Categoria: Destaque

  • Game of Drones

    Game of Drones

    Drone-Crop-643O futebol de alta competição e as grandes competições internacionais arrastam multidões e a final da Liga dos Campeões em Lisboa, no próximo dia 24 de Maio, entre dois clubes rivais de Madrid, promete trazer à capital milhares de adeptos madrilenos, fazendo «milagres» pela economia portuguesa e dando uma grande dor de cabeça à PSP. Prevê­-se que seja montado um enorme dispositivo policial à volta do jogo e o próprio ministro da administração interna, Miguel Macedo, falou da possibilidade de utilização de drones para controlar a massa de adeptos que se vão juntar na capital portuguesa.

    Para quem ignora o que é um drone, muito resumidamente, é um veículo aéreo não tripulado utilizado com fins militares e que são utilizados tanto em cenários de guerra, tanto como forma de patrulhamento e controlo de território através de um sistema de videovigilância.

    Apesar da falta de enquadramento legal para a sua utilização, facto para o qual a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) alertou, a PSP adquiriu pela módica quantia de 200 mil euros dois destes aparelhos à empresa Tekever, grupo português especializado na inovação de tecnologias informação, espaço aéreo, defesa e segurança e que tem empresas subsidiárias nos continentes europeu, asiático e americano. As notícias sobre a aquisição dos dois drones vieram a público no final do ano transacto, sendo a primeira vez que se equaciona a sua utilização. Esta teria que passar por uma proposta formal da PSP ao Ministério da Administração Interna (MAI) que, com a aprovação da CNPD, poderia autorizar a sua utilização. O próprio ministro frisou que não é certa a sua utilização durante a concentração dos adeptos das duas equipas madrilenas em Lisboa, mas é um facto que este material existe e que está ao dispor do MAI e da PSP. A juntar-­se ao “material de guerra” que a PSP tem vindo a acumular ultimamente, já desde a celebração da cimeira da OTAN em Lisboa em Novembro de 2010, é caso para perguntar, que estarão o governo e as suas forças de segurança a maquinar para “garantir as liberdades de cada um”?

    P.M.

  • Escravatura nos campos do sul

    Escravatura nos campos do sul

    O novo Alentejo irrigado pelo Alqueva parece cada vez mais um regresso ao velho Alentejo: o latifundiário, senhor dos olivais intensivos, e o trabalhador rural, imigrante precário e nas malhas da escravatura moderna.

     

    escravatur_sul_destaqueNas campanhas do trigo do século passado desciam das Beiras ao Alentejo os trabalhadores sazonais: os ratinhos. Uma “população aventureira e miserável, que invade a planície, em contraste com os seus naturais em geral de temperamento sedentário, à míngua de recursos nas suas terras, e que se sujeitam às mais baixas missões nas lavouras”. Assim era a memória desta gente de “descanso fugidio, porque a ceifa de ratinhos não é trabalho para entreter. Desde que chegam até ao dia da abalada, sentem cair sobre eles o peso despótico do mundo que os rodeia.”[ref]José Alves Capela e Silva “Ganharias”, Imprensa Baroeth, Lisboa 1939[/ref]

    Neste século, na apanha da azeitona da planície interior ou nas estufas do litoral alentejano, esse peso despótico recai sobre novos ratinhos vindo do leste cigano da Europa, romenos e búlgaros, do norte de África ou das longínquas paragens asiáticas do Vietname ao Nepal. É nestes homens e mulheres que hoje ecoa uma funesta memória dos outrora campos do sul em frequentes episódios de exploração desumana do trabalhador rural. E de escravatura.

    Dir-se-ia hoje que o ganhão de ontem, aquele que trabalhava à jorna, não fala português; que o trabalhador rural alentejano, o sujeito camponês, é hoje o imigrante precário e vítima. Como irá soar no cante alentejano dos nossos dias, nessa polifonia de memória colectiva, as modas da velha e sempre renovada clivagem social entre os grandes terratenentes e a população trabalhadora?

