Categoria: Destaque

  • I. Uma montanha no alto mar

    I. Uma montanha no alto mar

    BD de Lisa Lugrin | tradução de Júlio Henriques

    A invasão zapatista já começou. No início de Maio, uma delegação saída de Chiapas fez-se ao mar a bordo da Montanha Zapatista e, durante 50 dias, atravessou o Atlântico rumo à Europa. A 20 de Junho avistaram as costas da Península Ibérica e, a 22 de Junho, desembarcaram em Vigo, onde foram recebidas por centenas de pessoas. Deu-se assim início a esta invasão inversa, feita de centenas de encontros com as lutas e resistências de toda a Europa, agora rebaptizada “Terra Insubmissa”. 

    Para contar esta viagem, a desenhadora Lisa Lugrin tem vindo a publicar uma banda desenhada sobre a vinda dos Zapatistas à Europa em diferentes medias. A partir de hoje, numa colaboração entre a Flauta de Luz, o Jornal Mapa e a Guilhotina.info, publicaremos de 4 em 4 dias as traduções de Júlio Henriques para português das suas pranchas.

     



    Sobre a autora:

    Lisa Lugrin [1983, Thonon-les-Bains, França]. Estudou antropologia e cinema, interessando-se depois pela banda desenhada. Diplomada pela Escola de Banda Desenhada de Angoulême. Com o seu companheiro Clément Xavier, fundou a editora Na. Obteve o Prémio Revelação no Festival de Angoulême, em 2015, pelo álbum Yékini, le roi des arènes (Éditions FLBLB). É autora de várias BD, nomeadamente nas Éditions Delcourt (Géronimo, mémoires d’un résistant apache, Jujitsuffragettes, entre outros títulos).

  • O sol que queima a paisagem

    O sol que queima a paisagem

    A megalomania dos parques solares ameaça o meio rural. Em Cercal do Alentejo a revolta fez-se ouvir exigindo uma transição energética participada pelas populações.

    «Fizeram tudo à vontade deles e à última da hora é que a malta soube». A indignação percorre as palavras de Alberto Cópio, agricultor que se deu conta que ali nas terras onde «diziam que era uma zona protegida, não se podia fazer uma casa, não se podia fazer nada, agora já se pode fazer painéis, já se pode fazer tudo». Em sessão de esclarecimento pública, marcada nas vésperas do fim da consulta pública do Estudo de Impacte Ambiental (EIA), a população de Cercal do Alentejo foi alertada para uma megalómana central fotovoltaica a 1 km da vila e uma linha de muito alta tensão associada (400 KV) de 25,6 km até Sines. Uma área somada de 816 hectares, 323,07 ha de área fotovoltaica. Dias antes, também a aldeia de São Domingos, no mesmo concelho do litoral alentejano, Santiago do Cacém, fora surpreendida com o corte de um eucaliptal para dar lugar a parte de uma ainda maior central fotovoltaica (CSF THSiS) de 1262 ha, cuja vedação chegará a atingir os 30 km de extensão.

    A análise da associação ambientalista ZERO às nove centrais solares que estiveram em consulta pública no primeiro trimestre do ano, alerta para o perigo da «concentração dos projetos em determinadas regiões e em áreas sensíveis (…) como que “alcatifando” o território (…) numa enorme alteração da paisagem e artificialização de áreas rurais, com inevitáveis impactes negativos para o ambiente e para as populações que aí residem. A própria atratividade dos territórios é posta em causa, o que pode trazer perdas para o potencial turístico e para a valorização do património natural da região».

    Celeste
    Em testemunho divulgado pelo Juntos pelo Cercal, Celeste Nunes, auxiliar de apoio domiciliário há 28 anos na região, afiança que «há muita gente sem saber o que se passa e quando chegarem a descobrir ficam revoltados, porque as nossas raízes e tudo o que diz respeito à nossa história de vida vai desaparecer tudo».

    Acabar com o espaço rural

    Se em torno da CSF THSiS, o maior isolamento e despovoamento não logrou que houvesse entre os habitantes uma discussão e contestação ao projeto, já na vila do Cercal do Alentejo rapidamente os ânimos aqueceram. Em causa está a relocalização e concentração junto à vila de cinco centrais fotovoltaicas, num investimento da Cercal Power de 164,2 milhões de euros. As cinco fotovoltaicas dispunham já de licença de produção atribuída por parte da Direção Geral de Energia e Geologia, justificando-se o seu agrupar no EIA por «questões técnicas, económicas e ambientais, permitindo tirar sinergias pela utilização de infraestruturas comuns», nomeadamente da linha de MAT a ligar à Subestação de Sines. Desse cálculo económico, prevê-se que estejam afetos à exploração da Central quatro postos de trabalho efetivos.

