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  • Histórias da escravatura no Alentejo

    Histórias da escravatura no Alentejo

    No verão passado, Rui Gomes Coelho e Sara Simões, à frente de uma equipa internacional de arqueólogos, foram à procura da memória da escravatura africana num monte alentejano em Alcácer do Sal, depois de terem estado anteriormente no vale do Cacheu, na Guiné-Bissau. No vale do Sado escutaram as reminiscências daqueles que ficaram lembrados como «os negros do Sado». Os trabalhos arqueológicos juntam as peças desse puzzle histórico com a complexa malha cultural alentejana, os efeitos sócio-ambientais do colonialismo e da escravidão no vale do Sado e as continuidades com o latifúndio extrativista dos campos do Sul.

    Que objetivos vos levaram ao Monte do Vale de Lachique em Alcácer do Sal e que questões o projeto ECOFREEDOM – Ecologias da Liberdade: Materialidades da Escravidão e Pós-emancipação no Mundo Atlântico pretende suscitar?

    Rui Gomes Coelho: Este projeto procura analisar e refletir sobre os efeitos sociais e ambientais que decorreram do colonialismo e da escravidão modernas, isto é, a partir dos séculos XV-XVI. Orientam-nos algumas questões específicas: Como se materializaram na vida quotidiana as mudanças entre uma sociedade onde a escravatura era um fator determinante e uma sociedade em que todos eram formalmente livres? Que transformações ambientais decorreram desses modelos de sociedade? Pensamos que sociedades diferentes tiveram ecologias distintas e que, de uma forma geral, essas ecologias corresponderam a relações específicas entre plantas, humanos e outros animais e a paisagem. Por outro lado, diferentes ecologias indexaram variados tipos de práticas agrícolas e de gestão do trabalho, assim como padrões distintos de ocupação do território. É possível que, numa sociedade esclavagista, a agricultura estivesse mais dependente de culturas comerciais, ou de culturas que pudessem ser úteis ao próprio tráfico de pessoas. A emergência do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e das economias de plantação tiveram consequências brutais e formaram o mundo em que vivemos hoje. Entre essas transformações estão, por exemplo, o abandono de áreas cultivadas de forma tradicional e a generalização da monocultura, com a consequente redução da diversidade agrícola e homogeneização sensorial das sociedades. Para estudarmos este processo decidimos selecionar dois locais distintos no mundo Atlântico: O vale do Cacheu, na Guiné-Bissau, e o vale do Sado, em Portugal. São regiões muito diferentes, mas une-as uma história comum: as suas posições exemplares no contexto que tratamos, quer enquanto porto de tráfico, no caso de Cacheu, quer enquanto fronteira de experimentação agrícola, no caso do Sado. Esta história, que não é linear, desvela-se nos campos de arroz que encontramos tanto no Sado como em Cacheu. O arroz foi, de certa forma, uma cultura agrícola que ganhou importância com o tráfico, e terá sido neste contexto que passou a ser cultivada no Alentejo. De acordo com estudos recentes, é possível que tenham sido africanos escravizados os responsáveis pelo saber-fazer que está por detrás dos campos de arroz do Sado.

    Que objeto ou referência escrita nos poderiam exemplificar para explicar a história «desenterrada» no Monte do Vale de Lachique?

    Sara Simões: Muito dificilmente encontraremos um objeto que possamos dizer que foi utilizado por uma pessoa escravizada, é muito difícil individualizar dessa forma o registo arqueológico. São contextos raríssimos aqueles em que é possível reconhecer evidências materiais que documentem uma condição social como a escravidão. Casos como o do Vale de Gafaria, em Lagos, são excecionais. Ali foram encontradas várias inumações de africanos escravizados. A escassez de traços materiais da escravidão não é estranha, se pensarmos que estamos a falar de comunidades propositada e continuamente silenciadas e marginalizadas. Por isso, mais importante do que tentar encontrar de uma forma analítica provas materiais da existência de escravizados nestes espaços, é importante conjugarmos os dados arqueológicos, paleoambientais ou de análise da paisagem para pensar o contexto histórico e social sobre estas presenças invisibilizadas. Se pensarmos bem, a paisagem e os ambientes urbanos foram transformados por pessoas escravizadas durante séculos. No caso da área do Monte do Vale de Lachique, por exemplo, existe documentação histórica que aponta para a existência de mão-de-obra escravizada africana nas propriedades agrícolas do vale do Sado, logo a partir do século XV. E o Monte do Vale de Lachique seria uma dessas propriedades. Durante a escavação deste ano, encontrámos contextos arqueológicos bastante seguros e coerentes que indicam a ocupação deste lugar desde finais do século XV ou inícios do século XVI, nomeadamente áreas destinadas aos trabalhos agrícolas e uma variedade de objetos de uso quotidiano. E temos toda a paisagem, com os arrozais tão próximos e parte da propriedade que circunda o Monte do Vale de Lachique. Até há pouco tempo, existia um grande preconceito em torno desta comunidade sadina de origem africana, conhecida como «os negros do Sado», ou «os carapinhas do Sado». Um dos nossos propósitos, tanto em Cacheu como no Sado, tem sido o de criarmos proximidade com as comunidades locais e trabalharmos em conjunto sobre estes legados comuns. Escutar as histórias e memórias ligadas a estes momentos, ainda muito presentes e enraizadas nestas comunidades, são fundamentais para darmos sentido às materialidades encontradas.

    RGC: As casas do monte são provavelmente o testemunho mais eloquente das transformações que decorreram da ocupação do vale do Sado a partir do século XV e da sua transformação numa fronteira agrícola a partir dessa época. No sítio onde hoje encontramos o Monte do Vale de Lachique não existia nada no final do século XV, inícios do século XVI, quando lá foi implantada aquela unidade agrícola e residencial. Provavelmente não houve ninguém a viver ali pelas redondezas por mais de mil anos, desde o tempo do império romano. Encontrámos material arqueológico romano, e depois há um hiato tremendo que termina na época em que estamos a estudar. Este hiato, que é uma espécie de silêncio muito ruidoso, ajuda-nos a entender a escassez de documentação histórica sobre a região até essa época e a referência a «matos maninhos» que surge de passagem num documento sobre uma área que, um século depois, é já uma herdade. Estamos perante indícios do que pode ter sido um processo de colonização interna, num contexto em que estavam a ser levadas muitas pessoas escravizadas para trabalhar no Alentejo e no vale do Sado. As colegas do Laboratório de Arqueociências do Ministério da Cultura e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa recolheram amostras de sedimentos do leito do Sado junto ao Monte do Vale de Lachique. Têm estado a analisar esses dados, e até ao momento entenderam que, no final da Idade Média e inícios do período moderno, houve alterações nas razões isotópicas de azoto e carbono que não se explicam pela influência marinha, pois nessa época o nível médio do mar já estava cinco ou seis metros abaixo. É possível que esta viragem se explique por transformações nas práticas agrícolas no vale. São dados preliminares, ainda. Como não se conhecem construções mais antigas deste tipo na área, não podemos comparar o que encontrámos no Monte do Vale de Lachique. Mas aquilo que vemos na construção mais antiga do monte é o desenvolvimento de uma arquitetura planeada para alojar um grande número de pessoas em simultâneo, ou em momentos específicos do ano, que estão ali para praticar um modelo de agricultura intensiva. Estamos a falar de um edifício longo, com muitas divisões pequenas com portas voltadas para a rua e sem janelas. Este modelo é muito mais antigo, mas no período moderno é construído numa conjuntura muito específica. Esses quartinhos serviram para abrigar famílias inteiras de trabalhadores até ao século XX e, muito provavelmente, serviram de habitação aos escravizados que viveram ali anteriormente. Na aldeia de São Romão, ao lado do monte, fomos conhecer uma senhora que lá cresceu e nos falou da experiência do monte como uma pequena aldeia com várias famílias de camponeses e o vaivém de trabalhadores sazonais.

    HerbertoSmith

    Como descreveriam o fio condutor – na forma de propriedade e uso da terra – que liga os 5% a 10% (conforme dados do historiador Jorge Fonseca) de escravos africanos no sul do país em época moderna ao modo de exploração latifundiária que caracteriza o Alentejo?

    RGC: Vale a pena voltarmos ao monte para pensarmos nesta questão. Para alguns arqueólogos, o monte alentejano é a última encarnação de um modelo de gestão do território que tem o seu princípio na villa romana, que era uma unidade produtiva ancorada na figura patriarcal do dono da terra, do latifúndio. O latifundiário não era um agricultor qualquer. Enquanto patriarca, era a figura que justificava a produção económica e estruturava uma ordem social extremamente hierarquizada, que incluía a família mais direta, os trabalhadores livres e os escravizados. Esta lógica nunca desapareceu, ainda que se conheça mal o modo como foi articulada em cada momento e quais foram os seus agentes concretos. O que é certo é que o latifúndio é transplantado para o Brasil e outras partes do mundo Atlântico, onde se reconfigura para servir à lógica extrativista centrada na monocultura. A casa senhorial, a «casa grande», estruturou a paisagem da fronteira agrícola e o regime sensorial que legitimou uma nova ordem social racializada. Podemos pensar que esta fronteira se tenha estendido e depois voltado a casa, isto é, tenha alimentado a forma como se imaginou e materializou a grande propriedade no Sul de Portugal. É inevitável que a plantação americana, o grande laboratório de experimentação do capitalismo, tenha influenciado o latifúndio alentejano como o conhecemos hoje. Sobretudo a partir do século XIX, com as desamortizações e a entrada em cena de uma nova classe de senhores rurais. Assim, o que podemos dizer é que a lógica patriarcal que estrutura e legitima a consolidação do latifúndio passou gradualmente a convergir com um modelo extrativista, centrado na monocultura, sempre dependente de uma força de trabalho sujeita a relações servis cada vez mais marcadas por hierarquias raciais. Os escravizados que foram levados para os campos alentejanos nos séculos XVI-XVII foram uma minoria no universo dos trabalhadores agrícolas, mas a sua condição foi suficiente para gerar um novo tipo de relações sociais em benefício dos donos das terras e as relações destes com o resto da sociedade. Não é por acaso que tantas situações análogas à escravidão tenham vindo a ser documentadas no Alentejo. Elas são inevitáveis enquanto persistir o latifúndio, mesmo que os protagonistas específicos vão mudando.

