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  • «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    Uma declaração de um colectivo composto por feministas internacionalistas iranianas, curdas e afegãs que defende que devemos opor-nos ao ataque assassino que as forças armadas de Israel e dos Estados Unidos estão a levar a cabo contra as pessoas no Irão, recusando-nos ao mesmo tempo a tolerar a opressão perpetrada pelo governo iraniano.

    O colectivo, de nome Roja, redigiu esta declaração em 16 de Junho, o terceiro dia da guerra. Foi originalmente publicada em persa e o Jornal MAPA deitou mão da versão em inglês que aparece no site Crimethink. Muito se passou desde então. Ainda de acordo com este site, o Roja é um colectivo feminista-internacionalista independente com sede em Paris, cujos membros são originários do Irão, do Afeganistão (Hazara) e do Curdistão. O coletivo foi formado em resposta ao assassinato de Jina (Mahsa) Amini pelo Estado e à revolta nacional Jin, Jiyan, Azadi («Mulheres, Vida, Liberdade») em Setembro de 2022. O Roja centra-se nas lutas políticas e sociais no Irão e no Médio Oriente, bem como no trabalho de solidariedade local e internacional em França, incluindo com a Palestina.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra
    Estamos contra as duas potências coloniais, patriarcais e belicistas. Mas isto não é passividade. É o ponto de partida da nossa luta ativa pela vida.

    Se Israel conduz as crianças de Gaza para a matança com uma bandeira queer do arco-íris, a República Islâmica do Irão encharca a Síria de sangue sob um pretexto anti-imperialista. Um comete genocídio contra os árabes na Palestina, o outro subjuga as etnias não persas dentro das suas fronteiras. Netanyahu procura usurpar o significado de «Mulheres, Vida, Liberdade» para vestir o seu expansionismo colonial e a sua agressão militar com roupas de «liberdade», enquanto Khamenei investiu todos os recursos na construção de um império xiita, supostamente para combater o ISIS e defender a Palestina.

    De facto, estes dois inimigos de longa data espelham-se um no outro em termos de matança e malevolência. Não devemos equiparar estes dois regimes capitalistas em termos das suas posições na ordem mundial: a capacidade de agressão militar da República Islâmica é, sem dúvida, muito inferior à capacidade de Israel e do seu apoiante imperialista ocidental. No entanto, o sofrimento que infligiu é tão absoluto como a violência do fascismo sionista. Qualquer tentativa de relativizar esse sofrimento, quantitativa ou qualitativamente, é redutora e enganadora. Esse sofrimento abrange múltiplas formas de opressão, incluindo os custos exorbitantes do seu projecto nuclear e a tomada da dignidade humana como refém.

    Esta guerra assimétrica entre Israel e a República Islâmica é, acima de tudo, uma guerra contra nós.

    É uma guerra contra o que criámos na revolta Jin, Jyain, Azadi, o que alcançámos e o que se encontra no seu horizonte potencial: uma revolta feminista, anticolonial e igualitária que não emergiu do poder estatal, mas teve origem nas lutas populares do Curdistão – especialmente as lideradas por mulheres – e que depois ecoou por toda a geografia do Irão.

    É simultaneamente uma guerra contra as classes oprimidas e trabalhadoras: contra as enfermeiras do Hospital Farabi, em Kermanshah, e contra os bombeiros da pequena cidade de Musian, em Ilam, que foram atingidos por ataques aéreos israelitas – os primeiros a 16 de Junho, os segundos duas vezes, a 14 e 16 de Junho.

    Esta guerra visa as infra-estruturas e as redes que sustentam a vida quotidiana nesta região.

    Assumir uma posição clara e intransigente em relação à guerra – condenar a agressão de Israel e dizer «não» à República Islâmica – é a base estratégica mínima para dar forma a uma campanha colectiva que exija um cessar-fogo imediato. «Mulheres, vida, liberdade contra a guerra» não é apenas um slogan; traça uma fronteira nítida em torno de um conjunto de tendências cujas contradições e conflitos são hoje mais claros do que nunca.

    De um lado estão os defensores oportunistas da mudança de regime que, durante anos, apoiaram as sanções ocidentais e norte-americanas, rufaram os tambores da guerra, negaram o genocídio de Gaza – e agora defendem a «libertação» em abjecta subserviência ao seu mestre, Israel. Em suma: os que minimizam o belicismo imperialista ocidental, sobretudo os monarquistas persas-nacionalistas de extrema-direita.

    Do outro lado está o campismo [campism], a posição política que apoia qualquer projecto – por mais autoritário que seja – que se oponha ao bloco ocidental, apresentando-o como «resistência».

    Para além disso, há forças que dão prioridade à luta contra o ataque criminoso de Israel, apelando ao «estado de emergência» ou ao «interesse do povo». Este último grupo acaba por branquear os crimes da República Islâmica no país e no estrangeiro ou por adoptar um silêncio estratégico. Foram estes que, depois de 7 de Outubro de 2023, lançaram avisos sobre o perigo da indiferença em relação ao destino comum dos povos do Médio Oriente – mas, em vez de enfatizarem a luta internacionalista de base, esbateram a linha entre a resistência popular e o poder do Estado. Observaram corretamente que o Irão vem a seguir ao Líbano e à Palestina na chamada «nova ordem do Médio Oriente», mas apenas para minimizar e desvalorizar as lutas das mulheres, das minorias étnicas e das classes oprimidas neste «momento». Os seus avisos permaneceram abstractos porque não disseram uma palavra sobre a apropriação – e monopolização ideológica – do discurso anti-colonial pela República Islâmica desde a revolução de 1979.

    Acreditamos que só traçando estas fronteiras – sublinhando as relações mútuas e inseparáveis entre as múltiplas lutas sociais na região – é que poderemos formar uma frente sólida contra o genocídio de Israel e, simultaneamente, arrancar o discurso anti-colonial ao monopólio da República Islâmica, confrontando os etno-nacionalistas que negam a existência de minorias étnicas e o «colonialismo interno» na República Islâmica.

    Em solidariedade com o destino comum dos povos do Médio Oriente – de Cabul a Teerão, do Curdistão à Palestina, de Ahvaz a Tabriz, do Baluchistão à Síria e ao Líbano – que é a base material da luta internacionalista, dirigimos esta declaração aos oprimidos e aos subjugados no Irão e na região, à diáspora e às «consciências acordadas» do mundo.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    Morte por bombas e mísseis
    A limpeza étnica perpetrada pelo criminoso Estado israelita não se limita a este dia, a este ano ou mesmo a este século. No entanto, falha geopolítica que se abriu a 7 de Outubro de 2023 ameaça agora engolir a República Islâmica e o povo do Irão por dentro – a uma velocidade espantosa e com uma intensidade chocante – lançando um horizonte sombrio que ultrapassa os nossos limites emocionais e psicológicos.

    Estes podem ser os dias mais críticos das nossas vidas desde a Revolução de 1979.

    Desde a madrugada de sexta-feira, 13 de junho, até segunda-feira, 16 de junho, o exército israelita levou a cabo 170 ataques, atingindo 720 alvos em todo o Irão.

    – Primeira fase: instalações nucleares, bases de mísseis, sistemas de defesa aérea e assassinatos de investigadores e comandantes militares em áreas residenciais – visando dezenas de comandantes de topo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [um ramo das Forças Armadas iranianas], infligindo um golpe sem precedentes na estrutura de segurança militar do IRGC [corpo de guardas da revolução islâmica].