     

    Olival da Nação

    A exploração dos imigrantes nos campos alentejanos reporta tanto à memória dos ratinhos assim como ao desígnio traçado desde há séculos para o Alentejo. Desígnio que é o pano de fundo desta realidade e que importa assinalar: do celeiro da nação do século XX à promessa cumprida dos campos irrigados pelo Alqueva. Nele, o trabalhador rural não é mais do que uma peça de engrenagem de verdadeiras fábricas em que o campo se tornou. A agro-indústria surge como meta de progresso partilhada pelo latifundiário ao autarca comunista, que em nome de “crescimento” e “produtividade” falam em uníssono de “investimento” e “perspectivas de futuro” para a região. As razões do desígnio são generalizadas: no resto do país e cidades os restantes 93% da população portuguesa carece de alimento[ref]O Alentejo é a região portuguesa de menor índice de densidade populacional (23,7h/km2): 749 mil habitantes (7% do total em 2010), com projecção para 2025 (Eurostat) de 775 mil habitantes.[/ref], perante o incontornável paradoxo de neste mundo industrial ser ínfima a percentagem de população activa na agricultura. E é nestes novos tempos do campo alentejano: modernos, regados e industrializados, que outro paradoxo persiste. A modernidade, o investimento e a produtividade, não prescindem do velho lastro da exploração camponesa e da escravatura do trabalhador rural. Aspectos imutáveis que se colam à vastidão do latifúndio, como sempre na mão de uns poucos, velhas famílias que ora retomam as terras, ora as vão vendendo a congéneres agro-industriais vindos do outro lado da fronteira.

    Na apanha da azeitona, como formigas num reticulado industrial de olivais que nunca chegam a ser árvores, surgem bandos de trabalhadores largados por intermediários (portugueses, romenos, espanhóis ou israelitas), que negoceiam, a coberto de efémeras empresas de trabalho temporário, o trabalho imigrante com os senhores das herdades. Um enquadramento legal que cobre as actividades sazonais e que é assumido com naturalidade na engrenagem agrícola. De empresa a sub-empresas, esfumam-se os ganhos até chegarem aos trabalhadores, lava a agro-indústria as mãos de obrigações sociais e laborais, e é dada cobertura à exploração e escravidão num ciclo de prestadores de serviços com cada vez menos escrúpulos.

    Esta situação procura, no entanto, ser absolvida em nome da tábua de salvação nacional apresentada no sector agrícola, no novo Alentejo dos blocos de rega do Alqueva. Perspectivas refutadas há cerca de um ano atrás pelo comunista João Diniz, da Confederação Nacional de Agricultores, que exemplifica: “É verdade que as exportações de Hortícolas atingiram mais de mil milhões de Euros em 2012, valor impensável há dez anos atrás. Mas “quem paga a factura” a trabalhar nas grandes empresas de produção/ exportação? Muitas vezes, é mão-de-obra “importada” e sobre-explorada… E qual é o modo produção – nessas e em outras explorações/ produções – que potencia esses valores em “negócios”? É o modo de produção (super)intensivo que acaba por delapidar o ambiente, os solos e águas, os ecossistemas, e não assegura a qualidade alimentar dos Produtos…”. Questões extensivas às explorações super-intensivas dos olivais que “estão a arruinar a Produção Nacional familiar e mais tradicional em Olival/ Azeite nas regiões sem alternativa a estas culturas.”[ref]http://tinyurl.com/qarelhp[/ref]

     

    Escravos

    Nesse leque de críticas, foi porém a escravatura nos campos do sul que se tornou numa espinha encravada no discurso agrícola de salvação nacional nestes últimos 4 anos. Pedro Pimenta Braz, inspector-geral da Autoridade das Condições do Trabalho (ACT) foi peremptório aos jornalistas[ref]”Nunca me passou pela cabeça que poderia ser vendido”: Reportagem de Joana Gorjão Henriques na Revista 2 do Jornal Público em 29/12/2013 (http://tinyurl.com/p737cf7)[/ref]: «“a escravatura moderna existe em Portugal”, sobretudo na agricultura, e a maior parte das vezes “estamos a falar de escravidão por dívida”, em que “o trabalhador fica preso à entidade empregadora”». O sobressalto foi tal que só em 2013 a ACT terá participado ao Ministério Público 60 casos de escravatura moderna, ciente porem de ser “um crime difícil de provar” pelo medo de dar a cara. Nas suas investidas policiais nas herdades acumulam-se, porém, evidências da exploração – salários abaixo do ordenado mínimo, atrasos e não pagamentos; condições desumanas de higiene e alojamento, etc. – à escravidão: retenção dos documentos, coacção e trabalho forçado para pagar eternas despesas de transporte e estadia, etc.

