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Lendo: “A nossa luta é universal, porque a nossa dor é universal”

“A nossa luta é universal, porque a nossa dor é universal”

“A nossa luta é universal, porque a nossa dor é universal”


Um conjunto de entrevistas a quem resiste ao racismo no dia a dia

A 25 de maio, vimos George Floyd ser sufocado até à morte pela polícia nos EUA. Vimos a revolta tomar as ruas e escutámos o grito «Black Lives Matter» ressoar mundo fora. Dois meses depois, a um oceano de distância, a mesma mágoa, a mesma raiva por um racismo que mata: um homem dispara balas e insultos racistas, e Bruno Candé é assassinado em plena Avenida de Moscavide.

Entre as duas mortes, o jornal MAPA pediu a várias companheiras para partilharem as suas visões e emoções sobre as recentes marés de revolta, a atenção crescente dada à extrema-direita populista, e o racismo estrutural que vivem no quotidiano.

Pessoas que, no ano em que se completam 25 anos do assassinato de Alcindo Monteiro no centro de Lisboa, já clamaram justiça pelo espancamento de Cláudia Simões na Amadora e o assassinato de Luís Giovani em Bragança. Que não podiam adivinhar – ou pareciam adivinhar – como, dias após partilharem estas palavras, sairiam à rua por mais um ser humano assassinado por ser negro.

Pessoas que, pela arte, pelo associativismo, pela investigação académica – e pela luta do dia-a-dia – dão vida ao movimento antirracista em Portugal e constroem um futuro de justiça e paz.

Como viveste o assassinato de George Floyd?

Ulício Fortes Cardoso: Para mim foi um choque. Assistir àquilo é como um recuo no tempo, uma espécie de vislumbre de um linchamento. Vimos uma força a exercer pressão, asfixiando um ser humano sem ceder mesmo perante visível angústia e seu desfalecimento progressivo. Podia ser evitado mas foi levado até ao limite e é exatamente isso que nos revolta. Quando conversei sobre ele pela primeira vez, chorei compulsivamente e vi-me mergulhado num sentimento de revolta.

Big Papo Reto: Vivi cada momento como se fosse eu… Pois não está longe de nossa realidade. Já fui humilhado por polícias.

Lolo Arziki: Foi um golpe. Foi como se tivesse dois pés no meu pescoço e eu a pedir para respirar. Nem sei o que é isso, mas o nosso corpo sente. Nós que fazemos esse trabalho coletivo antirracista, por mais que saibamos que temos a nossa individualidade, sentimos o nosso corpo como coletivo. E o que dói no George, o que dói na família dele, dói em nós. É uma perda para nós. É um sentimento de impotência. Em fevereiro estávamos em Portugal a gritar «Giovani presente!», estamos meses depois a pedir justiça por George Floyd. A nossa luta é universal e a nossa dor também. A nossa luta só é universal porque a nossa dor é universal.

Marcos Varela: Vi a morte deste irmão como algo repugnante. Nenhum ser humano devia ser tratado desta forma. Vimos as notícias todos os dias, vemos como os polícias tratam as pessoas. Os polícias deveriam ter um perfil adequado ao serviço que prestam à comunidade.

Ulício: Para a família do Floyd creio que pode ter sido um trauma imensurável, principalmente para as crianças. E são elas, as crianças, que farão a pergunta mais básica: «Porquê?» Não havendo resposta a esta pergunta, torna-se evidente que é na base onde reside o problema, e se trata de segurança. Isso revela os pilares da nossa relação com o Estado, a instituição que detém o direito do uso da violência.

Lolo: Infelizmente não foi nada que me surpreendesse, tendo conhecimento desse sistema racista e da forte presença policial a favor da opressão da comunidade negra nos EUA, Brasil e pela Europa. Espero que chegue o dia em que me comece a surpreender – ou melhor, o dia em que essas coisas não aconteçam mais.

Maria Fernandes, da FEMAFRO – Associação de Mulheres Negras, Africanas e Afrodescendentes em Portugal.

Maria Fernandes: Tal como muitas outras pessoas negras, africanas e afrodescendentes em Portugal, senti a necessidade de sair à rua manifestar contra o racismo. O George Floyd foi a última vítima, mas nos EUA existem assassinatos constantes de afro-americanos pela polícia. É importante perceber que essa violência é histórica, estrutural e cíclica, de um sistema que se adapta mas nunca muda. Com o fim da escravatura surge outra forma de supressão, como as leis de Jim Crow, o encarceramento em massa, e por aí adiante, com o objetivo principal de classificar a comunidade afro como inferior.

