência contra as torturas e a repressão na Rússia junto a embaixadas, consulados e outros locais oficiais da Federação Russa nos respectivos países.

    Os nossos Slogans são:

    FSB é o verdadeiro terrorista

    A vossa eletricidade não matará as nossas ideias

    Liberdade para os anarquistas e anti-fascistas Russos!

    Mais informação:
    Anti-fascist Viktor Filinkov reveals how he was tortured by Russian security services
    Arrested Penza Antifascists Talk about Torture in Remand Prison
    Ilya Kapustin: “They Said They Could Break My Legs and Dump Me in the Woods”

    Tradução de: Emma Mariguella

  • E depois da carga policial?

    E depois da carga policial?

    Na noite de 15 de Março de 2017, uma intervenção policial no bairro do Pendão, em Queluz, Lisboa, choca os moradores e testemunhas, devido à força e atitude utilizadas pela polícia. O Jornal Mapa compôs este podcast, que se foca nas reflexões que esta acção policial suscitou posteriormente, junto das vítimas e de pessoas solidárias. O que aconteceu na esquadra e no tribunal às pessoas que foram detidas naquela noite? Porque é que os moradores do bairro dizem que acções violentas da polícia são frequentes ali? E qual é a voz que as vítimas e testemunhas têm nos media? Em tom de conversa plural, entre vítimas, testemunhas e amig@s, aqui fica o testemunho sobre uma questão aparentemente incómoda para a sociedade- a violência policial em bairros periféricos.

     

  • Despejo da Casa ocupada na Rua Marques da Silva

    Despejo da Casa ocupada na Rua Marques da Silva

    Divulgamos o comunicado emitido pela Assembleia de Ocupação de Lisboa:

    “A casa ocupada da Rua Marques da Silva 69 está neste momento a ser despejada sem qualquer notificação. A polícia municipal arrombou a porta, despejou a pessoa que lá morava, está a retirar os bens da casa e quer emparedá-la.

    O despacho para o despejo do prédio, emitido por Manuel Salgado, Vereador do Pelouro do Planeamento, Urbanismo, Património e Obras Municipais, ficou esquecido no carro de um colega da polícia municipal.

    A casa, propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, estava devoluta e foi ocupada em Setembro de 2017 por “um grupo de pessoas, sem qualquer filiação institucional, unidas pela vontade de dar vida a um imóvel abandonado.” Segundo o comunicado do grupo, “interessa-nos aprofundar um debate crítico sobre a cidade e as suas transformações que tenha consequências práticas. Neste sentido, a ocupação desta casa não se limita a retirá-la das malhas da especulação, querendo fazer dela um espaço de usufruto social, seja habitacional, educativo ou cultural.”

    A assembleia de ocupação de Lisboa lança um apelo para que todos e todas se desloquem à Rua Marques da Silva em protesto contra este despejo.

    Mais informações:
    assembleiaocupacaolisboa@gmail.com 
    facebook.com/assembleiadeocupacaodelisboa/ “

     

  • Jornadas: as Prisões e as Mulheres

    Jornadas: as Prisões e as Mulheres

    De 30 de junho a 2 de julho decorreram as Jornadas: as Prisões e as Mulheres, no Centro de Cultura e Intervenção Feminista da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), em Lisboa.

    A organização das jornadas foi levada a cabo por um conjunto de pessoas de diferentes coordenadas geográficas, profissionais e interventivas, com o apoio da UMAR e do Observatório Europeu das Prisões. Os objetivos que nos moveram foram visibilizar, informar e refletir sobre a situação das mulheres no sistema prisional; pensar a prisão como instituição política: usos e práticas; promover o diálogo conjunto entre pessoas, coletivos e associações, profissionais, pessoas presas, ex-presas e respetivos familiares/pessoas relativas; partilhar experiências e aprendizagens com grupos de apoio a pessoas presas e de luta contra a impunidade do sistema prisional e, por fim, coletivamente definir estratégias de ação. Partindo destes objetivos foram sugeridos os motes para as rodas de conversa: toda a prisão é uma prisão política; a prisão para as mulheres; redes familiares e prisões, e grupos de apoio e de resistência de mulheres presas. Participaram, como animadoras das conversas, profissionais na área do direito, técnicas sociais, ativistas de diferentes grupos que têm trabalho com mulheres, crianças e jovens, bem como grupos que no Brasil, na Galiza e no País Basco intervêm nas prisões.

    A prisão resulta de opções governativas e legislativas que, além de responsáveis pela gestão dos espaços prisionais, definem o que é crime, a prática do crime e as respetivas consequências jurídicas – entre as quais a prisão efetiva. Por isso, é necessário perceber os seus usos e benefícios para a manutenção da ordem política, económica e social. Controlar, punir e castigar, legitimando a subalternização de determinados grupos sociais, foi sempre a principal função da prisão moderna. Roldana imprescindível de uma política de exclusão, reiterou-se que a prisão é obsoleta, uma vez que é incapaz de resolver os fins a que juridicamente se propõe – ressocialização e reinserção. Restando-lhe, então, cumprir (excessivamente) com a função punitiva e do castigo. Sobre isto foi expresso que em Portugal não existe vontade política de mudar e olhar para outros modelos e opções penais.

    Tal como nos diz Angela Davis (norte-americana, ex-presa política dos Black Panthers, investigadora ativista feminista e abolicionista das prisões), a prisão torna-se num meio de fazer com que as pessoas desapareçam, sob a falsa promessa de que também desaparecerão os problemas que elas representam…, perceção esta reproduzida socialmente não só pelos sistemas político-legais. Contudo, se a prisão resolvesse os fenómenos “criminais”, e tendo em consideração toda a prática histórica da prisão, isto implicaria que os “crimes” que levaram e levam as pessoas à prisão estariam hoje resolvidos, o que não é verdade. Em Portugal, segundo dados estatísticos, existiam 627 mulheres presas (5,4%) em 2010. Em 2017 este número sobe para 872 (6,3%), o que revela um aumento de 28% de mulheres presas. Por comparação, ao nível europeu, enquanto que em 2015, em Portugal, as mulheres presas correspondiam a 6,1% do total da população prisional, a média europeia era de 5,3%. Já as mulheres de cidadania estrangeira presas em Portugal, no mesmo ano, representavam 26,6% do total das mulheres presas, enquanto que a média europeia era de 20,4%.

    A volatilidade do sistema jurídico-penal passa pela definição dos crimes, o que é tudo menos um sistema natural, antes construído para e pelos grupos de poder e segundo os interesses políticos e económicos dos governos. A definição de crime é, então, política e subjetiva, sendo ilustrativo o exemplo dado do aborto que, até 2007, estava previsto como crime e foi desde então descriminalizado até às 12 semanas. Embora muitas mulheres tenham sido punidas e presas por abortarem, não foram perseguidas e presas todas as mulheres que o praticaram, até pela incapacidade do sistema penal e prisional em fazê-lo, já que é uma prática comum no percurso de vida de muitas mulheres. O mesmo aconteceu com a despenalização do consumo de drogas que, apesar de ser praticado por uma larga percentagem da população, levou e leva apenas uma franja do tecido social ao sistema de justiça e às prisões.

    Daqui decorre a desigualdade na aplicação da lei: as penas e as condenações não são iguais para todas as pessoas. Tal como o acesso à saúde ou a proteção na infância não são iguais para todas, o acesso à justiça também não o é. Por exemplo, no acesso à defesa parte-se do pressuposto jurídico de que estamos todas em igualdade de circunstância perante o sistema de justiça, o que é falso. Quem não tem recursos económicos, para além de não poder ser ela própria autora da sua defesa (porque o sistema em Portugal não o permite), tem de recorrer à advocacia oficiosa. Em média, uma advogada oficiosa recebe 200 euros por processo, valor esse que tem de suportar as despesas de deslocação (podem ser-lhes atribuídos casos em diferentes regiões do país) e independentemente do tempo de resolução do processo – que pode arrastar-se ao longo de vários anos. Sob estas condições, fica comprometido o cumprimento do seu papel de defesa nos processos que lhes são entregues. Por outras palavras, quem não tem recursos para pagar a sua defesa pode estar condenada logo à partida. Porém, isto não deve ser considerado como um mero acaso ou fruto da desorganização do sistema jurídico, mas sim como um requisito fundamental para o funcionamento do sistema político-legal, como crucial para a manutenção da ordem política e económica e para a respetiva legitimação do poder através da naturalização das desigualdades, culpabilizando determinados sujeitos e (re)criando bodes expiatórios alvo de retaliação por parte do Estado.