    A revolta de Alberto Cópio encontrou eco numa mobilização popular que mostrou o seu incómodo na sessão de esclarecimento pública. Em tempo recorde foram entregues mais de 200 participações e constitui-se o movimento Juntos pelo Cercal. A questão para a população não está, como refere o movimento, na falta de consciência «quanto à bondade das energias renováveis e que estas se revestem de uma importância inquestionável para o futuro da humanidade, desde que equacionadas com conta, peso e medida. A questão não é o investimento em energias renováveis mas sim a dimensão/desproporcionalidade dos terrenos “sacrificados” e a escala das mudanças abruptas, particularmente as adjacentes à Vila do Cercal.» Como reconhece o EIA «a presença da Central Fotovoltaica induz, inevitavelmente, uma perda de valor cénico natural da paisagem. Os campos de culturas arvenses existentes na área da Central Fotovoltaica, que são ainda um testemunho atual da forte atividade agrícola na região, darão lugar a manchas de painéis fotovoltaicos».

    Para o Juntos pelo Cercal esta concentração de painéis «significa alterar todo um ecossistema e uma paisagem rural, penalizando os cidadãos que investiram em unidades agrícolas e turísticas, bem como em atividades paralelas». «A beleza identitária da sua paisagem de montado não é compatível com milhares de hectares de painéis fotovoltaicos junto a pequenos povoados».

    Para o movimento «o processo de transição energética deverá acontecer, mas de acordo com modelos participativos, com inclusão ativa das populações afetadas e, principalmente, respeito pelo património rural e por todos aqueles que apostaram no desenvolvimento da região, numa lógica de investimento sustentável».

    Alberto
    «Fizeram tudo à vontade deles e à última da hora é que a malta soube» As palavras de Alberto Cópio, agricultor ao Juntos pelo Cercal.

    Que modelo de energia?

    Com uma decisão favorável condicionada da APA, que se anunciava nas vésperas do fecho da edição do Jornal MAPA, ao demonstrado desrespeito pelo direito de informação e à participação pública, soma-se uma segunda questão: a fragilidade dos argumentos dos EIA à localização e escala dos parques fotovoltaicos. Como assinala a ZERO «mega centrais que artificializem solos com importantes valências ambientais não podem ser a solução de futuro» pelo que defendem a sua exclusão de Áreas Protegidas, da Rede Natura 2000 e da Reserva Agrícola Nacional, optando-se pela sua instalação em áreas já artificializadas «áreas degradadas (pedreiras inativas, minas abandonadas, zonas industriais, áreas com solos contaminados, áreas urbanas desocupadas, áreas com solos degradados situadas em zonas em risco de desertificação), de preferência junto a centros urbanos». Uma opção não considerada em Cercal do Alentejo, tendo em conta o vizinho e vasto perímetro industrial de Sines.

    Uma terceira ordem de reflexão prender-se-á com o modelo que privilegia a opção do “grande solar”, associada aos leilões de potência solar elétrica, que resulta na concentração da infraestrutura de geração fotovoltaica em grandes grupos económicos. A aposta já está bem presente desde a elaboração do Plano Nacional de Energia e Clima 2030, em 2019, em que se prevê instalar 5.5GW centralizado entre 2020-30 e 1.5GW de descentralizado no mesmo período. Neste contexto, para além de todas as questões ambientais e sociais que envolvem os projetos, há que questionar o próprio modelo de produção energética em causa: centrais de dimensões desproporcionais quando comparadas com as dimensões dos locais onde se inserem, e nas quais nem as comunidades ou empresas locais, nem os municípios, ou as juntas de freguesia têm participação social ou económica.

