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  • Nato: Uma lança em África

    Nato: Uma lança em África

    Airmen board a NATO AWACS aircraf during a joint NATO military exercise in SiauliaiO Trident Juncture 2015 é um exercício militar da Nato de alta intensidade e alta visibilidade que se iniciou a 28 de Setembro e se prolonga até 6 de Novembro. Divide-se em duas fases. Uma, chamada CPX (Command Post Exercise), que se resume a gabinetes. Outra, de nome LIVEX (Live Exercise), que se desenrolará no terreno, com ensaio de várias operações navais, aéreas e terrestres, de desembarques a acções em ambiente urbano. Esta fase contará com 200 aeronaves, 50 navios de guerra e cerca de 36.000 efectivos de 28 estados da Nato e 5 nações parceiras e decorrerá em Espanha, Itália, Portugal, Mediterrâneo, Oceano Atlântico e também Canadá, Noruega, Alemanha, Bélgica e Holanda. Trata-se, de acordo com o Estado-Maior-General das Forças Armadas, do “maior exercício da história da NATO pós Guerra Fria e o evento de maior visibilidade realizado em 2015, envolvendo toda a estrutura de comando da Aliança”[ref]goo.gl/n82o8l[/ref].

     

     

    Trident Juncture 2015

    Este exercício é o corolário de anos de preparação baseada no conceito estratégico aprovado em Lisboa, em 2010, onde a Nato deixou oficialmente de ser uma aliança meramente defensiva. A cimeira de Chicago, em 2012, instarou a Connected Force Initiative (CFI). Dois anos mais tarde, em Gales, o Readiness Action Plan instituiu a Força de Intervenção Rápida (força de 5.000 efectivos capazes de, em 48 horas, se mobilizarem para responder a situações de crise a Leste e a Sul da Nato) e decretou seis medidas-chave dentro da CFI. Uma delas era a realização das manobras Trident Juncture 2015.

    O cenário deste jogo de guerra é um conflito entre dois países fictícios por causa de questões relacionadas com água. Na disputa, um dos países invade outro e, pela lógica da Nato, é altura de intervir. Em nenhum momento é levantada a hipótese da nação invadida ser membro da Aliança Atlântica. Apesar disso, Aguiar Branco não se inibe de afirmar que o “cenário do exercício demonstra uma natureza defensiva das actividades da Aliança”[ref]goo.gl/sqXnTU[/ref].

    Uma mistificação que nem sequer está presente nas palavras da própria Nato, que afirma que o cenário permite uma “Operação de Resposta a Crises fora da área, não Artigo 5 [artigo que instaura a resposta militar da Aliança em caso de agressão a qualquer estado membro – N.T.], para parar uma guerra fronteiriça antes que se expanda a toda a região.”[ref]goo.gl/tbuLx9[/ref] No mesmo texto, também se pode ler que se pretende confrontar as forças da Nato com um “espectro amplo de ameaças convencionais e não convencionais, incluindo a guerra híbrida”.

     

    Guerra total

    nato_trident“Guerra híbrida” é um conceito escorregadio. Tão escorregadio que tende a resvalar para um outro, o de guerra total, que se alastra a todos os aspectos da sociedade. As referências a “ambientes urbanos” nos documentos do Trident Juncture 2015 deixam antever que também se treina a presença do exército nas ruas, fora e dentro dos países da própria Nato para quando a polícia, eventualmente, deixar de ser suficiente para conter multidões.

    Um conceito escorregadio que inclui, como parte do exercício, uma batalha de narrativas, ou seja, “trabalhar num ambiente informativo arriscado tanto nos países da Nato como na região em que a intervenção terá lugar”[ref]goo.gl/tbuLx9[/ref]. O convite a várias ONGs[ref]Por exemplo, Comité Internacional da Cruz Vermelha, Save the Children, Assistência Médica Internacional, Human Rights Watch.[/ref] para participarem deve ser visto a essa luz. Com o objectivo afirmado de melhorar a interacção entre a Nato e actores civis essenciais, trata-se, afinal, duma espécie de botox pacifista que pretende legitimar uma prática imperialista, aproveitando para integrar algumas instituições na sua estratégia militar, impondo-lhes a sua lógica.

    Um treino militar com uma visibilidade que se pretende dissuasora. Com um enfoque em intervenções fora do espaço da Aliança. Com cuidados de relações públicas. E com “um cenário artificial e fictício que tem lugar em SOROTAN, que é algo como uma parte de África”, nas palavras do general Hans-Lothar Domröse[ref]goo.gl/YS4DcM[/ref].

     

    Objectivo: África

    Sierra_del_RetinDe facto, mais do que demonstrar força perante a Rússia e de treinar conjuntamente forças da Nato e da Ucrânia (que participa neste exercício), é de África que se trata. O continente rico. O continente que o Ocidente está a perder economicamente para a China e que pretende dominar militarmente. O continente com mais potencial de exploração. Em que as guerras pelos recursos se tornarão ainda mais inevitáveis depois disto. E em que as alterações climáticas serão razão de migrações e conflitos, desafio a que a Nato decidiu dar atenção pelo menos a partir da cimeira de Lisboa[ref]goo.gl/FwXA0q[/ref].

    Ou seja, o objectivo central destes exercícios é treinar intervenções militares no continente africano. Para promover uma escalada militar que mais não fará do que potenciar novos conflitos e garantir uma fatia de leão na exploração de recursos para as empresas ocidentais. Recursos esses que não são de desprezar. África tem, por exemplo, um terço das reservas mundiais de minérios. Para além disso, apenas 12 das 54 nações africanas não têm hidrocarbonetos, havendo ainda zonas quase inexploradas. Mesmo nos locais considerados maduros há uma vastidão enorme de território que ainda promete esconder recursos.

