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  • Regresso à jornada de luta de 29 de novembro contra a COP21

    Regresso à jornada de luta de 29 de novembro contra a COP21

    Tradução dum Relato a várias mãos da jornada contra a COP21, em Paris, no Domingo 29 de novembro de 2015 retitrado do site paris-luttes.info

    cop 01É meio-dia quando chegamos à Place de la République e nada faz prever a volta que esta manifestação dará dentro de algumas horas. Não há muita gente, cada um a tratar das suas respetivas ocupações: uns a empilharem sapatos encarregados de se manifestarem na vez dos seus proprietários, outros a partirem para a cadeia humana, outros ainda a beberem um chá ou a petiscarem. Alguns militantes agruparam-se à volta duma faixa das organizações libertárias (AL, CGA…) que lhes dava voz. Pode-se mesmo encontrar um grupo de japoneses suficientemente determinados na luta contra o nuclear para virem até aqui, em pleno estado de emergência.

    Não muito longe, um grupo de manifestantes de apoio à Palestina apela ao boicote a Israel e à sua ocupação mortífera (29 de novembro também era o dia internacional de solidariedade com o povo palestiniano). Turistas a depositarem flores na estátua da República em homenagem às vítimas dos recentes ataques, dervixes (um dervixe é um praticante aderente ao islamismo sufista que segue o caminho ascético da “Tariqah” – N.T.) rodopiantes, skaters e curiosos completam o quadro, um verdadeiro inventário à moda de Prévert.

    Uma coisa é certa: há bófias por todo o lado. Mais de uma centena de camionetas rodeiam a praça e não se trata apenas de playmobils anti-motim. Há muitos paisanos entre a multidão, a gravidade do estado de emergência faz-se sentir… Impotência do monte de sapatos, impotência da multidão dispersa, fragmentada e vigiada. Reina uma espécie de incerteza, cada um a saber das razões pelas quais veio mas sem qualquer ideia sobre a forma que as coisas vão tomar. A instalação de cantinas que distribuem super-refeições a preço livre permitem aliviar provisoriamente a atmosfera. As pessoas sentam-se no chão, recuperam e ganham força para o que vier a seguir.

    Durante este tempo, apesar da interdição e apesar da militarização, a multidão continua a engrossar. Muitos participantes da efémera cadeia humana voltaram um pouco frustrados. Formam-se pequenos cortejos, que começam a encorajar as pessoas a manifestarem-se. Um pouco antes das 14h, começa a haver algum movimento em direção ao Boulevard Magenta e a multidão, que se aborrece visivelmente na Place de la République, põe-se progressivamente em marcha, integrando-se no cortejo ainda em formação.

    A praça já está bloqueada em todas as saídas. Começamos, então, a marchar à sua volta, na parte até então aberta ao tráfego automóvel. Cortejo estranho que se põe em marcha e regressa à volta da praça e, portanto, à volta da República, manifestando-se às voltas e em vão sem conseguir encontrar uma saída. A partir das 14h, estamos completamente presos. É impossível deixar a praça pelas ruas adjacentes e as saídas de metro também estão fechadas por ordem da perfeitura . Eis então os e as que desafiaram o estado de emergência, bloqueados do lado de fora. Gritamos slogans contra a COP21 e o seu mundo abafante, contra o estado de emergência que se abate sobre nós, contra a polícia que, quando ainda não nos “protegia”, assassinou Rémi Fraisse (NT: Jovem assassinado em outubro de 2014 pela polícia francesa durante um protesto contra uma barragem em Sivens) e perpetrou crimes racistas. “Se não marcharmos, não pode sercop 02(uma frase que fica bem melhor com o trocadilho francês “Si on ne marche pas, ça ne marchera pas” – N.T.), “polícia em todo o lado, justiça em parte nenhuma”, “estado de emergência, estado policial, não nos impedirão de nos manifestarmos” ou ainda o muito sóbrio “liberdade, liberdade” foram slogans retomados com força.

    Depois de termos feito frente às barreiras de CRS (Corpo de intervenção da polícia francesa – N.T.) situadas à entrada do Boulevard Saint-Martin, da Rue du Temple, do Boulevard du Temple e do Boulevard Voltaire, metemo-nos na abertura da Avenue de la République, mas não por muito tempo. A linha de CRS também está aí presente. Num primeiro momento, os manifestantes tentam passar pacificamente. Ao fim de alguns segundos toda a gente é pulverizada com gases.

    Depois de uma boa dezena de minutos de “contacto”, onde alguns e algumas tentam ultrapassar a linha de CRS, os bófias começam a bater mais forte e a re-gasear abundantemente as primeiras filas. Acabamos por recuar na praça e começou tudo de novo. Rue du Faubourg du Temple, Boulevard Magenta… Sempre com alguns milhares, num ambiente de alguma forma determinado e festivo: manifestamo-nos, apesar da interdição mesquinha, desafiamo-los, nesta praça que supostamente encarna a cidadania e a unidade nacional. Convencidos de que as nossas ideias são importantes, que merecem ser defendidas apesar das ordens vindas de cima para que nos uníssemos à volta de valores supostamente comuns. Estamos aqui para dizer que não queremos a proteção deles, que não aprovamos a sua explosão securitária, a repressão dos componentes mais fracos e discriminados da população. Não há tréguas entre nós e o Estado. Não há complacência com o circo da COP21, a destruição concertada e pensada do mundo. Já o tínhamos dito há muito: A COP será social ou não será!

    cop 05Antes das 15h estamos portanto, bem e lindamente, confinados à Place de la République. Os que nos bloqueiam e gaseiam começam a receber alguns projéteis. Nada de muito pesado, à partida. Aparentemente, não haveria feridos do lado deles. À entrada da Rue du Temple, os projéteis que caíam sobre eles começam a ser mais numerosos e, então, enviam-nos os deles. Muito gradualmente, mas num espaço de tempo curto, são atiradas, primeiro, granadas lacrimogéneas e, depois, granadas ofensivas ou de dispersão. Mais tarde, na praça, serão encontradas dezenas de balas de borracha. Para além do mais, os disparos fazem-se à altura das caras. Alguns manifestantes ficam feridos. Mas quem bloqueava quem? Quem defendia os bombeiros pirómanos reunidos no Bourget que deveriam trabalhar para o bem da humanidade? Quem se arroga o direito de confinar os nossos camaradas em casa, de os vigiar com meses e até anos de antecedência?

    cop 06As granadas lacrimogéneas continuam a chover, o seu gás invade, pouco a pouco, toda a praça, atingindo nomeadamente as pessoas reagrupadas à volta do memorial pelas vítimas do 13 de novembro (a Rue du Temple, de onde partiram os disparos fica a uma centena de metros do monumento). O cenário que se desenrola depois faz lembrar as manifestações do verão de 2014, quando o governo de Valls se divertia a proibir manifestações de apoio ao povo palestiniano (não houve sequer necessidade de Estado de Emergência): grande nuvem de gás, os manifestantes recuam e depois voltam. A tensão não para de subir e, de cada vez que o gás se dissipa, há mais projéteis a caírem sobre as linhas policiais, em vários locais da praça. Exceto que desta vez não há mais do que blocos de terra nesta praça higienizada. Os sapatos, que até então estavam impotentes, espalhados num canto da praça, acabam por se esmagar nas viseiras dos CRS, reencontrando aí a sua verdadeira função.

    cop 09Algumas velas voam acompanhadas pelos seus respetivos copos de vidro. Não vale a pena ver nisso uma marca de falta de respeito pelas vítimas do 13 de novembro. Somos muitos os que acham que a bandeira tricolor e o estado de emergência insultam bem mais a sua memória.

    Depois, as forças da ordem entram às centenas na Place de la République, seguidamente no Boulevard Voltaire e depois no Boulevard du Temple, quebrando toda a gente à sua passagem, verdadeira onda azul com a qual o Estado pretende mostrar a sua intransigência sobre qualquer forma de contestação. Essas duas linhas são seguidas por uma turba de bófias à paisana, amontoados à entrada da Avenue de la République, depois pelos outros, cercando todos os manifestantes. Esta praça, incontrolável durante alguns instantes, volta então a ser a armadilha prevista pelo urbanismo securitário parisiense.

    Donos do espaço, os bófias fazem o que querem. Dão bastonadas para todos os lados, saqueiam as famosas velas que estão à frente da estátua da República e sitiam centenas de manifestantes. Haverá dois cercos: um à entrada da Rue du Faubourg-du-Temple, o outro na praça, ao nível do Boulevard Magenta.

    Vídeo de bófias pisando o memorial da Place de la République

    A maior parte dos companheiros e companheiras, enervados, deixaram os seus disfarces negros dentro dum balde do lixo antes de dispersarem e deixarem a praça. As duas belas fogueiras festivas são, em breve, extintas pelos de azul. Ficam os palhaços, os pacifistas, os acrobatas e ficámos a achar que, apesar de cercados, o ambiente está ligeiramente mais calmo. Os dois grupos sitiados são separados, os cânticos saltam dum lado para o outro. Cagámos na bófia, o tumulto toma aspecto de espetáculo de rua. Pouco a pouco trazem reforços para a zona. Golpes de matracas na cabeça, gente arrastada pelo chão, gás lançado diretamente para os olhos lembram aos pacifistas sentados no chão que um CRS está ali sempre disposto a partir-nos a cara.

    cop 12A partir desse momento, é a arbitrariedade total. Algumas pessoas são enviadas para várias esquadras, outras mantêm-se cercadas. O ambiente é altamente surrealista. Somos cerca de 150 rodeados num canto duma praça por um dispositivo massivo. O acampamento organiza-se sob o olhar vítreo dos soldados. Estamos a mijar contra o muro quando compreendemos que é o da caserna da República. Dois companheiros sobem a uma árvore para pendurarem uma faixa que diz “Pace”. Um sistema de som foi cercado connosco e tudo muda de aspecto para uma Rave onde o Drum & Bass se pontua de cantos anti-bófias. Berramos para gozar estes carneiros, gritamos “Chamem a polícia, fomos sequestrados”. Nos telemóveis, percebemos que o Le Figaro nos trata como “os manifestantes mais duros” e que Hollande nos considera “escandalosos”. Rimo-nos todos. Os bófias reagem regularmente prendendo um de nós à sorte e levando-o para um camião onde fica durante horas a comunicar com os seus que estão ainda do lado de fora. Pouco antes das 20h, os de azul tentam comunicar connosco por megafone agora que um novo camião chegou para nos embarcar e que algumas pessoas foram violentamente arrancadas da multidão. Recusamo-nos a acreditar nas suas mentiras e de sermos libertados sem os nossos camaradas. Finalmente, são organizados dois corredores e somos libertados após uma revista muito ligeira e sem controlo de identidade. Um CRS deliciado solta “até amanhã, hoje divertimo-nos muito”.

    Durante todo este tempo e até ao fim, as pessoas que, duma forma ou doutra tinham conseguido escapar da “grande ratoeira” voltam para apoiar as pessoas cercadas. Os perfis são muito heterogéneos e, contrariamente ao que tentavam contar a prefeitura e os mass média, não havia encapuçados. Muitas pessoas ficaram, colocaram-se em perigo, para apoiarem os outros manifestantes e para desafiar o estado de emergência. Uma manifestação selvagem de 150 a 200 pessoas formou-se nesse momento atrás das barreiras dos Grands Boulevards e partiu alegremente em desfile até que foi apanhada pela polícia e dispersada em direcção a Stalingrad. Apesar da repressão cega da polícia que ainda conseguiu ferir gravemente um manifestante, havia ainda assim uma certa energia onde as clivagens clássicas entre o manifestante gentil e os maus encapuçados desapareceram parcialmente perante a urgência de não abandonar a rua. Esperemos que esta energia fique viva nas próximas semanas e meses.

    Não nos iludamos: conseguimos manifestar-nos, de várias formas, mas não eliminámos o programa em curso durante esta conferência climática, cujos objetivos atuais, aquecimento de “apenas” 2º, estupidamente criminosos para milhões de seres humanos, não serão cumpridos. Programa delirante que inclui a promoção de soluções energéticas ultra perigosas de substituição como a nuclear, medidas de aprendiz de feiticeiro tais como a geo-engenharia mas (evidentemente) uma ausência completa de questionamento da principal causa das alterações climáticas, o crescimento industrial infinito exigido pelo capitalismo para a sua própria sobrevivência.

