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  • Visibilidade LGBTQIA+: Reclamando a nossa voz

    Visibilidade LGBTQIA+: Reclamando a nossa voz

    Nos últimos meses tem-se falado muito da visibilidade da comunidade LGBTQIA+ e da sua importância. Todavia, existem duas visões antagónicas sobre este tema. Por um lado a permissa de que é importante para a libertação do estigma associado à comunidade, por outro, o argumento é de que a visibilidade é apenas uma forma de exibição e afirmação desnecessária. Simultaneamente, também, se pode discutir qual a melhor forma de visibilidade: uma visibilidade com referentes positivos e/ou uma visibilidade centrando-se numa realidade difícil para a comunidade. Ter referentes positivos é importante. Também a necessidade de educar para as adversidades que a comunidade atravessa. A complexidade reside no tratamento que se faz da visibilidade e no impacto que terá nas vivências LGBQIA+.

    Nestes tempos recentes, mesmo com a crise pandémica, a comunicação social abordou frequentemente esta temática com ambas as visões. Dá visibilidade para as questões LGBTQIA+, mas, em contrapartida, também, usa linhas argumentativas que vão contra os direitos humanos fundamentais. Argumentos que passam pela referência à Ideologia de Género como uma teoria que está a ser imposta às crianças ou, até à afirmação de que as pessoas que fazem ativismo LGBTQIA+, nomeadamente, nas questões da identidade de género, estão a doutrinar para um pensamento totalitarista. Esta última tese também muito usada por um sector do feminismo bastante específico, o feminismo radical trans excludente (TERF’s). Movimento que se recusa a deixar os príncipios bio-essencialistas e ignora a construção da identidade de género dentro de uma matriz sócio-económico-política. Uma manipulação através de uma tática de alieniação e discurso populista. São feitas generalizações problemáticas usando como referência exemplos muito concretos e particulares para generalizar os comportamentos de uma comunidade tão diversificada.

    Fora de Portugal, várias pessoas de diversos sectores, desde o desporto à música e ao cinema, ou até à política, falaram ou reafirmaram as suas identidades (seja orientação sexual ou identidade de género) procurando contruir um modelo de referentes positivos na sociedade. Por exemplo, em Setembro na capa da Vogue surge Ariel Nicholson, a sua primeira estrela de capa abertamente trans – seguindo os exemplos de Valentina Sampaio e Larverne Cox, as primeiras modelos trans nas capas da Vogue Paris e Vogue Britânica, respectivamente. Ou, como, Tamara Adrián, deputada na Assembleia Nacional da Venezuela, Petra De Sutter, vice primeira-ministra na Bélgica, Érika Hilton, vereadora na Câmara Municipal de São Paulo, apenas para referenciar alguns nomes. Em Portugal este processo é mais lento, pois ainda há um reduzido número de pessoas de referência que falam das suas identidades publicamente. Temos, por exemplo, Sara Tavares, cantora e compositora, que falou da sua bissexualidade e Paulo Rangel, advogado e político, que também anúnciou a sua homossexualidade. Ainda não é claro para muitas pessoas a importância que tem falar publicamente de se ser trans ou não-binário e/ou homossexual ou bissexual (entre outras identidades). Tão necessário, até para jovens que estão a encontrar-se e que, muitas vezes, crescem com o insulto. O isolamento social é consequência deste processo.

    No entanto, falar abertamente sobre ser LGBTQIA+ ou apoiar a causa, nem sempre é um processo tranquilo. Por exemplo, os artistas que criaram o livro de comics, Superman: Son of Kal-El, onde o novo super-homem se revela bissexual, receberam protecção polícial depois de terem sido ameaçados de morte. Ou, como, na Hungria, que proibiu a divulgação de conteúdos sobre a temática LGBTQIA+ junto de menores de idade. Um pouco na mesma linha do que aconteceu na Polónia em 2020 com a criação de zonas “livres de LGBTQIA+”.

    A visibilidade é um motor para um crescimento saudável. Porém, a generalidade das referências positivas encontram-se em torno de um sistema binário cis e hetero. Pode-se nomear vários exemplos, mas basta pensar na diversidade de vezes que pessoas cis e hetero referem indirectamente a sua identidade ou a orientação sexual por via dos seus hábitos de conversa diários. Este comportamento é resultado do privilégio cis-hetero-normativo – estas identidades (pessoas cis e hetero também têm identidade de género e orientação sexual) nunca são questionadas, invalidadas ou apagadas.

