Desculpa, mas não encontramos nada.
Desculpa, mas não encontramos nada.
Lendo: Corte Medronheira: O amor pela terra e o dragão que despertou a comunidade
Algures no Barlavento Algarvio, fica uma frondosa floresta, repleta de sobreiros e medronheiros. Um grupo de pessoas apaixonadas pela regeneração social e ecológica escolheu chamar-lhe casa e santuário. No final de setembro, um incêndio desfez em menos de sete minutos mais de sete anos de trabalho e dedicação. As lágrimas e as cinzas nutrem agora um deslumbrante processo de regeneração.

É domingo, 21 de setembro – o último dia do verão. Dia e noite alinham-se para o equinócio de Outono. Na Serra de Espinhaço de Cão, algures no triângulo entre Aljezur, Lagos e Vila do Bispo, fica a Corte Medronheira. Uma floresta de 36 hectares, com cerros e vales de verde abundante, sobrevoados por pica-paus e cotovias, que há décadas se desabituara de ver vida humana. Hoje, são 15 pessoas, adultas, adolescentes e crianças, que aqui se dedicam a um modo de vida regenerativo.
Ana recebe esta manhã um técnico que vem instalar novos painéis solares, um investimento há muito aguardado. Margarida, como habitual desde o começo da construção daquela casa há sete anos, aparece para dar uma mão. Na casa logo abaixo, Ana Santos e o filho Yusef brincam tranquilamente. Xana e Patrícia estão de viagem até São Luís, no Alentejo, para participar num encontro do Co.Re, Centro de Aprendizagem Rural.
a passagem do dragão
Ao meio dia, a dez quilómetros da Medronheira, deflagra um incêndio. O calor e o vento são intensos. A velocidade do fogo progride de 52 para 236 hectares por hora, e torna-o incontrolável para os mais de 500 bombeiros que acorrem à região.
Xana e Patrícia apressam-se de regresso a sul. Ligam a vizinhos que estão já com máquinas a abrir corredores de fogo. Nos chats da comunidade local, as vizinhas partilham fotos e informações sobre a progressão do incêndio.
Uma projeção, disparada a partir de um eucaliptal, sobrevoa centenas de metros e começa uma nova frente bem perto da Medronheira. Perante o aproximar veloz das torres de chamas, Ana Santos sai apressadamente da serra para pôr Yusef em segurança.
Em torno de casa, Ana molha tudo o que pode, com a ajuda de Margarida e de Khaled, pai de Yusef, que aparece numa preciosa ajuda. Quando a obrigam a fugir dali, com as chamas em redor, mal tem tempo para levar coisas consigo.
Sentadas no camião de um vizinho, Xana e Patrícia ziguezagueiam para fugir às estradas cortadas pelos bombeiros. Quando todas se reencontram no topo do terreno, já o fogo varreu a serra. Os membros da Medronheira e amigos descobrem-se a lançar baldes de água, como lágrimas impotentes, sobre os destroços de sete anos das suas vidas.

o despertar da comunidade
Naquela tarde e noite, fora da habitual temporada de risco de incêndio, arderam mais de dois mil hectares de terras. Os meios de comunicação e as autarquias repetem os danos oficiais: uma habitação secundária danificada.
Dezenas de pessoas, famílias e projetos por estas serranias perderam casas e formas de sustento – mas é como se não existissem. Por escolherem construir com as próprias mãos modos de vida mais simples e próximos da floresta, são invisíveis às burocracias estatais. Como os milhões de animais não humanos que perderam os ninhos, as tocas, o alimento ou a vida, ou os milhões de plantas que pereceram.
Para Xana e Ana, que dedicaram todos os seus recursos a construir um sonho, é tempo de tentar recomeçar a viver… com uma mochila, num apartamento emprestado. «Não tínhamos roupa interior para vestir, não tínhamos nada das coisas básicas…», recorda Xana. «O passado era demasiado assoberbante. O futuro também. Só tinhas o aqui e agora».