    No concernente aos usos políticos da prisão foi, ainda, discutido o fato de o Estado português ter sido já consecutivamente condenado pelo Tribunal dos Direitos Humanos (20 vezes entre 2005 e 2015) devido à criminalização e punição da liberdade de expressão, através da aplicação da provisão legal obsoleta sobre a prática de injúria e difamação. Portugal é o único país da Europa que prevê a pena de prisão para casos de difamação e injúria, agravada em 50% se dirigida a um órgão constitucional ou a um magistrado, um advogado ou um funcionário público. A classe política escuda-se da crítica através da censura e punição. Neste âmbito, o representante do Movimento de Libertação da Maria de Lurdes (MLML) afirmou que a pena de Maria de Lurdes teve um agravamento de 2 para 3 anos de prisão efetiva como consequência das alegadas ofensas dirigidas à magistratura. Maria de Lurdes foi condenada por crime de injúria agravada e presa, no Estabelecimento Prisional (EP) de Tires, a 29 de setembro de 2016, para cumprir uma pena de 3 anos. Face a este cenário, o MLML decidiu que a luta do movimento deveria direcionar-se para a abolição desta provisão legal. Segundo o representante do MLML, em conformidade com os dados do Observatório dos Direitos Humanos em Portugal, existem 11 presas políticas, por crime de injúria – 2 mulheres e 9 homens com penas entre os 33 meses e os 57 dias – mas há um grupo muito mais alargado com processos deste género, porque é comum com o crime de difamação acumularem-se outros crimes como injúria agravada, difamação agravada, denúncia caluniosa, ofensa a organismo coletivo e perturbação da ordem constitucional e, assim, existem 168 recursos neste momento.

    O movimento de Mulheres Livres do Curdistão (TJA) participou desta conversa através do envio de um comunicado sobre a situação política na Turquia e Curdistão, a perseguição política, o encarceramento massivo de pessoas pelo regime de Erdogan – principalmente depois da suposta tentativa de golpe de Estado em julho de 2016 -, bem como sobre as condições desumanas a que são sujeitas as pessoas nas prisões turcas. Nas suas palavras, as prisões são instituições de repressão do sistema hegemónico patriarcal capitalista no mundo inteiro. O sistema prisional serve não só para invisiblizar e individualizar as causas dos denominados ou definidos crimes, mas primeiramente assegura o silenciamento da oposição política e resistência social[ref]Pode ler-se o comunicado aqui[/ref].

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    Considerando a estratificação de género e económica, subjacente aos contextos socioculturais heteropatriarcais, colonialistas e capitalistas, as que são criminalizadas e encarceradas são aquelas que atravessam a rota da exclusão, da discriminação, da pobreza e da violência. A maioria dos crimes a que as mulheres são condenadas, no contexto português, está ligada ao tráfico de droga – normalmente pequeno tráfico e retalhista, em muitos casos como estratégia de sobrevivência. Catarina Fróis, na apresentação do seu livro Mulheres Condenadas – Histórias de Dentro da Prisão, falou-nos sobre as mulheres presas em Odemira. A maioria destas mulheres tem trajetórias com contato prévio com instituições, muito prolongado, tais como a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), a Segurança Social e a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. Portanto, a institucionalização não acontece apenas no momento da prisão. A autora, com este livro, pretende trazer trajetórias de vida que podemos acompanhar e que não se centram só na forma como as pessoas vivem a prisão, mas propõe refletir sobre a prisão de mulheres, mulheres presas e mulheres na prisão – isto porque, em alguns casos, nas suas palavras, a sensação com que nós ficamos é que aquelas mulheres estavam já presas a um ciclo de pobreza, de violência e de exclusão social muito anterior ao momento de encarceramento.

    No entanto, no contexto português, as mulheres enredadas no sistema prisional são invisibilizadas nas reivindicações e intervenção dos movimentos sociais, nomeadamente dos feministas. Nos discursos e intervenções de combate à violência de género as presas continuam a ser excluídas. A experiência da Associação Contra Exclusão pelo Desenvolvimento (ACED), partilhada por Ricardo Loureiro, na denúncia de queixas sobre as prisões portuguesas, destaca 5 casos que envolveram mulheres: a morte de uma mulher em Tires; a preocupação de mães e companheiras de presos sobre uma greve e tensão na prisão; os maus tratos de guardas prisionais contra uma mulher presa em Santa Cruz do Bispo; uma mulher vítima de abuso sexual por parte de uma guarda prisional no momento da revista, e um casal de mulheres castigadas pela sua orientação sexual. Em 2015, a taxa média de mortes nas prisões portuguesas era o dobro da taxa média europeia. A perceção de que as prisões portuguesas são um paraíso esbarra na realidade das queixas e experiência das pessoas presas, familiares e amigos/as.

    Pensar sobre as mulheres e as prisões implica pensar, também, em outras duas dimensões de análise: as mulheres presas e as mulheres que visitam as prisões. As mulheres presas estão sujeitas a violência física (por exemplo, agressões), psicológica, emocional, verbal e sexual, a estigma/preconceito, são discriminadas, sujeitas a represálias e invisibilizadas socialmente. As mulheres que visitam as prisões estão sujeitas ao mesmo tipo de processos, ficando ainda sujeitas a uma terceira jornada diária (trabalho, trabalho doméstico e visitas/preparação de visitas) e vivem em situação de vulnerabilidade económica, ficando muitas vezes sozinhas com crianças a seu cargo. Não podemos esquecer o papel de cuidadoras imposto às mulheres. Quando uma mulher é presa toda a família é penalizada o que, para Aurora Rodrigues, constitui uma questão política. São especialmente penalizadas as crianças, uma vez que as mulheres, além de serem responsabilizadas pelos cuidados, são, também e geralmente, as provedoras de recursos para os núcleos familiares.

    A prisão, diferentemente do imaginário (re)criado pelas estruturas que a gerem e pelos media, é uma instituição central para a (re)organização política e económica, que consome e gera bens e serviços, estando presente nas vidas de uma maioria silenciada. Ela coexiste com as vidas de muitas comunidades, famílias e crianças para quem a prisão é uma realidade quotidiana e comum. As redes familiares e reclusão foram mote para uma roda de conversa animada por Sofia Freitas, da rede Children of Prisoners in Europe, e por Carla Mendes, do Projeto Trampolim, em Coimbra. O Projeto Trampolim E6G, apoiado pela Câmara Municipal de Coimbra, centra a sua ação na ocupação de tempos livres e na prevenção dos comportamentos de risco de crianças e jovens, e tem como objetivo geral a inclusão social e a promoção da igualdade de oportunidades. Das 125 crianças com quem trabalham, atualmente, 34 têm ou tiveram familiares detidos/as (desde março de 2017); 12 já tiveram mãe, pai ou ambos detidos; 22 têm mãe, pai ou ambos detidos (2 têm a mãe detida, 3 têm ambos detidos e 17 têm o pai detido), e 13 outros jovens têm familiares diretos detidos. Dos 42 jovens (menores de idade), 2 têm ou tiveram mãe, pai ou ambos detidos, e 3 foram ou ainda estão detidos.

    Os territórios de intervenção do projeto são o Bairro do Ingote, Bairro da Rosa e Centro de Estágio Habitacional do Campo do Bolão (para famílias de etnia cigana). Os dois primeiros são bairros sociais muito associados ao tráfico de droga, onde acontecem muitas detenções e rusgas. As rusgas, as detenções e as visitas à prisão afetam emocionalmente as crianças, verificando-se alterações da rotina. Durante a semana e em período escolar é necessário faltar às aulas para poderem visitar a família presa; o fim-de-semana é passado em deslocações e visitas na prisão e, nos casos em que a pessoa presa é a mãe, implica uma deslocação acrescida de Coimbra para o Porto (Santa Cruz do Bispo) e/ou Lisboa (Tires). A prisão gera, também, uma responsabilização dos/as irmãos/ãs mais velhos/as que muitas vezes assumem as responsabilidades sobre aqueles mais novos/as, o que revela impactos ao nível do rendimento escolar. Como consequências geradas pela prisão, destaca-se a diminuição da vinculação emocional com o/a parente detido/a, a instabilidade emocional (tristeza, revolta, depressão), o impacto na escola (comportamentos agressivos, opressores), os oprimidos que se tornam opressores, a dificuldade de expressão emocional/sentimental, aumento das reações agressivas e impulsivas, os comportamentos de risco (furto, consumos e agressão), são maior suscetibilidade a discriminação na escola e a baixo rendimento escolar.

    Um estudo realizado pelo projeto destacou que as crianças/jovens revelaram muita ansiedade e nervosismo no momento antecedente à visita, e tristeza no momento da despedida. Por outro lado, as mães revelaram ansiedade antes da visita, culpabilização pela situação, tristeza na despedida, a consciência do impacto das despesas associadas à visita (deslocação, bens…), bem como a perda do crescimento dos/as filhos/as. Face a um quadro social e emocional frágil, os/as crianças e jovens sofrem, igualmente, os efeitos da prisão, pelo que a importância de projetos deste género calcula-se a partir de uma mediação familiar e escolar, bem como pelo apoio psicológico prestado aos/às jovens, e a soma destas intervenções traduz-se na tentativa de desviar estes/as jovens da rota da exclusão.

    Sobre o encarceramento e institucionalização de crianças e jovens referimos que, contrariamente ao estabelecido por lei, há em Portugal vários casos de jovens com menos de 21 anos a cumprir penas em prisões para adultos. Mais ainda, um número considerável de menores encontra-se a cumprir medidas tutelares educativas em instituições. Em Portugal, mais de metade da população prisional é constituída por pessoas que, desde crianças, passaram por várias instituições estatais tais como centros educativos, instituições de acolhimento e, finalmente, prisões.

