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  • A comer é que a gente se entende

    A comer é que a gente se entende

    A comensalidade e a cozinha estão no centro das conspirações que se geram à mesa das cantinas que encontramos em espaços alternativos e nas lutas sociais.

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    À volta dos tachos e de uma mesa. A comensalidade como acto colectivo de pertença, partilha, conhecimento e aproximação é, desde que o ser humano sem reuniu pela primeira vez à volta do fogo, o gesto último e primordial da subversão. Da partilha em conjunto das refeições nascem os mais belos encontros, sonhos e conspirações.

    As cantinas de que aqui falamos são essencialmente esses lugares de encontro à volta de um prato no universo de espaços alternativos ou de colectivos politicamente engajados. Quisemos saber o que move estas cozinhas e aquilo que representam para lá de uma refeição. De que se alimentam e o que alimentam estas cantinas?

    Fomos ao encontro de esmeradas equipas de cozinha, umas com residência fixa, outras rodando as mesas ao sabor de eventos, lutas ou angariações de fundos. Cantinas que não são restaurantes, antes espaços que contornam as lógicas mercantilizadas do servir à mesa e de produzir alimento, movidas pelo voluntariado de quem compõe a cozinha, sem prejuízo de algumas opções de auto-emprego. E com um ingrediente indispensável no menu que faz mover todas estas iniciativas: muita conversa e aprendizagem. Tudo aquilo que acontece à volta dos tachos, para além da comida.

    Cantina em dia de Greve Geral

    Um banquete comunal em dia de greve geral

    Hora de almoço em dia da greve geral. No passado dia 11 de Dezembro, por volta do meio-dia, as panelas começam a chegar ao Martim Moniz. Feijoada halal e vegetariana foram os pratos principais cozinhados por várias pessoas e colectivos, a que se juntaram quiches e outros petiscos trazidos por outros companheiros. Foram servidas cerca de 250 refeições às muitas pessoas que iriam mais tarde participar nos blocos anarquista e autónomos da manifestação da CGTP e UGT. Outras pessoas da zona juntaram-se para ir buscar comida. Foram também oferecidos 400 brigadeiros ao estilo fortune cookies, com frases a rimar com a ocasião. Alguns exemplos: Não queremos o pacote, queremos o pagode. Distopia é real, sabotagem do normal! Munições gulosas, revoluções saborosas!

    O mote estava dado. Num dia de luta contra mais uma investida ao já difícil quotidiano de sobrevivência das pessoas, o repasto partilhado e gratuito foi o ponto de partida para muitos dos que aderiram à greve geral. Não é difícil enquadrar a realização de um «banquete comunal» em dia de greve com as razões de ser das cantinas que exploramos neste artigo.

    Cantinas Sociais

    O que junta estas cantinas pode ser resumido nas palavras de Bicão, há décadas um afamado cozinheiro anarquista de casas okupadas, manjares divinos e espaços associativos: «Foi nestes projectos, nestas cantinas, nestes espaços mais sociais, nestes espaços okupados, que eu percebi que isto é uma dimensão gigantesca, muito além de confeccionar um prato e de podermos comer uma comida saborosa. Toda a magia que se gera quando estás num espaço, sem ser pelas regras habituais, ou as construções hierárquicas, ou os jogos de poder do costume. Quando tu estás num espaço em que isso não existe, quando estás a lidar com uma coisa tão simples e tão importante para a tua vida como a comida, tu podes trabalhar de tudo um pouco. A comunicação, ideias, partilhar toda uma série de coisas. É um espaço único. Estás descontraído e é tudo propício. Tudo adequado para que possam surgir todo o tipo de relações e todo o tipo de entendimentos. Pode levar até a um confronto de discussão, sem nenhuma agressão, sem nenhuma violência, mas para as pessoas perceberem, se conhecerem, se relacionarem e partilharem ideias.» Bicão participa em diversas cantinas, como na Disgraça em dia de even- tos (onde esteve activamente envolvido no seu início), na Alternadora, casa okupada em Setúbal, e ultimamente nalgumas «festas electrónicas, do género free parties». Recorda que «quando era miúdo nem percebia ainda, mas mais tarde vim a perceber que a comida é mesmo um dos primeiros pilares. Se te preocupas com a comida, vais também ter a mesma visão crítica em relação ao trabalho, à tua vida, às estruturas que te oprimem neste mundo.»

    Disgraça

    Dessas referências, a cantina vegana da Disgraça tornou-se, desde 2015, num ponto de passagem obrigatório. É actualmente gerida em rotatividade pelos vários colectivos que animam esse centro social anarquista lisboeta na Penha de França.

    A relação umbilical estabelecida entre as cantinas e a vida destes centros sociais é de novo confirmada a norte, no Porto, no centro social autogerido A Gralha. Na Travessa Anselmo Braamcamp desde 2019, a cantina «surgiu como forma de sustentar economicamente o projecto político-comunitário da Gralha», diz-nos Sandra R., coordenadora da comissão da cantina. «Algumes de nós vinham do activismo antiespecista, outres de percursos de cozinhas comunitárias autogestionárias».

    «A partilha colectiva de algo tão quotidiano como cozinhar e comer cria e fortalece os vínculos comunitários tão necessários nestes tempos de sociedade atomizada. Politicamente podemos dizer que a cantina da Gralha, enquanto experiência baseada no veganismo popular, situada num centro social autogerido transfeminista, nos proporcionou um conjunto de vivências e de aprendizagens que nos trouxeram uma maior amplitude de territórios de reflexão política referentes à alimentação. Cozinhar e comer podem entender-se como actos performativos que poderão replicar lógicas de hierarquização, regulação e controlo das vidas humanas e não humanas e territórios, [pelo] que desde a autogestão podemos desenvolver propostas liberatórias na alimentação». Simultaneamente «a cantina é também um espaço comunitário disponibilizado para a angariação de fundos para colectivos e para causas políticas afins. Nesse sentido, também vamos tecendo cumplicidades associativas politicamente vitais no nosso contexto local, estando presentes com a cantina noutros contextos fora da Gralha».

    Fora de Portas

    As cantinas enquanto espaços vitais destes centros sociais revelam-se ferramentas cruciais, prontas a entrar em acção em momentos chave e indo muito para lá das suas portas. Quer a Disgraça, quer a Gralha envolveram-se activamente em redes de apoio mútuo e de distribuição de comida por altura da pandemia do Covid 19, em 2020. Uma rede de cantinas solidárias surgiu então à volta destes espaços e noutros, como o Espaço Provisório, o RDA (Associação Recreativa dos Anjos), ou a Zona Franca dos Anjos, em Lisboa e, no Barreiro, a Cooperativa Mula. Mais recentemente, a Disgraça pôs a sua cozinha ao serviço da Cozi- nha Migrante dos Anjos, uma iniciativa que serviu milhares de refeições às centenas de migrantes que acampavam, em 024, junto à Igreja dos Anjos, ao lado da AIMA (Agência para a Integração Migrações e Asilo), em busca de uma solução para as suas situações.

    Cantina à mesa – Sirigaita – Abril 2023

    Após o fecho de várias cantinas depois da pandemia, um grupo de pessoas em Lisboa sentiu a necessidade de «retomar um bocado a prática de ter uma cantina entre colectivos». Fruto de assembleias de bairro que se chamavam “A Mesa” e de umas Jornadas em 2022 no Liceu Camões «sobre as questões da alimentação que juntaram as cooperativas ligadas à alimentação do bairro de Arroios, algumas hortas próximas de Arroios, a Cooperativa Integral Rizoma, algumas cantinas, como o Espaço Provisório, a RAM (Rede de Apoio Mútuo)», veio a ser criada a cantina À Mesa! Como se lê no seu manifesto, À Mesa! convida a sentar à volta de uma refeição quem «tem fome de contrariar activamente o resultado dramático do aumento do custo de vida e da falência de um sistema desigual de distribuição de alimentos na cidade.» Em novembro de 2022 puseram as mãos na massa pela primeira vez: «foi uma cantina de urgência, de apoio à ocupação estudantil das Escolas Secundárias António Arroio e Camões. E a primeira cantina oficial À Mesa! foi em Janeiro e 2023 no RDA. Foi o primeiro crumble de muitos! Crumble de pêra!».

    À Mesa! é deliberadamente itinerante. «O facto de estarmos sempre em sítios diferentes, a cozinhar em sítios diferentes com pessoas diferentes, contextos diferentes, é sempre um exercício de adaptação e isso é giro. Também é giro porque acabamos por mapear a cidade e conhecer as diferentes colectividades e sítios que ainda resistem. Já não são muitos, cada vez temos tido mais dificuldade em encontrar sítios diferentes. Adaptamo-nos tecnicamente com a forma de cozinhar e com o material que temos e as instalações, e com as pessoas com quem temos que lidar, que não são as mesmas quando é com colectivos militantes ou pessoal dos bairros… não é a mesma forma de interagir. E também a própria natureza dos encontros, porque promovemos sempre uma conversa ou um filme ou algo, um tópico para debate, a Palestina, os cuidados lá na [cooperativa] Mula do Barreiro, ou as conversas sobre as cantinas no RDA».

    «Quando vemos os diferentes tipos de cantinas que conhecemos cá em Lisboa, todas são complementares, todas são necessárias, por razões diferentes. Acho que a nossa tem essa cena de ser itinerante, de ser só uma vez por mês, de ser completamente sem auto-emprego. Por exemplo, a cantina RAM também não é auto-emprego, mas fazem todos os Sábados, no mesmo sítio, com um público que está aí à espera e com necessidades. Nós nunca estamos à frente desse tipo de público. Se essas pessoas quiserem, claro que podem vir porque o preço é livre, estamos abertos a isso, mas não temos o mesmo tipo de público».

    A cantina RAM na Quinta do Ferro «surgiu a partir das assembleias da RAM que se formaram em 2016. A RAM surge como uma proposta de ser um «sindicato primitivo», uma ferramenta para que trabalhadores precários, a recibos verdes ou sem contratos e imigrantes possam recorrer em caso de conflitos laborais ou recusa de pagamento. A nossa dinâmica era organizar assembleias onde as pessoas trariam casos, e a partir daí pensa ríamos soluções colectivas. Funcionamos dessa forma até à pandemia, quando tudo mudou. Na época da pandemia nos envolvemos com as cantinas solidárias que existiam na cidade. Quando houve a abertura, tivemos dificuldade de ter participação das pessoas nas assembleias. Pensámos: que outras formas de apoio mútuo poderíamos exercer para criar uma base social para a nossa actuação? Foi daí que veio o projecto de fazermos uma cantina semanal. Conversámos com nossos parceiros do Espaço Provisório para fazermos lá, já que era ao ar livre e ficava no coração da Quinta do Ferro, uma comunidade autoconstruída que estava sob ameaça de despejo já há alguns anos. Eles aceitaram, e começámos. E agora já se passaram três anos e meio que fazemos almoços grátis, todos os Sábados».