    Assim sendo hoje o Alentejo continuamente estruturado por praticas de domínio da paisagem, pelas monoculturas e metas produtivistas levando à exaustão da natureza; ou por essas clivagens cada vez mais acentuadas na riqueza, da pose e uso da terra, afinal que perceção e conhecimento atual dessas continuidades puderam encontrar em Alcácer do Sal?

    SS: O Sado, atualmente, é um rio seco e parado, sendo os arrozais regados por sistemas de captação de água artificiais. As culturas tradicionais estão em declínio e essa homogeneização do uso da terra reflete-se também na exaustão humana. Com a extrema mecanização dos trabalhos agrícolas e a quase inexistência de práticas de agricultura tradicionais, as aldeias foram desertificadas e transformaram-se em lugares envelhecidos com comunidades profundamente isoladas e carentes de serviços públicos básicos. As populações em idade ativa e os jovens saem e não voltam devido à inexistência de perspetivas de futuro. A monocultura perpetua um sistema de concentração da posse da terra. Hoje em dia, às famílias latifundiárias, juntam-se as grandes multinacionais. As precárias condições de trabalho e, provavelmente, o desprestígio do trabalho agrícola ainda existente em Portugal fazem com que os trabalhos do campo sejam feitos maioritariamente por mão-de-obra imigrante. Fala-se num Alentejo multicultural, mas a que custo? Perante a falta de condições laborais e sem perspetivas de mobilidade social, os imigrantes são enleados na reprodução de um sistema hierárquico e de exploração da terra que tem vindo a marcar esta região desde há séculos.

    Devemos refletir na forma como comunidades rurais deram sentido às dificuldades das suas vidas, isto é, à dureza do trabalho, a miséria, as humilhações sociais, e até os castigos.

    Por outro lado, como têm vindo a sugerir no vosso projeto, de que forma é que a prática arqueológica, isto é, o processo de produção de conhecimento sobre o passado, se cruza com o projeto latifundista?

    RGC: O caráter extrativista do latifúndio é antigo, e teve um impacto na maneira como se produz, como se come, e como se relacionam as pessoas no Sul de Portugal. Mas também teve um impacto na forma como se imagina o passado e o futuro. A arqueologia não se faz, nem nunca se fez, à parte destas relações de poder. A destruição de sítios arqueológicos nos latifúndios alentejanos é apenas outra forma de reforçar a desigualdade no acesso à terra. Ou de mostrar que há passados e futuros que valem mais que outros, dependendo de quem os invoca. A relação dos arqueólogos com o extrativismo latifundiário também nunca foi inocente e, no fundo, o tipo de arqueologia que se construiu em Portugal foi uma extensão epistémica do latifúndio sobre o conhecimento do passado. A arqueologia fez parte deste processo desde que apareceu no séc. XIX como projeto intelectual das elites portuguesas. Durante todo o séc. XX, a arqueologia foi uma forma de as elites legitimarem a posse da terra através de uma prática ilustrada de produção de conhecimento, mas que era efetivamente colonial. É conhecida a história de uma cooperativa agrícola alentejana que, durante a Reforma Agrária, se recusou a entregar aos arqueólogos materiais arqueológicos: o passado da terra, tal como o presente e o futuro, pertenciam ao povo. O latifúndio neoliberal revela-se de outra maneira na sua relação com a arqueologia. Tal como noutras dimensões da vida, o neoliberalismo limita-se a extrair riqueza do latifúndio até à exaustão, sem quaisquer perspetivas de renovação dos recursos que o sustentam. Podemos pensar, assim, que a destruição de sítios arqueológicos e os trabalhos são duas faces da mesma moeda. Cabe aos profissionais da arqueologia e do património refletirem criticamente sobre os seus papéis nesse processo.

    SS: Atualmente, com as monoculturas e explorações intensivas que têm levado aos grandes projetos de afetação da paisagem e dos recursos no Alentejo, o que se vê é uma grande dificuldade em salvaguardar ou proteger o património arqueológico. A arqueologia, mais uma vez, encontra-se bastante condicionada e, diria até, controlada pelas elites económicas. Contudo, perante todos os constrangimentos a que os arqueólogos estão sujeitos na sua prática profissional, é fundamental que exista essa consciência. Coletivamente, é necessário que os arqueológos tenham a responsabilidade social e o dever de refletir sobre o seu lugar, enquanto cidadãos ou profissionais, nestas economias extrativistas. Apesar de todas as dificuldades políticas e económicas a que a prática arqueológica continua sujeita, devemos ser capazes de refletir sobre as nossas cumplicidades e de que forma podemos resistir, propondo novos modelos de produção de conhecimento.

    O vosso projeto envolve e parte de coletivos africanos ou afrodescendentes (como seja a Batoto Yetu Portugal e a DJASS – Associação de Afrodescendentes), que me dizias [RGC] corresponderem a uma comunidade política, estruturada por críticas decoloniais e pela resistência ao modo como a sociedade portuguesa é ainda marcada por desigualdades económicas e raciais. Esses coletivos encontraram-se com uma segunda e distinta comunidade, a rural e alentejana. Que encontros e que desencontros tal cruzamento suscita?

    RGC: Este é um projeto comprometido com lutas pela justiça social e ambiental e, por isso, só faz sentido que a investigação que nele se enquadra seja feita em conjunto ou em colaboração com coletivos e indivíduos com quem tenhamos uma convergência. A questão que nos colocamos sempre é: de que forma é que a reflexão e a prática arqueológicas, que enquanto campo disciplinar segue protocolos objetivos e claros, podem contribuir para uma agenda comum? Entendemos que essa convergência deve ser ancorada num processo de investigação, de memorialização e discussão. Claro que o nosso relacionamento com esses coletivos e indivíduos se estrutura de maneira muito variada, dependendo do contexto. Neste projeto somos felizardos na medida em que estamos a colaborar, embora numa linha distinta, com o trabalho que esses coletivos andam a fazer há muito tempo. A comunidade, seja ela local, política, ou outra, é mediada de muitas formas. Por exemplo, na Guiné-Bissau trabalhamos com a organização não-governamental guineense Acção para o Desenvolvimento, que tem trabalhado criticamente a memória da escravatura através do Memorial da Escravatura e do Tráfico Negreiro de Cacheu. O nosso trabalho em Cacheu envolve consultas com agentes do estado e lideranças tradicionais, mas também com a população de Cacheu de um modo geral. Uma das coisas que os nossos colegas em Cacheu estão a fazer agora mesmo é um inquérito alargado sobre transformações causadas pelo nosso projeto, tanto em termos de expetativas sobre a vida em comum como na reflexão pública sobre a escravatura e os tempos coloniais. No Alentejo as coisas funcionam de forma muito diferente. A Batoto Yetu Portugal e a DJASS são duas das organizações que mais se têm destacado na reflexão pública sobre a memória e os legados da escravatura em Portugal, tendo lançado bases muito concretas para essa discussão. A DJASS, por exemplo, liderou o processo para a construção de um memorial da escravatura em Lisboa, ao qual não foi alheia uma reflexão crítica sobre o Núcleo Museológico Rota da Escravatura em Lagos. A Associação Batoto Yetu Portugal, por outro lado, tem organizado visitas ao vale do Sado a propósito da memória africana no país. No nosso projeto, fomos ao encontro deste trabalho e propusemos fazer uma arqueologia que servisse para obter informação, mas que fosse sobretudo geradora de relações entre todos os agentes envolvidos e de discussões no espaço público. A Câmara Municipal de Alcácer do Sal, organização parceira, juntou-se também a este projeto com uma contribuição fundamental na mediação entre a equipa e a comunidade local.

    SS: Nós partimos de uma perspetiva arqueológica, mas procuramos entender através desses traços materiais, como é que os fenómenos da escravidão ou dos trabalhos forçados se refletem ainda hoje nas nossas sociedades. Como é que as diferentes comunidades envolvidas trabalham a memória e agem perante esses legados históricos. E, a partir daí, procuramos que a reflexão seja feita de forma conjunta. Norteamos as nossas linhas de trabalho também em função dessas expetativas e necessidades das diferentes comunidades. Porque são traumas e responsabilidades que têm de ser pensados e processados em paralelo e de forma simultânea, a partir das experiências concretas de cada comunidade. Só assim será possível chegarmos a um patamar em que possamos falar de justiça e reparação social e ambiental. E o nosso trabalho, tanto na Guiné-Bissau como em Portugal, tem sido acolhido de forma muito convicta por parte dos vários agentes sociais, o que mostra precisamente essa vontade de falar e trabalhar sobre estes legados comuns e que nos afetam de formas tão distintas.

    HerbertoSmith
    Cerimónia de homenagem às vítimas da escravatura e aos ancestrais africanos.