Marcus Veiga: À semelhança da grande maioria que sente no osso este flagelo, vivi esta situação com grande angústia e revolta. Entretanto surgem todos os dias espancamentos e abusos pela autoridade, assim como o avanço de ideias racistas e extremistas. É preocupante. O que antes era uma opinião reservada aos convictos racistas, este veneno está agora cada vez mais disseminado, no zé povinho, no vizinho, no amigo que conhecias desde pequeno, no teu patrão e até nos teus familiares. São sinais dos novos tempos, com cada vez mais campanhas políticas e populistas disfarçadas de boas intenções em prol da «ordem social», mais espaço para estas ideias tóxicas andarem à baila camufladas de justiça social. E não são sinais dos novos tempos, porque estas ações sempre estiverem presentes em todo o lado, mas à margem do conhecimento público. O cadastro de mortes pela polícia e extrema-direita em Portugal está bastante encardido há largos anos! Execuções de vítimas como o Alcindo, Angoi, Corvo, Kuku, Snake, entre outros tantos, ocorreram sendo a maioria arquivada. O movimento antirracista continuará ativo a apontar estas situações. O que mudou? Uma morte em direto vale sempre mais que mil relatos, por isso a opinião pública poderá desempenhar o seu papel.

“O estado português e o seu povo têm responsabilidade direta no processo histórico que classifica a humanidade em raças. Com o tráfico transatlântico de escravos temos a pedra fundamental do racismo moderno.”

E como vês todo esse movimento coletivo que se gerou depois?

Marcos: Foi um grito de revolta pelo mundo todo. Pois é algo muito comum, a violência que os polícias exercem sobre a sua comunidade. Este era o momento para combater essas injustiças que vemos diariamente. E as redes sociais têm tido um papel fundamental. Aqueles que não têm voz tiveram a oportunidade de falar sobre o assunto, levando o tema para dentro das suas casas. Muitos descobrimos amigos e familiares preconceituosos, e abre-se uma janela para se falar sobre o assunto que é tabu.

Maria: Ouviu-se de várias partes a palavra «esperar», «ainda não», «existe uma pandemia». Mas a espera é na maioria das vezes sinónimo de nunca. Demasiadas vezes, o que deixou de aparecer nas notícias deixou de merecer justiça. A pressão pública acaba por ser a única arma em casos de racismo, porque o sistema policial não transmite nem segurança nem confiança. Em Portugal tem-se verificado cada vez mais casos de racismo e injustiças alarmantes. E, no entanto, não se tem verificado justiça para essas vítimas. Para muitos portugueses essa foi uma das primeiras grandes manifestações contra o racismo em Portugal, o que mostra o quão afastado estão da realidade dos negros em Portugal.

Marcus: Torço um pouco o nariz… As manifestações, vigílias, debates, são as novas plataformas de auto-promoção, ostentação, tornando-se uma passerelle de vaidades. Essas manifestações públicas sempre aconteceram fora desse circo de vaidade, fora do espectro das selfies e da cena da moda. Infelizmente vi muito disso na manifestação Black Lives Matter do Rossio. Senti uma angústia de ver a luta pelos direitos dos negros a ser banalizada e usada como a nova bandeira da classe hipster, de uma forma paternalista e egoísta. Pessoalmente prefiro caminhar ao lado de cinco leões do que de mil carneirinhos.

Lolo Arziki

Lolo Arziki, cineasta não binária e ativista antirracista e LGBTQI.