    Os críticos, que não deixarão de falar sobre a suposta irresponsabilidade dos manifestantes radicais, apenas contribuirão para esconder ainda mais até que ponto este radicalismo se situa abaixo do que uma situação como esta exigiria como reação da nossa parte. Deste dia 29, é preciso acima de tudo reter esta mensagem: Estamos determinados a lutar, quaisquer que sejam os obstáculos que nos coloquem. Falta responder a esta questão, sempre em suspenso: como lutar?

    Membros da Automédia da Assemblée Parisienne Contre la COP21

    PS : quando este artigo foi publicado (30 novembro), a polícia falava de 341 identificações das quais 317 deram origem a detenção.

    P.-S.

    Ler também le communiqué du collectif de soutien aux manifestant-es assim como le suivi de la journée et de ses suites

  • O exílio portuense das “Safo Galegas”

    O exílio portuense das “Safo Galegas”

    Texto escrito por Carlos C. Varela e ilustrado por MC.

    Saphas1No Verão de 1901, Mário e Marcela, um jovem casal galego, chegava ao Porto para encetar uma nova vida; primeiro estabelecer-se-ão na pousada A Mesquita, na rua do Bonjardim e, depois, noutra da praça da Batalha. Marcela começará a trabalhar no Café Lisbonense, cujos proprietários a apreciam muito, correndo tudo bem para o casal até que um espanhol os delata à polícia: Mário, na realidade, era Elisa, uma mulher. A partir daí, os seus genitais tornar-se-ão um campo de batalha: entre o amor lésbico e o heteropatriarcado, mas também entre projectos nacionais divergentes. E a luta de Elisa e Marcela, minuciosamente reconstruída por Narcisco de Gabriel (2008) – e divulgada pelo recentemente falecido Eduardo Galeano (2012) – merece um posto de destaque na história queer de Portugal.

     

    “O crego que che casou
    devia de estar borracho
    porque não che perguntou
    se eras fêmea ou macho”

    Cantiga popular da Ria de Arouça[ref]Bouza-Brey, F. 1982 (1931). “Cantigas populares de Arousa”. Etnografía y Folclore de Galicia, (t. 2). Vigo: Xerais.[/ref]

     

    Elisa Sánchez nasce na Corunha em 1862, cinco anos antes de Marcela Gracia. Conhecem-se na Escola Normal de Mulheres, onde Elisa trabalhava e Marcela estudava. Depressa nasce uma forte amizade entre elas, julgada como excessiva pela família de Marcela, que tenta esfriar a relação enviando a filha para Madrid. Porém, sendo já as duas professoras – uma profissão que permitia certa autonomia às mulheres – encontram-se na comarca de Bergantinhos, com Elisa à frente da escola rural de Couso e Marcela da de Traba, estabelecendo-se finalmente a primeira em Calo (Vimianço) e a segunda em Dumbria. Com independência económica e longe do controlo familiar, as duas companheiras podem fazer a sua vida. Todas as noites Elisa percorria sozinha com o seu revólver – como era costume dos moços de então – os onze quilómetros que distavam até à morada de Marcela. Mas o seu forte carácter – a vizinhança chamava-lhe ‘o Civil’, em alusão à Guarda Civil – faz com que se envolva em pelejas com os pretendentes que Marcela tinha na aldeia, e chegará mesmo a tentar suicidar-se. Com o convívio muito rareado, Elisa volta à Corunha.

    Após este primeiro fracasso, traçam uma nova estratégia, muito mais audaz e arriscada, para conseguir uma vida própria: Elisa propaga a falsa notícia de que vai embarcar para Havana, enquanto Marcela diz que vai casar com um tal Mário. Já na Corunha, a primeira começa a transformação: veste roupa de homem, deixa crescer bigode, fuma… Elisa transforma-se em Mário Sánchez Loriga, um emigrante recém-chegado de Londres para casar com a sua prometida Marcela. Fazendo-se passar por protestante, tem que se batizar como católico para poder casar e vai, assim, oficializando a sua nova identidade. Em 8 de Junho de 1901, às sete e meia de manhã, o sacerdote Víctor Cortiella tornar-se-á, sem o saber, no primeiro clérigo a casar duas mulheres. Apenas a mãe de Marcela dará conta da verdadeira identidade do noivo. A cerimónia tem lugar na igreja de São Jurjo, com uns padrinhos de bodas muito respeitáveis, convite de chocolate e passeio pela Corunha.

     

    EXÍLIO E ENCARCERAMENTO

    Pouco durará a felicidade do novo casal corunhês: começa a haver dúvidas acerca do género de Mário, e isto torna-se assunto público. Na diligência a caminho de Dumbria, os vizinhos de Vimianço, onde fizeram uma paragem, deram conta de que Mário não é senão a mestra Elisa. Em Dumbria submetê-la-ão a uma chocalhada, expressão máxima de sanção moral popular (para a Galiza vid. Castro, 2007) – sobre a qual E. P. Thompson (1995: 532 e ss.) tem advertido que não se deve idealizá-la, pois muito amiúde mostra continuidade com os castigos da Igreja. Aos berros de “Que saia essa! Que saia o marimacho! Que se apresente ‘o Civil’!”, a multidão pretende examinar os genitais de Mário, que foge para o Porto. O assunto salta para as capas dos jornais, e o burguês La Voz de Galicia chama-lhe “matrimónio sem homem”.

    A GREVE DA CORUNHA

    Tudo isto acontecerá num contexto de excepção que pôs a cidade em estado de guerra: a greve acordada entre o forte movimento operário da cidade e o agrarismo da periferia rural. A 29 de Maio, os 140 guardas de consumos declararam-se em greve, confrontando-se com a Guarda Civil no dia a seguir, com o resultado de um morto. A 1 de Junho, o exército espanhol entra a reprimir a greve causando uma matança: dez pessoas foram assassinadas sob o fogo das carabinas máuser, incluindo três camareiras do Gran Hotel de Francia que observavam a batalha por trás das janelas. Três anos depois, as serventas e camareiras do hotel, as mesmas que enterraram as suas companheiras assassinadas, declaram-se em greve contra os patrões. O diário La Gaceta de Galicia saudou o protesto com indissimulado machismo: “A greve, pelo sexo e a ocupação das interessadas, é curiosa e talvez seja o primeiro caso que se regista no nosso país.”

    A 1 de Julho, o juiz da Corunha, Pedro Calvo, emite uma ordem de busca e captura, que é recebida pelo comandante da Guarda Civil de Vigo e pela polícia portuguesa, mas não será antes de 16 de Agosto que as detêm na praça da Batalha. Após interrogar as galegas, o comissário Adriano Acácio de Moraes envia-as para a prisão do Aljube. Havia tal expectativa perante uma possível extradição que as pessoas se concentram nas estações do comboio de Valença do Minho, Tui e Corunha para as ver passar. Comparecerão perante o Tribunal no dia 21, imputando-lhes o juiz Margarido Pacheco os delitos de indocumentação, falsificação e travestismo, no caso de Elisa, e o de cumplicidade, no de Marcela.Entretanto, cá fora, organiza-se a solidariedade. O senhor Nogueira, proprietário do Café Lisbonense, oferece-se para pagar a fiança, mas as detidas são levadas para a Cadeia da Relação. Os jornais abrem subscrições populares para arrecadar dinheiro para as galegas, para as quais doarão, sobretudo, as mulheres portuenses. O Jornal de Notícias juntará 18.000 reis, O Norte 1.000, O Primeiro de Janeiro 1.500… Também no Café Lisbonense onde, aliás, recolhem roupa de luto para Elisa, cuja tia acabava de falecer em Santiago de Compostela. O fotógrafo José Rodrigues entrega-lhes 17.000 reis que obtivera de vender um retrato que lhes tirara na prisão.

    Em 29 de Agosto, dão-lhes a liberdade e, segundo e crónica do Jornal de Notícias, uma multidão recebe as safos galegas na rua com um “caloroso viva às duas mulheres”. Serão detidas de novo, transladadas para o Aljube e libertadas definitivamente à tarde pela rua de Bainharia, para evitar aglomerações. Sabe-se que, por alturas dos Reis de 1902, Marcela tem uma menina e, pouco depois, partem para Buenos Aires.

     

    Saphas2pbETNOGRAFIA LÉSBICA

    Como em toda a Europa camponesa, na Galiza tradicional o lesbianismo esteve marcado pelo paradoxo das mulheres pa decerem e, ao mesmo tempo, beneficiarem da sua invisibilidade: o patriarcado era incapaz de conceber a possibilidade de uma sexualidade “sem homem”, sendo o imaginário sexual dominado por esta carência masculina. As próprias cantigas eróticas da lírica medieval galego-portuguesa são um exemplo disto (v. Callón, 2011), como quando Fernando Esquio oferece a uma abadessa “quatro caralhos franceses,/ e dous aa prioresa/ (…)/ quatro caralhos asnais/ enmangados en corais,/ con que calhedes a man”. Alguns tribunais da Inquisição, no mesmo sentido, não condenavam as práticas lésbicas, salvo se se demonstrasse que usavam algum instrumento fálico.

    Na cultura popular, entende-se que o lesbianismo nasce da carência de homem. Ainda na Galiza de hoje se canta isso de que “A velha a falta de macho / meteu pola cona o mango do sacho”, completada com uma moral mais bem libertária: “E se fijo (fez), fijo bem, / n acona da velha não manda ninguém.” No mundo dos mouros – seres da mitologia popular galega que moram em castros e monumentos megalíticos – muitas vezes aparecem relatos de camponeses que tentam desencantar uma atractiva e perigosa moura através de práticas rituais que não são senão metáforas de desvirginamento: mijar nela, bater-lhe com um pau e fazer-lhe sangue, tirar-lhe uma flor da boca… Simbolismo que se mantém exactamente igual quando quem realiza o desencantamento é uma mulher: “a cultura popular galega não contempla o lesbianismo como possibilidade”, conclui a etnóloga Mar Llinares (1990: 147).

    Mas, como assinalam Vázquez García e Moreno Mengíbar (1997:213), a hermafrodita é o “antepassado genealógico do homossexual”, e é aí que se encontram as chaves interpretativas do que sucedeu às valentes safos galegas. A cantiga que encabeça este artigo, compilada por Fermín Bouza-Brey antes da Guerra Civil espanhola, poderia fazer referência ao caso de Marcela e Elisa. Nela não se faz escárnio do impensável lesbianismo, mas da confusão de géneros, do mesmo jeito que a chocalhada de Dumbria ia só contra Elisa, ou que o juiz Margarido Pachecho apenas imputa Elisa por travestismo. As próprias crónicas da imprensa compadeciam-se de Marcela ao mesmo tempo que carregavam contra Elisa. Para além do mundus inversus do Entrudo, não há muitos casos de travestismo na cultura popular. Travestiam-se de homens as ceifeiras galegas do século XVIII que emigravam para Castilha, mas apenas porque não se permitiam mulheres, do mesmo modo que a intelectual Concepción Arenal assistia travestida às aulas da Faculdade de Direito na década de 1840, apertando os peitos com um corpete duplo. Há, porém, um interessante romance popular, cuja versão galega foi escutada por Said Armesto (1997: 145-146) em Lousame à fiadora Dolores Mato Castro, em 1902, que narra como Martuxinha se transformou em homem para participar na guerra por amor ao seu pai. Estudou-a como caso de género o antropólogo Xosé Mariño Ferro (2014).

     

    A DISPUTA NACIONAL-PATRIARCAL

    Num magnífico ensaio que está a abalar a cultura galega, a investigadora Helena Miguélez-Carballeira (2014) desconstrói a lógica sexual patriarcal em que se construíram os imaginários nacionais galego e espanhol. Através de um percurso pelas estratégias discursivas do confronto entre o projecto nacionalista espanhol e a resistência galega ao mesmo, Miguélez-Carballeira demonstra como esta disputa se deu amiúde no campo sexual: o espanholismo atacava o imaginário galego projectando a imagem dumas camponesas galegas promíscuas e pouco respeitáveis, ao mesmo tempo que o movimento nacional galego defendia a honra das suas mulheres.

    AS SAIAS DOS MINHOTOS

    A vestimenta atribuída a homens e mulheres varia no espaço e no tempo, de maneira que o que agora não é “próprio de homens”, pode tê-lo sido no passado e vice-versa. Em 1730, as autoridades lusas proibiram que os homens de Nabais trabalhassem com saia (Soares, 1985:267-273), prática que, ao que parece, continuou vigente mais tempo (Veiga de Oliveira et al., 1975) e, sem poder considerar-se travestismo – pois era uma peça masculina –, a sua recordação pode vir ajudar na desconstrução das actuais ideologias de género.

