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  • Há justiça para o racismo? Uma pequena retrospectiva sobre discriminação racial nos tribunais em Portugal

    Há justiça para o racismo? Uma pequena retrospectiva sobre discriminação racial nos tribunais em Portugal

    justica_racismo“(Em Portugal) a violência racista não parece ser um problema significativo”, assim começa o  relatório da Comissão Europeia Contra o Racismo e a Intolerância (ECRI) sobre Portugal, datado de Dezembro de 2012. De facto, a melhor maneira de não lidar com um problema social é afirmar que este não é significativo, uma atitude que a cultura dominante europeia tem constantemente nos vários pareceres e através dos seus porta-vozes que afirmam que já não existem graves demonstrações de racismo na nossa sociedade.

     

    Quem esteja mais atento a estas questões sabe que o racismo, para além de se manifestar frequentemente em actos individuais (ou de grupos específicos), está presente nas instituições de uma forma endémica, enraizado nas políticas e nas estruturas, inclusive na prática quotidiana do sistema judicial.

    O Racismo está institucionalizado no Direito. Se isso assim não fosse, os vários casos relatados neste artigo jamais teriam sido permitidos.

     

    Nenhuma pessoa é ilegal

    As leis que regulam a imigração são um bom ponto de partida para analisar a relação entre a discriminação e o direito português. Com as alterações à lei aprovadas em 2012, “foram reforçadas medidas privativas de liberdade, acentuou-se a criminalização da imigração, foram reduzidas garantias de defesa e de acesso à justiça, num claro recuo civilizacional e de menosprezo pelos mais fundamentais direitos humanos”, de acordo com a descrição da SOS Racismo numa carta aos grupos parlamentares[ref] http://www.scribd.com/doc/257390106/Requerimento-Grupos-Parlamentares-SOS-Racismo-Lei-Imigracao-2015[/ref]. De facto, os governantes podem ser muito incoerentes com as regras do jogo: “Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país”. Artigo 13º, ponto nº2 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

    Traduzindo estas alterações à lei em exemplos práticos, o facto de uma pessoa não conseguir cumprir os (muitos) requisitos administrativos para estar “legal” no país, pode levar à privação da sua liberdade sem que essa decisão passe por um tribunal. Apesar desta possibilidade, a pessoa considerada ilegal não tem necessariamente direito a um advogado de defesa e, caso tenha capacidade financeira para recorrer da decisão administrativa, essa acção não tem efeitos de suspensão – isto é, a pessoa continuará presa ou será deportada à mesma. É, portanto, um arguido de excepção, ao qual não se aplicam as regras do direito penal.

    Numa descarada contradição com estas alterações legislativas, surgem no ano passado os vistos gold, uma medida que concede, em menos de 6 meses, autorização de residência a um imigrante que adquira uma propriedade de mais de meio milhão de euros. Segundo Timóteo Macedo, presidente da associação Solidariedade Imigrante, os vistos gold são “o pior apartheid da história moderna”, concedidos aos imigrantes de “primeira classe”, enquanto os imigrantes pobres, que trabalham duro e que arriscam a vida deles para chegar à Europa, demoram em média 7 anos a conseguir, quando conseguem, uma autorização de residência.

    Numa das suas mais recentes reformas, a Assembleia da República aprovou um novo pacote de leis anti-terroristas, a 6 de Março deste ano, que introduz alterações em várias leis, como nas que dizem respeito à criminalidade organizada, segurança interna e organização e investigação criminal. Dentro do mesmo pacote, foram alteradas três leis que têm impacto directo na vida dos imigrantes, sendo elas a lei de estrangeiros – que vai restringir vistos de residência -, o Código do Processo Penal – onde são permitidas situações extraordinárias na perseguição legal de quem seja suspeito de terrorismo – e a lei da Nacionalidade – que limitará a concessão de cidadania portuguesa.

    Para reagir aos casos dolorosos de terrorismo, e com a sensibilidade da população a ser estimulada pelos media, os governos europeus tendem não só a legitimar a onda de islamofobia actual, como a dificultar ainda mais a vida de minorias étnicas.

     

    O Racismo precisa de silêncio. Quebremos o silêncio

    Quando se é negro e se vive num bairro pobre, é-se estigmatizado perante a justiça. Esta violência começa logo no momento da detenção ou investigação, sobretudo através da acção da polícia. Mário Monteiro, um jovem negro de um bairro pobre da Amadora, conta a sua experiência com a justiça aos 18 anos. Foi apanhado numa operação stop a conduzir sem carta, crime que lhe valeu um fim-de-semana inteiro na esquadra de Alcântara a ser torturado. “Bateram-me com listas telefónicas, garrafas de cerveja, murros, pontapés… Diziam-me «Preto de merda, por mim morrias aí» e os polícias que entravam no turno chegavam a trazer as garrafas de cerveja vazias para as atirarem contra mim. Não havia sequer um colchão na cela para dormir, acordavam-me a toda a hora, a luz sempre acesa e a darem pontapés no portão de ferro. Foi assim o fim-de-semana todo. Segunda-feira sou apresentado a tribunal, onde o procurador do ministério público me pergunta «mas nasceu do chão?!», porque sou órfão e não tenho o nome do meu pai ou mãe no meu BI. A seguir perguntam-me se é carnaval para que eu esteja assim vestido e penteado. Como não me calei, sou imediatamente algemado e passei o resto do julgamento já como condenado”.

