Autor: J. T.

  • Literatura Para Tempos Difíceis

    Literatura Para Tempos Difíceis

    No momento em que vivemos uma aceleração tecno-totalitária, os romances que aqui sugerimos para ler ou reler, no silêncio e na lenteza, podem bem ser vitualhas, dando a cada um(a) a oportunidade de fazer obrar o espírito crítico. Sumariamente vou recenseá-los.

    Primeiramente, o célebre Frankenstein de Mary Godwin Shelley, companheira do maior poeta do seu tempo, Percy B. Shelley. Filha de William Godwin, autor do An Enquiry Concerning Political Justice (1791), que Pedro Kropotkine disse conter «a exposição sincera do que mais tarde foi conhecido com o nome de anarquismo», e, de Mary Wollstonecraft autora da obra que é ainda hoje considerada fundamental e fundadora do feminismo, Uma Vindicação dos Direitos das Mulheres (1796, editado na Antígona em 2017).

    Frankenstein foi escrito em 1818. Pouco ou muito todos conhecemos a história. Um jovem de boas famílias lança-se um pouco ao acaso no estudo da biologia. Trabalhador incansável consegue realizar o sonho dos atuais transhumanistas: dar vida à matéria inanimada. «Foi numa sinistra noite de Novembro que pude finalmente contemplar o resultado do meu árduo trabalho. (…) À uma hora da manhã, uma chuva lúgubre martelava os vidros e a minha vela estava prestes a apagar-se, quando, sob uma luz moribunda, vi abrirem-se os olhos amarelos e baços da criatura. A coisa começou a arfar com dificuldade ao mesmo tempo que um espasmo convulsivo agitava os seus membros». A experiência torna-se um pesadelo. «O sonho desvanecia-se, enchendo-se o meu coração de um horror e de um asco de me tirar o fôlego. (…) Maldito seja, detestável demónio, o primeiro dia em que viste a luz! Maldita sejam (…) as mãos que te formaram!» Embora de início a criatura não tivesse malévolas intenções, por causa da perseguição cruel a que passa a ser objecto, acaba por se virar contra o seu criador. Existe aqui uma forte ligação à obra de William Godwin: a perseguição a que o ser-humano se vê permanentemente sujeito, quer pelos agravos e convenções sociais, quer pelo poder da lei. Tema que em William Godwin é uma obsessão, nomeadamente no romance Calleb Williams, e que Mary Shelley com uma imaginação mais invulgar desenvolve no seu Frankestein. Este é um romance epistolar de divertimento, onde as cenas de loucura e os crimes de sangue são utilizados como aviso perante a ambivalência do progresso técnico, o qual não tem limites de incómodos morais, éticos ou legais. Por consequência, o resultado é a criação de um monstro incontrolável.

    Quando cada um de nós se adapta aos desastres, às obrigações que nos são hoje impostas e que nos acostumam de modo progressivo à perda das liberdades, outro livro a ler ou reler é o romance inesquecível de George Orwell 1984 (publicado em 1949). Uma distopia que interroga estes tempos de comunicação manipuladora, de controle tecno-cientifico e outras Novilínguas.

    «Guerra é Paz. Liberdade é Escravidão. Ignorância é Força». Estes avisos não são só enunciados, servem para criar um ambiente de medo e de terror. Orwell descreve uma espantosa opressão totalitária, com vídeo vigilância total, polícia política, tortura. A teletela ominipresente na sociedade totalitária descrita por Orwell é o smartphone dos dias de hoje? Pura e simplesmente, em vez de uma terrível opressão, este esbulho desenrola-se hoje de maneira divertida, confortável e surge como uma necessidade técnica inevitável para gerir uma sociedade cada vez mais maquinal. Orwell também vê o desaparecimento da autonomia, o fascínio pelo Poder e pelas máquinas, como vontade de produzir um «homem novo». Cada ser-humano deve ser igual a todos os outros, ousar contrariar esta ordem significa deixar de ser cidadão e um perigo para a sociedade. «Como posso deixar de ver o que está diante dos meus olhos? Dois e dois são quatro. Às vezes são cinco. Às vezes são três. Às vezes são as três coisas ao mesmo tempo. Deves fazer maior esforço. Não é fácil recobrar a razão.»