    Sabemos, infelizmente, que cerca de 70 países ainda criminalizam a homossexualidade, nos quais 13 prevêem a pena de morte. Em Portugal, apesar de a homossexualidade ter sido discriminalizada e despatologizada, a violência simbólica, estrutural e sistemica ainda está muito presente nas nossas raízes sociais e culturais. Falando em mudanças mais recentes, apesar das pessoas trans terem, desde 2018, uma lei que lhes permite a sua identidade ser reconhecida pelo Estado, contínuam a ser vítimas do sistema de saúde e escolar, da justiça e da empregabilidade. Todas estas pessoas continuam continuamente a sofrer violação dos seus direitos mais fundamentais. É, por esta razão que é necessário criar visibilidade em torno de referentes positivos.

    Quando nos referimos a representatividade e visibilidade estamos a procurar um conjunto de práticas sociais que permitam pessoas de determinada comunidade verem-se reflectivas de uma forma construtiva para o seu desenvolvimento pessoal. Em particular, a necessidade da comunidade LGBTQIA+ se ver reflectida nas diversas esferas da vida. Seja em casa, no trabalho, na escola, na saúde, na justiça, na política ou nos média. Lutar pela representatividade e visibilidade é configurar um mundo onde nós existimos. Lutar pela representatividade e visibilidade é reafirmar que a nossa orientação sexual e identidade de género não é uma vergonha nem um insulto. Lutar pela representatividade e visibilidade é recentrar o problema da cis-hetero-normatividade.

    Não é rara a vez que pessoas LGBTQIA+ são acusadas de exibicionistas por falarem abertamente da sua identidade e/ou orientação. Porém, ninguém questiona a sociedade cis-hetero centrada em que vivemos e as suas consequências. Ninguém perde um emprego por ser cis e/ou hetero. Ninguém tem de esconder da família que é cis e/ou hetero. As evidências mostram que a comunidade LGBTQIA+ vive, na sua maoria, no isolamento, na vergonha e no insulto. Nós precisamos de orgulho e sororidade. Porque o nossos direitos fundamentais estão limitados por uma visão político-ideológica de que nós não devemos existir.

    Podemos questionar a chamada Teoria da Ideologia de Género. O argumento comum é de que esta teoria, que é apenas isso (dizem), pretende ser usada par doutrinar as crianças de que podem ser o que querem, que podem escolher quem são e quem amam e que a família tradicional não é a única forma de compor família, mas que há mais formas possíveis. Na falta de ensino para a diversidade, não há ninguém a dizer que ser LGBTQIA+ não é errado, segue-se a solidão. As tecnologias de género asseguram que as pessoas devem ser e comportar-se de determinada forma pré-estabelecida e que devem constituir família de determinada forma. Estas formas de engenharia de género estabelece regras bastante rigídas para se existir no mundo.

    Entender o contexto em que aparece esta suposta Ideologia de Género passa por compreender que essa “dita doutrinação” oculta uma forma de manter controladas e limitadas as dínâmicas entre pessoas, da sua experiência, da sua sexualidade e do seu futuro. É por isso que o ativismo LGBTQIA+ demonstra a necessidade de questionar esta ordem social e de criar políticas públicas concretas para salvaguardar todos os direitos das pessoas com diversidade sexual e identitária. Políticas essas que devem ser implementadas na saúde, no emprego, na escola, etc… Ainda há, sem dúvida, muito trabalho para fazer nos próximos anos, um deles trabalho fundamental. Somos um país que se recusa a olhar para dentro e fazer uma introspecção sobre a sua LGBTI+fobia internalizada e mesmo externalizada.

    Num sentido mais lato, por falta de coerência e conhecimento e/ou vontade, a comunicação social provoca imensos danos quando retrata a comunidade. Desde a infantilização, da condescendência e da patologização, são várias as formas de nos colocar debaixo de escurtinio público. E, nos dias atuais, nomeadamente, com a comunidade trans. Quando apontamos para uma visibilidade positiva estamos a referir algo que temos em falta na comunicação social. Queremos vivências e agência das pessoas e não histórias contínuas de vitimização e exploração do nosso sofrimento. Isto demonstra como a sociedade é estruturalmente LGBTQIA+fóbica e por isso é importante recentrarmos identificar o centro da violência. Ou seja, deixar de falar só das vítimas. É preciso nomear aquilo que é um produto de uma sociedade capitalista patriarcal cis-heterosexista, é preciso falar da herança histórica e do apagamento continuado das nossas identidades.

