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  • A Frontex e as deportações

    A Frontex e as deportações

    A estratégia de deportações da União Europeia (UE) tem falhado, pelo menos em termos numéricos: apenas cerca de 20% das pessoas que receberam a chamada «ordem de expulsão» acabaram efectivamente repatriadas. «Uma percentagem demasiado baixa», como disse Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, na apresentação, em Março, do novo Sistema Europeu Comum de Regresso, que introduz procedimentos mais rápidos de deportação e tem um actor principal incontestado: a Frontex.

    Em 2025, como prenda do seu 20º aniversário, a Frontex recebeu um orçamento de 1,1 mil milhões de euros, 42 vezes maior do que o da Agência Europeia de Cibersegurança e dez vezes maior do que o da Agência Europeia do Ambiente. Do total do bolo, 2,5 milhões vão para actividades relacionadas com «direitos humanos» e 133 milhões vão para deportações, um aumento de 42% em relação a 2024.

    A actividade da Frontex neste domínio não é nova. Desde a sua criação, a agência fronteiriça tem colaborado com os Estados-Membros nas deportações, apoiando-os através da cobertura dos custos de voo e das actividades pré-partida. No entanto, o seu papel tem-se tornado cada vez mais mais importante, nomeadamente a partir do seu novo regulamento de 2019, tanto ao nível do número de deportações «voluntárias» em si, como do número de países de destino dessas mesmas deportações.

    As duas maiores barreiras para a decisão europeia de facilitar e acelerar as deportações são os seus custos estratosféricos e os países de origem que se mostram relutantes em aceitar os acordos que a UE tem para propor. Perante estes desafios, a Frontex e as instituições europeias desenvolveram o conceito de «regressos voluntários» que, por um lado, não implicam o envolvimento dos países de origem (uma vez que a pessoa supostamente coopera) e, por outro, tornam a viagem mais barata (um voo comercial normal basta, não é preciso um voo charter). Neste momento, mais de metade das pessoas que saem da Europa estão a fazê-lo de forma «voluntária», sob liderança da Frontex.

    Citada pelo Statewatch, Silvia Carta, responsável pela defesa de direitos na Plataforma para a Cooperação Internacional sobre Migrantes Indocumentados (PICUM, na sigla em inglês), afirma: «A estratégia de Bruxelas relativamente a este tipo de repatriamento é ambígua. O novo regulamento prevê o incentivo aos regressos voluntários, mas deixa às autoridades nacionais a opção de implementar incentivos para as pessoas que “cooperam” com a sua própria deportação, concordando em participar em programas de repatriamento assistido». Ou seja, e ainda nas palavras de Silvia Carta, «uma forma de chantagem que decorre da redução do período de proibição de reentrada no território europeu e do apoio financeiro oferecido».

    No caso da Frontex, este apoio é prestado no âmbito do chamado Programa de Reintegração. O apoio a curto prazo inclui 615 euros para «repatriamentos voluntários» e 205 euros para os forçados. O apoio a longo prazo pode proporcionar assistência indirecta durante um ano, que vai desde a cobertura de cuidados de saúde até ao apoio à criação de uma empresa. Está também disponível um incentivo de 1 000 ou 2 000 euros, consoante o regresso do requerente principal seja voluntário ou forçado, sendo concedidos 1 000 euros adicionais por cada membro da família.

    «Estas formas de apoio revelam-se frequentemente ineficazes para quem regressa ao seu país de origem, uma vez que a utilização dos fundos é altamente problemática», explicou (ao site InfoMigrants) Rossella Marino, professora da Universidade de Gent, na Bélgica, que concluiu um doutoramento dedicado especificamente a «projectos de reintegração» na Gâmbia. Mas, se, por um lado, não servem grande coisa aos migrantes, estes apoios são «extremamente úteis para as instituições europeias, porque enquadram, através de uma narrativa positiva e aceitável — nomeadamente a de ajudar as pessoas que regressam —, o que é, na realidade, uma abordagem neo-colonial que visa, em última análise, controlar a mobilidade». Marino salienta que a máquina de repatriamentos envolve inúmeros intervenientes no terreno: «Todas estas atividades consolidam a presença das instituições europeias nesse território, mas, acima de tudo, ajudam a evitar que os repatriados voltem a partir. Este processo ocorre também através da digitalização de toda a informação».

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    Imagem de geralt por Pixabay

  • Felizmente continua a haver luar (Julho/Setembro 2024)

    Felizmente continua a haver luar (Julho/Setembro 2024)

    Álbum americano.

    Os maus e os bons imigrantes

    O Partido Republicano, agora dominado por um Trump que tornou cativa a sua base, opõe-se à continuação da ajuda à Ucrânia porque quer afectar o dinheiro à «verdadeira defesa da América»: a «guerra contra a imigração» e a «segurança da fronteira sul». A questão da imigração entrou, assim, no debate sobre a guerra. Os mesmos republicanos erguem-se agora, antecipadamente, contra a possibilidade de os palestinianos que escaparam ao massacre encontrarem refúgio nos Estados Unidos! Numa entrevista a um blogue racista, Trump acrescentou mais uma camada de teoria medieval: «Os imigrantes estão a envenenar o sangue do nosso país.»