    Sendo consensual que as metas das renováveis terão de ser cumpridas, e talvez ultrapassadas, é importante perguntar: Seria possível serem atingidas através de modelos de produção energética mais descentralizados, dispersos no território e dimensionados para os locais onde se inserem? Nesse sentido contribuem as chamadas Comunidades de Energia Renovável (CER), uma forma de organizar e gerir a produção, armazenamento, compra, venda ou partilha de energia assente em princípios de democracia energética e cooperativismo. Uma CER pode, por exemplo, gerir um sistema fotovoltaico coletivo cuja produção é partilhada entre vários membros, sendo dimensionado para os seus consumos agregados e as necessidades, sejam eles residenciais, comerciais ou até mesmo industriais. Sendo um modelo em grande expansão por toda a Europa, mas ainda numa fase experimental em Portugal, as CER constituem uma oportunidade para as Autarquias, que podem constituir CER, e fortalecer a autonomia energética dos aglomerados populacionais, relegando a participação e os dividendos à escala local.

    É nesse contraponto que o caso do Cercal do Alentejo, juntamente com os muitos outros projetos a tomarem forma em Portugal, contrariam a possibilidade de se construir um modelo energético democrático, descentralizado e organizado de baixo para cima.

     


    Texto de Filipe Nunes e Guilherme Luz
    Fotografia [em destaque] retirada do facebook de Juntos pelo Cercal do Alentejo


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.

  • Está aí o número 31 do Jornal MAPA

    Está aí o número 31 do Jornal MAPA

    A edição #31 do Jornal MAPA (Julho/Setembro) aborda o Extrativismo e o que este representa num mundo apos­tado na transição energética. Lançamos uma conversa com Godofredo Pereira, que se tem debruçado sobre as relações entre as violações de direitos humanos e violência ambiental, e a entrevista deste último a Roland Humire Coca, líder indígena de Atacama, no Chile – coração da extração do lítio. Quanto à contestação da mineração em Portugal, refletimos sobre a falácia da avaliação ambiental e da «participa­ção cidadã». Falamos das centrais fotovoltaicas no Alentejo, das Linhas de Muita Alta Tensão no Minho, da exploração de lítio na Estremadura espanhola e do GNL, o gás fóssil que chega a Sines na pegada climática trazida pelos navios metaneiros. No percurso dos territórios devastados, abordamos as Lutas Agrárias no Sul: envoltas no «mar de plástico» das estufas, ou no «deserto verde» das monoculturas, e imersas na exploração dos trabalhadores migrantes. Está assim feita a ponte para uma entrevista a Federico Pacheco, do Sindicato Andaluz de Trabajadores/as (SAT).  

    Assim metidos neste #31, celebramos o encontro deste verão com a Viagem Zapatista pela Vida e recordamos outras histórias de resistência: o encontro de Kaminsky com Hipólito dos Santos e a arte da falsificação; na cidade do Porto, o novo fôlego do Musas; no Algarve, a história dos «maios» e das festividades operárias e primaveris, e ainda a ginga da roda de Capoeira. Nas 48 páginas de degustação lenta do Jornal MAPA, prosseguimos com Júlio do Carmo Gomes numa crítica à democracia liberal, por entre outras crónicas e recensões várias e, por fim, convidando a antecipar o filme documental que recorda Alcindo Monteiro e nos transporta ao racismo impregnado em Portugal. Leituras ao alcance de um bem vindo e necessário apoio das assinaturas válidas por 6 edições [ https://www.jornalmapa.pt/assinatura-do-jornal/ ], ou uma visita aos lugares cúmplices de venda do MAPA [ https://www.jornalmapa.pt/distribuicao/ ] que, uma vez mais, partilhamos convosco.

  • A Montanha Zapatista nos Açores

    A Montanha Zapatista nos Açores

    Na manhã do dia 11 de junho as zapatistas aportaram aos Açores a bordo da Montanha, assim rebatizado o veleiro que atravessa o Atlântico com a comitiva zapatista que a 3 de Maio saiu do México em direção à Europa. Dentro de dias chegarão a Vigo, na Galiza, onde serão esperados por diversos apoiantes, muitos deles vindos desde os vários pontos da Europa, que acolherão as/os/oas zapatistas que prevêem percorrer a Europa «dos de baixo». A comitiva que agora chega é um primeiro marco nesta viagem pela vida, como é apelidada pelos insurgentes indígenas de Chiapas.

    Pelo tempo e calendário da geografia mexicana «seriam as 22:10:15 horas do 10 de Junho, quando, entre as brumas da madrugada europeia, desde o cesto da gávea de La Montaña se alcança vislumbrar a montanha irmã, Cabeço Gordo, na ilha do Faial do arquipélago dos Açores, região autónoma da geografia chamada Portugal, na Europa.». Assim relata o Subcomandante Galeano, transmitindo no site zapatista, o relato que lhe chega da viagem.