    Para quem não tem dinheiro, o direito a uma defesa digna em julgamento fica seriamente comprometido. No seu segundo encontro com os tribunais, Mário Monteiro, já com 23 anos, conheceu a sua defensora oficiosa 5 minutos antes da audiência começar. “Ainda praticamente nem tínhamos falado, já ela estava a dizer que o melhor era eu declarar-me como culpado. Que não seria tão penalizado se assumisse logo ao juiz que tinha sido eu. Naquele caso, a prova principal era uma testemunha que, na altura da minha detenção, disse na esquadra que não me reconhecia. Dois anos depois, no julgamento, disse que afinal era eu. A minha advogada não disse nada. Foi o próprio juiz que disse à testemunha «mas você não o reconheceu na noite dos acontecimentos e agora já reconhece?». O julgamento teve apenas duas sessões e na segunda, apesar destas contradições, fui condenado a 5 anos de pena suspensa.”

    Quando se vive num bairro social, onde tantas vezes existem episódios de violência policial, estar em pena suspensa é como ter uma corda ao pescoço. Basta a pessoa ver-se envolvida num episódio menor com as autoridades e existe logo a possibilidade de ir cumprir a pena suspensa na totalidade. Mário explica que “nem tens de sair de casa, os problemas vêm ter contigo. Os polícias sabem que te têm na mão e não podes reagir aos abusos”.

    racismo_cavoamouraNo bairro da Cova da Moura, a 5 de Fevereiro deste ano, registou-se mais um episódio de violência racial, quando a polícia deteve violentamente um jovem que não estava a oferecer resistência e, perante a reacção da população, agrediu e disparou balas de borracha contra os moradores presentes. Alguns outros moradores foram posteriormente à esquadra de Alfragide saber do detido e 5 deles acabaram por ser também espancados dentro da esquadra. Ficaram detidos mais de 24 horas e foram apresentados a tribunal na manhã seguinte, sujeitos a Termo de Identidade e Residência.
    O Ministério Público pediu prisão preventiva para estes jovens, o que parece ser um padrão para pessoas de classe social baixa. Um dos jovens detidos conta que foi ouvido por uma juíza no tribunal de Sintra que o confrontou com a versão dos agentes, mas o jovem, apesar de desmentir essa versão, não teve oportunidade sequer de contar o que se passou realmente.

    É prática corrente nos tribunais, não ouvir a outra parte, alegando que são casos e situações distintas e que se um arguido ou testemunha quer falar de tortura ou espancamentos, que apresente queixa pois trata-se de um outro processo. Ao tomar esta posição, os juízes revelam a parcialidade da justiça, que pretende apurar só uma parte dos factos – o senhor que resistiu à detenção é a única parte que interessa; o facto de o ter feito porque estava a ser espancado (e não detido) e se tentou defender, como qualquer ser vivo faz instintivamente[ref]O direito à legítima defesa, Artº 32 do Código Penal[/ref], não é considerado legítimo e o arguido é silenciado com o argumento “se quiser falar do que aconteceu antes, faça uma queixa”.

    No caso da Cova da Moura, o comunicado oficial da PSP diz que foi disparado apenas um tiro para o ar aquando da detenção. No entanto, uma moradora  tem um relatório médico que comprova que levou três tiros na perna. Mesmo perante este tipo de contradições, os tribunais insistem em não ouvir ambas as partes. Esta prática por parte de colectivos de juízes tem acontecido em vários julgamentos passíveis de discriminação não só racial (como em manifestações ou “rixas” com a polícia) e tem sido difícil de desmontar mesmo por advogados não oficiosos. Este caso da Cova da Moura aconteceu com jovens que estão “socialmente bem integrados” (essa classificação que parece ter personalidade jurídica per se), activistas, colaboradores de associações do bairro e investigadores universitários. Como diz o rapper LBC, um dos afectados deste caso, “tenho curso superior, sou activista, conheço muita gente e muita gente acredita em mim. Agora um jovem que tenha pelo menos um antecedente criminal: ninguém o iria apoiar.”