    Regresso ao historiador Jorge Fonseca que diferencia em época moderna a relação esclavagista no sul de Portugal em face de uma brutalidade maior no modelo das plantações e engenhos da América do Sul. Para lá das diferenças de escala esse «amenizar» decorreria essencialmente de um nível de proximidade, sem com isso excluir a relação colonial e mercantil desses «bens patrimoniais». Atendendo ao vosso trabalho simultâneo no Brasil e na Guiné-Bissau, que quadro de diferenças pode efetivamente ser enunciado e qual o quadro que equipara sem distinções o modo de trato da condição esclavagista e racial?

    RGC: Não me parece produtivo pensarmos em semelhanças e diferenças entre sofrimentos, pois seria uma forma de hierarquizar a dor. E isso, como sabemos, é todo um tropo colonial. Sabemos que a racialização da escravatura foi acompanhada por um processo de desumanização dos africanos e de brutalização dos seus corpos. Também sabemos que esse processo foi acompanhado pela consolidação do latifúndio e pela definição de um modelo extrativista de gestão da terra e do trabalho. A insuficiência da documentação não pode sustentar uma comparação desse tipo. Por outro lado, penso que devemos refletir na forma como comunidades rurais deram sentido às dificuldades das suas vidas, isto é, à dureza do trabalho, a miséria, as humilhações sociais, e até os castigos. Em algumas partes do Alentejo é comum ouvir falar-se dessas experiências como uma escravatura; um termo que tem pouco de metafórico quando se desdobra em lembranças e lágrimas. Fui ouvir apreciações semelhantes em contextos diferentes, mas com histórias convergentes. Quando fiz trabalho de campo no interior do Rio de Janeiro, para o meu doutoramento, um dos meus interlocutores disse-me que a escravatura só tinha sido abolida no tempo Getúlio Vargas. Havia uma explicação: foi esse o presidente que, em 1932, reconheceu a personalidade jurídica do trabalhador através da criação da carteira de trabalho. Na Guiné-Bissau, um senhor que tinha sido torturado pelas autoridades coloniais por não cumprir com o seu trabalho disse-me que a escravatura só tinha sido abolida em 1956. Mas porquê? Entendi depois que tinha sido o ano da fundação do PAIGC. Interessa-me a forma como a memória da instituição esclavagista se vai re-significando, dando sentido e visibilidade aos seus legados no tempo longo, apontando simultaneamente para os momentos de rutura e de transformação radical. Em Portugal, inevitavelmente, as experiências da escravatura fora de tempo expiraram com o 25 de Abril de 1974. Em todo o caso, as situações análogas à escravatura que têm sido reportadas um pouco por todo o Alentejo nos últimos anos obrigam-nos a refletir sobre estas convergências.

    SS: No caso da Guiné-Bissau, o país encontra-se a enfrentar consequências gravíssimas das alterações climáticas. Não raras vezes ouvi durante o meu trabalho de campo em Cacheu que o tempo da escravidão nunca acabou. É uma estratégia narrativa que evidencia a continuidade de privações várias. E continuam, nomeadamente através do desaparecimento dos campos para prática da agricultura, da destruição das bolanhas devido à subida do nível do mar, da falta de recursos provenientes do rio causada pelas alterações dos ecossistemas que sustentam e modelam a vida destas comunidades. Está subjacente essa re-significação do que se perceciona como escravidão. Ainda que nem sempre exista essa formulação, é muito percetível o entendimento que as pessoas têm de que são elas que sofrem as consequências de algo que lhes é alheio e exterior. E, neste caso, sofrem precisamente as consequências de um legado esclavagista e colonial.

    De volta ao vosso papel como arqueólogos, quais são os principais pontos conflituantes que consideram poder existir entre essa vossa agenda de esquerda –assumindo o «património cultural» como um processo de mediação do passado no presente, de acordo com as agendas do presente – com a(s) agenda(s) dominante(s) do património cultural em Portugal e a narrativa do estado-nação?

    SS: Em Portugal, assente numa construção muito positivista, só há pouco tempo deixou de ser tão audível esta ideia de que os arqueólogos devem ser imparciais na sua prática profissional, e que devem ter uma responsabilidade social. Aliás, só agora e de forma bastante ténue, se começa a falar de uma «arqueologia contemporânea» em Portugal, por exemplo. Ou seja, a arqueologia tem tido um foco no passado mais distante e um pouco sem uma conexão clara às questões que nos informam enquanto sociedade nos dias de hoje. Nós temos um posicionamento, acreditamos numa arqueologia comprometida política e socialmente, e que não raras vezes entra em conflito com as agendas dominantes. Entra em conflito com um contexto onde ainda se discute se devemos construir ou não um Museu das Descobertas, continuando a exaltar uma suposta epopeia portuguesa, mas sem um reconhecimento da violência inerente a esse fenómeno de exploração e dominação. É também um contexto em que recentemente se inaugurou o Museu do Tesouro Real, exaltando a beleza das joias da Coroa, mas nunca assumindo que todo aquele ouro e pedras preciosas foram roubados e extraídos através de mão-de-obra escravizada, onde existe por parte dos agentes políticos e culturais um boicote à construção do Memorial de Homenagem às Pessoas Escravizadas… Tudo isto surge em conformidade com uma narrativa veladamente nacionalista, de um Portugal social e culturalmente homogéneo, branco e, na sua génese, europeu.

    RGC: O património cultural é um campo conflituoso e é natural que assim seja, pois é nele que se confrontam perspetivas distintas sobre o passado ou os passados que reclamamos como nossos. É também através do património cultural que os vários grupos sociais fazem a mediação dos seus interesses. A consciência destes processos não é nova, mesmo no caso da arqueologia. Na década de 1970, logo após o 25 de Abril, houve coletivos que fizeram propostas transformadoras muito interessantes. No Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, por exemplo, montou-se uma exposição declaradamente comprometida com uma leitura materialista da história em que os colegas decidiram fazer uma narrativa museológica que começava no Paleolítico e acabava na reforma agrária. O Campo Arqueológico de Mértola apareceu também num contexto em que profissionais do património trabalharam com e a partir de uma comunidade local para desfazer um processo de dupla marginalização: histórica, com a invisibilização do passado islâmico em Portugal, e das vidas das próprias comunidades do interior alentejano. São experiências que nos ajudam a refletir o nosso papel hoje, enquanto arqueólogos socialmente comprometidos, mas também sobre a fragilidade política deste tipo de trabalho e de propostas. O património cultural continua a ser tratado de forma fetichista. Este é um fenómeno transversal a todas as áreas políticas e que nos ajuda a entender as malhas da colonialidade do saber, e da forma como se produz conhecimento sobre o passado em Portugal.

     


    Fotografia [em destaque] de  Rui Gomes Coelho
    Restantes fotografias de  Herberto Smith


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #39, Outubro|Dezembro 2023.

  • Guerra e paz: o capital ou a vida!

    Guerra e paz: o capital ou a vida!

    Entre 8 e 11 de Setembro, activistas de mais de 20 países e culturas – da Suécia à Eslovénia, de Portugal ao Azerbaijão, do Curdistão à Ucrânia… – reuniram-se em Sofia, capital da Bulgária, para debater a actual conjuntura política e coordenar formas de luta contra as restrições à vida colocadas pelo capital. Com o cenário de fundo de uma guerra no coração da Europa, uma centena e meia de activistas convocados pela Transnational Social Strike Platform (TSS) partilharam pontos de vista sobre a degradação das condições de reprodução social em curso e problematizaram as causas da sua origem: a externalização dos custos causados pela guerra na Ucrânia e pagos pela classe trabalhadora; a migração e o regime de fronteira da UE; a feminização da sobrevivência e os desdobramentos patriarcais; o imparável fluxo do capital e a fascistização dos territórios; e as ilusões do “capitalismo verde” na era da transição energética. A reportagem completa sobre o encontro internacional promovido pela TSS, plataforma que visa “construir as condições de possibilidade de uma greve social transnacional”, pode ser lida no site do jornal MAPA. Do relato repleto de imagens e de episódios que traduzem a vivacidade dos dias em Sofia, destacamos as passagens sobre o tema da emigração e da guerra em curso.


    «A classe trabalhadora sempre foi uma classe migrante»

    No primeiro painel, “Migrant and Feminized Labour”, Valentina Vasilionova, a presidente da Federação Europeia dos Sindicatos de Trabalhadores Agrícolas, sustenta que «as mulheres estão na fundação da reprodução social» e traça a imagem de que o «pão que comemos tem o cheiro do seu esforço». Mulheres que, com a precarização das condições de vida na Bulgária, foram forçadas a emigrar, passando a trabalhar em actividades agrícolas, separadas das suas famílias e enviando os seus ordenados. O sector alimentar da UE está fortemente dependente de uma força de trabalho não nacional, empregando um elevado número de trabalhadores sazonais e migrantes, uma realidade a que o lock-down de fronteiras a contas da pandemia deu particular visibilidade. Estima-se em um milhão o número de trabalhadores agrícolas. Depois de vinte anos de luta, Vasilionova enfatiza que em Julho deste ano a UE reconheceu os direitos sociais dos trabalhadores agrícolas, apelando aos Estados-membros para assegurar a correcta aplicação da legislação comunitária relevante para combater o abuso e proteger as vítimas. Menos mal se a directiva comunitária sair do papel… Contudo, a estimativa oficial reflecte apenas a força de trabalho legal, excluindo os indocumentados. A realidade do trabalho agrícola sazonal é dura, levada a cabo em circunstâncias de sobre-exploração laboral e sob condições de vida habitualmente precárias, em alojamentos partilhados, nos piores casos em celeiros, contentores ou abrigos rudimentares, sem água corrente, electricidade ou saneamento apropriado, como sucede em Portugal particularmente nas plantações de morangos e mirtilos ou nos olivais e amendoais de produção superintensiva, em certas zonas do Alentejo. Os migrantes indocumentados, mas também os legais, podem ser ainda vítimas de máfias ilegais. Formas modernas de escravatura que coagem os trabalhadores a viver em permanência sob a ameaça de perderem os seus empregos, de serem repatriados ou de sofrerem danos físicos ou violência psicológica. As mulheres, em particular, correm o risco adicional de serem exploradas e abusadas sexualmente como parte intrínseca de um sistema organizado de exploração, abusos e degradação extremos que têm sido reportados em algumas regiões de Espanha (Huelva e Almeria), Itália (Ragusa, na Sicília) e no Alentejo (Portugal). A sindicalista búlgara reforça que «a situação dos trabalhadores sazonais e migrantes é inaceitável». Defende que precisamos de «trabalho decente e salários justos de maneira a dar outra perspectiva às pessoas nos seus próprios países». Não hesita em reivindicar que a «Europa tem de nos dar um futuro melhor».