    Sofia Freitas, da rede Children of Prisoners in Europe, revelou-nos que atualmente existem, na Europa, cerca de 1 milhão de crianças com pai e/ou mãe presos, e que estas crianças estão sujeitas a processos de estigma (por exemplo, ao nível do preenchimento da ficha escolar), isolamento social, vergonha e medo. O estigma social não permite que estas crianças tenham voz para falarem sobre o que sentem e/ou procurarem apoio. As detenções, as rusgas e o facto de as crianças assistirem a estas situações, muitas das vezes com violência por parte da polícia, são geradoras de impactos negativos, nomeadamente ao nível escolar e comportamental. Referiu também a 3ª jornada das mulheres com familiares presos/as, apresentando um caso que acompanhou de uma mulher que tinha diversos familiares presos e era mãe solteira, sendo a única pessoa que assegurava toda a dinâmica no exterior.

    Da investigação, evidenciou que as relações familiares construtivas melhoram a qualidade de vida das crianças. Sugeriu que o Centro de Apoio Familiar e Apoio Parental (CAFAP) pode ser um serviço que deve responder e apoiar estas famílias, e que é preciso repensar a manutenção das relações familiares nas situações de reclusão. Por outro lado, os laços familiares permitem contribuir para a redução da reincidência. Recomenda a promoção dos direitos das crianças com mãe e/ou pai em prisão, direitos estes que têm sido invisibilizados; a realização de sessões sobre este tema em particular; a formação de diversos agentes (educação, justiça, polícias, saúde…), e a criação de visitas familiares. No seguimento desta roda de conversa foi projetado o documentário Anti-Mulleres. Existir Mal, que nos mostra o movimento galego Nais Contra a Impunidad, constituído por mulheres que têm ou tiveram filhas/os presas/os, e que se insurgem denunciando a repressão, a tortura e a impunidade do sistema prisional no Estado espanhol.

    Estas jornadas não poderiam neglicenciar a vertente da ação coletiva de combate e de resistência às prisões e, por isso, foram convidados movimentos associativos do Brasil (Pastoral Carcerária Nacional e Elas Existem – Mulheres Encarceradas) e País Basco (Salhaketa), para trocarem as suas experiências de modo a proporcionar aprendizagens, uma vez que a dinâmica de oposição às prisões é praticamente inexistente em Portugal. Uma linha transversal atravessou as três exposições: as prisões são feitas por e para homens, pelo que daí resulta um agravamento da experiência da reclusão para as mulheres. Estes três coletivos unem-se pela política de exposição e denúncia – jurídica e pública – de violações à integridade das mulheres encarceradas, posicionamento este que, tal como referido por Petra (Pastoral Carcerária brasileira), é incompatível com a lógica prisional. Daí resulta, por um lado, a restrição de acesso às prisões de ações desta tipologia e, por outro, a manutenção de movimentos (religiosos, de voluntariado) dentro das prisões que veiculam o discurso institucional. Se na realidade portuguesa isto também se verifica, o contributo da Salhaketa (País Basco) permitiu-nos pensar na necessidade de apoiar, de trabalhar igualmente com as pessoas que também sofrem as consequências do encarceramento, nomeadamente os familiares.

    Por fim, apresentamos algumas conclusões retiradas destas jornadas. É crucial pensarmos que a retaliação exercida pelo Estado numa condenação pelo sistema penal tem, na sua base, o mesmo sentimento de retaliação exercida na exclusão e discriminação diariamente performatizadas. Esta é uma ideia base, fundamental, para haver uma real ação de subversão e de transformação política em que todas nos responsabilizamos, o que implica a compreensão dos mecanismos que reforçam e reproduzem este sistema social punitivo e a lógica prisional.

    Também ficou claro que a estratégia passa por tornar as pessoas diretamente afetadas pelo sistema prisional as protagonistas da ação sobre as prisões, ao invés de serem apenas objeto das formas de assistencialismo. Assim, defendemos maiores recursos para a autonomização das pessoas na defesa dos seus direitos e na construção das nossas vidas. Consequentemente, isto implica uma responsabilização realmente coletiva e individual para a construção de sistemas de justiça equitativos que desmantelem a lógica punitiva.

    Esta dinâmica de transformação convida, igualmente, a ouvir e a atuar conjuntamente com as/os profissionais que diretamente trabalham com as pessoas vulnerabilizadas e condicionadas à rota prisional, pese embora a sua prática ser limitada por vários constrangimentos institucionais. Este argumento é corroborado pelo facto de o sistema prisional não poder ser entendido isoladamente, uma vez que, tal como já foi referido, mais de metade das pessoas presas têm percursos de institucionalização desde crianças. Neste sentido, é crucial desenvolverem-se estratégias de comunicação e pedagogia em espaços comuns de entendimento e de partilha de aprendizagens entre todas: presas, familiares e pessoas relativas, ativistas, investigadoras e profissionais sociais, do direito, entre outras. Estratégias estas fundamentais para que se criem e desenvolvam ferramentas e recursos realmente eficazes para a desconstrução do paradigma penal hierárquico-punitivo e, consequentemente, para a construção de sociedades sem prisões.

    Coletivo Organizador das Jornadas


    A Associação Rosa Imunda acolheu um jantar-benefit para as Jornadas
    As Prisões e as Mulheres, ao qual se seguiu a apresentação do livro Mulheres Guerreiras – A caminho da liberdade, bem como um debate em torno das questões levantadas pelo encarceramento de mulheres. O livro é um dos resultados do projeto PoeZine – oficina de poesia experimental e fanzine, desenvolvido no Estabelecimento Prisional (EP) Feminino de Santa Cruz do Bispo, e subdivide-se na fanzine escrita pelas pessoas privadas da liberdade e num conjunto de textos de pessoas convidadas. Desde logo nos chamou a atenção o fato de as autoras detidas terem sido excluídas do seu lançamento, que ocorreu no mesmo EP aquando de umas jornadas sobre a saúde em meio prisional, aspeto este que, de certa forma, ilustra os “mistérios da fé” de uma parceria público-privada entre o Estado e a Santa Casa da Misericórdia do Porto, para a gestão partilhada desse EP.

    A conversa iniciou-se com as tensões e paradoxos inerentes à forma como se concretizou o projeto, passando à reflexão sobre os projetos artísticos de envolvimento comunitário em contexto prisional. Debateu-se sobre a dificuldade de projetos deste tipo assumirem a sua potência política e artística, porque quase sempre são acanhados intencionalmente pelo poder hierárquico e pervertidos pela instituição e regime vigentes. Isto é, acontece que estes projetos servem, também, para cumprir os objetivos institucionais, mais preocupados com a sua vertente ocupacional e terapêutica do que com o encontro/confronto com as subjetividades das pessoas privadas da liberdade, nomeadamente com a revelação da violência (sistemática e social) a que estão sujeitas. Assim, mina-se a possibilidade destas se colocarem e expressarem como sujeitas desejantes, pensantes e falantes, fora daquilo que seriam as nossas expetativas e projeções.

    A partir deste projeto foi possível refletir sobre o impacto de iniciativas deste género para as pessoas encarceradas, as que as dinamizam e a instituição. Uma análise romântica verá este projeto como um espaço exótico de expressão poética prisional que chega ao exterior, enquanto que um olhar mais crítico não pode descurar os benefícios colhidos pelas dinamizadoras destas iniciativas e pelas instituições. Neste sentido, é significativa a afirmação do dinamizador do PoeZine: o que acontece é que acabamos também por contribuir para a institucionalização pacífica daquelas pessoas num contexto especialmente violento. Por um lado, o exótico reflete-se, também, a partir dos CV’s das dinamizadoras, na medida em que trabalhar nestes contextos proporciona uma sobrevalorização dos seus percursos – benefícios estes altamente assimétricos em comparação com o impacto destas iniciativas na vida das pessoas privadas da liberdade. Por outro lado, salientou-se que através destes projetos não financiados, o Estado se desresponsabiliza parcialmente da sua suposta missão de ressocialização, embora estas instituições acabem por se apropriar destes projetos para veicular a imagem do “bom samaritano”.

    Ocupou grande parte da conversa o dilema com que estes projetos se debatem: por um lado, ao serem potencialmente perversos legitimando o discurso institucional, por outro, ao constituírem uma oportunidade para as pessoas detidas de combaterem os efeitos do encarceramento. Assim, perguntou-se: quais as estratégias que podem subverter a lógica prisional, contribuindo para a problematização da instituição? Na base desta pergunta está a escrita tímida das mulheres sobre o que à partida seria expetável culpa, arrependimento, saudade, família, ao invés de uma crítica desejável ao sistema em si. Aspeto este que deve ser entendido à luz do contexto do projeto mas, por outro lado, note-se que o fato de os seus textos terem extrapolado os muros permite-nos questionar, no limite, toda a rota da exclusão, na qual a prisão é um instrumento crucial. Ou seja, mesmo que a disseminação desta zine tenha sido limitada (e é interessante questionar porquê), e apesar de a maioria dos textos das reclusas serem “simples”, é importante realçar o seu papel na diminuição da distância entre o dentro e o fora ao permitirem, quando atingem o exterior, a reflexão e problematização do sistema prisional.