Seria só mais um drama num território rural descuidado, em que as monoculturas de pinho e eucalipto e as alterações climáticas tornam mais precária e perigosa a vida de quem habita e cuida dos lugares.
Mas o telemóvel tocou. E a campainha tocou. Uma pessoa que produz legumes chega com um cabaz. Outras pessoas chegam carregadas de roupa para dar. Outras, com pequenas coisas para tornar a casa mais confortável… Chega um envelope com dinheiro que uma amiga juntara entre a família e amigas. Chegam medronho, miso e outros fermentados: «pessoas que tinham comprado os últimos Produtos Unicórnio, que a Ana vendia semanalmente no mercado de Lagos, souberam que todo o seu negócio tinha ardido com a casa e quiseram trazê-los de volta», conta Xana.
A comunidade local, que acorrera a fornecer sandes e água aos bombeiros cansados, que se organizou para apagar reacendimentos, transforma rapidamente o Centro Cultural de Barão de São João em ponto de entrega e recolha de bens, com «tudo e mais alguma coisa» para as pessoas afetadas pelo fogo. Organizam-se folhas de cálculo online, com grupos e listas de quem recebe famílias, quem recebe animais, de que tipo, em que sítio. Disponibilizam-se apartamentos e caravanas para as pessoas ficarem.
Será no Verão de São Martinho, a 11 de Novembro, mais de mês e meio após o incêndio, que a Câmara Municipal de Lagos e a Proteção Civil virão ao terreno apoiar na remoção dos destroços. «Quando são necessárias respostas no imediato, não podem ser dadas pelo sistema, porque ele é tão burocrático que é difícil que seja ágil. Ou então a resposta é linear e não abarca a complexidade das situações. Tiveste um incêndio, perdeste material agrícola, então há uma candidatura que tens de fazer, para teres algum retorno daqui a imenso tempo…», observa Xana.
«O que a comunidade faz é uma solução local: no imediato, auto-organiza-se para aquilo que é preciso. Pessoas a trocar mensagens, telefonar e falar entre elas, pessoas em casa a trabalhar nos sistemas de auto-organização necessários. E, de repente, as pessoas com animais tinham para onde os levar, as famílias tinham onde dormir».
«Quando o incêndio está a chegar é a auto-organização da comunidade que dá a resposta. Se estivéssemos à espera de ver nas notícias, de receber informação dos bombeiros, tudo isso é muito ineficaz», afirma. «Quem esteve logo lá, desde a primeira mensagem para a primeira pessoa amiga a dizer “a Medronheira está a arder”, foi a comunidade».

uma semana após a passagem do dragão
É um tema pesado, que vem deixando os adultos apreensivos: como abordar o incêndio com os mais novos? Não será traumatizante para as crianças ver este desastre? É o sábado a seguir ao incêndio – e as crianças e adolescentes voltam pela primeira vez à Medronheira.
«Uau, aquilo é o quê?», «Uau, isto agora dá para entrar!» «Olha este buraco! As raízes que arderam, brutal!» O tronco torto de uma árvore queimada faz de baloiço para os mais pequenos.
Miriam, 16 anos, encontra uma paisagem romântica e melancólica. «É bué bonito!». Descobre algumas loiças que derreteram e guarda-as. Recolhe pedaços de madeira carbonizada, para usar par pintar. Yusef, 9 anos, reconhece peças de metal no meio da paisagem e coleciona-as, quais metais preciosos.
«As crianças imediatamente viram, não aquilo que se perdeu, mas o que era agora. Começaram logo a criar possibilidades, a ver como utilizar. Viram beleza, oportunidade e descobertas. Coisas novas, que não estavam lá antes. Um olhar diferente do nosso: um “uau, agora é assim!”. E acabaram por nos ajudar a olhar com esses olhos», observa Xana.
«Começámos também a ver a beleza daquele preto, do carbonizado. A ver de repente as formas das árvores todas, a maneira como umas cresceram para se adaptar às outras, tudo assim muito escultórico e bonito», conta Ana.