    As diferentes recensões do caso de Elisa e Marcela na imprensa lusa, galega e espanhola, podem analisar-se a partir desta óptica, e mais em concreto no contexto do que Elias Torres Feijó (1996) chama “o perigo português”: o temor do Estado espanhol de que o estreitamento de laços entre a Galiza e Portugal pudesse impulsionar o secessionismo galego. Embora as leituras sejam múltiplas, pode-se detectar na imprensa espanhola uma corrente que aproveita para reproduzir os estereótipos coloniais sobre o povo galego, como fez o jornal madrileno La Patria (28-6-1901): “duas histéricas que na Galiza quebraram a monotonia da vida pacífica dos galegos”; ou o corunhês, embora espanholista, La Voz de Galicia (24-6-1901), que pedia a psiquiatrização das duas mulheres, como o tinha feito com inimigos políticos, ao mesmo tempo que defendia a rectitude das ‘províncias’: “consideramos que tanto Mário-Elisa como Marcela são duas doentes, cuja neuropatia não é castigada pelos Códigos, mas que têm um departamento a ocupar no manicómio de Conxo, onde quiçá não consigam ser curadas, mas sim estudadas pelo sábio Sánchez Freire e pelo menos ali reclusas evitaremos que se espalhe a sua doença, que costuma ser contagiosa pelo exemplo, e (…) que por fortuna nas nossas províncias galegas não só não abunda, senão que é raríssima.” A mesma lógica nacional-patriarcal produz leituras divergentes: enquanto galegas, a imprensa espanhola denigre Marcela e Elisa mas, enquanto espanholas, qualifica-as de caso estranho; a imprensa lusa, permite-se um tom mais relaxado porque não está em jogo a sua honra nacional.

    No momento culminante, a Revista Gallega da Corunha, publicação dos sectores galeguistas, aproveita a ocasião para pôr em relevo a diferença de atitudes entre os portugueses, que socorreram as duas galegas e solicitaram o seu indulto, e a reacção intolerante da imprensa espanhola, que pedia o linchamento. Os galeguistas falarão da “lição” de cultura que deram os “bons lusitanos” e, apenas uns meses depois, o embaixador espanhol em Lisboa informará o seu ministro sobre a situação do “perigo português”, destacando a excessiva confraternidade que mostrava o jornal lisboeta O Século, “no qual se reproduzem escritos da Revista Gallega da Corunha, preconizando a ‘união-luso-galaica’ nos termos mais claros e transparentes”.

     

    BIBLIOGRAFIA CITADA:

    Callón, C. 2011. Amigos e sodomitas. Configuración da homosexualidade na Idade Media. Santiago de Compostela: Sotelo Blanco.

    Castro, X. 2007. “Ars amandi na vellez: a chocallada”, Historia da vida cotiá en Galicia. Séculos XIX e XX. Vigo: Nigratrea.

    Gabriel, Narciso de. 2008. Elisa e Marcela. Alén dos homes. Vigo: Nigratrea.

    Galeano, E. 2012. “Sacrílegas”. Los hijos de los días. Madrid: Siglo XXI.

    Llinares, M. 1990. Mouros, ánimas, demonios. El imaginario popular gallego. Madrid: Akal.

    Mariño Ferro, X. R. 2014. “Aquiles, Martuxiña, as amazonas e os roles de xénero”, A Trabe de Ouro nº 100.

    Miguélez-Carballeira, H. 2014. Galiza, um povo sentimental? Género, política e cultura no imaginário nacional galego. Santiago de Compostela: Através Editora.

    Said Armesto, V. 1997. Poesía popular gallega. Corunha: Fundación Barrié.

    Soares, F. N. 1985. “Costumes e actividades das populações marítimas do concelho de Esposende”.

    Actas do Colóquio “Santos Júnior” de Etnografía Marítima, T. III. Póvoa de Varzim.

    Thompson, E. P. 1995. “La cencerrada” (Rough Music), Costumbres en común. Barcelona: Crítica.

    Torres Feijó, E. J. 1996. A Galiza em Portugal, Portugal em Galiza através das revistas literárias (1900-1936). Tese de Doutoramento, Universidade de Santiago de Compostela.

    Vázquez García, F. e A. Moreno Mengíbar. 1997. Sexo y razón. Madrid: Akal.

    Veiga de Oliveira, E. et al. 1975. Actividades agro-marítimas em Portugal. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos de Etnografia.

     

     

     

  • Algarve onshore!

    Algarve onshore!

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    O Algarve vai ter mais uma empresa a procurar petróleo. A Portfuel – Petróleos de Portugal, sediada em Lisboa é liderada pelo empresário José de Sousa Cintra, obteve no dia 25 de Setembro luz verde do Governo português para iniciar a prospeção.

     

    Depois de, no início deste ano, ter sido confirmada a Bacia Lusitânica como fonte de gás de xisto (shale gas) e se ter anunciado mais dois locais com possibilidades para o shale gas no Alentejo, na Serra da Ossa, Extremoz e Algarve, a Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis (ENMC) assinou um contrato com a Portfuel para a prospeção e produção de gás e petróleo. Os blocos cedidos à empresa são em terra (onshore) e o trabalho consiste em continuar as pesquisas já iniciadas mas consideradas “sub-avaliadas” pelo ENMC. Os contractos de exploração têm a duração de 4 anos e destinam-se ao uso de métodos tradicionais utilizados até hoje para extração de hidrocarbonetos.

    No final dos 4 anos a ENMC sublinha que, caso as petrolíferas queiram continuar os trabalhos recorrendo à técnica de fratura hidráulica (Fracking) ou outra técnica não convencional de extração de gás ou petróleo, terão de haver estudos de impacto ambiental. Em 2013 a UE aprovou uma lei que obriga a um estudo de impacto ambiental para todas as atividades de hidrocarbonetos não convencionais, o que não acontece por exemplo nos EUA.

    algarvemapaoilSousa Cintra comporta-se, assim, como qualquer investidor já que qualquer negócio com possibilidades de ser rentável é uma aposta viável. Depois de ter visto os seus bens confiscados após o 25 de Abril comprou a empresa Vidago, Melgaço & Pedras Salgadas (VMPS), que mais tarde vendeu a Jerónimo Martins. Nos anos 90 fundou a Drink In no Brasil, que se tornou a quarta maior produtora de cerveja do Brasil. Em Portugal o negócio da cerveja não correu bem e, em 2002, vendeu a fábrica à Iberpartners. Cintra investe também em Africa região que, juntamente com o Brasil, constituem duas grandes fontes de hidrocarbonetos não-convencionais. Poderemos voltar a ver os empresários portugueses a explorar as antigas colónias. O empresário aposta agora no petróleo seguindo os passos de outros conhecidos nomes em Portugal como Joe Berardo que investiu em ações da Mohave Oil and Gas, uma corporação registada no Texas em 1993, que reiniciou os trabalhos petrolíferos em Portugal na bacia Lusitânica em 2007. Após ter perfurado um poço em Alcobaça e ter decidido “não ser economicamente viável” e apesar de ter mais concessões onshore a Mohave abandonou Portugal em 2014 e saiu, inclusive da bolsa Canadiana TSX mantendo, no entanto, os seus estudos sísmicos e geológicos á venda. Outro dos nomes envolvidos na exploração de hidrocarbonetos em Portugal é o da Fundação Gulbenkian proprietária da Partex Oil and Gas. Esta empresa tem luz verde para a extração de hidrocarbonetos nas águas algarvias, já que é detentora de concessões no offshore, juntamente com a Repsol. Esta ultima tinha anunciado o inicio das atividades de perfuração para Outubro 2015 mas entretanto requereu um adiamento para 2016 devido ao baixo do petróleo que dita os investimentos nos projetos. Sendo os projetos de prospeção para perfuração profunda (Deep Offshore) de gás natural, e que requerem o uso de técnicas mais caras, a Repsol tenta ganhar tempo para que as condições de prospeção em Portugal melhorem para os investidores. Ambas as corporações dividem blocos offshore, na Bacia de Peniche, com outros grupos investidores, tais como a Galp.

    2016 promete ser o ano do grande avanço da industria petrolífera. Na Bacia do Alentejo a Eni, petrolífera italiana que veio substituir a Petrobras, prevê iniciar as perfurações ultras profundas a sul de Sines. Mais a Norte, o Jornal da Economia do Mar notícia que o governo abriu a 1º concurso internacional para prospeção de hidrocarbonetos na Bacia do Porto (1)

    O governo também anunciou que está a preparar um concurso público para mais prospeção offshore, depois de uma empresa internacional mostrar interesse nas águas muito profundas do Algarve. As apostas na extração de hidrocarbonetos em águas muito profundas assentam na grande extensão das águas territoriais portuguesas e na esperança (ou conhecimento efetivo) da quantidade de recursos que possam existir no subsolo marinho.

    Desde que, em 2014, a empresa Mohave abandonou os trabalhos de prospeção em Alcobaça a região do Algarve tornou-se a linha da frente dos investidores da indústria petrolífera.

    De facto Bombarral, Cadaval e Alenquer têm sido apresentadas como a “mina de ouro” das empresas, mas pouco se sabe sobre os trabalhos nessa área. Na concessão de Alcobaça confirmou-se a existência de gás natural, em Aljubarrota a jazida de gás é tida como das maiores da península ibérica e, em 2015, o presidente da Partex anunciou também a Serra da Ossa e área de Estremoz como áreas com potencial de conterem reservas não convencionais de gás natural

    Inevitavelmente as empresas têm mais informação do que a população e os estudos e testes sísmicos realizados são dos mais completos atualmente. A pouco e pouco a realidade das reservas de gás e petróleo em Portugal podem levar a um investimento súbito e a um rápido início dos trabalhos de extração em vários locais do país. A informação produzida pelas empresas dificilmente será de acesso livre às populações diretamente afetadas e, a avaliar pela quantidade de estudos e prospeções, é de esperar um súbito Boom da atividade extrativa.

    Recentemente a ASMAA (Algarve Surf & Maritime Activities Association) publicou um mapa que compila as concessões concedidas em Portugal referentes à extração de petróleo. Como é visível no documento (acessível em asmaa-algarve.org) a situação é de extrema gravidade, já que entre a localidade da Figueira da Foz e Vila Real de Sto. António a zona Costeira, tanto em terra como no mar, não existem praticamente zonas que não estejam concessionadas às diversas empresas que tencionam iniciar a exploração

    Em 2012 os grupos ecologistas e ambientalistas não falavam de fratura hidráulica em Portugal, só em 2014 a Quercus publica um texto sobre o gás de xisto, no ano seguinte o Estado português autoriza a prospeção de gás e petróleo, as corporações salientam a necessidade de extrair gás ou petróleo através de técnicas não convencionais para que o investimento seja viável e que as reservas possam ser convenientemente exploradas.

    algarve_petroleo_destaqueNo Algarve, foi criada a primeira plataforma contra a exploração de petróleo, a PALP (2) formada por diversos coletivos, grupos etc .

    O governo fala em benefícios económicos para a nação, mas os valores nos contratos das concessões no Algarve que Portugal vai receber variam de 0 a 10 cêntimos por barril de petróleo produzido de 3 em 3 meses da Repsol e da Partex. Segundo os contractos entre o governo e as corporações. Pela Concessão Lagostim o estado vai receber de 0,10 cent por Euro, menos que na Concessão Lagosta que é de 0,15 cent. As corporações anualmente pagarão por km2 ao estado 15,00 euros nos primeiros 3 anos, o valor vai aumentando atingindo durante a fase de produção 240,00 euros km2. A área total das duas concessões sé cerca de 3200 km2 que são cerca de 770,000 euros para os “Cofres do Estado” que comparado com os 1240 milhões de euros de lucro da Repsol em 2015 ou os 1750 milhões da Partex em 2012/2013 são uma moeda na “cuspideira” (3).

    A aposta nos combustíveis fósseis traz consigo o aumento da atividade extrativa. Os impactos ambientais e sociais desta atividade são astronómicos e estão muito para lá das galopantes alterações climáticas. O problema é mais profundo e leva-nos à base do atual modelo económico que necessita de perfurações em alto mar e técnicas de extração não-convencionais d forma a manter os atuais níveis de produção e exploração. Inevitavelmente, em contexto de crise económica, social, ambiental e energética o petróleo e o gás são difíceis de colocar em causa já que nos são apresentados como uma riqueza material de um povo que na prática é explorado por empresas privadas ou o Estado. O “crescimento económico” que preenche o discurso de empresários e governantes significa unicamente o crescimento dos lucros das empresas.