Lolo: É o movimento que se gera sempre depois da morte de cada um de nós. Não é como dantes que se matavam mil George Floyds e ninguém sabia, a não ser os familiares. Hoje em dia todos temos conhecimento porque as redes sociais no-lo permitem. E logo a manifestação ser mais global. Esse movimento é importante e necessário, cada vez mais. Para quem está do lado de fora da luta, quem nunca teve a necessidade de sair à rua e gritar por alguém que foi morto pela polícia ou por esse sistema racista e homofóbico, parece mais um show de carnaval. Como se as pessoas fossem a uma parada e depois voltam a casa e as suas vidas continuam. Mas para quem está dentro da luta, levamos para casa a insegurança, o medo e o pesadelo de que amanhã podemos ser nós, podem ser os nossos irmãos, pode ser outra pessoa que a gente conhece, ou não – mas vai ser mais uma pessoa negra. Essas manifestações são espaços de pôr a nossa dor em exposição, pôr a nossa dor pública, pedir empatia. Eu não acredito que essa justiça capitalista, a justiça na Terra, neste estado físico em que a gente vive, vá acontecer muito cedo. Mas estamos a pedir empatia. É algo muito difícil que essas pessoas detentoras do poder possam vir a ter para connosco, porque tão pouco nos veem como humanos. Não passamos de vítimas, de animais, de povo não civilizado. Isso é o que esse sistema alimenta sobre nós. Por isso é importante que a gente comece a pensar a justiça pelas nossas próprias mãos.

Ulício: Acredito que a forma como pudemos reagir emocionalmente, colocando para fora toda a nossa revolta, serviu apenas para evitar uma espécie de implosão. Ficamos realmente tristes por termos a consciência de que ainda estamos na fase de ir à rua dizer para pararem de nos matar. Não queremos mais ser vítimas do racismo e já reduzimos isso a uma frase só, «a nossa vida importa». Pelo menos para nós ela importa. Parece pouco, certo? E é de facto ainda muito pouco, mas é tão real também porque estamos a falar da base, do princípio de tudo, do direito de viver. Usar a voz é fazer uso de uma conquista e não deixar cair por terra o testemunho de todo um caminho percorrido. É honrar o compromisso de continuar lutar por justiça e paz.

“Assumir-se enquanto negro é identificar-se com um grupo cuja experiência comum também se baseia num trauma, e isso requer mexer numa ferida para que juntos a possamos curar. A branquitude, recusando abrir mão do privilégio, relega a tarefa de acabar com um problema que é da humanidade a uma parte dela.”

De que forma sentes racismo na tua vida? No dia a dia, em que estruturas?

Lolo: Desde que cheguei a Portugal, com 13 anos, pré-adolescente, vivo o racismo quotidianamente. Desde as estruturas de trabalho da minha mãe, às de ensino que eu frequentava. O preconceito racial estrutura tudo! Universidades, escolas primárias e secundárias, hospitais, escusado dizer polícia, instituições do estado… tudo! Quando não podemos andar em paz num supermercado, sob a vigia de um segurança, que é ensinado que a nossa cor é um perigo. A minha experiência é como de qualquer pessoa negra que chega a Portugal de uma classe social baixa, a viver na periferia de Lisboa, de língua dominante não português. Em Cabo Verde o português continua a ser língua oficial por interesses económicos, mas a gente sabe que não é a primeira língua. O preconceito vai desde a língua ao cabelo, ao comportamento cultural, a tudo. Há um racismo contra a nossa própria produção de conhecimento, que é ancestral, que serve e serviu o resto da humanidade – e continua a ser tratado como primitivo, como algo sem fundamento científico, etc.

Marcus: Sendo filho de uma geração que veio de África na década de 70, mas nascido em Portugal, vivi na primeira pessoa situações de racismo, verbalmente como fisicamente. Nesta altura, e trabalhando na cultura, vejo racismo todos os dias, que parte de um racismo estrutural. A cultura parece ser um bem comum a todos e que une comunidades. Mas o que vemos é uma capinagem e apropriação cultural para o sumo económico, tudo embrulhado num papel paternalista. O racismo vem camuflado. Por exemplo, ter dificuldades em arrendar uma casa, mesmo com todos os critérios em ordem. É tudo bonito ao telefone, até à hora da visita do imóvel a conversa mudar logo… Como negro, aqui e em todo o lado, temos de correr o dobro. É um facto!

Maria: Nestes tempos de pandemia, quais os grupos que mais têm sofrido? Quando todas as fragilidades são expostas é que verificamos verdadeiramente as nossas desigualdades. Verifiquei muito essa ideia romantizada da quarentena, de ser tempo de crescer em casa, com a família, enquanto que outros grupos ficaram completamente desamparados. Grupos que têm trabalhos precários, sem segurança contratual, e não têm o luxo de parar de trabalhar nem com pandemia.

