Desde 2011 que em Sevilha se desenvolveu uma rede particular de assembleias de bairro, em grande medida devido ao estímulo trazido pelo 15M e também devido à herança de trabalhos e projectos que datam de um período anterior. Ainda que, desde aquelas datas, algumas assembleias tenham desaparecido e outras tenham visto os seus projectos frustrados, é preciso voltar muito tempo atrás para ver tanta gente, tão diversa e de bairros tão diferentes, coordenadas com objectivos de transformação social.
A maior expressão prática desta rede de assembleias foi um trabalho assinalável no âmbito do problema da habitação. Num contexto de desemprego massivo, pauperização e despejos, esta rede revelou-se decisiva na organização das principais vítimas da crise. A expressão mais conhecida desta rede foram as ocupações massivas e populares, auto-denominadas “corralas”[ref]Como referido no jornal El Topo, trata-se do «nome com que se auto-denominam os grupos de famílias com problemas de habitação que, depois de esgotadas todas as instâncias que as administrações públicas põem à disposição do cidadão, e sem ter conseguido resolver o seu problema habitacional, decidem auto-organizar-se para chegarem a uma solução colectiva. Deste modo ocupam um dos milhares de blocos de casas que permanecem vazios desde há muito tempo e que estão nas mãos de empresas que faliram ou de bancos que foram resgatados ou nacionalizados, para assim exercer o seu direito a uma habitação digna tal como reconhece o art. 47 da Constituição Espanhola, fazendo prevalecer a função social da propriedade, e mais concretamente, das habitações.»[/ref], que se desenvolveram no último ano e meio na cidade e que se conseguiram estender para lá dos seus limites.
Aterrando nos bairros
Depois das manifestações massivas e das acampadas do 15M, o movimento que daí surgiu apresentava inicialmente reivindicações globais à volta da melhoria da democracia e críticas à classe política. No entanto, entrelaçado com a crítica ao sistema de democracia representativa, o movimento encontrou na vizinhança o espaço natural de militância, descentralizando-se em pequenas assembleias. Nestas, organizações prévias e discursos dos movimentos sociais sevilhanos encontraram-se com uma nova geração de activistas. Da mesma forma, a aterragem nos bairros populares fez com que as grandes reivindicações políticas enfrentassem as problemáticas locais e concretas, apresentando-se com maior urgência o tema do desemprego e da habitação
Até ao momento, a intervenção na problemática do desemprego limitou-se a algumas assembleias e não teve toda a repercussão desejável. No entanto, o trabalho no âmbito da habitação deu resultados muito palpáveis. Desde 2011, o movimento a nível do estado espanhol, aliado com a Plataforma de Afectados por la Hipoteca, virou-se para a luta contra os despejos. Sevilha não foi uma excepção nesse sentido e foram vários os despejos que foram travados naquele Verão. Aqui, a estrutura de assembleias de bairro serviu, desde o princípio, para contactar com os ameaçados pelo despejo e organizar a resistência ao mesmo. As acções deste tipo encontrava-se e encontram-se fortemente legitimadas e muitas delas foram seguidas massivamente pelos moradores, demonstrando a potencialidade da solidariedade popular.
Descolando com a Intercomissão de Habitação
Uma das estruturas informais mais significativas que se criaram no contexto do 15M sevilhano foi a Intercomissão de Habitação. Nela encontraram-se pessoas das diversas assembleias de bairro com activistas e organizações pelo direito à habitação que trabalhavam na cidade desde há muito. Depois dum início em que a urgência de parar os despejos não permitia ver a importância de melhorar a organização e as ferramentas disponíveis, em 2012 deu-se um grande salto em frente com a formação de uma rede de Pontos de Informação de Habitação e Encontro (Puntos de Información de Vivienda y Encuentro – PIVEs), apoiados nas assembleias de bairro. Em cada um desses escritórios, um advogado e um ou vários activistas aconselham as famílias. Hipotecados sob ameaça de despejo, inquilinos que não podiam pagar os seus alugueres ou pessoas que tinham perdido os seus lares e se encontravam praticamente na rua, passam por ali.