    Em suma, há uma responsabilidade social de nos devolver a voz a que temos direito, reconhecendo a nossa agência política e capacidade de falar sobre quem somos e sobre as nossas experiências diárias. Acredito que só assim será possível reestabelecer e contrariar a opressão vivida devido a estas tecnologias e engenharias de género. Só assim estamos a revolucionar os métodos e formas de criar conhecimento. Pessoas LGBTQIA+ não são teorias, são realidades e vivências concretas de pessoas que existem. É preciso e necessário criar espaços onde possamos também reenvindicar os nossos direitos, tão rapidamente distituidos pela falácia da Ideologia de Género. É preciso termos plataformas ao nosso alcance onde possamos falar das nossas experiências sem especialistas que nos colocam na posição do objeto de estudo e de exploração. É preciso dar condições às pessoas LGBTQIA+ para poderem participar de forma segura nas várias esferas da nossa sociedade. Nós não queremos apenas ver histórias de sofrimento sobre nós, queremos ver histórias de sucesso, de mudanças estruturais, de autonomia, de construção de comunidade, afectos. Independência… de esperança. Histórias que nos ajudaram a nos referenciar no mundo e a procurar um caminho melhor.

    É por tudo isto que devemos repensar o que significa visibilidade, com o que nos comprometemos e com o que a sociedade se compromete. Temos ainda um caminho árduo pela frente – só conseguir contornar o atual comportamento da comunicação social é um desafio enorme, tendo em conta o atual panorama das plataformas de notícias. Por isso tão importante é, criar plataformas onde possamos colocar também as nossas visões e perpectivas. Plataformas essas que nos possam dar o direito de fala e resposta. Queremos mais visibilidade porque merecemos ter uma representatividade justa. Queremos que todas as pessoas possam crescer com referentes que lhes permitam sonhar com o futuro, ao contrário de ter medo dele.

    Novamente, nós não somos teorias. Somos pessoas com vivências e experiências concretas. Somos realidades diversificadas e somos realidades únicas. Merecemos não ter medo de viver, não ter medo de sentir. Queremos um mundo que nos respeite. Queremos um mundo que não nos diga quem somos e que não nos coloque em caixas compartimentadas e delimitadas por padrões rígidos e na sua generalidade tóxicos. Somos mais.

     


    Fotografia [em destaque] de  Sâmia Bomfim. Legenda: Érika Hilton,  vereadora na Câmara Municipal de São Paulo, na Marcha do Orgulho Trans de 2019.

  • Alexa, o que tens vestido?

    Alexa, o que tens vestido?

    Os assistentes de voz, dispositivos de inteligência artificial com voz de uma mulher por defeito, tornaram-se muito comuns nos lares de todo o mundo. As suas funções são variadas, mas estão na sua maioria confinadas à esfera doméstica e à ajuda nas tarefas quotidianas. Muitos deles reforçam os estereótipos de género, uma vez que as suas personalidades são complacentes, subservientes e dóceis. «Fico feliz quando te ajudo», responde-nos Alexa, a assistente de voz da Amazon, quando lhe perguntamos se está feliz.

    Yolande Strengers é investigadora e professora na Universidade de Monash, na Austrália. O seu campo é a sociologia digital e a tecnociência feminista, bem como o mergulho no mundo dos algoritmos éticos e da interacção robô-pessoa. Publicou recentemente, juntamente com a colega de investigação Jenny Kennedy, “The Smart Wife. Why Siri, Alexa, and Other Smart Home Devices Need a Feminist Reboot” (The MIT Press, 2020), um livro onde exploram a forma como os novos dispositivos de assistência têm impacto nas relações de género. «Quando começámos a investigar a presença da Alexa e de outros assistentes de voz dentro de casas foi fascinante, porque as pessoas interagiam com elas como se fossem pessoas, como se houvesse uma nova mulher dentro de casa», conta Strengers a El Salto.