Big Papo Reto: Sinto o racismo na minha vida de muitas formas camufladas… Porém já tive pessoas que se declararam racistas para mim e episódios mais pesados. Cada vez que sou parado para averiguação de documentos já conheço bem o motivo. Do tipo, ser parado quatro ou cinco vezes por semana em Lisboa de moto… Ou 45 vezes em 30 dias no Rio de Janeiro, na primeira vez que comprei o meu carro, quando tinha 22 anos. Logo a seguir vem a pergunta se tenho alguma coisa comigo. Sou parado sem ter infringido a lei, para averiguação de documentos, e passado a pente fino para ver se tenho algo ilícito em meu porte.

Marcos Varela

Marcos Varela, mestre de jiu jitsu e dinamizador da associação MirAtiva, no Casal da Mira, Amadora.

Marcos: Sou um negro português e tento nunca ver o preconceito nas atitudes das pessoas. Não sou racista, e então não ando com o mecanismo de defesa constantemente ativo. Lido diariamente com pessoas preconceituosas no trabalho, nas atividades em que me envolvo, sinto a discriminação no meu dia-a-dia. Mas sempre lutei de uma forma que acho a mais correta: melhorar o relacionamento de proximidade, com o objetivo de criar mudança nas pessoas. Porque nós não nascemos racistas. Muitas vezes dizem que sou um preto diferente, que é um dos indicadores do seu preconceito.

Ulício: O racismo está no núcleo de todas as instituições que regulam a vida das pessoas nas sociedades capitalistas. É difícil de ignorar os seus efeitos. Por ser negro, vivo o corpo primeiramente na sua dimensão política. Não dá para falar de mim. Somos nós e seremos também nós a acabar com isso. Inclusive contamos com a colaboração de quem não sofre o mesmo que nós. Como poderão as mulheres desmantelar as raízes do patriarcado se os homens se mantiverem no gozo irresponsável do seu lugar de privilégio por terem nascido homens? Nós não devemos sentir culpa, mas também não devemos sentir honra ao herdar um lugar de opressão e muito menos vangloriá-lo. Largar o privilégio implica lutar em conjunto. É desejar transformar as relações de poder e dar passos nesse sentido. Devemos questionar a razão pela qual se celebra a queda do muro de Berlim ao mesmo tempo que erguemos muros no Mediterrâneo deixando famílias e crianças que procuram refúgio afundarem à porta daquilo que seria a fuga da própria morte. A resposta é simples, é a guerra da qual fogem que os persegue. São os interesses capitalistas e racistas que continuam a definir que vidas importa salvar. A eugenia continua viva e a provocar os seus estragos. O opressor continua a viver com base no medo.

“Para quem nunca teve a necessidade de sair à rua e gritar por alguém que foi morto por esse sistema racista, parece mais um show de carnaval. Mas para quem está dentro da luta, levamos para casa o pesadelo de que amanhã podemos ser nós.”

Que razões de fundo consideras que estarão por trás do racismo na sociedade portuguesa?

Lolo: O complexo de superioridade. Não há outra razão por trás do racismo na sociedade portuguesa: é a história portuguesa, de colonização, de escravatura. Aquilo que está a acontecer hoje é apenas a continuidade do que aconteceu há 500 anos. Cada um vive a sua ancestralidade. Qual é a ancestralidade desses polícias que estão a matar pessoas negras? É a de matar em massa mesmo, de homicídio, de colonização, de escravatura. Os seus ancestrais são senhores dos escravos.

Marcus: O racismo está na essência portuguesa desde a sua génese e todo o romance da construção imperialista foi assente neste facto. O posicionamento em relação a África está enraizado como uma posição de «descobridores», de levar «civilização», de «domesticar». Essa relação de superior/inferior, dono/escravo, é uma corrente mental que passou de geração em geração, gerando costumes, tradições, folclores…