Uma estatueta de buda, que sorri nos escombros como antes do fogo, é colocada no pé de um sobreiro.
«Nos primeiros regressos, só olhávamos para tudo o que se perdeu. O choque de chegar, tudo o que já não estava lá que nos era familiar», recorda Xana. «A pouco e pouco, passamos a ver tudo o que já voltou. O que há de novo, o primeiro verde a despontar, os cogumelos, os pássaros… E deixou de ser triste».
«Apesar do choque, das memórias, o facto de não estarmos só em observação, mas continuarmos a vir, a estar em ação, fez com que a relação se transformasse», explica Ana.
«Decidimos alimentar essa aprendizagem de receber e celebrar com as pessoas o seu apoio», conta Xana. Nutrindo outra narrativa, escolhem ver que tudo o que perderam foi, afinal, pouco. «A floresta está aqui. Está tudo aqui em baixo, à espera de voltar».
Hugo, outro dos adultos do projeto, junta-se às crianças; atravessam a linha de água e sobem a encosta. Olham para o lado de cá e contemplam o milagre que ninguém sabe ao certo explicar. No meio da paisagem de cinza, com o seu círculo protetor ainda verde, uma das casas permanecera intacta. Batizam-na Casa Semente. «Deste espaço de memória do que era tudo isto», conta Hugo, «dá para ter alento para continuar o trabalho regenerativo à volta.»

quarenta dias após a passagem do dragão
É noite de 31 de outubro, a importante passagem do ano celta – o Samhain, cristianizado como Todos os Santos. Na Medronheira, é o Jantar dos Antepassados, uma das celebrações sazonais da comunidade, «em honra de quem passou antes de nós». E é a vez de voltar a dormir no terreno.
«O silêncio, o altar, a comida, a lua a cruzar devagarinho o céu de Outono, um passeio noturno com a coruja a levantar voo em anúncio do seu regresso, as novas formas delineadas na paisagem, o cheiro a queimado, a primeira noite à conversa à volta da fogueira, à conversa com o fogo, nosso professor, após a passagem do Grande Dragão. Tudo envolvido carinhosamente num sentimento profundo de estar em casa», partilham os membros da Medronheira.
Escrevem-no num grupo de chat criado para conter a avalanche de mensagens de amizade, preocupação e carinho – e que, em poucos dias, juntava 300 pessoas. Rapidamente, o grupo foi posto em ação e dividido em oito temas, entre pedidos à comunidade local, ações no terreno ou apoio a candidaturas e subsídios.
A capa do Jornal Mapa 47, que abordava os incêndios de agosto em Arganil e na Lousã, corre por estes dias livrarias e associações país fora e chega também à Medronheira. «Os fogos que despertaram a comunidade», não podia descrever melhor o que se vive estas semanas no Sudoeste Algarvio.
A campanha de crowdfunding “Medronheira – Renascer das cinzas”, juntamente com as de outros projetos afetados, é divulgada nas escolas e associações. No Viv’o Mercado de Lagos, onde Ana vendia os seus produtos, uma vizinha, agricultora e pastora, cede os lucros desse dia da sua banca: «A Ana e a Xana perderam a casa. Tudo neste mercado vai ser doado para elas». Os Produtos Unicórnio de Ana, «uma ode à fermentação», renascem com a colaboração da Patrícia na cozinha da Mercearia Bio de Lagos, mesmo ao lado mercado.
Há quem ofereça aos membros da Medronheira sessões de apoio psicológico, de massagens, de acupuntura, de experiência somática para lidar com trauma. Vizinhos oferecem fardos de palha e material para conter a erosão dos solos, outros oferecem micro-organismos para ajudar no processo de regeneração.
A Rewilding Sudoeste oferece uma sessão de apoio e esclarecimento sobre intervenção pós-incêndio florestal. A comunidade de Barão de São João organiza-se para gerir coletivamente a parte ardida da mata nacional, reunindo com as instituições e ouvindo as populações.