    – Segunda fase: ataques coordenados a refinarias e depósitos de combustível (Shahran em Teerão e Pars South no Golfo Pérsico), portos, aeroportos e infra-estruturas críticas que afectam não só as artérias militares, mas também a reprodução social e a vida quotidiana.

    – Terceira fase: ataques a símbolos da autoridade governamental – ministérios, edifícios oficiais e a principal agência de radiodifusão da República Islâmica em Teerão – o núcleo central de interrogadores, torturadores e propagadores de ódio. Uma instituição mediática com um historial de quatro décadas a fabricar dossiers, a espalhar mentiras e a difamar os pobres, as mulheres, os emigrantes afegãos e os dissidentes políticos.

    Em todas estas fases, contrariamente às promessas sedutoras dos propagandistas fascistas que vendem a liberdade através de bombas, o que se verificou não foram «ataques pontuais» a alvos militares, mas sim o massacre indiscriminado de civis, mulheres e crianças. Até 15 de Junho, pelo menos 600 pessoas foram mortas e 1277 ficaram feridas. [No momento em que publicamos este artigo, os números são consideravelmente mais elevados].

    Em resposta, a República Islâmica tinha lançado mais de 350 mísseis e drones contra Israel até 16 de Junho. Um dos principais ataques teve como alvo o norte de Israel, incluindo Haifa – o núcleo industrial estratégico e um centro logístico de energia. Embora a maioria dos projécteis tenha sido interceptada pelos sistemas de defesa das forças armadas israelitas e dos seus aliados, vários atingiram zonas civis. Até ao momento da elaboração deste relatório [16-18 de Junho], foram mortos 24 israelitas, incluindo quatro mulheres de uma única família.

    Nesta situação terrível, a República Islâmica não só abandonou uma população aterrorizada – não conseguindo fornecer sequer os serviços mais básicos, como informação pública transparente, abrigos antiaéreos ou sistemas de alarme – como também intensificou o controlo do Estado: destacando esquadrões de choque, erguendo postos de controlo nas cidades e afiando a sua lâmina para execuções sob o pretexto de «espionagem para Israel». Embora isto não seja surpreendente em tempo de guerra – na verdade, é sintomático da incapacidade do regime para garantir a segurança – traz consigo a ameaça sussurrada de «pendurar traidores em todas as árvores». Esta lógica flui naturalmente de um regime cuja própria sobrevivência depende da repressão interna, das execuções, da militarização da vida quotidiana e da expansão regional implacável.

    Faixa da ROJA numa manifestação em Paris contra o genocídio na Palestina

     

    Representação colonial e normalização da guerra
    A «guerra contra o terror» – o projecto imperialista que derramou sangue no Afeganistão e no Iraque no início do século XXI – passou agora o testemunho a Israel: um ataque «preventivo» destinado a conter a ameaça nuclear iraniana [ref] Embora o programa nuclear da República Islâmica tenha sido, desde o início, um processo dispendioso e antidemocrático com graves consequências ecológicas – impulsionado pelos Guardas Revolucionários para garantir a sobrevivência do regime nas competições geopolíticas regionais e globais, Embora não reconheçamos nenhum «direito» à República Islâmica ou a qualquer outro Estado de adquirir armas nucleares e acreditemos que as armas nucleares e a corrida global a elas devem ser totalmente desmanteladas, o ataque de Netanyahu baseia-se, no entanto, numa narrativa falsa, que faz lembrar a invasão do Iraque pelos EUA sob o pretexto de eliminar as «armas de destruição maciça»: ou seja, que o Irão está a poucos passos de construir «a bomba». Embora a República Islâmica tenha, de facto, aumentado significativamente as suas reservas de urânio próximo do grau de pureza para armas, não há provas de uma decisão de construir uma bomba nuclear. Mesmo que partamos do princípio de que a República Islâmica adquiriu uma bomba, são os próprios povos da geografia política do Irão que têm de decidir o seu destino com autonomia e autodeterminação – e isso não justifica de forma alguma o ataque militar de Israel.[/ref]. Mais uma vez, repete-se o guião dominante nos média: Israel tem como alvo apenas «locais militares», utilizando «mísseis de precisão» e «drones inteligentes» para dar liberdade e democracia ao povo iraniano.

    Mas esta narrativa não se refere a Parnia Abbasi, o poeta de 24 anos assassinado em Sattarkhan, Teerão. Não faz qualquer menção aos assassínios de Mohammad Ali Amini, o atleta adolescente de taekwondo, ou de Parsa Mansour, jogador nacional de padel. Nem um sussurro sobre Fatemeh Mirheidar, Niloufar Qalewand, Mehdi Pouladvand ou Najmeh Shams. Não se tratava de «alvos militares» nem de «ameaças nucleares» – apenas de seres humanos, cujos corpos foram desmembrados no silêncio mediático global, retalhados por mísseis israelitas. Esta é apenas a ponta do icebergue da «liberdade» que Israel – apoiado pelo Ocidente – pretende introduzir através do amontoado de cadáveres e de devastação.

    As forças reaccionárias que reduzem a «mudança de regime» a uma mera remodelação política a partir de cima – sem qualquer transformação social real – estão agora a abraçar abertamente o seu salvador de longa data, Israel. Os monárquicos transformaram as vítimas dos bombardeamentos em estatísticas, declarando sem vergonha: «A República Islâmica executa milhares de pessoas todos os anos, por isso a morte de dezenas ou centenas por Israel é justificável». Esta é a mesma lógica desumanizante – o cálculo quantitativo da morte – que os Estados Unidos utilizaram para justificar a destruição de Hiroshima e Nagasaki: «Se a guerra continuar, morrerão mais pessoas, por isso, lancem a bomba».

    A morte de civis nos recentes ataques de Israel, o aumento do controlo estatal no Irão, a destruição de infra-estruturas sociais – nada disto são «erros não intencionais» ou danos colaterais. São a lógica da guerra, especialmente quando conduzida por um regime como o de Israel. A conhecida alegação de que os civis ou locais não militares estão a ser utilizados como «escudos humanos» – outrora invocada em Gaza, agora utilizada para justificar ataques à Prisão de Dizelabad e ao Hospital Farabi em Kermanshah – é uma distorção deliberada, utilizada para mascarar e inverter a verdade desta lógica exterminatória.

    Não existem «ataques justos ou «bombardeamentos justos». As experiências históricas do Iraque, do Afeganistão e da Líbia – sim, a mesma Líbia que Netanyahu cita abertamente como modelo para a mudança de regime no Irão – atestam esta verdade com sangue.

    Manifestação em Paris, organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

     

    «A Nova Ordem do Médio Oriente»: Porque é que Israel atacou o Irão?
    A escala sem precedentes dos ataques de Israel indica que Israel está a tentar conseguir uma mudança de regime em grande escala – ou o colapso do regime. Não podemos descartar a Operação «Leão em Ascensão» como uma mera extensão da hostilidade de longa data entre os dois Estados. Está enraizada num processo regional mais vasto que teve início a 7 de Outubro com um golpe no chamado «Eixo da Resistência» e que atingiu agora profundamente o núcleo das estruturas de poder de Teerão.

    O ataque de Israel à República Islâmica marca o último capítulo de uma transformação mais vasta da geopolítica e da economia do Médio Oriente.