Ulício: O racismo é pedra angular de uma sociedade que se quer capitalista. Não dá para manter um nível tão desigual de acesso a uma vida saudável sem erguer e defender com isso uma estrutura vertical. Racismo nasceu para aliviar a consciência e justificar todo o crime cometido pelos europeus durante a escravatura e ainda escancarar as portas para a entrada do colonialismo. A acumulação de capital, a apropriação da nossa herança cultural e científica, a dominação no campo espiritual, a classificação e hierarquização das artes, a construção da masculinidade hegemónica à custa da infantilização dos povos oprimidos, no continente africano e não só, trouxe-nos até aqui. Devemos questionar o que se seguiu após o período colonial, em que fase da história da luta antirracista nos encontramos. Nesse aspeto, o diagnóstico do racismo continua a ser muito alarmante. O genocídio continua vivo, a dominação económica é uma realidade, a NATO é usada para levar democracias ao mundo «opressor» com a força da bala, o Brasil assassina uma pessoa a cada 23 minutos no ano 2017, e cerca de 7 em cada 10 é negro e jovem. Toda essa realidade é sustentada por aquela subjetividade que coloca o branco numa posição de superioridade e que deve determinar o curso que a história do mundo deve seguir.

Vicente, antropólogo, atuou na Frente Quilombola do Rio Grande do Sul, articulação de defesa dos territórios indígenas e quilombolas do sul do Brasil. Em Portugal, atuou no Coletivo de Ação Imigrante e Periférica e atualmente constrói a Rede de Apoio Mútuo de Lisboa.

Vicente: Estou em Portugal há quatro anos, vindo do Brasil, onde a questão racial foi intensamente debatida ao longo do século XX. E fiquei em choque ao chegar e ver como essa discussão ainda não estava posta na mesa. Tinha muito aquela questão do «não vemos racismo», «as raças não existem». Pelo Salazarismo e toda a sua reconstrução histórica, a construção do mito do português enquanto o bom colonizador, a colonização branda, esta foi uma questão muito negada. As discussões recentes em torno da estátua do padre e de um museu dos descobrimentos são sintomáticas. Quando se tem essa negação em relação ao próprio processo colonial, aos danos causados aos outros povos, e aos benefícios que as terras portuguesas e o povo português colheram disso, enquanto o seu povo nem reconhece esse processo colonial como um processo exploratório, injusto, como é que ele vai reconhecer as outras desigualdades sociais existentes dentro da sociedade portuguesa? O racismo é uma coisa estrutural: ele regulamenta e define as posições sociais que as pessoas têm na sociedade, em base de características fenotípicas mais ou menos arbitrárias. Certas características racializadas, como o tom da pele, a lisura do cabelo ou o formato do nariz, acabam operando como sistemas de status sociais, de diferenciação ou de estigmatização. Isso acaba por delimitar os lugares que uma pessoa pode ou não acessar. Dentro das próprias instituições, uma série de mecanismos internos acabam servindo para que tudo fique como está, reforçando certas posições sociais herdadas desde o tempo da escravatura. É importante dizê-lo: o racismo não é fruto da natureza. As raças, como são concebidas, o “negro” e o “branco”, não existem na natureza. É fruto de um processo histórico, engendrado pelas elites, que chegaram e dividiram a humanidade em raças. Esse processo classifica a população da Terra numa escala entre o homem branco europeu, que seria o modelo máximo da humanidade, e o macaco. Então todos os povos não brancos têm de ficar nessa luta constante para provar a sua humanidade. Devia ser claro para todo o mundo que o estado português e o seu povo, como herdeiros de um dos primeiros impérios trans-oceânicos, têm responsabilidade direta nesse processo histórico que classifica a humanidade em raças. Foi com o tráfico transatlântico de escravos, essa escravização em escala industrial, e as fabricações intelectuais posteriores que justificavam esse atos, que temos a pedra fundamental do racismo moderno. Num modelo político-económico capitalista, onde um dos princípios é a questão da herança, a gente pode começar por imaginar que tipo de coisa herda uma pessoa que é herdeira direta de um ser humano escravizado. Assim como o que herda aquela que é fruto das elites escravizadoras. Essa é uma das pedras essenciais da composição social que a gente vive, e vai ter de ser enfrentada mais cedo ou mais tarde: a questão das reparações históricas. No caso brasileiro, quando tem o fim da escravidão, não foram os escravos que foram reparados: foram os senhores de servos que receberam indemnização por terem perdido a sua propriedade. Até no seu processo de liberação o negro é libertado enquanto coisa. É uma herança macabra que carregamos até hoje.

E o racismo, em particular, na polícia?

Marcus Veiga

Marcus Veiga, músico por trás do projeto Scúru Fitchádu.

Marcus: As forças militares e de segurança, pelo seu aspeto conservador, autoritário, institucional, sempre foram apetecíveis para a direita e extrema direita, com o chamariz belicista, da autoridade e do nacionalismo. As forças de segurança são terreno fértil para se instalarem correntes de preconceito.