     

    1. Jornal de Setembro de 2015, pág. 40
    2. Plataforma Algarve Livre de Petróleo
    3. Pote ou bacia em sallons e pub americanos e Australianos no sec XIX para se cuspir o tabaco de mascar. Quando um pedinte, alcoólico, sem abrigo ou um índio entravam a pedir esmola eram humilhados quando se viam obrigados a ir apanhar as moedas que eram atiradas para as cuspideiras pelos outros clientes que se deleitavam com a visão.
  • O estado de emergência anunciado por Hollande faz mal às liberdades…

    O estado de emergência anunciado por Hollande faz mal às liberdades…

    O estado de emergência foi decretado por Hollande no seguimento dos atentados de Paris. Para além disso, os controlos fronteiriços serão restabelecidos até nova ordem. Mas o que quer dizer exactamente estado de emergência? É necessário questionarmo-nos agora, de forma a que os acontecimentos atrozes não dêem lugar ao medo e aos poderes cegos e desmedidos do Estado.

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    «Também pedi reforços militares. Também convoquei o Conselho de Ministros. Serão tomadas duas decisões: será decretado o estado de emergência, o que quer dizer que vários locais serão fechados, a circulação será interdita em certos locais. O estado de emergência será para todo o território.»

    François Holland, por volta da meia-noite de sexta-feira, 13 de Novembro de 2015

     

    O estado de emergência é o quê? É um texto regido por uma lei votada a 3 de Abril de 1955.

    Desde a Segunda Guerra mundial foi utilizado em várias ocasiões:

    • Durante a guerra da Argélia, mas unicamente no território colonizado (a Argélia francesa), de 1955 a 1961 com durações indeterminadas para durações até 12 meses.
    • Nos territórios ocupados em Kanaky (Nova Caledónia) durante quase 6 meses.
    • Em 2005 durante a vaga de motins que atingiu as cidades francesas. Era, até agora, a única vez em que tinha sido usado na França metropolitana.

    É, portanto, a primeira vez que o estado de emergência é decretado para a totalidade do território francês. Em 2005 apenas alguns Departamentos (divisão administrativa francesa – N.T.) estavam sob estado de emergência.

    Quais serão as principais consequências sobre as liberdades públicas? Serão muito importantes:

    Uma circulação diminuída:

    A declaração do estado de emergência dá poderes ao prefeito de cada Departamento no todo ou em parte duma circunscrição prevista no artigo 2:

    1° Interditar a circulação das pessoas ou dos veículos nos lugares e às horas estabelecidas pela deliberação;

    2° Instituir, por diploma, zonas de protecção ou de segurança onde a permanência das pessoas é regulamentada;

    3° Interditar a permanência em todo ou em parte do Departamento a quem pretender dificultar, seja de que forma for, a acção dos poderes públicos.

    Grosso modo, o prefeito pode decidir fechar completamente um bairro. Também pode fazer casos individuais. Dessa forma, assegura que uma lista de pessoas sejam interditadas duma parte do território. Tudo em processo hiper rápido. Todo o poder ao prefeito.

    Facilitação das liberdades condicionais vigiadas:

    «O ministro do interior, em todos os casos e, na Argélia, o governador geral podem pronunciar detenções domiciliárias, numa circunscrição territorial ou numa determinada localidade, de qualquer residente da zona fixada pelo decreto previsto no artigo 2 cuja actividade se afigure perigosa para a segurança e a ordem públicas das circunscrições visadas pelo referido artigo.

    A detenção domiciliária deve permitir aos que são seu objecto residirem numa aglomeração ou na proximidade imediata duma aglomeração.

    Em nenhum caso a detenção domiciliária poderá ter como efeito a criação de campos onde seriam detidas as pessoas visadas pela alínea anterior.

    A autoridade administrativa deverá tomar todas as disposições para assegurar a subsistência das pessoas obrigadas a ficar em casa, assim como da sua família.

    Ou seja, todas as pessoas com registos no anti-terrorismo podem ficar presas em casa a partir de amanhã. Por acaso (está-se realmente bem em França), estabelece-se que não poderemos estar estacionados nos campos.
    Notar-se-á o lado vago de tal apelo. Qualquer pessoa considerada pelo Estado (juiz, prefeito, …) como “perigosa” vai estar perante a possibilidade de se ver sob sequestro.

    Liberdades públicas e políticas restringidas:

    «O ministro do interior, para o conjunto do território onde for instituído o estado de emergência, o governo geral para a Argélia, e o prefeito no Departamento podem ordenar o fecho provisório de salas de espectáculos, bares e lugares de reunião de qualquer natureza nas zonas determinadas pelo decreto previsto no artigo 2.

    Também podem ser proibidas, a título geral ou particular, as reuniões que pretendam provocar ou manter a desordem.

    Basicamente, serás proibido de te queixares desta situação. Qualquer pessoa que contestar o estado existente será susceptível de repressão. É, portanto, possível que as futuras manifestações da COP (COP 21, “cimeira climática”, que a França irá acolher de 30 de Novembro a 11 de Dezembro e que reunirá chefes de Estado de todo o mundo – N.T.) sejam proibidas.

    Censura e buscas domiciliárias facilitadas

    «O decreto que institui ou a lei que prorroga o estado de emergência podem, através de uma disposição expressa:

    1° Conferir às autoridades administrativas referidas no artigo 8 o poder de ordenar buscas domiciliárias de dia e de noite;

    2° Habilitar as mesmas autoridades a tomar quaisquer medidas para assegurar o controlo da imprensa e das publicações de qualquer natureza, assim como das emissões radiofónicas, das projecções cinematográficas e das representações teatrais.

    As disposições do parágrafo 1º do presente artigo apenas são aplicadas nas zonas definidas pelo decreto previsto pelo artigo 2.

    Está tudo dito. A imprensa pode ser proibida. As pessoas podem ver as suas casas revistadas ao sabor da boa vontade das autoridades policiais…

    Não terás o direito de não estar de acordo

    «as infracções às disposições dos artigos 5, 6, 8, 9 e 11 (2°) serão punidas com detenção de 8 dias a 2 meses e com uma multa de 11 a 3 750 euros ou de apenas uma destas penas. A execução da sentença, pela autoridade administrativa, das medidas prescritas pode ser assegurada não obstante a existência destas disposições penais.

    Podem chover penas de prisão. Enfim… pena… não temos a certeza de que haja realmente um julgamento. Trata-se visivelmente de penas que saem de todo o contexto penal.

    Basicamente, estamos perante a pior das piores de todas as formas de Estado. A polícia tem direitos quase ilimitados, estará nervosa. Tem cuidado contigo.

     

    (traduzido de paris-luttes.info, de onde também se retirou a imagem)

  • “A Europa é uma prisão a céu aberto” – entrevista a Mamadou Ba

    “A Europa é uma prisão a céu aberto” – entrevista a Mamadou Ba

    Nota Biográfica: Mamadou Ba nasceu em Kolda, em 1974, e vive em Lisboa desde 1997. É licenciado em Língua e Cultura Portuguesa e membro do Movimento SOS Racismo.
    Nota Biográfica: Mamadou Ba nasceu em Kolda, em 1974, e vive em Lisboa desde 1997. É licenciado em Língua e Cultura Portuguesa e membro do Movimento SOS Racismo.

    À conversa com Mamadou Ba, activista do Movimento SOS Racismo, procurámos perceber as lógicas históricas que conduziram à génese e persistência da Europa como Fortaleza. A fronteira, sempre vigiada e tantas vezes intransponível está assente, de acordo com Mamadou, “nos limites da capacidade geo-estratégica da Europa” e, como tal, é isso que “temos que interrogar, que não pode existir!”

     

    R. Alves: Há um genocídio em curso às portas da Europa. Podes dizer-nos como é que tudo isto começou, fazendo uma espécie de arqueologia da Europa Fortaleza?

     

    Mamadou Ba: Eu acho que nós podemos dizer, de uma forma genérica, que as fronteiras da Europa – fictícias, políticas e geográficas – se tornaram cemitérios a partir do momento em que a Europa se instalou numa situação de revanche histórica contra os países periféricos, nomeadamente as suas antigas colónias. Já havia mortes na década de setenta, eram poucas e não eram muito publicitadas, porque eram mais ou menos aventureiros que tentavam chegar à Europa através do Estreito de Gibraltar. Na altura, havia uma política de recrutamento de trabalhadores, ou seja, o acerto entre o que deveria haver de relação colonial entre a Europa e o resto do mundo era feito indo buscar trabalhadores em massa para trazer para alguns países da Europa, logo a seguir aos Trinta Gloriosos [período entre 1945 a 1975] e onde houve uma industrialização forte (i.e. França, Itália, Bélgica, Alemanha). A Europa reciclou a sua forma de trabalho escravo indo buscar, através de acordos bilaterais, trabalhadores em massa. Hoje, a ideia que nós temos é essa narrativa de que as pessoas vêm em massa porque decidiram vir em massa. Não! Alguém criou essa ideia de que havia uma possibilidade de as pessoas virem. Eu sei que para alguns esta comparação é muito forçada, mas ela tem alguma lógica histórica: o que a Europa fez logo a seguir às independências foi o que o faziam os navios negreiros quando iam buscar escravos. Portanto, a lógica da economia da morte, que resulta dessa massificação da imigração, foi uma coisa planeada e planificada por uma necessidade económica capitalista. Depois, quando a Europa começa a entrar numa fase de algum refluxo económico e, sobretudo, quando começou a perceber que já não havia possibilidade de controlar essas “manadas” – tal como no tempo colonial, ou no tempo da escravatura -, que as pessoas podiam ter alguma mobilidade dentro da prisão que era o seu estatuto e a sua condição de imigrantes, isso começou a criar problemas.

    Em finais de setenta, início de oitenta, depois de ter desarticulado também as economias dos países de origem, através das políticas de ajustamento estruturais, decidiu: “Olha, nós vamos também, tal como liberalizamos a economia, vamos liberalizar a mobilidade”, o que implica fazer o quê? Nós criamos mecanismos de filtro, deixamos entrar quando quisermos, como quisermos para fazer duas pressões ao mesmo tempo: pressionar os países de origem – na gestão das saídas e entradas dos seus cidadãos – e pressionar a nossa classe trabalhadora. Deixando sempre entreaberta a hipótese de que pode vir uma ameaça de fora e, claro, que a Europa também está instalada na sua genética atitude imperialista. Ela acha que a única forma de poder ter acesso a recursos para alimentar a sua máquina económica é perturbar e destabilizar os países mais periféricos e a partir daí temos a Europa a fazer guerras por procuração no Continente Africano, no Médio Oriente e também no Extremo Oriente, coisa que não se fala muito nas narrativas. Tirando a Inglaterra, não temos nenhuma discussão sobre o que acontece, por exemplo, no Extremo Oriente (Malásia, Singapura). E há ali fluxos danados de imigrantes que resultam da herança da política imperialista britânica, tal como no Corno de África e no Próximo ou no Médio Oriente (Somália, Líbano). A própria conivência da Europa com o Estado de apartheid de Israel também cria fluxos migratórios forçados porque cria tensões em que as pessoas se vêem obrigadas a fugir para se salvarem. Depois, por um ajuste histórico de posição, logo a seguir à queda do muro de Berlim assistimos à implosão de parte importante dos países que eram limítrofes da Europa dita Ocidental. Com a guerra dos Balcãs isso foi uma forma que a Europa encontrou de arranjar uma desculpa para dizer: “Nós a partir de agora não podemos receber toda a gente”. Depois a Europa, do ponto de vista cultural, massificou uma forma de estar no mundo, ou seja, criou uma certa hegemonia civilizacional e cultural através da massificação da televisão e contou nisso com a conivência dos seus vassalos. Os poderes políticos desses países – que foram instalados, a maior parte das vezes, pela Europa ou por interesses europeus – tudo fizeram para criar uma condição de necessidade permanente das populações para aspirarem a ter uma coisa, um modelo de sociedade que não é o delas. E onde é que podem ir buscá-lo? É na Europa. Tal como a Europa fez quando empreendeu o imperialismo e o colonialismo, criou-se a ideia do El Dourado ao contrário.