    Por último, destaca-se a diferença física entre a obra Mulheres Guerreiras – A Caminho da Liberdade e a zine (das reclusas), por contraste fotocopiada num caderno, cuidadosamente editada digitalmente, com textos de pessoas externas mais ou menos ligadas às temáticas suscitadas pela zine. Desigualdade esta que aponta para um desequilíbrio da relação de forças, acabando por reproduzi-las, e que, infelizmente, não é assumida nem criticada nas notas de apresentação do coordenador do projeto. Os lugares de privilégio e opressão em que cada dimensão está dão-se simplesmente como naturais.

     

    Huma e Lindorfo

     

  • Serão naturais as «catástrofes naturais»?

    Serão naturais as «catástrofes naturais»?

    Na edição #17 do jornal MAPA fizemos referência ao congresso intitulado «Pensamento e Catástrofes – Aproximações a Jean-Luc Nancy», efectuado no Porto, durante três dias, no passado mês de Maio. Essa iniciativa, realizada por dois organismos da Universidade do Porto (1), levou a cabo em quatro locais desta cidade palestras-debates com vários investigadores nacionais e estrangeiros, propôs uma exposição («Disaster Zone»), um espectáculo de bailado («Lastro», de Né Barros), um concerto-performance («Solo Jorge Peixinho») e dois filmes da cineasta francesa Claire Denis. Quisemos saber um pouco mais falando com um dos seus principais promotores e intervenientes, o investigador Jorge Leandro Rosa, do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto.

    Há um catastrofismo oficial, muito actuante desde há anos no discurso das propagandas governamentais, empresariais e mediáticas, cujo sentido parece consistir em levar as populações a adaptarem-se aos novos contextos resultantes das maiores imponderabilidades do «desenvolvimento» e às novas coerções que estas implicam, do ponto de vista do poder. No congresso, se não erro, o questionamento geral das intervenções pôs em causa as representações culturais e políticas das catástrofes contemporâneas, a sua explicação canónica ou a sua naturalização. Que balanço puderam fazer?

    JLR – Os encontros tinham por primeiro intento trazer as catástrofes ao pensamento público. Para isso precisávamos de regressar ao problema contemporâneo dos acontecimentos que tocam um limite considerado perigoso ou que prolongam o conceito cultural e filosófico do ilimitado, ainda muito presente nas sociedades. O que significa que as catástrofes são, simultaneamente, algo da ordem do acontecimento que pode ser pensado – sabendo nós que esse «pensável» é também a questão da transformação do próprio pensamento – e algo que é produzido discursivamente. As catástrofes são tanto aquilo que nos atinge como o que nós próprios realizamos com elas no plano da significação. É por isso que precisamos de retirá-las às categorias habituais em que elas são colocadas, sejam elas teológicas, filosóficas ou preventivas.

    Aquilo a que chamas o «catastrofismo» alimenta-se de tudo isto: trata-se de uma potenciação, assim como de uma reorientação, da própria experiência dos povos, que foi sendo atravessada ao longo dos tempos por situações de catástrofe de diversa ordem, e que os poderes políticos, militares e económicos de hoje, confrontados como estão por diversos limites do actual «sistema-mundo», não hesitam em utilizar dos modos mais diversos. O catastrofismo é um discurso de intuito repressivo que se serve da matéria vivida e real da experiência, seja a dos colectivos humanos, seja a individual. Se podemos dizer que o catastrofismo tem algo de ficcional, de puro material propagandístico, ele é também uma forma de engenharia social que joga com as fragilidades bem concretas e ameaçadoras da situação humana. Trata-se, portanto, também aqui, de uma catástrofe política que pode surgir em todos os regimes e em todas as culturas onde o poder é objectivado e se define por uma relação de centro versus periferia. Como todos sabemos, as democracias ocidentais são hoje reguladas pela exibição da ameaça nas suas diversas formas. Quanto mais a ameaça de catástrofe me for dada a ver, mais monstruosa será a forma de vida que serei levado a aceitar. E mais monstruoso será o dispositivo securitário para o qual darei o meu contributo. Se o exemplo óbvio que nos vem à mente é o do Islamismo, não faltam inúmeros outros no tecido catastrofista das nossas sociedades: desde o desemprego, que é um clássico espectro do capitalismo, às migrações ou ao regresso do medo nuclear. E, evidentemente, a crise ambiental que, sob formas diversas, está hoje a entrar no arsenal dos Estados-Maiores da catástrofe. As catástrofes, na sua forma multidimensional, são a razão de ser do poder contemporâneo e, nesse sentido, funcionam como uma vertigem obsediante: quantos mais esforços nos são pedidos para delas nos desviarmos, mais somos tomados por um movimento de aproximação a elas.

    Há ainda um outro tipo de discurso, muito potente hoje, que é aquele que se pretende fundado na tecnociência e na sua infinita capacidade de obviar a todas as crises. Aqui, as ameaças nunca chegam a ser objecto de uma clarificação política e social, já que há sempre um dispositivo que monitoriza as ameaças e as converte em algo que é declarado como servindo uma finalidade útil. Podemos percebê-lo na forma como os Estados gerem actualmente a catástrofe climática. Parece o inverso do catastrofismo, mas é somente a sua prossecução sob a forma de uma engenharia global da sociedade, a qual será bem patente quando for claro que as medidas de mitigação propostas não serão minimamente efectivas. Um dos participantes do Encontro, o Frédéric Neyrat, tem trabalhado a partir da leitura crítica de um certo pensamento construtivista que se esforça por eliminar a cesura natureza-cultura (2). Eliminada essa diferença, todos os fenómenos climáticos, geológicos, biológicos e epidemiológicos podem passar a ser manipulados a partir de uma sistemática reconstrução da Terra como habitat vocacionado para os seres humanos. Na verdade, essa reconstrução já decorre há muito tempo, mas a conjugação actual da crise das energias, fósseis com a sexta extinção das espécies vivas e a mudança climática, abrupta oferece uma oportunidade de ouro aos geoconstrutivistas de todo o tipo. Como escreve Neyrat num livro importante sobre estas questões (que espero venha a ter edição portuguesa em breve), «o Antropoceno foi activa, deliberada e conscientemente instalado». Que exemplo mais claro teremos dessa interdependência entre desastre e remédio do que a presente euforia das empresas petrolíferas em torno do iminente desaparecimento dos gelos do Ártico? Entramos numa era onde as catástrofes adquirem novas morfologias, como Nancy bem percebeu. Ele parte do exemplo de Fukushima, mas podemos olhar para os recentes fogos catastróficos em Portugal: intimamente associados à integral reconstrução da natureza em áreas florestais, estes fogos não são, seguramente, desastres naturais. Eles marcam o fim da diferenciação entre catástrofes naturais e catástrofes causadas pelos humanos.

     

    Tive a impressão de que os contextos universitários não são (ou já não são) propícios ou adequados a questionamentos desta qualidade, a avaliar pelo contraste entre a importância temática das conferências e debates, o número de assistentes e as reacções. Achas que vale a pena ter isto em consideração, pensar noutras «fórmulas» para expor em público questões tão decisivas como as levantadas no vosso congresso?

    JLR – A universidade está esvaída da sua função crítica, depois de um período em que se tinha aberto às interrogações da contemporaneidade. É hoje uma instituição contraprodutiva, no sentido em que Ivan Illich as definiu: o que ela faz – e faz muitas coisas, é obrigada a fazer cada vez mais e a viver para indicadores – serve essencialmente o seu espelhamento e o benefício das suas clientelas, o que a retira à vida questionadora e interpelante. Achámos, contudo, que o nosso tema continha a necessidade de reencontrarmos a radicalidade do pensamento, aquilo a que o Ocidente chamou «filosofia», para fazermos uma revisitação destas questões. No espaço social, dominado pelos media, a catástrofe é um objecto equívoco, sobre o qual não há reflexão, mas apenas um conjunto de lugares-comuns que nos impedem de a pensar. Teoricamente, a Universidade poderia favorecer a formulação de um ponto de partida diferente. Sendo Jean-Luc Nancy, enquanto filósofo, alguém que soube pensar o novo regime do catastrófico, pareceu-nos que valia a pena desafiar a comunidade académica com uma das suas figuras mais criativas. Seria uma provocação relativamente pacífica, não fosse dar-se o caso de termos verificado que a universidade só quer saber das catástrofes que estão arrumadas na historiografia ou das catástrofes que desafiam o poder de cálculo das suas disciplinas. Por aí, não tivemos uma repercussão significativa. Na verdade, a Universidade é parte do nosso problema civilizacional, já que perdeu a autonomia face às tendências que o capital e a indústria promovem.