    Gaza, para Israel, não é apenas um campo de batalha – é um projetco de colonização. O ataque a Gaza é uma campanha para exterminar ou expulsar mais de dois milhões de palestinianos e transformar a costa ensanguentada na visão de Trump de uma «Riviera do Médio Oriente» – praias de luxo, casinos e uma zona de comércio livre para brancos.

    Passo a passo, Israel expulsou o Hezbollah do sul do Líbano, destruindo as suas infra-estruturas, matando comandantes e desmantelando a sua máquina de guerra. O mesmo está agora a acontecer com a IRGC. Na Síria, um regime apoiado pela Rússia, pelo Hezbollah e pelo IRGC – à custa de meio milhão de mortos e doze milhões de desalojados – desmoronou-se abruptamente perante os rebeldes apoiados pela Turquia. O corredor Xiita Teerão-Beirute, outrora uma artéria estratégica que ligava o Irão ao Mediterrâneo, tornou-se o seu calcanhar de Aquiles – a pista através da qual os aviões de guerra o atacam agora.

    Na nova ordem imposta no Médio Oriente, um bloco de poder capitalista israelo-americano está a remodelar agressivamente a região através de rotas logístico-económicas (o Corredor Índia-Médio Oriente-Europa), da normalização político-económica (os Acordos de Abraão) e do militarismo expansionista sob a forma de genocídio e anexação de Gaza [ref]A operação «Dilúvio de Al-Aqsa» de 7 de Outubro pode ser interpretada no contexto desta nova arquitectura de dominação: como uma tentativa de perturbar o projecto de normalização de Israel através dos Acordos de Abraão e de interferir com uma das rotas mais vitais do fluxo de capital transnacional – que começa na Índia, passa pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, chega a Israel e se estende daí até às costas da Grécia, no Mediterrâneo.[/ref].

    No meio da desintegração do «Eixo de Resistência», a doutrina de longa data do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica de «nem guerra nem paz» – uma estratégia de crises fabricadas e de uma calculada atitude de brinkmanship [jogo de cintura, malabarismo] – entrou em colapso. Durante anos, o regime usou confrontos limitados e controlados como arma para evitar tanto a guerra total como a paz genuína. Hoje, vê-se exposto num campo de batalha onde as regras mudaram irrevogavelmente.

    Este colapso, agravado pela perda total de legitimidade interna do regime – marcada pelas revoltas em massa de Dezembro de 2017, Novembro de 2019 e o movimento «Mulheres, Vida, Liberdade» -, constitui um golpe final. A República Islâmica já não pode gerir, adiar ou exteriorizar as suas crises. Não tem legitimidade a nível interno e não tem qualquer influência estratégica na região. É um resquício queimado numa ordem militarizada e multipolar emergente.

    Neste vórtice de sangue, os Estados Unidos – correndo contra a China e manobrando através da Rússia – esforçam-se por recuperar a sua hegemonia fracturada. Netanyahu agarra-se à guerra sem fim como bilhete para a sua sobrevivência interna. E dentro do aparelho dirigente da República Islâmica, muitos pretendem agora tornar-se eles próprios instrumentos de mudança de regime. Entretanto, o povo continua refém de uma guerra que não é sua, uma guerra que não oferece qualquer horizonte de libertação.

    Não à repetição da Líbia, Não ao massacre do verão de 1988

    Recordar o caminho percorrido desde a «bênção» da guerra Irão-Iraque para a consolidação da República Islâmica nos seus primórdios até à execução em massa de presos políticos pelo regime no Verão de 1988 é hoje tão urgente como recordar o percurso imperialista que conduziu à «Líbiazação» [ref] A «Líbiazação» refere-se a uma estratégia imperialista em que um Estado é primeiro pressionado diplomaticamente para se desarmar – muitas vezes sob o pretexto de acordos internacionais ou preocupações humanitárias -, depois sujeito a uma intervenção militar e, por fim, empurrado para o colapso do Estado e para um caos prolongado. O termo é inspirado no caso da Líbia, onde o regime de Kadhafi foi persuadido a abandonar os seus programas de armamento, mais tarde alvo de uma campanha militar liderada pela NATO, em 2011, e acabou por se desintegrar num país fragmentado e devastado pela guerra. [/ref] de toda uma sociedade.

    A história das «intervenções humanitárias» no Iraque e no Afeganistão – quer sob o pretexto de «armas de destruição maciça» ou de «crimes contra a humanidade» – tem de ser lida em conjunto com a história das lutas no Irão que, desde antes da Revolução de 1979 até hoje, deram erradamente prioridade ao anti-imperialismo acima de tudo. Do mesmo modo, a história colonial de Israel – desde a Nakba de 1948 até à traição de Nasser ao pan-arabismo em 1967 – tem de ser compreendida do ponto de vista do Sara turcomano e do Curdistão, locais de colonialismo interno.

    Durante mais de uma década, os ideólogos da «ilha de estabilidade» (o nome que os campistas deram em tempos à República Islâmica do Irão) utilizaram o medo da «síriazação» para envergonhar as lutas populares independentes e chamar o povo às urnas, vendendo a intervenção sangrenta do IRGC na Síria como uma estratégia de dissuasão para evitar a «síriazação» do Irão. Basta recordar esta história para justificar um «não» decisivo ao discurso dos campistas – um discurso que, em vez de se apoiar no poder popular organizado a partir de baixo, se inclina para a realpolitik e, em nome do anti-imperialismo, trata o inimigo do inimigo como um amigo, mesmo quando ele é igualmente mau.

    Há cerca de 45 anos, no início da Guerra Irão-Iraque, alguns grupos progressistas enveredaram pelo nacionalismo – tratando a guerra como um acontecimento «nacional». Isso só serviu para consolidar o regime autoritário islâmico. Alguns mantiveram-se silenciosos enquanto a República Islâmica usava a palavra «imperialista» para justificar a imposição do véu obrigatório às mulheres e o envio de tropas para o Curdistão; outros, embora tenham falado, não conseguiram mobilizar a opinião pública contra o inimigo interno, feito à imagem de um inimigo externo, ajudando assim a normalizar uma hierarquia centrada no homem/persa/xiita.

    Neste momento – quando a narrativa do «estado de emergência» sugere que se trata de um momento excecional e desconexo -, não há maior imperativo do que invocar uma memória histórica plural e multifacetada. Só a partir de uma memória histórica heterogénea e com várias vozes – do ponto de vista dos povos oprimidos – podemos dizer «não» ao imperialismo, ao controlo estatal baseado na guerra e ao campismo, tudo ao mesmo tempo. Ao projeto de recordar essa história estratificada – de Cabul a Gaza, através de destinos e diferenças partilhados – apelamos ao internacionalismo.

    Num mundo que oscila entre a militarização fascista e as guerras aparentemente intermináveis, o nosso caminho reside na organização activa e de massas para um cessar-fogo imediato, para a paz e para a reprodução da vida contra a máquina da morte. O nosso campo de acção não está alinhado atrás de Estados nem investido em lançar-lhes olhares esperançosos , baseia-se no cuidarmos umas das outras, na ajuda mútua e na construção de uma rede de apoio, consciência e solidariedade – desde as idosos e crianças até às marginalizadas e deficientes – como testemunhámos magnificamente na revolta Mulher, Vida, Liberdade, em que a solidariedade entre as oprimidas se tornou uma força para viver, resistir e criar.