    migrantes

    Kostadinka Kuneva tornou-se um símbolo da luta sindical das mulheres migrantes, não só na Bulgária, mas também na Grécia. Sem dúvida, foi a participante mais acarinhada pelos presentes ao longo das jornadas de quatro dias. Se em 2008 o primeiro estampido da rebelião nas ruas de Atenas ficou marcado pelo assassinato do jovem Alexandros Grigoropoulos, outro episódio brutal indignou a sociedade grega. Kostadinka, à época sindicalista e líder do Sindicato Grego de Empregadas de Limpeza e Empregados Domésticos, regressava a casa, terminado o seu turno da noite, quando foi atacada por agressores desconhecidos com ácido sulfúrico. O ataque deixou o seu rosto desfigurado, causando a perda de visão num dos seus olhos e, forçada a engolir uma parte do ácido, danificando severamente órgãos internos. Formada em História, Kostadinka trabalhava como empregada de limpeza para a empresa IKOMET, e o ataque foi descrito como a agressão mais grave a um sindicalista na Grécia em mais de meio século.

    Num extraordinário registo de humildade, Kostadinka nunca se referiu ao episódio pessoal de violência que sofreu, em que confluíram o patriarcado do salário e a xenofobia, preferindo falar das condições estruturais de exploração dos migrantes e da violência a que estão submetidos. Entre vários exemplos, mencionou o caso dos 28 migrantes do Bangladesh que foram feridos num tiroteio, perpetrado por um dos supervisores da plantação de morangos de Nea Manolada (Grécia, 2013), depois de os trabalhadores se auto-organizarem e reclamarem seis meses de salários em atraso. A salada de morangos sangrentos, com os produtos tóxicos do racismo e o aditivo da exploração laboral, atingiu o escândalo quando os capatazes e os donos da plantação foram ilibados em tribunal, num exemplo demonstrativo da correlação entre a reprodução selvagem do capital e as estruturas estatais de coacção legal.

    Ao conviver de perto com os dramas mais duros da migração «é difícil não rejeitar em absoluto a Frontex»

    Keith Taylor, dos Angry Workers (UK), aproveitou o momento para lembrar que «a classe trabalhadora sempre foi uma classe migrante». De facto, o poder coage os trabalhadores a migrar e o capital move-se. Desde a transição do feudalismo para o mercantilismo que a materialidade dos processos históricos de herança imperialista e neo-imperialista do movimento do capital condicionam, quando não obrigam, «as pessoas e as coisas», pluriculturas e seus estilos de vida, a saírem dos seus lugares. Forçadas a abandonar os seus lugares de origem, a classe migrante aspira ao direito de sobrevivência ou «direito de fuga» (Sandro Mezzadra) ao mesmo tempo que assegura a reprodução do capital e o poder de uma nova ordem mundial. À luz desta complexidade – a relação entre fluxos do capital e fluxos migratórios –, em que termos podemos descrever a política migratória da UE no seu todo? A fronteira não dá descanso. Não há meses sem mortes, seja na vala de Ceuta, seja em águas italianas ou gregas, seja na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, seja na Turquia, na Líbia ou no Níger, a fronteira fáctica mais a sul da Frontex. Tanto em terra como no mar, o risco é permanente. É suficiente mover-se para que o direito à vida seja posto em cheque.

    Aigul Hakimova conhece como a palma da mão este drama. Há vinte anos que a activista quirguize faz parte do colectivo Infokolpa Initiative para denunciar o regime de fronteira da UE. «É um modelo que cria condições específicas de exploração dos migrantes. Ao abrir ou fechar as fronteiras em determinados locais, ao filtrar e seleccionar quem pode e quem não pode passar, ora empurra as pessoas a sobreviver em condições precárias, ora força-as a atravessar fronteiras em circunstâncias perigosíssimas». Aigul vive em Liubliana e, apesar de sublinhar que «os migrantes ocupam uma faixa crucial de sujeição à exploração do capital dentro da UE», considera que «a ideia do projecto de uma união europeia não é má». Evocando os episódios de extrema violência das forças da ordem polacas na raia com a Bielorússia, salientando «que todo o sistema de protecção elaborado pela UE se tornou refém de um Estado que implementou as suas próprias regras», sustenta que preferia «uma autoridade europeia a controlar o espaço Schengen do que as polícias nacionais». Ilre tem uma opinião mais céptica. A activista de origem turca está na frente da defesa dos direitos dos migrantes na ilha de Lesbos e explica que ao conviver de perto com os dramas mais duros da migração «é difícil não rejeitar em absoluto a Frontex», um questionamento debatido no workshop “Migrant struggles against exploitation, racism and patriarchal violence”. Um tanto aborrecida com a deriva teórica das discussões e enquanto partilha um alperce e recebe em troca chips de coco, contextualiza que «a realidade é tão dura que a maioria dos activistas não aguentam mais de seis meses a dedicar o seu tempo em Lesbos». É mais do que compreensível. Se até depois de algumas horas de trabalho teórico precisamos de vir apanhar ar…

    Marco Meliti

    «Esta guerra não tem começo nem fim»

    O espectro da opressão homo-patriarcal contra a condição das mulheres exacerbou-se com a guerra na Ucrânia. Sasha Talaver faz parte da Plataforma de Resistência das Feministas Russas contra a guerra (Feminist Anti-war Movement). Esclarecendo que «as guerras imperialistas sempre fizeram parte da história russa», considera que o conflito actual «tornou visível e acelerou o desprezo contra os discursos feministas». Por um lado, exemplificado na normalização do discurso macho-facho de humilhação da mulher em geral, nomeadamente a propagação de um discurso de ódio nas redes sociais – «tenho um sofá para partilhar com refugiada ucraniana, com cama e comida» –, por outro, revelado na recuperação pelas forças oficiais do governo de Putin do conceito de «mãe heroína», vulgarizado durante a Guerra Patriótica (II Guerra Mundial) para enaltecer as mulheres com mais de onze filhos! Sasha argumenta que a guerra «não é um acontecimento discreto que tem um fim e um começo: a guerra é apenas o culminar ou o clímax da violência patriarcal em que estamos a viver. Para nós, feministas, é óbvio que esta guerra faz parte da violência contra a qual temos vindo a lutar e continuaremos a lutar». O discurso antibelicista e antipatriarcal da activista russa ganhou amplitude com a intervenção logo em seguida de uma «aliada», a feminista ucraniana Olega Lyubchenko, que revelou que o Movimento transnacional conta com a adesão virtual de mais de 80 mil pessoas. Preocupada com esta problemática, a activista italiana Paola Ruden pergunta-se se o movimento Feminist Strike Movement «vai perder com a guerra aquilo que conquistou nos últimos anos», constatando que «a guerra vai afectar e mudar as nossas condições de vida e de reprodução social». Aquilo que a historiadora Silvia Federici chamaria uma nova forma de caça às bruxas, capturando o útero das mulheres e perseguindo quem resiste. O tempo passa, mas a mesma luta permanece, e precisa de aliadas e aliados.

    A mensagem do feminismo de hoje no encontro de Sofia esteve à altura dos tempos, tal como há mais de um século fizeram Emma Goldman e Rosa Luxemburgo, que se opuseram terminantemente à I Guerra Mundial. Apesar da perseguição que sofreram – a primeira punida pelo governo “Democrata” dos EUA com pena de prisão e o exílio, a segunda pagando com a vida às mãos dos capangas do SPD alemão –, ambas as revolucionárias feministas e antimilitaristas fizeram tudo o que puderam para demonstrar que a guerra era um “baluarte” de expansão do imperialismo e de rentabilização do sistema capitalista. Porém, no novo milénio, as guerras não são apenas um mecanismo de expansionismo e monetarização, os conflitos bélicos são parte da normalidade capitalista de enfrentar os seus limites estruturais, um desdobramento que prefigura cada vez com maior evidência um futuro próximo de controlo eco-fascista da escassez. Uma problemática que urge a favor de um questionamento: irá o sistema capitalista gerir a fase do seu próprio colapso sem o emergir do eco-fascismo?

    a guerra «não é um acontecimento discreto que tem um fim e um começo: a guerra é apenas o culminar ou o clímax da violência patriarcal em que estamos a viver».

    O afecto é político porque o capitalismo é tristeza

    Embora no domingo, último dia do encontro, ainda tivessem decorrido actividades, já em modo desacelerado, o grande plenário aconteceu no sábado, ao final da tarde: “Permanent Assembly against the War: the challenges of a transnational politics of peace”. Isabella Consolati tomou a palavra pela Transnational Social Strike Platform, co-organizadora do simpósio activista, para esclarecer que «não estamos com nenhum estado-nacional no tabuleiro deste jogo, mas não somos neutrais. Estamos com as populações ucranianas e russas que aspiram a viver em paz. Estamos com aqueles que enfrentam as piores circunstâncias desta guerra, as mulheres, as crianças, a comunidade LGTB’+, os homens que se evadem». Nesse sentido, constatou que «a guerra serve para silenciar as populações» e sublinhou que estamos perante «uma guerra generalizada e não de um episódio isolado», salientando que «mesmo quando as tropas de Putin saírem da Ucrânia, a guerra vai continuar».

