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Lendo: A Vida Algorítmica

A Vida Algorítmica

A Vida Algorítmica


Eric Sadin é autor de uma obra, ainda não traduzida em língua portuguesa, que irá fazer caminho. Consagrada a decifrar o nosso mundo, que está prestes a realizar a computorização global.

No seu livro La Vie Algoritmique. Critique de la raison numérique (L’Échappée, 2015) , Eric Sadin chama a nossa atenção para uma característica da nossa época: «uma massiva instalação de antenas por toda a parte. É uma época pós-simbólica que emerge no processo histórico da digitalização (…) com o objectivo de transformar cada fragmento do mundo numa demanda de registo e de transmissão de informação. Foi primeiramente na linguagem que esta arquitectura surgiu, em meados da primeira década do século XXI, com a designação de “internet de objectos”» (pág. 51). O número de «unidades comunicativas» foi estimado, no período de 2010 a 2012, entre 4 a 15 biliões e «a Ericson prevê que, até 2020, este número seja multiplicado por três» (pág. 53).

Assistimos a uma contínua expansão do fluxo de dados gerados em todo o mundo por indivíduos, empresas e instituições governamentais, objectos, armazenados em milhões de discos duros pessoais ou no seio de farms de servidores, cada vez mais numerosas. Este ambiente global confirma «o aprofundamento cognitivo» que se instaurou, assinalando uma era da «quantificação» de toda a unidade orgânica ou física, ultrapassando o quadro de um conhecimento factual das coisas através de uma avaliação «qualitativa» e constantemente evolutiva das pessoas e das situações.

Esta proliferação contínua e exponencial é conhecida por Big data. O duplo vocábulo surgiu em 2008 e logo entrou no Oxford English Dictionary com a seguinte definição: «volume de dados demasiado grandes para serem manipulados ou interpretados pelos métodos ou meios usuais». Enunciado que não explica o princípio, mas se focaliza nos limites da possibilidade de gerir um movimento que foge completamente do nosso controle ou excede as nossas faculdades de representação. É também um léxico técnico que constitui um marcador da produção gradual e infinita de dados, pela integração sucessiva de unidades de medida relativas à potência de armazenamento e à dos processadores.

«A era pós-simbólica inaugura uma nova condição cognitiva capaz de observar a inclinação das coisas e de seguir, local e globalmente, os seus estados indefinidamente evolutivos, assim, formalizando a ambição científica ancestral de acção totalitária e exclusiva do ratio humano. Escreve Dominique Janicaud (em Puissance du Rationnel, 1985): «A ficção imaginada por Laplace de um demónio omnisciente capaz de conhecer no momento t, a posição e a velocidade de cada elemento constitutivo da natureza física, simboliza o projecto dessa ciência universal, objectiva, perfeitamente determinada e, por fim, fechada» (Op.cit. pág. 55).

Na Disneylândia da Flórida, oferecem aos visitantes braceletes para poderem seguir o percurso e o Mickey chamá-los pelo nome. Este novo tipo de conhecimento e de recolha de dados permite a verificação e a sua memorização. A oferta personalizada já existe.

Eric Sadin faz uma compilação lúcida das forças em acção. As observações e reflexões apresentadas traçam o esboço de uma nova condição humana e incitam-nos a questionar a força, cada dia mais totalitária, dos sistemas computacionais.

«Penso que a maioria das pessoas não querem que o Google responda às questões, querem que o Google lhes diga o que devem fazer (…) Sabemos grosso modo quem vocês são, o que desejam, quem são os vossos amigos (…) O poder de identificar e propor o objecto de desejo de cada indivíduo, graças à tecnologia, será de tal forma perfeito que vai ser muito difícil para as pessoas ver ou consumir seja o que for, que não tenha sido de uma certa forma talhado à sua medida.» Propósitos implacáveis proferidos, em tom definitivo ou quase totalitário, em 2010 por Eric Schmidt, à época presidente da administração da Google e que nos fazem hoje assinalar um distinguo: já não estamos exactamente a falar de seleccionar e propor um objecto, mas de um controle robotizado da idiossincrasia de cada pessoa» (págs. 141, 142).

Este sistema lembra-nos constantemente das nossas preferências e antecipa as nossas necessidades. «Passamos da idade da vida privada à da vida privatizada». «É também uma nova visão do mundo e da filosofia que se impõe: “um mundo no qual as quantidades compactas de dados e as matemáticas aplicadas substituem todas as outras ferramentas que poderiam ser utilizadas. Fora com todas as teorias sobre os comportamentos humanos, da linguística à sociologia. Esqueçam a taxonomia, a ontologia e a psicologia. Quem é que quer saber porque é que as pessoas fazem o que fazem? O facto é que o fazem e podem delinear e medir com uma precisão sem precedentes. Os números falam por si próprios”, escreveu o antigo director da revista Wired e empresário Chris Anderson» (pág. 240).

Neste livro, Eric Sadin faz uma compilação lúcida das forças em acção. As observações e reflexões apresentadas traçam o esboço de uma nova condição humana e incitam-nos a questionar a força, cada dia mais totalitária, dos sistemas computacionais.

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La Vie Algoritmique. Critique de la raison numérique
Eric Sadin 
L’Échappée, Paris 2015

 


Artigo publicado no JornalMapa, edição #25, Novembro 2019|Janeiro 2020.


Written by

José Tavares

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