    «Seriam 02:30:45 de 11 de Junho quando avistamos, já de muito próximo, as costas do porto da Horta humedecendo os olhares do navio e tripulantes. Nas montanhas dos Açores eram 07:30 da manhã desse dia. Seria 03:45:13 quando uma lancha rápida da autoridade portuária da Horta se aproximou de La Montaña para indicar onde haveriam de fundear. Seriam 04:15:33 quando o navio fundeou frente às outras montanhas. Seriam as 08:23:54 quando o bote da Capitania do Porto recolheu os tripulantes de La Montaña e os levou a terra para as testagens PCR de Covid, e os trouxe de volta ao barco para esperarem os resultados. Em todo o momento a “Autoridade Marítima”, no porto da Horta, comportou-se com amabilidade e respeito.»

    A tripulação encontra-se animada e nesse seu breve testemunho deixou «para reflexão» o «lema dos Açores» que é «Antes morrer livres que em paz sujeitos». Acrescentando como «ao longe, a oriente, as colunas de Hércules [estreito de Gibraltar] – que no seu tempo eram o limite do mundo conhecido –, olhavam assombradas uma montanha que navegando desde o ocidente vêem».

    Em Portugal diversos indivíduos/as/as continuam a organizar-se para acolher os zapatistas. Para o efeito foi lançado um crowdfunding para financiar a Gira Zapatista em Portugal.

  • «Estaremos juntos para nova vitória»

    «Estaremos juntos para nova vitória»

    Entre processos opacos e polémicos, sob uma pressão popular crescente, em ano de eleições autárquicas e perante o aproximar duma manifestação contra a narrativa do Green Mining, o ministro do ambiente decidiu fazer o pré-anúncio do cancelamento do projecto da Lusorecursos para a mina do Romano, em Montalegre, utilizando uma espécie de argumento «verde» para tentar demonstrar que tem mão firme quando as empresas não são sérias.

    A licença para a concessão de mineração deverá ser «rejeitada devido a falta de profissionalismo» por parte da Lusorecursos, a empresa à qual o governo concedera o contrato de exploração em 2019. A 27 de Abril passado, o ministro do Ambiente e da Ação Climática, Matos Fernandes, tecia estas afirmações ao site Politico, afirmando também que via «como muito improvável a possibilidade de termos uma mina de lítio em Montalegre», uma vez que o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) era «claramente insuficiente» e acrescentando que não demorará muito até que «essa licença seja completamente cancelada». A firma constituída três dias antes da assinatura do contrato de exploração, sobre a qual o mesmo Matos Fernandes afirmara em audição parlamentar que «só por estultice ou por má-fé se pode usar o argumento da juventude da empresa», era, afinal, classicamente adolescente, ou seja, pouco profissional.

    Horas depois, as palavras do ministro à RTP3 deixavam transparecer que Matos Fernandes se voltara a lembrar de que as regras do jogo permitem que um novo estudo seja submetido até Agosto e já não soavam tão taxativas, apesar de manterem a ideia de que a empresa concessionária é um caso perdido: «se a Lusorecursos não for mais profissional do que tem sido, é inevitável que essa licença venha a ser revogada». Já quanto à parte da lei que define que cabe à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) decidir e pronunciar-se sobre a conformidade (ou não) de um EIA, Matos Fernandes ainda mantém uma leitura muito particular. Questionado pela RTP3 se não estaria a substituir-se à APA, respondeu que «não», uma vez que «aquilo que APA lhe diz, e o tornou público por decisões administrativas, é que ainda não existe um estudo de impacto ambiental capaz». Ou seja, e no resumo feito pelo próprio ministro à televisão, a Lusorecursos já apresentou por duas vezes o seu EIA: «a primeira vez, foi liminarmente rejeitado; a segunda, foi considerado desconforme». E, a julgar pelo discurso, o governante não acredita que a terceira tenha melhor sorte.

    «Nunca cá andaram a fazer medições de nada, como é que se faz uma estudo de impacto ambiental assim?»