    Mas as consequências imediatas apenas surgem para os clandestinos. As empresas engajadoras desaparecem até surgirem com outros nomes. Subterfúgio que acompanha uma legislação laboral que dita a precaridade como regra. Como referia um inspector da ACT ao Diário do Alentejo, as “novas modalidades de organização que vão surgindo nas herdades, porque vão evoluindo, são cada vez mais sofisticadas, no sentido de se tornearem as obrigações legais e no sentido de se dificultarem as ações das entidades fiscalizadoras”[ref]Diário do Alentejo, 13.12.2013 (http://tinyurl.com/q76btef)[/ref]. Opinião diferente tem, no entanto, a ministra da Agricultura Assunção Cristas, que declarava em Novembro do ano passado na sede da EDIA que “assistimos, de facto, a uma fiscalização que está a dar o seu resultado (…) que sirva como exemplo daquilo que não se pode fazer” acentuando que “o que queremos para a agricultura é a criação de bom emprego, com boa remuneração e com um sempre acrescento de valor para todas as pessoas envolvidas”[ref]Correio da Manhã, 20.11.2013 (http://tinyurl.com/osg33ld)[/ref]. Este tornear da questão é o mesmo que Pedro Pimenta Braz apontou quando questionado acerca da resposta que obtém por parte dos proprietários agro-industriais: “Quando são portugueses, geralmente, 99,9% das vezes o discurso é de negação do problema. Certamente, as opiniões não seriam assim se toda a cadeia fosse penalizada”. Ou seja, uma cadeia em que o único a ser penalizado é o trabalhador e em que o “acrescento de valor” apenas chega para uns poucos. Nas próprias palavras do inspector-geral da ACT: “Isto é, quem lucra com o negócio, quem esmaga o custo do trabalho não é sancionado. Quem lucra com a situação? As grandes agro-indústrias, que têm o preço mais barato; o dono agrícola da herdade ou da indústria, que consegue ter mais-valias porque o custo do trabalho é mais reduzido; o primeiro subempreiteiro porque com o que paga a quem contrata ganha algum dinheiro; nós, consumidores, que compramos a preços mais módicos e ficamos todos satisfeitos. E o problema só existe para o trabalhador. Enquanto não alterarmos isto em todo o espaço da União Europeia, andamos a lutar contra moinhos de vento.”[ref]http://tinyurl.com/p737cf7[/ref]

     

    As boas consciências nacionais

    Sevinate Pinto, o engenheiro agrónomo ex-Ministro da Agricultura de Durão Barroso, em crónica intitulada “Os romenos, a “desumanidade” e o desemprego no Alentejo”[ref]http://tinyurl.com/qbjjde6[/ref] apressou-se a isentar de responsabilidades “os portugueses de boa consciência, designadamente os olivicultores alentejanos, que muito pouca responsabilidade têm no assunto”. Remetendo para a polícia a exploração dos romenos, o certo é que o recurso cego a estes “prestadores de serviços” dificilmente isenta os olivicultores de “boa consciência”.

    A preocupação do ex-ministro é porém outra: o ter de admitir estrangeiros quando há desemprego no Alentejo, mas onde a procura do trabalho agrícola não é coisa que pegue. O seu apelo à empregabilidade dos portugueses, pese oscilar sub-repticiamente no lamento industrial de que “as máquinas, que já são muitas e cada vez mais, não resolvem tudo”, depara-se, nas suas palavras, com um obstáculo: “alguns portugueses, mesmo desempregados, não gostam da precariedade muitas vezes associada aos trabalhos agrícolas e revelem dificuldades de adaptação à natureza desses trabalhos”. A ciência politica ao nível de qualquer conversa de café: quanto vale trabalhar para receber uma miséria? Talvez os imigrantes portugueses, que venham agora repatriados da Suíça, onde impera por recente força de lei similar preocupação com o trabalho dos nacionais, possam elucidar o ex-ministro. E poderá ser útil à sua “boa consciência” fazer a mesma pergunta para o romeno cujos ganhos lusos são miragem suficiente para cair em escravatura.

    A verdade é que lidamos com consciências, regra geral, autistas. O gravíssimo problema humano da exploração de imigrantes fruto das exigências senhoriais do olival intensivo, passa, nesta formulação do problema, para um segundo e terceiro plano face à questão da nacionalidade. Nesse caldo, sabemo-lo, é instigada uma perigosa deriva racista e de extrema-direita que acaba culpabilizando os próprios imigrantes da continuada extorsão salarial, das condições de habitação e alimentação deploráveis. As “boas consciências” dos senhores do olival estão à sombra, como se nada fosse com eles.