Vicente: É uma das expressões mais cruas desse racismo institucional, são aqueles que acabam por definir quem é o inimigo interno, o sujeito perigoso, e não por acaso ele é sempre o negro, o não branco, o imigrante, sempre esses corpos outros. Acaba sendo um mecanismo principal de exclusão, estigmatização e violência contra os povos não brancos, em praticamente todo o mundo. Hoje em dia não existe nenhum lugar do mundo em que a integridade física do corpo negro não esteja ameaçada. Que tu enquanto negro podes andar tranquilamente na rua sabendo que não vais levar um tiro, ser espancado ou ter a tua liberdade subtraída por alguma aleatoriedade do estado. A gente sabe que a polícia é por si um órgão político, não é um órgão neutro, no sentido em que serve para propósitos bem definidos de estado. Porém, movimentos ideológicos recentes organizados no seio da polícia, que tomam forma aqui como Movimento Zero, no Brasil como o movimento que elegeu o Bolsonaro, vêm reforçar essa politização das polícias, explicitando toda a face ideológica do que é a polícia portuguesa.

Maria: Nesta era das redes sociais os grupos extremistas têm plataformas onde espalham o ódio, sem controlo da parte da polícia, e os próprios agentes expressam opiniões claramente racistas nas plataformas sociais sem controlo, sem punição. Associações, ativistas, União Europeia já alertaram para o perigo da integração de grupos extremistas racistas nas forças policiais, mas nada tem sido feito.

Vicente: Ao mesmo tempo, temos um dos países que tem proporcionalmente uma das maiores taxas de encarceramento da população negra do mundo! Portugal recusa-se mesmo fazer o seu censo étnico-racial, então a gente nem sabe qual é a proporção de pessoas negras e brancas presas nas cadeias portuguesas. Mas se colocarmos as pessoas oriundas dos PALOP numa categoria negros, 1 em cada 73 negros estão presos aqui em Portugal. É um dos países com maior taxa de encarceramento de pessoas negras, maior que o Brasil ou os EUA! É uma questão muito séria que tem de ser encarada e debatida.

Ulício: O racismo estrutural desempenha a mesma função em todas as sociedades capitalistas: aumentar, justificar e defender a propriedade privada. A polícia nasce como instituição que serve para manter essa realidade através da força. A maioria da população encarcerada cometeu crime contra a propriedade privada exatamente porque foi privada desse acesso. Quando pretendem nos retirar abrigo mandam a polícia. Historicamente falando, o nosso corpo continua em fuga, e atrás de nós está essa figura de capataz, que, ao invés de chicote, agora segura um bastão.

“A resistência começa em casa. Amar, cuidar, unir e partilhar com os outros também é um ato político.”

Que formas encontram as comunidades racializadas para resistir e ser solidárias perante a discriminação?

Lolo: A nossa comunidade afrodescendente negra percebeu que o opressor separa para vencer. E que a gente precisava unir. Então é através da união, da criação de estruturas coletivas e comunitárias, para ações imediatas e concretas, no efeito de descolonizar a mente da nossa população. É um trabalho de sensibilização, de fortalecimento, de pôr o nosso corpo à disposição para a luta coletiva. Nem toda a gente vai ter essa disponibilidade, porque a maioria são vítimas de um sistema laboral opressor e extenuante. Então é preciso que haja alguém que os represente na luta. Os coletivos e movimentos antirracistas, contra a agressão a pessoas LGBT negras, esses movimentos dão voz às comunidades. Essa disposição nem sempre pode ser quotidiana, porque as pessoas estão exaustas. São anos de traumas no nosso corpo, e a gente ainda continua aqui em pé a lutar. Estamos todos bastante agredidos, então a gente acaba por se agredir entre nós também. O que esperar de pessoas que sofreram violência a vida toda? Mas no meio do caos a gente tenta criar algum sentimento de fraternidade e solidariedade. A gente encontra a paz entre nós. Diante desta pandemia, a gente tem falado muito de como nos tem ajudado recuperar as práticas ancestrais de espiritualidade, inclusive de pedir e praticar justiça. Uma das formas que a gente aprende a resistir é recuperar essas práticas ancestrais. São há muito tempo alvo de preconceito, inclusive na sociedade portuguesa, que sempre lidou como «macumba», mas elas mantêm-nos em pé.