    O alegado voltar de atenções para Sul poder-nos-ia fazer pensar unicamente no norte de África. A realidade vai mais longe. De acordo com o general Breedlove, citado por Manilo Dinucci[ref]goo.gl/7bh4Ei[/ref], “os membros da NATO  desenvolverão um grande papel no Norte de África, no Sahel e na África Subsahariana”. Com o mundo ocidental a cuidar de dar uma resposta policial e militar ao que chama “crise de refugiados”, não nos espantemos de, em breve, ver a Nato em acção no afastamento dos requerentes de asilo para longe da vista dos europeus, contendo os fluxos migratórios na origem ou, pelo menos, em locais ainda não visíveis a partir de dentro da fortaleza.

    Como habitualmente, os discursos oficiais chegam tão carregados de pacifismo que nem parecem ter origem no maior e mais agressivo exército mundial. De qualquer forma, não se esconde que se pretende fazer treino militar para testar a CFI e, sobretudo, a Força de Intervenção Rápida. E ninguém com alguma independência poderá deixar de notar que a mensagem central se mantém: é possível fazer a paz através da guerra. Uma mensagem que não cabe na imagem que o Ocidente quer dar de si próprio quando anuncia treinos de invasão ao mesmo tempo os varre para debaixo do tapete da retórica da “defesa colectiva”.

     

    O papel de Portugal

    14.02-LajesPara além de ser território em que estes jogos de guerra se vão desenrolar(9), Portugal tem tido e continuará a ter um papel fundamental no Trident Juncture 2015. Com os objectivos declarados no despacho do primeiro-ministro em Diário da República (despacho nº 5472/2015, de 5 de Maio). Por exemplo o de “sedimentar a imagem externa de Portugal e, no âmbito do Fórum da Indústria da OTAN que decorrerá em paralelo ao exercício, promover a internacionalização das empresas nacionais e criar um ambiente favorável à atração dos agentes económicos estrangeiros pelo mercado português”.

    Nas diferentes fases de preparação do exercício já decorreram diversas actividades em Portugal, algumas de grande dimensão como uma reunião em Maio último de 291 representantes de 28 países, onde o desenho militar desta operação começou a ser definido. É preciso ainda notar que foi a diplomacia conjunta de Portugal, Espanha e Itália que acabou por determinar a estrutura final do Trident Juncture e a sua localização na bacia mediterrânica.

    A participação no terreno é ambiciosa, de acordo com um comunicado do governo, de 2 de Julho, onde se afirma que “além dos militares que participam diretamente no exercício (940 integrados na Força de Reação da NATO 2016 e 2220 nos meios complementares), Portugal disponibilizará ainda mais 3000 militares que funcionarão como forças de apoio, totalizando em cerca de 6000 os efetivos portugueses envolvidos neste exercício. Em Portugal, o exercício (…) mobilizará mais de 10 mil efetivos de 14 países participantes.”

    As operações aéreas concentrar-se-ão em Itália e as terrestres em Espanha. Em Portugal[ref]Para uma ideia das actividades em Portugal, ver: goo.gl/NMJ9xu[/ref] decorrerá maioritariamente a componente marítima. Com bases em Santa Margarida/Tancos/Alter do Chão, Pinheiro da Cruz/Tróia, Base Aérea n.º 11 de Beja e o porto de Setúbal como placa fundamental. De acordo com o Correio da Manhã[ref]goo.gl/dTqy2P[/ref], o “exercício inclui ainda três dias compostos por cerimónias que contam com a presença de vários visitantes. O primeiro dos quais terá lugar em Itália, a 19 de outubro, e o segundo a 04 de novembro, em Espanha. Portugal receberá o dia dos visitantes ilustres a 05 de novembro, que juntará chefes militares da NATO e chefes militares portugueses”.

    Um empenho impressionante que não se esgota em jogos de guerra. Antes se estende para o tabuleiro dos negócios, promovendo um fórum onde empresas que lucram com a guerra podem apresentar as suas novidades e discutir formas de criar novos nichos de mercado para as suas novas ferramentas repressivas. Fórum[ref]goo.gl/LlQ4R2[/ref] que decorrerá no Hotel Pestana Palace, em Lisboa, nos dias 19 e 20 de Outubro.

     

    Resistência

    laguerraempiezaquiAs manobras Trident Juncture 2015 são o reflexo das prioridades do mundo rico. E não podem deixar de ser contestadas por quem pugna por um planeta de paz. Nesse sentido, as movimentações da Nato não passarão sem contestação. Um documento[ref]goo.gl/LlQ4R2[/ref] conjunto da Alternativa Antimilitarista.MOC e da Rede Antimilitarista y Noviolenta de Andalucía, convida a acções descentralizadas e promete desobediência civil para Barbate, de 30 de Outubro a 3 de Novembro (em frente ao Campo de Treino Anfíbio da Serra do Retín), e actos de protesto para Saragoça de 3 a 6 de Novembro (“o Campo de San Gregorio será de novo o protagonista da barbárie militarista”). Também em Itália há um mês de protestos contra a Nato e um apelo[ref]goo.gl/v4SqL0[/ref] a uma coordenação internacional de acções.

    Em Portugal, apesar de toda a importância que a estrutura militar e política lhes dá, as manobras da Nato não despertaram mobilizações visíveis. Apenas o Conselho Português para a Paz e Cooperação tem feito algum trabalho de oposição, tornando público um documento onde expressa o seu “mais expressivo repúdio” pelas Trident Juncture 2015, organizando debates e recolhendo assinaturas num abaixo assinado onde se exige a “dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva, com vista à criação de uma nova ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos”.