    A TSS caracteriza a invasão da Ucrânia pela Federação Russa como a III Guerra Mundial. Numa intervenção emotiva, Aigul discordou, convicta de que começou em 1991, com o desmembramento da União Soviética. O grupo activista da Georgia aplaudiu. Falaram das armadilhas das revoluções das cores, no desmantelar do que restou do estado-social da Grande Mãe soviética. A activista ucraniana levantou-se e tomou Aigul nos braços. As filhas do mundo abraçaram-se. O afecto é político porque o capitalismo é tristeza. O bio-capitalismo desvia para a actividade produtiva e lucrativa o afecto dos seres humanos, o cuidado e a atenção, estirpando-lhes o coração, roubando-lhes a alma, sacrificando-lhes o corpo. Mas o amor não é só sentimento, é também acção, como nos ensinou Bell Hooks…

     


    Fotografias de  Marco Meliti


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #36, Dezembro 2022|Fevereiro 2023.

  • Os olhares de Catarina

    Os olhares de Catarina

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    O olhar de Catarina Eufémia, gravado no mural que celebra a sua mitologia em Baleizão, parece cruzar-se com o olhar da mulher de nome desconhecido do Hindustão que por ali passa. Talvez o olhar fugaz que a trabalhadora rural dos olivais e amendoais intensivos dos campos de Beja dirige ao rosto de Catarina questione que mulher e de que emancipação fala o mural. Nesse instante fotográfico, o olhar já não se cruza com o cravo imprescindível à memorabilia comunista. Provavelmente, nem tamanhos questionamentos e simbologias assolam a trabalhadora migrante. O seu mundo está antes ligado por um fio a um smartphone. Do outro lado, a milhares de quilómetros, estará uma voz familiar e uma condição de miséria que a levou a atravessar meio mundo em busca das migalhas da fatia do bolo que ditou que as muitas Catarinas Eufémias do hemisfério sul não tenham direito a uma vida digna. Muito menos que os seus nomes sejam recordados pelas múltiplas lutas que povoam a sua mera sobrevivência quotidiana.

    A fotografia de André Paxiuta sugere o ponto de partida desta crónica. Em primeiro lugar, uma inquietação: o desencontro entre a migrante explorada nos grandes olivais de Beja e um mural que se revela afinal um muro de indiferença que percorre as vilas e campos do Alentejo para com aqueles que de fora aqui vêm trabalhar à jorna. Depois, uma pergunta que cedo se revela um equívoco e uma ilusão: como lidam os trabalhadores rurais alentejanos com a vaga dos trabalhadores rurais migrantes?

    Inquietação

    Se em números anteriores do Jornal MAPA abordámos a situação laboral de escravatura e as lutas específicas dos migrantes nos campos do Sul, regressamos para retratar um território que vive silenciosamente numa tensão social fracturante. A pergunta atrás formulada é equivocada porque a condição de trabalhador rural alentejano há muito que desapareceu, e ilusória porque a questão não se coloca verdadeiramente como prioridade a quem habita o território. E, quando é posto em praça pública, o problema corre o risco de afundar-se no preconceito racista. A inquietação persiste ao não nos depararmos com uma resposta positiva, possível e desejável. Uma resposta de solidariedade expressa entre os olhares cruzados dos filhos e netos, nascidos da geração de Catarina Eufémia, e os migrantes sem nome do Hindustão, do Leste europeu ou da África subsariana.

    Situemo-nos antes de mais nesta paisagem forjada pelo homem e pelo trabalho rural. Afinal de contas, a presente e brutal transformação dos campos alentejanos apenas pode ser comparada com a conquista humana das charnecas, matos e florestas que moldou há cem anos atrás o Sul de Portugal nas planuras do celeiro da nação. Paisagem que hoje desaparece, repetida a avidez das grandes extensões de terra, numa transformação programada e apoiada com dinheiros públicos, em nome do lucro circunscrito proporcionado pelas culturas permanentes do olival e amendoal.

    O que acontece a uma velocidade estonteante. Num fechar de olhos, perdemos os sentidos e acordamos emergidos numa outra terra qualquer. O olhar ferido pelo sol não vislumbra mais a planura e os montados que a salpicavam. A promessa foi cumprida. O Alqueva abriu as veias da sua água ao regadio da agroindústria de Évora a Beja. E onde o sol se põe, na aragem da costa alentejana, é o reflexo plastificado das estufas que fere a vista a caminho das falésias que se esboroam. É esse o novo Alentejo e todos sabíamos que aí vinha. Décadas de promessas, progresso e betão concretizadas. Surpresa mesmo, somente o assomo da vertigem com que de um dia para o outro o mar é em terra extensões de plástico e as encostas dos barrancos se vêm esquadrinhados em ruas de olival e amendoal, enevoados pela química, e as margens das ribeiras cortadas a perfil recto convidam o solo a conhecer definitivamente a sua aridez.

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    Maravilhoso mundo novo…

    A Maravilha Farms é uma das multinacionais norte-americanas de frutos vermelhos, junto com a Driscool’s instalada em Odemira. Há 10 anos em Portugal, representa cerca de 2% do universo da californiana Reiter Affiliated Companies (RAC). Actualmente, os lucros destas multinacionais ascendem a perto de 150 milhões de euros por ano. Com cerca de 150 hectares de produção, a Maravilha Farms prevê duplicar as estufas de framboesas, amoras e mirtilos, para 300 ha, anunciando um aumento de mão-de-obra de 60 a 70% dos 700 trabalhadores contabilizados (15% deles portugueses). Números à parte da mão-de-obra sazonal, que representam no fim de contas a espinha dorsal desta indústria. O plano de investimento da Maravilha Farms («Ambição 2021») fora apresentado em maio de 2017 nas instalações da empresa em São Teotónio, numa cerimónia presidida pelo primeiro-ministro António Costa.

    Contrariando a ambição desse mar de estufas, o processo de avaliação ambiental, em fase final à data em que escrevemos, aponta um conjunto de indicações desfavoráveis ao Projeto Agrícola da Maravilha Farms a desenvolver em 84 ha de Alcaria Nova (São Teotónio), incluindo a base logística e administrativa da multinacional, centralizando as outras unidades produtivas já existentes na envolvente. Em causa está a violação dos princípios de conservação do Sítio de Importância Comunitária Costa Sudoeste e do próprio Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, espelhando uma preocupação crescente com esta ocupação excessiva no Perímetro de Rega do Mira.
    Mas, para lá da evidência de crime ambiental, a expansão das estufas trouxe inevitavelmente ao de cima a questão social. Questão centrada sobretudo na habitação e na interacção social de diferentes comunidades, desde que há mais de uma década atrás chegaram a São Teotónio levas de búlgaros, hoje ofuscados pelos milhares de tailandeses, nepaleses, indianos e bengalis que ocupam toda e qualquer casa e casebre. O novo projeto agrícola previa inicialmente a construção de 19 edifícios para alojamento de 16 trabalhadores cada um, um refeitório, uma lavandaria e um posto de saúde. Contudo, em janeiro passado, a Maravilha Farms dá o dito por não dito e excluiu simplesmente a criação de espaços e equipamentos destinados aos trabalhadores temporários, quando questionada pela CCDR Alentejo relativamente ao escasso número previsto e ao compromisso social da empresa.

    Quando só este projeto significará cerca de 1050 novos trabalhadores em época de colheitas, foi recebida com evidente incompreensão a conclusão do estudo de impacte ambiental de que não haveria impactes com significado sobre os fatores socioculturais locais. Em sentido contrário, a freguesia local tem vindo a apontar uma série de dificuldades inerentes ao aumento de pressão sobre os serviços públicos, desde a recolha de resíduos, saneamento básico, água, luz e comunicações. E neste cenário há quem acentue ainda que a corrida ao alojamento colide com o alojamento temporário do turismo da costa alentejana. Em ambos os casos, o ganho dos proprietários locais, à custa com os migrantes de casas sem condições, veio criar uma crise para a restante população incapacitada em suportar os custos de alojamento.
    Numa freguesia que registava 6439 residentes nos censos de 2011, só o número de atestados de residência entre 2016, 2017 e 2018 evoluiu de 1758, 2788 a 3767 pedidos. Números que não reflectem fixação de população, mas sim a rotatividade dos migrantes, ditada por verdadeiros cartéis de trabalho precário, que operam legalmente em empresas de trabalho temporário. Essa demanda de centenas de trabalhadores para as estufas de frutos vermelhos espelha a constante da alma capitalista: lucros astronómicos garantidos por mão-de-obra barata e explorada. Uma condição inquestionada enquanto funciona como chantagem a uma possibilidade migratória que é mais favorável em Portugal para garantir uma passagem legal ao sonho europeu.

    O certo é que esta miragem encarniçada do plástico não atraiu apenas multinacionais, mas envolve igualmente os pequenos proprietários de terras no sudoeste alentejano que instalam estufas com o retorno garantido pela Driscool’s e congéneres, recorrendo em igual medida ao anónimo recrutamento dos migrantes. Numa terra que acompanhou a tendência regional da rejeição da terra, enquanto actividade económica, pela terciarização da população local nos serviços públicos ou no sector turístico, há um regresso à terra: plastificada, na serventia e dependência da monocultura e pactuando com a desgraça dos outros.