    Espaço do Provisório, na Quinta do Ferro, utilizado pelas cantinas da RAM (Rede de Apoio Mútuo) e da À MESA!

    Cantinas Estudantis

    Com vontade de «criar um movimento disruptivo» na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha (ESAD.CR) nasceu, em 2025, a Cantina Estudantil ESAD.CR inspirada «nas cantinas espontâneas nos movimentos do Fim ao Fóssil», ou na Cantina Popular da FCSH (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa). Depois de terem resumido a experiência do primeiro ano lectivo numa fanzine, o colectivo afirma estarem «focades (ainda que cansades) em dedicar o nosso tempo às Cantinas bimensais e à criação destes espaços de discussão, bem como qualquer tipo de malandragens que desestabilizem o ambiente estéril e distante que nos é imposto, em prejuízo da comunidade da escola.»

    «Ser estudante e desempenhar projectos ao mesmo tempo (mais trabalho para algumes) é complicado, mas acaba por ser um método de sobrevivência: precisamos destas coisas, precisamos destes espaços. A direcção tem dificuldade em lidar com estudantes que queiram reivindicar melhores condições, quanto mais a agir sobre. É fácil organizar e ocupar um espaço para oferecer uma alternativa ao que te é imposto e é mesmo muito mais fácil trabalhando com grupos de afinidade. É preciso agir e não só deixar a marinar, e a comida é mesmo um excelente cavalo de Troia». A comida «preenche silêncios, sugere assuntos». A cada encontro está subjacente uma reivindicação como sejam o acesso a refeições acessíveis, ao refeitório pós-laboral, a espaços e infraestruturas, a material específico do ensino artístico ou problemas a nível nacional como a propina, o alojamento ou «encontrar trabalho na nossa área».

    «As cantinas servem sempre como momentos de comunhão, seja por frequentadores habituais ou quem se junta espontaneamente e é sempre um pretexto interessante para constatar e celebrar o que nos traz a força comunitária e estudantil quando organizada.» A cada refeição «há uma recolha de informação muito visível através daquilo que são os nossos objectos de mediação: pequenos flyers arquitectados conforme o tema de cada Cantina que procuram recolher informação, fazer perguntas desafiar perspectivas e deixar espaço para contributos. Os dados recolhidos são relevantes para efeitos estatísticos e recolha de testemunhos que podemos, noutro patamar, formalizar para apresentar à direcção», a qual acontece por vezes passarem com «alguma conversa apreciativo-condescentente».

    A Cantina #5, já no presente ano lectivo, contou com cerca de 70 pessoas em horário pós-laboral e foi subordinada ao mote “Vem-te Portar Mal à Mesa: Quem Se Senta na Cadeira do Poder?”. O tema «partiu de uma Reunião Geral de Alunes em que, ouvindo as preocupações des estudantes, achámos pertinente explorar em conjunto as hierarquias da coordenação da Escola e do Politécnico – a que órgão cabe cada função – para aprendermos como reclamar as nossas reivindicações burocraticamente e não-burocraticamente». A «banca de limonada que esteve instalada no átrio da escola a divulgar a acção durante o dia (e a distribuir, lá está, uma simpática limonada) que teve adesão especialmente de colegas recém-chegades ao primeiro ano, curioses sobre este projecto e características dos vínculos anarquistas como a sua abertura e horizontalidade» acabou por ser «levada por uma carrinha de saneamento da Câmara Municipal, a mando da direcção da ESAD.CR».

     

    Pôr as mãos na massa

    Na Cantina À Mesa! que teve lugar no Bairro Horizonte «a parte mais engraçada foi a forma como as pessoas do bairro se juntaram à parte da confecção e vieram fazer massa fresca. E foi uma coisa mesmo partilhada. Acho que foi muito giro. Normalmente reunimos primeiro com os colectivos que nos convidam ou com quem queremos fazer uma cantina. E nessa reunião na Associação de Moradores do Bairro Horizonte entra um jovem miúdo lá do bairro e pergunta:

    “- Vocês estão aqui para quê?

    – Vamos cozinhar. Também vais cozinhar connosco?

    – Vamos cozinhar o quê?

    – Massa.

    – Eu sei fazer massa. É só abrir o pacote.

    – Mas esta não vai ser assim.”

    E realmente essa cena de fazer a massa do início ainda é melhor. Ainda sabe melhor!»

    Rafeiro, cozinheiro de célebres iguarias que em Lisboa passou pelo RDA, a Disgraça e a Zona Franca, actualmente em auto-emprego na Cooperativa Mula do Barreiro, destaca como nas cantinas sociais há um verdadeiro trabalho de «gestão para o pessoal se organizar e trabalhar sem patrão. A cena de trabalhar sem precisar de alguém que faça uma chefia. É todo um processo de organização, tem de haver reuniões para se decidir tudo, as tarefas de cada um, o que se vai fazer, como se vai organizar.»

    Nestas cantinas a ausência de chefs e especialistas faz parte da receita. Como descreve Bicão, «atrás da cozinha é engraçado, porque tens imensa gente que vai ajudar» com «todo o gosto de estar ali a partilhar o momento». No funcionamento de uma cantina «muito mais facilmente as pessoas conseguem descobrir o que é que querem fazer e aplicam-se com outra energia».

    Numa mistura entre conhecimento e uma mecanização dentro da cozinha, uma cantina ganha estrutura «para não ser penoso demais para ninguém, e chegar também com alguma rapidez ao objectivo», ainda que, ressalva Bicão, não se guiando «pelas perspectivas do capital, que é ser muito rápido, ter tudo prontinho, ter tudo igual. Aliás, sempre optámos por outras coisas. Se fosse preciso demorar mais tempo, ou que a comida fosse diferente em cada prato, ou seja, pensando numa perspectiva que o sistema não pensa».

    No Porto a cantina «organiza-se na Gralha sob a forma de comissão, tal como as outras valências da Gralha (biblioteca, loja livre…) e geralmente são pessoas da assembleia gestionária da Gralha que, voluntariamente, asseguram o funcionamento regular da mesma» junto com «outras pessoas e colectivos de uma forma mais pontual». Em Lisboa, a RAM procura reunir mensalmente, mas «na prática o grupo que gere a cantina já tem uma organicidade própria, dividindo entre si quem fica responsável por cada fim-de-semana. Sempre temos pessoas que aparecem para ajudar, então raramente fica pesado. Hoje, os próprios frequentadores da cantina são quem a faz. E, para financiar, contamos com doações eventuais de pessoas que frequentam e acreditam no projecto e benefits, que organizamos consoante a necessidade».

    Já a cantina da À Mesa! reúne uma vez por mês e as pessoas são «convidadas, através de uma newsletter ou de uma mailing-list, a juntarem-se a nós na reunião ou no dia da cantina. Há um grupo inicial desde a primeira cantina, mas que tem vindo a crescer. E depois há sempre pessoas que aparecem espontaneamente, às vezes as pessoas trazem amigas». O breve manifesto da cantina resulta numa «introdução a como é que nós nos comportamos à volta dos tachos, enquanto estamos a cozinhar, a parte dos cuidados mútuos também é importante, a parte das hierarquias que não existem…».

    Cantina Estudantil nas Caldas da Rainha

    Nas Caldas da Rainha «a distribuição de tarefas é arquitectada durante a semana anterior numa tabela digital partilhada, onde cada pessoa encaixa o seu nome nas funções e horários que melhor se enquadram nas suas vontades e disponibilidades, mas nem sempre há grande rigor no seu cumprimento. Acima de tudo, existe sempre atenção para sobrecargas, preocupação em incentivar rotação e muita vontade de ajudar». O manual (manifesto) orientador elaborado em conjunto permitiu alargar o grupo inicial, esbatendo «a inicial preocupação de que as pessoas se tornariam insubstituíveis. Fomos sempre tentando criar os suportes necessários para ela se autogerir – que necessitaram, claro, de afinação, houve períodos de sobrecargas, desmoralização, mas vai indo ao sítio». No final «há cantinas mais tranquilas e algumas mais agitadas, mas pode-se dizer que é bastante transversal um ambiente acolhedor, produtivo e gratificante de fazer as coisas acontecer, conviver, lidar com problemas e arranjar soluções».

    Aprendizagem

    O esbater de papéis e hierarquias na cozinha desafia quem é mais experiente. Tal como Bicão nos diz, a certa altura deu-se conta de que «chegava a uma cozinha e visualizava tudo o que era preciso fazer desde o primeiro passo até ao final» e facilmente lhe saía «aquela coisa do “eh pá, toma atenção a isto, olha aquilo”». «Percebi que realmente isto não faz sentido», sobretudo sendo estas cozinhas espaços de resistência. «Uma coisa é estar na minha casa a cozinhar com as minhas coisas, outra coisa é estar numa cozinha social. É importante que te conheças bem a ti próprio, como pessoa».

    Também a cantina das Caldas confessa que a «horizontalidade é complicada, mas uma “hierarquia” de responsabilidades pode ser rotativa. É, ainda assim, difícil elucidar às pessoas que têm de fazer pausas e deixar outras aprenderem, tal como é mais fácil assumir sempre as mesmas funções que ensinar novas pessoas, mas vale a pena fazê-lo e é gratificante quando funciona».

    O balcão aberto entre a cozinha e os espaços em redor, longe do conceito das cozinhas abertas ao «espectáculo» gastronómico, são inerentes à natureza orgânica destas cantinas. Na Gralha a cozinha foi montada «de forma a haver um contacto directo com o resto do espaço, facilitando a interacção entre as pessoas que cozinham e as pessoas que o povoam. Desta forma vão acontecendo partilhas que fortalecem o nosso fazer colectivo, comunitária e politicamente, bem como facilitam um território emancipador de troca de saberes e de vivências».