    A transparência da informação e a consciencialização – sem reproduzir as narrativas israelitas ou da República Islâmica – devem ser os pilares desta resistência cultural e política.

    Submetermo-nos ao fatalismo e pintar um futuro apocalíptico em que tudo já acabou são formas de reproduzir a lógica da morte. Contra essa noção de futuro, o que é absolutamente urgente é moldar uma campanha de massas que vise o cessar-fogo imediato e a abertura de um horizonte de libertação:

    Mulheres, Vida, Liberdade contra a Guerra
    Berxwedana Jiyan e
    Resistência é Vida
    Palestina Livre
    Roja
    18 de junho de 2025

    Para conheceres os antecedentes do movimento Jin, Jiyan, Azadi («Mulher, Vida, Liberdade») no Irão, lê isto; para mais informações sobre a revolta que eclodiu em 2022, começa aqui.

  • UE considera que Israel comete crimes, mas…

    UE considera que Israel comete crimes, mas…

    A análise do serviço diplomático da UE (Serviço Europeu para a Ação Externa – SEAE) e da Comissão Europeia sobre se as acções de Israel merecem o congelamento do seu acordo de associação foi divulgada na íntegra pela primeira vez pelo site EUobserver.

    O documento «restrito», de oito páginas, foi distribuído às embaixadas dos Estados-Membros em Bruxelas na sexta-feira (20 de Junho). Nele, a UE corrobora as alegações da ONU de que Israel é culpado de «ataques indiscriminados… fome… tortura… tortura … [e] apartheid» contra os palestinianos.

    Entre outras coisas, o relatório conclui que «com base nas avaliações efectuadas pelas instituições internacionais independentes, há indícios de que Israel estaria a violar as suas obrigações em matéria de direitos humanos, nos termos do artigo 2º do Acordo de Associação UE-Israel”, o que é motivo para o congelamento desse tratado com 25 anos, e que poderia custar a Israel mil milhões de euros por ano em benefícios comerciais.

    «A fuga de informação do SEAE deixa bem claro que as instituições da UE sabem muito bem o que está a acontecer em Gaza (…) e que não o negam, nem procuram justificá-lo de uma forma bizarra», disse H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute, um grupo de reflexão com sede em Londres.

    «Se a UE não atuar de acordo com as conclusões deste documento, a sua credibilidade será incrivelmente prejudicada», afirmou Hellyer, numa altura em que os ministros dos Negócios Estrangeiros e os líderes da UE se preparam para discutir o seguimento a dar a este documento em Bruxelas, esta semana.

    Lembremos que um anterior relatório do Serviço de Negócios Estrangeiros da UE sobre Israel, realizado em Novembro passado, também falava de «crimes de guerra» israelitas, mas não deu origem a qualquer acção.

    Desta vez não deve ser diferente: o projeto de conclusões para a cimeira da UE da próxima quinta-feira, a que o EUobserver teve acesso, deixava em aberto, de acordo com este site, «o que os dirigentes da UE tencionavam dizer sobre o documento de Kallas, deixando-os livres para “tomar nota” passivamente, em vez de subscreverem corajosamente as suas conclusões».

    Foto: Outros Ângulos
  • De Gaza a Odemira

    De Gaza a Odemira

    Com o 7 de outubro e o genocídio em Gaza, o cessar-fogo urge para, em oposição à guerra, enfraquecer os excessos na­cionalistas e racistas. Em trauma e sob vigilância sionista, as famílias e comunidades israelitas, que fizeram de sua casa o sudoeste alentejano, temem juntar a sua voz na defesa pela vida e com a Palestina. A realidade não pode ser ignorada, e perante a barbárie, o silêncio pode ser ensurdecedor.

    Odemira, primeiro sábado de 2024. Três meses depois do horror da incursão ter­rorista do Hamas de 7 de outubro em Israel e con­tabilizada a perda de cerca de 30.000 vidas palestinianas, entre mortos e sepultados nos escom­bros, depois da resposta do exér­cito israelita em Gaza. Dirijo-me a AlmaOhana, uma pequena comunidade de israelitas e pes­soas de outras nacionalidades, criada em 2021: uma mais das que veio repovoar o sudoeste alente­jano com o sonho de um estilo de vida regenerativo. A fogueira na rua do monte alentejano já aquece do frio invernal quem vai chegando para um «Círculo de Partilha para o Luto, Conforto e Compreensão em relação a Israel e à Palestina».

    Joey, Eva, Noy e Matthias, os anfitriões, juntam pela ter­ceira vez quem procura enten­der «como é que esta guerra está viva na comunidade local e internacional aqui no Alentejo, com o objetivo de fomentar uma nova cultura de apoio e união em pequenas comunidades que enfrentam conflitos globais». Já entre as paredes de taipa, aque­cidas pelas salamandras, a dança fluirá inicialmente por entre os 26 participantes aí reunidos. Confidencialmente, ouço quem toma a voz para expor o que vive e sente. Sobretudo, recolho em mim os medos, angústias, deses­pero e vergonha nas vozes israe­litas. Mais ainda porque, pela pri­meira vez, há duas palestinianas no círculo, cujas vozes, embar­gadas ou iradas, nos atingem em profundidade e sem concessões. A intensidade da dor e da perda, e a incompreensão absoluta da desumanidade em Israel e Gaza, une o círculo numa base comum, resumida ao mais básico: a defesa da vida e da paz.

    Tenho-me cruzado com gente que tem moldado este território, propondo modos de vida alterna­tivos, demonstrando a viabilidade de outras relações com a natureza, e garantindo um futuro saudável aos novos alentejanos, nascidos das mais de oitenta nacionali­dades registadas só no concelho de Odemira. Na última década, nos mercados entre a Aldeia das Amoreiras ou São Luís, o hebreu quase subsituiu o ecoar das vozes em inglês. As famílias e as comu­nidades israelitas chegaram em força aos vales e lugares recôn­ditos que pautam a cartografia hippie do território.

    Construir esta nova comunali­dade, tão empolgada na sua ves­timenta eco-alternativa, solicita aos israelitas, mais do que nunca, uma palavra sobre o drama humano em curso. Porém, o silên­cio imperou desde o 7 de outubro e tornou-se um peso demasiado incómodo face à inominável atro­cidade que fez do horror terro­rista um pretexto para aniquilar o povo palestiniano a uma escala sem precedentes nestes 75 anos de ocupação da Palestina. Nesse silêncio, compreensível na sua dor e trauma, o ódio abria cami­nho, forçando as pessoas a esco­lher lados, como se só pudesse haver dois lados. Sem se ouvir um afirmativo apelo ao cessar­-fogo. E foi deste incómodo que parti para escutar palestinianas, israelitas e quem mais se propôs viver no Alentejo o sonho de outro mundo, fugindo, outra palavra não haverá, da barbárie humana.

    Silêncio quando as crianças dormem, não quando são mortas.