    Estufas e festivais

    Lado a lado, distintas comunidades vivem entrincheiradas. Com os búlgaros e as populações de leste, que em boa parte acabaram por se fixar, os lugares comuns da criminalidade são mais acentuados, ainda que hoje mais esbatidos, do que os juízos populares para com as populações tailandesas e do Hindustão. Impronunciado existe um racismo encapotado ou latente na separação dos «locais» com as muitas populações estrangeiras de Odemira, o mais extenso município da europa. Numa população de 26104 habitantes (Censos de 2011), conforme dados da autarquia em 2017, 18,8% da população residente era migrante legalizada (4.912, na maioria asiáticos), constituindo 57,8% dos migrantes registados no Distrito de Beja. Já nesse ano a revista Visão apontava números não-oficiais de perto de 40 mil imigrantes.

    O facto é que na escola de São Teotónio – onde decorre um sistema de ensino próprio, para integrar 22 nacionalidades – há pais portugueses que optam por deslocar os seus filhos para a vila de Odemira. O processo de integração atrasa o passo, enquanto o espaço público rejuvenesce num mosaico de diversidade. Idosos alentejanos perfilam-se nos bancos à esquina a ver o que se passa, mas ao largo e na rua são muitos os grupos de jovens asiáticos de cócoras. O espaço doméstico das casas passou com os novos habitantes para a soleira das portas e na rua, até porque a privacidade deixou de ser um garante no interior dos alojamentos sobrelotados.

    Já no tortuoso mundo de gabinetes, alicerçados em fundos nacionais e comunitários para um conjunto instituído de associações e ONG, a integração dos imigrantes deu corpo a iniciativas e planos estratégicos, como o 2º Plano Municipal para a Integração de Migrantes 2018/2020, que garantiu a continuidade do Centro Local de Apoio ao Imigrante (CLAIM). Promovido pela TAIPA, funciona desde 2014 em São Teotónio e responde à procura da aprendizagem da língua portuguesa e como antecâmara do SEF no tratamento dos papéis. É financiado metade pelo município, via fundos europeus, a outra parte pela Associação de Produtores Agrícolas Lusomorango, empresas agrícolas (Sudoberry, Vitacress, Haygrove, Hall Hunter) e a empresa de trabalho temporário Multitempo.

    Longe estão ainda os objectivos anunciados em planos e estratégias de «assegurar das condições de acolhimento e integração aos imigrantes residentes»; na «promoção das suas competências» (da língua portuguesa à participação) e na promoção «do conhecimento e a aceitação da multiculturalidade». O que se observa reduz-se a eventos e festividades «para português ver». No passado dia 16 de março, a celebração primaveril do Festival Holi, da Índia ao Nepal, chegou à festivaleira Zambujeira do Mar, onde à exuberância anunciada das cores hindus não faltaram bandeiras e hinos nacionais, colando à multiculturalidade o cunho da celebração nacionalista ou reduzindo a integração ao verniz do folclore pitoresco. Ilusoriamente poder-se-ia esperar que a partilha das expressões artísticas, por detrás do projecto Gira Mundo, que decorre do CLAIM e que promoveu o Festival Holi, para lá das partilhas nas redes sociais, possa quebrar o verniz deste projecto financiado pela Maravilha Farms e outras empresas agrícolas.

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    O largo de Catarina

    Regressamos a Baleizão. Ao nascer do dia no Largo Catarina Eufémia a multidão de migrantes a aguardar as carrinhas para os olivais e amendoais de Beja é imensa. Aqui é o busto de Catarina no centro do largo que se vê rodeado de tamanho movimento de trabalhadores rurais. Nem nos melhores tempos da Reforma Agrária, dizem-nos. Nesta freguesia alentejana, que nos censos de 2011 registava somente 902 habitantes, assistiu-se a um virar de página já depois da mais recente crise financeira ter de novo batido às portas da aldeia. Concluídos os blocos de rega do Alqueva, deixou de haver, com o incremento da agroindústria, motivo para a até aqui usual emigração para a Suíça dos jovens locais.

    Tal como em São Teotónio há emprego e este é assumidamente diferenciado. O alentejano partilha com os espanhóis, chegados ao distrito de Beja, os cargos de gestores agrícolas, de supervisores das equipes, ou de tractoristas e afins. Depois, essa multidão dos novos trabalhadores rurais migrantes arregimentados nas voláteis empresas de trabalho temporário. E estes povoam agora Baleizão dando vida às ruas até há pouco desertas. No reverso da moeda, não valerá a pena repetir também aqui as condições de habitabilidade que envergonham este novo povoamento rural.

    Os que chegaram primeiro vindos do Leste, romenos e moldavos sobretudo, permanecem reféns ou na sombra de esquemas mafiosos de tráfico humano, ainda que haja, tal como no litoral alentejano, quem se tenha instalado de modo permanente. Depois em trânsito pelos campos de Beja estão as diversas populações asiáticas, assim como aqui também os migrantes chegados da áfrica subsariana, do Senegal às diferentes Guinés. A presença desta imigração na região é em tudo contrária a qualquer ideia de «ameaça económica», antes pelo contrário, preenchem o trabalho duro e mal pago que os portugueses recusam, ao mesmo tempo que as suas prestações sociais ajudam a sustentar a segurança social nacional (em 2017 contribuíram com 603,9 milhões, dos quais beneficiaram apenas de 89,6 milhões). E mais descabida é a ideia de uma «ameaça demográfica». Num país envelhecido, conforme estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (2017), se não contarmos com os migrantes, os actuais 10,4 milhões de habitantes cairão para 7,8 milhões até 2060.

    No entanto, a desejada fixação de novos povoadores permanece uma miragem na região e uma impossibilidade. Responsável: a falácia do próprio crescimento económico que atrai os imigrantes baseada na precariedade, salários baixos e trabalho agrícola sem escrúpulos. O que não significa que essa alma capitalista, a que já atrás aludíramos, não tenha laivos de beneficência no apelo à fixação de novas famílias. É o caso de António Ferreira, que tomou em mãos a herdade da família do Vale da Rosa, em Ferreira do Alentejo, vindo do Brasil depois de indemnizado em mais de um milhão de euros pela ocupação da terra, em 1975, por trabalhadores agrícolas no âmbito da Reforma Agrária. Na herdade trabalham mais de 500 funcionários, outros 500 na colheita das uvas de mesa. A maioria é desde há vários anos asiática. Agora há o projeto de duplicar a vinha e empregar 400 trabalhadores, uma centena integrada no quadro, os demais com contratos de seis meses para a apanha de uva. A oferta dos 400 não é dirigida aos migrantes asiáticos, mas aos luso-descendentes da Venezuela que se acantonam na ilha da Madeira. «O meu coração sofre com eles», desabafava ao Diário do Alentejo António Ferreira.

    O sentimento compatriota faz também aqui a diferença com o «outro» asiático, que permanece com uma indiferença pactuada à sorte na engrenagem do trabalho precário. Tamanha distinção compatriota valeu igualmente o empenho autárquico local em procurar formas de financiar a recuperação de casas devolutas para alojar os imigrantes… luso-venezuelanos.

    Lá na terra deles era pior

    Ao colocarmos nesta crónica um ênfase inicial no paralelo entre o imaginário camponês das lutas rurais simbolizadas em Catarina Eufémia e a realidade destes novos trabalhadores rurais, corremos o risco de reduzir o nosso discurso a uma fórmula ideológica. Mas a validade desse paralelo não coloca em causa a chamada de atenção e o retrato de uma situação de fratura social. E não pretende esconder que a realidade em Baleizão e no restante Alentejo está hoje claramente afastada do imaginário ideológico. Não nos iludimos quanto a isso. O certo é que a indiferença social vai alargando dia para dia a distância entre os dois pólos desse paralelo que nos propusemos interrogar. Perante as vagas anónimas e temporárias de novas gentes, a diferença gera localmente medos e preconceitos, tal qual acontecia há um século atrás nos campos do Alentejo (ver caixa o Fio da Memória).

    Resta inquirir porque não se gera a solidariedade. Porque não se cruzam os olhares entre as Catarinas de variadas latitudes nos campos alentejanos. Quando no largo central da vila alentejana, de Baleizão a São Teotónio, ouvimos o lavar das consciências lavrando a sentença «lá na terra deles era pior», isso não significa que não haja a noção de que os migrantes passam mal. Mas a distância entre as comunidades dá espaço à indiferença que se instala por diferentes ordens de razão.

    Poder-se-ia começar por explicar essa indiferença por não existir efectivamente qualquer «consciência de classe». Na relação das pessoas, no trabalho, menos ainda para com quem surge do outro lado do mundo. Uma ausência de referentes sociais que espelha o consenso dominante, que recusa em colocar à actualidade uma visão crítica e de resistência ao modelo capitalista depredatório dos territórios. Territórios que são inevitavelmente lugares humanos delapidados.

    É possível equacionar a integração dos migrantes e a revitalização do interior rural, permanecendo sem questionar o modelo económico depredatório dos recursos e do território que representa a industrialização sem limites do mundo rural? Um processo liderado já não pelas grandes famílias latifundiárias, que com maior ou menor dose de absentismo estavam ligados à terra, mas por sociedade de fundos de investimento e pela financeirização da agricultura apostada em monoculturas de rápida execução de lucros.