    Não é só um regime político que Orwell critica, mas um estado de espírito, uma mentalidade, que também se desenvolve nas nossas democracias. Os temas de Orwell são muito atuais.

    No entanto, é o Admirável Mundo Novo (1932) de Aldous Huxley que parece corresponder melhor à cultura capitalista em que vivemos, particularmente, pelo hedonismo que a atravessa. Aliás, estes três romances distópicos que aqui sugiro para leitura são complementares. Em o Admirável Mundo Novo, Huxley descreve um sociedade de tipo totalitário. Uma sociedade hierarquizada, racionalizada, que instaurou um implacável eugenismo de Estado onde os seres-humanos são fabricados in vitro. A produção de humanos «Alfa» geneticamente determinados para constituir a élite da nação, enquanto que os «Epsilons» são privados de inteligência humana. «Pela primeira vez na história, sabe-se perfeitamente para onde se caminha.» «Comunidade, Identidade, Estabilidade.» Os últimos humanos «selvagens», aqueles que não são produzidos cientificamente, são acantonados em reservas. A forma clássica de reprodução pelo sexo entre uma mulher e um homem é considerado como imundo e perverso. Graças aos meios de comunicação de massas e à droga, no romance o soma, a segurança material anestesia todo o medo de viver. O sexo desenfreado e o soma, «todas as vantagens do cristianismo e do álcool; nenhum dos seus defeitos», são encorajados para aniquilar qualquer resquício de instinto ou desejo de liberdade que surja. Um mundo asséptico, onde a doença e a velhice foram erradicadas de modo cientifico: «Civilização é esterilização». No seu livro, Regresso ao Admirável Mundo Novo (1958) Aldous Huxley conclui que o mundo se assemelha cada vez mais à sua distopia. Hoje, não podemos estar mais de acordo. Porém, como ainda não está completamente concluído, talvez, ainda nos reste espaço para contrariar este pesadelo.

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    Frankenstein
    Mary Shelley
    Tradução: João Costa Guimarães
    Editores Edição ASA

     

     

     

     

    1984

    1984
    George Orwell
    Tradução: Ana Luísa Faria
    Antígona, 3 edição 2007

     

     

     

     

    Admirável Mundo Novo

    Admirável Mundo Novo
    Aldous Huxley
    Tradução: Mário-Henrique Leiria
    Antígona, 1 edição 2013

     

     

     

     

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #36, Dezembro 2022|Fevereiro 2023.

  • As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura (1971-1974)

    As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura (1971-1974)

    Este documentário, de Luiz Gobern Lopes, Fernando Silva e Francisca Serrão, vem preencher uma carência na história da resistência ao regime ditatorial salazarista: a oposição armada.

    Na década de 60, do século XX, «a luta armada» está na moda em todos os continentes. Os exemplos de Cuba, Vietname, Argélia ou Palestina impulsionaram a constituição de grupos armados, mesmo em países de democracia parlamentar, como Itália, Alemanha ou mesmo nos EUA, a maioria deles esquerdistas e neo-estalinistas.

    Em Portugal, entre 1967 e 1974, três organizações armadas levaram a cabo ações violentas contra o regime fascista salazarista: a LUAR (Liga de União e Acção Revolucionária), a ARA (Acção Revolucionária Armada) e as BR (Brigadas Revolucionárias). Antes desta data ocorreram, entre 1927 e 1937, os levantamentos armados de tendência republicana, a greve insurrecional de 18 janeiro de 1934, organizada pelos anarco-sindicalistas da antiga CGT e o atentado falhado a Salazar em 1937. Foi após as eleições em 1958, com a candidatura do general Humberto Delgado e impossibilitada a mudança do regime por meios pacíficos, que surge um novo impulso para a via armada: o assalto ao navio Santa Maria, em janeiro de 1961, desvio do avião da TAP, em outubro e no final desse ano o assalto falhado ao quartel de Beja.