    As dinâmicas de uma cantina jogam um papel central na consolidação dos colectivos que as animam e entre os comensais activistas que povoam as mesas. «Quem come habitualmente na Gralha são as pessoas que fazem dela um espaço comunitário, são, geralmente, pessoas envolvidas politicamente com os movimentos sociais, grande parte delas migrantes. Dinâmicas muito positivas de fortalecimento de vínculos afectivos e políticos. As pessoas doam-nos frutas e vegetais das suas hortas, trocamos receitas e técnicas, aprendemos colectivamente sobre diferentes culturas culinárias, fazemos aniversários das pessoas da nossa comunidade, depois do jantar convivemos e congeminamos contra o sistema».

    Na itinerância da Cantina À Mesa! «para além das aprendizagens que nós fizemos nestes sítios» há lugar a «um lado bem importante que é a aprendizagem que nós fazemos umas com as outras. A maneira como estes momentos de cozinhar também são um momento de partilha e de aprendizagens. E não só na cozinha. A aprendizagem comum é uma parte muito importante deste colectivo».

    Bicão observa nas cantinas «jogos de poder, idades diferentes, certas hierarquias, e certos papéis de género a serem desconstruídos e quebrados de uma maneira muito fácil. É muito interessante. É um sítio de experimentação, nesse sentido, que é realmente incrível, porque não só na preparação, ou seja, não só no ir buscar os alimentos, arranjá-los, até à confecção, prepará-los, armazená-los, cozinhá-los e servi-los, são várias etapas. Ao fim e ao cabo, tu chegas e trazes uma refeição, depois de todas as etapas que fizeste, o pessoal fica extasiado ou adora a refeição. Num ambiente em que é possível estares a falar com as pessoas, ver o que vão comer, partilhares com elas o que é que elas sentem, o que é que se passou na cozinha. Tudo isso implica que se consegue construir uma coisa incrível, esses espaços de resistência». «Não estou a dizer grande novidade, mas, de facto, desde a antiguidade, à mesa e à volta da alimentação e do comer, há um convívio que engendra conspiração, que engendra descobrir novas ideias, abrir o horizonte».

    «Antigamente eu sentia que era fácil isto acontecer em várias áreas, se fôssemos para a rua fazer uma manifestação, ou fazer uma leitura num sítio. Hoje em dia, sinto que é muito complicado porque há muita gente separada umas das outras. E a cozinha continua a ser, por excelência, o sítio onde estas coisas acontecem sem essas estruturas opressoras. É realmente incrível, nesse sentido de formação.» «É muito fácil gerar ali um momento de calor em que nos entendemos, em que estamos ligadas, porque a comida também faz parte da nossa vida. E a coisa essencial, que continua a ser imprescindível em qualquer momento, seja na alimentação ou em qualquer assunto, é sempre a comunicação.»

    Cantina à Mesa – Disgraça – Março 2023

    Sair das bolhas

    «Acho que as coisas mais fixes que aconteceram foi quando saímos um bocadinho da bolha dos sítios de Arroios», confessa a cantina À Mesa!. «Quando fomos para a Horta do Regador e tivemos de discutir com aquelas senhoras sobre as favas. Elas achavam injusto ser donativo livre. Porque uma ia pagar “X” e a outra ia pagar menos. E como é que pela mesma coisa uma pagava uma coisa e a outra pagava outra?» «Depois, no bairro da Bela Flor, a discussão do vegetariano e do não vegetariano. Quase que fingimos que aquela lasanha era de carne. E na Bela Flor também houve aquela coisa muito engraçada que foi o pessoal lá do bairro ter contribuído para o almoço: fizeram um bolo de bolacha e pickles. Também trouxeram a própria ideia deles de contributo para o almoço. E um concerto espontâneo de um vizinho, de acordeão. Foi bonito».

    Na Cantina da RAM «temos um público fixo de moradores da Quinta do Ferro. Foi preciso muita perseverança, para deixarmos de sermos vistos como bichos exóticos e começarmos a compor a paisagem do bairro. Agora, as pessoas mais idosas da Quinta vão e participam, e acabam de certa forma por ser a alma da cantina. Depois temos um grupo considerável de pessoas sem-abrigo, que começaram a ir desde o início e que agora estão bastante integrados. Alguns que estão mesmo na rua e outros que estão num albergue da cidade. Participam bastante, tanto na cozinha quanto nas assembleias. Temos também pessoas migrantes em busca de lugares para se integrar, socializar. O facto de que a maioria das pessoas que impulsionam a cantina serem pessoas migrantes faz da cantina um lugar especialmente confortável e acolhedor para quem está passando pelo desafio da migração nesta terra hostil. Por último, pessoas da fauna activista de Lisboa, integrados em movimentos ou okupas. Acaba sendo um espaço bem diverso».

    A cantina da RAM sublinha nesse sentido «o contacto e diálogo com os sectores mais vulneráveis da sociedade que tem na cantina um espaço importante de sociabilidade. As conversas e sociabilidades que surgem ao redor das refeições são incríveis. Mantemos os materiais de propaganda da RAM, assim como faixas de protesto decorando o ambiente, mas é realmente nas conversas que vemos a mudança acontecer. Por exemplo, foi na cantina que tivemos a noção de quão difundidos estão os discursos da extrema-direita. Até mesmo os sectores mais injustiçados da sociedade reproduzem discursos meritocráticos, sem falar de racismo e xenofobia. Trabalhando com a população em situação de rua, tivemos em diversos momentos de intervir em situações onde se reproduziam práticas racistas e xenófobas. Tivemos de intervir, fazer um trabalho. É muito doido ver pessoas em situação de sem-abrigo ostentando discursos contra os “subsídio-dependentes”, ou então dizendo que cada um tem o que merece, etc. Claro, quando engajávamos nesse diálogo e perguntávamos “ok, então isso também se aplica a você?” o discurso mudava. “Ah não, eu sou uma situação particular, por que isso ou aquilo, o problema são os outros”. Pois é, todo mundo tem uma situação particular, todas as tragédias biográficas são ao mesmo tempo pessoais e colectivas, são estruturais. Vimos como aos poucos o discurso foi mudando, as pessoas foram entendendo, tendo acesso a discursos contraditórios e pensando com isso. No final, a prática da cozinha comunitária acabou sendo um exemplo vivo de que as coisas podem ser diferentes, de que o discurso fascista é completamente falso, e de que a solidariedade e o apoio mútuo são ferramentas mais poderosas que a competição».

    Cantina à Mesa – Horta do Regador – Maio 2023

    Desindustrializar a comida

    E na base está sempre o alimento. «Porque eu adoro comer!», diz-nos Bicão, e com isso comecei a perceber o que é que se passava com a indústria, com o uso dos animais na alimentação, com as relações que havia com a alimentação», como «a partir da comodidade e do conforto, começa-se a industrializar a comida, a ter as refeições prontas». Isso contrariando o «processo grande e interessante dentro das cozinhas, de ir buscar comida, armazenar, acondicionar, tratar da comida, em que as pessoas estavam entre elas. E, de repente, temos a indústria que encurta isto, quase como se quisesse tomar o papel da cozinha em si sem nunca chegar a assumi-lo, mas encurtando este espaço entre o consumidor e o produto final. Perdemos este processo pelo meio que é importantíssimo. As ideias de comer, as práticas de comer, a relação com a comida».

    «Portanto, para nós sempre foi uma preocupação desconstruir o que nos ensinavam sobre como comíamos e tentar descobrir outro modo». E a indústria toma aqui uma outra vertente e, de repente, são eles também a dizer o que é saudável ou como se consome e na mesma a processar uma série de alimentos que perdem o seu cariz energético, perdem o seu valor e não faz sentido. Era toda uma coisa que nós queríamos combater e a isto aliávamos outras coisas, como o desperdício, porque olhávamos para a nossa sociedade a nível dos supermercados, ou dos restaurantes, estruturas que trabalham para a alimentação. O desperdício é tão grande, nem temos noção, nem é possível saber. Uma das coisas foi tentar usar parte do desperdício deixado por esta sociedade. Recriar, em relação à indústria que nos dava o veganismo e todos os produtos, tentar recriar um verdadeiro vegetarianismo e veganismo».

    Este posicionamento cruza-se com o testemunho da Gralha que considera como «contributos essenciais para as políticas do que é hoje a nossa cantina, o contacto com os movimentos de soberania alimentar e do veganismo popular, um posicionamento ético-político originário do Brasil que sustenta que a libertação dos animais só pode ocorrer em articulação com a libertação humana das suas opressões transversais». Por essas razões, as cantinas aqui abordadas são de base todas elas vegetarianas ou veganas, procurando atender ao desperdício, como a cantina À Mesa! que cozinha «em função das estações. E também temos o apoio da cooperativa Fruta Feia. Normalmente recebemos a lista de ingredientes disponíveis e adaptamos a partir daí».

    Por outro lado, a continuidade e persistência destas cantinas permitiu ainda enveredar por situações de auto-emprego, caso da cantina do Kaldeirão atualmente no RDA, ou da cantina da cooperativa Mula. Neste último espaço no Barreiro, conta-nos Rafeiro, existem «pelo menos, três pessoas a cozinhar. Temos almoços e jantares durante a semana. E agora ao jantar também temos entregas, orque a Mula fica um bocado afastada do centro. Fazemos o circuito do Barreiro, na periferia do Barreiro, Alhos Vedros, Vale da Amoreira». Na Mula aquando da «pandemia criou-se uma cantina solidária, para distribuir comida para as pessoas que estavam sem possibilidades. Aí também surgiu a necessidade de haver um espaço para cozinhar e para as pessoas terem o seu rendimento». Há ainda uma padaria e, uma vez por mês, a «pizza domingueira», para ajudar a pagar as despesas da compra do espaço da Mula, em que participam voluntariamente os membros da cooperativa.

    Para Bicão, a possibilidade do auto-emprego é importante «entre o que se faz literalmente 100% alternativo, debaixo da mesa e o que se faz totalmente comercial. Porque antigamente era 8 ou 80. Ou tu fazias uma coisa social, ou só havia algo extremamente hierarquizado, só de fazer dinheiro ou padronizado». Sem deixar de considerar «que os modelos sociais são muito mais interessantes», percebe que em ambas as situações há uma preocupação que não pode ser descurada. «Se começa a haver umas cantinas sociais, ou seja, mais populares, onde cada vez mais malta aparece, às vezes acontece aquela coisa que é serem gentrificadas, não é? Por exemplo, aqueles gajos da Time Out andarem atrás destes sítios lá em Lisboa, como quando tentaram ir à Disgraça e quiseram fazer entrevistas, que nós não aceitámos. A nós não nos interessa, muito longe disso. Tens de ter aquele cuidado de não te deixar levar e chegar a outros pontos. De repente já ter um sítio todo gourmet. O importante será aqui aquela desconstrução, ou seja, a relação entre as pessoas, a desconstrução de coisas hierárquicas, tudo o que a sociedade nos impõe e que nos obriga a fazer de um espaço em que isso seja desconstruído. Eu acho que não é muito difícil, não é impossível».