    Mas a derradeira questão de fundo à distância e indiferença para com os novos trabalhadores rurais migrantes é que este é um problema que não se coloca naturalmente para quem nasceu no Alentejo sem qualquer relação com a terra. Ou, o mito dos mitos, que perdeu há muito qualquer relação com o trabalho rural. O êxodo migratório dos seus avós nos anos sessenta e as políticas agrícolas comuns desde os anos oitenta aos nossos dias, são dois momentos que testemunharam o afastamento das populações locais para longe da terra e definitivamente arrumaram a figura do «trabalhador rural», já em si mesma, um espectro fantasmagórico quando sucedeu o intervalo histórico do pós-25 de abril e da Reforma Agrária.

    Depois do abandono, o regresso à terra e à agricultura, arriscamo-nos a dizer, é todo ele feito, seja por quem for, desprovido dos laços com o território e, como tal, desprovido dos laços de solidariedade e da vida comunitária outrora forjada nos campos. Será possível equacionar a integração dos migrantes e a revitalização do interior rural, permanecendo sem questionar o esvaziar da vida em comunidade?

    O fio da memória

    A chegada de trabalhadores de fora e as suas miseráveis condições de trabalho estão inscritas nos campos alentejanos. Na primeira metade do século passado – quando a campanha do trigo moldou a paisagem hoje dita tradicional – o trabalho à jorna fazia uso da miséria dos trabalhadores locais, os ganhões, mas não podia dispensar os ratinhos que chegavam das serranias das beiras ou os algarvios da serra. Na ceifa das planícies, já então a relação entre os locais e os de fora colhia preconceitos para com os que chegavam. Mesmo que partilhando necessidades e pobreza.

    Hoje a pobreza não é partilhada em igual medida e esse fio da memória desapareceu. Porém, o fio acaba por enlear-se de novo no juízo imediato e racista para com o outro estrangeiro. Ou nesse linguajar desumano que muito ecoa a sul, denegrindo-os à laia de ciganos. Esquecidos que ainda ontem assim eram tratados os outros, esses portugueses, das beiras ou do algarve.

    José Alves Capela e Silva (1884-1972), em Ganharias (1939), dava conta como «rato ou ratinho significa para a ganharia, uma coisa inferior, quási desprezível (…) E os ratos são esses sêres inferiores, que vivem do que podem apanhar, ou d’aquilo que lhe deixam». «População aventureira e miserável, que invade a planície — em contraste com os seus naturais em geral de temperamento sedentário, — à mingua de recursos nas suas terras, e que se sujeitam às mais baixas missões nas lavouras». «Desde que chegam até ao dia da abalada, sentem cair sobre eles o peso despótico do mundo que os rodeia», vaticinava Capela e Silva.
    Manuel Ribeiro (1878-1941), em Planície Heróica (1927), obra que é por muitos considerado o momento alto do escritor mais lido nos anos vinte – anarco-sindicalista, fundador do Partido Comunista Português e místico espiritual por fim – legou-nos estes retratos do trabalho rural:

    «Desconheciam-se pedintes, porque ninguém vivia ocioso. Poucos se assoldadavam. Ser jornaleiro, às sopas de outro, implicava uma degradação». E quando «pouco jornaleiro havendo, quem alombava com as grandes ceifas eram as récuas de algarvios da serra, rabosanos sediços, gente miúda, de citiliqué, que eles desdenhavam pelo seu feitio nómada e despegado, como os ratinhos, os pelotiqueiros e os ciganos, e sobretudo por não lavrarem terra nem semearem pão». Os «algarvios da serra», referidos no enleio do romance: «ia dizendo ao senhor compadre prior o Sr. José Mingorra – saíam das suas tocas serrenhas ao rebentar das ceifas e passavam toda esta quadra longe das suas serras e das suas mulheres, acoitando nos campos que ceifavam, não se chegando a monte nem a povoado, senão no cabo da empreitada, para fazerem contas e desencardir a morraça dos corpos nos pegos das ribeiras. A sua lida durava todo o tempo da aceifa, ele domingos e dias santos, desde o romper da manhã até ao pôr do ar do dia, quando não metiam pela noite adiante em havendo lua que se enxergasse. Sob o mando dum manageiro-capataz que não só dirigia a manobra, mas arneirava, emolhava e jogava a foice também, os corpos de aço, farruscos e encardidos, banhados de suor e ardidos das soalheiras, giravam numa dobadoira, buliam como endemoninhados, abatendo searas enormes com um vigor de atletas.

    Não se ouvia uma fala, que o esforço do arranco e o frenesi da tarefa não davam margem a paleios, e com os dentes cerrados, ágeis e desengonçados, arrepanhavam às braçadas os feixes de trigo, degolando-os e atirando-os para trás.

    – Raça danada estes algarvios da serra! – arremetia o Sr. José Mingorra. – Eu não sei como os diabalmas aguentam um trabalho destes, semanas e semanas. Amalham nos restolhos, quando Deus quer sem mantas, e enganam a fome com vinagradas e algum prato de grão e cheiro de toucinho, sem mais alimento nenhum».

    Fotografias de André Paxiuta

  • Escravatura nos campos do sul

    Escravatura nos campos do sul

    O novo Alentejo irrigado pelo Alqueva parece cada vez mais um regresso ao velho Alentejo: o latifundiário, senhor dos olivais intensivos, e o trabalhador rural, imigrante precário e nas malhas da escravatura moderna.

     

    escravatur_sul_destaqueNas campanhas do trigo do século passado desciam das Beiras ao Alentejo os trabalhadores sazonais: os ratinhos. Uma “população aventureira e miserável, que invade a planície, em contraste com os seus naturais em geral de temperamento sedentário, à míngua de recursos nas suas terras, e que se sujeitam às mais baixas missões nas lavouras”. Assim era a memória desta gente de “descanso fugidio, porque a ceifa de ratinhos não é trabalho para entreter. Desde que chegam até ao dia da abalada, sentem cair sobre eles o peso despótico do mundo que os rodeia.”[ref]José Alves Capela e Silva “Ganharias”, Imprensa Baroeth, Lisboa 1939[/ref]

    Neste século, na apanha da azeitona da planície interior ou nas estufas do litoral alentejano, esse peso despótico recai sobre novos ratinhos vindo do leste cigano da Europa, romenos e búlgaros, do norte de África ou das longínquas paragens asiáticas do Vietname ao Nepal. É nestes homens e mulheres que hoje ecoa uma funesta memória dos outrora campos do sul em frequentes episódios de exploração desumana do trabalhador rural. E de escravatura.

    Dir-se-ia hoje que o ganhão de ontem, aquele que trabalhava à jorna, não fala português; que o trabalhador rural alentejano, o sujeito camponês, é hoje o imigrante precário e vítima. Como irá soar no cante alentejano dos nossos dias, nessa polifonia de memória colectiva, as modas da velha e sempre renovada clivagem social entre os grandes terratenentes e a população trabalhadora?

     

    Olival da Nação

    A exploração dos imigrantes nos campos alentejanos reporta tanto à memória dos ratinhos assim como ao desígnio traçado desde há séculos para o Alentejo. Desígnio que é o pano de fundo desta realidade e que importa assinalar: do celeiro da nação do século XX à promessa cumprida dos campos irrigados pelo Alqueva. Nele, o trabalhador rural não é mais do que uma peça de engrenagem de verdadeiras fábricas em que o campo se tornou. A agro-indústria surge como meta de progresso partilhada pelo latifundiário ao autarca comunista, que em nome de “crescimento” e “produtividade” falam em uníssono de “investimento” e “perspectivas de futuro” para a região. As razões do desígnio são generalizadas: no resto do país e cidades os restantes 93% da população portuguesa carece de alimento[ref]O Alentejo é a região portuguesa de menor índice de densidade populacional (23,7h/km2): 749 mil habitantes (7% do total em 2010), com projecção para 2025 (Eurostat) de 775 mil habitantes.[/ref], perante o incontornável paradoxo de neste mundo industrial ser ínfima a percentagem de população activa na agricultura. E é nestes novos tempos do campo alentejano: modernos, regados e industrializados, que outro paradoxo persiste. A modernidade, o investimento e a produtividade, não prescindem do velho lastro da exploração camponesa e da escravatura do trabalhador rural. Aspectos imutáveis que se colam à vastidão do latifúndio, como sempre na mão de uns poucos, velhas famílias que ora retomam as terras, ora as vão vendendo a congéneres agro-industriais vindos do outro lado da fronteira.

    Na apanha da azeitona, como formigas num reticulado industrial de olivais que nunca chegam a ser árvores, surgem bandos de trabalhadores largados por intermediários (portugueses, romenos, espanhóis ou israelitas), que negoceiam, a coberto de efémeras empresas de trabalho temporário, o trabalho imigrante com os senhores das herdades. Um enquadramento legal que cobre as actividades sazonais e que é assumido com naturalidade na engrenagem agrícola. De empresa a sub-empresas, esfumam-se os ganhos até chegarem aos trabalhadores, lava a agro-indústria as mãos de obrigações sociais e laborais, e é dada cobertura à exploração e escravidão num ciclo de prestadores de serviços com cada vez menos escrúpulos.