     

    R. Alves: O que é que achas que tem de colonial esta relação?

    Mamadou Ba: A continuidade colonial está patente, primeiro, na própria gestão das relações bilaterais entre a Europa, ou seja, a forma como a Europa decide expandir e retrair a fronteira a seu bel-prazer, consoante o xadrez geopolítico. A Europa decide, às tantas, que pode ter políticas ou programas de gestão das suas fronteiras que vão além fronteira: os acordos bilaterais de admissão passiva de imigrantes, a externalização dos centros de detenção, a militarização e os dispositivos militares que a Europa usa são disso uma prova cabal. Por exemplo, o Mare Nostrum, um resquício fascista que tinha a pretensão de que a Europa podia controlar toda a sua fronteira marítima e decidia quem era nosso e quem não era nosso, quem era susceptível de ser ou não salvo. Isto é um instrumento de gestão geopolítica da fronteira. Quando a Europa decidiu que já não queria fazer nem a montante nem a jusante esta vigilância fronteiriça acabou com o Mare Nostrum e criou o Triton, que o que diz, basicamente, é: “Os nossos vizinhos são quase os nossos inimigos, portanto nós não queremos que vocês venham morrer cá, morram lá! O que vamos fazer é: vamos utilizar esses instrumentos para fazer com que as mortes sejam menos visíveis aqui às portas da Europa e que sejam mais escondidas”.

     

    R. Alves: De quando é que datam estes programas? 

    frontexMamadou Ba: A Cimeira de Sevilha (2001) legitimou a ideia de que a imigração já não era um direito mas uma mercadoria. Um Estado podia decidir, quando lhe apetecesse, aceitar ou não o embrulho. Essa era a filosofia. E para dar corpo a isso, inseres um instrumento repressivo e então criou-se a Frontex (2004). Depois tinhas que dar um programa político à Frontex, porque a Frontex é um instrumento militar mas o seu programa político era o Mare Nostrum (2006/2007). Depois da tragédia de Lampedusa (2013), a Europa disse: “Não! Isto é demasiado impactante na nossa opinião pública” – os cadáveres a boiarem às portas da Europa – “Isto agora tem que acabar! Eles que morram, morram em alto mar… ou morram lá antes dechegarem cá!”. Então criou o Triton, uma forma de simplesmente evitar que as mortes sejam visíveis aqui na Europa. O Mare Nostrum tinha uma componente repressiva mas tinha uma componente de salvamento porque era inspirado no direito marinho medieval em que os pescadores deviam, por um código de conduta, salvar pessoas que estivessem em perigo em alto mar, independentemente da sua nacionalidade. Tudo isso tem um fundo imperialista sabemo-lo, mas também tem uma parte de valor. Perante o perigo, salvar a vida, depois acertar contas. O Triton é o contrário: quanto menos for visível a desgraça, mais podemos tranquilizar as nossas consciências e, sobretudo, as consciências da nossa opinião pública. Aliás, reduziram os meios de salvamento, aumentaram os meios de vigilância, mas à distância, e introduziram uma coisa: o Triton tem previsto nos seus enquadramentos gerais, por exemplo, a possibilidade de haver bombardeamentos de barcos em países de origem dos imigrantes, usando não apenas a Frontex mas também a NATO. Isto chama-se colonialismo belicista. Foi assim que a Europa conquistou e dominou o mundo, com acções de razia e de guerra e esse é o conceito que a Europa vai buscar de novo para aplicar na questão da gestão da imigração.

    Depois, logicamente, há a questão da escravatura. Transformar os imigrantes em números é tal e qual o que se fazia com os escravos nas caves dos barcos, que eram “gado”, eram coisas, objectos, não eram pessoas. E aqui nós transmutamos um bocadinho a sofisticação da negação da humanidade, numerizando, quantificando e retirando completamente a hipótese de podermos dizer que essa pessoa é uma pessoa, que tinha um nome e uma história.

     

    R. Alves: Por que é que achas que só agora este fenómeno atingiu visibilidade mediática? Achas que tal marca uma ruptura real no debate público?

    Mamadou Ba: Creio que não marca. Eu acho que a Europa tem fases no debate sobre a imigração mas o único denominador comum da alteração táctica do debate é aquela que se inscreve sempre numa dimensão colonial, sempre. O que mudou, por exemplo – estou a fazer uma extrapolação que não tem nada a ver com isto, mas para mim está interligado. Quando se fala muito da questão da violência policial nos Estados Unidos as pessoas esquecem-se de uma coisa: a violência policial não aumentou, aumentou a capacidade de visibilidade da violência policial. O que aumentou, o que mudou na Europa é… as pessoas parece que não têm memória.

    ceutaprovidaHá dez anos atrás um livro pequenino foi escrito chamado O livro negro de Ceuta e Melilla. Na altura, todos os dias havia na televisão imagens aterradoras de pessoas encalhadas nas rochas do Estreito de Gibraltar porque morriam. Ainda continuam a morrer mas a Europa tinha, na altura, necessidade de reconfigurar a sua relação geoestratégica, sobretudo a sua relação Euro-Atlântica, ou seja, com o centro do capital, com os Estados Unidos e por isso preocupou-se muito com a sua fronteira sul. O primeiro muro que nós tivemos na década de 90 foi precisamente Ceuta e Melilla. Fez-se o muro e a história foi-se repetindo aos poucos. Eu acho que este truque político de gestão da retórica pública sobre as migrações tem a ver com isto mesmo: como é que a Europa sempre tenta reciclar o seu discurso perante o outro, como é que tenta justificar ou legitimar a sua dominação? Como é que controla, como é que tem que controlar outros povos? Aí o discurso sobre imigração, precisamente, acompanha essa táctica de retórica política. Consoante os momentos, consoante o debate interno que se trava-se a Europa guina um bocadinho mais à direita ou um bocadinho mais à esquerda, se a Europa se põe, ela própria, em confronto com as contradições internas que tem – o que é que isso representa depois perante a vinda de outras pessoas ou o confronto com outras culturas? Então a Europa vai automaticamente inventar um novo discurso sobre os outros que chegam aqui e eu acho que isto tudo se cruza com a dita “crise”, agora, de refugiados. Todas as pessoas dizem uma frase que é das mais cínicas que há: “O que está a acontecer é uma tragédia, não podemos ficar indiferentes! Mas cuidado, nós temos que ser generosos e muito cuidadosos! Temos que ser muito, muito cautelosos porque nós não sabemos o tempo que isso vai levar! Não sabemos quantificar o número de pessoas que nos vão procurar. Portanto, não sabemos temporalmente nem espacialmente a dimensão desse fenómeno. O que isso representa, por exemplo, para o nosso modelo social. Porque se for longo, a ameaça é maior porque pode ter a hipótese de contágio social, cultural e civilizacional”. Agora, o medo deles é exactamente esse: “quanto tempo é que isso vai demorar? E quantas são as pessoas que virão aqui?”.

     

    R. Alves: Pedia-te agora que escolhesses dois ou três momentos marcantes para se pensar a forma como a Europa olha para estas questões e tem agido sobre elas ao longo do tempo.

    Mamadou Ba: Eu acho que nós podíamos escolher três momentos, na minha opinião, muito significativos para a mudança de paradigma das políticas migratórias e fazer a sua ligação com a política económica e com o capitalismo. Eu escolheria a Cimeira de Sevilha (2001), a Cimeira Europa-África de Lisboa (2007) e depois o momento actual, ou seja, a Cimeira de Bruxelas, logo a seguir à tragédia de Lampedusa, a última.

    Eu acho que são três momentos que estão interligados. A Cimeira de Sevilha foi logo a seguir aos atentados de 11 de Setembro e tem que ver com dois momentos importantes de debate ideológico. Tinham saído dois grandes livros (no sentido da polémica), o de Fukuyama, o Fim da História, e o de Samuel Huntington, O Choque das Civilizações, e em que ambos, de uma forma distinta (embora ambas neoconservadoras), tinham uma grande necessidade de fazer uma revanche histórica sobre a Mãe, a Europa. Porque, segundo os autores, a Europa que tinha criado a ideia de Ocidente estava falida e eles acharam que os atentados foram a prova de que a Europa não tinha conseguido resolver, de todo, a questão do Universalismo porque os jovens que fizeram os atentados formaram-se e viviam na Europa. Ganharam uma certa modernidade mas que não serviu para “proteger os valores mais sagrados” do Ocidente. Então, era óbvio que, mais do que o imperialismo económico, era preciso um imperialismo cultural. Entre isto qual era um dos eixos mais importantes de controlar para o Ocidente? Era a questão migratória. Como é que se geria o contacto das pessoas que eram diferentes culturalmente do Ocidente? E eles, cada um tinha a sua solução, e a Europa também disse, pressionada pelos Estados Unidos: “Espera aí! Nós estamos em perigo do ponto de vista de identidade. O que é que representa isto? É a mobilidade das pessoas… essas pessoas diferentes que vêm cá, como já não se conseguem fazer ser iguais a nós, temos que arranjar forma de endurecer, de os pôr na linha”. Na sequência da Cimeira de Sevilha criou-se um fundo através da Estratégia de Barcelona. Um fundo de 500 mil milhões que era para gerir a imigração. E então a gestão desse fundo era basicamente fazer o quê? Comprar as lideranças na fronteira do Mediterrâneo com a Europa para eles próprios exercerem a repressão sobre a imigração.

     

    R. Alves: Era um fundo que visava a externalização das fronteiras?

    borders2Mamadou Ba: Exacto. Mas era, sobretudo, para apetrechar a Europa de material de vigilância e de políticas repressivas. E a partir daí o que é que a Europa decide? Aquela ideia de que nós podemos transformar o imigrante num objecto: “a gente apanha-te nesta fronteira, levamos-te para não sei onde”. E aí os gajos aumentaram o orçamento para os Centros de Detenção na Europa, legitimaram as novas tecnologias para os novos Centros de Detenções, nomeadamente Málaga, que era um dos maiores. Tudo isto aconteceu nessa Cimeira de 2001 e foi uma mudança brutal no paradigma. E ali fizeram uma coisa nova que não se fazia desde os Anos 50, na Suíça, que foi sazonalizar o estatuto jurídico dos imigrantes, que é dizer: “Meu amigo tu estás cá enquanto houver job. São dois meses, são dois meses. São três, são três. Tu… amanha-te!”. E começaram com dois países a fazer isso: Estónia e Portugal. Em Portugal nós tivemos as Autorizações de Permanência (AP). Começaram assim e depois foram crescendo outras coisas, até termos a famosa Cimeira da Haia (2004), onde nasce então a Frontex. Já havia umas coisinhas tenebrosas sobre a Frontex como, por exemplo, a Fast-track – que era um dispositivo de vários inspectores e militares que faziam patrulhas com meios da NATO, de vez em quando e ainda não tínhamos a Frontex como a conhecemos hoje. Tinhas e tens a EUROPOL (Serviço Europeu de Polícia), o SIS (Sistema integrado de Informação de Schengen), o EURODAC (Base de Dados Biométricos e outros), o VIS (Sistema de Informação de Visas), entre outros.