    Eva, com quem falamos antes de nos encontrarmos na AlmaOhana, empenhou-se em criar um espaço de escuta e de fala sobre este tópico. «Como alemã, criticar as políticas de Israel coloca-te muito rapidamente na gaveta do anti-semitismo. As pessoas estão muito assustadas em falar». Cres­ceu com esse desafio e a sua pri­meira viagem fora da europa «foi a Israel, para tentar tirar um sen­tido disso». Aqui, no Alentejo, «vemo-nos uns aos outros na nossa dor, em círculos de partilha e nos mercados», mas «não falar­mos sobre isto não é natural. De que comunidade se trata afinal? Será que quando chegamos ao ponto de a questionar face a con­flitos globais ela simplesmente colapsa, porque apenas se reúne num nível light?». Daí o desafio de abordar em comunidade «tópicos pesados, onde podemos come­çar a construir uma nova cultura de apoio».

    Na busca de um «consenso básico sobre o que se está a pas­sar na nossa comunidade», o pri­meiro círculo de partilha teve lugar três semanas após o início da guerra. «Foi muito agitado, vivo e doloroso». O segundo decorreu mais calmamente, mas em ambos pesava a falta de duas palesti­nianas convidadas, a residir na zona. Não se sentiam à vontade, desde logo, pela diferença numé­rica com israelitas. Joey, nascido em Israel, contou-nos, por isso, que o grupo entendeu tomar uma posição contra o que se está a passar em Gaza, assim como pelo resgate dos reféns: «perce­cionar a dor em ambos os lados». «Por isso gostaria que os israe­litas ouvissem as vozes pales­tinianas, e claro que não estou a falar de todos os israelitas… Há muitos que não querem ouvir o outro lado».

    Estes encontros intimistas não escondem a intenção de se projetar na comunidade local, fortalecendo as iniciativas que, pese tardiamente, saíram à rua como a concentração pelo cessar-fogo que, uma semana antes, na vila de Odemira, a 29 de dezembro, reuniu dezenas de portugueses, israelitas, palestinianos e outras nacionalidades no largo frente à câmara municipal.

    Trauma. Culpa. Solidariedade.

    Essa concentração foi uma demonstração pública há muito aguardada pelas duas palestinianas residentes em Odemira com quem falámos. Aida, uma conhecida ativista pela paz da comunidade Tamera, coletivo que desde a primeira hora veio a público exigindo o cessar-fogo; e Haneen, uma jovem mãe de Gaza, com dois filhos, a residir na zona há cerca de 5 anos.

    Para Haneen «têm sido tempos muitos desafiadores, mas procuro estar rodeada de pessoas com quem posso falar, que compreendam a situação e mostrem solidariedade. Mas não posso mentir, houve muitos momentos em que me desliguei, pois vivi este tipo de atrocidades. Sobrevivi a quatro grandes agressões em Gaza. Estive em várias situações perto da morte, nem me lembro de todas…»

    Não lhe é fácil o exercício de equiparação, na escala dos horrores, entre o 7 de outubro e o genocídio que se passa em Gaza, razão pela qual não consegue lidar com o silêncio à sua volta. «Há pessoas que eu tenho como amigas na comunidade israelita e que não tomaram qualquer posição. A um deles perguntei se podia, ao meu lado, erguer um cartaz de cessar-fogo e respondeu-me que não o podia fazer. Como manténs a solidariedade se não és capaz de um tal ato? Desculpem, mas isto faz-me sentir muitas coisas ao mesmo tempo. Sinto-me desapontada». Esse amigo entende ser importante «querer levar as histórias de Gaza, a minha história pessoal, aos corações da sociedade israelita. E sim, eu quero que isso aconteça, mas ao mesmo tempo vejo que ele está com o medo de ser culpabilizado, de ser atacado». A incompreensão estende-se à comunidade, em particular, «que fala em desenvolver uma consciência, novos valores culturais, uma nova humanidade e trazendo novos modos de vida. E ver que isso não se relaciona com outros lugares no mundo».

    Haneen compreende que «ambos os povos estão a experienciar um trauma. O receio da perda das suas vidas e dos seus entes queridos. A sobrevivência. É algo que vem de um lugar de medo e de proteção, e que o governo israelita ativou nas pessoas para ter permissão de fazer o que quiserem. Mas, ao mesmo tempo, os palestinianos vivem sob ocupação há 75 anos e não podem continuar a viver dessa forma para sempre.

    Não se trata de escolher lados, mas de tomar consciência da realidade tal como ela é. Enquanto estivermos a negar a realidade nunca estaremos num novo caminho para prosseguir. Quando peço que tomem posição, trata-se de reconhecer uma realidade na qual eu sou afetada pela situação mais do que o outro. Há um desequilíbrio, e é isso que tento explicar».

    Aida nota que o perfil da maioria dos israelitas de que aqui falamos é «gente alternativa, com mentalidade de esquerda e um coração aberto». «A maioria deles vive num lugar de culpa pelo que se passa na Palestina» e o acontecimento traumático de 7 de outubro, deu-lhes «a possibilidade de se declararem igualmente vítimas. Isso fornece uma desculpa para se manterem em silêncio, o que é muito perigoso». É algo muito sensível, no qual será sempre «mais fácil ficar nessa resposta traumática, sentido a dor pelo teu próprio povo, sem tomares a responsabilidade de apelar claramente ao cessar-fogo e ao fim do genocídio dos palestinianos».

    «Esse trauma criado, de raiva e ódio, é escolher um lado. Estão a criar uma nova geração de Hamas e de soldados israelitas criminosos».

    A essa resposta traumática somam-se as circunstâncias particulares da condição israelita, bem distinta da palestiniana, o que, para Aida, pode igualmente explicar o silêncio. «Os israelitas que aqui estão, a sua maioria, estão financeiramente bem, com familiares, amigos, projetos e empresas em Israel. Mas Israel enlouqueceu sobre qualquer um que fale contra a guerra em Gaza». «Os israelitas serão culpabilizados se se posicionarem contra a guerra. Por isso, se o teu coração não é verdadeiramente revolucionário e se não está pronto para pagar o preço, e se tens uma bolha para estares no Alentejo, silencioso e bonito, então apenas cultivarás os teus vegetais e não falarás disso, do que se passa em Gaza. E isso é um silêncio de privilégio».

    Para Aida, o facto é que, «apesar da minha dor, eu tenho de me esforçar em pedir cooperação, pois eu sou quem é mais ferido. Por isso dirijo-me aos internacionais e locais que podem fazer algo, abrindo espaços onde palestinianos e israelitas possam falar. Eu acredito que as pessoas judaicas, com boas intenções e com amor, serão os melhores agentes. A sua voz é mais forte que a minha, porque para o povo deles eu ainda sou o inimigo. Mas se um judeu israelita falar com eles com a mesma energia, de amor e justiça, dirá que é tempo de reconciliação. Um judeu a falar disso tem mais valor, pelo que apelemos aos israelitas no Alentejo para criarmos algo fora da zona de conforto».

    odemira
    Fotografia de António Falcão

    Quebra de Confiança

    Alon e Pnina são uma família israelita que, no seu terreno, para os lados dos Lameiros, abre portas à comunidade nos muito concorridos mercados da Azula. O mercadinho de artesanato e afins, comida, música e dança tornou os domingos da Azula um ponto de encontro de referência. Juntámo-nos em dezembro passado no café Nativa, espaço da Regenerativa Cooperativa Integral em São Luís, numa conversa que se estendeu tarde adentro. Era a primeira vez, depois do 7 de outubro, que punham cá para fora as suas impressões e rapidamente o encontro resultou num improvisado círculo de partilha juntando-se à mesa quem mais por ali ansiava ouvir e falar sobre o assunto.