    As multidões, crianças e velhos, mulheres e homens, actualmente nos caminhos do exílio, em busca de condições de sobrevivência, são um dos aspectos mais violentos da presente decadência do capitalismo. As guerras e as crises climáticas, as destruições, os massacres, as catástrofes e os colapsos políticos estão na origem da ruína das sociedades. Nos Estados Unidos, tal como na Europa, em África e na Ásia, os poderes estabelecidos, co-responsáveis por estas catástrofes, tentam encontrar uma saída isolando-se. Rejeitando o Outro. Os muros, as separações de todo o género, são a expressão do pensamento político mais primário. Sabemos que as separações não protegem nada nem ninguém, aumentam o sofrimento e não impedem o movimento das populações que nada têm a perder, porque já perderam tudo, excepto a esperança de sobreviver. Políticas que, além do mais, beneficiam as máfias e os bandos que «rentabilizam» o comércio de seres humanos. A actual administração democrata prima pela hipocrisia. Depois de ter feito promessas demagógicas, Biden prossegue as mesmas políticas que os seus antecessores, deportando pessoas a todo o momento e continuando a construir o muro entre o México e os Estados Unidos, enquanto afirma que o muro «é ineficaz» e que não é uma solução séria para o problema! A catástrofe está a alastrar e o fluxo de pessoas que fogem para a «terra prometida» não pára de crescer. Desde 2021, um recorde de dois milhões de pessoas atravessaram a fronteira sul (The Boston Globe, 6/10/23). Só em 2023, mais de 400 000 pessoas já entraram no país, 200 000 em Setembro, e todos os dias há, em média, 8000 novos pedidos de asilo. Nos últimos anos, o colapso de um grande país como a Venezuela agravou esta tendência. A fraude do socialismo bolivariano atirou centenas de milhares de pessoas para o exílio. Quase meio milhão de venezuelanos já se encontram nos Estados Unidos. Representam uma grande parte dos recém-chegados. Depois da classe média, são agora os proletários que tentam atravessar a pé a selva, a caminho do Norte. A actual administração acaba de criar um estatuto especial para os venezuelanos, mas também para os cubanos e os haitianos, que, por sua vez, fogem de um país onde os bandos substituíram o Estado. O objectivo é conceder-lhes uma autorização de residência temporária com direito a trabalhar, a fim de aliviar os centros de acolhimento.

    Uma América onde «o sonho» se desfez, onde a pobreza branca também se generaliza. Os recém-chegados são confrontados com esta nova realidade, encontrando-se em concorrência com outros pobres.

    As pequenas cidades fronteiriças do Sul dos Estados Unidos não conseguem fazer face à vaga de refugiados. Em Eagle Pass (Texas), uma pequena cidade de 28 000 habitantes, chegam mais de 10 000 pessoas por semana. O único abrigo para imigrantes está sobrelotado e as organizações de ajuda não têm recursos. O presidente da Câmara declarou o estado de emergência… (Wall Street Journal, 22/09/23). Nas grandes cidades da Costa Leste, para onde a maioria dos imigrantes se dirige na esperança de encontrar refúgio, trabalho e alojamento, bem como apoio para os seus filhos, os serviços sociais estão sobrecarregados. Os autarcas estão a pedir recursos adicionais ao governo federal. Com efeito, a lei determina que as cidades são obrigadas a dar abrigo aos imigrantes que se registam.

    Em todos os Estados Unidos, a população imigrante é já omnipresente no funcionamento da sociedade, dos serviços à construção, da agricultura à indústria. Os proletários da América Central, e agora também da América do Sul, mantêm a máquina económica a funcionar. Uma América onde «o sonho» se desfez, onde a pobreza branca também se generaliza. Os recém-chegados são confrontados com esta nova realidade, encontrando-se em concorrência com outros pobres. Por sua vez, para a classe capitalista, a imigração continua a ser uma dádiva de Deus, um factor económico de rentabilidade. A aspiração de «sobreviver» transforma os recém-chegados em presas fáceis de explorar, enquanto os «pobres autóctones» estão, na maior parte das vezes, demasiado destruídos para trabalhar. A classe política voga na indecência, fazendo equilibrismo entre o sofrimento dos que já não podem viver e o dos que querem viver. Durante uma sua visita ao México, o presidente da Câmara de Nova Iorque tentou demolir a miragem do sonho americano, avisando os futuro imigrantes de que uma vida de miséria os esperava no Norte. Sugere mesmo que o afluxo de imigrantes cria um «ambiente de desespero» e tem «um impacto no roubo de lojas» (NYT, 19/10/23). Não é certo que isso seja suficiente, há graus de miséria mais ou menos suportáveis. Depois de uma refeição bem regada, o homem foi discursar num Fórum Empresarial Americano-Mexicano, convidando as startups mexicanas a deixarem a Cidade do México e a instalarem-se em Nova Iorque! Os maus e os bons imigrantes.