Marcos: Penso que todos lidamos de formas diferentes. Mas podíamos estar mais organizados para lidar com estas injustiças sociais. E nem sempre temos as ferramentas para as combater. Muitos jovens reagem com agressividade, tendo em conta o seu histórico, pois muitos de nós já sofremos diretamente essa violência policial.

Ulício Fortes Cardoso

Ulício Fortes Cardoso (aka Olokun), formado em Animação Sociocultural, trabalha com população infanto juvenil proveniente de contextos de exclusão social, política e económica. Nasceu na ilha de Santiago e vive há 16 anos em Portugal.

Ulício: Caminhar conscientemente continua a ser a nossa única esperança. A resistência começa em casa. Amar, cuidar, unir e partilhar com os outros também é um ato político. Cada ser humano deve tomar para si uma fatia do problema do mundo para juntar ao seu próprio problema. A ideia do «eu» é insuficiente porque não existe algo como ser um negro e ser livre hoje. Assumir-se enquanto negro é identificar-se com um grupo cuja experiência comum também se baseia num trauma, e isso requer mexer numa ferida para que juntos a possamos curar. A branquitude, por sua vez, depende dessa ferida aberta para continuar a manter o seu hedonismo vivo, recusando abrir mão do privilégio, e relega a tarefa de acabar com um problema que é da humanidade a uma parte dela. É preciso libertar a pele. É esse o devir da consciência racial. A união através de uma atitude comunitária é a verdadeira missão civilizadora.

Que trabalho coletivo pode ser feito para o superarmos? Que exemplos concretos podíamos pôr em prática?

Marcos: Resistir é o que temos feito! Podiam criar-se atividades de sensibilização junto dos mais novos, nas escolas, desmistificando o preconceito em todas as áreas, racial, religiosa, social.

Big Papo Reto

Big Papo Reto, poeta, músico e MC criado no Rio de Janeiro.

Big: Se informar cada vez mais, pois a informação é um colete para a sua mente.

Maria: A educação deve ser um dos pontos a ser revisados. Continua a ser ensinada nas escolas a noção do colonialismo como algo benéfico. Outro será a recolha dos dados étnico-raciais em Portugal.

Ulício: Não terem permitido que avançássemos com a recolha de dados étnicos-raciais no próximo censo geral da população de 2021 constitui um desastre. Atrasaram por mais uma década a possibilidade de estudarmos a real situação do ponto de vista estrutural, contribuindo com dados científicos para a sua compreensão e resolução. Sabemos que um debate nesse nível revelará a face do racismo que querem manter escondido. Mas é preciso debater o racismo fora das grades da negação. Este entrave à investigação é consciente, porque impossibilita o combate do racismo com as mesmas ferramentas com que ele foi criado. Isto é, cientificamente. Continuamos a lutar para que o Estado desempenhe a sua função, ao passo que essa instituição tem provado ciclicamente que opta por desempenhar um papel de entrave ao nosso desenvolvimento. Em comunidade conseguimos construir e criar poder, já provámos isso a nós mesmos. A experiência dos Panteras Negras e tudo o que ela representa deve nos servir de exemplo mais uma vez.

Lolo: Acho que os portugueses brancos devem repensar a sociedade que estão a construir, porque esse trabalho não é da responsabilidade apenas da comunidade negra – e a gente está a cumpri-la todos os dias. Repensar a sua comunidade, repensar se é esse país racista que querem alimentar, se as pessoas que querem ver no poder amanhã são pessoas que vão acabar com o racismo estrutural. E se não é essa sociedade que querem, se não é replicar esse comportamento colonial, têm de trabalhar junto com a sua comunidade mesmo. Desconstruir o racismo tem de ser uma luta de pessoas brancas também. É uma responsabilidade que elas precisam assumir, porque da nossa parte a gente já faz, e já está muito cansada. É preciso que se consciencializem do seu lugar e comecem a trabalhar entre si para desconstruir, se queremos que a luta seja contínua, e ter um Portugal menos racista.

 


Editores:
Francisco Colaço Pedro [franciscocolacopedro@gmail.com]
Margarida Lima [m.lima@jornalmapa.pt]
Garras  [garras@jornalmapa.pt]


Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.


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Jornal Mapa

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