    Ainda há algumas pessoas que hoje pensam estas questões na Universidade, mas que, por diversas razões, não prolongam esse pensamento noutros espaços (esse prolongamento é aqui de algo que se opõe à simples divulgação). Seja por uma questão de estilo, seja por receio ou incapacidade de trabalhar em diversos contextos. Por outro lado, a burocratização e a competitividade económica, laboral e hierárquica do trabalho académico reduziu à quase irrelevância os colóquios e as publicações que aí acontecem, já que não há uma partilha entre pares do que se faz nem uma verdadeira irradiação pública. Julgo que há necessidade de iniciativas que, não virando as costas ao mundo académico, decorram numa multiplicidade de contextos. No nosso caso, ao pensarmos as catástrofes, torna-se óbvio que estamos a ser interpelados pela questão da comunidade: seja a necessidade da sua reinvenção, seja simplesmente a sua possibilidade. Precisamos, portanto, de debates nómadas, de iniciativas que possam viajar nos territórios, encontrar populações, e não ficar apenas confinados às instituições ou ao ciberespaço.

     

    O convidado principal, Jean-Luc Nancy, viu-se impossibilitado de estar presente por motivos de saúde. Mas estiveram lá os seus livros, não só nos debates, mas também através do lançamento de A Declosão (Desconstrução do Cristianismo) [Palimage, Coimbra, tradução de Fernanda Bernardo], e d’A Equivalência das Catástrofes (Após Fukushima), que tiveste a iniciativa de traduzir e co-editar em 2014. Este último, pela sua temática, pôde ser um guia para o encontro, designadamente quando nele se diz que «as catástrofes naturais já não são separáveis das suas implicações ou repercussões técnicas, económicas e políticas», podendo-se assim interrogar em que medida são hoje naturais as catástrofes assim chamadas. Gostaria por isso que comentasses o que expões no teu ensaio «A Posição Detestável» (3), quando afirmas que «há que abandonar as atribuições de sentido das catástrofes».

    JLR – Esse ensaio é em parte um diálogo implícito com o texto de Nancy («Da ontologia em tecnologia») que abre a revista que editámos nesta ocasião. Aí, ele diz que «a reflexão sobre a técnica não pode confinar-se a uma reflexão sobre os bons ou os maus usos da técnica, como se dispuséssemos de um horizonte de referência em função do qual poderíamos determinar quer o “bom” quer o “mau”». Quer ele dizer que a técnica deixou de ser, se é que alguma vez foi, uma mera ferramenta utilizada por um ser dotado de razão que se encontra no meio de um universo natural que ele pode desbravar. Desbrava-o bem ou mal, mas inferimos que só pode ter aí uma acção ilimitada e que essa ilimitação do agir técnico seria a sua essência. A partir daí podemos verificar que há uma reincidência longa nessa equívoca ideia de que a técnica se conserva sempre, de algum modo, numa exterioridade que nos é possível inteiramente determinar e circunscrever. Na verdade, não há um reino da técnica, uma sua autarcia rigorosamente delimitável: o que há é uma técnica que se liga, no sentido de adquirir propriedades destes, aos seres e às forças que trabalha, o que quer simplesmente dizer que ela tem por vocação ampliar, substituir e tomar as funções do que chamamos «natureza».

    Na minha leitura, não será o estabelecimento de categorias de sentido (éticas, antropológicas ou outras), supostamente inscritas nos nossos actos técnicos, que nos permitirá controlá-los ou trazê-los a uma razoabilidade na nossa relação com a natureza. A nossa relação com a natureza está hoje determinada por uma dessas categorias, a produtividade: a natureza é aí inteiramente remetida para a função produtiva, mas de um modo que foi espartilhado pela tradição filosófica segundo a sua dupla condição de produtora e de produto. Esta concepção é uma cópia degradada da divisão em que instituímos o nosso estatuto de sujeitos técnicos colocados diante de objectos. Aí, quer o objecto natural quer o sujeito humano participam do grande estaleiro em que transformámos o planeta. Resumindo, direi que essas categorias são determinantes para as práticas de dominação pela técnica, já que parecem assegurar a sua infinitização quando elidem a recusa da produtividade que é também intrínseca à natureza. Ou seja, rasuramos o que escapa às atribuições de sentido na relação com a natureza, já que não reconhecemos que há sempre nela um movimento de antiprodução, seja esta uma desmontagem, uma falta ou desorganização (a morte). É expulsando essa recusa, tornando-a impensável, que as catástrofes aparecem no nosso horizonte de sentido. A «posição detestável» de que falo é então aquela em que, tendo nós deixado de perceber certos acontecimentos na sua finitude, entendendo-os sistematicamente como quebra e naufrágio de uma construção positiva, já não somos capazes de perceber que forças são essas a que chamamos catastróficas. Atentemos, ao menos, no desfazer de sentido presente nas catástrofes. Talvez, então, possamos começar uma viagem de sobrevivência no interior do colapso generalizado da civilização industrial.

     

    Júlio Henriques

    1. Aesthetics, Politics and Knowledge Research Group, do Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras; Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade, da Faculdade de Belas-Artes.
    2. Ver o seu livro fundamental La part inconstructible de la Terre. Critique du géo-construtivisme. Paris, Seuil. 2016.
    3. «A Posição Detestável – o Comunitarismo da Catástrofe», Nanocaderno nº 1, Abril de 2017, Instituto de Filosofia da Universidade do Porto.
  • Prisões: o bode expiatório

    Prisões: o bode expiatório

    com Filipe Nunes

    Garantir os direitos aos presos é difícil. Pôr em causa as prisões mais ainda. Daí a conversa com António Pedro Dores sobre o sistema prisional português.

    O texto que se segue resulta de uma conversa à volta do tema das prisões e é, necessariamente, um texto longo. Porque não é fácil reduzir a poucas linhas uma conversa sobre o pior da política prisional, sobre os exemplos de resistência mais inspiradores, sobre ativismo e abolicionismo. A história de uma associação sem fins lucrativos serve de roteiro a uma viagem pelo interior das cadeias portuguesas, através das reflexões de um sociólogo capaz de demonstrar que a prisão e a sua ausência de humanidade estão no centro da organização social atual.

    António Pedro Dores, 60 anos, apresenta-se na sua página pessoal como “professor universitário, sociólogo, instalado na vida e com o sentimento de ser carro vassoura de uma sociedade que está a desaparecer”.

    Agitações nas prisões portuguesas

    Cruzámo-nos pela primeira vez com o investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, nos idos anos noventa, não nos corredores da academia, mas às portas das prisões. Como ativista participou na APAR (Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso), durante alguns meses de 1996, e no ano seguinte, com outros companheiros também saídos desta, fundou a ACED (Associação contra a Exclusão pelo Desenvolvimento), vindo a assumir os temas prisionais no centro da sua atividade profissional na viragem do milénio.

    Falar do percurso das prisões em Portugal leva naturalmente a um antes e um depois do 25 de Abril de 1974. Mas a distinção óbvia com as mudanças de regime político não evita que subsista na questão penitenciária um mesmo fio condutor e denominador comum que é a condição do preso.

    Desde os motins na década de 1980, com origem nos espancamentos infligidos pelos guardas aos presos, às revoltas e greves de fome no início dos anos 90 devido à sobrelotação prisional e ao colapso dos serviços básicos nas cadeias a auto-organização dos presos ganhava então uma dimensão até aí não vista. O próprio Diretor-geral das prisões, o juíz Marques Ferreira, ameaçado por máfias, é forçado a demitir-se declarando que “o sistema prisional chegou ao fundo e precisa de uma renovação total”. 1996 será o ano de todos os protestos nas cadeias. Rapidamente alastram greves de fome e ao trabalho, acompanhadas de milhares de assinaturas na reivindicação de melhores e dignas condições de vida dentro das prisões.

    É nesse contexto que é chamado para aplacar a situação Celso Manata mantendo-se no cargo até 2001. Os protestos esvaziam-se em 1996, depois da violência dos guardas perpetrada junto dos presos do Reduto Norte do Forte de Caxias, logo acusados de um motim que não foi provado em tribunal 13 anos depois, e será a mão férrea dos serviços prisionais que pautará as décadas seguintes que inauguram o novo século XXI. E atualmente Celso Manata voltou a assumir a liderança dos serviços prisionais.

    Vozes contra o silêncio

    É nas agitações de 1996 que surge o envolvimento de António Pedro Dores. E a coisa não começa bem. Vitor Ilharco à frente da APAR (inativa desde 1997 e reativada em 2012) deixará cair tudo por terra pelas acusações de aproveitamento financeiro em nome próprio que lhe são imputadas. Uma experiência muito negativa para Dores, que se afasta da APAR mas não do trabalho com as cadeias, “nessa altura, falando ao telefone com uma mulher que estava presa, ela perguntou: ‘como é que eu sei se o vigarista é o senhor ou se o vigarista é o outro?’ E eu percebi que ela tinha toda a razão. A partir daí tive de tomar uma posição que foi manter-me ativo. É portanto uma questão de honra”. Estamos em 1997 e nasce a ACED fundada por quatro pessoas que saíram da APAR “com a ambição de fazer um congresso, um congresso contra a exclusão pelo desenvolvimento, uma coisa magnífica em que juntaríamos todas as boas vontades do país para tratar das questões da prisão, que estavam na altura a ser reveladas, nomeadamente pelo provedor de justiça”. Destas quatro pessoas “uma delas era advogada, outra delas era um pai de uma pessoa que faleceu no quadro de intervenções policiais (e que entretanto ele próprio já faleceu), era eu e um homem que estava preso, o Alte Pinho.”