     


    Ilustração [em destaque] de  André Lemos


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #42, Julho|Setembro 2024.

  • Massacre de Melilla: as fronteiras são actos de violência

    Massacre de Melilla: as fronteiras são actos de violência

    A 24 de Junho, cerca de 2,000 pessoas tentaram saltar a vedação entre Marrocos e Melilla. A repressão foi brutal e resultou em 40 mortos, de longe o maior número de vítimas numa só tentativa de cruzar esta fronteira. Um resultado que sublinha a natureza mortífera das políticas fronteiriças da UE.

    Concertinas

    Melilla é uma das duas cidades espanholas autónomas localizadas em continente africano, ou seja, um dos dois únicos pontos de entrada terrestre na UE a partir de África, fazendo fronteira com Marrocos através de uma barreira de seis metros de altura e 11,5 Km de extensão. Toda a cidade é, aliás, uma espécie de prisão invertida, salpicada de fossos, torres de vigia, cães de guarda, patrulhamentos constantes. A BBC Brasil chama-lhe «a fronteira mais fortificada da Europa». Essa barreira é constituída por altos muros encimados por concertinas, onde se concentram e se mutilam, quando não se extinguem, sonhos e ansiedades. As concertinas, apesar do nome alegremente musical, são, na verdade, um tipo de arame farpado – estruturas tubulares de aço, rígidas, com acabamentos de lâminas afiadas.

    Os relatos das tentativas de salto raramente têm finais felizes. Mesmo quando conseguem passar, as pessoas nunca o fazem sem consequências graves, que vão de tíbias partidas a cortes em tendões. Os panos, mesmo os mais grossos, não são suficientes para evitar as lâminas das concertinas. Para quem não consegue atravessar, o destino é quase certo: espancamento, detenção e envio forçado para a fronteira sul de Marrocos.

    Perto de Melilla, na serra de Nador, milhares de pessoas vivem à espera de ver chegar o dia em que consigam transpor o muro, rumo à Europa prometida. De tempos a tempos, a polícia marroquina faz incursões, as mais das vezes violentas, com recurso a força bruta, intimidações e destruição das barracas onde sobrevivem.

    Esses migrantes utilizam a chamada rota ocidental, uma das rotas mediterrânicas habituais usadas pelos africanos subsaarianianos para chegar à Europa. Um número cada vez maior tem escolhido esta via, dado o aumento do risco da rota oriental, via Turquia, e da central, via Líbia, depois dos acordos de «gestão de fluxos fronteiriços» que a UE firmou com estes dois Estados. Do mesmo modo, a rota que atravessa Marrocos tem-se tornado cada vez mais mortal e pela mesma razão: a UE paga a Estados não membros para sujarem as mãos por ela. No caso, Marrocos, conforme demos nota aqui.

    O salto para a morte

    Na manhã de 24 de Junho, cerca de 2.000 pessoas desceram de Nador, aproximaram-se da fronteira e começaram a saltar a vedação. Foram violentamente reprimidas por forças conjuntas marroquinas e espanholas. De acordo com um balanço das autoridades locais, o número de mortos é de pelo menos 18, enquanto várias ONG afirmam que as vítimas são na realidade muitas mais: pelo menos 37 (um número posteriormente actualizado para 40), de acordo com a conhecida activista espanhola Helena Maleno, porta-voz de Caminando Fronteras. A ONG Walking Borders confirmou esses números e informou ainda que havia 35 internados em estado grave.

    As tentativas de salto são praticamente diárias. Muitas vezes efectuadas em grupos pequenos. De quando em quando, há uma destas «avalanches», que servem, não só como tentativa real de transpor a fronteira, mas também como visibilização da brutalidade com que são tratadas diariamente. Um grupo tão impressionante de pessoas torna impossível que as autoridades consigam abafar os acontecimentos. E, na verdade, no próprio dia, já circulavam imagens de um jovem de 20 anos que permanecia pendurado no alto da cerca, apesar do arame farpado e do sistema de electrificação. Em baixo, do lado marroquino, dois agentes tentavam fazer com que caísse, atirando-lhe pedras. Quando finalmente desceu da cerca, foi empurrado para um amontoado de pessoas, cerca de 500 migrantes deitados no chão, alguns aparentemente já mortos, sob a vigilância violenta dos guardas marroquinos. As imagens divulgadas no Twitter da Associação Marroquina dos Direitos Humanos (AMDH) mostram essa cena que tem tanto de habitual como de distópica.

    Omar Naji, activista da AMDH, foi uma das poucas testemunhas no local. Numa entrevista publicada no ENASS, um meio de comunicação digital marroquino independente, afirmou que os migrantes, do Sudão e de outros lugares da África subsaariana, foram atirados ao chão, muitos deles feridos e deixados sem tratamento médico durante várias horas. Um morador de Nador, Tareq (nome fictício), contava à jornalista do El País no local: «Era tudo sangue, tudo sangue… sangue na cabeça, pele rasgada, pés partidos, mãos partidas», acrescentando que «os que não tinham morrido acabaram por morrer, bateram-lhes muito».