    O documentário As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura (1970-1974), dividido em duas partes, é um registo dos testemunhos daquelas e daqueles que nelas participaram. Começa por contextualizar as circunstâncias históricas da sua ação, dá-nos a conhecer a origem e a identidade dos componentes, até este momento desconhecida da grande maioria do público. Alguns dos nomes «agraciados com a prestigiosa Ordem da Liberdade (Piteira Santos, Manuel Alegre, Stella Piteira Santos, Isabel do Carmo, Nuno Teotónio Pereira, Luís Moita e Conceição Moita)». E outros, sem medalhas, como a família Batista: Júlia, Vasco, Artílio e Nuno, como João Pequeno ou o “Alentejano”, Encarnação Vilela, Teresa Veloso ou José Paulo Viana, para citar somente alguns dos protagonistas. Contam-nos as ações empreendidas, por exemplo, o ataque à base secreta da NATO na Fonte da Telha, 7 de novembro de 1971; a sabotagem da bateria de canhões no Barreiro, 12 de novembro de 1971; a destruição de 15 camiões Berliet destinados à guerra colonial, 11 de julho de 1972; o ataque à bomba no Quartel General em Bissau, 22 de fevereiro de 1974; ou a ação de sabotagem ao navio Niassa ancorado no Porto de Lisboa, 9 de abril de 1974. Pelo meio, e para financiar as BR, várias expropriações de fundos a Bancos. De assinalar, o lançamento de dois porcos, enquanto se desenrolava a reeleição de Américo Thomaz, no Rossio e em Alcântara, vestidos de Almirante, que levavam o seguinte dístico: «Américo Thomaz, presidente ao quilómetro». Outra das ações testemunhadas neste documentário foi o assalto aos Serviços Cartográficos do Exército, em Dezembro de 1972, onde as Brigadas se apoderaram de cartas militares de Angola, Guiné, Cabo Verde e Moçambique que seriam, posteriormente, entregues aos movimentos de libertação. Eram mapas secretos, que auxiliavam o posicionamento das tropas portuguesas no terreno e planos de ataque aos movimentos de libertação. José Paulo Viana levou-os para Paris, de onde seguiram para Argel e aí foram entregues aos representantes do MPLA, PAIGC e FRELIMO. Agostinho Neto, presidente do MPLA, enviou uma carta de agradecimento às BR. No total foram retirados cerca de 200 mapas que, de acordo com os movimentos de libertação, «constituíram um instrumento importante para a intensificação da luta». Luta de libertação anti-colonial que, diga-se, deu origem ao surgimento de novas classes dominantes, peões, por sua vez, nas mãos de grandes potências…

    Resta mencionar, para terminar esta brevíssima nota, que a produção do documentário, sem apoios institucionais, nomeadamente em termos de recursos técnicos, implicou algumas limitações perceptíveis num ou noutro momento. Por esse motivo, a sua exibição pública, diz-nos um dos seus autores, «não pode, por ora, extravasar o âmbito privado, até serem solucionadas questões de pagamentos de direitos autorais e de acesso a outras plataformas de exibição pública». Condição indispensável para que todos possam ter acesso a este registo histórico importante para a memória da resistência ao fascismo peculiar de Salazar.

    Nota: A apresentação por convite e não comercial de As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura (1970-1974) (3h10) teve lugar no dia 10 de Novembro no auditório do Liceu Camões, em Lisboa, no dia 19 de Novembro no GDR «Os Leças», no Barreiro, e no dia 3 de Dezembro na Cooperativa do Porto Portuense, na capital nortenha.

     


    Legenda da fotografia [em destaque]: “Estragos provocados no Quartel-Mestre General na Rua Rodrigo da Fonseca a 9 de Março de 1973. Aqui morreu o camarada Luís”.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #36, Dezembro 2022|Fevereiro 2023.

  • Extractivisme – Exploração industrial da natureza: lógicas, consequências, resistência

    Extractivisme – Exploração industrial da natureza: lógicas, consequências, resistência

    Esta obra de Anna Bednik, jornalista independente e empenhada em diversos movimentos e redes anti-extrativistas, começa por descrever os diferentes usos do conceito e as falsas soluções: «desenvolvimento sustentável», «crescimento verde», «desmaterialização». Estudo documentado das lógicas do extrativismo, este livro fala-nos do que se extrai, onde e como, quem o faz, com que objetivos e quais são as consequências reais. Tanto no Sul como no Norte, como mostra o exemplo do gás e petróleo de xisto e do lítio, por todo o lado o extrativismo é sinónimo de transformação de vastos territórios em «zonas de sacrifício» destinadas a alimentar a megamáquina. Assim, o extrativismo tornou-se o nome do adversário comum para inúmeras resistências coletivas e locais que, defendendo os espaços para podermos simplesmente ser, reinventam as formas de habitar a Terra. São razões suficientemente importantes e urgentes para a tradução e edição desta obra em língua portuguesa.