    A Cimeira Europa-África de Lisboa (2007) foi um momento estruturante na definição das políticas migratórias. Porquê? Eles alteraram os eixos que definiam as políticas migratórias entre Europa e África e alguns dos eixos. Para além da questão económica e das matérias primas eles colocaram a imigração dentro dos eixos estratégicos para a consolidação dos projectos de cooperação bilateral. Na minha opinião eles conseguiram uma coisa que durante muito tempo tentaram fazer e não tinham conseguido, que era convencer os países africanos, os países ditos emissores de imigrantes, de que era importante mudar o conceito e o entendimento de que a mobilidade era um direito. E ganharam essa batalha, porque eles conseguiram dizer a esses países: “a única forma que nós temos de garantir que vamos ter uma cooperação sã, frutífera e aceitável para nós era vocês resolverem um dos maiores problemas que nós temos nesse momento de vizinhança, é serem vocês a controlar as nossas fronteiras a partir dos vossos países”. Isto implicava então nós fazermos acordos, por exemplo, de importação de mão-de-obra. O que eu chamo, para além de mercantilização, uma coisificação dos migrantes. Os imigrantes passam a ser mercadoria para importar ou exportar consoante der jeito aos círculos económicos ou políticos e África podia, tal como vende amendoins e cacau, disponibilizar um número pedido dos seus cidadãos, ou não, à Europa para virem trabalhar sazonalmente. Isso é uma mudança de paradigma brutal. E passou a determinar claramente que um dos capítulos dos APE (Acordos de Parceria Económica) era o controlo dos fluxos migratórios. E na minha opinião, o que determinará dali para a frente toda a política migratória será exactamente este acordo. A partir daí a Europa passa a ter um poder que nunca tinha tido antes: definir a montante e a jusante a natureza política do sujeito emigrante, não é? Que não era um sujeito portador de direitos inerentes à sua condição de ser humano mas simplesmente um produto a que a Europa podia atribuir, ou não, um estatuto. A maior parte das vezes era um estatuto precário, simplesmente. Isto foi uma derrota dos países e foi uma derrota da ideia da liberdade de circulação porque ela sai da esfera dos direitos e vai para a esfera da economia. Isto é uma mudança estrutural para as políticas migratórias e daí é que se vê claramente que tudo aquilo que se seguiu de então para cá estava numa lógica economicista. Mesmo quando a Europa, por exemplo, criou os tais programas (Haia e Estocolmo) e todos os programas que se seguiram, estavam todos numa lógica economicista, todos eles. Isto mais tarde traduz-se também no conhecido Pacto Sarkozy, em que há duas coisas que decididamente morreram. Por um lado, os processos de regularização extraordinária de imigrantes. A Europa decidiu que jamais os imigrantes podem ter uma condição regular ou um estatuto jurídico regular e foi proibido aos Estados procederem a regularizações. Porquê? Porque, tal como se tinha visto com a Cimeira de Lisboa, as regularizações eram um chamariz e, portanto, o que era importante era regularizar a relação da Europa com os países emissores de imigrantes. Volto a dizer, é a expressão que está nos documentos, isso diz tudo: os imigrantes eram emitidos, eram coisas, não eram pessoas. Os países emissores de imigrantes é que deviam decidir com a Europa quantas pessoas podiam vir para a Europa na base de um estatuto regular. Não eram os emigrantes, eles próprios sujeitos independentes e livres de ter uma relação jurídica estável e regular com um Estado qualquer em que escolhessem viver. Este pacto não só gorou qualquer hipótese de haver uma iniciativa pública de se responder aos problemas com que se confrontam os imigrantes, nomeadamente, terem uma relação jurídica com o Estado onde vivem. Além do mais, fez uma outra coisa que é um retrocesso civilizacional comparável somente com aquilo que foi a Alemanha nazi do ponto de vista jurídico, que é haver a hipótese de expulsões em massa, legalmente previstas, a chamada Directiva do Retorno (2008).

    borders_guardiacivilA Directiva do Retorno é fazer aquilo que a Gestapo fazia aos judeus. É olhar para as pessoas e, pelas suas características, pegar nelas e determinar que elas por serem aquilo que são, na condição em que se encontram não podem estar ali onde estão. Têm que estar noutro sítio onde alguém decida que têm que estar. E é terrível porque depois, na minha opinião, é isto que justifica todo o cinismo e hipocrisia logo a seguir à tragédia de Lampedusa, na Cimeira de 2013. Houve um cinismo atroz. Toda a gente foi lá chorar. O Papa foi lá, toda a gente foi lá. Mas a verdade é que um ano depois eles acabaram com o único dispositivo de socorro e salvamento que era capaz de responder mais ou menos à tragédia e fizeram uma coisa muito mais regressiva e retrógrada – em termos de conceito e de filosofia política – que o próprio Pacto Sarkozy, o Mos Maiorum. Em Outubro de 2014 a Europa emitiu um documento confidencial, que filtrou para fora, a lançar uma operação policial de perseguição aos imigrantes. Estava preto no branco que tinha dois objectivos: assustar e dissuadir os imigrantes de procurarem a Europa; e assustar e dissuadir os imigrantes que estão no espaço europeu em situação irregular para irem embora. O objectivo do controlo e de combate ao tráfico humano era um objectivo completamente lateral ao centro da operação. Só a definição da expressão Mos Maiorum diz tudo, em latim quer dizer “nós e os outros“. Com esta operação o que a Europa faz é transformar o imigrante num bárbaro, tal como na Idade Média. Isto vai continuando, ganhando dimensão política e vai, sobretudo, ganhando consistência programática na gestão da política migratória até que a Europa decide definitivamente acabar com o Mare Nostrum e instalar o Triton. Esse dia é um dos dias mais sinistros da nossa história contemporânea. O dia em que a Europa decidiu que as pessoas que a procuram, por todos os motivos, de sobrevivência, de querer, de sonhar ter melhores condições de vida são nossas inimigas e nós vamos utilizar os métodos convencionais dos conflitos internacionais, a guerra, contra essas pessoas. Isto é uma coisa de uma gravidade tremenda. E parece que passou assim pelos pingos da chuva, as pessoas acharam uma ideia fantasmagórica e portanto não valia a pena indignarem-se com isso. É da maior indignidade possível usar práticas, ainda por cima colonialistas e imperialistas. É a Europa sem mandato. E não se pode desvalorizar isto, não podemos desvalorizar isto. É uma das coisas mais graves que alguma vez a Europa pensou fazer, depois da conferência de Berlim.

     

    R. Alves: Temos assistido muito a um discurso que parece tentar legitimar as operações militares centrando-se na ideia de combate ao tráfico humano. Simultaneamente, parece haver também uma fomentação da empatia na qual tens alguns discursos mais politizados mas, na sua maioria, muito são caritativos e paternalistas. Parece que há uma incapacidade de, uma vez mais, repensar qual é a génese de muitos destes movimentos que estamos a assistir hoje e as responsabilidades do Ocidente.

    Mamadou Ba: Claro, basta ver quem é que se mobilizou agora e o que é que disse. O Rui Marques[ref]Foi Alto-Comissário para a Imigração e as Minorias Étnicas (2005-2008).[/ref] dizia que nós temos que mostrar que a Europa é sempre melhor. Os seus valores são inquestionavelmente universais e, por isso, perante qualquer tragédia da humanidade a Europa pode dar uma lição de moral ao resto da humanidade. Ele dizia que era preciso acolher as pessoas que estão aflitas mas não podemos cair na ilusão de que temos de abrir as nossas fronteiras de forma escancarada. Ou seja, é uma abertura fechada esta do acolhimento dos refugiados. Aliás, o Rui Marques diz que as nossas forças de segurança são das mais bem preparadas da Europa para lidar com esta questão. Isto também nos diz tudo sobre a militarização, a criminalizacão da imigração, sobre a própria fortaleza ideológica em que a sociedade europeia se instalou nesta questão. Claro que isso nos leva, outra vez, ao colonialismo porque quando ele diz que isto é um desafio para a Europa, o que nos diz dentro daquela retórica, é que a Europa continua a alimentar o seu complexo de superioridade civilizacional em relação ao resto do mundo. Isto é um trauma histórico da Europa, é a conferência de Berlim em 2015 mas agora para o Médio Oriente. Isto é a Europa, é o Ocidente enquanto espaço geopolítico na sua origem. E isto é o que também determina toda a mobilização. Não é inocente toda esta comoção colectiva da Europa face à situação dos refugiados enquanto olha com indiferença a situação de racismo, precariedade e exclusão social e económica de cerca de 22 milhões de cidadãos imigrantes que vivem no seu território. Esta comoção colectiva remete para o cinismo e hipocrisia da manifestação de generosidade e solidariedade por parte dos dirigentes europeus que, enquanto perseguem e maltratam cidadãos imigrantes que vivem na Europa, fingem-se comovidos pela situação dos refugiados que nos procuram.

    Há aqui alguma coisa que não bate certo. E é a mesma coisa que em Portugal, termos um país em que o próprio Estado diz afligir-se de saber que no seu seio, no seio das suas forças de segurança, brota a ideologia nazi; em que há preocupação pela infiltração de extrema-direita no Estado, como se isso fosse segredo, mas em que o racismo institucional continua a ser naturalizado e invisibilizado. Nesse mesmo país em que continuamos a ter pessoas a serem desalojadas sem nenhuma alternativa; em que a violência policial e as mortes que dela resultam não têm nenhuma consequência jurídica, nem política. Este é o país que diz que está disposto a receber pessoas que não conhece de lado nenhum, ou seja, um assombro de humanidade quando desumaniza pessoas com quem convive desde sempre no seu próprio território. Há algo de cínico e hipócrita nesta mobilização. Ela é de louvar! Sempre que as pessoas se comovem e se mobilizem, se solidarizem com a desgraça humana, é sempre de saudar. Aliás, o que não é compreensível é que esta onda de solidariedade não se sinta quotidianamente em território nacional para com quem está em circunstâncias de merecer a nossa solidariedade.

    merkel_refugeesMas isso mostra claramente o cinismo que está por trás destas conversas sobre imigração. A Europa tem uma questão cínica na sua opinião pública. Quando sente que a indignação pode atingir proporções maiores porque estamos quase no limite da indecência – porque a indiferença é uma indecência, a indiferença perante a solidariedade ao sofrimento é uma indecência – quando a Europa começa a perceber isso, os seus dirigentes desencantam soluções de engenharia social mais ou menos para dizer: “Não!”. Como disse o Rui Marques isto é um desafio à Europa para mostrarmos que somos bons e generosos e que a generosidade e a bondade como critério universal são europeus. Ou seja, remeter outra vez, culpar as vítimas de barbaridades e dizer que nós estamos aqui para vos salvar, tal como o empreendimento evangélico na altura da colonização.

     

    R. Alves: Em que medida é que certo tipo de retórica não acaba por reificar uma ideia de centralidade da Europa no mundo, quando há tantos outros destinos que são escolhidos pelas pessoas ou que acabam por acontecer nas suas vidas. Em particular, na questão dos refugiados, lembro-me que Portugal tinha uma quota de recepção completamente irrisória, acho que era o país no espaço europeu que menos recebia, proporcionalmente.

    Mamadou Ba: Era e é. Eu acho que isso nos leva ao início da nossa conversa. A Europa tentou criar uma geografia política que correspondesse a uma concepção geopolítica e estratégica da sua utilidade enquanto conjunto geográfico, que é a ideia do Ocidente. A ideia do Ocidente já não é só uma coisa geográfica, é uma coisa mais ideológica, mais cultural. E continua a achar-se, tal como quando decidiu ir colonizar o resto do mundo, realmente o centro do mundo. E achar-se sempre dona do mundo e dona das ideias sobre o mundo. E isto, que é onde reside uma parte substancial da tragédia da humanidade, hoje em dia e no passado. E portanto não interessava a realidade, interessava a realidade que ela queria construir e que queria projectar. A realidade, na verdade, é que a Europa construiu-se numa fortaleza o que faz com que esteja em negação e em contradição quando diz que está a ser a mais procurada porque as pessoas não procuram fortalezas. Portanto há já ali uma contradição ontológica: um espaço fechado não é o mais procurado, lamento.

    Ao contrário do que a Europa diz, onde há mais gente a deslocar-se é noutras partes do mundo, no dito Hemisfério Sul. E há dados mais simples. O Líbano é um país pequenino, recebe cinco milhões de refugiados neste momento. O Líbano é um país com um milhão de habitantes e tem cinco milhões de refugiados neste momento. A Europa tem 200 e tal milhões de habitantes e tem 280.000 refugiados. Portanto esta retórica da invasão é só para reificar a ideia da centralidade: as pessoas procuram-nos porque somos o centro do mundo. Não se esqueçam de uma coisa, foram o centro do mundo porque tornaram periférico o resto do mundo. Empobreceram e isolaram o resto do mundo e depois mantiveram-se no centro do mundo, mas esquecem-se disso. A Europa é estruturalmente colonialista e jamais conseguiremos responder ao problema da imigração se não sairmos deste paradigma. E é por isso que toda a esquizofrenia sobre, por exemplo, esta ideia de que nós podemos ser acolhedores mas temos de ser vigilantes porque há uma ameaça à nossa cultura?! Como se a cultura europeia fosse uma coisa homogénea, como se a cultura de um país fosse homogénea e completamente estática e não o resultado de várias dinâmicas. Tudo isto mostra-nos que são tempos difíceis que estão aí a avizinharem-se. Ou a Europa faz aquilo que eu chamo a sua catarse histórica relativa ao seu lugar no mundo, ou então vamos continuar a ter o crescimento da extrema-direita como estamos a ter e as pessoas não se perguntam porquê, porque eu não papo, mas de todo, a conversa de que a extrema-direita é por causa da crise económica, eu não compro essa conversa. Acho que isso é uma forma de desresponsabilizar a narrativa sobre a identidade europeia e a sua responsabilidade histórica sobre a solução colonial com o resto do mundo. Porque, que eu saiba, na Áustria, Dinamarca, Suécia, Noruega e na Finlândia não estamos a passar momentos de austeridade e são os países na Europa onde há maior crescimento da extrema-direita. Não me venham com a história da crise, podem inventar outras retóricas, esta não cola. A Suécia foi o país que foi dito um dos mais multiculturais, um dos mais acolhedores de Imigrantes na Europa, nos últimos 40 anos. Será que de repente, os suecos acordaram fascistas?