     

    Quando o impensável acontece

    Demasiadas vezes os episódios de violência policial e abuso de autoridade culminam com a morte de alguém e os julgamentos que se sucedem expõem a vergonhosa realidade da (in)justiça social.
    “Das 17 mortes de jovens nas periferias de Lisboa, nos últimos anos, 15 são negros.”

    manif_sol_kukuEm 2009, um polícia matou com um tiro a 10 cm de distância um miúdo de 14 anos, a quem chamavam Kuku. Este fugia do polícia e estava desarmado. O julgamento, que decorreu em 2012, absolveu totalmente o agente que efectuou o disparo e, na sentença, o juiz ainda teve o descaramento de julgar o bairro onde estes jovens (14 anos, não é uma criança?) perigosos “se movem como gazelas” e os polícias têm razões para puxar da arma e matar. Como escreveu o colectivo Plataforma Gueto, “o julgamento do assassino do Kuku, levado até ao fim nas vias legais, nas instituições do “Direito”, foi a prova final de que da justiça só podemos esperar que ela funcione bem. Como tem funcionado. Ilibando a violência do estado e o racismo. Que funcione bem para quem tem dinheiro, contactos e cor de pele para fazê-la funcionar.”[ref] http://cma-j.blogspot.pt/2013/06/justica-so-aquela-que-soubermos-fazer.html[/ref]

    Toni, PTB, Musso, são apenas alguns dos nomes de rapazes negros assassinados por polícias que vão a julgamento e são totalmente absolvidos. Musso tinha 15 anos e morreu em consequência dos espancamentos que sofreu dentro da esquadra; Toni estava a jogar basket perto de uma associação da Bela Vista, na qual era monitor, e foi morto à queima-roupa; PTB foi morto a tiro pela PSP de Alfragide em 2003 depois de o terem mandado parar enquanto conduzia, encontrando-se na altura na companhia da sua namorada grávida e a quem partiram o pé; tudo para “controlar a situação”, porque não havia outra possibilidade… E os juízes dão carta branca a esta violência e garantem a impunidade, com base num discurso preconceituoso de que os bairros e os moradores são perigosos, chegando mesmo a escrever em acordãos que “(o agente) não podia ter actuado de outra forma”[ref]http://www.dnoticias.pt/actualidade/pais/358684-sos-racismo-critica-absolvicao-de-policia-que-matou-um-jovem-na-amadora-em-2[/ref].

    Quando a polícia não é totalmente absolvida, aplicam-se condenações que ilustram bem a diferença de severidade para uns e para outros. O polícia que matou o Mc Snake, outro jovem negro atingido com 2 tiros dentro do seu carro, foi condenado a 20 meses de pena suspensa. No prato oposto da balança da justiça, temos um dos jovens negros que foi julgado pelo meet do centro comercial Vasco da Gama – um caso que por si só vale a pena analisar[ref]http://www.buala.org/pt/cidade/convivio-ou-violencia-os-meets-e-a-afirmacao-do-direito-a-cidade[/ref] -, que foi condenado a 28 meses de pena suspensa por coação e resistência à autoridade. Uma pena superior, num embuste mediático, para um jovem que se encontrava no meio de centenas de outras pessoas, sem que sequer tivessem havido feridos graves, em contraste com o assassinato “legalizado” de uma pessoa que apenas desrespeitou uma ordem para parar.

    Ainda sobre o julgamento do meet nos tribunais, quando confrontada com a acusação da existência de racismo policial, a magistrada do ministério público respondeu, sem espaço para dúvidas, “na actuação da polícia não houve racismo. Não há racistas em Portugal, o nosso país não é um país de gente racista.” Considerou que Portugal é “uma sociedade que integra”, ao qual “as pessoas chegam”, por vezes sem documentos, e têm “protecção policial” e Serviço Nacional de Saúde gratuito. “Não somos um país de racistas, nem temos uma polícia racista. Nem a sociedade admitiria tal coisa” (Publico, 26/08/2014).

    As questões da habitação também encontram no direito a legitimação para a discriminação social e racial.  Exemplo disso são os casos das lutas contra as demolições nos bairros de Sta. Filomena e 6 de Maio, mais pormenorizadamente tratados neste número do Mapa na página 3. A Câmara Municipal da Amadora tem imposto o terror e a miséria, executando despejos e demolições cheios de atropelos à lei e deixando sem qualquer alternativa várias famílias e pessoas. Como podemos ler no site do Habita, um colectivo que se tem dedicado a estas questões e que tem apoiado os habitantes destes bairros, “o parecer do Provedor de Justiça veio dizer que a Câmara Municipal não tem legitimidade para continuar a intervir em terrenos privados, substituindo-se aos tribunais, organizando o despejo continuado de milhares de famílias que há muitos anos ali habitam, sobretudo, diz o Provedor, no contexto social e económico difícil que existe actualmente no país.”[ref]http://www.habita.info/2015/02/camara-municipal-da-amadora-prossegue.html[/ref]

    Entre outras questões legais, muitas vezes não são respeitados os pré-avisos, dando origem a situações de moradores que estavam a trabalhar enquanto a sua casa era demolida, perdendo tudo o que tinham.