O Instituto Vale da Lama mobiliza o seu Campo de Regeneração de Ecossistemas, que acolhe voluntários de diferentes países, para dias de trabalho na Medronheira. Amigas da cooperativa Minga, em Montemor-o-Novo, organizam apanhas de bolotas para levar para a Medronheira. Há quem se empolgue e queira já oferecer mobílias, ou sessões de planeamento de novas estruturas, quando o coletivo procura ainda tratar os escombros…
Os eventos de solidariedade e angariação de fundos brotam pela região como cogumelos de Outono. Naomi & Raposeira Dub montam um festival de música em Sagres. Uma amiga professora de yoga recolhe donativos e dedica um círculo de cânticos às pessoas afetadas. A Associação Comadres acolhe um almoço e um dia comunitário pela floresta, com cantos tradicionais com as Adufeiras em Flor. A AORCA – Associação de Observação, Regeneração e Criação na Atualidade promove um espetáculo de dança com a bilheteira a reverter para os projetos. O evento “Batuque em rede”, no Salema Eco Camp, celebra o coletivo da Medronheira ao som de maracatu, forró e samba e ajuda a financiar o recomeço: «Todos os abraços que ainda não foram dados, todas a preces que ainda não foram feitas. Celebramos o renascimento, celebramos a vida e acima de tudo a irmandade que nos une».
«Não sabíamos muito bem onde encaixar o sentimento de gratidão…», conta Xana, mais habituada a apoiar outros projetos, como facilitadora de prática de auto-organização e resiliência coletiva. «Estávamos numa situação tão vulnerável, não tínhamos como dizer “não é preciso”. Esse sentimento de gratidão constante quase equilibra a dor da perda».
«Uma pessoa tem uma ideia, fala com um ou dois músicos, eles falam com outros músicos e, de repente, há uma rede de músicos…! A comunidade é essa entidade que ganha vida própria quando é preciso, que está lá em situações de crise e de necessidade», descreve Xana. «Como um equilibrista que cai lá de cima… A comunidade é uma rede que faz com que, quando a queda é grande, ela seja suavizada. A queda é a queda. Mas toda esta solidariedade ampara».

dois meses após a passagem do dragão
É domingo, 23 de novembro, Dia da Floresta Autóctone. Como acontece agora todas as semanas, o sítio da Corte Medronheira vê chegar vizinhas e amigas vindas do Alentejo ou de Lisboa, para mais uma ação coletiva de «engenharia natural». O sol resplandece a sudeste. Os membros da Medronheira resplandecem nos seus saberes.
Xana e Hugo, que, com o coletivo Orla Design, se dedicam há uma década a culturas regenerativas, processos de aprendizagem e design colaborativo, acolhem o matinal círculo de boas vindas. Depois, toda a gente se separa em grupos. Eram mulheres e crianças, cada uma com sua tarefa.
Ana Santos, que é arquiteta paisagista na área da regeneração e parte da equipa Terracrua Design, coordena com Hugo estratégias de remediação pós–incêndio. Num lugar estratégico do fundo do vale, ergue-se pedra a pedra uma retenção de água. Com os troncos de pinheiro ardido, criam-se barreiras em curva de nível ao longo das encostas e «barragens de castor» ao longo das linhas de água. O objetivo é «aproveitar a escorrência das águas e concentrar os sedimentos nalguns destes pontos, para criar potencial de regeneração. Como nódulos de propagação, para ajudar a natureza a regenerar-se», explica Hugo.
Os medronheiros e outros arbustos ardidos são cortados e a madeira processada: a maior para lenha, a mais pequena para triturar e criar estilha. As hortas são recobertas de palha. Pela restante terra espalha-se feno, que vem com semente e cujas raízes brotarão e ajudarão a suster o solo.