    Vai comer lá a casa

    Em Coimbra, as cozinhas das Repúblicas não se apelidam de «cantinas». Quem lá vai comer, não sendo morador ou comensal, é alguém que «vai comer lá a casa». Só tem de conhecer alguém, ser curioso ou querer entrar. Nas 24 Repúblicas que hoje resistem, cada uma com o seu próprio sentido e organização, há uma coisa quase horizontal a todas: refeições partilhadas, principalmente à hora do jantar.

    Nestas casas estudantis há duas formas de participar: sendo um morador ou um comensal. A figura do comensal difere de casa para casa. Sara, a tirar mestrado em Antropologia na FCSH, participou, desde os 17 anos, na Pra-Kys-Tão e conta-nos a sua experiência. Aqui «comensal é uma pessoa que tem a chave de casa e contamos com ela para todas as refeições». «A comensalidade é um projecto, é uma forma de habitar as Repúblicas» e resulta numa «forma de o colectivo te conhecer e de tu conheceres o colectivo», sendo que «a participação numa República acontece através de processos fluidos de amizade».

    Ao mesmo tempo, «é do nosso interesse criar continuidade. Queremos que novas pessoas conheçam o projecto, que novas pessoas participem nele, e que novas pessoas continuem a alimentar este sentido colectivo e esta memória colectiva do que é esta casa, o que é que esta casa representa, e continuem a contribuir. Ou seja, criar este tipo de iniciativas na cidade. Então, esta coisa de convidar pessoas para jantar, é uma coisa super natural. Aliás, as Repúblicas são casas de porta aberta».

    «Então, dependendo do número de pessoas que são membros, contando com moradores e comensais, faz-se uma expectativa de quantas vezes é que as pessoas estarão a cozinhar durante a emana. Tipo, em sete dias da semana, um dia por semana tu cozinhavas para todas as pessoas. Incluindo amigos, convidados, normalmente fazemos sempre um bocadinho de comida extra. Pontualmente, também participamos em eventos que envolvem almoços ou jantares abertos à comunidade e organizamo-nos com outros colectivos da cidade. Por exemplo, durante o Cria’ctividade, uma programação cultural de integração alternativa à praxe, que organizamos há 12 anos, de forma contínua, em Setembro, na inauguração da programação há sempre um jantar comunitário gratuito, na Rua da Matemática, vegetariano ou vegano, para quem quiser. E isso funciona porque cada República prepara comida para 10 e leva. Se formos 10 Repúblicas temos comida para cento e tal pessoas. Isso acaba por acontecer de forma natural».

    E no primeiro dia de Primavera: «um concurso de feijoadas. A vizinhança, as pessoas mais velhinhas ali da Alta, são convidadas para serem júris numa competição de feijoadas. Cada República tenta fazer a melhor feijoada e, no final, há um banquete em que todas as pessoas são convidadas para participar e ir comer».

    No dia a dia, o «jantar é sempre um momento onde se come muito bem, é um ponto de encontro e também uma coisa que motiva as pessoas a querer fazer parte do colectivo.» E «não existe uma expectativa que alguém tenha de pagar para vir comer connosco. Isso é um pensamento que não faz parte do imaginário de comer numa República e que é uma coisa que muitas vezes é difícil de se fazer perceber, vai contra toda a lógica. Para muitas pessoas é um conceito completamente estranho».

    «Ou seja, as Repúblicas são espaços onde tu vens comer a casa de uma pessoa» e como tal «espera-se que as pessoas tenham sentido de responsabilidade e autonomia, vontade de construir o bem estar da casa de forma colectiva, participando nas acções necessárias para que esta dinâmica funcione – cozinhando, limpando e apoiando no cuidado geral do espaço.» Daí que «a continuidade da casa passe por seres uma pessoa atenta às necessidades do colectivo, às necessidades da casa, participar e te envolveres nas medidas das tuas capacidades e deixares o lugar melhor do que encontraste». E é importante «ter novas gerações de pessoas a ter outros jantares, onde se discute política, onde se discute a sério, onde há conversas que podem ir em todas as direções. Onde há coerências e incoerências, onde se apontam hipocrisias, onde os paradoxos são super evidentes, como em qualquer outro coletivo. E a mesa é um sítio de pensamento, é um sítio de luta e é principalmente um sítio de imaginação».

    ———–

    Texto de Ana Queijo e Filipe Nunes, publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

  • Finanças como arma de militância

    Finanças como arma de militância

    Quando a notícia de que a Coop57 conseguiu arrecadar dois milhões de euros em menos de 13 horas para financiar uma cooperativa de habitação, a «nova geração de cooperativismo»[ref]Como foi apelidada a mais recente vaga de cooperativas – em grande medida impulsionada pela introdução e multiplicação do modelo de «cooperativa integral» em Portugal, de que a Minga, fundada em 2015, é precursora – no pacote Mais Habitação, proposto pelo anterior Governo[/ref], olhou para o outro lado da fronteira com esperança e (admitamos) um pouco de inveja. Em menos de um dia, esta organização-chave do ecossistema espanhol da economia social e solidária (ESS) conseguiu fazer o que o Estado português está a prometer há dois mandatos: financiar projetos de habitação cooperativa com rendas acessíveis e protegidos contra a especulação imobiliária[ref]”Habitação contra a Especulação, parte II: Cooperativas”, Jornal MAPA #41, Abril-junho 2024[/ref]. Mas não é só no setor habitacional que a Coop57 tem atuado. Desde a sua fundação, em 1995, até 2023 (últimos números a que tivemos acesso) concedeu 4 248 empréstimos a entidades da ESS – desde associações de apoio a migrantes a cooperativas de todo o tipo –, superando os 200 milhões de euros. Só em 2024, terão conseguido canalizar 27 milhões para projetos de alto valor social e ecológico[ref]“La lucha obrera que se transformó en una herramienta financiera cooperativista con 30 años de historia: Coop57”, El Salto, 7 de novembro de 2025.[/ref].

    Campanha para Financiar uma Cooperativa de Habitação

    Como sugere o título do artigo do El Salto, que celebra os 30 anos desta cooperativa de serviços financeiros, a Coop57 é uma autêntica prova de que é possível fazer política através da economia quotidiana, sem cair na lógica individualista do consumo consciente ou do cliché «vota com o teu dinheiro». A proposta da Coop57 é transformar as poupanças individuais numa ferramenta coletiva ao serviço de uma economia transformadora, solidária e ecológica.

    Pode-se dizer que a Coop57 nasce das cinzas da Editorial Bruguera, que marcou a história da banda desenhada catalã, e da luta sindical que se seguiu ao encerramento da empresa. Os fundos de «reconversão industrial» injetados no Estado espanhol após a sua adesão à União Europeia permitiram, por um lado, investir e máquinas mais produtivas e, por outro, descartar milhares de trabalhadores, aumentando as margens de lucro das empresas «mais competitivas» e levando à queda de muitas outras – como foi o caso da Editorial Bruguesa, cuja atividade ia desde a produção à distribuição de livros. A sua falência, em 1986, empurrou mais de 800 trabalhadores para o desemprego. A maioria ter-se-á resignado com as magras compensações oferecidas pelo Banco de Crédito Industrial, que entretanto absorvera a empresa, e aceites pelos principais sindicatos, CCOO e UGT. No entanto, alguns membros do OITEBSA, um coletivo sindical independente com raízes anarquistas, decidiram lutar por justiça perante o que consideravam ter sido o resultado de más decisões empresariais, argumentando que teria sido possível manter a atividade e preservar o meio de subsistência de grande parte dos trabalhadores.

    Em agosto de 1986, já após o seu encerramento, mais de 100 pessoas terão ocupado e habitado a fábrica – famílias inteiras, incluindo crianças – durante um mês inteiro, pedindo comida no mercado local e organizando-se para garantir que ninguém passaria fome. Durante o mês de setembro alguns trabalhadores entraram em greve de fome para aumentar a pressão sobre o juiz encarregue do processo. A estratégia teve efeito e, no mês seguinte, o juiz determinou que não houvera causa que justificasse para o encerramento total da empresa e que o despedimento coletivo não tinha fundamento.

    Desde então, os trabalhadores começaram a receber salários de tramitação (valores equivalentes ao que receberiam se continuassem empregados) em bruto. Temendo que a Segurança Social cobrasse impostos sobre esse valor, decidiram colocar essa percentagem num fundo comum e esperar.

    Fonte: Diario Libre d’Aragón

    Como seria de esperar, perante a decisão do juiz, o Banco, agora responsável legal da empresa, recorreu ao Tribunal Supremo. Com a ajuda da cooperativa de advogados e advogadas Col.lectiu Ronda – que ainda hoje são importantes aliados das lutas laborais catalãs, num contexto de contínua precarização e uberização da economia –, os trabalhadores reivindicaram a recuperação da fábrica em forma de autogestão cooperativa. Após três anos de disputa legal, o Supremo deu razão àquele grupo de trabalhadores, que representava uma parte diminuta do número de despedimentos, concedendo-lhes o direito a indemnizações de 45 dias por ano a partir do ano da sua contratação (contrastando com as condições de 20 dias por ano com um limite de 12 anos aceites pela CCOO e a UGT).

    Além das indemnizações, o fundo comum, que ascendia a 100 milhões de pesetas (equivalente a 600 mil euros), permanecia intacto. Após uma espera de cinco anos, para certificar-se de que esse valor não era reclamado, o coletivo decidiu distribuí-lo: 10% para os advogados, cerca de 30% para lutas internacionais, outros 30% para lutas sindicais e outros trinta para promover o cooperativismo. Foi neste último lote que germinou a Coop57. Como conta Jordi Pujol, advogado do Col.lectiu Ronda, ao El Salto, um dos companheiros envolvidos no processo defendia que o cooperativismo precisava de três pernas de apoio – formação, comércio e finanças – que emergissem do seu próprio corpo e seguissem os seus próprios princípios. Tendo já ajudado a constituir na Catalunha uma cooperativa de formação e outra de serviços comerciais, faltava criar a terceira.