     

    O racismo precisa de isolamento

    racismo_justicaMas existem exemplos de contestação e resistência que desafiam esse isolamento.
    O caso da Cova da Moura deu origem a uma concentração em frente ao parlamento contra a violência policial, uma iniciativa que deu voz à versão das pessoas sobre o que se passou, ao contrário da versão mediática que, logo após a actuação da PSP, difundiu a versão de tentativa de invasão da esquadra. Foi também apresentada uma queixa-crime por tortura no Ministério Público de Almada.

    Em relação às questões das demolições nos bairros de Sta. Filomena e 6 de Maio, têm sido organizados piquetes contra os despejos e os moradores têm-se organizado em assembleias, com presença nas sessões camarárias e com momentos de convívio. Contrariamente à versão dos tribunais, estes bairros parecem não ser tão perigosos, nem tão desorganizados, como nos querem fazer crer. Uma outra iniciativa denominada Nu Sta Djunto – Estamos Juntos – organiza concertos para angariar alimentos e outros bens essenciais para pessoas carenciadas. A propósito de um concerto no Bairro Santa Filomena, a 7 de Fevereiro deste ano, escreveram: “Contra a violência policial, contra a violência do estado que demoliu já mais de metade do bairro. E foi exactamente num desses sítios demolidos que o Nu Sta Djunto aconteceu, com grandes artistas e bons beatz… Nestes bairros há mais vida que nos vossos escritórios aborrecidos e apodrecidos!”

    Vivemos sob um Estado democrático de Direito, um sistema institucional que se legitima através de leis, que devem proteger uma série de garantias fundamentais, baseadas no chamado “Princípio da Dignidade Humana”. Liberdade, Igualdade, Segurança, Propriedade. Neste Estado de Direito, supõe-se que as próprias autoridades estão sujeitas ao respeito das regras de direito. Ainda alguém acredita nisso? E haverá quem afirme que os tais direitos fundamentais ao alcance de toda a população de forma igual?

    Os sinais estão dados. O racismo é mais uma das faces visíveis da injustiça actual. Apesar das investigações que documentam extensivamente como ele está estruturalmente presente nesta democracia, continua a ser rejeitado enquanto problema social que a sociedade arrasta há séculos[ref]http://www.ces.uc.pt/projectos/tolerace/media/TOLERACE_booklet_pt.pdf[/ref]. Perante isto, há quem se esteja a organizar como pode, seja com manifestações, publicações ou acções de solidariedade, como as acima descritas.

    Só nos resta assumir que estas autoridades nunca terão legitimidade para nos julgar e governar.

     

     

  • Da inconveniência das mortes visíveis

    Da inconveniência das mortes visíveis

    imigrantes_medite_abril2015A meio deste mês, entre os dias 13 e 19 de Abril, mais de mil migrantes morreram em pleno Mediterrâneo. A notícia indignou a opinião pública e não permitiu que as elites políticas fingissem não saber das mortes dos que tentam sobreviver procurando solo europeu.

    As últimas lágrimas institucionais tinham sido choradas em Outubro de 2013, quando cerca de 400 pessoas perderam a vida a caminho de Lampedusa. Nessa altura, a resposta do governo italiano apareceu sob a forma da denominada Operação Mare Nostrum. Acusada de despesista e de incentivar a imigração, foi recentemente substituída por uma outra operação, a Triton.

    Sendo a vigilância e a protecção de fronteiras (Operação Triton) mais barata e – dizem – mais dissuasora do que a procura e o salvamento (Operação Mare Nostrum), não é menos mortífera. Pelo contrário. A Organização Internacional para as Migrações prevê a possibilidade de se chegar a 30 mil mortos em 2015, apenas no Mediterrâneo. Há uma aparente relação directa entre o nível securitário e o número de mortes. A par duma incapacidade total de reduzir o fluxo de pessoas.

    A tragédia deste mês, apesar de ser um sintoma desse problema, não mudou o olhar das autoridades da União Europeia (UE). A ideia é a mesma. Não evitar mortes. Afastá-las para lá do Mediterrâneo. Levar para longe da vista a fronteira e o seu papel de protecção – violenta, se necessário – da acumulação de capital no mundo rico. Aproveitando as alturas em que a normalidade se torna visível para a tratar como emergência excepcional que legitime uma legislação ainda mais repressiva.