    E porque são baratos, “imbatíveis na capacidade de trabalho”, tornaram-se, como referia ao jornal Público em 2012 o presidente comunista da junta de freguesia de Baleizão, terra (?!) símbolo das lutas camponesas: “um mal necessário, senão a azeitona não era apanhada”[ref]Público, 24.11.2012 (http://tinyurl.com/orp942h)[/ref]. Por isso as previsões agrícolas no final de 2013 apontavam para um aumento considerável do rendimento do azeite (+ 40%) e da azeitona de mesa (+ 25%) face ao ano anterior. Facto para o qual contribuíram perto de 34 mil hectares, mais de metade olival (53%), regados com 47 milhões de metros cúbicos de água do Alqueva. Mas não só: num distrito de Beja com 17 mil desempregados, a Associação de Solidariedade Imigrante referia em finais de 2013 que por essa altura estariam na apanha de azeitona na região “entre 10 a 15 mil trabalhadores imigrantes”[ref]Público, 02.12.2013 (http://tinyurl.com/oqcq8vd)[/ref]. A estes números se deve a soma do aumento dos “rendimentos” e a subtracção dos direitos dos trabalhadores rurais.

    Henrique Coroa, um agricultor de Beja, declarava em Dezembro passado que os imigrantes “são muito mais rápidos (…) são a nossa sorte, senão a produção de azeite no Alentejo parava”[ref]Idem[/ref]. Diferente “sorte” relatou ao Público um dos romenos “mais rápidos” que conseguiu fugir das malhas da escravatura nos olivais de Serpa: «O dia-a-dia era 12 horas de trabalho a apanhar azeitona, com curto intervalo para almoço, pressão para não pararem, para não fumarem, para trabalharem mais e mais rápido. “Só bebíamos água uma vez por dia.” (…) “Somos maltratados, estamos cheios de dívidas, não temos documentos, a comida não chega, trabalhamos muito, as condições são más.”»[ref]http://tinyurl.com/p737cf7[/ref]

     

    A que terra regressamos?

    Não apenas mais vozes, mas mais acção, deve necessariamente haver para contrariar este “vale tudo” nos campos do sul. Campos onde as conquistas laborais desaparecem mais do que nunca, onde o desempregado é jogado à sorte de um qualquer trabalho precário, que a mal se terá de adaptar, e onde o imigrante é reduzido à mais desumana exploração e à escravatura. Nessa escalada, apenas a solidariedade, a denúncia e a luta pelo fim de uma realidade apresentada como “perspectiva de futuro” da região, irá permitir o inverter da situação daqueles que estão hoje nas malhas da exploração e travar o regresso social a um tempo de “ratinhos”, quiçá numa perigosa deriva racista.

    O apelo a uma nova organização do trabalho no campo é por isso pertinente. Mas esta não pode ser cingida a uma simples questão camponesa ou sindical, não descurando que uma gestão autónoma e colectiva no acesso à contratação de trabalhos sazonais para evitar discriminações por origem ou género. O que o trabalho no campo tem de assumir é a oposição à inevitabilidade da agro-indústria como única perspectiva para uma região como o Alentejo, precisamente por passar por esta a raiz do problema. Nessa demanda industrial que anunciou o milagre da tecnicização de todos os aspectos da vida, acordamos lentamente em busca de um regresso à terra. Nesse regresso aos campos não podemos por isso tomar como incontornável essa eterna relação de forças e exploração que está há muito em cena no meio rural. E que escraviza as nossas vidas.[ref]O presente artigo desenvolve crónicas de opinião do autor publicadas no Diário do Alentejo[/ref]

     

  • Às portas da Europa, continua-se a matar em nome da defesa das fronteiras

    Às portas da Europa, continua-se a matar em nome da defesa das fronteiras

    No passado dia 6 de fevereiro, uma linha de agentes da guarda civil espanhola, colocada na praia de Ceuta, disparou em direcção a um grupo de pessoas que tentavam atravessar a nado, de forma a entrarem em solo europeu, a linha imaginária que separa o enclave espanhol do resto do continente africano. Nesta noite foram pelo menos 15 as vítimas mortais das balas da polícia espanhola. Os tiros foram justificados por desacatos do outro lado da grelha fronteiriça, no entanto as imagens disponíveis (ver video abaixo) mostram um pelotão de fuzilamento a atirar sobre a água, causando mortes não só pelo impacto das balas de borracha, mas também por afogamento.