    Livro

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Extractivisme – Exploração industrial da natureza: lógicas, consequências, resistência
    370 páginas
    Le Passager Clandestin, 2016

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.

  • “Lenine perante os Camponeses”

    “Lenine perante os Camponeses”

    Em 2017, por ocasião dos cem anos da Revolução Russa, a editora francesa La Lenteur teve a excelente ideia de reeditar o livro “Lénine face aux moujiks”, nada de semelhante ocorreu neste jardim à beira-mar plantado. O livro de Chantal de Crisenoy foi editado pela primeira vez em 1978 na Seuil.

    No momento em que os recuperadores do costume acreditam poder misturar o vermelho do interior da melancia com o verde do seu exterior e, como quem não quer a coisa, impingem o bio-bolchevismo, esta obra debruça-se sobre o essencial. Explica muito claramente o quanto os soldados de Lenine foram fanáticos da modernização e liquidadores de camponeses. «O camponês é um obstáculo real ao seu sonho de industrialização com os olhos postos no modelo europeu», analisa Chantal de Crisenoy. Lenine estava fascinado pelo desenvolvimento do capitalismo, que ele queria acelerar. De resto, todos os aceleracionistas se reivindicam de Marx e Engels, para quem a ditadura do proletariado deve permitir «aumentar mais rapidamente a quantidade das forças produtivas» (“Manifesto do Partido Comunista”). Lenine defendia «a necessidade urgente e imperiosa de aniquilar todas as instituições caducas que entravam o desenvolvimento do capitalismo» [ref] “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Processo de formação do mercado interior pela grande indústria”, in Obras Completas VOL V. [/ref]. Inteiramente devotado ao desenvolvimento das forças produtivas, o ditador jacobino quer urbanizar o país, electrificar, instaurar a organização científica de Taylor, alastrar as fábricas e os caminhos-de-ferro, aumentar a divisão do trabalho, a mobilidade e a troca de mercadorias, concentrar o poder e reprimir os opositores. Na via do Progresso, o «proletariado» deve assegurar uma hegemonia sobre esses saloios, os camponeses, acusados de serem pequeno-burgueses arcaicos, incultos e contra-revolucionários. São estas as referências dos universitários que querem carregar no pedal do acelerador. «O processo de libertação só pode acontecer acelerando o desenvolvimento capitalista», martela o com marrada Antonio Negri no seu livro “Accélération!” (PUF, 2016). “Lénine face aux moujiks” desmonta de modo magistral essa vulgata marxista. Os camponeses contra-revolucionários? Eles que durante séculos se sublevaram contra os poderes, contra a apropriação das terras e pela autonomia aldeã? Eles que produziam para responder às suas necessidades, no quadro de uma economia doméstica que não se submete ao mercado, ao salariato, ao dinheiro? Eles, esses autênticos anticapitalistas?

    «Assim, há um século atrás, em nome da eficácia, da racionalidade, da economia ou do necessário desenvolvimento das forças produtivas, em resumo, em nome do progresso, os ideólogos da burguesia, mas também a maioria dos marxistas, vaticinam um ‘mundo sem camponeses’. Um mesmo ponto de vista guia estes dois discursos: o da acumulação de capital. Um mesmo fim: a grande indústria!»

    Eis aqui um grande livro para desmistificar a nostalgia do bolchevismo.

    Lenine perante os Camponeses

     

     

     

     

     

     

     

    Lenine face aux moujiks
    Chantal de Crisenoy
    La Lenteur, 2017

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.

  • A Vida Algorítmica

    A Vida Algorítmica

    Eric Sadin é autor de uma obra, ainda não traduzida em língua portuguesa, que irá fazer caminho. Consagrada a decifrar o nosso mundo, que está prestes a realizar a computorização global.