    A 19 de junho de 1995 nasce a Coop57, com um fundo de 40 milhões de pesetas (240 400 euros). Da Catalunha multiplicou-se, em rede, para outras comunidades autónomas: Aragão, Madrid, Andaluzia, Galiza, Euskal Herria (País Basco), e Astúrias. Parece quem nem a fronteira nem a legislação nacional facilita a sua reprodução para território português[ref]“Cooperative Financial Instruments in Portugal”, Olival & Mateus, SSE&Commons 2024.[/ref]. Mas, seguindo o exemplo dos ex-brugueros, continuaremos a lutar nesse sentido. Porque, ao contrário do que sucede nos bancos tradicionais, onde as nossas poupanças podem ser destinadas, sem o nosso conhecimento, a financiar o fabrico de armas, a produção de combustíveis fósseis ou a especulação imobiliária, a Coop57, além de ser gerida democraticamente, é transparente em relação aos seus investimentos, que seguem princípios sociais e ecológicos bem definidos. E um deles é colocar o crédito ao serviço da transformação social numa lógica de solidariedade e ajuda mútua.

    Parabéns, Coop57!


    Notícia publicada no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]


  • Quem tem medo da Almada colonial?

    Quem tem medo da Almada colonial?

    Descobri a Almada de que tanto gosto há cerca de uma década, pela Trafaria, na boca do Estuário do Tejo, entre a terra e o mar. Os pescadores e gentes que ali vivem, a boa gastronomia e a natureza, da praia à/xptoadmin/ mata, conquistaram-me e falaram às minhas raízes. Hoje vivo na Cova da Piedade, também lugar de gente lutadora. Tenho muito orgulho em ser Almadense e é por gostar tanto desta terra que quero partilhar o que vi – a Almada colonial que precisamos combater.

    Almada colonial é uma visão, uma imaginação de quem agora toma o poder e que nos vê como coisas a dispôr, como ignorantes, ou pior, como criminosos, a partir do momento em que tenhamos os nossos pés num bairro ilegal, como têm sido encarados os moradores almadenses de Pena Joya ou do 2.º Torrão e seus companheiros de luta. A Almada colonial afecta-nos a segurança de poder viver numa casa, a nossa capacidade de encontrar um emprego, de conseguir uma escola para as crianças ou atendimento médico. Mas precisamos de não ter medo dessa Almada colonial. O medo trava-nos a auto-estima e a confiança na voz e no lugar dos outros. Sim, os moradores de Pena Joya e do 2.º Torrão são pessoas como todas nós e têm os mesmos direitos de todas e todos os munícipes de Almada.

    O bairro do 2.º Torrão é como a minha segunda casa. É um bairro auto-construído com uma longa história. Na década de 1940 chegavam ali umas casas puxadas por bois desde a aldeia vizinha. Eram pescadores que ali se estabeleceram. Nessa altura, no Verão, iam para ali acampar pessoas dos bairros típicos de Lisboa, em especial de Alfama e da Mouraria. Passados todos estes anos, muito mudou. Com a revolução de Abril, muitos africanos e afrodescendentes fizeram ali a sua casa, em especial de Cabo Verde e Angola. Hoje o bairro vive essa diversidade, contando entre 2000 e 2500 moradores e uma diversidade de condições de habitação, algumas casas com melhores condições do que outras, com acesso à água e a electricidade por puxada ou «gato». Como investigador sobre participação social e líder de uma associação local, que ali trabalhava a participação nas ciências, artes e política, aprendi muito sobre este lugar. Aprendi ainda mais quando tivemos de lutar contra a Câmara Municipal de Almada. Uma altura violenta que permitiu entender muito sobre o poder local.

    No final de setembro de 2022, a Câmara e a Proteção Civil impuseram seis dias de demolições e a deslcação forçada de mais de 60 famílias. Um dia acordámos e não conseguimos sentir os pássaros nas árvores logo cedo. Em vez disso, ouviam-se motores de escavadoras e um vai-e-vem de gente a bater nervosamente à porta dos vizinhos. Muita gente foi apanhada de surpresa. Eu e outros amigos que trabalhávamos noutras coisas tivemos que mudar a nossa ocupação. Depois de estarmos no bairro há vários anos a estudar o galgamento costeiro com geólogos e oceanógrafos, a Câmara Municipal anunciava com pompa um grande risco: uma vala subterrânea estava em risco de ruir. Na confusão que se instalou, conseguimos apoiar um grupo de moradores que com coragem se pôs em luta. Essas pessoas, que conhecíamos de vista há anos, não eram reconhecidas como moradoras do lugar e corriam o risco de ficar sem-abrigo.

    A Almada colonial revelou-se na demolição brutal do 2.º Torrão através do papel dado à ciência e à descoberta dessa vala sob casas que foram apressadamente destruídas. Os moradores em luta resistiram nas suas casas, entre os destroços das casas dos seus vizinhos, com protecção do tribunal e querendo saber mais. Os cientistas que trabalhavam connosco, incluindo um engenheiro que integrava o grupo de resistência, percebiam que havia um risco. Mas não havia nenhuma análise material conhecida – que estudos motivaram aquela urgência? A Presidente da Câmara não dava mais informação, apenas anunciava à comunicação social que todos poderíamos cair lá dentro, o que era pouco credível. Só tivemos acesso ao estudo e a um parecer da proteção civil através do tribunal e da imprensa. Afinal, as conclusões sobre o risco de cedência da vala vinha de dados de observação directa e era desconhecida a sua espessura e composição. Estranhamente, uma grande parte desse relatório foi dedicada à subida do nível do mar por causa das alterações climáticas. Não é suposto um bairro ser destruído por causa de dados gerais sobre alterações climáticas, sem qualquer estudo local, dando dois dias para arrumar as coisas.

    A Almada colonial começa nesta visão sobre os outros: a Presidente Inês de Medeiros sempre falou da poplação em luta como pessoas manipuladas por terceiros ou desprovidas de razão. O seu vice-presidente, ainda hoje com o pelouro da habitção, Filipe Pacheco, defendia a destruição do bairro feita dessa forma brutal porque as pessoas em luta eram «pessoas iletradas» ou pessoas «que não conseguem perceber o português». A realidade é diferente. Estas pessoas tinham estudos, falavam perfeitamente português e falaram em todas as sessões de Câmara e de Assembleia Municipal durante meses.

    O poder, na imaginação de Inês e Filipe, reduz-se a um comando. No caso dos moradores do 2.º Torrão em luta, só lhes restava obedecer. Achille Mbembe, filósofo, descreveu o «comando colonial» na África Subsaariana: aos nativos não lhes eram reconhecidos nenhuns direitos, só lhes restava obedecer. No 2.º Torrão, a ciência que levou à deslocação forçada de tantas pessoas foi reduzida a esse comando. Não houve dados a partilhar, nenhuma hipótese de diálogo com a comunidade, os técnicos sempre alheados nunca deram a cara, ficou apenas a tática do medo, o receio do que poderia vir a acontecer. Um outro filósofo, Joseph Tonda, também tece um paralelo entre os tempos do Império e as relações de poder contemporâneas: A forma como quem detém o poder imagina o seu povo prende-nos dentro desses limites[ref]Joseph Tonda, 2021. Afrodystopie: La vie dans le rêve d’autrui. Karthala.[/ref]. Para Inês e Filipe, a esse povo negro que, na sua imaginação, é analfabeto e influenciável, só lhe resta obedecer.

    Nos últimos meses, a imaginação dessa Almada colonial continuou a avançar, desta vez sobre um outro bairro negro almadense, o Pena Joya. Pena Joya cresceu muito nos últimos anos, principalmente com imigrantes de Cabo Verde, e tem hoje cerca de 800 famílias. A imaginação de Inês e Filipe volta a morder-nos. Convidam-nos a pensar em todas estas famílias como criminosas, envolvidas em negócios ilícitos. Enquanto moradores, perdem o acesso a água potável e estes responsáveis não têm nada a dizer. Quando a rede elétrica do Monte da Caparica não aguentou as suas puxadas, os moradores de Pena Joya foram responsabilizados pelos cortes de energia num abaixo-assinado onde participou a própria presidente de Câmara e duas juntas de freguesia. A essa luta contra os pobres e negros só nos resta dizer que não, que essa não é a Almada em que vivemos.

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    texto de João Cão (cao.joao@gmail.com) publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

    ilustração de Graça Santos

  • Corte Medronheira: O amor pela terra e o dragão que despertou a comunidade

    Corte Medronheira: O amor pela terra e o dragão que despertou a comunidade

    Algures no Barlavento Algarvio, fica uma frondosa floresta, repleta de sobreiros e medronheiros. Um grupo de pessoas apaixonadas pela regeneração social e ecológica escolheu chamar-lhe casa e santuário. No final de setembro, um incêndio desfez em menos de sete minutos mais de sete anos de trabalho e dedicação. As lágrimas e as cinzas nutrem agora um deslumbrante processo de regeneração.

    É domingo, 21 de setembro – o último dia do verão. Dia e noite alinham-se para o equinócio de Outono. Na Serra de Espinhaço de Cão, algures no triângulo entre Aljezur, Lagos e Vila do Bispo, fica a Corte Medronheira. Uma floresta de 36 hectares, com cerros e vales de verde abundante, sobrevoados por pica-paus e cotovias, que há décadas se desabituara de ver vida humana. Hoje, são 15 pessoas, adultas, adolescentes e crianças, que aqui se dedicam a um modo de vida regenerativo.

    Ana recebe esta manhã um técnico que vem instalar novos painéis solares, um investimento há muito aguardado. Margarida, como habitual desde o começo da construção daquela casa há sete anos, aparece para dar uma mão. Na casa logo abaixo, Ana Santos e o filho Yusef brincam tranquilamente. Xana e Patrícia estão de viagem até São Luís, no Alentejo, para participar num encontro do Co.Re, Centro de Aprendizagem Rural.

    a passagem do dragão

    Ao meio dia, a dez quilómetros da Medronheira, deflagra um incêndio. O calor e o vento são intensos. A velocidade do fogo progride de 52 para 236 hectares por hora, e torna-o incontrolável para os mais de 500 bombeiros que acorrem à região.