    Para mim, se nós queremos realmente olhar para a Europa, olhar para as dinâmicas, a questão da pertença e a questão da identidade, a Noruega, a Suécia e a Finlândia são barómetros para nós percebermos isso e para nós, de uma vez por todas, rebentarmos com a ideia de que realmente nós somos os melhores dos melhores, porque não somos, não é? Quem se constrói como a Europa se construiu, se não fizer a sua catarse histórica continua a ter esse fantasma a ensombrar o seu presente. É o que está a acontecer, a Europa, nesse momento, está a ser assombrada pelos fantasmas do seu passado e a forma como lida com a imigração é exactamente essa: são os fantasmas do passado que neste momento perseguem o seu presente e, ou há essa ruptura, ou então nada feito. Porque eu pergunto, as pessoas por que é que vêm? Pois é, mas a pergunta é exactamente esta, por que é que vêm? Porque o que eles têm está aqui! O que eles têm está aqui! Eles vêm buscar o que têm, o que é deles e as pessoas não percebem isto! Basta nós olharmos os fluxos. Eu, muitas vezes, fico chocado com a ignorância organizada. Nós vemos, por exemplo, os fluxos de capitais: o dinheiro que vai de sul para norte é maior do que o dinheiro que vai de norte para sul, em proporções gigantescas; as matérias essenciais de todos nós enquanto humanos: o que sai de sul para norte é maior do que o que sai do norte para o sul. Como é que querem que, no modelo em que foi criado, em que as pessoas têm que viver de dinheiro e de consumo, em que o dinheiro e o consumo está concentrado de um lado da barricada, que as pessoas não vão à procura disso? Expliquem-me como é que querem fazer! Não dá! Ou o modelo económico muda, absolutamente, este modelo desenvolvimentista… porque esta ideia de que nós, o que temos de fazer agora é criar as condições para haver crescimento económico, é continuar a permitir à Europa manter exactamente a mesma política em relação ao resto do mundo. A questão da mobilidade, se é possível falar nesses termos, não é uma questão económica, é uma questão política! Porque é uma questão de escolhas!

     

    R. Alves: Até então temos vindo a falar da Europa como espaço geopolítico. Qual tem sido o papel do Estado português nestes processos?

    Mamadou Ba: Primeiro, dizer que Portugal parece protegido, do ponto de vista da sua opinião pública, em relação a isto porque não está no sul ou na primeira porta de entrada da Europa. Há duas coisas que nós podemos dizer que podem desmentir esta ideia de que Portugal não está envolvido. Primeiro, o seu papel institucional na formulação estratégica dessa política: Portugal está na Direcção da Frontex, o antigo Diretor-geral do SEF era Director-adjunto da Frontex; depois, em 2001, instaurou as AP, que são laboratório para a Europa. As AP são a legalização da precariedade do ponto de vista da relação institucional e jurídica. Como nós não vemos a fronteira, a ideia que se dá é que: “pronto, nós estamos longe disto, não é aqui”, mas não é verdade. Na prática legislativa tu tens exemplos concretos que Portugal é uma vanguarda no experimentalismo jurídico sobre a gestão dos fluxos migratórios e também, por exemplo, nas estruturas mais de vigilância e de repressão. O comando operacional da Frontex, que é a Fast-track, tem muitos militares da GNR que são destacados da NATO e fazem parte desse dispositivo e nós, durante muito tempo, usámos meios militares da marinha para operações da Frontex. As corvetas da armada fazem muito patrulhamento, por exemplo, na costa Atlântica e, muitas vezes, esses meios são utilizados também nas operações mais concertadas da União Europeia, quando há operações entre a NATO e a Frontex. Os meios estão estacionados em Oeiras, aqui na base da NATO, corvetas e helicópteros que são usados para fazer a vigilância da Zona Sul (Malta, Chipre, Grécia, fronteira com a Líbia, Tunísia e Turquia). Temos um papel determinante nesta história por mais que as pessoas achem que não.

     

    R. Alves: Para além do regime colaboracionista e de algum protagonismo do Estado português no policiamento das fronteiras e nas agências de vigilância há também uma racionalidade do Estado português que depois se aplica dentro das ditas fronteiras do Estado-Nação. Neste sentido, há um conjunto de coisas, todas elas produzidas como situações de violência de Estado que seria interessante discutir.

    Mamadou Ba: Portugal é um país colonialista e os países colonialistas têm uma cultura de indigenato na sua relação com as pessoas que são diferentes. Assim, toda a sua produção legislativa e jurídico-administrativa arreiga-se claramente neste postulado de que há gente e há indigente! E isto vê-se através da sua organização urbana e territorial, através da sua organização política e através da sua organização económica. Se nós pegarmos na organização territorial, há uma continuidade histórica na forma como sempre se criaram espaços urbanos guetizados entre o sujeito e o indigenato, não é? E depois, do ponto de vista político, de como a organização do Estado está feita, só é daqui quem é lusitano, não é? Quem não é lusitano, na sua acepção mais retrógrada do termo, não é português. Pode ter nascido aqui, pode vivido aqui. Mais uma vez, a nação é maior que a cidadania e esse é o chapéu que basicamente sustenta toda esta lógica de discriminação a que os imigrantes e os seus filhos são sujeitos em Portugal. A ideia de que eles, sim senhora, podem ser cidadãos mas são menores, porque não são nacionais, ou seja, gente contra indigente. Não temos nenhuma visibilidade, nenhuma hipótese de confronto político que dê visibilidade às comunidades negras e ciganas no país, não temos. É estrutural. A ciganofobia e a negrofobia são estruturais nas instituições portuguesas, são estruturais e é por isso que há uma necessidade que as instituições sentem de invisibilizar exactamente isto. Portanto, se nós nos mantivermos assim, numa paz podre, em que conseguimos controlar e manietar a hipótese de haver este levantamento das periferias e continuando a periferizar e a criar essas fronteiras internas, de quem faz parte e quem não faz parte… porque, como te disse uma vez, para mim a ideia da Europa é esta, podemos resumir isso numa frase: fazer ou não parte. É simples. E para mim, quando fui a Lampedusa, foi o que me ficou e ficará para sempre. Eu fui ao cemitério e percebi tudo. Os imigrantes não fazem – mesmo mortos – parte da humanidade. É simples. Na Europa é simples e essa é a ideia que está, que vigora, no dia-a-dia dos imigrantes. Eu sei que isto é violento. As pessoas não gostam de ouvir este tipo de coisas porque parece hiper-exagerado mas, para mim é simples, é isso: fazer ou não parte da humanidade e, para a Europa, há pessoas que não fazem parte da humanidade e esta ideia não é nova, ela parte da escravatura. Quando a Europa decidiu que podia pegar em pessoas e fazer delas burros de carga, retirou-lhes humanidade. A Europa continua a ter no seu subconsciente político esta ideia de que há gente e indigente e isso vê-se com o aumento da violência policial e a sua impunidade; com a indiferença e o alheamento do Estado na sua regulação através da justiça; com a conivência da justiça com a violência policial e a violência de Estado; com a legitimação social do racismo institucional através da culpabilização, sempre, das vítima; e, com a marginalização económica, cultural e política das ditas minorias étnicas no país. É terrível olhar amanhã para a Assembleia da República, depois de uma eleição, e constatar que a branquitude continua a gerar normalidade num país que é diverso. Algo não bate bem. É o que vamos ver nos próximos dias, para perceber – para quem anda distraído – que a branquitude é a normalidade num país diverso.

     

    detention_center_lampedusaR. Alves: Será que podias falar, por último, sobre a questão do encarceramento de minorias e imigrantes nas prisões como nos centros de detenção?

    Mamadou Ba: Eu acho que nós podemos juntar isso a uma ideia que é uma permanente reclusão identitária. A Europa tem uma política de confinamento, sempre teve essa relação com o resto do mundo. Não é por acaso que se acha o centro, não é por acaso que tem essa história da Europa Fortaleza. A ideia de confinamento… a Europa sempre gostou disto e isso traduz-se na sua política quotidiana, contemporânea. O confinamento obriga ou conduz à reclusão e a Europa é isso. Tu pões uma série de gente reclusa num determinado espaço, seja pela organização que tu fazes do espaço público, da cidade e da própria divisão económica. Tu pões essas pessoas em reclusão e os imigrantes são o melhor exemplo do que significa isso. É cíclica a reclusão dos imigrantes: eles ficam fechados em determinados espaços, na área, por exemplo, laboral. Não sei se tu sabes mas em França há profissões que não podem ser desempenhadas por estrangeiros, está escrito na Lei, na Constituição. Em Portugal só as profissões ditas de soberania, basicamente do Estado, é que estão clarificadas. Isto põe as pessoas em reclusão porque estão confinadas num determinado espaço e não podem sair dele. Há um certo determinismo sociológico e um tanto determinismo político, ou seja, a política decide que tu, por estares na condição de imigrante, só podes trabalhar na construção civil, na restauração, não podes fazer mais nada; e não é só por seres imigrante, é também por seres diferente, por seres negro, por seres árabe. Depois, por isso, com esse confinamento, tu está mais sujeito à vigilância social e à repressão. Então como é que o Estado faz para garantir que te confinou em determinada identidade e num determinado espaço, como é que te vigia? Pondo-te em prisão, detendo-te, guardando-te, evitando que tu possas fazer parte do resto da sociedade e aí é que tu vês! Por exemplo, a presença de jovens negros ou de origem estrangeira nas prisões é exponencialmente maior que o resto da sociedade, em proporção. Isto, tem duas funções: a função de controlo e confinamento mas também a função de estigmatização. Porque a prisão não é um sítio de redenção de uma falha social, é um sítio de castigo por uma desadequação social. Portanto o que se quer transmitir é que vocês são propensos… continuam num registo de bom selvagem, são não-cumpridores do contrato social portanto merecem ser castigados. E as pessoas que merecem ser castigadas não merecem confiança e as pessoas que não merecem confiança não têm lugar na sociedade. É tudo uma cadeia, é uma cadência e isto é através da história colonial, a história esclavagista da Europa. Tudo, ou seja, nada é por acaso, outra vez, voltamos a isto. Tudo isto tem uma explicação concreta. A ideia de confinamento é uma ideia que foi aceite porque estratifica as relações sociais e culturais, porque usa a indiferença para gerir a diferença e, por isso mesmo, não se fala disso, isso não existe.

    Sobre o encarceramento – a nível da arquitectura jurídica nacional – meramente por transgressão do espaço de pertença, ou seja, geográfico, por parte dos imigrantes, não se fala, porque a ideia é exactamente esta: “eles não são acomodáveis nos registos da normalidade social que nós queremos, por isso, têm que ser fechados” e fechamo-los pelo que eu disse há pouco. Essa cadeia é terrível porque ela continuará sempre a manter confinadas as pessoas que são diferentes do resto da sociedade e a mantê-las excluídas e marginalizadas, sempre. Depois isto cria uma certa legitimidade social de que são perigosas, de que não são capazes de fazer parte da sociedade, de que não têm competência social para pertencer à nossa comunidade e por isso ou têm que ser reclusas ou têm que ser confinadas. Portanto, a ideia de centros de detenção interliga-se muito com isto e isto é trágico. Quando olhamos para o caso de menores não acompanhados nós percebemos isto, aí todo o discurso humanista cai por terra. Essa hipocrisia de que os Europeus “somos bons”… essas circunstâncias mostram realmente: “Não, eles são maus!”, a Europa é má. A Europa é uma prisão a céu aberto, tal como as suas fronteiras são cemitérios a céu aberto para quem a procura.