     

     

  • O que se passa no mar Egeu? Olhar a brutalidade da Europa a partir das ilhas gregas

    O que se passa no mar Egeu? Olhar a brutalidade da Europa a partir das ilhas gregas

    mar_egeuNo dia 19 de Agosto viajámos da ilha de Icária para Atenas. O barco que tomámos partiu das ilhas norte do mar Egeu, parou na ilha de Samos, e de seguida em Icária. Quando entrámos no barco percebemos que centenas de refugiados sírios e iraquianos ali estavam a caminho de Atenas. Falámos com alguns jovens sírios, dois deles fluentes em inglês. Os relatos das travessias da costa turca para as ilhas gregas são assustadores. As pessoas com quem falámos pagaram 1000 dólares pela travessia da costa turca para a ilha de Samos – um estreito de 5 Km – num bote atulhado com 40 pessoas. Vários fizeram várias tentativas. Ahmet contou-nos que nas suas duas primeiras viagens foram intercetados por um barco de guerra não identificado (referido por eles como “comandos”), que foram atacados por militares com máscara e que falavam alemão, e que lhes furaram o motor e o casco do bote deixando-os ao largo e à morte. Foram resgatados as duas vezes pela polícia turca. Dizia também que são comuns os roubos, que esses mesmos militares sacam com desfaçatez os telemóveis, iphones, e maços de dólares a quem vai nos botes.

    No porto de Icária, conhecemos um professor universitário turco que dá aulas em Ancara. Contou-nos que visitou seus pais em Bodrum, na costa mediterrânica. Que do alto da colina onde seus pais têm casa e donde se avista o porto e o mar, são correntes os bandos abundantes de aves marinhas fazendo círculos em alto mar. Em Bodrum todos sabem o que as aves comportando-se assim significam – mais o afundamento de um bote. Os tais botes de 40 pessoas, 1000 dólares a cabeça. Mulheres com miúdos ao colo. Tudo mar adentro a chorar e até sempre. Viva a Europa!

    Nesse dia 19 tomámos contacto com uma realidade que começava a ser noticiada intensamente nos telejornais e imprensa. Pudemos assistir na semana seguinte, já em Lisboa, ao avanço dia a dia entre fronteiras que nos tinha sido descrito com pormenor pelos sírios: Porto de Pireu, norte da Grécia, Macedónia, Sérvia, Hungria, Áustria e Alemanha. Alguns deles queriam seguir para a Bélgica. Duas semanas depois, a foto de uma criança afogada a levar com ondas no areal e de seguida a ser recolhida pela polícia turca espanta o mundo. Era na costa de Bodrum de que nos falava o professor de Ancara. O que surpreende na produção de notícia é não existir qualquer interrogação sobre as causas materiais de tantos naufrágios num mar que, nesta altura do ano, é um espelho de água, sem ondas e vento. Entre Bodrum e Kos, para onde se dirigia o barco, não há sequer 5 Km de mar.

    frontexCom estes relatos, decidimos interpelar os deputados portugueses no parlamento europeu do BE e do PCP em busca de mais informação e de um eventual pedido de esclarecimento à Comissão Europeia. Respondeu-nos pelo PCP, Inês Zuber, explicando que em Junho passado foi aprovada uma operação militar contra as travessias do mediterrâneo por migrantes, através de uma missão da EUNAVFOR MED, por decisão da Comissão Europeia e do Conselho Europeu. Refere ainda que têm proposto cortes na dotação orçamental da UE2016 para a operação FRONTEX, de controlo das fronteiras externas da UE com “cariz policial e repressivo.” Fomos pesquisar. A 22 de Junho foi anunciada pelos serviços do Conselho Europeu a criação da EUNAVFOR MED[ref]www.consilium.europa.eu/pt/press/press-releases/2015/06/22-fac-naval-operation/[/ref]: “O Conselho lançou hoje a operação naval da UE contra passadores e traficantes de seres humanos no Mediterrâneo. A sua missão é identificar, capturar e destruir navios e bens utilizados, ou sob suspeita de serem utilizados por passadores ou traficantes de migrantes.” Logo de seguida, o texto cita a Alta Representante para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Federica Mogherini: “A UE nunca levou tão a sério como agora a questão das migrações. Com esta operação, estamos a atacar o modelo de negócio daqueles que beneficiam da miséria dos migrantes.” Temos assim as instituições europeias e seus altos representantes a determinar que os problemas de imigração se resolvem atacando os passadores e as máfias de transporte, numa fantástica inversão: não são os milhões de refugiados e migrantes e as fronteiras fechadas que geram economias de passagem, mas são estes interesses que geram a oportunidade de salto[ref]Sobre a equiparação entre passadores de migrantes e tráfico humano: www.middleeasteye.net/node/44345[/ref]. Não foi com inversões deste calibre que os racismos europeus discursaram durante um século, nomeadamente o nazi?