    Um caminho que se pode ver claramente parte mais mediática das recentes decisões da UE, que ameaçam destruir os barcos dos “traficantes”. Para além de todas as implicações diplomáticas que poderá ter uma ingerência deste tipo; para além da impossibilidade de distinguir um “barco negreiro” dum mero barco de pesca; para além do cerne deste discurso apontar para que o que realmente importa não é tentar resolver as causas dum problema mas antes proteger a riqueza dos pobres que ela gera; para além disto, o facto é que, depois de mais de mil pessoas terem morrido, a resposta de quem os poderia ter salvo é aumentar o risco para quem vier a seguir.

    A UE diz-se preocupada com o seu envelhecimento, ao mesmo tempo que veda o acesso aos jovens que querem entrar. Nesta hipocrisia, protege-se e assassina. Que os migrantes morram diz-lhe pouco. Que o façam de forma visível é que acha inconveniente.

     

     

     

  • Expansão do Porto de Sines: na “onda” do progresso

    Expansão do Porto de Sines: na “onda” do progresso

    saotorpesNo passado dia 14 de Fevereiro, surfistas de Sines concentraram-se pela “preservação” da praia de São Torpes, em protesto contra os impactes da expansão do terminal de contentores do porto local. Um mês depois, a 16 de Março, o primeiro-ministro anunciou oficialmente a 3ª e 4ª fases do projecto de expansão do porto de Sines. Tudo isto se passa numa região, o litoral alentejano, que, em meio século assistiu (e como em nenhum outro lugar em Portugal, desde os planos traçados no Estado Novo ao impulso do Gabinete da Área de Sines em 1975), à recriação de todo um território, fazendo tábua rasa do existente. Há 40 anos atrás, não eram certamente os surfistas que protestavam. O Século, no quente Agosto de 1975, relatava como camponeses, rendeiros e pequenos proprietários, resistiam ao avanço industrial, até chegarem os carros militares do R11 de Setúbal para “restabelecer a ordem” em nome do “bom andamento dos trabalhos, com graves prejuízos para a economia do país” e ceder as terras aos novos donos industriais. Apenas vozes esquecidas – como Afonso Cautela, responsável pelo que veio a ser o movimento ecologista português – davam então conta das arbitrariedades e impactos da transformação de 40 100 hectares da área de Sines, ou nas palavras do mesmo “como se destrói um ecossistema em 4 anos”[ref]Afonso Cautela (1977) “Ecologia e Luta de Classes em Portugal”[/ref].

    O grande projecto do terminal de contentores XXI do Porto de Sines foi aprovado em 1999 e tem vindo a ser implementado (a 1ª e 2ª fases) desde então. As operações portuárias iniciaram-se em 2004, em regime de concessão de serviço público, por 30 anos à PSA – multinacional estatal da Autoridade Portuária de Singapura. A nova expansão visa criar o 3º posto de acostagem, já previsto mas agora de maiores dimensões. Dada a evolução no comprimento dos navios verificada na última década, isto implicará a expansão do cais e do terrapleno, a ampliação do molhe leste e a regularização do leito rochoso contíguo. A intenção é elevar a capacidade do terminal de contentores para 3.000.000 TEU por ano (TEU representa a capacidade de carga de um contentor marítimo normal). O protocolo de investimento foi selado no âmbito da visita a Portugal, do Presidente da República de Singapura em Maio de 2014. Na verdade tudo fora confirmado dois anos antes com o alargamento do canal do Panamá. As obras do outro lado do Atlântico posicionam Sines – no centro das rotas Pacifico – Atlântico – como a porta de entrada, da China e dos Estados Unidos da América, na União Europeia. A Organização Mundial do Comércio prevê que o Terminal XXI seja o porto com maior crescimento no mercado de contentores no futuro, razão pela qual este faz parte do Plano Estratégico de Transportes e Infraestruturas, junto com o corredor ferroviário Sines/Setúbal/Lisboa – Caia (Espanha), com conclusão anunciada para 2019.