    No seu livro La Vie Algoritmique. Critique de la raison numérique (L’Échappée, 2015) , Eric Sadin chama a nossa atenção para uma característica da nossa época: «uma massiva instalação de antenas por toda a parte. É uma época pós-simbólica que emerge no processo histórico da digitalização (…) com o objectivo de transformar cada fragmento do mundo numa demanda de registo e de transmissão de informação. Foi primeiramente na linguagem que esta arquitectura surgiu, em meados da primeira década do século XXI, com a designação de “internet de objectos”» (pág. 51). O número de «unidades comunicativas» foi estimado, no período de 2010 a 2012, entre 4 a 15 biliões e «a Ericson prevê que, até 2020, este número seja multiplicado por três» (pág. 53).

    Assistimos a uma contínua expansão do fluxo de dados gerados em todo o mundo por indivíduos, empresas e instituições governamentais, objectos, armazenados em milhões de discos duros pessoais ou no seio de farms de servidores, cada vez mais numerosas. Este ambiente global confirma «o aprofundamento cognitivo» que se instaurou, assinalando uma era da «quantificação» de toda a unidade orgânica ou física, ultrapassando o quadro de um conhecimento factual das coisas através de uma avaliação «qualitativa» e constantemente evolutiva das pessoas e das situações.

    Esta proliferação contínua e exponencial é conhecida por Big data. O duplo vocábulo surgiu em 2008 e logo entrou no Oxford English Dictionary com a seguinte definição: «volume de dados demasiado grandes para serem manipulados ou interpretados pelos métodos ou meios usuais». Enunciado que não explica o princípio, mas se focaliza nos limites da possibilidade de gerir um movimento que foge completamente do nosso controle ou excede as nossas faculdades de representação. É também um léxico técnico que constitui um marcador da produção gradual e infinita de dados, pela integração sucessiva de unidades de medida relativas à potência de armazenamento e à dos processadores.

    «A era pós-simbólica inaugura uma nova condição cognitiva capaz de observar a inclinação das coisas e de seguir, local e globalmente, os seus estados indefinidamente evolutivos, assim, formalizando a ambição científica ancestral de acção totalitária e exclusiva do ratio humano. Escreve Dominique Janicaud (em Puissance du Rationnel, 1985): «A ficção imaginada por Laplace de um demónio omnisciente capaz de conhecer no momento t, a posição e a velocidade de cada elemento constitutivo da natureza física, simboliza o projecto dessa ciência universal, objectiva, perfeitamente determinada e, por fim, fechada» (Op.cit. pág. 55).

    Na Disneylândia da Flórida, oferecem aos visitantes braceletes para poderem seguir o percurso e o Mickey chamá-los pelo nome. Este novo tipo de conhecimento e de recolha de dados permite a verificação e a sua memorização. A oferta personalizada já existe.

    Eric Sadin faz uma compilação lúcida das forças em acção. As observações e reflexões apresentadas traçam o esboço de uma nova condição humana e incitam-nos a questionar a força, cada dia mais totalitária, dos sistemas computacionais.

    «Penso que a maioria das pessoas não querem que o Google responda às questões, querem que o Google lhes diga o que devem fazer (…) Sabemos grosso modo quem vocês são, o que desejam, quem são os vossos amigos (…) O poder de identificar e propor o objecto de desejo de cada indivíduo, graças à tecnologia, será de tal forma perfeito que vai ser muito difícil para as pessoas ver ou consumir seja o que for, que não tenha sido de uma certa forma talhado à sua medida.» Propósitos implacáveis proferidos, em tom definitivo ou quase totalitário, em 2010 por Eric Schmidt, à época presidente da administração da Google e que nos fazem hoje assinalar um distinguo: já não estamos exactamente a falar de seleccionar e propor um objecto, mas de um controle robotizado da idiossincrasia de cada pessoa» (págs. 141, 142).

    Este sistema lembra-nos constantemente das nossas preferências e antecipa as nossas necessidades. «Passamos da idade da vida privada à da vida privatizada». «É também uma nova visão do mundo e da filosofia que se impõe: “um mundo no qual as quantidades compactas de dados e as matemáticas aplicadas substituem todas as outras ferramentas que poderiam ser utilizadas. Fora com todas as teorias sobre os comportamentos humanos, da linguística à sociologia. Esqueçam a taxonomia, a ontologia e a psicologia. Quem é que quer saber porque é que as pessoas fazem o que fazem? O facto é que o fazem e podem delinear e medir com uma precisão sem precedentes. Os números falam por si próprios”, escreveu o antigo director da revista Wired e empresário Chris Anderson» (pág. 240).