    Na torrente de reportagens que acompanham a crise dos refugiados, ouvimos que os pagamentos para entrada ilegal na Europa desceram a pique nos dias em que a Alemanha manteve as fronteiras abertas. A segunda interrogação que salta à vista é como pensa a EU atacar as redes de transportes sem atacar migrantes. O observatório Statewach[ref]www.statewatch.org/eu-med-crisis.htm[/ref] disponibiliza um dossier imenso em permanente atualização sobre a “EU refugee crisis”, onde revela um documento da Comissão Europeia, no qual se admite «o alto risco de danos colaterais incluindo a perda de vidas» de uma operação que contará com «amplos meios marítimos, de terra e ar», incluindo unidades de forças especiais. Inês Zuber relata que, numa visita aos centros de acolhimento de Pozzallo e Lampedusa (Itália) onde falou com pessoas detidas, bem como com organizações de apoio aos migrantes, foi-lhe dito que muitas vezes os barcos que transportam os migrantes não levam qualquer traficante, uma vez que são os próprios migrantes obrigados a pilotar os barcos. E, ainda, que em várias situações, migrantes e refugiados, muitas vezes perseguidos políticos, são submetidos, de forma abusiva, a constantes interrogatórios[ref]www.avante.pt/pt/2172/europa/136344/[/ref][ref]www.europarl.europa.eu[/ref]. No passado dia 14 de Setembro, a EUNAVFOR MED entrou na sua segunda fase que possibilita que “a operação naval da UE contra os passadores e traficantes de seres humanos no Mediterrâneo proceda à subida a bordo, busca, confisco e desvio em alto mar de navios suspeitos de serem utilizados na introdução clandestina de migrantes.”[ref]www.consilium.europa.eu[/ref] O uso repetido da palavra “suspeitos” nos textos oficiais parece evidenciar o carácter meta-legal destas missões militares.

    frontex2Para abrir o quadro é necessário olhar para a Agenda Europeia para a Migração 2015 apresentada em Maio de 2015, onde se prevê, em suma, a multiplicação de fundos para operações militares e policiais, como o programa FRONTEX (onde se inclui a operação Tritão), o reforço da cooperação de instituições policiais, como o Eurojust e a Interpol, com a política de asilo da UE, de forma a facilitar a identificação de migrantes e os processos de repatriamento, e o prosseguimento de uma política de seleção de força de trabalho qualificada de acordo com as necessidades das empresas da UE. Em nenhum lugar se concebe ali a criação de canais seguros para acolhimento de pessoas que se dirijam à Europa em condições precárias e procurem, por exemplo, agrupamento familiar. A UE considera, enquanto tranquila banalidade, que o movimento de pessoas através das fronteiras do espaço Schengen é uma questão policial, de solução repressiva, e uma questão de mercado. Bastará escutar as declarações “chocadas” do Alto Comissário para os Refugiados da ONU para acedermos rapidamente ao essencial da política europeia para a migração.

    Voltemos às ilhas gregas. Que pensar do relato de “comandos” de cara tapada a atacar botes cheios de pessoas, deixando-as à deriva e à morte, e que falam alemão? Quem é esta gente? A plataforma Watch the Med, a trabalhar desde 2012, tem monitorizado e mapeado on line as mortes e violações dos direitos dos emigrantes nas fronteiras marítimas da UE no mediterrâneo. O seu objetivo é documentar a violência no mar “enquanto resultado estrutural da militarização da fronteira sul europeia”[ref]www.watchthemed.net[/ref]. Têm como atividade principal um centro de informação que recolhe, a partir de um número de telefone, pedidos de auxílio no mar, seja naufrágio, ataques ou desvio ilegais para o país de partida (pushbacks). Esta organização identificou cerca de 20 situações semelhantes à que nos foi relatada pelos Sírios e na mesma área (ilhas gregas-Turquia)[ref]http://watchthemed.net[/ref][ref]www.watchthemed.net[/ref]. O modus operandi é o mesmo: unidades especiais armadas e de cara tapada; danificação do motor e perfuração do casco; abandono das pessoas à deriva. A informação recolhida aponta para ações da guarda costeira grega, em colaboração com elementos e embarcações do FRONTEX. Pelo que podemos ler, estas práticas são usuais na fronteira marítima entre a Grécia e Turquia, abrandaram a partir de Janeiro de 2015 com a eleição do governo Syriza, e estão a recrudescer desde Julho passado. É necessário notar que no geral os refugiados estão ser a bem recebidos na Grécia, já foram fretados vários ferries para o transporte massivo para Atenas e os Sírios que conhecemos traziam um salvo-conduto de dois meses para atravessar o país.

    sw-kopp-frontex1Em Samos conhecemos duas irmãs jovens de uma família que resistiu com armas à ocupação nazi da ilha. Perguntámos a Izmin como estava a situação dos refugiados em Lesbos, onde vive. Contou-nos que todos os dias várias centenas desembarcam na ilha e que a ideia mais forte que lhe ocorre é que eles, os gregos, poderão ser os próximos a meter-se em botes a caminho de algum lugar. O mediterrâneo já foi um território, diz Fernand Braudel, que agora é atravessado por uma fronteira que o atravessa de nascente a poente e que, contra todos os esforços da UE para a fixar no meio do mar, parece estar a deslocar-se para latitudes mais a norte: os migrantes querem chegar à Alemanha e ao norte e estão pouco interessados nos países do sul da Europa empobrecidos sob austeridade. Essa fronteira da morte exangue e invisível no meio do mar, que dispensa arame farpado e tropa de choque, chegou a terra e está a fixar-se na Europa central. “Como habitualmente, o traçar de fronteiras será mais difícil para o historiador que para o geógrafo. «Europa é uma noção confusa», escreveu já Henri Hauser. É um mundo duplo, se não mesmo triplo, formado por seres e espaços diversamente trabalhados pela história. E o Mediterrâneo, que influencia fortemente o Sul do continente, contrariou bastante a unidade da Europa, que procurou atrair para a sua esfera de influência, provocando movimentos de diversão que lhe fossem favoráveis.”[ref] Fernand Braudel, O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo, vol. I, Dom Quixote, 1995 [1979], pp. 213.[/ref] Contra uma Europa brutal, um mar território.

     

     

  • Frackampada:  Fracking? Nem aqui, nem em nenhum lugar!

    Frackampada: Fracking? Nem aqui, nem em nenhum lugar!