    Algumas ONGs conseguiram obter informações em hospitais, esquadras e através dos próprios migrantes e relataram que a maioria das mortes se deu ao cair da cerca da fronteira ou por asfixia ou esmagamento junto à vala, na debandada. Os maus-tratos policiais, com bastonadas constantes no amontoado de gente, também foram denunciados, assim como o facto de, durante as primeiras horas da crise, os migrantes gravemente feridos não terem recebido atendimento médico. Ainda nas palavras de Helena Maleno: «Estiveram lá todos desde o meio-dia, ali, atirados ao chão, ao sol, a sangrar». «As vítimas agonizaram durante horas sob os olhares cruéis dos que deviam socorrê-los e não o fizeram».

    A EuroMed Rights, uma rede de 80 organizações de direitos humanos na Europa e na região do Mediterrâneo, divulgou uma declaração assinada por 45 grupos marroquinos e europeus de direitos humanos onde afirma que este acontecimento era previsível, dado o histórico de prisões em massa, buscas em campos de refugiados e transferências à força de refugiados para o sul de Marrocos. A EuroMed Rights disse ainda: «No último ano e meio, os refugiados em Nador foram privados de medicamentos e cuidados de saúde. Os seus acampamentos são queimados e os seus bens são levados embora e a já escassa comida é destruída, ao mesmo tempo que qualquer água potável que eles tenham é confiscada».

    Estes 40 mortos são o «símbolo trágico das políticas da União Europeia e da externalização das suas fronteiras», escrevem, num comunicado, cinco organizações não-governamentais espanholas e marroquinas. «A morte destes jovens africanos nas fronteiras da “fortaleza europeia” sublinha a natureza mortífera da cooperação securitária em matéria de migração entre Marrocos e Espanha», lê-se ainda no texto. Ou, nas palavras bem mais abrangentes da Assembleia Anti-Fascista de Londres, este massacre, que, «longe de ser um incidente isolado, se está a transformar na norma por toda a Europa», não nasce do comportamento de determinado governo, é antes o «resultado directo da lógica das fronteiras e dos Estados-Nação, que divide, desumaniza e mata pessoas com base em linhas arbitrárias num mapa». Uma lógica que não se implementa apenas nas fronteiras físicas dum país, mas «em muitos níveis da sociedade, com acesso desigual a saúde, habitação, educação e emprego, com criminalização e perseguição pelas autoridades e com a disseminação duma retórica anti-imigração que transforma toda a gente num guarda fronteiriço».

    O migrante como invasor violento

    O massacre de Melilla aconteceu cinco dias antes da cimeira da NATO em Madrid, que acabou por definir um novo conceito estratégico para a organização. Os meios de comunicação, na sua simplificação habitual, informaram-nos que se tratou de apontar a Rússia e a China como os inimigos principais. Do lado de fora das notícias, ficou o facto de, da agenda política da NATO, fazer igualmente parte a imigração enquanto ameaça à segurança do «ocidente», numa abordagem armada aos fluxos migratórios que se desenha desde a cimeira que a Aliança realizou em 2010, em Lisboa.

    Pedro Sánchez, chefe do executivo de Madrid, em reacção ao sucedido, afirmou que se tratara dum «ataque violento e organizado», um «ataque à integridade territorial» de Espanha, por detrás do qual haveria «máfias que traficam seres humanos». Um argumento também partilhado pelo governo marroquino. Referindo-se à resposta policial, o presidente do governo espanhol assegurou que tudo «foi bem resolvido», colocando o adjectivo «violento» do lado dos migrantes. Tais comentários entendem-se melhor à luz do facto de este massacre ter acontecido três meses depois da cedência de Sánchez às pretensões do rei Mohamed VI sobre o plano de autonomia do Saara Ocidental em troca duma mão de ferro marroquina no controlo dos migrantes.[ref]As relações entre Espanha e Marrocos deterioraram-se em 2021, quando Espanha permitiu que o líder da Frente Polisário, Brahim Ghali, recebesse tratamento de saúde no seu território, sem informar o governo marroquino. Em resposta, Marrocos fez vista grossa a 8.000 migrantes, incluindo 1.500 menores, que entraram em Ceuta durante dois dias. Em Março, Marrocos e Espanha chegaram a um acordo de cooperação para restabelecer as relações, principalmente sobre o território do Saara Ocidental, uma ex-colónia espanhola que Marrocos anexou. O acordo de Março reforçou a cooperação conjunta para reduzir a migração com destino à Europa.[/ref]

    A este propósito, o comunicado da Plataforma das Associações e Comunidades Subsaarianas em Marrocos, da Caminando Fronteras, ATTAC, AMSV e AMDH é lapidar: «O reatar da cooperação securitária na área das migrações entre Marrocos e Espanha, em Março, resultou na multiplicação das acções coordenadas entre os dois lados, medidas marcadas por violações dos direitos humanos das pessoas em migração».