    Xana e Patrícia apressam-se de regresso a sul. Ligam a vizinhos que estão já com máquinas a abrir corredores de fogo. Nos chats da comunidade local, as vizinhas partilham fotos e informações sobre a progressão do incêndio.

    Uma projeção, disparada a partir de um eucaliptal, sobrevoa centenas de metros e começa uma nova frente bem perto da Medronheira. Perante o aproximar veloz das torres de chamas, Ana Santos sai apressadamente da serra para pôr Yusef em segurança.

    Em torno de casa, Ana molha tudo o que pode, com a ajuda de Margarida e de Khaled, pai de Yusef, que aparece numa preciosa ajuda. Quando a obrigam a fugir dali, com as chamas em redor, mal tem tempo para levar coisas consigo.

    Sentadas no camião de um vizinho, Xana e Patrícia ziguezagueiam para fugir às estradas cortadas pelos bombeiros. Quando todas se reencontram no topo do terreno, já o fogo varreu a serra. Os membros da Medronheira e amigos descobrem-se a lançar baldes de água, como lágrimas impotentes, sobre os destroços de sete anos das suas vidas.

    o despertar da comunidade

    Naquela tarde e noite, fora da habitual temporada de risco de incêndio, arderam mais de dois mil hectares de terras. Os meios de comunicação e as autarquias repetem os danos oficiais: uma habitação secundária danificada.

    Dezenas de pessoas, famílias e projetos por estas serranias perderam casas e formas de sustento – mas é como se não existissem. Por escolherem construir com as próprias mãos modos de vida mais simples e próximos da floresta, são invisíveis às burocracias estatais. Como os milhões de animais não humanos que perderam os ninhos, as tocas, o alimento ou a vida, ou os milhões de plantas que pereceram.

    Para Xana e Ana, que dedicaram todos os seus recursos a construir um sonho, é tempo de tentar recomeçar a viver… com uma mochila, num apartamento emprestado. «Não tínhamos roupa interior para vestir, não tínhamos nada das coisas básicas…», recorda Xana. «O passado era demasiado assoberbante. O futuro também. Só tinhas o aqui e agora».

    Seria só mais um drama num território rural descuidado, em que as monoculturas de pinho e eucalipto e as alterações climáticas tornam mais precária e perigosa a vida de quem habita e cuida dos lugares.

    Mas o telemóvel tocou. E a campainha tocou. Uma pessoa que produz legumes chega com um cabaz. Outras pessoas chegam carregadas de roupa para dar. Outras, com pequenas coisas para tornar a casa mais confortável… Chega um envelope com dinheiro que uma amiga juntara entre a família e amigas. Chegam medronho, miso e outros fermentados: «pessoas que tinham comprado os últimos Produtos Unicórnio, que a Ana vendia semanalmente no mercado de Lagos, souberam que todo o seu negócio tinha ardido com a casa e quiseram trazê-los de volta», conta Xana.

    A comunidade local, que acorrera a fornecer sandes e água aos bombeiros cansados, que se organizou para apagar reacendimentos, transforma rapidamente o Centro Cultural de Barão de São João em ponto de entrega e recolha de bens, com «tudo e mais alguma coisa» para as pessoas afetadas pelo fogo. Organizam-se folhas de cálculo online, com grupos e listas de quem recebe famílias, quem recebe animais, de que tipo, em que sítio. Disponibilizam-se apartamentos e caravanas para as pessoas ficarem.

    Será no Verão de São Martinho, a 11 de Novembro, mais de mês e meio após o incêndio, que a Câmara Municipal de Lagos e a Proteção Civil virão ao terreno apoiar na remoção dos destroços. «Quando são necessárias respostas no imediato, não podem ser dadas pelo sistema, porque ele é tão burocrático que é difícil que seja ágil. Ou então a resposta é linear e não abarca a complexidade das situações. Tiveste um incêndio, perdeste material agrícola, então há uma candidatura que tens de fazer, para teres algum retorno daqui a imenso tempo…», observa Xana.

    «O que a comunidade faz é uma solução local: no imediato, auto-organiza-se para aquilo que é preciso. Pessoas a trocar mensagens, telefonar e falar entre elas, pessoas em casa a trabalhar nos sistemas de auto-organização necessários. E, de repente, as pessoas com animais tinham para onde os levar, as famílias tinham onde dormir».

    «Quando o incêndio está a chegar é a auto-organização da comunidade que dá a resposta. Se estivéssemos à espera de ver nas notícias, de receber informação dos bombeiros, tudo isso é muito ineficaz», afirma. «Quem esteve logo lá, desde a primeira mensagem para a primeira pessoa amiga a dizer “a Medronheira está a arder”, foi a comunidade».

    uma semana após a passagem do dragão

    É um tema pesado, que vem deixando os adultos apreensivos: como abordar o incêndio com os mais novos? Não será traumatizante para as crianças ver este desastre? É o sábado a seguir ao incêndio – e as crianças e adolescentes voltam pela primeira vez à Medronheira.

    «Uau, aquilo é o quê?», «Uau, isto agora dá para entrar!» «Olha este buraco! As raízes que arderam, brutal!» O tronco torto de uma árvore queimada faz de baloiço para os mais pequenos.

    Miriam, 16 anos, encontra uma paisagem romântica e melancólica. «É bué bonito!». Descobre algumas loiças que derreteram e guarda-as. Recolhe pedaços de madeira carbonizada, para usar par pintar. Yusef, 9 anos, reconhece peças de metal no meio da paisagem e coleciona-as, quais metais preciosos.

    «As crianças imediatamente viram, não aquilo que se perdeu, mas o que era agora. Começaram logo a criar possibilidades, a ver como utilizar. Viram beleza, oportunidade e descobertas. Coisas novas, que não estavam lá antes. Um olhar diferente do nosso: um “uau, agora é assim!”. E acabaram por nos ajudar a olhar com esses olhos», observa Xana.

    «Começámos também a ver a beleza daquele preto, do carbonizado. A ver de repente as formas das árvores todas, a maneira como umas cresceram para se adaptar às outras, tudo assim muito escultórico e bonito», conta Ana.

    Uma estatueta de buda, que sorri nos escombros como antes do fogo, é colocada no pé de um sobreiro.

    «Nos primeiros regressos, só olhávamos para tudo o que se perdeu. O choque de chegar, tudo o que já não estava lá que nos era familiar», recorda Xana. «A pouco e pouco, passamos a ver tudo o que já voltou. O que há de novo, o primeiro verde a despontar, os cogumelos, os pássaros… E deixou de ser triste».

    «Apesar do choque, das memórias, o facto de não estarmos só em observação, mas continuarmos a vir, a estar em ação, fez com que a relação se transformasse», explica Ana.

    «Decidimos alimentar essa aprendizagem de receber e celebrar com as pessoas o seu apoio», conta Xana. Nutrindo outra narrativa, escolhem ver que tudo o que perderam foi, afinal, pouco. «A floresta está aqui. Está tudo aqui em baixo, à espera de voltar».

    Hugo, outro dos adultos do projeto, junta-se às crianças; atravessam a linha de água e sobem a encosta. Olham para o lado de cá e contemplam o milagre que ninguém sabe ao certo explicar. No meio da paisagem de cinza, com o seu círculo protetor ainda verde, uma das casas permanecera intacta. Batizam-na Casa Semente. «Deste espaço de memória do que era tudo isto», conta Hugo, «dá para ter alento para continuar o trabalho regenerativo à volta.»

    quarenta dias após a passagem do dragão

    É noite de 31 de outubro, a importante passagem do ano celta – o Samhain, cristianizado como Todos os Santos. Na Medronheira, é o Jantar dos Antepassados, uma das celebrações sazonais da comunidade, «em honra de quem passou antes de nós». E é a vez de voltar a dormir no terreno.

    «O silêncio, o altar, a comida, a lua a cruzar devagarinho o céu de Outono, um passeio noturno com a coruja a levantar voo em anúncio do seu regresso, as novas formas delineadas na paisagem, o cheiro a queimado, a primeira noite à conversa à volta da fogueira, à conversa com o fogo, nosso professor, após a passagem do Grande Dragão. Tudo envolvido carinhosamente num sentimento profundo de estar em casa», partilham os membros da Medronheira.

    Escrevem-no num grupo de chat criado para conter a avalanche de mensagens de amizade, preocupação e carinho – e que, em poucos dias, juntava 300 pessoas. Rapidamente, o grupo foi posto em ação e dividido em oito temas, entre pedidos à comunidade local, ações no terreno ou apoio a candidaturas e subsídios.

    A capa do Jornal Mapa 47, que abordava os incêndios de agosto em Arganil e na Lousã, corre por estes dias livrarias e associações país fora e chega também à Medronheira. «Os fogos que despertaram a comunidade», não podia descrever melhor o que se vive estas semanas no Sudoeste Algarvio.

    A campanha de crowdfunding “Medronheira – Renascer das cinzas”, juntamente com as de outros projetos afetados, é divulgada nas escolas e associações. No Viv’o Mercado de Lagos, onde Ana vendia os seus produtos, uma vizinha, agricultora e pastora, cede os lucros desse dia da sua banca: «A Ana e a Xana perderam a casa. Tudo neste mercado vai ser doado para elas». Os Produtos Unicórnio de Ana, «uma ode à fermentação», renascem com a colaboração da Patrícia na cozinha da Mercearia Bio de Lagos, mesmo ao lado mercado.

    Há quem ofereça aos membros da Medronheira sessões de apoio psicológico, de massagens, de acupuntura, de experiência somática para lidar com trauma. Vizinhos oferecem fardos de palha e material para conter a erosão dos solos, outros oferecem micro-organismos para ajudar no processo de regeneração.

    A Rewilding Sudoeste oferece uma sessão de apoio e esclarecimento sobre intervenção pós-incêndio florestal. A comunidade de Barão de São João organiza-se para gerir coletivamente a parte ardida da mata nacional, reunindo com as instituições e ouvindo as populações.