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    A Frackampada foi um acampamento, não só contra o Fracking (Fratura Hidráulica – tecnologia de extração de gás natural por perfuração e injeção de líquidos com graves consequências ambientais) mas também a favor de uma organização social horizontal da luta anti-capitalista, anti homofóbica e contra a globalização desumana e destruidora.

     

     

    Um acampamento onde se procurou estabelecer as bases de um movimento de raiz popular, organizado de baixo para cima, contra as petrolíferas. O jornal Mapa esteve lá. Participou no levantar do campo, colaborou em algumas tarefas, workshops, debates e secções de informação sobre resistência e lutas populares contra o Fracking e pela defesa do território físico e cultural. Participámos numa união de lutas e esforços, que só poderá funcionar com apoio mútuo e onde a participação individual é um complemento e não uma forma de egoísmo.

    frackanpada6O acampamento aconteceu em Subijana de Alava, no município de Vitória-Gasteiz, no País Basco. Esta pequena comunidade que vive da terra é também o sítio previsto para a introdução da técnica de fraturação hidráulica na região. Foi junto ao local onde planeiam abrir o primeiro poço que se levantou a Frackampada, com o objetivo de juntar pessoas de todo o mundo contra o Fracking e ao mesmo tempo mostrar às petrolíferas que não vai ser fácil invadir a vida desta comunidade e região,   destruir bens comuns como a água, o ar e os ecossistemas locais.

    Foi o primeiro encontro internacional anti-fracking na península ibérica. Organizado pelo movimento basco “Fracking Ez”, realizou-se entre 13 e 19 do passado mês de Julho com o apoio de habitantes locais que emprestaram as terras, mas também de muitas outras pessoas, grupos e ONG’s internacionais. Durante esse tempo recebeu centenas de pessoas que estiveram 7 dias acampadas, a que se somaram mais umas centenas que por lá passaram, entre interessados, preocupados e representantes de grupos que apoiaram e participaram no evento. Entre outros, estiveram presentes ativistas de Portugal, Espanha e zonas autónomas, assim como da Argélia, França (um grupo em concreto era da Bretanha), Brasil, Alemanha, Irlanda, Reino Unido, Holanda, Roménia, Ucrânia, Curdistão e Argentina.

    frackingEZdemoNo passado o movimento “Fracking EZ” tinha já conseguido que o governo Basco banisse o Fracking naquela zona autónoma, depois de uma campanha que durou 2 anos, onde se distribuiu informação às populações, se formaram grupos locais e se realizaram assembleias nas várias localidades. A campanha contou ainda com muita pressão política, assinaturas e manifestações. Como diz Mikel Otero do grupo “Fracking EZ”: “O que temos no país Basco é melhor que simplesmente banir o fracking, nenhum tipo de fraturação hidráulica pode seguir em frente devido a 3 leis – um triplo filtro – passadas no parlamento Basco que tornam o fracking impossível.”

    Com a vontade e a união popular a que assistimos enquanto estivemos na Frackampada e uns dias que passámos na cidade de Vitória-Gasteiz acreditamos que a resistência vai ser muita. À entrada do acampamento fomos informados da diversidade de eventos, e rapidamente nos apercebemos que não se iria falar só da luta anti-fracking, mas também ouvir, partilhar ideias e conhecimentos sobre outras lutas e temáticas, todas elas interligadas. Falou-se então contra a extração de hidrocarbonetos através de técnicas não-convencionais, mas também de racismo, capitalismo, ocupação de terras por grandes projetos de “desenvolvimento”, feminismo, arte de intervenção, geopolítica local e mundial e, principalmente, de assembleias e resistência popular.

    Sintomaticamente, o evento foi inaugurado com uma dança folk Basca. Na verdade a cultura e força bascas foram uma constante durante o evento, revelando a vitalidade de um socialismo que é de base, construído de baixo, nos bairros, nas assembleias populares e não ordenado de cima, nas assembleias nacionais. Foi dessa força que ouvimos falar durante a primeira apresentação, no dia de abertura, onde os bascos falaram de uma luta popular de defesa pela terra que dura há 40 anos, contra inúmeros projetos ligados ao setor energético, como a introdução de linhas de Alta Tensão, as centrais nucleares ou projetos petrolíferos. Ouvimos falar também de outros projetos como autoestradas, o comboio de alta velocidade (TAV) e infraestruturas turísticas de luxo. A noite acabaria com uma peça de teatro com mensagem “primitivista”, aproveitando a paisagem natural e o espaço artificial da Frackampada.

    frackanpada2Já no segundo dia uma das apresentações foi organizada por grupos do Reino Unido. Todos os grupos representados eram de cariz popular e local e ouvimos falar de ocupações de terrenos onde estão planeados poços, cortes de estradas e reclamações de espaços públicos. No Reino Unido, graças a vitórias populares em várias votações ao nível autárquico, o Fracking já é proibido em alguns locais, mas existem planos para aumentar o número de locais a perfurar. No mesmo dia falaram também membros de grupos anti-fracking vindos da Argélia e da Roménia. Na Argélia, país onde a mobilização contra esta técnica tem crescido muito nos últimos meses, as ações de resistência popular são praticamente diárias. Este é um dos países fornecedores de gás natural para Portugal, onde a Partex Oil and Gas (empresa cujo capital é controlado pela Fundação Calouste Gulbenkian) participa em explorações petrolíferas. Por sua vez Maria Olteanu da Roménia salientou o aumento do número de pessoas que estão contra o Fracking na sequência da repressão exercida pelo exército sobre o movimento de oposição ao Fracking do país.