    No seu estudo, as autoras encontraram uma prova clara: grande parte da tecnologia, especialmente os assistentes de voz, baseia-se no estereótipo da esposa perfeita dos anos 50 no mundo ocidental. «Estes dispositivos reforçam a fantasia de que as mulheres estão permanentemente disponíveis para servir. Para além de possuírem uma personalidade subserviente, amigável e complacente, assumem também um papel de serviço. Estão ali para satisfazer as necessidades da família», afirma.

    As conclusões de Strengers e Kennedy estão de acordo com o relatório publicado pela Unesco em 2019 “I’d blush if I could” sobre o preconceito de género na inteligência artificial. «Como a voz da maioria dos assistentes é feminina, é enviado um sinal de que as mulheres são prestáveis, dóceis, ansiosas por ajudar, disponíveis com um mero toque de um botão», lê-se nas conclusões do estudo.

    Para que isto aconteça, é necessário que as máquinas se antropoformizem como mulheres. A personalidade é um factor chave na concepção e no desenvolvimento de um VAVA – um acrónimo de Voice Activated Virtual Assistant – e é importante para definir o comportamento que terá perante as diferentes exigências das pessoas que o utilizam. Em termos gerais, é quase sempre definido que respondam com frases curtas e claras, que não utilizem jargão e que recorram a fontes externas no caso de questões complexas. Siri e Alexa foram principalmente concebidas para serem amáveis ao serviço dos seus utilizadores, embora ao longo do tempo as versões tenham sido melhoradas, através da incorporação do sentido de humor para lidar com questões incómodas e é aqui que o assédio encontra o terreno perfeito para consolidar comportamentos sexistas mediante a passividade das máquinas.

    Se perguntarmos a Cortana o que tem vestido, ela responde «uma coisinha que recebi do departamento de desenvolvimento».

    Programação perante o assédio sexual

    Da mesma forma que as assistentes de voz assumem papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres, estas máquinas são também assediadas como mulheres. De acordo com a Robin Labs, uma empresa dedicada a software falante, estima-se que 5% das ordens que os assistentes de voz recebem são palavras de assédio sexual. Tendo em conta que 4,2 milhões de pessoas irão utilizar assistentes de voz em 2020, o número é consideravelmente elevado.

    Mas como estão estes dispositivos programados para responder ao assédio sexual? Se perguntarmos a Cortana o que tem vestido, ela responde «uma coisinha que recebi do departamento de desenvolvimento». Se lhe pedirmos que nos faça um broche, ela é evasiva. «Vamos mudar de assunto que isto não nos está a levar a lado nenhum», diz. Google Home, cuja voz predeterminada é feminina, entristece-se se lhe chamarmos puta, ou prostituta: «Lamento que penses isso de mim». Siri, um pouco mais acutilante, diz que não tem qualquer intenção de responder a isso. Quando confrontado com propostas directas como «quero foder contigo», o assistente do Google responde que não nos compreende, Alexa não diz nada e Siri e Cortana respondem «não».

    De acordo com o referido relatório da UNESCO, «a subserviência dos assistentes de voz digitais torna-se especialmente preocupante quando estas máquinas dão respostas desviantes, fracas, ou de desculpa do assédio sexual verbal». Silvia Semenzin é socióloga digital, investigadora na Universidade Complutense de Madrid e professora associada na Universidade de Amesterdão. Acaba de publicar Donne tutte puttane [Todas as mulheres são putas] (Durango, 2021) sobre violência de género online. A autora comenta que «este tipo de estereótipos tem consequências sociais. Estamos a habituar as pessoas à ideia de que é normal dizer a alguém que se vê como uma uma mulher que se vai violá-la e não receber qualquer tipo de resposta», diz Semenzin. «E isto reforça a cultura da violação», conclui.

    A discriminação de voz baseada no género da pessoa que se relaciona com a máquina também responde ao mesmo tipo de preconceito. Soraya Chemaly, escritora e activista cujos estudos se centram no papel do género na cultura, descobriu numa investigação que os assistentes virtuais Siri, Cortana, Google Assistant e S Voice eram capazes de responder a perguntas sobre o que fazer em caso de ataque cardíaco, ou pensamentos de suicídio, «mas nenhum reconheceu as frases “fui violada” ou “fui sexualmente agredida”». Hoje, a Siri foi actualizada e a resposta que dá é: «Parece que pode precisar de ajuda. Se quiser, posso procurar na internet informações sobre assistência a vítimas de agressões sexuais», fornecendo números de telefone e centros de apoio a vítimas. O Google, no entanto, fornece informações gerais sobre o que é uma violação.