    Perante os acontecimentos, o governo espanhol, através de Mariano Rajoy e do ministro do interior Jorge Fernández Dias, não só defendeu a honra e o comportamento da sua polícia como prometeu uma reforma na ley de estranjería (lei espanhola da imigração ) de forma a ilibar os agentes  da Guardia Civil perante possíveis críticas à sua actuação. A situação nas linhas fronteiriças de Ceuta e Melilla é neste momento bastante tensa, o que torna provável a repetição de cenários semelhantes que, de resto, ao longo dos últimos anos, tem tido bastantes episódios menos mediatizados mas igualmente trágicos.

    Segundo alguns dados (fortres- seurope: goo.gl/IB2FJY / The Guardian: goo.gl/MKcm4j), as políticas europeias de protecção de fronteiras causaram cerca de 20.000 mortes nos últimos 20 anos. Os mesmos que militarizam o quotidiano perante a dissidência, que militarizam as fronteiras perpetuando os velhos fantasmas sobre o “estrangeiro”, matam e mentem ao mesmo tempo que clamam Democracia aos 4 ventos, na expansão da retórica duma Europa livre. Nas ruas, nos mares e nas fronteiras, os mortos pertencem sempre ao mesmo lado e essa parece ser a grande vitória da paz podre da harmonia europeia.

     

     

     

     

  • Fábrica de alternativas em Algés

    Fábrica de alternativas em Algés

    alternativasA Associação Fábrica de Alternativas em Algés, situada no Largo Vila Madalena, é um projecto colectivo autogerido que nasceu da vontade expressa na Assembleia Popular de Algés, a funcionar no Parque Anjos todos os Sábados entre as 11- 13h desde Maio de 2013, como de vários moradores e amigos de Algés que procuravam um espaço para actividades socio-culturais, capazes de envolver e beneficiar principalmente a população local. Face à falta de resposta das entidades institucionais para a cedência de um espaço, foi arrendada, a preço justo, uma fábrica de confecções desactivada. Após a adequação do espaço ao novo projecto, passou-se à fase de agendamento e funcionamento das mais diversas actividades que entretanto foram sendo propostas. O projecto inclui um banco de tempo e a oferta de actividades gratuitas, ou possibilita aos seus associados angariarem doações através das mesmas, bem como a realização de jantares, concertos e outros eventos benefit. A Fábrica de Alternativas (Facebook: Fabrica de Alternativas) convida a que apareçam e apresentem o vosso projecto. O seu lema inicial é “Vai lá e faz!”, assumindo como objectivo que as pessoas se envolvam elas mesmas na construção do projecto colectivo e inscrevendo nele os seus próprios projectos individuais.

  • Uma experiência de horta urbana e muito mais… no fio da navalha

    Uma experiência de horta urbana e muito mais… no fio da navalha

    musas_interiorEncravada entre o Bonjardim e a Fontinha, logo ali a dois passos do Marquês e não demasiado longe da baixa portuense, a Quinta Musas da Fontinha – uma experiência de horta comunitária urbana surgida por iniciativa de uma velha coletividade de bairro – acaba de ser notícia pelas melhores e pelas piores razões, precisamente quando, a velha colectividade conhecida como Musas, se prepara para comemorar o seu 70º aniversário no próximo mês de Abril.

    Exemplo de resistência e reinvenção das formas de cooperação social entre indivíduos, ao avesso da pressão dominante para uma urbanização predadora da natureza e dos valores de competição individual, a Quinta Musas da Fontinha surge ao arrepio de um contexto em que a cidade se esvazia cada vez mais de uma comunidade socialmente operativa para se ir transformando num vazio ocupado e transformado numa arena de operadores turísticos: autocarros panorâmicos e descapotados aparecem cada vez mais a competir nos corredores de bus com os autocarros dos serviços públicos de transportes, uns e outros evoluindo em sentido inverso num claro sinal dos tempos em que os serviços públicos se degradam e os grandes negócios prosperam.