    Este anúncio-que-não-o-era-mas-é de perda de licença de uma empresa «pouco profissional» talvez pretendesse mostrar mão firme do Estado em relação às questões ambientais. No entanto, fazê-lo substituindo-se à entidade que é responsável por esse tipo de decisões e, para mais, quando os processos ainda estão a alguma distância da sua finalização é um verdadeiro tiro no pé. O carácter de epifania que estas declarações necessariamente encerram foi rapidamente desmontado pela mesma Associação que, há muito, tinha movido uma acção judicial a pedir a anulação da licença, a Associação Montalegre com Vida: «Nós bem tínhamos avisado», afirmou Armando Pinto ao jornal Público. «Nós nunca vimos a empresa no terreno a fazer estudo nenhum. Nunca cá andaram a fazer medições de nada, como é que se faz uma estudo de impacto ambiental assim?»

    Noutro quadrante, e numa primeira reacção, Ricardo Pinheiro, CEO da Lusorecursos, afirmou que ficara a saber do cancelamento iminente do projeto de 500 milhões de euros através do próprio Politico, referindo que a sua empresa iria avançar com uma «acção nos tribunais». Em declarações ao jornal I, Jorge Costa Oliveira, ex-secretário de Estado de António Costa e antigo consultor da Lusorecursos, daria uma ideia do contexto em que essa acção poderá ser enquadrada: «Há um contrato de concessão assinado, do qual decorrem obrigações para ambas as partes – incluindo deveres de lealdade e de boa fé no relacionamento entre concedente e concessionária – e esse contrato só pode ser cessado com base na lei».

    Por uma vez não foram apenas as populações a ser apanhadas de surpresa. E, por uma vez também, a surpresa não foi assustadora para as pessoas. Nestas, as reacções variaram entre a incredulidade e a desconfiança. Para muita gente, as palavras do governo ou do presidente da Câmara de Montalegre não são dignas de credibilidade e consideram, por isso, que é melhor esperar para ver. Todos sabem que, mesmo a ser verdade, este cancelamento – ou, pelo menos, esta declaração de incompetência à Lusorecursos – deverá ser provisório e a concessão dada a outra empresa. Não é também de descartar que – a acontecer esta revogação pré-anunciada pelo ministro – a concessão da mina do Romano volte às mãos do Estado e integre a área Barroso-Alvão do futuro concurso internacional do lítio, do qual tinha sido excluída por estar já concessionada.

    Por uma vez não foram apenas as populações a ser apanhadas de surpresa.

    Esta necessidade incontida de mostrar serviço no que diz respeito às questões ambientais acabou assim por redundar numa trapalhada de anúncios e proto-desmentidos que originou um ruído que foi recebido com reservas, mas também, sem dúvida, com alegria. E não apenas pelos movimentos locais de oposição às minas. O Movimento SOS Serra d’Arga, no seu Facebook, era um exemplo desta «solidariedade entre os montes» e desta visão optimista sobre a «notícia de cancelamento» da mineração de lítio na mina do Romano: «Esta é a vitória do povo de Morgade, da Montalegre Com Vida – Associação de Defesa Ambiental, do Armando, da Teresa e outros grandes transmontanos que fizeram tudo para proteger o seu território e património, que no fundo é património de todos nós, de um desastre. Esta é ainda a vitória de todas as associações e movimentos cívicos, que lutam há muito contra este projecto de fomento mineiro, sob a capa do lítio. (…) É a vitória de todos os movimentos cívicos, que estão juntos, numa plataforma de entendimento assinado há 2 anos, e que vão, juntos como sempre, manifestar-se à porta do Centro Cultural de Belém, onde vai decorrer a Conferência sobre Green Mining. Esta é a vitória da cidadania. Estaremos juntos, para nova vitória, onde for necessário».

    O resto do Barroso continua apontado para o dito concurso internacional, que inclui mais de 140 km2 do concelho de Montalegre e mais de 200 km2 do de Boticas, para além do projecto que causa mais preocupação imediata: a mina do Barroso, cujo EIA está numa consulta pública onde a população apenas consegue participar na forma de manifestação.

     


    Legenda da imagem em destaque: Foto com a qual a Associação Montalegre com Vida participou no concurso referente ao Entrudo em Casa 2021, realizado pelo Ecomuseu do Barroso.

  • A Montanha Zapatista navega rumo à Europa

    A Montanha Zapatista navega rumo à Europa

    A delegação zapatista saiu de barco para dar início à caravana zapatista pelos 5 continentes. Em Junho chegam às costas da península ibérica.