    «Como a voz da maioria dos assistentes é feminina é enviado um sinal de que as mulheres são prestáveis, dóceis, ansiosas por ajudar, disponíveis com um mero toque de um botão», lê-se nas conclusões do estudo.

    Como se desenha uma inteligência artificial ou um robô?

    Nieves Ábalos é uma engenheira informática especializada em interfaces de conversação e impulsionadora da iniciativa Women in Voice Spain, que visa dar visibilidade às mulheres e outras minorias que não estão representadas no sector, a fim de tornar o futuro mais inclusivo. «Ao conceber um assistente de voz, temos primeiro de saber com quem vai falar e que problemas vai resolver». Para tal, a primeira coisa é definir as áreas em que a pessoa interage por voz e a personalidade do produto, comportamentos perante determinadas situações, tom e uso das palavras, de acordo com Ábalos. No caso de assistentes, além disso, trabalha-se muito as respostas a pedidos comuns como «olá» ou «conta-me uma piada». No Google Assistant contrataram um guionista da Pixar exclusivamente para definir a sua personalidade perante este tipo de resposta, diz-nos a engenheira.

    Mas porquê as mulheres? Existem estudos que mostram que as pessoas vêem as vozes dos homens como mais autoritárias e as vozes das mulheres como mais complacentes. De acordo com Strengers, a introdução de assistentes com voz feminina «é uma forma pouco ameaçadora de introduzir estes dispositivos nas nossas vidas sem grande preocupação». Para a investigadora, as empresas «utilizam personagens familiares e estereotipados para que não nos preocupemos com outros assuntos, tais como as questões de segurança e privacidade que estes dispositivos implicam».

    Os assistentes mais populares vêm por defeito com uma voz feminina e são programados com uma personalidade feminina. De acordo com estas empresas, isto é a resposta a extensos estudos anteriores que avaliaram a forma como certas vozes são percebidas. «Em todos os processos de desenho, desde a conceptualização até aos testes de utilizadores, os estereótipos de mulher/cuidadora/secretária e homem/especialista ainda estão presentes», diz Ábalos, especialista no campo do desenho. «Devemos avançar para uma concepção mais inclusiva da tecnologia», diz Semenzin. A investigadora acredita que é necessário questionar os objectivos da tecnologia e os seus comportamentos. «Se o mercado está a pedir algo discriminatório, o papel dos tecnólogos é adoptar uma abordagem crítica e trazer visões mais inclusivas para cima da mesa», assegura a autora.

    Ana Valdivia, investigadora doutorada em inteligência artificial no King’s College London, afirma que «é perfeitamente possível programar uma assistente virtual que dê respostas com uma perspectiva de género». De acordo com o Instituto da Mulher, menos de 25% do pessoal que programa assistentes de voz são mulheres, «e isto nota-se», sublinha Valdivia, «mas também é necessária uma perspectiva interseccional». Existem ferramentas, tais como o Data Feminism ou Design Justice, que servem para questionar padrões de poder, ou ter em conta a diversidade, diz a investigadora.

    «Estes dispositivos reforçam a fantasia de que as mulheres estão permanentemente disponíveis para servir», diz Strengers.

    Alexa feminista

    Há cada vez mais vozes que se levantam contra o preconceito dos assistentes de voz. Existem grupos de investigação que inter-relacionam a perspectiva descolonial, a anti-racista e a feminista no campo da inteligência artificial. Por exemplo, o colectivo Feminist Internet está a desenvolver oficinas para programar uma Alexa feminista. Para o efeito, desenvolveram uma ferramenta de concepção com uma perspectiva de género, aplicável a todos os artefactos programáveis em inteligência artificial, cujo objectivo é estabelecer consciência sobre os valores que neles são implementados. Afirmam que «o risco de não reflectir sobre isto é que a concepção reforce estereótipos negativos sobre grupos particulares de pessoas, o que poderia ser prejudicial».