    O Estudo de Impacte Ambiental (EIA)[ref]Estudo de impacte ambiental da expansão do terminal de contentores (TXXI) de Sines. Acessivel em: http://goo.gl/fdzym0[/ref] do alargamento do Porto de Sines não menciona já agricultores. Apenas surfistas. Foram no entanto os primeiros que, em comunicado de Abril de 1976, apontavam já então o dedo à destruição das áreas de cultivo e ao esgotamento de riquezas hídricas, sem esquecer a “poluição das águas e de todos os areais”. Em Abril de 2015, 39 anos depois, as vozes partem das escolas de surf instaladas na praia de São Torpes, apontando a Associação SOS – Salvem o Surf, as consequências para o areal e ondas, logo para “o valor do surf na economia, no turismo e no emprego”. Poderá resultar disto uma preocupação que literalmente morre na praia, ao incidir sobre algo tão específico como a diminuição do tamanho da ondulação, i.e. do surf. E claro, tão-pouco a lógica, ou a própria identidade industrial de Sines, nos remeteriam evidentemente a um regresso aos campos de há 4 décadas atrás. O certo é que no quotidiano dos sinienses – e não só os surfistas – já tem havido interrogações de sobra sobre os impactes da expansão industrial da área, nomeadamente ligadas à persistente poluição. O EIA não esconde mesmo que o porto, numa área industrial já por demais “artificializada” está “próximo de zonas sensíveis do ponto de vista ecológico” para mais “num contexto socioeconómico também delicado”. Ou seja, apesar de falarmos de uma faixa litoral com tripla protecção: Parque Natural, Sítio de Importância Comunitária da Rede Natura 2000 e Zona de Protecção Especial para as aves, é evidente que “a presença do Porto de Sines determina a existência de uma pressão antropogénica muito preponderante sobre a componente ecológica, que se encontra bastante alterada, em particular no meio terrestre.” No meio aquático, poderíamos começar por falar nos inevitáveis derrames de hidrocarbonetos entre outras consequências previsíveis. Quanto aos aspectos socioeconómicos, a criação de 100 postos de trabalho pela PSA, recorda-nos a factura paga pelos sindicatos, comprometidos com Singapura em nome da “paz social”. Que o digam os estivadores – que viraram a página no sindicalismo amorfo português nos últimos tempos – que em Setembro de 2014 se dirigiram ao Sindicato do Centro e Sul, para logo serem perseguidos por tal aproximação, contrária ao freio sindical vigente em Sines, lugar onde “são impostas das mais deficientes e gravosas condições laborais dos portos Europeus”[ref]http://oestivador.wordpress.com[/ref].

    A expansão do Porto de Sines levanta deste modo diversas ondas, das quais apenas a que é surfável parece ter merecido atenção. Sinais dos tempos?

     

    Filipe Nunes // filipenunes@dev.jornalmapa.pt

  • A governação crónica e o caso da Hepatite C

    A governação crónica e o caso da Hepatite C

    governacaocronicaO recente episódio em torno dos doentes infectados com Hepatite C e o Sofosfovir, o fármaco que permite o tratamento da doença com eficácia acima dos 90%, revelou uma vez mais a natureza do governo e das multinacionais que dominam o mercado farmacêutico. Os media divulgavam no inicio de Fevereiro a morte de uma doente que esperava há meses pelo tratamento vital, dependente de um medicamento embrulhado em negociações e burocracias administrativas, que lhe poderia ter salvo a vida. Ao trágico desfecho aditou-se a triste ironia: segundo declarações do filho da vítima[ref]Doente de 51 anos morre à espera de medicamento inovador para a hepatite C, 03-02-2015. Jornal Público[/ref],  a mesma terá sido contaminada em cirurgias e transfusões realizadas no SNS…

    Entre protestos de familiares e portadores do vírus, denunciando o abandono e a negligência do governo, o ministro da saúde viu-se forçado a engendrar um golpe de ilusionismo moral. Tentou forjar um aparente conflito de interesses entre o Estado e a Gilead Sciences, a empresa que tem exclusividade plena na comercialização do medicamento. Em audição parlamentar, o ministro desculpava-se capciosamente, aludindo a um preço “monopolista”, afirmando que o acesso de milhares de doentes ao medicamento “só dependia da indústria”. Roçando o ridículo concluía “que a pressão sobre a indústria é zero”. Pois então! Não é o Estado que garante os privilégios comerciais à empresa, concedendo o direito à patente, proibindo a concorrência?… Não é a oferta assim resguardada, estabelecendo arbitrariamente o preço do medicamento?… Em discurso encapuzado, o ministro pretendia, atirando “areia para os olhos” da opinião pública, aliviar “pressão” sobre o Infamed, e ocultar a incumbência do governo na salvaguarda do monopólio logrado pela Gilead Sciences.

    Durante as primeiras negociações com o Ministério da Saúde, empatadas durante meses, a farmacêutica norte-americana propôs vender o fármaco a 48.000 euros por cada tratamento de 12 semanas. Sendo o custo de produção do Sofosfovir não superior a 100 euros, a Gilead obteria assim um lucro que rondaria os 5000%. Entretanto, depois da morte de doentes, dos protestos, e das artimanhas do ministro, o acordo alcançado a “preço de amigo” vai permitir ao SNS pagar cerca de 25.000 euros por tratamento. Com um cliente acólito e fidelizado, e uma margem de lucro próxima dos 2500%, a Gilead Sciences encontra no Estado Português um parceiro respeitável! Menos sorte teve no Brasil ou na Índia quando viu a patente rejeitada[ref]Key Hepatitis C Patent Rejected In India, 14-01.2015. (www.ip-watch.org)[/ref], desobstruindo o mercado aos laboratórios de genéricos que disponibilizam um fármaco semelhante por menos de 100 euros…