    Nos dias seguintes, as autoridades marroquinas iniciaram o habitual envio forçado e selvagem de migrantes para outros locais do país, mais longe da fronteira com a UE, nomeadamente Khouribga (Juribga), Beni Mellal, Fqih Bensaleh (Beni Amir), Errachidia e Tarudante. No final de Junho, isso acontecera já a cerca de 1.300 pessoas, algumas delas gravemente feridas. «Forçado», dizemos, porque nada é perguntado a quem é metido em camionetas e enviado para essas localizações, e «selvagem», porque apenas aparentemente baseado na lei 02-03 (de 2018), que permite estes expedientes mas obriga a que tenham algum tipo de controlo judiciário, coisa que raramente acontece.

    Para além disso, houve ainda um grupo de refugiados, todos sudaneses, que ficaram em prisão preventiva. As acusações: insultos e violência sobre agentes da autoridade e forças da ordem no exercício das suas funções; desobediência; destruição de bens públicos; posse de armas brancas; atentado à ordem pública e a pessoas e bens; assalto e agressão com arma; facilitação e organização da saída de um grupo de estrangeiros do território nacional de forma clandestina; entrada e saída de território nacional de forma clandestina. Uma lista longa de alegados delitos, 36 arguidos, repartidos entre dois grupos, onde existe um refugiado menor – eis os componentes deste processo.

    Os advogados dos migrantes (arranjados por organizações de defesa dos direitos humanos) exigiram, na primeira audiência, a 4 de Julho, um relatório das autoridades, de forma a poderem preparar a defesa. Exigiram ainda a libertação provisória dos arguidos mas esta exigência caiu em saco roto e foi recusada pelo tribunal. Uma audiência posterior, de 19 de Julho, deu o veredicto: 33 pessoas condenadas a 11 meses de prisão efectiva. Omar Naji, da AMDH Nador, exprimiu o seu descontentamento com esta decisão: «este julgamento foi muito severo, eles trataram os dossiers de todos os refugiados da mesma forma, sem ter em conta a situação de cada um e, nesse sentido, a próxima etapa é dirigirmo-nos ao Tribunal da Relação (Cour d’appel) para defender os direitos destes refugiados», que, no dia anterior, tinham declarado a sua inocência.

    Não se fala mais nisso

    Várias ONG, assim como as Nações Unidas ou a EuroMed Rights, já pediram uma investigação profunda e independente ao massacre de Melilla, de forma a determinar responsabilidades, assim como para identificação das vítimas e entrega dos seus corpos às famílias. Naji disse que foram contactados por famílias de jovens do Sudão que se acredita estarem entre as vítimas, mas não tiveram permissão para ver os corpos ou as dezenas de migrantes feridos.

    Entretanto, de acordo com o jornal The Guardian, há activistas que acusam Marrocos de tentar encobrir a violência de Melilla, enterrando os mortos sem investigação ou autópsia, e sem fazer qualquer tipo de esforço para identificar os corpos, preservá-los de maneira digna e permitir determinar a causa das mortes.

    No final de mais de 2 semanas após o massacre e com dezenas de migrantes que continuavam (e continuam) desaparecidos, perante o silêncio das autoridades marroquinas e a complacência e o apoio da UE, e perante a falta de seguimento dada ao assunto, a AMDH tentou contactar o hospital de Nador para «verificar algumas imagens que recebemos de migrantes que suspeitamos estarem mortos. Recusaram-se a colaborar, dizendo que essa informação diz respeito ao ministério do interior».

    A 20 de Julho, a AMDH apresentava publicamente a sua versão dos incidentes de Melilla num relatório de 21 páginas a que chamou “A tragédia no posto fronteiriço de Bario Chino: um crime desprezível das políticas migratórias europeias, espanholas e marroquinas”. De acordo com esta ONG, há 64 pessoas desaparecidas, «dezenas de feridos e de expulsões devido a uma repressão sem precedentes por parte das autoridades marroquinas com a cumplicidade dos seus homólogos espanhóis». O número de pessoas desaparecidas foi obtido graças a uma recolha de testemunhos e informações directamente junto das famílias dos desaparecidos, principalmente sudaneses. «Continuamos a receber mensagens, com fotografias da identidade de pessoas que podem ter desaparecido, que verificamos e publicamos nas nossas redes sociais», diz a AMDH Nador. A associação foi à morgue com fotografias das pessoas desaparecidas para identificar os corpos, mas foi-lhe recusada a entrada.

    Migrantes: peões num jogo racista

    A grande e recente empatia com os migrantes ucranianos, já se sabia, não existe quando se está perante pessoas não brancas. Nem nos governos de direita do leste europeu nem nos «progressistas» do extremo ocidental. Pelo que é preciso dizer que estas mortes são deliberadas: um produto directo e esperado da falta de vias legais de migração e da subcontratação de gestão de migrantes que a UE faz em territórios onde sabe que as autoridades têm mais margem de manobra. Uma margem que – também é sabido pelos líderes europeus, ainda que constantemente retirado do foco das suas opiniões públicas – não tem grandes limites. E, se pensarmos mais profundamente, não se pode apontar o dedo exclusivamente aos governantes.