    O trauma do massacre do Hamas e a resposta genocida do exército israelita abalaram-nos visivelmente. Nas gavetas em sua casa ainda estão as t-shirts com Free Palestine estampado, que envergaram tal como muitos outros israelitas de esquerda que apoiaram os palestinianos anos a fio. Saíram de Israel após o conflito Israel-Gaza, de 2014, à data a maior operação militar israelita desde a Guerra de Gaza de 2008 (que contabilizou a morte de 2000 palestinos e 60 militares israelitas, números que ilustram bem a escalada da atual guerra). Haviam chegado a um ponto insuportável. «As nossas duas filhas, então com menos de 2 anos de idade, já aprendiam no jardim infantil em como se baixar e proteger a cabeça. Eu própria olhando para um muçulmano e receando, porque cresci assim, a ver bombas a explodir», conta Pnina. «Não quero que as minhas filhas os julguem assim, mas que deem uma oportunidade como seres humanos. Por isso saímos.»

    Para Pnina, o 7 de outubro «foi o momento mais difícil na minha vida como judia». Mais do que em 4 de novembro de 1995 quando Yitzhak Rabin foi morto. Então foi para matar o sonho da paz, agora foi um “assegura-te de que a paz não vai acontecer”». Desde então muitos mais israelitas vieram para cá e Pnina não precisa dizer o que transparece no seu olhar. «Os israelitas estão em trauma. O que se passou é algo que nenhum ser humano pode compreender. A maioria dos israelitas que foram mortos eram de esquerda, os que acreditavam na paz, voluntários que faziam o transporte de crianças doentes de Gaza para os hospitais em Israel, os únicos em Israel que davam a sua vida pela paz. E agora a confiança quebrou-se, não apenas com os árabes, mas com o governo israelita, pois o sentimento é que o exército do país não veio em seu socorro. Durante 24 horas as pessoas foram queimadas, raptadas, violadas e ninguém do exército israelita veio para os salvar.»

    «Se não está pronto para pagar o preço, e se tens uma bolha para estares no Alentejo, silencioso e bonito, então apenas cultivarás os teus vegetais e não falarás disso, do que se passa em Gaza. E isso é um silêncio de privilégio.»

    Sinto o resultado contraditório desta quebra de confiança. Por um lado, a dor quanto à inumanidade do Hamas sobre os israelitas. Esses, diz Pnina, «que davam a sua vida pela paz. Como é que a partir desse dia podemos olhar para os palestinianos e dizer que continuamos a acreditar na paz? Estou a falar das pessoas que eram muito radicais acerca da paz, os mais radicais em Israel. Viviam aí, havia amizade. E se lhes perguntares hoje, dizem-te: «vão lá e matem-nos!”. Pessoas que nunca na sua vida pensavam em matar palestinianos. Isso vem da dor e parte-se-me parte o coração ouvi-los reagir dessa forma tão adversa. É errado, terrível, mas eu não os consigo julgar. Vieram até às suas casas, às 7 da manhã, violaram as suas mulheres, mataram as suas filhas. Foi tão maldoso. Eu não consigo julgar, apenas dizer-lhes que têm de continuar a acreditar na paz».

    Por outro lado, a certeza das responsabilidades do governo israelita no que se passou. Em ter aberto as portas no dia 7 de outubro. Não hesitam em apelidar de louco e nazi a bibi” Netanyahu. «Foi ele quem matou o processo da paz e pagou ao Hamas, todos os meses, muito dinheiro, para que não houvesse qualquer solução política. Mantendo-lhes o estatuto, pensando que se manteriam quietos». Todo um enredo, criado pelos Estados Unidos e Israel, que potenciou o desfecho do Hamas. Já Aida nos apontara essa premeditação por parte do governo israelita, assim como as acusações de israelitas à inação do exército, que esperou «que matassem as nossas filhas e filhos para que pudessem implementar o planeado projeto económico e político. O projeto para um segundo nakba [êxodo palestino de 1948], de enviar Gaza para o deserto, para o Egipto e Jordânia, e tomar Gaza. Um projeto colonial que se está a expandir», e a que se junta a cooperação dos Estados Unidos e Israel para garantir o monopólio do gás natural do Levante à Europa, ao invés do gás russo ou iraniano.

    Posto isto, para Pnina, o contraditório assola-a naquilo que poderia significar vestir hoje a sua t-shirt free palestine, ou ao ver essas palavras nas paredes do mercado municipal de São Luís. «Free Palestine – eu morreria por uma Palestina livre mas hoje parece tudo misturado, as pessoas e as organizações terroristas». Quando na página da Azula «postei algumas coisas sobre os reféns, sobretudo os bebés raptados», Pnina diz-se surpreendida com as reações: «de como me atrevia a escolher lado pois a Azula é uma espécie de espaço comunitário. Mas nós somos israelitas, não posso bloquear isso. E sim, eu esperava da comunidade alternativa aqui que dissessem de forma muito clara depois do 7 de outubro: tragam de volta os bebés raptados e não apenas Palestina Livre! O 7 de outubro não é acerca de libertar a Palestina, mas acerca de terroristas que trouxeram tamanha dor».

    Por tudo isso Alon e Pnina compreendem o silêncio. «Uma das formas de reação foi fechar-nos em nós mesmos, o que é tomar um lado. O que é compreensível, mas não justificado». Alon não esconde que «é a primeira vez que falo mais do que dois minutos sobre o assunto, pois falei sobre isto toda a minha vida e estou cansado. Por isso decidi ir à minha vida, tratar das minhas crianças e ter uma comunidade aqui à minha volta. Criar o meu mundo e formar parte de um corpo forte juntos». Mas sabe que o que está em causa aqui «não é escolher um lado. O que está em causa aqui não tem a ver com os povos palestinianos ou israelitas». Pnina corrobora: «Isto não é acerca de palestinianos e israelitas, mas acerca do poder». Para Alon, esse «trauma criado, de raiva e ódio, é escolher um lado. Estão a criar uma nova geração de Hamas e de soldados israelitas criminosos».

    Compreender não é justificar

    Este consenso acerca da ilusão dos «dois lados» é algo que surge também na conversa que tive com Aida, na Tamera. «Não se trata de escolher lados, mas sim de tomar uma posição pela vida. Se há dois lados é entre a vida e contra a vida. E é muito fácil ver quem está pela vida e quem não o está. Eu apelo às comunidades israelitas que tomem uma posição pela vida e que façam uso do seu privilégio em falar, não contra Israel, nem contra o povo judeu, mas contra o governo e o exército de Israel». «Há um plano que é contra as pessoas, todas as pessoas. Não nos deixemos prender na posição entre israelitas e palestinianos».