    Por sua vez, Ercan Ayboga, do Curdistão, apresentou, o problema da barragem Ilisu Dam, no rio Tigre. Desde que foi lançado pelo governo Turco, há mais de uma década, este projeto tornou-se um dos investimentos hidroelétricos mais controversos  a nível mundial. A sua escala e impacto, desastrosos não só a nível ambiental mas no imediato também a nível cultural e social – o projeto exige a deslocação de mais de 70000 indivíduos e implicará a submersão de uma cidade habitada há 10000 anos – ameaçam tornar-se em mais um foco de dor e violência, numa região já envolta em tragédia. Como este explicou, a barragem de Ilisu é, para a Turquia “um investimento estratégico contra os curdos locais e o Iraque na guerra para a hegemonia[ref] Supremacia de um povo sobre outros, ou seja através da introdução de sua cultura ou por meios militares.[/ref] daquela região”. A par desta problemática Ercan também deu a conhecer as investidas de petrolíferas na Turquia e no Curdistão, bem como as iniciativas de resistência das populações locais, já com alguns anos de experiência e luta contra projetos de investimento destrutivos.

    frackanpada3Ainda no mesmo dia, o grupo feminista Eje de Precariedade y Economia feminista fez-nos refletir sobre o papel do feminismo nas lutas sociais e ecológicas. A noite começou com um documentário sobre militância e horizontalidade no Pais Basco, seguido do documentário “Alfaltar Bolivia” sobre o super projeto de pavimentação de estradas, que devastará território indígena habitado. No dia seguinte ativistas da América do Sul falaram do dilema das indústrias de extração na América Latina, onde foi salientada a entrega das explorações de minerais, combustíveis, madeira e soja a multinacionais estran    geiras, tanto por governos de direita como de esquerda no poder. De forma a combater e oferecer uma alternativa a este sistema, comunidades indígenas e movimentos sociais apresentam propostas em assembleias populares e governativas, para uma transição do atual modelo “extractivista” para outros baseados na produção própria promovendo o desenvolvimento assente na sustentabilidade local e global.

    Esta linha de pensamento e ação foi reforçada com os exemplos apresentados por Unai Aranguren do projeto para a soberania alimentar da Via Campesina que dura há 20 anos. Cecília Santiago[ref]Psicóloga e activista de Chiapas[/ref] trouxe para cima da mesa a discussão sobre a resistência indígena em Chiapas iniciada em 1994. Na Europa as “lutas” são, na sua maior parte e de há algum tempo a esta parte, democráticas e civilizadas, ou dito de outra forma, “luta-se” muito em gabinetes e pouco nas ruas, bairros. O povo europeu prepara-se para, agora, enfrentar muitos dos mesmos problemas que comunidades indígenas espalhadas pelo mundo têm enfrentado no seu combate contra as petrolíferas. Não só os poços de gás e petróleo vão ser um problema para os europeus como também o serão todas as infraestruturas de apoio ao comércio de hidrocarbonetos. Foi isso que foi transmitido por Monica Guiteras da Network for Energy Sovereignty e Alfonso Péres do Global Debt Observatory que informaram sobre a construção de gasodutos dentro e fora da Europa para manter a estabilidade energética e económica da União Europeia. Já de noite foi apresentada uma nova peça de teatro, para desanuviar, sobre o tema do acesso à terra e a situação da mulher nesse papel primário e a importância da agro-ecologia na construção de um futuro sustentável.

    fracking_2043617cO dia seguinte começou com uma palestra sobre o Tratado Transatlântico (TTIP), descrito como “O capital cai forte sobre as pessoas em favor dos interesses das elites e corporações.” O TTIP é um acordo comercial internacional que está a ser negociado secretamente – as negociações são reconhecidas mas o conteúdo está a ser mantido secreto – entre os EUA, Canadá e União Europeia, de vastíssimo alcance que visa condicionar a já de si condicionada acção dos Estados e dos seus cidadãos na defesa dos seus direitos, favorecendo decididamente a posição de poder das grandes corporações, derrubando de uma penada disposições legais e direitos que possam cercear a sua acção em todos os países signatários. Este tema já foi abordado num número anterior do Mapa.

    Ficamos depois a conhecer o caso de Askapena[ref]Grupo de luta pela independência. [/ref], organização internacional de solidariedade basca que corre o perigo de ser ilegalizada e os muros humanos ( Herri Harresiak), iniciativa que visa apoiar ativistas procurados, na luta dos pelos seus direitos civis e políticos. Em seguida falou Giulio, da Permanente Assembly of Comahue for Water, APCA, acerca dos problemas das comunidades indígenas Mapuches na Patagónia, Argentina, concretamente em Allen (rio Negro), e na comunidade Winkul gelay Ko newen (Neuquén). A conversa foi seguida de um workshop sobre plantas medicinais. Depois assistiu-se a um debate sobre o problema da imigração. Eduardo Romero, do movimento State Campain to close CIE, falou sobre os “raides” racistas contra eimigrantes e descreveu as condições e finalidade dos Centros de Detenção e Deportação na Europa, abordando em particular o contexto repressivo da política de imigração espanhola. Nesse contexto ficamos ainda a conhecer o contrato do Estado Espanhol, de dezenas de milhares de euros, com a Air Europa e a Swift Air para fretar cerca de 150 voos, com vista à expulsão de imigrantes. Num outro âmbito – ainda que sempre interligado – e como não podia deixar de ser, uma das soluções para um futuro sustentável foi apresentada por David Gonzales da Iraun permaculture, que veio explicar o que é a permacultura. Foi seguido por Canor Walsh do Real Junk food Project, que falou sobre as 100 milhões de toneladas de comida que são deitadas para o lixo na U.E. todos os anos.

    Depois de jantar descontraímos com a musica folk basca na voz de Amaia Zubiria e com o som de guitarra de Edorto Murua, seguida de uma hilariante e provocadora peça de teatro sobre o erotismo visto com um olhar reciclado, resgatando a ideia de que o prazer não é dado ou adquirido mas está em nós.