    A ideia era “com base nas denúncias que nos chegavam das cadeias fazê-las chegar às autoridades e estabelecer um diálogo que era impossível de outra maneira”. Editam o SOS Prisões para que “pudesse fazer crescer, por um lado junto dos prisioneiros, mas por outro lado junto da população livre, alguma informação sobre o que se ia passando. Em Sintra, o Director da cadeia permitiu a entrada de um computador, onde eles faziam o jornal. Aliás começaram a fazer o jornal para divulgar junto dos presos. O problema surgiu quando eles quiseram, ao fim de 3 meses, passar a ser um jornal para divulgar fora e o Diretor da cadeia foi pressionado pela DGSP (Direcção Geral de Serviços Prisionais) e entrou numa atitude de repressão. Retirou o computador às pessoas, fizeram uma campanha inventada de drogas, ou álcool, já não me lembro bem, mas lembro-me que a DGSP mandou dizer aos jornais que eu era traficante de drogas, lembro-me bem dessa parte!”

    O início da ACED resulta num momento marcante pela positiva para Dores: ”o encontro com o Alte Pinho, sem dúvida nenhuma. O Pinho não tem nada a ver comigo, mas soube responder-me como igual quando discordávamos, estando ele preso. É um homem que saiu da prisão e fez uma coisa extraordinária, quis ser activista. Não foi possível, mas ele quis. Nenhum dos outros tentou sequer. E isso é uma coisa que tem um valor extraordinário, de capacidade, de coragem, de dar a cara, de reconhecer a sua própria identidade”. Antes de sair “era ele quem, dentro das cadeias, ia trazendo informação”. Ao fazê-lo “a política da DGSP era transferi-lo. Cada vez que a direção achava que ele se portava mal, não havendo razão para um processo disciplinar, o que havia era uma transferência. Mas isso teve uma consequência, é que ele ficou a conhecer as cadeias todas do país, praticamente, e foi mantendo algum contacto com as pessoas que eventualmente tivessem possibilidade para o fazer. Estou a falar disto porque a generalidade dos presos não sabem ler, não sabem escrever, não sabem falar. Não têm ideia de quais são os direitos das pessoas. Era difícil na altura… talvez agora seja diferente” diz-nos, descrevendo a situação prisional portuguesa na qual “uma pessoa é muitas vezes abandonada no tribunal, outras vezes, certamente à entrada das cadeias, abandonada pelos advogados e não percebe sequer o que tem a fazer ou que direitos é que tem”.

    Nos anos que se seguem “nunca mais a tensão parou entre a ACED e a DGSP. Mas foi possível fazer o jornal durante 3 anos. Significava que, de alguma maneira, já não me recordo bem como, os artigos chegavam, compunha-se, apareceram apoios anónimos”. Como universitário António Pedro Dores passa a “fazer “investigação-ação”. Até que, “a determinada altura, o ministério da justiça faz chegar ao ISCTE, uma queixa por eu estar a utilizar o nome do ISCTE para efeitos de uma associação que eles entendiam que era… subversiva. A partir daí a minha vida foi outra em termos académicos, porque a escola entendeu, de uma maneira pidesca, como na altura disse, que devia acabar com os apoios que me dava para eu fazer investigação”. Ao mesmo tempo Dores avança com um processo-crime face a violação de correspondência da ACED pela DGSP. “O tribunal reconheceu que havia violação mas que, como a correspondência vinha da prisão, já não havia violação de correspondência, ou melhor, já não era crime. Isso está escrito”. A partir de então “ficou muito claro para mim que havia, no quadro da cadeia, duas leis: a lei da cadeia e a lei de fora da cadeia e os tribunais reconheciam essa impossibilidade das leis que funcionavam fora da cadeia funcionarem dentro”.

    A partir de 2001 a ACED procurar estruturar-se de forma mais consistente, mas, por entre o resistir a dirigismos partidários, acaba por se ver reduzida a um pequeno núcleo. António Pedro Dores conclui desse esforço de se alargar que “no caso das prisões, as pessoas podem apoiar muito, acham muito engraçado, mas ninguém se mexe, pedem desculpa mas têm de ficar na clandestinidade. Exatamente o que queriamos fazer era o contrário: fazer com que as prisões deixassem de estar na clandestinidade. Tudo isto tornou impossível a nossa missão”. Posteriormente com a saída de Alte Pinho para fora do país, a ACED ficará praticamente apenas nas suas mãos. “Foi-se mantendo muito à conta dos prisioneiros. Era impossível para mim deixar de responder aos telefonemas que iam surgindo”.

    Porém “em termos organizativos o isolamento era cada vez maior”. Ao mesmo tempo, “tanto o Ministério da Justiça, através da IGSJ (Inspeção Geral dos Serviços de Justiça), como o Provedor de Justiça, habituaram-se a receber as nossas queixas, habituaram-se a tratá-las, e mesmo os presos começam a dirigir-se-lhes. Criou-se uma dinâmica”. Centrada nesse reencaminhar das queixas, “achei que era um bocado redundante a atividade da associação, visto que grande parte da atividade que tinha existido, como por exemplo campanhas por uma sociedade sem prisões, conferências e relatórios anuais sobre a situação das prisões, tudo isso não foi sendo feito”. Debaixo da mira dos Serviços prisionais e com dificuldade para manter uma linha telefónica de apoio verdadeiramente operacional, a ACED fecha portas em 2016. Para António Pedro Dores o maior desconforto é verificar que “ao fim de 20 anos voltarmos ao mesmo, até com o mesmo director-geral [Celso Manata]. É um bocado desmotivante…”

    Experiências que marcam

    Ao longo deste percurso muitas são as histórias. A mais negativa é relatada ainda com angústia. “Certa vez recebemos a informação de que há um homem que está a ser ameaçado de morte em Vale de Judeus. Decidimos fazer um fax (não havia emails) para a provedoria de justiça a informar e, nessa altura, ao contrário do que era costume, não divulgar para mais ninguém para evitar que alguma coisa se precipitasse. O resultado foi que mataram mesmo o homem. Evidentemente a provedoria de justiça não tem nenhuma responsabilidade nisso, mas o que é verdade é que a morte que foi anunciada verificou-se e nós sentimo-nos impotentes, apesar de termos tentado fazer o que foi possível. A partir daí resolvemos fazer as coisas sempre de acordo com uma rotina normal e não termos mais problemas de consciência a esse respeito. Tudo quanto nos chega vai logo para todo o lado, independentemente de sabermos se é verdade, se é mentira, que foi aliás uma das queixas que nos começou por fazer o Provedor de Justiça”. A nossa resposta foi muito simples: “nós não somos obrigados a investigar, nós recebemos denúncias e somos obrigados a canalizar”.

    A denúncia dos nomes de guardas prisionais levou mesmo Dores aos tribunais. O “Sindicato dos Guardas Prisionais atacou-nos em tribunal, evidentemente com as costas quentes por alguma razão, a dizer que nós estávamos a insultar os serviços prisionais (os serviços prisionais que pelos vistos são representados pelo sindicato dos guardas)” até ter desistido da queixa no final de 2008 “por razões que talvez tenham a ver com o facto do ministro da justiça ter sido chamado a depor em tribunal“, evitando-lhe, assim, esse incómodo.

    Droga e repressão surgem sem grande surpresa na essência do sistema prisional. “Se falta droga dentro das cadeias a tensão aumenta de uma maneira explosiva. Além do consumo de drogas ilegais, nas prisões, há também os psicotrópicos para complementar alguma falha. Este tipo de mecanismo é evidentemente responsável pela situação geral nas prisões. Toda a gente lá dentro se orienta conforme pode, num quadro em que a linha de comandos está completamente quebrada e ninguém quer saber exactamente o que lá se passa. E portanto os resultados são estes”. A mesma situação que levou Marques Ferreira em 1995 a ir à televisão dizer que as prisões eram conduzidas por máfias, receber ameaças de morte e demitir-se, “mas sem nunca mais ter dito rigorosamente coisa nenhuma, imagino que para sua defesa pessoal e da sua família”. Daí para frente “houve uma maior discricionariedade dos serviços prisionais e da DGSP, através do GISP (Grupo de Intervenção dos Serviços Prisionais, uma espécie de polícia de intervenção prisional), para controlarem e para darem autoridade pela força ao Estado, porque a autoridade do Estado de facto estava em causa”. Ao invés, de forma pragmática sem esconder o que todos sabem, “e isso é importante, foi proposta da ACED, se os regimes abertos vigorassem em vez dos regimes fechados, o que aconteceria é que os mercados faziam por sua vez a limpeza daquilo. Se as pessoas pudessem comprar cá fora aquilo que estavam a comprar lá dentro, compravam mais barato, mais limpo, mais em condições e não permitia que os poderes absolutos dentro das prisões fossem o que são. Não foi essa a opção política. Evidentemente as consequências são aquelas que são, ou seja, continua exatamente tudo na mesma como estava há 20 anos atrás.”