    Não tomar lados começa assim por tomar consciência da realidade tal como ela é e a palavra ocupação vem colada ao estado de Israel. Como me contou Haneen: «eu cresci durante a ocupação. Crescemos todos em diferentes realidades, a minha é a ocupação. A dos tipos do Hamas é ocupação. Quando cresces em tal realidade, cresces sem compreender porque é que estamos a ser controlados, atacados. Lidando com perdas, uma e uma vez mais. Acredito que nós, palestinianos e israelitas, temos muito a desaprender, nomeadamente acerca das nossas histórias pessoais, de forma a alcançar um entendimento. Porque em Gaza, asseguro-te, há estes tipos do Hamas, mas há antes de mais um povo que quer apenas viver pacificamente, que realmente não quer violência, nem qualquer tipo de controle sobre as suas vidas. Eu sou uma simples pessoa de Gaza, uma simples jovem mulher com duas crianças, dizendo: queremos viver em paz. E a sociedade israelita precisa de ver isso. Há muita desaprendizagem e pontes a fazer para acabar com a ocupação e desmantelar este sistema que causa toda esta atrocidades e violência entre ambos os povos, o ódio, as matanças. Trata-se de desmantelar o sistema, pois enquanto este existir, como é que podemos vislumbrar outro caminho? Não sei como explicar, mas olhando para alguém do Hamas, e não estou a defendê-lo, mas a falar da realidade, que cresce, perdendo a sua mãe, as suas irmãs, irmãos, primos, em ataques, não tendo qualquer comida nem controlo sobre a sua vida, sem esperança por um futuro: como é que esperamos que ele venha a ser?».

    Razão pela qual, reitera Aida, «há uma grande diferença entre justificar e compreender». «Para os palestinianos em Gaza que tentaram de tudo, todas as medidas não violentas, pacíficas, culturais, poéticas, todas as formas de resistência, que lhe foram negadas, consigo compreender, no fundo do desespero, que também uses a violência para te libertares. Eu não o justifico, gostaria que não fosse assim, mas consigo compreendê-lo».

    Haneen assinala, à luz do que se está a passar, que Israel «vem de um lugar com um passado de trauma e de ter experienciado ele mesmo o que se passa. Podemos, sim, falar do holocausto, mas ao mesmo tempo do facto de não quererem ver o que se está a passar em Gaza, exatamente aquilo que lhes foi feito».

    Amor antes da Religião

    Alon e Pnina falam-nos, por sua vez, das suas raízes. «O nosso sangue é árabe, somos árabes judeus. A minha família [Pnina] vem da Líbia. Eu não tenho um lugar para voltar, mas eu acredito em Israel, tal como acredito que possamos viver juntos. Porque a minha cultura, a música, a comida, é mais árabe que israelita. Os meus pais falavam árabe e não hebreu, a minha avó não sabia uma palavra em hebreu. Mas depois disto que se passou, se eu disser que sou árabe judeu, olharão para mim como… Põem-me de lado».

    Para Alon, «se houvesse um deus, estas coisas não teriam acontecido, porque todos rezamos ao mesmo deus, somos irmãos, temos sangue vermelho e comemos do mesmo prato. Guardo do meu avô as palavras – amor antes da religião. A casa dele em Jerusalém fora-lhe oferecida por ser uma pessoa muito respeitada e na porta dizia salamalekum [que a paz esteja contigo em árabe]. Tinha amigos árabes que vinham no Shabat, sentados e comendo do mesmo prato. Sem diferenças culturais, mas numa comunidade, Jerusalém, em harmonia antes de Israel ser criada. A partir do momento em que esse nome é inventado pelos europeus, esse é o momento em que o caldo venenoso começou a ser cozinhado».

    «Há uma grande diferença entre justificar e compreender».

    «Por isso “amor antes da religião”. Porque a religião diz não matarás, mas dá-te a permissão para matar». A religião surge como o elefante na sala. No lugar mais religioso do planeta.

    Nessa ténue linha que separa a defesa da vida ou da morte, que a religião encobre, não pude deixar de partilhar a minha incredibilidade quanto à questão dos mártires. Porque é que quando os mortos não são mortos, são mártires? Diz-me Aida que «há que ir ao contexto cultural. Para uma criança que acabou de perder os seus pais, é mais fácil dizer que são mártires em vez de dizer que foram mortos. Sempre que existeuma luta coletiva, como esta que dura há 75 anos, em que lutas e és oprimido, precisas de justificar a vida dos que morrem. A ideia do martírio, que não é apenas árabe, fala de culturas onde a dignidade é mais importante que a vida. A dignidade é extremamente importante para os árabes». «Israel controla tudo à nossa volta. As nossas vidas são tão controladas que temos a convicção que somos esquecidos a não ser que façamos muito barulho; por isso, esta identidade de martírio é equivalente a um desespero profundo, de que a tua vida não tem significado se não viveres com dignidade».

    Aida lidou com a questão muito cedo na sua vida. «Há um slogan que vem da primeira intifada [1987] que dizia quando a violência eclodiu: “nós morreremos e a Palestina viverá livre”. Eu tinha 16 anos nessa altura e desafiei isso. Quando nós todos morrermos, que palestinianos viverão? E como slogan repliquei: “nós vivemos e fazemos a Palestina viver”. Disse-o e logo alguns homens, jovens palestinianos, vieram ter comigo: “como te atreves!! Pedir pela vida e vida pela Palestina”. Mas essa é a minha escolha».

    Como estás na tua comunidade?

    Ao longo destas conversas em Odemira, com origem em Gaza e Israel, fui desafiado em diversas ocasiões em expor e desfazer ideias feitas. Para Aida, a perda de sentido na frase Free Palestine, de que fala Pnina, resulta do erro fatal de misturar Palestina com o Hamas, que ambas concordam ter sido alimentado por Israel. Diz-nos Aida que, contra a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), a organização de raiz socialista que defendeu desde 1988 a solução de dois estados, «o Hamas foi criado por Israel para dividir e controlar. E o Hamas fala de uma posição sem horizonte de esperança, onde a religião fala por ti, a extrema-direita fala por ti. O Hamas é a expressão desse desespero. Israel, com ajuda dos Estados Unidos, travou e acabou com qualquer proposta palestiniana liberal, inclusiva. Forçaram as pessoas a eleger pessoas como o Hamas em Gaza».

    Para Aida a questão com o Estado de Israel «é que não se trata da questão de “se estás aí”, mas de “como estás aí”. O governo israelita tornou claro, desde o início, que esse “como” é eliminando outras nações. Por tudo isto, «cabe-nos a nós, israelitas, palestinianos e todos, que criemos instituições e modos de dizer: não em nosso nome.»

    Um caminho que vai sendo trilhado nesta particular geografia humana das comunidades do sudoeste alentejano onde, como Alon nos disse, diferentes pessoas de diversas nacionalidades, israelitas e palestinianos, internacionais e locais, carregam consigo os seus «danos culturais». «Carregamos essa bagagem connosco. Nasci lá, os meus pais criaram-me lá, mas eu posso escolher onde morrer, e foi aqui que eu escolhi. Aqui me sinto em casa, mais do que em Israel. Em vez de termos dois lados, não nos podemos sentar e falar?».

     


    Texto de  Filipe Nunes (com a colaboração de Silvia das Fadas)


    Artigo publicado no Jornal Mapa, edição #40, Janeiro | Março 2024

  • Hiroshima Palastina

    Hiroshima Palastina

    Uma das formas mais eficazes para não ter de tomar posição sobre um assunto é descartá-lo através da fórmula «é uma situação complexa» (como se houvesse alguma coisa simples). Israel devia ter essas palavras escritas na bandeira, tantas são as vezes que servem para relativizar o projecto colonial, o regime de apartheid e a limpeza étnica do povo palestiniano por que são responsáveis há décadas. A complexidade desta «situação» particular é adensada por factores emocionais e históricos. Não há como não sentir um misto de perplexidade e de desconforto ao ver o Estado de Israel repetir os mesmos actos que vitimaram o povo judeu ao longo de séculos e séculos de perseguição. E não há como não recordar que o holocausto foi feito mesmo à nossa porta e com a nossa conivência. Foi ontem e os seus fantasmas ainda convivem nas fotos e nas memórias de muitas famílias.