    A reta final do acampamento foi iniciada com uma mesa redonda moderada pelo socialista internacionalista Oihane Garcia com o tema Governos de esquerda: alternativa? Aprender com a América Latina a lutar no nosso quintal. Em sequência teve lugar uma discussão sobre Autonomia Comunal associada a uma crítica radical do capitalismo. Apresentado pelo coletivo Euskal Herrian Autonomia Komunala, debateu-se um modelo de resistência, baseado no apoio mútuo, contraposto ao modelo de mercado atual, assente numa forma de poder popular descentralizado e autónomo, a que chamam “autonomia comunal”.

    No decorrer do acampamento as crianças não foram esquecidas. Além de espaços criados para elas, o grupo Plisti-Plasta veio falar sobre educação inserida no meio ambiente. Falou-se então dos benefícios da educação ao ar livre, do seu e de outros projetos de escolas livres e do impacto da educação na sociedade e o lugar dos educadores e professores.

    Como não podia faltar, representantes do grupo Forum contra Gorona[ref]Central Nuclear com 40 anos[/ref] e da cooperativa de produção de energia de fontes renováveis Goiener lembraram o problema da energia nuclear, ainda ativa em Espanha. Falou-se em particular da central nuclear de Gorona, ativa há 40 anos assim como de várias outras e de como estas centrais representam uma ameaça direta à vida de milhões de pessoas e de longo prazo para o ecossistema, não só de Espanha, mas também português, nomeadamente através do potencial para a contaminação de cursos fluviais, entre os quais alguns ligados ao rio Tejo.

    O antepenúltimo dia começou com um workshop de construção de casas nas árvores, escadas de corda e alpinismo. Como explicou Martin Shaw, vindo de Can Masdeu, Barcelona: “gosto de coisas práticas, e em ocupações de espaços, no dia-a-dia, na construção de brincadeiras para as crianças, é necessário trabalhar com cordas. Venho a encontros para ensinar e aprender”.

    Também não podia faltar um workshop sobre tecnologia livre e hacktivism, movimento onde a figura do Hacker surge ao mesmo tempo como um gerador de soluções, promovendo a autonomia e criador de ferramentas, de uma perspectiva activista. Entre outras coisas, apresentaram-se ideias para a criação de meios de comunicação própria e foram construídos pequenos paneis solares, no Workshop dinamizado por uma autodidata do Reino Unido, que ensinava a fazer um painel solar de 12V totalmente D.I.Y (“Do it yourself“ ou em português: Faz tu próprio).

    Durante todo o acampamento, além do restaurante “oficial” do acampamento, foi criada uma cozinha alternativa para quem quisesse cozinhar por si. Tivemos a sorte de poder cozinhar almoço e jantar num fogão e forno solar, disponibilizados pela Taer Solar, a mesma equipa que durante o encontro alimentou vários espaços de forma inteiramente sustentável apenas com recurso a energia solar e gerada por bicicletas. Em representação desta organização, foi Luiz Pérez que, com a ajuda de várias crianças fez simbolicamente “explodir” um poço de petróleo (de cartão) usando apenas lupas e luz solar.

    Sobre esse episódio e a contribuição da organização para o evento, falando da importância da energia solar, da união da população e na importância da educação ecológica dos mais novos, afirmou que “isto é a prova de que se educarmos as gerações futuras, e se nos unirmos podemos parar a indústria do petróleo”.

    Nessa noite fomos brindadofrackanpadas com uma banda mítica basca, os Zea Mays[ref]Banda que fez a musica do vídeo sobre a okupa  Kukutza, de Bilbao. [/ref]. No sábado o dia começou com a marcha contra o Fracking, de 15 km, até à cidade, onde um grupo de hip hop de intervenção marcou o ritmo. De volta ao acampamento houve tempo para jogos e danças tradicionais, dirigido pelo grupo Irrien Lagunak. A noite acabou com festa ao som das Las Tea Party. No domingo e último dia, o acampamento recebeu uma feira de produtos biológicos e alternativos, na qual participaram alguns dos agricultores biológicos que abasteceram a Cozinha de Guerrilha que cozinhou para a Frackampada.

    Todos os dias de manhã e ao fim do dia houve um plenário onde todos podiam participar. Para muitos terá sido um primeiro contacto com a democracia direta, com o sentido de comunidade e participação. Destes plenários frequentemente ficou a pergunta, “Será que saberás viver em Liberdade?”[ref]Focolitus, banda portuguesa[/ref].

    Nos sete dias de ações, vimos muito, conhecemos ativistas em nome próprio, representantes de grupos de pressão política, de ação direta, ativistas locais, representantes de assembleias populares, funcionários de ONG’s internacionais e alguns vendedores de soluções, logótipos e impérios verdes. Só o futuro dirá que semente deixou a Frackampada, em cada um dos participantes, nos movimentos locais, nacionais ou internacionais que nela participaram ou que por esta sejam afetados.

    A verdade é que vários caminhos podem ser escolhidos depois da participação num encontro como este. Muitos completam-se, alguns possivelmente anulam-se, mas fica a certeza de que só com participação e mobilização popular, local, regional e internacional, só com solidariedade e entreajuda, espírito de iniciativa, dedicação e desobediência poderemos vencer as batalhas que se avizinham.

    Muito mais havia para dizer sobre este encontro no qual teremos assistido a cerca de um terço das atividades e ações, mas aqui fica um registo possível deste encontro rico, no seu espírito, nas suas contribuições e intervenientes. Para que a semente que foi a Frackampada possa chegar a outros que não puderam estar presentes e nela participar.