    Essa opção prende-se com outro momento marcante para a ACED e que ocorre já no período em que o atual primeiro-ministro António Costa é entre 2005 e 2007 Ministro de Estado e da Administração Interna do governo de José Sócrates. António Pedro Dores lamenta “a mudança de política que António Costa impôs no sentido de repressão, porque ele podia ter imposto uma política oposta. Estava previsto na lei a possibilidade de alargar os regimes abertos virados para o interior (RAVI) ou os regimes abertos virados para o exterior (RAVE). Estava previsto na lei e era uma questão de organização, mas ele decidiu fazer outra coisa que foram alas de segurança em Monsanto, a prisão de alta segurança. Foi essa a opção para reagir aos homicídios que houve em Vale de Judeus e para reagir, sobretudo, às greves de fome, um pouco por todas as cadeias do país”.

    O bode expiatório

    O activismo de António Pedro Dores em torno das prisões é inseparável das prisões enquanto seu objecto de estudo. Como sociólogo faz parte daqueles que “fazem as críticas da teoria social”, mas afasta-se destes ao verificar que “nunca chegam à conclusão que eu cheguei: que é da ‘culpa’ ser a própria teoria social”. Vira o olhar critico para quem o formula e questiona os problemas dentro da sociologia inerentes ao estigma do bode expiatório. “Como é que se justifica a existência da sociologia? A sociologia é uma coisa que podia ser dispensada. Mas então porque é que apesar de tudo subsiste? Por que cumpre uma função, um papel. Esse papel é o da discriminação das pessoas. Muitos sociólogos dizem, com toda a clareza, que na sociedade somos todos iguais, certo, mas há que reconhecer que uns são mais iguais que outros. E então tudo se justifica com base nessa desigualdade”. Por considerar antes que o importante e a diferença para a teoria social é “explicar as coisas com base na nossa igualdade” observa como “mesmo os meus colegas que trabalham nas prisões, mesmo os que são favoráveis aos presos, fazem em relação a eles a reprodução do estigma, nomeadamente ‘qual é o crime que ele cometeu?’ e que é, afinal de contas, implicitamente, associar aquilo que o Estado produz como etiqueta de alguma pessoa, que eventualmente terá acontecido… Houve um preso que me disse uma frase sociológica de grande gabarito. Ele era assaltante de bancos. E disse ‘mas eu sou um gajo simpático a maior parte do tempo. Eu só assalto bancos de 15 em 15 dias e aquilo demora meia hora; o resto do tempo eu sou um gajo impecável’. Isso tem piada, mas ele tem toda a razão. Há gajos que fazem vida para lixar o resto da humanidade. E fazem-no a vida toda. Por que raio de carga de água é que vamos imputar a alguém, que durante um período de vida relativamente curto tem comportamentos estranhos, esquisitos, condenáveis, porque é que lhe vamos imputar a sua própria identidade, porque é que vamos impor o estigma a essa pessoa. Isto dá que pensar”.

    A hostilidade às prisões é uma questão com que se viu confrontado perante os seus colegas. Acentua que “o problema da crítica em relação àquilo que se passa nas cadeias é de uma profundidade extrema, de uma subtileza extrema, porque quando nós admitimos que há crime, e o crime como objecto, uma coisa que existe, mesmo que seja construído socialmente, mas que legitima a construção de bodes expiatórios, estamos imediatamente a entrar no jogo, e não temos forma de sair”. Precisamente como forma de o evitar e “para denunciarmos isto como uma prática desumana, temos de começar por compreender que o mecanismo do bode expiatório é humano. A ideia de que nós, quando as coisas correm mal, temos de pôr a culpa em alguém para nos aliviar a nossa própria responsabilidade. Para continuarmos a manter um estilo de vida que tínhamos anteriormente, ou para termos margem de manobra para fazermos mudanças sem nos pormos em causa. Esse mecanismo, que é um mecanismo psico-social, é um mecanismo que é preciso compreender, apontar, reconhecer, para que nas alturas em que isso acontece – e isso acontece todos os dias frequentemente e a todos os níveis – sejamos capazes de reagir de uma maneira que seja construtiva, e não antagónica”.

    O reconhecimento desse mecanismo expiatório “significa uma coisa muito simples” e pega nas palavras ditas “espantosamente ou não, por um expoente da direita, o velho professor salazarista Adriano Moreira: ‘que estamos a falar de um problema que é o centro do problema civilizacional que temos neste momento presente’.” Palavras proferidas “a propósito da justiça restaurativa, um projecto que foi apresentado e que pretende, no fundo, reconhecer a humanidade daqueles que estão presos, e que pretende, junto com as vítimas, estabelecerem uma relação que seja viável para as suas próprias vidas, em função do outro”. Um projecto e um conhecimento que para Dores é “indispensável para que sejamos capazes de ver claro o que precisamos de fazer hoje, perante as circunstâncias que temos, que são as de criação de bodes expiatórios, em quantidades industriais, para que se possa justificar tudo e para que possa ficar tudo na mesma, sem que ninguém se mexa”.

    Entre Lucifer e o Jubileu

    Se este problema está no centro do problema civilizacional, António Pedro Dores olha para o ser humano e o seu lado bom e lado mau. “O ser humano pelo facto de ser social, pelo facto de precisar de existir em comunidade tem, em relação às outras pessoas, relações negativas e positivas. É inevitável. Nós humanos e sociedade, temos duas grandes estratégias: desenvolver as relações negativas ou desenvolver as relações positivas. Vão subsistir as duas, mas nós, conscientemente, com os nossos esforços e capacidade de intervenção e de transformar a nossa própria natureza noutra coisa, podemos valorizar as partes positivas ou as partes negativas. Quando valorizamos as partes negativas, que é o caso do sistema criminal penal, vamos tentar identificar o que aquela pessoa fez para depois dizer que ela é a causa de todos os males que aconteceram naquele momento. Com a culpa daquela pessoa que assume para o resto da vida, como é o caso do sistema de encarceramento, estamos a valorizar o mal, de uma maneira que houve quem a chamasse o efeito de Lucifer”.

    Podemos fazer a coisa de outra maneira que é tentar ver o que há de positivo numa experiência que também tem alguma coisa de negativo. E isso, não sei se podemos chamar de educação, há quem chame de justiça restaurativa, há quem chame justiça transformativa”. O certo é que o que quer que se lhe chame é outra coisa distinta da prisão. “A prisão é a ausência de experiência. A prisão é a ausência de justiça. A prisão é a ausência de direito. A prisão é a ausência de humanidade. E, portanto, os resultados de um sistema destes só podem ser negativos. Como é que podiam ser positivos? Não é a ideia serem negativos?!”

    Impossível a António Pedro Dores responder sem hostilidades ao propósito do sistema prisional. “Melhora a sociedade? Não, não melhora. Mas esse é o objectivo? Não, o objectivo da prisão não é melhorar a sociedade, é safar aqueles que assumem responsabilidades e não as cumprem. Pois no outro extremo do espaço social está gente que promete mundos e fundos e não é capaz de cumprir. Mas é capaz de gritar que os criminosos estão ali e apontar com o dedo. É esse apontar com o dedo que distrai as pessoas das responsabilidades que os dirigentes assumiram perante as pessoas e que não cumprem. E portanto esse mecanismo, o mecanismo que permite que haja uma discussão política civilizada, entre gente bárbara que usa os poderes que tem para destruir a vida dos outros, por contraponto a outro mundo onde as pessoas não têm dignidade humana, e são reduzidas a lixo, é esse contraponto que permite que a população, enquanto sociedade, enquanto grupo, seja conduzida na necessidade de cumprir o seu desígnio de sacrifício, de abnegação, de castigar o culpado, e se dirija à prisão e não se dirija aos chefes”.

    Essa reflexão leva-o consequentemente a uma constatação reconhecendo-a como “uma lição histórica. Ou seja, muitas vezes as populações viram-se contra os chefes. E quando se viram contra os chefes, acontece uma coisa curiosa: as prisões abrem-se. Porque não havendo chefes não é preciso prisões para coisa nenhuma. Pelo contrário, quando se destroem os chefes, quando se acaba com aqueles que mandam, fica-se a saber, fica muito claro e até já se sabia antes, que aqueles que estão na prisão estão na prisão injustamente. Então abrem-se as prisões. E as sociedades vivem melhor durante o tempo do jubileu. Aliás, a gente tem a ideia do jubileu como uma coisa agradável, que é a ideia de acabar com as prisões, com as dívidas, com os sacrifícios e passarmos a estar livres dessas cargas, durante um período de tempo… Infelizmente, passado pouco tempo voltamos aos mesmos mecanismos, agora com outras legitimidades, com outras lógicas, com as outras justificações, para quê? Para voltar a justificar que há alguns que estão em cima e outros que estão em baixo, e os que estão em baixo é que têm a culpa de os que estão em cima terem prometido coisas que não fizeram. E esta lógica é uma lógica que deve ser denunciada e não sendo denunciada é reproduzida pelas prisões”.