    A Quinta foi notícia, recentemente, por ter transformado uma velha colina, anteriormente cedida quer a funções de depósito de ferro velho, quer a silvado impenetrável e habitat de ratazanas, numa horta comunitária. A iniciativa da Quinta originou então uma ação de despejo sobre a sede da coletividade, o logradouro onde a horta se iniciara e ainda a ameaça de uma choruda indemnização aos proprietários. Conforme atestam as memórias dos vizinhos que acompanharam o Musas para um testemunho em tribunal, a história da utilização do espaço para atividades lúdicas da associação data de há muitas décadas atrás, embora interrompida pelas crises de uma vida associativa nem sempre fácil.

    Situações anómalas ocorridas nas vésperas do julgamento da ação de despejo, entre elas o internamento hospitalar da advogada que acompanhou a coletividade desde o início do processo, acabaram por fazer perigar o desfecho da ação judicial.

    No decorrer do mesmo tornou-se incontornável a aceitação de um acordo judicial que, por um lado salvaguarda a sede do Musas e preserva a coletividade do perigo de extinção – as melhores razões – mas por outro – as piores – a obriga a ter de suportar um aumento pesadíssimo das rendas, caso pretenda manter as suas hortas no logradouro onde se iniciaram. Logradouro este que é o seu acesso privilegiado, o seu miradouro com vista para o mar, e a jóia da coroa da Quinta Musas da Fontinha, ainda que esta se tenha entretanto estendido a terrenos municipais e a terrenos cedidos pela boa vontade de vizinhos.

    A Quinta Musas da Fontinha, que hoje agrega um conjunto de cerca de 25 pequenas hortas com dimensão média e idêntica de 25 m2 (cada uma com o nome de um fruto), a zona de agrofloresta, o jardim elevado, a zona de convívio nascida “terra das crianças”, os canteiros de aromáticas, o galinheiro, a estufa (de momento em transformação), ou o banco de sementes, pelas quais se responsabilizam os sócios do Musas que a tal se disponham – individualmente ou em grupo (com outros sócios) – não é, nem de perto nem de longe, um projeto de entrega de lotes agrícolas para cultivo. É, antes, um processo de criação de uma comunidade, corresponsável pela globalidade do projeto, em que é corrente e natural que uns sócios reguem a hortinha dos vizinhos, se por algum motivo estes não o possam fazer, ou que venham das suas hortas os legumes necessários ao almoço comunitário quando ele se realiza.

    Com quotas de associado definidas voluntariamente por cada sócio e sem mais exigências do que a pertença corresponsável ao projeto comunitário, não só das hortas, mas igualmente do xadrez, da biblioteca, da animação cultural, entre outras actividades, o Musas atraiu à sua proposta gente disponível para uma experiência social em comunidade.

    São eles hortelãos entusiastas ou lutadores pela própria sobrevivência, quintuplicando em dois anos o seu número de sócios, ainda que, de momento, este número ainda não permita responder ao aumento das rendas que lhe foram agora impostas e o deixa no fio da navalha.

    Nesse sentido surge o recente apelo do Musas para alargar o seu número de sócios, o único garante de que o projeto, onde o mecanismo fundamental de decisão é assembleário, resista e se fortaleça. Assim se explica que o acordo judicial agora decidido tivesse sido, num primeiro momento, objeto da conferência dos sócios presentes no tribunal, e posteriormente, objeto da decisão obrigatória dos sócios em assembleia.

    O Musas tem vindo a criar um sentido de comunidade em que participam, pela primeira vez, muitas pessoas para as quais esta é uma primeira experiência nesse sentido, algo que, a outro nível, também foi experienciado mais ou menos recentemente dentro do projeto Es.Col.A, ali ao lado, no Alto da Fontinha. Esta colectividade forma também parte de um processo, em cooperação com os seus espaços amigos na cidade, como a Casaviva, o Gato Vadio, a Casa da Horta, o Terra Viva e outros, sendo participante das Hortas pela Diversidade ou da Colher para Semear, de que partilha também os ideais.

    Loureiro da Costa

    http://musas.pegada.net/

  • Episódios de violência na prisão de Beja

    Episódios de violência na prisão de Beja

    cadeia-de-beja1Foram confirmados os episódios de violência vividos no estabelecimento prisional de Beja em Agosto passado. A partir de uma entrevista dada pelo seu recente director José Luís Messias Pereira ao Diário do Alentejo, este confirmou que no mês em que tomou posse, no dia 21 de Agosto, houve lugar a uma intervenção do Grupo de Operações especiais da Guarda Prisional. Messias Pereira chamou-lhe “acção preventiva” e que serviu “apenas” para marcar uma posição e para “dizer aos reclusos que existem regras”.