    Sem questionar o sistema de patentes na íntegra, a organização Médicos do Mundo contestou a patente do Sofosfovir, alegando que a sua composição “não é suficientemente inovadora”[ref]Hepatite C: Médicos do Mundo opõe-se à patente do sofosbuvir, 12-02-2015. (www.medicosdomundo.pt)[/ref]. Ora de suposta inovação se fazem grandes roubos e se esfola a sociedade com apanágios de progresso. Os direitos de propriedade intelectual e as patentes são um ardiloso estratagema para extrair rendas de produtos ou bens, que não sendo tecnicamente escassos, assim são concebidos através da lei. Dirão indignados, investidores filantropos e democratas auspiciosos: “tantos anos de investimento para descobrir um medicamento inovador têm de ter um retorno, certo?”. Errado! Boa parte da investigação científica que resulta numa patente é feita em parceria com instituições “públicas”, ou delas extrai conhecimento e apoio financeiro, melhor dizendo, é subsidiada com dinheiro confiscado aos contribuintes. Ao mesmo tempo as patentes são um claro entrave à investigação, pois desencorajam outros inventores que poderiam chegar aos mesmos resultados, e como é sabido, são muitas vezes engavetadas nas prateleiras dos laboratórios, em finória e lucrativa especulação.

    A história da Gilead Sciences, semelhante à de outras corporações sempre bem relacionadas, da Big Pharma ou demais indústrias, é um exemplo que ilustra o denominado, passo a redundância, capitalismo “crónico”. Esta empresa de biotecnologia tem incorporado na sua administração notáveis figurões da política global, entre os quais, Ronald Rumsfeld, George Shultz ou o belga Etienne Davignon. Rumsfeld foi quadro da empresa entre 1988 e 2001, tendo sido nomeado presidente em 1997, cargo que desempenhou até encabeçar o Ministério da Defesa dos EU, durante a governação Bush. Figura sinistra da guerra com ilustre currículo de torcionário[ref]Rumsfeld autorizou várias técnicas tortura nas prisões de Abu Ghraib (Iraque) e Guantánamo Bay (Cuba). Report Blames Rumsfeld for Detainee Abuses, 11-12-2008, New York Times.[/ref], o avultado accionista da Gilead lucrou milhões de dólares com o embuste montado à volta da “gripe das aves” e do Tamiflu. Este antigripal, de mérito duvidoso, foi desenvolvido pela Gilead nos anos 90, e os direitos de distribuição negociados com a farmacêutica suiça La Roche. Em 2005, quando se encontrava na liderança do Pentágono, o político republicano mobilizou esforços para que a epidemia fosse considerada “uma ameaça à segurança nacional” e o alarme pandémico alastrasse. Como resultado foram endossados milhões de comprimidos aos governos de mais de 60 países, as farmacêuticas multiplicaram os seus lucros e Rumsfeld fez crescer a sua fortuna especulando na bolsa a seu belo-prazer…

    De perniciosos interesses corporativos, procedentes do conluio entre governos e o alto negócio, se estabelecem acordos internacionais e parcerias, como o TRIPS[ref]Do inglês Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights[/ref],  supervisionado pela Organização Mundial do Comércio, ou o recente TTIP[ref]Transatlantic Trade and Investment Partnership[/ref], celebrado  entre a UE e os EUA. Estes cozinhados, de pé fincado no direito internacional e munidos de rebuscados instrumentos judiciais, vão buscar o que de pior existe no proteccionismo económico,  a favor do alto negócio, claro! Para depois liberalizarem os mercados e louvarem a livre concorrência, como se o cartel fosse coisa natural… Assim se governam gordos investidores e demais batoteiros da finança, assim se fazem políticos de envergadura e renomeados gestores! É por esta estirpe que todos os dias somos assolados…
     

  • A greve dos provocadores

    A greve dos provocadores

    guardaprisional_grevDesde o passado 2 de Março, os guardas prisionais realizam greves de forma intermitente em praticamente todas as prisões do país e tencionam prolongar a sua luta até dia 7 de Abril. Reclamam a regulamentação do horário de trabalho, as progressões nas carreiras e a aprovação dos novos níveis remuneratórios e subsídio de turno pelos serviços nocturnos. A sobrelotação das prisões atinge, actualmente, os piores valores de sempre, com consequências terríveis para o quotidiano das pessoas presas. Paralelamente são publicados relatórios onde se pode ler que a taxa de mortalidade nas prisões portuguesas é o dobro da média europeia[ref]Jornal Público, 10-01-2015 http://tinyurl.com/o6bcsqb[/ref]. Estas afirmações são potenciadas pelas permanentes denúncias de tortura nestes autênticos centros de extermínio. Os mesmos “profissionais” que praticam, colaboram e ocultam todo o tipo de maus-tratos, usam o seu “direito” à greve com o único intuito de prejudicar os presos que, durante as greves, ficam fechados dias inteiros nas celas, bem como as suas famílias que ficam impedidas de atender às visitas. O objectivo é, portanto, claro: *aumentar um mal-estar latente que possa levar a desacatos e motins que justificariam a urgÍncia das suas exigÍncias.*