     

     

     

  • Felizmente continua a haver luar (Setembro 2015)

    Felizmente continua a haver luar (Setembro 2015)

    luarPassámos Monchique, para trás fica a Serra da Brejeira, a aldeia da Santa Bárbara e, finalmente, entramos em São Teotónio. Odemira fica mais a norte, a uns quinze quilómetros. Viemos à «Feira Antiga», animação, artesanato, jogos tradicionais, baile. «Participe à moda antiga com trajes e acessórios», diz o cartaz. Ao lado está anunciado o «Jurassic World» no cinema de Odemira, com os dinossauros… São Teotónio é uma aldeia vazia, triste, pobre, casas por acabar, outras abandonadas. A «Feira Antiga» é no largo da Igreja, uns reformados alentejanos com os trajes, mesas e comidas, música, cafés abertos à volta. Não se pode dizer que o ambiente seja Woodstook ou mesmo Jazz no Rio. Mais no estilo da especialidade portuguesa da festa dos tristes. Damos uma volta ao largo e rapidamente começamos a sentir que estamos num lugar estranho, um lugar que é mais do que alentejano. Há casas velhas que parecem servir de dormitórios de gente com tipo físico mais oriental do que os habitantes tradicionais. Imigrantes, claro, imigrantes aos montes, que não fazem parte da Festa. Os búlgaros parecem os mais pobres e desgastados, no café que parece ser-lhes reservado alcoolizam-se a ver o futebol – o que já é um nítido sinal de integração –, os bengalis deambulam como se andassem à procura de trabalho, por vezes há um casal com crianças, os tailandeses têm ar mais enérgico, e os nepaleses, jovens, concentram-se no outro lado da praça, num café que parece também fazer ofício de dormitório. Há também brasileiros, vietnamitas, romenos e por aí fora… Os alentejanos da Festa parecem não reparar nesta presença exótica, ou fingem não reparar. Um ambiente estranho… Duas lojas despertam a atenção. Uma empresa de transporte faz carreiras entre São Teotónio, a Bulgária e a Roménia. A outra é uma agência de trabalho temporário, tudo escrito em inglês, que propõe «jobs» nos campos para gente de passagem. Chegámos a São Teotónio e encontrámos a globalização no meio do velho e pobre Alentejo.

    Voltamos à estrada, direção Zambujeira do Mar. Poucos quilómetros depois de São Teotónio o mistério desvenda-se: quilómetros e quilómetros de estufas a perder de vista, na zona haverá cerca de 1100 hectares. À entrada de uma minúscula povoação está o Café Benthai; tailandeses e vietnamitas bebem umas Sagres, sentados à porta. Há prato do dia tailandês. A imprensa chama a isto o sucesso das culturas no litoral alentejano. Resta saber se é sucesso ou crime. São culturas que necessitam de bom ar, boa água e bom tempo e muita mão-de-obra. A terra não é necessária, tudo é cultivado em substrato, com a ajuda da química. Mas como infelizmente também há terra, em breve ela estará, como a água, poluída. Seis mil toneladas de frutos vermelhos são produzidos por ano na zona de Odemira, dos quais 90% são exportados. O negócio está nas mãos, ou nos bolsos, da multinacional americana que domina o mercado, a Driscoll’s [Todos os dados e citações foram retirados do artigo de Carlos Dias publicado no Público de 30 de Junho 2015], dirigida em Portugal pelo Sr. Arnold Heeren, a qual criou, com capitais americanos, outras empresas para produzir, a Lusomorango por exemplo, que é dirigida pelo mesmo senhor que parece ser um personagem central do filme de horror. O Sr. Santos Andrade é o vice-presidente e está feliz. Como não havia de estar? A faturação da sociedade passou de cinco milhões de euros em 2005 para 36,8 milhões em 2014. «Odemira é uma zona estratégica para os pequenos frutos», diz o homem que fala como um coronel da guerra colonial. Também feliz, está o Sr. Gil Oliveira, que com orgulho patriótico diz : «Sou o maior produtor português deste fruto e detenho o recorde mundial com 24 toneladas por hectare». E ainda há gente que não acredita nas virtudes capitalistas da burguesia lusitana? Depois, a comercialização é feita pela Discroll’s. Que os americanos, mesmo no sul, não perdem o norte.

    O «sucesso» deve-se aos clientes do café Banthai, do café búlgaro e do café nepalês. Este tipo de cultura precisa em média de 12 pessoas por hectare. Num Alentejo vazio, entre velhos e emigrados há umas mulheres disponíveis para vender a sua força de trabalho, mas elas não querem trabalhar ao domingo?! Uma arrogância subversiva que deve vir do 25 Abril. O Sr. Gil prefere o novo proletariado, diz que os imigrantes apanham 4,5 quilos por hora e por pessoa em média. Fico a pensar o que isto quer dizer concretamente ao fim do dia, em que estado estariam os braços e os corpos do Arnold, do Andrade, do Gil e outros, se a tal suplício fossem submetidos ? Há mulheres búlgaras a apanharem 7 quilos, por mil euros «limpos», acrescenta um dos exploradores. Porque os salários são, evidentemente, em função da apanha. Nesta fase do campeonato intervém o Sr. Arnold para dizer umas palavras humanistas bem sentidas sobre as más condições de trabalho e de vida dos trabalhadores. Que procura evitar «as situações degradantes e as máfias». O indivíduo é um brincalhão. E o que faz para o evitar? Está claro que não faz nada, basta uma rápida passagem na zona para o saber. O Sr. Arnold mente como respira. Como é que estas centenas, milhares, de emigrantes chegam do Nepal e do Bangladeche até São Teotónio ? E em que condições chegam? E a que preço chegam ? A GNR não deve saber de nada. Quem poderia dar uns palpites sobre o assunto é o feio gajo da agência de trabalho temporário ou a loura empregada da agência de viagens. Mas, para ser franco, não indaguei… Esta mão-de-obra internacional, vivendo em condições miseráveis a milhares de quilómetros dos países de origem, é uma resposta provisória à questão da paz social. O gangue da Driscoll’s deve ter aprendido a lição com as revoltas nas estufas de Andaluzia, no princípio de 2000, quando os trabalhadores norte-africanos explorados nas dezenas de milhares de hectares de estufas de El Ejido (Almeria) se revoltaram obrigando o governo espanhol a intervir, criar melhores condições de habitação e impor melhores salários aos empresários. Neste canto perdido do Alentejo o cálculo frio dos criminosos da economia consiste em dar tempo ao tempo, explorar o máximo, destruir as terras e as águas, antes que se crie uma comunidade de classe entre trabalhadores que, por agora, nem entre eles se entendem. Mas o capitalismo, pelas condições de exploração que impõe, acaba por unificar esta gente, e o que vier depois será outra história, que não está escrita mas que é previsível. Os alentejanos, que tiveram uma história social violenta e rica estão anestesiados, os jovens emigraram ou suicidaram-se e os velhos andam a beber uns copos em «Festas Antigas». O grande partido do proletariado, o PCP, administra a região desde o 25 de Abril e parece brilhar pela ausência… Os nepaleses não votam e sabe-se lá se alguns até não serão maoistas, o que seria um abuso de confiança! Os funcionários reconhecem que a região esta a afundar-se, com velhos com reformas cada vez mais baixas, com mais pobres com RSI mais baixos, com mais desempregados. Como por todo lado a desertificação avança. De 2010 a 2014, a população do país diminuiu de 200 000 almas penadas e, em 3 anos, só no Baixo Alentejo, evaporaram-se umas 5 000 pessoas. Hoje a Questão Agrária que estudava o Álvaro Cunhal mudou de forma. Como na Andaluzia, os grandes proprietários já não são os latifundiários, são as grandes multinacionais da agroalimentar, muitas vezes também ligadas à grande distribuição. Bicharada que exige outro tipo de luta. Mas quem é que fala de luta? O PCP e a sua CGTP queixam-se, gritam suavemente, apelam à mobilização eleitoral, falam de uma política «patriótica», mas, face a estes mastodontes, não existem. Fazem ainda menos que os sindicalistas espanhóis. Ajudar os imigrantes a organizarem-se? Que aventureirismo! O Sr. Arnold da Driscoll’s até é capaz de ser pessoa civilizada, aceitar umas sugestões razoáveis e prometer umas coisinhas. Resta-nos imaginar a revolta que tal concentração proletária e tais condições de exploração tornam possível.

    A propósito de modernidade, vem à baila dizer também algo sobre a família Chiyu Lyu, o Alfeizerão e a luta política no seio da classe dirigente chinesa.

    Na New York Review of Books, («China: The Superpower of Mr. Xi», NY, Agosto 2015), Roderick MacFarquhar escreve um bom artigo sobre as fragilidades desta classe e os riscos da campanha de anticorrupção e de moralização da vida política do presidente Xi Jinping.

    Com o sorriso frio e cínico que se lhe conhece, o Sr. Xi apregoa: «a pureza moral é essencial para que os partidos marxistas continuem puros, e a integridade moral deve ser um traço fundamental para que os funcionários continuem limpos, honestos e íntegros». R. MacFarquhar começa por fazer uns cálculos simples. O partido tem 80 milhões de membros, e o próprio órgão de controlo do partido calcula que, no mínimo, 10% dos quadros de base são corruptos, o que representará uns oito milhões de funcionários. Se juntarmos a estes os milhões de esposas, filhos, familiares e parentes próximos, chega-se a uns 40 milhões de pessoas suscetíveis de serem perseguidas. Conclusão: abanar este gigantesco edifício corrupto significa deitar abaixo o partido, a estrutura de base do Estado da segunda potência mundial. Mais do que perigosa, a tarefa do camarada Xi é praticamente impossível.

    A natureza da burguesia vermelha chinesa assenta em valores que tem origem na sua formação recente: a desigualdade assumida, a agressividade e a arrogância, o poder do mais forte, a violência nua e crua. Num recente livro sobre as tendências rebeldes esmagadas por Mao durante a Grande Revolução Cultural, Yichung Wu (The Cultural Revolution at the Margins, Harvard University Press, 2014) mostra que a «Teoria da linha do sangue vermelho», esteve na origem da GRC, e a sua defesa justificou a terrível repressão das tendências radicais que a criticavam. A « teoria » atribuía «qualidades» particulares aos membros da elite partidária, as quais depois se «transformavam» em «características» quase naturais e transmissíveis de pais para filhos. Uma ideologia que serviu para reproduzir e consolidar a nova classe dirigente, que governa pela repressão aberta, não pela negociação ou pelo consenso interclassista. O que explica Tian anMen e hoje as respostas violentas aos movimentos de greve e de camponeses espoliados. A corrupção, que é apenas um dos aspetos desta especificidade de classe, foi depois reforçada pela força do desenvolvimento capitalista. Para R. MacFarquhar, o camarada Xi tem poucas opções e terá de contemporizar para evitar uma reação do aparelho. Nada melhor do que a aventura nacionalista para ocultar as dificuldades sem perder a face e mobilizar o povo. E assim a resposta à catástrofe de Tianjin – de que foi responsável direta a corrupção – acabou por ser um desfile militar mostrando a potência da China  no mundo…

    Mas a crise do político é também o resultado da crise da economia. O capitalismo chinês entra numa grave crise de rentabilidade, o investimento reduz-se e os capitais orientam-se para o campo especulativo com as consequências que se sabe sobre o agravamento da recessão global. À espera de clarificação política, insegura, a burguesia vermelha procura pôr o cacau especulativo em sítios mais tranquilos[ref]Na recente caída das bolsas chinesas, só em julho de 2015, evaporaram-se fundos equivalentes a seis vezes a dívida grega[/ref]. Aparecem assim os Vistos Gold, na Inglaterra, no Canada, em Espanha e em Portugal. Num país que está à venda, o Chico esperto dos submarinos procura captar umas centenas de milhares de euros dos capitais especulativos. A isso ele chama: « dinamizar a economia ». Como dizia o surrealista belga Camille Goemans, «Uma boa mentira vale mais do que um grande discurso!»

    E é assim que as ondas de choque deste tremor de terra chegaram a Alfeizerão. O Sr. Chiyu Lyu, membro da burguesia vermelha, tinha uma irmã que estudava na Alemanha e que se apaixonou por um imigrante, vindo a casar em Alfeizerão. Só que, na globalização, as histórias de amor acabam de maneira tenebrosa. O Chiyu Lyu veio à boda, gostou da Ginja de Alcobaça e decidiu comprar ali mesmo uns 7 hectares para construir uma colónia chinesa, 57 moradias de luxo, hotel, piscina, ténis, e mesmo uma escola de mandarim, tudo muito ecológico e segundo os princípios harmoniosos do Feng Shui. Que é a última obsessão da burguesia chinesa, que depois de ter criado um desastre ecológico sem precedente gosta de viver em redutos protegidos com ar puro. Só que os terrenos pertencem à Reserva Agrícola Nacional e há quem se ofusque. O Chyiu Lyu está furioso. Como assim, o que é isso da RAN? A China é a segunda potência mundial e estes camponeses estão a levantar obstáculos ao meu desejo pessoal? Campo de trabalho para esta gente, já!

    «Vamos andando», suspira o vizinho. «Levados, levados sim», cantava o hino fascista. E nisto estamos, entre a Driscoll’s e o Feng Shui de Alfeizerão. Entregues aos bichos! O que, obviamente, é inaceitável e não aceitamos. Como aconselhavam os anarquistas de 1920, deixemos o pessimismo para tempos melhores. O tempo trará outros possíveis.

    Setembro 2014,
    Jorge Valadas