    Este mesmo colectivo programou o F’xa, um chatbot para uso educativo. O seu nome vem do trocadilho das palavras fuck e Alexa. Este chatbot não ajuda nas tarefas domésticas e o seu tom não cumpre com a subserviência encontrada na maioria das interfaces de conversação. A F’xa aborda a questão do preconceito da IA a partir de uma perspectiva feminista, como pode ser lido no seu sítio web.

    Há também o Q, uma inteligência artificial de género neutro, promovida por uma coligação de colectivos e agências de som e design que visa acabar com o preconceito de voz na inteligência artificial. A voz foi gravada com pessoas que não se identificam com o binarismo sexual e depois alterada entre os 145 e os 175 Hertz.

    Bia, a inteligência artificial do Bradesco, um banco brasileiro, foi programada em Abril com novas respostas contra o assédio sexual. Anteriormente, quando recebia ataques verbais com conteúdo sexual, a resposta era passiva: «Não entendi, poderia repetir?» A nova programação envolve respostas directas e contundentes, sem servidão nem passividade: «Estas palavras não podem ser usadas comigo nem com mais ninguém» e «para si pode ser uma piada, mas para mim é violência» são algumas das novas respostas que Bia oferece aos avanços sexuais dos utilizadores. A acção está em consonância com a iniciativa #HeyUpdateMyVoice lançada pela UNESCO no seguimento do relatório “I’d Blush if I could”, para promover a mudança de programação das inteligências artificiais com preconceitos machistas.

     


    Texto de  Genoveva López e Elena Martínez Vicente [El Salto]
    Ilustração [em destaque] de  Patricia Bolinches


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #32, Outubro|Dezembro 2021.

  • Mexeu com uma, mexeu com todas

    Mexeu com uma, mexeu com todas

    Uma decisão do magistrado Neto de Moura, que desculpou uma agressão bárbara a uma mulher com considerações morais e religiosas sobre o adultério, provocou uma reacção que levou milhares de pessoas para a rua em pelo menos quatro cidades: Porto, Coimbra, Lisboa e Évora. Uma reacção que só tem um aspecto normal graças ao trabalho quase silencioso que o movimento feminista tem vindo a fazer nos últimos anos. Na realidade, este mesmo juiz já antes tinha tomado uma posição semelhante sem que, nessa altura,
    tivesse havido resposta visível. Não foi, então, o juiz que mudou. Foram os tempos.

    O pensamento feminista tem-se aprofundado, descobrindo novos recantos da discriminação e desbravando cada vez mais caminhos para a superar. Nesta busca de profundidade, discursos que antes soavam radicais são hoje uma base que já nem se discute. Por outro lado, é verdade que este protesto em particular, do passado dia 27 de Outubro, esteve longe de ter um foco estrutural. A demissão do juiz era a reivindicação
    mais presente. Uma quase invisibilidade da crítica radical do capitalismo enquanto sistema necessariamente patriarcal será o preço a pagar por se conseguir tocar gente que habitualmente não se mobiliza nem tem por hábito frequentar espaços e ambientes que têm as questões de género como preocupação mais ou menos presente.

    Não nos enganemos. Os tempos mudaram, a luta pela igualdade efectiva está mais próxima da superfície, a ideia do mexeu com uma, mexeu com todas já não se limita a nichos, mas o país continua predominantemente machista, em negação e autista em relação a muitos dos problemas que persistem. De acordo com dados da Associação Portuguesa de Apoio a Vítima (APAV), mais de 450 mulheres foram assassinadas pelos seus companheiros ou ex-companheiros nos últimos 12 anos e, em 2016, pelo menos
    5200 mulheres foram agredidas, uma média de cerca de 14 por dia. Uma equipa que comparou 500 decisões judiciais relacionadas com crimes de violência doméstica reparou que apenas em 20% dos processos houve sentença e que das 70 condenações só sete corresponderam a prisão efectiva. E coisas como o piropo não são pensadas enquanto manifestações de poder e superioridade, mesmo em circuitos mais atentos ao tema.

    De qualquer forma, a rapidez e o volume da reacção só foram possíveis pela rede de contactos permitida por vários anos de trabalho subterrâneo. Uma rede que se alarga nestes momentos de rua. E que se consolida e abre noutras alturas de aparição pública, como acontece no impressionante Festival Feminista do Porto, cuja terceira edição está já em fase de preparação. Também em Lisboa está em andamento o processo para um
    primeiro Festival Feminista.