    Neste livro, Eric Sadin faz uma compilação lúcida das forças em acção. As observações e reflexões apresentadas traçam o esboço de uma nova condição humana e incitam-nos a questionar a força, cada dia mais totalitária, dos sistemas computacionais.

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    La Vie Algoritmique. Critique de la raison numérique
    Eric Sadin 
    L’Échappée, Paris 2015

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #25, Novembro 2019|Janeiro 2020.

  • A Sociedade Contra o Estado. Pierre Clastres.

    A Sociedade Contra o Estado. Pierre Clastres.

     

    «A história dos povos na história
    é a história da sua luta contra o Estado.»

    Este livro, novamente editado em Portugal, é uma demonstração incisiva da tese anunciada pelo título [ref] A primeira edição de A Sociedade Contra o Estado, das edições Afrontamento, data de 1979. Em 2018 foi editado pela Antígona com tradução de Manuel de Freitas. A edição original francesa de 1974.[/ref]. Pierre Clastres (1934-1977) viveu mais de uma década entre os indígenas da América do Sul, nomeadamente no Paraguai, no Brasil e na Venezuela, primeiro junto dos Guaiaquis, logo dos Guarani, a seguir dos Chulupi-Ashluslay e, por fim, dos Yanomani. Recolheu informação importante que lhe permitiu escrever sobre a vida quotidiana desses povos, sobre o papel dos chefes, os mitos, os ritos e a guerra. Etnólogo, Clastres não só mudou radicalmente a ideia que podíamos formar desse, no dizer dos nossos egrégios avós, «mundo dos selvagens, sem fé, sem rei, nem lei», como, a partir de uma profunda reflexão sobre as sociedades ditas primitivas, que melhor será chamar de «primevas» ou «primeiras», revelou um aspeto desconhecido e crucial de toda a sociedade: a recusa do poder coercivo.

    Sociedade contra o Estado, porque a ordem de uma sociedade reside fundamentalmente numa escolha perante o poder. As sociedades «primevas» não são sociedades que ignoram o poder, «não existem sociedades sem poder», diz-nos Clastres. São sociedades que se organizam a partir de uma recusa em deixar manifestar-se a divisão entre governantes e governados. Não eliminam pura e simplesmente a dimensão do poder. Não fazem como se ele não existisse. Pelo contrário, colocam um «chefe», um indivíduo formalmente distinto dos outros, no lugar daquele que podia ser um dador de ordens, de um enunciador de regras e de um detentor da força. Nas sociedades «primevas» o «chefe» não exerce qualquer poder, se por isso entendermos a possibilidade de dar ordens destinadas a ser obedecidas. Não é um papel de comandante que lhe é destinado. Quando decide empreender iniciativas, são as que ele pensa e verifica serem a opinião predominante do grupo. E ninguém se sente obrigado a seguir as suas decisões. O único instrumento de que dispõe é a persuasão. O seu elemento é a palavra. O «chefe» é o indivíduo do discurso, que se esforça por trazer a paz à comunidade em caso de diferendo, aquele que prega as virtudes da concórdia e da necessidade de união. O «chefe» não faz a lei nem a enuncia. E se, por acaso, embalado pelo prestígio que alcançou através da sua grande generosidade ou bons discursos, tenta impor, prescrever, numa palavra, comandar ou fazer a lei, o melhor que lhe pode acontecer é ser abandonado, porque normalmente é morto. Um «chefe» não pode fazer de chefe. Como se as sociedades «primevas» tivessem refletido e respondido à sua maneira ao problema do poder. Dá ideia que decidiram impedir as relações hierarquizadas e autoritárias de comando-obediência, coisa que veem como uma ameaça potencial. Escreve Clastres, «o que os Selvagens nos mostram (…) é a recusa da unificação, é o trabalho de conjuração do Um, do Estado.»