    Esta situação procura, no entanto, ser absolvida em nome da tábua de salvação nacional apresentada no sector agrícola, no novo Alentejo dos blocos de rega do Alqueva. Perspectivas refutadas há cerca de um ano atrás pelo comunista João Diniz, da Confederação Nacional de Agricultores, que exemplifica: “É verdade que as exportações de Hortícolas atingiram mais de mil milhões de Euros em 2012, valor impensável há dez anos atrás. Mas “quem paga a factura” a trabalhar nas grandes empresas de produção/ exportação? Muitas vezes, é mão-de-obra “importada” e sobre-explorada… E qual é o modo produção – nessas e em outras explorações/ produções – que potencia esses valores em “negócios”? É o modo de produção (super)intensivo que acaba por delapidar o ambiente, os solos e águas, os ecossistemas, e não assegura a qualidade alimentar dos Produtos…”. Questões extensivas às explorações super-intensivas dos olivais que “estão a arruinar a Produção Nacional familiar e mais tradicional em Olival/ Azeite nas regiões sem alternativa a estas culturas.”[ref]http://tinyurl.com/qarelhp[/ref]

     

    Escravos

    Nesse leque de críticas, foi porém a escravatura nos campos do sul que se tornou numa espinha encravada no discurso agrícola de salvação nacional nestes últimos 4 anos. Pedro Pimenta Braz, inspector-geral da Autoridade das Condições do Trabalho (ACT) foi peremptório aos jornalistas[ref]”Nunca me passou pela cabeça que poderia ser vendido”: Reportagem de Joana Gorjão Henriques na Revista 2 do Jornal Público em 29/12/2013 (http://tinyurl.com/p737cf7)[/ref]: «“a escravatura moderna existe em Portugal”, sobretudo na agricultura, e a maior parte das vezes “estamos a falar de escravidão por dívida”, em que “o trabalhador fica preso à entidade empregadora”». O sobressalto foi tal que só em 2013 a ACT terá participado ao Ministério Público 60 casos de escravatura moderna, ciente porem de ser “um crime difícil de provar” pelo medo de dar a cara. Nas suas investidas policiais nas herdades acumulam-se, porém, evidências da exploração – salários abaixo do ordenado mínimo, atrasos e não pagamentos; condições desumanas de higiene e alojamento, etc. – à escravidão: retenção dos documentos, coacção e trabalho forçado para pagar eternas despesas de transporte e estadia, etc.

    Mas as consequências imediatas apenas surgem para os clandestinos. As empresas engajadoras desaparecem até surgirem com outros nomes. Subterfúgio que acompanha uma legislação laboral que dita a precaridade como regra. Como referia um inspector da ACT ao Diário do Alentejo, as “novas modalidades de organização que vão surgindo nas herdades, porque vão evoluindo, são cada vez mais sofisticadas, no sentido de se tornearem as obrigações legais e no sentido de se dificultarem as ações das entidades fiscalizadoras”[ref]Diário do Alentejo, 13.12.2013 (http://tinyurl.com/q76btef)[/ref]. Opinião diferente tem, no entanto, a ministra da Agricultura Assunção Cristas, que declarava em Novembro do ano passado na sede da EDIA que “assistimos, de facto, a uma fiscalização que está a dar o seu resultado (…) que sirva como exemplo daquilo que não se pode fazer” acentuando que “o que queremos para a agricultura é a criação de bom emprego, com boa remuneração e com um sempre acrescento de valor para todas as pessoas envolvidas”[ref]Correio da Manhã, 20.11.2013 (http://tinyurl.com/osg33ld)[/ref]. Este tornear da questão é o mesmo que Pedro Pimenta Braz apontou quando questionado acerca da resposta que obtém por parte dos proprietários agro-industriais: “Quando são portugueses, geralmente, 99,9% das vezes o discurso é de negação do problema. Certamente, as opiniões não seriam assim se toda a cadeia fosse penalizada”. Ou seja, uma cadeia em que o único a ser penalizado é o trabalhador e em que o “acrescento de valor” apenas chega para uns poucos. Nas próprias palavras do inspector-geral da ACT: “Isto é, quem lucra com o negócio, quem esmaga o custo do trabalho não é sancionado. Quem lucra com a situação? As grandes agro-indústrias, que têm o preço mais barato; o dono agrícola da herdade ou da indústria, que consegue ter mais-valias porque o custo do trabalho é mais reduzido; o primeiro subempreiteiro porque com o que paga a quem contrata ganha algum dinheiro; nós, consumidores, que compramos a preços mais módicos e ficamos todos satisfeitos. E o problema só existe para o trabalhador. Enquanto não alterarmos isto em todo o espaço da União Europeia, andamos a lutar contra moinhos de vento.”[ref]http://tinyurl.com/p737cf7[/ref]

     

    As boas consciências nacionais

    Sevinate Pinto, o engenheiro agrónomo ex-Ministro da Agricultura de Durão Barroso, em crónica intitulada “Os romenos, a “desumanidade” e o desemprego no Alentejo”[ref]http://tinyurl.com/qbjjde6[/ref] apressou-se a isentar de responsabilidades “os portugueses de boa consciência, designadamente os olivicultores alentejanos, que muito pouca responsabilidade têm no assunto”. Remetendo para a polícia a exploração dos romenos, o certo é que o recurso cego a estes “prestadores de serviços” dificilmente isenta os olivicultores de “boa consciência”.

    A preocupação do ex-ministro é porém outra: o ter de admitir estrangeiros quando há desemprego no Alentejo, mas onde a procura do trabalho agrícola não é coisa que pegue. O seu apelo à empregabilidade dos portugueses, pese oscilar sub-repticiamente no lamento industrial de que “as máquinas, que já são muitas e cada vez mais, não resolvem tudo”, depara-se, nas suas palavras, com um obstáculo: “alguns portugueses, mesmo desempregados, não gostam da precariedade muitas vezes associada aos trabalhos agrícolas e revelem dificuldades de adaptação à natureza desses trabalhos”. A ciência politica ao nível de qualquer conversa de café: quanto vale trabalhar para receber uma miséria? Talvez os imigrantes portugueses, que venham agora repatriados da Suíça, onde impera por recente força de lei similar preocupação com o trabalho dos nacionais, possam elucidar o ex-ministro. E poderá ser útil à sua “boa consciência” fazer a mesma pergunta para o romeno cujos ganhos lusos são miragem suficiente para cair em escravatura.

    A verdade é que lidamos com consciências, regra geral, autistas. O gravíssimo problema humano da exploração de imigrantes fruto das exigências senhoriais do olival intensivo, passa, nesta formulação do problema, para um segundo e terceiro plano face à questão da nacionalidade. Nesse caldo, sabemo-lo, é instigada uma perigosa deriva racista e de extrema-direita que acaba culpabilizando os próprios imigrantes da continuada extorsão salarial, das condições de habitação e alimentação deploráveis. As “boas consciências” dos senhores do olival estão à sombra, como se nada fosse com eles.

    E porque são baratos, “imbatíveis na capacidade de trabalho”, tornaram-se, como referia ao jornal Público em 2012 o presidente comunista da junta de freguesia de Baleizão, terra (?!) símbolo das lutas camponesas: “um mal necessário, senão a azeitona não era apanhada”[ref]Público, 24.11.2012 (http://tinyurl.com/orp942h)[/ref]. Por isso as previsões agrícolas no final de 2013 apontavam para um aumento considerável do rendimento do azeite (+ 40%) e da azeitona de mesa (+ 25%) face ao ano anterior. Facto para o qual contribuíram perto de 34 mil hectares, mais de metade olival (53%), regados com 47 milhões de metros cúbicos de água do Alqueva. Mas não só: num distrito de Beja com 17 mil desempregados, a Associação de Solidariedade Imigrante referia em finais de 2013 que por essa altura estariam na apanha de azeitona na região “entre 10 a 15 mil trabalhadores imigrantes”[ref]Público, 02.12.2013 (http://tinyurl.com/oqcq8vd)[/ref]. A estes números se deve a soma do aumento dos “rendimentos” e a subtracção dos direitos dos trabalhadores rurais.

    Henrique Coroa, um agricultor de Beja, declarava em Dezembro passado que os imigrantes “são muito mais rápidos (…) são a nossa sorte, senão a produção de azeite no Alentejo parava”[ref]Idem[/ref]. Diferente “sorte” relatou ao Público um dos romenos “mais rápidos” que conseguiu fugir das malhas da escravatura nos olivais de Serpa: «O dia-a-dia era 12 horas de trabalho a apanhar azeitona, com curto intervalo para almoço, pressão para não pararem, para não fumarem, para trabalharem mais e mais rápido. “Só bebíamos água uma vez por dia.” (…) “Somos maltratados, estamos cheios de dívidas, não temos documentos, a comida não chega, trabalhamos muito, as condições são más.”»[ref]http://tinyurl.com/p737cf7[/ref]

     

    A que terra regressamos?

    Não apenas mais vozes, mas mais acção, deve necessariamente haver para contrariar este “vale tudo” nos campos do sul. Campos onde as conquistas laborais desaparecem mais do que nunca, onde o desempregado é jogado à sorte de um qualquer trabalho precário, que a mal se terá de adaptar, e onde o imigrante é reduzido à mais desumana exploração e à escravatura. Nessa escalada, apenas a solidariedade, a denúncia e a luta pelo fim de uma realidade apresentada como “perspectiva de futuro” da região, irá permitir o inverter da situação daqueles que estão hoje nas malhas da exploração e travar o regresso social a um tempo de “ratinhos”, quiçá numa perigosa deriva racista.

    O apelo a uma nova organização do trabalho no campo é por isso pertinente. Mas esta não pode ser cingida a uma simples questão camponesa ou sindical, não descurando que uma gestão autónoma e colectiva no acesso à contratação de trabalhos sazonais para evitar discriminações por origem ou género. O que o trabalho no campo tem de assumir é a oposição à inevitabilidade da agro-indústria como única perspectiva para uma região como o Alentejo, precisamente por passar por esta a raiz do problema. Nessa demanda industrial que anunciou o milagre da tecnicização de todos os aspectos da vida, acordamos lentamente em busca de um regresso à terra. Nesse regresso aos campos não podemos por isso tomar como incontornável essa eterna relação de forças e exploração que está há muito em cena no meio rural. E que escraviza as nossas vidas.[ref]O presente artigo desenvolve crónicas de opinião do autor publicadas no Diário do Alentejo[/ref]