    Em Quintana Roo, nas costas mexicanas de Cancún há um veleiro de chapa meio gasta, mas pleno de força e capacidade, batizado A Montanha e que hoje – a 3 de maio, dia de Santa Cruz – se faz ao mar. O dia de Chan Santa Cruz evoca o nome original da capital de um território maia independente de finais do século XIX e dos indígenas aí sublevados numa revolta esmagada em 1901. Agora, em 2021, daí embarcam a caminho da europa n’A Montanha os insurgentes zapatistas. Os descendentes maias que resistem há cinco séculos e há 26 anos se sublevaram em Chiapas. Mantêm, desde então, uma luta e resistência num território cercado por quartéis e acossado pelos ataques de paramilitares, onde ergueram Municípios Autónomos Rebeldes Zapatistas com formas de governo alternativas nas chamadas Juntas de Bom Governo.

    Está previsto que aportem a Vigo, na Galiza, em meados de Junho. Junto com a tripulação do veleiro de bandeira alemã, a tripulação zapatista foi apelidada de Esquadrão 421 por ser composta 4 mulheres, 2 homens e unoa otroa. E ficou decidido que a primeira pessoa zapatista que porá os pés em solo europeu… a «iniciar a invasão… ok, a visita à Europa»…«não será um homem, e tão pouco uma mulher. Será unoa otroa». Marijose, 39 anos, tojolabal da zona fronteiriça da selva. Como diria o defunto Subcomandante Marcos: uma «chapada de luva preta para toda a esquerda heteropatriarcal». Marijose, foi milicianoa, promotoroa de saúde e educação, faz parte deste grupo inicial de 7 zapatistas, que inclui Lupita, 19 anos, Tzotzil dos Altos de Chiapas, coordenadora regional de jovens e administradora local de trabalho coletivo; Carolina, 26 anos, Tzotzil e agora Tzeltal da selva Lacandona, atualmente Comandanta na direção político-organizativa zapatista; Ximena, 25 anos, Cho’ol do norte de Chiapas, igualmente Comandanta; Yuli, que fará 38 anos em maio, em alto-mar, originalmente Tojolabal, agora Tzeltal da selva Lacandona, promotora de educação, formadora de educação; Bernal, de 57 anos, Tojolabal da zona selva fronteiriça, foi miliciano, professor na escola Zapatista e membro da Junta de Bom Governo; e Felipe, 49 anos, Tzeltal, foi miliciano e responsável local de um Município Autónomo e membro da Junta de Bom Governo.

    Há 8 meses atrás, no início de Outubro de 2020, das montanhas de Chiapas no Sudeste mexicano, o Subcomandante Insurgente Moisés do Comité Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) anunciara que em 2021 chegariam à Europa diversas delegações Zapatistas: «sairemos para percorrer o mundo, caminharemos ou navegaremos por terras, mares e céus remotos, em busca não da diferença, não da superioridade, não da afronta, muito menos do perdão e da lástima. Iremos ao encontro daquilo que nos faz iguais». No dia anterior à saída, 2 de Maio, uma delegação zapatista falou perante observadores de direitos humanos, organizações sociais, imprensa nacional e internacional e sociedade civil solidária, assinalando a partida d’A Montanha. Moisés voltou a afirmar o mandato dos povos zapatistas para que esta caravana marítima leve longe o seu pensamento, ou seja, o seu coração – «As/os/oas nossas/os/oas delegadas/os/oas levam um coração grande,  não só para abraçar quem no continente europeu se revolta e resiste, mas também para escutar e aprender as suas histórias, geografias, calendários e modos».

    Em Portugal, cresce a vontade e a organização que acolherá a sua passagem. (…) As propostas surgem desde as cidades aos campos e serras

    Os/as/oas zapatistas do EZLN irão estar em Madrid a 13 de Agosto, data em que se assinalam 500 anos da “conquista” do que é hoje o México, para afirmar algo que têm como muito claro: «Primeiro: Não nos conquistaram. Continuamos em resistência e rebeldia. Segundo: Que não têm por que pedir que os perdoemos. Já chega de jogar com o passado distante para justificar, com demagogia e hipocrisia, os crimes actuais e em curso: o assassinato de lutadores sociais (…) os genocídios escondidos atrás de megaprojectos, concebidos e realizados para contentamento do poderoso – o mesmo que flagela todos os cantos do planeta”.»