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    Os Guaiaquis foram um dos povos indígenas entre os quias Pierre Clastres viveu mais de uma década.

    Da indivisão das sociedades «primevas» à nossa sociedade de opressão e exploração estatal não existe a continuidade lógica de um processo em desenvolvimento ou o crescimento das forças produtivas. É ao mistério de uma falha, de uma descontinuidade essencial, que Clastres chama a nossa atenção. A história não é a unidade clara de um progresso. Contrariamente à opinião abonada, ele defende que o desenvolvimento das forças produtivas, que é para os ideólogos marxistas o motor da história e a condição do surgimento do Estado, tem de ser assumido como um efeito do aparecimento deste último. «A verdadeira revolução, na proto-história da humanidade, não é a do neolítico, visto ela poder perfeitamente deixar intacta a antiga organização social, mas sim a revolução política, essa aparição misteriosa, irreversível, mortal para as sociedades primitivas, aquilo a que chamamos Estado. E se quisermos manter os conceitos marxistas de infra-estrutura e de superestrutura, talvez tenhamos de aceitar reconhecer que a infra-estrutura é o político, e a superestrutura o económico.» Já no prefácio à tradução francesa do livro de Marshall Sahlins, Stone Age Economics, Clastres tinha afirmado «que o marxismo não pode pensar a sociedade primitiva porque a sociedade primitiva não é pensável no quadro dessa teoria da sociedade.»

    No estudo “O Arco e a Cesta”, incluído no livro “A Sociedade Contra o Estado”, Clastres vislumbra que o «mau encontro» não é somente o aparecimento do Estado, é também uma espécie de rutura com «um certo parentesco entre o Homem e a sua linguagem». Vale a pena transcrever: «Isto quer dizer que, muito longe de qualquer exotismo, o discurso ingénuo dos selvagens obriga-nos a ter em conta aquilo que apenas os poetas e pensadores não esqueceram: que a linguagem não é um simples instrumento, que o Homem pode estar ao mesmo nível dela e que o Ocidente moderno perde o sentido do seu valor pelo excesso de utilização a que a submete. A linguagem do Homem civilizado tornou-se-lhe completamente “exterior”, pois mais não é para ele do que um meio de comunicação e de informação. A qualidade do sentido e a quantidade dos signos variam num sentido inverso. As culturas primitivas, pelo contrário, mais preocupadas em celebrar a linguagem do que em servir-se dela, souberam manter com ela essa relação “interior” que é já em si a própria aliança com o sagrado. Não existe, para o Homem primitivo, linguagem poética, pois a sua linguagem é já em si um poema natural onde reside o valor das palavras. E, se já se falou do canto dos Guaiaqis como de uma agressão contra a linguagem, é antes como de um abrigo que a protege que devemos entendê-lo doravante. Mas poderemos ainda ouvir, vinda de miseráveis selvagens errantes, a lição demasiado forte sobre o bom uso da linguagem?».

    É disparatado, aqui e agora, considerar a «sociedade primitiva» como um modelo ao qual devemos retornar. Mesmo supondo que tal retorno seja possível, a dúvida tem cabimento e Clastres está seguro que esse retorno não é possível. A sociedade «primeva» não é a sociedade «maravilha». Nada de lei escrita, a lei separada, despótica, a lei do Estado, mas a inscrição cruel das marcas da lei sobre o corpo. Não existe a submissão degradante, mas a violência corrente da guerra. Clastres não deixou de sublinhar a contrapartida dolorosa e limitadora que vem junto com a escolha de uma sociedade sem Estado. As sociedades «primevas» não resolvem de uma vez por todas o problema da separação política.

    O que é que fez com que o Estado deixasse de ser impossível? De onde vem o poder político? O que é que permite essa formidável liberdade de recusar a divisão entre aquele que comanda e aquele que obedece? Certo, não possuímos respostas para muitas questões, mas ao lermos Pierre Clastres conseguimos pelo menos equacionar nitidamente os problemas, ganhamos o discernimento de que não estamos muito longe de compreender o que é o poder.

    A_Sociedade_contra_o_Estado

    A Sociedade Contra o Estado – Investigações de antropologia política
    Pierre Clastres
    Antígona, 2018
    240 pp

    Texto de José Tavares