«As crianças são muito bem vindas aqui!», diz Patrícia, cujo trabalho vem florescendo na intersecção entre educação, arte e regeneração. Um grupo de adultos e crianças cria pequenos altares para a floresta e prepara um viveiro florestal, com estacas embebidas numa solução de micro-organismos. Depois, fazem filas ao longo da encosta e lançam à terra uma mistura de sementes e micro-organismos.
«Estamos a dar a vida de volta ao que se perdeu», explica Hugo. «Era uma floresta que já tinha bastantes extratos e tinha uma grande camada de matéria orgânica. Com o fogo, queimou todo o subcoberto e os pinheiros arderam todos. Isto é um ecossistema que coabita com o fogo. As pessoas sempre geriram com fogo e com gado. E antes do gado eram as manadas selvagens, de auroques, bisontes e zebros. O território tem toda a lembrança do fogo», observa Hugo.
Assim é que, um pouco por toda a parte, já se começam a ver medronheiros a brotar. «Têm essa adaptação: quando queimam, recolhem logo a energia e é da raiz que rebentam. Agora temos de esperar três anos até começar a ter fruta». Hugo aponta agora para um sobreiro: «O sobreiro não sofre com fogo rasteiro. É essa adaptação que a cortiça traz. Mas o pinheiro bravo leva o fogo para as copas, e quando apanha sobreiros faz com que mui- tos não aguentem». Mas nenhum sobreiro é cortado – a comunidade aguardará dois anos para descobrir quais conseguirão voltar a rebentar.
Este era o ano de tirar cortiça. No entanto, como tinha havido dois anos de seca, o coletivo optou por deixá-la – e abdicar desse rendimento. Afortunada decisão. «Se tivéssemos tirado a cortiça, tinham ido todos à vida!»
Com o olhar treinado por anos de design de permacultura, sabiam que o fogo era uma possibilidade e tinham identificado de onde viria. Procuravam juntar fundos para o desenho e a hidratação dessa encosta, criando duas charcas. Ironicamente, para o dia a seguir ao incêndio, iria chegar uma máquina para abrir uma estrada e iniciar esse processo.
Aqui e ali, semblantes negros de medronheiros são deixados, um convite a pássaros para pousar e deixar as suas sementes. Maria é, também ela, facilitadora na Orla Design. Hoje, de motosserra na mão, coordena a gestão da madeira ardida. «O fogo removeu todas as copas, os arbustos, todas estas multicamadas. Daqui ali não podíamos ver nada…! Agora é uma paisagem aberta», descreve. «E fez o mesmo com o projeto…! Fez-nos mostrar-nos, revelar-nos». Seja com as entidades legais, com quem o contacto é agora mais claro, seja através das redes sociais, onde criaram uma página no Instagram (@medronheira_em_rede). «É uma mudança enorme para o projeto».
«Era um sítio muito privado, nosso e das pessoas próximas. De repente, a paisagem enche-se de pessoas da comunidade a trabalhar juntas. Umas que se conhecem, outras que não conhecem ninguém e ouviram falar do que aconteceu. Pessoas de diferentes idades, famílias…», descreve Xana. «O incêndio, e depois as consequências, parece estar a viver além de nós, e a ativar a espécie humana de forma inspiradora. Nos tempos que correm, lembra-nos que isto também existe, isto também é possível. Não é só pessoas em conflito e divergência e a polarizar. É também esta união por uma causa. É quase indescritível o sentimento que me traz ver o entusiasmo das pessoas».
«Não é à toa que está aqui tanta gente», diz Filipe. Veio de Aljezur pela terceira vez. «Todos os elementos deste sítio trabalham muito a dimensão comunitária, estão muito ligados a várias iniciativas locais. Têm cultivado todas estas ligações ao longo dos anos». Na Medronheira viveu momentos terapêuticos, de lazer ou políticos – como os encontros do Triângulo em Transição, grupo de pessoas ativas política e socialmente nas suas localidades que se propõem a agir a nível da biorregião.