    A vinda zapatista à Europa não tem sido um processo fácil. Como referem em comunicado «tem sido tortuoso. Para chegar a este calendário, tivemos que enfrentar objeções, conselhos, desencorajamentos, pedidos de contenção e prudência, francas sabotagens, mentiras, palavrões, relatos detalhados das dificuldades, mexericos e insolências, e uma frase repetida até ao enjoo: “isso que querem fazer é muito difícil, para não dizer impossível” e, claro, dizendo-nos, ordenando-nos, o que deveríamos, ou não, fazer. Tudo isso, deste e do outro lado do oceano». Assim, é certo que a vinda dos/as zapatistas «não será bem vista pela ortodoxia feita vanguarda, que, como deve ser, vai tão à frente das massas que nem a vemos…»

    barca zapatista

    Ao sair dos mares da américa central, a comissão que aportará a Vigo – seguido de dezenas de outros/as/oas zapatistas por avião – fez já chegar uma calorosa aceitação dos convites a 30 geografias do velho continente, como se auto-intitula a europa. São elas Alemanha; Áustria; Bélgica; Bulgária; Catalunha; Sardenha; Chipre; Croácia; Dinamarca; Eslovénia; Estado Espanhol; Finlândia; França; Grécia; Holanda; Hungria; Itália; Luxemburgo; Noruega; País Basco; Polónia; Portugal; Reino Unido; Roménia; Rússia; Sérvia; Suécia; Suíça; Turquia e Ucrânia.

    coimbraEm Portugal, cresce a vontade e a organização que acolherá a sua passagem. Uma coordenadora surgiu juntando vontades desde os territórios do Alentejo, Lisboa, Coimbra e Porto, sem esquecer outros convites que lhes foram feitos de outras geografias portuguesas. A agenda, a anunciar nos meses em diante após Junho, ainda não se encontra definida e será elaborada com as disponibilidades e com a articulação dos/as Zapatistas. As propostas surgem desde as cidades aos campos e serras. A sul o convite à partilha e discussão de lutas é feita a pensar no ataque da agroindústria sobre o território e o lastro da exploração dos migrantes trabalhadores agrícolas; ou pensando (como em outras regiões do país) em partilhar as experiências de novas comunidades e os problemas das comunidades locais, com a autonomia como pano de fundo. Em Lisboa, Coimbra e no Porto, reiterando a importância das lutas ecológicas e de defesa do território; assim como na partilha das lutas das comunidades urbanas excluídas, com enfoque nas questões raciais e das mulheres; as lutas colectivas pela habitação frente ao avanço da gentrificação; sem esquecer o ir ao encontro e a passagem dos/as zapatistas pelos territórios em luta, como seja a Bajouca, protagonista de uma vitória contra a exploração do gás, ou junto das populações que a norte e no centro se erguem contra a lógica extrativista da mineração. Esse é afinal um fio condutor que em território de Chiapas constituiu outra guerra aberta em defesa da dignidade da vida, contra os megaprojectos do “desenvolvimento e do progresso” e pelos quais lutadores sociais têm sido assassinados. Os encontros prevêem-se ainda momentos de festa, música e animação, sejam em contextos mais fechados, sejam de forma aberta e participativa.

    O entusiasmo face à caravana zapatista cresce também no resto do continente europeu. Nos últimos dias, centenas de pessoas reuniram-se em dezenas de geografias diferentes, em marchas, concentrações ou outras actividades, para assinalar a partida do Esquadrão 421 e, com ela, o início da Caravana Zapatista. Em Coimbra, no passado dia 30, cerca de 40 pessoas reuniram-se numa roda de conversa e, no Porto, estão a realizar-se assembleias abertas semanais.

    barca zapatistaQuando o/a compo/a Zapatista, Marijose, pisar o solo europeu, dirá – assim nos diz um dos regulares comunicados do EZLN –, em voz solene: «Em nome das mulheres, crianças, homens, anciãos e, naturalmente, outroas Zapatistas, declaro que o nome desta terra, que seus nativos agora chamam de “Europa”, será doravante chamada: SLUMIL K’AJXEMK’OP, que significa “Terra Insubmissa”, ou “Terra que não se resigna, que não desmaia”. E assim será conhecida tanto pelos locais como por estranhos, enquanto haja aqui alguém que não desista, que não se venda e que não ceda».
    Por agora sabemos que «nos mares de todos os mundos que no mundo existem, foram vistas montanhas movendo-se sobre a água e, com o rosto negado, mulheres, homens e outroas sobre elas.»

     


    Texto de Filipe Nunes e Francisco Norega [guilhotina.info]