    A Europa-Fortaleza consegue, assim, mais uma vitória na arte de intimidação de migrantes e requerentes de asilo, ao mesmo tempo que os pinta, a todos, como invasores violentos. Uma política, uma atitude e um discurso que vão ao encontro da agenda das forças de extrema-direita que prosperam um pouco por todo o território europeu. Esta reto-alimentação entre fascistas e Estados ditos democráticos é uma das linhas da espiral negativa em direcção a uma cada vez maior e mais brutal violência fronteiriça etno-nacionalista.

    Como sempre, as fronteiras existem apenas em função do grau de pobreza e de melanina na epiderme e estes migrantes são menos do que meros peões num jogo político, são pessoas descartáveis e não desejadas. No caso do massacre do passado dia 24 de Junho, assim como no da situação na fronteira entre a UE e a Bielorrússia, de que demos conta aqui e aqui, sem esquecer o muito bem conhecido caso da fronteira turco-grega ou o menos relatado inferno da «rota dos Balcãs», já não se pode falar apenas em «deixar morrer». Na verdade, o que se passa é, basicamente, um assassinato, uma vez que se impedem as pessoas de atravessar uma fronteira com um risco muito concreto e muito elevado para as suas vidas. Não é negligência. É, no mínimo, dolo. As negociações entre a UE e os Estados a quem entrega o seu policiamento fronteiriço são levadas a cabo à custa de vidas humanas.

     

  • As políticas mortais da Europa-Fortaleza

    As políticas mortais da Europa-Fortaleza

    «No período 1993-2022, mais de 48.647 mortes podem ser imputadas à militarização das fronteiras, às políticas de detenção e às deportações»

    As “Políticas mortais da Europa-Fortaleza” é uma campanha da rede UNITED contra as consequências fatais da construção da Europa-Fortaleza. Esta rede tem monitorizado essas mortes e tem vindo, desde 1993, a construir uma “Lista de mortes de refugiados”. Esta lista sumariza informação do onde, do quando e em que circunstâncias essas pessoas morreram. «Em todos os casos de morte há mais documentação guardada no arquivo. Os dados são recolhidos através de investigação própria, de informação recebida das 550 redes de organizações em 48 países e de especialistas locais e investigadores no campo das migrações».

    Trata-se, assim, de uma lista em permanente actualização, cujos números são tornados públicos numa base anual, e que se traduz num mapa que não se limita, longe disso, às fronteiras externas da União Europeia. No passado dia 20 de Junho, Dia Mundial do Refugiado, a UNITED lançou os números actualizados dessa lista, afirmando que, «no período 1993-2022, mais de 48.647 mortes podem ser imputadas à militarização das fronteiras, às políticas de detenção e às deportações». O total é cerca de 4 mil mortes mais elevado do que há um ano. Uma contabilidade que está, por certo, incompleta. Nas palavras da própria rede, «é muito provável que haja ainda mais milhares», acrescentando que «estas são as consequências de quando a Europa fecha a porta e os olhos».

  • Por qué no te callas!?

    Por qué no te callas!?

    Homem branco num sistema opaco

    A morte do ucraniano Ihor Homeniuk no aeroporto de Lisboa, em Março de 2020, enquanto estava detido pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), veio levantar mais o véu sobre a xenofobia e a violência intrínsecas à acção dos inspectores do SEF, que mais não é do que o reflexo do racismo existente nas forças de segurança em geral. As autoridades responsáveis tentam fazer crer que a violência gratuita no Centro de Instalação Temporária do aeroporto de Lisboa foi um caso isolado e que não representa a instituição nem os valores do SEF, mas os pormenores desta história desmentem-nas. Poder-se-ia pensar que é um problema de um determinado indivíduo, mas a realidade é que as razões são tão mais profundas e instaladas que se pode dizer que se trata de um problema sistémico e intrínseco à globalização da economia mundial.

    Imigrantes agredidos no CIE de Aluche, em Madrid

    Em Madrid, no Centro de Internamento de Estrangeiros (CIE) de Aluche, vários imigrantes colombianos foram agredidos, tendo-lhes depois sido negada assistência médica no domingo, 17 de Março. O alerta foi lançado pela plataforma CIE No de Madrid, na terça-feira, dia 23 de Março. Os activistas receavam que os imigrantes agredidos fossem deportados e metidos num avião nesse mesmo dia. Os imigrantes testemunharam que um polícia caiu e culpou um dos detidos, que acabou agredido por cinco funcionários do centro de detenção. A segunda agressão foi sobre outro detido que tentou chamar os polícias à razão, enquanto estes lhes chamavam «lixo», «delinquentes», «merdas» e «ladrões».