    O Instituto Vale da Lama mobiliza o seu Campo de Regeneração de Ecossistemas, que acolhe voluntários de diferentes países, para dias de trabalho na Medronheira. Amigas da cooperativa Minga, em Montemor-o-Novo, organizam apanhas de bolotas para levar para a Medronheira. Há quem se empolgue e queira já oferecer mobílias, ou sessões de planeamento de novas estruturas, quando o coletivo procura ainda tratar os escombros…

    Os eventos de solidariedade e angariação de fundos brotam pela região como cogumelos de Outono. Naomi & Raposeira Dub montam um festival de música em Sagres. Uma amiga professora de yoga recolhe donativos e dedica um círculo de cânticos às pessoas afetadas. A Associação Comadres acolhe um almoço e um dia comunitário pela floresta, com cantos tradicionais com as Adufeiras em Flor. A AORCA – Associação de Observação, Regeneração e Criação na Atualidade promove um espetáculo de dança com a bilheteira a reverter para os projetos. O evento “Batuque em rede”, no Salema Eco Camp, celebra o coletivo da Medronheira ao som de maracatu, forró e samba e ajuda a financiar o recomeço: «Todos os abraços que ainda não foram dados, todas a preces que ainda não foram feitas. Celebramos o renascimento, celebramos a vida e acima de tudo a irmandade que nos une».

    «Não sabíamos muito bem onde encaixar o sentimento de gratidão…», conta Xana, mais habituada a apoiar outros projetos, como facilitadora de prática de auto-organização e resiliência coletiva. «Estávamos numa situação tão vulnerável, não tínhamos como dizer “não é preciso”. Esse sentimento de gratidão constante quase equilibra a dor da perda».

    «Uma pessoa tem uma ideia, fala com um ou dois músicos, eles falam com outros músicos e, de repente, há uma rede de músicos…! A comunidade é essa entidade que ganha vida própria quando é preciso, que está lá em situações de crise e de necessidade», descreve Xana. «Como um equilibrista que cai lá de cima… A comunidade é uma rede que faz com que, quando a queda é grande, ela seja suavizada. A queda é a queda. Mas toda esta solidariedade ampara».

    dois meses após a passagem do dragão

    É domingo, 23 de novembro, Dia da Floresta Autóctone. Como acontece agora todas as semanas, o sítio da Corte Medronheira vê chegar vizinhas e amigas vindas do Alentejo ou de Lisboa, para mais uma ação coletiva de «engenharia natural». O sol resplandece a sudeste. Os membros da Medronheira resplandecem nos seus saberes.

    Xana e Hugo, que, com o coletivo Orla Design, se dedicam há uma década a culturas regenerativas, processos de aprendizagem e design colaborativo, acolhem o matinal círculo de boas vindas. Depois, toda a gente se separa em grupos. Eram mulheres e crianças, cada uma com sua tarefa.

    Ana Santos, que é arquiteta paisagista na área da regeneração e parte da equipa Terracrua Design, coordena com Hugo estratégias de remediação pós–incêndio. Num lugar estratégico do fundo do vale, ergue-se pedra a pedra uma retenção de água. Com os troncos de pinheiro ardido, criam-se barreiras em curva de nível ao longo das encostas e «barragens de castor» ao longo das linhas de água. O objetivo é «aproveitar a escorrência das águas e concentrar os sedimentos nalguns destes pontos, para criar potencial de regeneração. Como nódulos de propagação, para ajudar a natureza a regenerar-se», explica Hugo.

    Os medronheiros e outros arbustos ardidos são cortados e a madeira processada: a maior para lenha, a mais pequena para triturar e criar estilha. As hortas são recobertas de palha. Pela restante terra espalha-se feno, que vem com semente e cujas raízes brotarão e ajudarão a suster o solo.

    «As crianças são muito bem vindas aqui!», diz Patrícia, cujo trabalho vem florescendo na intersecção entre educação, arte e regeneração. Um grupo de adultos e crianças cria pequenos altares para a floresta e prepara um viveiro florestal, com estacas embebidas numa solução de micro-organismos. Depois, fazem filas ao longo da encosta e lançam à terra uma mistura de sementes e micro-organismos.

    «Estamos a dar a vida de volta ao que se perdeu», explica Hugo. «Era uma floresta que já tinha bastantes extratos e tinha uma grande camada de matéria orgânica. Com o fogo, queimou todo o subcoberto e os pinheiros arderam todos. Isto é um ecossistema que coabita com o fogo. As pessoas sempre geriram com fogo e com gado. E antes do gado eram as manadas selvagens, de auroques, bisontes e zebros. O território tem toda a lembrança do fogo», observa Hugo.

    Assim é que, um pouco por toda a parte, já se começam a ver medronheiros a brotar. «Têm essa adaptação: quando queimam, recolhem logo a energia e é da raiz que rebentam. Agora temos de esperar três anos até começar a ter fruta». Hugo aponta agora para um sobreiro: «O sobreiro não sofre com fogo rasteiro. É essa adaptação que a cortiça traz. Mas o pinheiro bravo leva o fogo para as copas, e quando apanha sobreiros faz com que mui- tos não aguentem». Mas nenhum sobreiro é cortado – a comunidade aguardará dois anos para descobrir quais conseguirão voltar a rebentar.

    Este era o ano de tirar cortiça. No entanto, como tinha havido dois anos de seca, o coletivo optou por deixá-la – e abdicar desse rendimento. Afortunada decisão. «Se tivéssemos tirado a cortiça, tinham ido todos à vida!»

    Com o olhar treinado por anos de design de permacultura, sabiam que o fogo era uma possibilidade e tinham identificado de onde viria. Procuravam juntar fundos para o desenho e a hidratação dessa encosta, criando duas charcas. Ironicamente, para o dia a seguir ao incêndio, iria chegar uma máquina para abrir uma estrada e iniciar esse processo.

    Aqui e ali, semblantes negros de medronheiros são deixados, um convite a pássaros para pousar e deixar as suas sementes. Maria é, também ela, facilitadora na Orla Design. Hoje, de motosserra na mão, coordena a gestão da madeira ardida. «O fogo removeu todas as copas, os arbustos, todas estas multicamadas. Daqui ali não podíamos ver nada…! Agora é uma paisagem aberta», descreve. «E fez o mesmo com o projeto…! Fez-nos mostrar-nos, revelar-nos». Seja com as entidades legais, com quem o contacto é agora mais claro, seja através das redes sociais, onde criaram uma página no Instagram (@medronheira_em_rede). «É uma mudança enorme para o projeto».

    «Era um sítio muito privado, nosso e das pessoas próximas. De repente, a paisagem enche-se de pessoas da comunidade a trabalhar juntas. Umas que se conhecem, outras que não conhecem ninguém e ouviram falar do que aconteceu. Pessoas de diferentes idades, famílias…», descreve Xana. «O incêndio, e depois as consequências, parece estar a viver além de nós, e a ativar a espécie humana de forma inspiradora. Nos tempos que correm, lembra-nos que isto também existe, isto também é possível. Não é só pessoas em conflito e divergência e a polarizar. É também esta união por uma causa. É quase indescritível o sentimento que me traz ver o entusiasmo das pessoas».

    «Não é à toa que está aqui tanta gente», diz Filipe. Veio de Aljezur pela terceira vez. «Todos os elementos deste sítio trabalham muito a dimensão comunitária, estão muito ligados a várias iniciativas locais. Têm cultivado todas estas ligações ao longo dos anos». Na Medronheira viveu momentos terapêuticos, de lazer ou políticos – como os encontros do Triângulo em Transição, grupo de pessoas ativas política e socialmente nas suas localidades que se propõem a agir a nível da biorregião.

    «Queremos agradecer-vos a todos, por terem dedicado connosco o vosso dia a esta terra. É tão inspirador ter tantas pessoas dedicadas. E depois vai revelar-se na terra», dizem Hugo e Xana. De sorrisos chamuscados, todas se despedem. Sem saber que, no dia seguinte, uma abençoada chuva suave cairá sobre as tantas sementes que lançaram à terra.

    três dias após a passagem do dragão

    No Barlavento Algarvio, o grande incêndio parece estar enfim controlado. O coletivo da Medronheira junta-se num emotivo círculo. Brinda-se com a última aguardente de medronho, «até ao dia que destilarmos a próxima…»

    Desde que escolheu habitar a Medronheira, o coletivo propôs-se não ser mais um projeto antropocêntrico, «onde chegas com a grande ideia do que queres fazer» – antes escutar o que a terra quer ser. Deixar a própria terra guiar o caminho. «Isso fez com que ganhássemos uma relação muito profunda, um amor pelo lugar», conta Xana.

    «O ecossistema estava muito equilibrado, e pudemos nós também ter aqui um refúgio, um espaço saudável para viver, receber toda a sua energia, ser nutridos, colher o medronho..»., reconhece Maria.

    O mapa da Medronheira tem uma forma que se assemelha a um dragão – elemento místico que se foi tornando presente no coletivo. «De repente, sentimos que o dragão veio, o incêndio aconteceu e que foi algo muito maior do que nós», descreve Xana.

    Várias vezes lhes perguntam se pensaram abandonar. «Temos de cuidar deste lugar mais do que nunca. É esse o compromisso com a terra. Não podemos deixar a nossa família sem apoio», afirma Maria. «Seria como a tua melhor amiga ter um acidente e tu a abandonares e ires embora!», diz Xana. «Agora é que a Medronheira precisa ainda mais de nós, para acelerar os cuidados e prevenir a erosão. Tornou-se óbvio que tínhamos de nos auto-organizar e fazer o que fosse preciso antes das chuvas. Isso pôs-nos em ação muito rápido», explica Xana. «Não amando este lugar e esta terra como nós amamos, mais facilmente segues para outra, e começas num lugar mais confortável, que não dê tanto trabalho. Uma vez que estamos enraizadas, que temos esta relação, o lugar é o lugar, tanto ferido quanto saudável. É continuar. Não pelas condições, porque vão estar sempre a mudar, mas pela relação».

    «Aquilo que nos leva a estar é muito mais forte. E também sentimos que é um desafio que estamos à altura de abraçar. Todos trabalhamos há mais de uma década em regeneração eco-social. A vida às vezes traz-nos – se calhar não pelos meios que imaginaríamos – a um lugar onde tínhamos de estar».

    Sentem que o incêndio tornou o propósito ainda mais claro. «É um apelo para ouvir, testemunhar e fazer parte deste processo maior de regeneração que está a acontecer aqui, estejamos nós ou não. Ser uma parte mais consciente e pró-ativa nele. Aprender a pertencer a esta terra, contribuir para a história do lugar», afirma Maria.

    «Os fogos vão continuar a vir, é uma questão de tempo. Como é que estamos preparados, como comunidade e como território, para lidar com aquilo que a modernidade nos apresenta como desafios nos territórios rurais?», questiona Xana.