«Queremos agradecer-vos a todos, por terem dedicado connosco o vosso dia a esta terra. É tão inspirador ter tantas pessoas dedicadas. E depois vai revelar-se na terra», dizem Hugo e Xana. De sorrisos chamuscados, todas se despedem. Sem saber que, no dia seguinte, uma abençoada chuva suave cairá sobre as tantas sementes que lançaram à terra.
três dias após a passagem do dragão
No Barlavento Algarvio, o grande incêndio parece estar enfim controlado. O coletivo da Medronheira junta-se num emotivo círculo. Brinda-se com a última aguardente de medronho, «até ao dia que destilarmos a próxima…»
Desde que escolheu habitar a Medronheira, o coletivo propôs-se não ser mais um projeto antropocêntrico, «onde chegas com a grande ideia do que queres fazer» – antes escutar o que a terra quer ser. Deixar a própria terra guiar o caminho. «Isso fez com que ganhássemos uma relação muito profunda, um amor pelo lugar», conta Xana.
«O ecossistema estava muito equilibrado, e pudemos nós também ter aqui um refúgio, um espaço saudável para viver, receber toda a sua energia, ser nutridos, colher o medronho..»., reconhece Maria.
O mapa da Medronheira tem uma forma que se assemelha a um dragão – elemento místico que se foi tornando presente no coletivo. «De repente, sentimos que o dragão veio, o incêndio aconteceu e que foi algo muito maior do que nós», descreve Xana.
Várias vezes lhes perguntam se pensaram abandonar. «Temos de cuidar deste lugar mais do que nunca. É esse o compromisso com a terra. Não podemos deixar a nossa família sem apoio», afirma Maria. «Seria como a tua melhor amiga ter um acidente e tu a abandonares e ires embora!», diz Xana. «Agora é que a Medronheira precisa ainda mais de nós, para acelerar os cuidados e prevenir a erosão. Tornou-se óbvio que tínhamos de nos auto-organizar e fazer o que fosse preciso antes das chuvas. Isso pôs-nos em ação muito rápido», explica Xana. «Não amando este lugar e esta terra como nós amamos, mais facilmente segues para outra, e começas num lugar mais confortável, que não dê tanto trabalho. Uma vez que estamos enraizadas, que temos esta relação, o lugar é o lugar, tanto ferido quanto saudável. É continuar. Não pelas condições, porque vão estar sempre a mudar, mas pela relação».
«Aquilo que nos leva a estar é muito mais forte. E também sentimos que é um desafio que estamos à altura de abraçar. Todos trabalhamos há mais de uma década em regeneração eco-social. A vida às vezes traz-nos – se calhar não pelos meios que imaginaríamos – a um lugar onde tínhamos de estar».
Sentem que o incêndio tornou o propósito ainda mais claro. «É um apelo para ouvir, testemunhar e fazer parte deste processo maior de regeneração que está a acontecer aqui, estejamos nós ou não. Ser uma parte mais consciente e pró-ativa nele. Aprender a pertencer a esta terra, contribuir para a história do lugar», afirma Maria.
«Os fogos vão continuar a vir, é uma questão de tempo. Como é que estamos preparados, como comunidade e como território, para lidar com aquilo que a modernidade nos apresenta como desafios nos territórios rurais?», questiona Xana.
É também uma responsabilidade que sentem como adultos. «A forma como lidamos com isto agora vai ficar para a próxima geração. Perante isto, que é de todos, de nós e das crianças, que legado queremos deixar? Se isto voltar a acontecer, quando já forem outras gerações a tomar decisões na Medronheira, precisamos que o legado seja o melhor possível. Um legado de união, de esperança, de comunidades grandes, para nos ajudar a fazer o que tem de ser feito, e fazê-lo de uma forma que as pessoas gostem de participar».
A campanha de angariação de fundos decorre em Medronheira – Renascer das cinzas, na plataforma Gofundme – gofund.me/a85150a51
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Texto publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]
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