    Segundo a plataforma CIE No Madrid, tanto o Juzgado de Control del CIE (que controla as movimentações nos centros de detenção como o Defensor del Pueblo (órgão institucional encarregado de assegurar o respeito pelos direitos constitucionais) foram informados mas nada foi resolvido. Os imigrantes relatam agressões físicas, insultos racistas, acusam os agentes policiais do CIE de recusar tratamento aos ferimentos, de não contactarem o 112 quando um dos detidos, portador de uma prótese na anca, o solicitou e de recusar assistência médica aos ferimentos quando solicitada uma segunda vez. Um dos agredidos disse que não se atreveu a queixar-se ao médico, porque os polícias estavam sempre presentes, e acabou por justificar as suas maleitas com uma queda.

    Os activistas alertaram para que, entre os detidos colombianos destinados a saírem do CIE nesse dia 23 de Março, previsivelmente para os preparar para voos de repatriação, encontravam-se dois denunciantes das agressões e uma mulher de 64 anos que vivia em Espanha desde 2008.

    A plataforma teme que, mais uma vez, as agressões não sejam avaliadas, investigadas e julgadas e que se perca assim a possibilidade de adiar ou impedir o repatriamento das vítimas e testemunhas através da empresa aérea espanhola Evelop – Aerolínea de Ávoris, do Grupo Barceló, que, juntamente com a Air Nostrum, formam a Unión Temporal de Empresas (UTE) que substituiu a Air Europa na execução dos voos de repatriamento do estado espanhol. As empresas responsáveis pelo transporte dos repatriados ganham milhões e, para além da UTE, há ainda voos comerciais, como o caso da Air Maroc, de Marrocos, e também transporte marítimo através das empresas Transmediterránea e Balearia y Algérie Ferrie.

    Para pressionar os órgãos competentes, os detidos no CIE, à excepção dos diabéticos, declararam greve de fome até que se investigue corretamente o caso e se identifiquem os responsáveis, parando as ordens de expulsão das vítimas e das testemunhas pelo menos até ao final do processo. A plataforma CIE No, que acompanha e apoia os imigrantes detidos nos centros de detenção de imigrantes em Espanha, exige ainda o registo do testemunho dos responsáveis da assistência médica no CIE, do pessoal do serviço 112 que respondeu às chamadas dos internos e do pessoal da Cruz Vermelha. Como nota, refira-se que esta última recebeu, em 2019, uma subvenção do Ministério do Interior no valor de 1,1 milhão de euros para assistência social e humanitária nos CIE de Espanha.

    A plataforma responsabiliza o Ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, e o delegado do governo de Madrid, José Manuel Franco, por não ter aberto ou finalizado processos contra os agentes dos CIE, mesmo com documentação e testemunhos a acompanhar as queixas. Queixas que não são novidade, antes aumentaram em 2020, como alerta a plataforma CIE No.

    O CIE de Aluche é conhecido pela violação dos direitos humanos desde há muito. Em 2009, as organizações Ferrocarril Clandestino, SOS Racismo Madrid e Médicos do Mundo Madrid elaboraram um relatório para dar visibilidade e voz aos detidos nos CIEs. Meia dúzia de anos depois, o SOS Racismo denunciava a detenção de menores, denúncia desacreditada pelo testemunho dos responsáveis do centro em 2015. Testemunhos esses que, dois anos depois, não convenceram Francisco F. Marugán, Defensor del Pueblo, que, acompanhado por técnicos e também na condição de Alto Comisionado de las Cortes Generales e Mecanismo Nacional de Prevención de Tortura registou a detenção de 13 menores no centro. Em Agosto de 2017, aliás, o Comité dos Direitos da Criança das Nações Unidas pressionava o governo espanhol para resolver a situação de quatro menores oriundos da República da Guiné, que eram tratados como adultos no CIE de Aluche.

    Os alertas tentam evitar que se repitam casos como a morte da congolesa Samba Martine, em 2011, depois de 40 dias detida neste mesmo centro e depois de 10 idas ao médico interno devido a dores fortes (responsabilidade da empresa privada Sermedes S.L. que não realizou testes nem enviou a queixosa para o hospital até ao dia da sua morte).

    A eutanásia da esperança

    Em 2019, o jovem marroquino Marouane Abouobaida suicidou-se no CIE de Valência, depois de ter sido detido durante um motim. Há mulheres que sofrem abusos sexuais, como os de 2006 no CIE de Capuchinos, Málaga, onde sete agentes da polícia foram acusados de violação e encobrimento de abusos cometidos por outros. Os cinco agentes que foram a julgamento acabaram absolvidos em 2015.

    Nesse mesmo ano, a Campaña Estatal por el Cierre de los Centros de Internamiento de Extranjeros emitiu um comunicado a exigir o encerramento de todos os CIE do país, depois de o Ministério do Interior ter reconhecido que estes centros não cumprem a legalidade, ao violarem o Real Decreto 162/2014. Apesar desta exigência, acompanhada por manifestações com milhares de pessoas, em 2016 é reaberto o CIE de Barcelona. Nesse mesmo ano, os motins espalharam-se pelos CIE do Estado. Reforçando os apelos dos activistas da plataforma CIE No, o relatório “Ceuta y Manilla: un territorio sin derechos para personas migrantes y refugiadas”, da Amnistia Internacional, denunciou as violações dos direitos humanos nos Centros de Estancia Temporal de Inmigrantes (CETI) das cidades autónomas, especialmente em grupos vulneráveis como as pessoas LGBT. Esse ano encerrou com um cheque de 236.000 euros para a reparação do CIE de Aluche.