    Logo no dia 24 de Agosto fora deixada uma denúncia no blog da Revista Alambique que referia como “agrediram os reclusos a sovas de morte, onde se encontram muitos assinalados ao ponto de estarem proibidos a ter visitas.” Neste blog a publicação mais recente de uma entrada sobre estes acontecimentos suscitou outros relatos. É avançada por um dos comentários que o motivo desta acção, terá ocorrido após na primeira refeição um guarda ter sido agredido. Um último comentário, à data da presente redacção, dava conta de acontecimentos em concreto: “chegam os da intervenção e mandam um recluso descalçar os sapatos, ora o recluso começa a descalçar-se vai o da intervenção começa a bater na cara do recluso, vai o da intervenção e diz lhe eu disse-te para te descalçares mas não disse qual era o pé se o esquerdo se o direito!!!! lol tão a brincar comigo!? mas continuam a dizer que não ouve violência!? querem mais situações!? Eu digo… só entra um quilo de comida por semana e os familiares que podem levam a comidinha no saco com o nome e tal, chegam lá os da intervenção e jogam lhes a comida pró chão!!! e agora!???? oh por favor o pouco que tem estragam tudo não se lembram da fome, nem Do quanto custa a certos familiares levarem esse quilinho de alimentos para quem amam, chamam a isto cumprir regras!? querem paz ou revolta!? Há deveres mas também há direitos!!!! e ainda vem dar lições de moral!?”

    Estes acontecimentos não tiveram qualquer confirmação oficial, nem é ainda conhecido se algum processo de averiguação prossegue. Segundo Messias Pereira na entrevista dada ao Diário do Alentejo o que se passou terá sido uma actuação para acabar com “agressões entre reclusos ou o facto de um recluso ter a capacidade de não permitir que outro se sentasse numa mesa do refeitório”, pelo que “o desrespeito na forma como os reclusos funcionavam uns com os outros obrigou à realização de uma ação preventiva. “ Uma busca e revista às celas, não foi mais do que isso. No fundo, foi dizer aos reclusos que nós temos regras, temos de as cumprir…”. Por isso quando questionado sobre as denúncias sobre o uso excessivo da força durante essa “ação preventiva”… e se reconhece-se nessas acusações, Messias Pereira afirma que “não reconheço. Cheguei a receber aqui familiares de reclusos que sinalizaram certas situações, mas provou-se que eram tudo inverdades. Houve até um caso relatado para os serviços de auditoria e inspecção de um recluso que teria sido agredido, foram feitos exames, foi arquivado, não havia indícios de nada. Houve, sim, sinais de alguns reclusos que não querem regras, que são uma minoria, que no meio da anarquia e do desrespeito conseguem fazer aquilo que querem.”

    Em Agosto passado, no mês da tomada de posse da prisão de Beja de um zeloso funcionário prisional, ecoou o grito mudo dos presos e seus familiares: ”Os piores bandidos que há de cima da terra não são os reclusos mas sim os próprios guardas.” O silêncio sobre estes acontecimentos dentro de muros revela não somente uma verdadeira barreira de silêncio, como o facto do chamado estado de direito definir o uso de violência como uma sua regra e privilégio exclusivo e que qualquer atitude coerciva para estes homens seja sempre justificada pela sua condição, não de homens, mas de presos. Esse dado adquirido é um dado que custa a todos pôr em causa na mesma medida em que custa interrogar-nos a falência do modelo prisional desta sociedade, ou da falácia da reinserção social que decorre entre muros e guardas. O facto de se passar de forma consentida à margem de toda esta sociedade, a quem no final se pretende que o preso a ela “regresse”, resulta tão somente da demissão diária e alargada em reinserir o marginal que no dia antes era o nosso familiar, o nosso vizinho. Na verdade, nunca saiu o preso dessa mesma sociedade, e na prisão apenas aprende a sua natureza de fundo autoritária, prepotente e exclusiva. Violenta e criminosa, numa convivência alimentada não apenas por guardas, mas por igualmente reclusos, quantas vezes tão mais defensores dessa ordem e das regras coercivas como os guardas. Procurar viver com outras regras não pode excluir estes homens e mulheres. E se há reclusos que não conseguem lidar bem com as regras da sociedade e as subordinações superiores, talvez possa precisamente vir destes algo de novo. E não mais do mesmo: violência e abusos entre presos e guardas.