Desde que começaram a funcionar, o maior mérito destes espaços não foi proporcionar uma boa informação legal, que também aconteceu, mas propiciar ao afectados que se organizassem em grupos onde pudessem encontrar apoio e lutar por uma causa comum. A partir destes grupos proporcionou-se apoio moral, pressionou-se para conseguir o fim do pagamento através da cedência da habitação e realizaram-se campanhas para mudar as leis injustas. De um destes grupos surgiu a Plataforma de Afectados por la Hipoteca de Sevilha, em 2012, e de outro, no mesmo ano, surgiu a primeira ocupação colectiva e pública do movimento.
Em Maio de 2012, apoiadas principalmente pela assembleia do 15M do distrito de Macarena, 38 famílias ocuparam 4 edifícios desabitados, propriedade duma entidade bancária, ao que chamaram “Corrala La Utopía”. O exemplo espalhou-se rapidamente e, a 5 de Junho, outras 5 famílias ocuparam a “Corrala Conde Quintana”. Nos meses seguintes abriram-se mais quatro “corralas” no município de Sevilha e outras quatro na área metropolitana, alojando um total de 145 famílias, às quais se juntam múltiplas ocupações individuais e não publicitadas, que se apoiam na estrutura dos PIVEs e nas assembleias de bairro do 15M. Posteriormente, o modelo expandir-se-ia a outras cidades andaluzas, com pelo menos quatro ocupações massivas em Málaga ou com a ocupação dum bairro por 164 famílias em Huelva. Muitas destas “corralas” encontram-se hoje em situação precária, sem luz e sem água, outras foram despejadas e outras procuram uma forma de se regularizarem, seja negociando com o proprietário, seja procurando a intermediação da Junta da Andaluzia.
Voando para o Futuro
Em dois anos, o movimento pela habitação em Sevilha, fundamentado nas assembleias de bairro, converteu-se numa referência importante e acumulou uma experiência de grande interesse. Conseguiu criar uma estrutura estável, a partir da qual se liga à população mais castigada pela crise e que, no melhor dos casos, permite que uma parte da mesma se organize. Para além disso, as acções levadas a cabo questionam a legitimidade dum sistema que protege a propriedade antes de proteger as pessoas e situa o debate na raiz do problema. No entanto, ainda há muito caminho para percorrer. O movimento cometeu erros e há-de aprender com eles. Muitas vezes actuou-se com precipitação e poucas vezes se pensou em estratégias a médio e longo prazo. Ao mesmo tempo, o potencial é grande e os resultados conseguidos até ao momento não são poucos. O tempo dirá se as assembleias de bairro e as “corralas” são sol de pouca dura ou se, pelo contrário, se convertem numa referência política da cidade com uma verdadeira influência social.
Ibán Díaz, ex-Intercomisión de Vivienda de Sevilla[ref]Texto extraído do jornal El topo (nº 1) a partir do original “Las asambleas de base y la lucha por la vivienda digna en Sevilla”[/ref]
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O direito às cidades está definitivamente ameaçado. Além da especulação imobiliária ou da gentrificação dos centros, a nova lei do arrendamento, responsável por um enorme aumento das rendas, vem deixar bem claro que a vida nas cidades está cada vez mais reservada a uma elite. Com o poder ainda mais concentrado nos proprietários, sejam particulares ou o próprio Estado, é possível assistir a aumentos de renda de 900%, representando um ataque brutal aos moradores, associações ou colectividades.
Nos últimos anos foram construídas algumas habitações a custos controlados, ou “bairros sociais”, para realojar bairros já demolidos. Contudo, essas habitações, além de se encontrarem bastante degradadas, sob o olhar indiferente da Câmara, estão actualmente sobrelotadas. A solução encontrada pela CMA para realojar as famílias recenseadas no PER passa então por dificultar o mais possível a permanência dos actuais moradores dos bairros já construídos procedendo a aumentos brutais de rendas através de processos pouco claros e intimidatórios. Não pagando as rendas, segue-se o despejo. Desta forma, a Câmara obtém “novas” casas para realojar outras famílias e repetir o ciclo sempre que necessário. Segundo Rui, morador do Casal da Boba, “há muita chantagem psicológica por parte da Câmara. As pessoas não têm informação, cedem. Têm medo, cedem. Vão buscar dinheiro onde não há para pagarem a renda e se for preciso não têm para comer”.
Habitação de custos descontrolados
O Problema é a lógica que impera