    No início de 2017, ficou claro que as condições dos imigrantes detidos em Espanha não eram únicas, quando vários detidos protestaram no CIE de Cona, próximo de Veneza, no nordeste de Itália, para denunciar a morte de uma jovem costa-marfinense de 25 anos devido à demora dos serviços de emergência. Neste mesmo ano, o comité dos Direitos da Criança das Nações Unidas impediu que Espanha repatriasse um menor marroquino, por violação da lei aprovada pelo Supremo Tribunal em 2014, que valorizava mais a identificação legal apresentada do que uma avaliação médica realizada nos centros de detenção, o que acontecia neste caso e noutro no qual as Nações Unidas tiveram que intervir anteriormente. As mulheres são o segundo grupo mais vulnerável, depois das crianças, facto provado pela denúncia, no Verão de 2017, das condições de 11 mulheres detidas no CIE de Algeciras, uma antiga prisão em muito mau estado de conservação, pela organização Womens Link Wordwide.

    Em 2016 tinham passado 513 mulheres pelos CIE e foi registada a presença de 51 menores, em violação da lei de proteção de menores.

    CIEno

    Um filme para o dia de São Nunca à Tarde

    Os CIE espanhóis foram criados em 1985 e o Estado recusava a acusação de copiarem o seu carácter do sistema penitenciário. Mas, com o tempo, foram detidos estrangeiros em antigas prisões ou quartéis em desuso, como em Algeciras ou Málaga, e as denúncias de casos de violência e violação dos direitos humanos sempre os acompanhou, independentemente da sua localização, revelando os mesmos sintomas dos centros de imigrantes mundiais.

    Anteriormente aos casos dos menores, a ONU já tinha intervindo em Espanha em Março de 2011 quando pressionou este país para que regulamentasse os CIE através do documento do Comité para a Eliminação da Discriminação Racial (CERD), adotado pela Comissão Geral das Nações Unidas. Esta não era a primeira vez que se ouviam denúncias de maus tratos nos CIE espanhóis, como veio a confirmar o relatório da CEAR (Comisión Española de Ayuda al Refugiado) sobre três desses centros: o de Aluche (Madrid), o de Capuchinos (Málaga) e o de Zapadores (Valência), este último denunciado várias vezes por maus tratos (sofridos por 40% dos inquiridos). Nesse mesmo ano, Sérgio Tréfaut lançou o filme Viagem a Portugal, que relata a história de uma imigrante ucraniana e do seu companheiro senegalês no aeroporto de Faro, descrevendo os procedimentos e o tratamento desumano nos aeroportos europeus.

    O Jornal MAPA desde sempre deu voz às ações em defesa dos direitos dos detidos nos CIT (Centros de Instalação Temporária) tendo até subscrito e divulgado uma carta aberta enviada ao governo depois da morte de Ihor Homeniuk a exigir a libertação de todas as pessoas detidas nesses centros. Para contribuir para o entendimento das causas deste comportamento violento no controle de fronteiras e dos fluxos migratórios como também para conhecer os mecanismos e os interesses por trás das políticas de imigração da União Europeia, o Jornal MAPA tem olhado insistentemente para o aprofundar da construção da Europa Fortaleza.

    Na edição de Março do Jornal MAPA, Teófilo Fagundes escreveu sobre a Frontex, denunciando a impossibilidade de controlo da sua actividade e, debruçando-se sobre o relatório do Corporate Europe Observatory, revelando o impacto nocivo do lobby que molda as políticas fronteiriças e migratórias da União Europeia. Na mesma edição, Daniel Macedo descreveu o caso de Ihor Homeniuk, um ano depois do seu assassinato, e Mamadou Ba dissertou sobre a violência institucional do sistema de controlo de imigração e fronteiras, no artigo sobre o SEF «Entre as malhas da continuidade histórica do fascismo e do racismo», onde advoga a extinção do SEF. Os imigrantes em Portugal (como nos mostrou a facilidade com que se ignorou o assassinato de um ser humano no aeroporto de Lisboa às mãos do SEF ou como demonstram os problemas de lotação, as más condições das instalações, a falta de espaços salutares ou adaptados às necessidades das crianças, a dificuldade de acesso a ajuda jurídica e mesmo a assistência médica, os comportamentos xenófobos, homofóbicos e racistas, que impedem uma assistência adequada nos CIT) sofrem do mesmo mal que os imigrantes em Espanha ou em Itália ou até que os imigrantes nos EUA que, com a sua política de detenção de imigrantes ilegais, criou uma prisão de crianças, separadas da família, muitas das quais ainda hoje não reencontraram os seus pais e muitas não se sabe quem são. Cerca de 8.800 dessas crianças foram repatriadas sozinhas para o México em 2020, como medida de combate à Covid-19. Esse mal, que assume várias formas, pode ser muito bem resolvido com empatia, informação e ação.