    Para além destes complexos de culpa, na tolerância ocidental escondem-se, ainda, com pouca discrição, os mesmos preconceitos e mecanismos de que se fizeram muitos genocídios. O racismo e os processos de construção da identidade que insistem em estabelecer uma diferença entre um «nós» e um «eles» continuam a alimentar comunidades. E a legitimação dos actos mais perversos por via de processos de «racionalização» sinistros não desapareceram. Israel, ainda por cima, parece-se «connosco». É vista como um bastião de democracia num mar de fundamentalismos. Participa na Eurovisão e nas competições desportivas europeias, tem gente jovem e progressista e é um paraíso queer e vegan. Podia muito bem ser na Europa. No fundo, o que torna a «situação complexa» e faz de Israel um país melhor do que os «outros» é – parafraseando os punks israelitas Dir Yassin – «pedir desculpa quando mata inocentes»; é os seus «soldados terem olhos azuis e escreverem poesia»; é usar tecnologia militar avançada e não ter esconderijos nem recorrer a pedras, mísseis toscos e bombistas suicidas (in “All our planes have returned safely”).

    Talvez ajude deixarmos de nos deslumbrar com alegadas afinidades «identitárias» e largar a insistência em confundir a história do povo judaico com o Estado de Israel. O assunto perde parte da sua complexidade se recusarmos cair na armadilha da «culpa» e da «vergonha» que tantas vezes serve os interesses dos mais poderosos. E é de poder que se trata. Episódios como esses fazem parte de um mesmo contínuo irredutível a religiões ou culturas: fazem parte de uma história de poder. Só a presença de forças mais insidiosas permite compreender que aqueles que ainda têm visíveis as feridas de um passado recente possam fazer do holocausto que as provocou um pechisbeque, como alguém dizia na televisão há dias. Nenhum Yom HaShoah (Dia da Memória do Holocausto) evitará que o passado se repita enquanto não forem destruídas as estruturas e os mitos que sustêm a persistência das formas de dominação e de autoridade que alimentaram os actos mais tenebrosos da história da humanidade.

    AkrabutPosto isto, é possível compreender que quem vive num Estado militar e seja doutrinado no ódio para com o vizinho desde que nasce possa acreditar que reside num Oásis protegido por um muro. O que não é tão compreensível é que os cidadãos do «mundo ocidental» dito democrático dêem as cambalhotas mais espalhafatosas para justificar cada crime cometido por Israel. Especialmente quando, há décadas, nos chegam vozes do território israelita que não demonstram a mesma tolerância com o governo do sítio onde vivem e nasceram. Foi, aliás, na cena punk-hardcore israelita que se concentraram algumas das expressões mais dissonantes. Particularmente pujante nos anos 90, dela jorraram palavras e acções que poucos no Ocidente se atrevem a pronunciar com medo de serem rapidamente estigmatizados e apodados de «anti-semitas». A banda que mais terá contribuído para a explosão da cena punk-hardcore israelita foi Nekhei Na’atza, surgida na primeira metade da década de 90 e movida por um profundo desprezo por um Estado fundado na religião e no militarismo (o primeiro EP, editado 1994, intitulava-se Renounce Judaism). Em 1997, tornar-se-ia a primeira banda punk a lançar um LP em Israel, Hail the New Regime. Na capa, o então recém-nomeado primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o mesmo que anos depois voltaria a ocupar o cargo e nele permanece até aos nossos dias, aparecia a fazer uma saudação romana. Um dos legados mais importantes de Nekhei Na’atza foi a influência que teve na renúncia e na deserção do serviço militar obrigatório por uma parte da juventude israelita que circulava no meio underground, o que a tornou um alvo frequente das autoridades. Das suas cinzas surgiriam os já referidos Dir Yassin, banda que viria a alcançar maior projecção internacional. Formada em 1997, fez de cada uma das suas músicas a garantia de que não soariam apenas «músicas calmas e bonitas» enquanto as bombas continuassem a cair (in “Brotherly Mass Grave”). Na denúncia destemida da ocupação da Palestina pelo Estado Israelita não hesitavam em usar a palavra «genocídio» e em denunciar o «complexo do holocausto» como uma desculpa (in “Independence Day”).

    Foi na cena punk-hardcore israelita que se concentraram algumas das expressões mais dissonantes.

    Nos dias que correm a virulência da «cena» punk israelita parece ter esmorecido. Para isso terá contribuído o crescimento da extrema-direita na sociedade e no Estado israelitas e uma dinâmica demográfica em que muitos dos seus integrantes emigraram para fugir ao serviço militar, para além de um número maior de imigrantes entrou no país em busca da «terra prometida». Para Federico Gomez, vocalista dos Nekhei Na’atza, a sociedade israelita é hoje mais intolerante e racista do que era nos anos 90. Como consequência, a crítica à ocupação da Palestina tornou-se mais dissimulada e a mensagem mais críptica e focada na vida dentro do Estado de Israel. Algumas das excepções podem ser encontradas na compilação Standing Together Against Annexation, que foi lançada em 2020 e reúne 38 bandas de punk israelitas, na sua maioria com letras em hebraico. Entre elas encontramos nomes como Akrabut, Kids Insane (que já tocaram em Portugal), Useless ID, Deaf Chonky e MooM. No geral, confirmam-se as referências menos directas à ocupação e as críticas dirigem-se mais para a «doutrina do medo» e para a «cultura de violência» de um Estado militar. Mas em bandas como os Akrabut, na música “Hiroshima Palastina” (também nome do EP que lançaram em 2018), encontramos preservada a intransigência dos anos 90. Há pouco, em plena ofensiva israelita, deixavam nas redes sociais uma pequena frase: «ninguém viverá em paz enquanto a Palestina não for livre». O que nos recorda que os bombardeamentos podem ter parado entretanto, mas a paz continua a ser uma miragem.

    Bandas e compilações como estas podem parecer pouco mais do que pedras lançadas a tanques. Mas, para além do impacto que têm no próprio contexto asfixiante em que existem, recordam-nos que o Estado de Israel nunca agradou sequer a muitos daqueles que pretende representar. Para os mais púdicos, talvez ajude a classificar aquilo que fazem nos termos adequados e que de complexo tem pouco:«“limpeza étnica», «colonização» e «apartheid». Libertem a Palestina!

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #31, Julho|Setembro 2021.


    #palestina #apartheid #nekheina’atza #diryassin #punk #Israel #música #punk-hardcore #mapa31

     

  • Sobre a ocupação de Israel na Palestina

    Sobre a ocupação de Israel na Palestina

    Este podcast surge de uma conversa com 2 companheirxs israelitas que vieram a portugal fazer apresentações sobre a situação atual da guerra e ocupação de Israel na Palestina. Estivemos então à conversa com Dana e Iran que vieram partilhar experiências de luta e procurar solidariedade entre outrxs. Este podcast é falado em inglês, com algumas partes traduzidas para português.

    https://soundcloud.com/user-740288582/podcast-palestinaisrael

    Músicas:
    Ana Tijoux e Shadia Mansour- Somos Sur
    Twisted Nixon- Stone throwing riot intifada Palestine

    Links de interesse:
    www.coalitionofwomen.org/?lang=en