    Por cada dia de trabalho um guarda prisional descansa dois, substituem-se continuamente nos turnos e também metem baixas com frequência. Todos estes fatores permitem suficientes dias livres em cada mês para que se dediquem a outras atividades económicas extras que, a juntar ao auferido pelas horas extraordinárias, lhes permite aumentar consideravelmente a remuneração mensal.

    Mais que avaliar as condições laborais desta classe de “trabalhadores” é importante denunciar a deterioração contínua das condições de vida dos presos e presas e o aproveitamento vergonhoso que os guardas prisionais fazem dessa situação, não apenas através de greves arbitrárias, mas também com todo o tipo de negócios dentro dos estabelecimentos prisionais como o tráfico de drogas e a especulação económica com diversos produtos necessários aos presos. As condições básicas para as pessoas presas, ao contrário do que a democracia quer fazer acreditar, têm vindo a sofrer alterações como se a involução fosse rumo à época medieval. As visitas têm sido reduzidas, quer em frequência como em duração, o que nos leva a perguntar se o objectivo dos educadores sociais que trabalham a tempo inteiro nas prisões não será afastar os presos do seu apoio familiar e social? As chamadas telefónicas, antes feitas com cartões de telefone normais, para números pré-aprovados, estão agora reduzidas a uma por dia e limitada a 5 minutos! Os dias festivos deixaram de ser celebrados com as famílias, as pequenas cafetarias na sala de visitas foram substituídas por *vending machines*, as encomendas e tipos de bens que podem receber têm vindo, progressivamente, a ser limitados (quanta indignação expressada agora pelos democratas amigos do preso 44!).

    Os guardas prisionais são obviamente a peça mais débil da máquina prisional. No entanto, sabemos qual o papel que desempenham nestes templos de morte: são muitas vezes juízes e carrascos de pessoas a quem foi retirado quase tudo e, neste extremo, sabemos bem que interesses protegem.

     

     

     

  • Regressam as demolições a Santa Filomena, Amadora.

    Regressam as demolições a Santa Filomena, Amadora.

    Durante o dia 24 de Março, o bairro na Amadora voltou a ser palco de violentos despejos. Os de hoje atingiram na sua maioria pessoas que se têm insurgido publicamente contra as demolições.

    (em actualização)

    Ao início do dia a polícia montou uma mega-operação com o objectivo de cercar todo o bairro e controlar todas as entradas. Estiveram presentes cerca de 50 agentes fortemente armados, assim como várias carrinhas e motas. Há registo de pelo menos10 casas demolidas, seis das quais estavam habitadas, despejando assim cerca de 30 pessoas, incluído crianças e idosos. À semelhança das demolições anteriores, as únicas notificações recebidas pelos moradores foram verbais e segundos antes de serem arrastados das próprias casas.

    Nos últimos anos o bairro tem assistido a vários despejos e demolições violentas, a propósito da execução do Plano Especial de Realojamento (PER), pela Câmara Municipal da Amadora (CMA). Na última assembleia municipal, vários moradores do bairro pronunciaram-se contra a violência das demolições, mostrando-se preocupados com as suas próprias situações de desalojo iminente. Foi-lhe assegurado que os seus casos seriam tomados em consideração. Três semanas após a assembleia, foram precisamente esses os moradores que se depararam com as suas casas demolidas, sem qualquer aviso prévio e sem qualquer alternativa da CMA para habitação. Foram também os próprios moradores a assegurar o transporte dos seus bens para fora do bairro.

    Muitos moradores vêm-se agora forçados a procurar soluções no mercado livre de arrendamento (isto é, sem qualquer apoio da Câmara), quando muitos estão desempregados. Simultaneamente, alguns dos moradores recenseados no PER receberam hoje a notícia da sua expulsão deste programa devido ao facto de se terem ausentado do país (em trabalho). A Provedoria de Justiça já se tinha pronunciado acerca da ilegalidade destes despejos, uma vez que sendo o terreno privado (comprado em 2007 por um fundo imobiliário do Millenium BCP), não é competência da CMA ordenar os despejos. Recomendou ainda a imediata suspensão das demolições.

    Amanhã, dia 25 de Março, as demolições continuam, pelo que se apela à mobilização em Santa Filomena. Há piquetes no bairro a partir das 7h00.

    Informação actualizada:
    Guilhotina.info: facebook.com/guilhotina.info
    Associação Habita: habita.info