    Da coacção social à Justiça Transformativa

    O recente Manifesto Para Uma Nova Cultura Penal do Observatório Europeu das Prisões, de que António Dores faz parte, aponta o dedo precisamente à falência dos mecanismos e uso das penitenciárias como instrumentos centrais de execução de penas, nada resolvendo quanto aos maus-tratos, à reincidência e aos seus elevados custos sociais e financeiros. Em alternativa defende a já mencionada “justiça restaurativa” e propõe algumas alternativas às prisões que passam por “redes de coacção social e profissionais susceptíveis de estimular a auto-responsabilização das pessoas envolvidas em práticas indesejáveis”. Impunha-se perguntar como usando o conceito de “coacção” seja possível interromper este ciclo de punição e estigmas de bodes expiatórios.

    Estas redes de coacção já existem. Por exemplo, o que chamamos de educação já é isso. E portanto estudar como é que elas funcionam, como podiam funcionar melhor, é uma urgência. Dito isto, eu não sou favorável à educação que existe hoje. Mas tenho de reconhecer que a escola não é uma prisão, embora às vezes pareça, mas não é a mesma coisa. Ou seja, esses sistemas de coacção existem”. Para os entender fala-nos de um texto sobre abuso sexual de crianças, “Para Uma Justiça Transformativa” da associação americana Generation Five, cuja tradução disponibilizou on line em 2014. Algo claramente delicado, mas que lida com o facto do sistema judicial “não estar preparado, não estar desenhado para resolver problemas como este, da violência doméstica em geral. Porque estão preparados para outras coisas, como por exemplo para gerir mercados, para controlar o assalto às propriedades, para controlar a violência entre pessoas, aí estão mais ou menos preparados. Agora para resolver problemas na privacidade, por definição não estão preparados, o espaço é público e o facto de se tornar público um crime que é privado, não tem resolvido problema nenhum. O que acontece é que não se quer dar a mão a torcer a e dizer que o sistema judicial não está preparado, nem formal, nem substantivamente, nem objectivamente, nem subjectivamente para coisas deste género. Ora bem, estes problemas existem e têm de ser resolvidos e são resolvidos, de muitas maneiras. Uma das maneiras de resolver é o machismo. Quem manda aqui sou eu e acabou a conversa, e muitas mulheres e homens alinham neste tipo de comportamentos e isso resolve o problema. Não resolve, evidentemente, da melhor maneira, certo, portanto tem que haver redes de coacção social para chamar atenção daquelas pessoas, que em privado assim se comportam que não pode ser. Como é que isso tem sido feito? Tem sido feito através de campanhas públicas, associações cívicas, associações de vítimas, etc. Há vários processos que podem ser levados a cabo”.

    E isso funciona? “Sim, funciona relativamente. Mas o problema é o seguinte, do outro lado não funciona. O lado de entregar isso à justiça não funciona. É preciso termos consciência de que se a sociedade não quer assumir as responsabilidades de ela própria tratar da sua própria segurança, seja isso o que for. No sentido de se nós que não queremos assumir o facto de combater o patriarcado enquanto sociedade, ou combater o abuso sexual, ou combater a violência doméstica, ou combater o bode expiatório dentro de nós, de que se nós não queremos combater ninguém vai combater. Pelo contrário, ficamos completamente abertos às políticas do medo, que nos vão ser negativas pessoalmente, mas sobretudo vão ser negativas para as pessoas mais fracas, mais frágeis, que não têm essas redes de coacção social que impedem que a violência seja dominante. Como, por exemplo, aqueles que estão a ser utilizados hoje para serem bodes expiatórios no sistema criminal – as crianças abandonadas, os estigmatizados de várias matizes, os imigrantes, etc. – os que estão mais isolados da sociedade, não por acaso os escolhidos para serem bodes expiatórios. É precisamente porque eles não têm redes sociais de coacção, estou a chamar de coacção, de que sejam capazes de se defender também nessas situações”.

    O entendimento de coacção não coloca nesta perspectiva António Pedro Dores contra o processo-crime, mas apenas quanto à forma vigente da execução penal e aponta mesmo uma forma de reformar o juízo criminal. “Porque a coacção não é só negativa. A coacção tem a ver com uma moralidade que se impõe, eu não conheço uma sociedade onde isso não exista, não espero vir a conhecer uma sociedade onde isso não exista. Agora a discussão do sentido dessa coacção, da moralidade, do direito, é fundamental. Independentemente das instituições? Talvez sim, talvez não. Quando as instituições servem, por exemplo, para identificar crimes, eu não tenho nada contra isso. Que elas sirvam depois para legitimar os crimes, para compensar os crimes, aí já tenho tudo contra. Se o tribunal diz ‘esta senhora cometeu um crime’, óptimo. Agora o que é que se vai fazer em relação a isso? Vamos pô-la num sítio onde se cometem crimes todos os dias! É absurdo mas é isso que se faz. Então como é que é possível romper com isso? Havendo redes sociais onde a declaração de um juiz possa ser apreciada, não acriticamente mas criticamente, para que eles não possam fazer as barbaridades que muitas vezes fazem, mas para que a sociedade se possa defender. O juiz então vai começar a depender do seu prestígio, da capacidade de tomar decisões decentes e passa a ser, não a pessoa mais importante do mundo para tomar decisões sobre a vida de outras pessoas, passa a ser uma orientação para a sociedade se organizar. E passa a ser uma sociedade muito diferente daquela que temos hoje. E portanto eu não tenho nada contra o processo-crime, estou de acordo que houve evoluções importantes. Por exemplo, em vez de a gente matar logo a pessoa, agora pergunta-lhe ‘o que é que aconteceu’. Acho que isso é uma coisa que tem vantagens! Portanto, se o tribunal ou a polícia fizerem isso, parece-me uma coisa boa! Agora se isso significa que a polícia agarra nele e vai matá-lo, em vez do outro que foi morto, então não vale a pena. Mas acontece com alguma frequência. E se o juiz acha que isso não tem nada a ver com o caso que está em causa, porque ele não tem que julgar a polícia, tem que julgar é o caso em concreto, então estamos no mundo da hipocrisia e da estupidez”

    Conclui assim que “quando nós estamos a falar de redes de sociabilização coactivas, estamos falar de redes que hoje são monopolizadas pelo Estado, e para elas não serem monopolizadas pelo Estado alguém tem de assumir essa responsabilidade. E essa responsabilidade deve ser assumida colectivamente. Colectivamente não significa justiça popular, como acabei de dizer, significa pelo contrário que a ideia de que vamos ficar melhor por punirmos, não vai resolver o problema. Já a ideia de identificar os culpados para digerir a culpa e a tratar socialmente, aí é um melhor caminho”.

    E ainda assim consideras-te abolicionista? Uma pergunta final a António Pedro Dores nesta conversa em torno das prisões. “Eu não estou muito preocupado com isso. Quando fiz parte da APAR e da ACED, percebi que não havia solução, não havia reforma prisional possível. Na minha opinião, não é tão importante as pessoas tomarem uma posição formal quanto à abolição das prisões, mas quando identificarem uma situação em que as pessoas estão a ser abusadas, reajam contra isso. Que se sintam repugnadas e isso as leve a encontrar formas de travar isso. E eu conheço muitas pessoas assim, que estão a fazer abolicionismo na prática. Eu prefiro de facto um abolicionismo com activistas a tomarem iniciativas, do que um abolicionismo com pessoas tão radicais que não se consegue discutir ou fazer nada com eles. O manifesto que aqui apresentamos não é de facto abolicionista. É um resultado do Observatório Europeu das Prisões, em que existem pessoas que se dizem abolicionistas e pessoas que dizem que não. Há muito poucas pessoas a querer trabalhar neste assunto. Por isso, se a questão do abolicionismo serve para as dividir, eu não vou por aí. As reformas existem, aliás, a prisão serve, de acordo com a lei, para a reinserção social. Mas agora os serviços de reinserção social nem existem… toda a gente sabe que isso é uma fachada e dizer que a prisão serve para a reinserção social de alguém é uma hipocrisia”.

    Este ano deu por encerrado esse capítulo da sua vida que foram os 19 anos da ACED. Duas décadas de apoio aos presos e uma linha telefónica que ainda hoje recebe chamadas. Mas a denúncia do sistema prisional e a busca de alternativas prossegue-a nas aulas e no Observatório Europeu das Prisões. Diz-se “esperançado que as boas sementes da ‘imaginação ao poder’, dos ‘direitos humanos’, de ‘todos iguais, todos diferentes’, do ‘outro mundo é possível’ possam ajudar-nos a reflorir por dentro e por fora, tornando a luta diária numa oportunidade de bem estar, em vez de apenas uma obrigação de sobrevivência”.