    É também uma responsabilidade que sentem como adultos. «A forma como lidamos com isto agora vai ficar para a próxima geração. Perante isto, que é de todos, de nós e das crianças, que legado queremos deixar? Se isto voltar a acontecer, quando já forem outras gerações a tomar decisões na Medronheira, precisamos que o legado seja o melhor possível. Um legado de união, de esperança, de comunidades grandes, para nos ajudar a fazer o que tem de ser feito, e fazê-lo de uma forma que as pessoas gostem de participar».

    A campanha de angariação de fundos decorre em Medronheira – Renascer das cinzas, na plataforma Gofundme – gofund.me/a85150a51

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    Texto publicado no Jornal MAPA nr. 48 [Jan. – Mar. 2026]

  • «Odair foi baleado outra vez!»

    «Odair foi baleado outra vez!»

    Centenas de pessoas ocuparam as ruas de Lisboa por justiça, no passado sábado, 20 de Junho. O ponto de partida foi o Largo São Domingos, passando pelo Rossio e Praça da Figueira, com término no Campo das Cebolas.

    A convocatória foi realizada pelo movimento Vida Justa, que nos comunicaram que:

    «Odair Moniz foi morto a tiro por um agente da PSP, Bruno Pinto, a 21 de Outubro de 2024. O crime do Odair foi não ter respeitado uma regra de trânsito. O polícia que o matou garantiu ao tribunal que só disparou, quase à queima roupa, duas balas que o mataram, porque Odair tinha uma faca.

    O Tribunal de Sintra concluiu que não havia faca nenhuma na posse do homem morto, mas não aceitou processar os polícias que tinham aparentemente plantado no lugar do crime a arma branca. A inversão de papéis que transforma vítimas de racismo e violência policial em culpados é um fenómeno sistémico e comum.

    Apesar de Odair não pôr em perigo a vida dos dois polícias, o Tribunal de Sintra concluiu, no dia 15 de Junho, que houve “legítima defesa” na acção do agente da PSP, que apenas foi sancionado porque houve “excesso de meios”.

    A lista de absurdos no julgamento evidencia que a Justiça não escapa ao racismo estrutural. Não é a primeira vez que a justiça está inclinada e acha que a violência policial mortal é um excesso, que é um pequeno exagero compreensível.

    Para os tribunais, os jovens e os trabalhadores dos bairros podem ser tratados como se não fossem humanos e, quando são abatidos, há sempre uma razão ponderada para isso.»

    Não esquecemos, não perdoamos!

     

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    Texto e foto de Outros Ângulos (pelo Jornal Mapa)

  • Mais Graça no quartel

    Mais Graça no quartel

    A decisão do estado de ceder um dos principais monumentos do bairro da Graça, em Lisboa, para o grupo Sana fazer um hotel de luxo despertou a resistência da vizinhança. Há dois anos que a Assembleia da Graça se reúne em coletividades do bairro e, a 29 de março passado, juntaram-se centenas de pessoas e diversos coletivos da cidade em frente ao antigo convento, para uma «ManiFESTA», por «menos turismo, mais comunidade».

    Na tradição popular Lisboa é chamada a cidade das sete colinas. Hoje em dia, na área metropolitana, existem muitas mais; no entanto, uma das mais conhecidas e amadas foi sempre a colina da Graça, famosa pelos seus lindos miradouros onde se pode admirar o pôr-do-sol sobre a cidade.

    No topo desta colina ergue-se o maior e mais importante monumento da zona, o Convento da Graça. Construído pela primeira vez no século XIII, foi reconstruido no século XVI e novamente depois do terramoto de 1755. Após a extinção das ordens religiosas masculinas, em 1834, as estruturas conventuais foram ocupadas pelo Exército e, mais tarde, pela GNR. É por esta razão que, no bairro, o edifício é conhecido como o «Quartel da Graça».

    Em 2016, o primeiro executivo de António Costa divulgou uma lista de 30 monumentos que seriam abrangidos pelo Revive, programa lançado para recuperar e valorizar o património histórico através do turismo, com a concessão destes imóveis a privados que ficariam responsáveis por explorar hotéis ou restaurantes. O Quartel da Graça foi um dos monumentos incluídos nesta lista.

    Foi neste contexto que, em 2019, o Estado celebrou um contrato de concessão de exploração do quartel da Graça com o grupo Sana Hotels, por 50 anos, com o objetivo de o transformar, no espaço de 4 anos, num hotel de 5 estrelas.

    Entretanto, o projeto sofreu várias alterações e a sua aprovação só aconteceu em 2024, numa reunião privada do executivo da CML de Lisboa, após empate entre votos a favor e votos contra (votos contra: três dos Cidadãos Por Lisboa, dois do PCP, um do BE e um do Livre; votos a favor: liderança PSD/CDS-PP que governava sem maioria absoluta e três abstenções do PS).

    O projeto prevê uma grande obra de ampliação com demolição, para uma superfície de pavimento de 18.922,17 metros quadrados [ref]https://www.publico.pt/2024/07/26/local/noticia/lisboa-aprova-tres-novos-hoteis-antigo–convento-senhora-graca-2098978[/ref]

    Desde o início da concessão, em 2019, o edifício foi completamente deixado ao abandono e à degradação. Em outubro de 2023, um grupo de ativistas pelo direito à habitação decidiu apropriar-se do quartel, na noite de Halloween. Foi nessa noite de festa que muitas pessoas se aperceberam do grande desperdício que era deixar um edifício público daquelas dimensões a um grupo privado, que iria excluir completamente a população.

    Passado um ano, no outono de 2024, o coletivo Stop Despejos decidiu alertar as pessoas do bairro e lançar uma campanha contra a construção de um hotel de luxo numa cidade já estrangulada pelo turismo: «O bairro da Graça já há muitos anos está a sofrer os efeitos do turismo. Muitas pessoas e lojas foram despejadas e o bairro transformou-se num parque de diversões para turistas. Nós, que ficamos, perdemos, um a um, todos os espaços da vida comunitária e os serviços de que precisamos, substituídos por serviços para turistas: fecharam as frutarias e mercearias do bairro, ficámos sem piscina e sem transportes públicos (já lá vai o tempo em que se podia apanhar o 28!), sofremos o barulho das obras constantes, quase não temos pastelarias a preços normais, não podemos andar pela Travessa do Monte invadida pelas barulhentas esplanadas, o trânsito está um caos com tantos tuk-tuks e ubers e só pode piorar com um mega-hotel! A construção do novo hotel de luxo, no centro geográfico do bairro e no lugar do seu maior prédio iria dar o golpe final ao nosso bairro».

    No mesmo comunicado, a Stop Despejos convida a população a refletir sobre o uso do quartel como «espaço co-construído e utilizado pela comunidade em função das suas necessidades presentes e desejos futuros, sem o apoio ou autorização da CML ou da Junta de Freguesia», alegando que «seria uma compensação mínima por termos perdido grande parte do nosso bairro».

    Crianças destroem um hotel pinhata para defender o quartel como um espaço comunitário, a 29 de março.

    Nessa altura foram colados vários cartazes nas ruas a anunciar a primeira assembleia de bairro em novembro de 2024, na Graça, numa sala da Caixa Económica Operária. Foi uma assembleia muito participada, em que apareceram mais de 100 pessoas e onde se refletiu sobre como parar as obras no quartel e sobre o que a população gostaria de ter em lugar de um hotel. Em simultâneo, realizou-se também uma assembleia de crianças em que os mais pequenos expressaram os seus desejos, pintando uma grande planta do quartel.

    Desde então, a «Assembleia da Graça – Parar o Hotel no Quartel» reúne-se pelo menos uma vez por mês em espaços cedidos pelas coletividades do bairro. Trata-se de uma assembleia apartidária que se desenvolve de forma horizontal (há sempre uma pessoa que modera e outra que toma notas, rotativamente) e em que todas as pessoas são bem vindas.

    O manifesto explica em pormenor os propósitos da Assembleia da Graça, mas, antes de tudo, o seu objetivo principal: «Temos como objetivo comum Parar o Hotel no Quartel e reivindicar o espaço para uso, gestão e fruição comunitária». «Somos a favor de destinar toda esta área a usos mistos, ao serviço das necessidades reais da população do bairro e da cidade: fins habitacionais, educativos, culturais, artísticos, serviços de assistência e infraestruturas ligadas ao bem estar das pessoas e à qualidade de vida urbana».

    As iniciativas promovidas neste primeiro ano e meio foram muitas: foi divulgada uma petição que conta com 4 mil assinaturas, foram organizadas várias manifestações e ações de sensibilização, eventos desportivos e populares no bairro, formações sobre bens comuns ou passeios sobre gentrificação. A Assembleia também tem desenvolvido trabalho no campo jurídico, analisando os documentos disponíveis relativos ao contrato de concessão estipulado com o Grupo Sana.

    «Temos como objetivo comum Parar o Hotel no Quartel e reivindicar o espaço para uso, gestão e fruição comunitária»

    Percebeu-se que várias das cláusulas previstas nesse documento estão agora em incumprimento: o prazo da conclusão das obras não foi respeitado (até dezembro de 2023), e não foi apresentado nenhum plano de manutenção do edifício, que, pelo contrário, continua em estado evidente de degradação. Tudo isto, provavelmente, sem pagar a renda prevista a partir de 2024 (cerca de 1,79 milhões de euros/ano ao Estado), nem as coimas pelo atraso da obra. Entretanto, depois da movimentação e dos eventos organizados pela Assembleia, o grupo Sana pareceu ficar preocupado e acelerou o processo, vedando a obra com um tapume e afixando um cartaz com o alvará (datado de 6 de março de 2026).

    A Assembleia da Graça está determinada a continuar a luta, mesmo tendo consciência de que não será fácil pressionar o Estado e a CML a rescindirem o contrato de concessão e a parar a obra, por mais ilegítima que seja. Apesar de ter de enfrentar os interesses de uma empresa gigantesca e extremamente poderosa como o grupo Sana, a Assembleia quer continuar a manifestar-se, a crescer como movimento popular e a mostrar que o bairro da Graça quer resistir ao turismo predador, exigir mais habitação, mais espaços coletivos abertos a todas, e que não quer nem precisa de mais hotéis ou de alojamentos para turistas.

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    Texto de Chiara Moneta publicado no Jornal MAPA nr. 49 [Abr. – Jun. 2026]
    Fotos de Marisa Cardoso