    Nessa ótica deixamos o repto. Informa-te sobre o Fracking e sobre as outras temáticas abordadas. Conhece a resistência que se faz pelo mundo. Conhece e entra em contacto com alguém que, como tu, está disposto a trabalhar para que o Fracking pare em todo o lado, disposto a contribuir e lutar por um mundo mais justo, melhor a todos os níveis. Participa.

     

     

  • En Todas as Mans. Baldios e Montes Vizinhais: um futuro em mão comum

    En Todas as Mans. Baldios e Montes Vizinhais: um futuro em mão comum

    en_todas_las_mans“En Todas as Mans“ é o documentário de Diana Toucedo que em Maio estreou na Galiza e estreará em Julho em Portugal. Em português, “Em todas as mãos” leva-nos a redescobrir o conceito de bens de mão-comum; o mesmo que dizer “baldios” em Portugal ou “montes veciñais” na Galiza. Foi precisamente em terras galegas que nasceu a Trespés, a cooperativa produtora do documentário. Dela faz parte Alberte Román, com quem falámos acerca deste projecto, que pretende mostrar com olhos no futuro, uma realidade que é de todos os moradores de um lugar e ao mesmo tempo de ninguém em particular.

    Porque os baldios não são somente uma forma de titularidade comunitária. A sua existência imemorial desafiou desde sempre e sobretudo nos nossos dias, os pilares e pressupostos com que a história memoriada é elaborada, ou seja, as ideias de propriedade, lucro e do governo estatizado dos territórios. Propriedade e Estado em nada dizem respeito à natureza dos baldios. Esta concepção, é certo, não foi formulada à posteriori por qualquer corrente anarquista, mas surgiu à priori, enraizada nas gentes de um lugar, quando essas comunidades se forjavam numa concepção colectiva do território envolvente. Por via dessa forma ancestral de gestão directa poder-se-ia ainda hoje falar com esperança de outras possibilidades, que afinal sempre aí estiveram, como o governo directo desses povos e lugares. Não fosse o caso dessa idealização esbarrar rapidamente numa realidade social que, antes ainda de ter abandonado quaisquer sonhos utópicos e colectivos que possam ter sido ensaiados, se desligou do seu território. Mas não é desânimo o que Diana Toucedo filmou entre 2013 e 2014 em vários montes vizinhais galegos – Labrada, Lira, Covelo, Teis, Zobra, O Rosal, A Ramallosa – e nos Baldios da extinta freguesia do Vilarinho na Lousã. As possibilidades de ser-se titular de um lugar, sem ser proprietário ou tão- pouco herdeiro, surgem ao longo do documentário através de gentes preocupadas, aqui e agora, em cuidar directamente do seu território. Focadas em senti-lo e dele fazer parte e não numa mera possessão abstracta do mesmo.

     

    Baldios

    baldios_ptEm Portugal existirão perto de 1500 baldios na zona centro e norte e na Galiza cerca de 3000 montes vizinhais. Falar de montes na Galiza é falar de 23% do seu território, o que se traduz no envolvimento em torno de 150.000 comuneiros/compartes. Em 2013, existiam em Portugal 1441 unidades de baldios listadas pelo Ministério de Agricultura, Mar, Ambiente e Território, mas esse levantamento carece de maior detalhe. O último grande esforço de estatística resultara do final dos anos 30, aquando da investida do Estado Novo sobre os baldios. Este foi um momento chave de alterações no nosso território e sociedade e que viu a resistência dos povos serranos pelos baldios ser eternizada pela escrita de Aquilino Ribeiro em “Quando os Lobos Uivam” (1958).

    Actualmente é ainda esse retrato épico traçado por Aquilino, da resistência dos serranos à industrialização florestal, que perdura no imaginário dos baldios. Porém muito mudou entretanto e a relação com a floresta é hoje completamente distinta dessa dos lobos, que uivavam. Pelo que Alberte começa por nos dizer que a ideia do documentário partiu do “grande desconhecimento da realidade dos baldios na sociedade galega, e depois de conhecermos que em Portugal a realidade dos baldios estava na mesma situação.” Ao documentar esta realidade, desde a Lousã às falésias da costa da morte galega, não deixou de surpreender Alberte “o percurso quase igual que seguiram as duas realidades apesar de estarem de costas viradas. A expulsão das populações, a introdução de espécies florestais de crescimento rápido, são episódios comuns. De facto, nós falamos de dois territórios, uma realidade. Um dos alvos do documentário foi esse, visualizar uma realidade comum.”

    Na história dos baldios têm sido propostas quatro grandes etapas. Num primeiro momento, as comunidades faziam uso tradicional do baldio (pastagens, matos, lenha e floresta) auto-organizados enquanto compartes como forma de apoiar o sustento de cada família. Esse foi afinal o tempo longo do baldio, anterior ao advento e consolidação das sociedades capitalistas e industriais. Um segundo momento surgiria no confronto com essa centenária etapa, desde a transição das sociedades feudais até ao liberalismo no período de oitocentos (finais séc. XVIII e XIX), onde se dá a divisão e privatização de muitos baldios. Por fim, a partir dos anos 40/50 do século XX, com a tomada de posse pelo estado do monte comunitário, procurando extinguir o controlo colectivo e tradicional do território, por via da industrialização da paisagem e a sua submissão ao regime florestal estatal. Com a passagem à economia florestal de larga escala consolida-se uma mudança de paradigma na utilização dos baldios. Um comuneiro testemunha em “En Todas as Mans”: “fizeram-nos silvicultores”. Falamos aqui da transformação da sociedade ibérica, das mudanças ocorridas no mundo rural e nas economias locais, no que se generalizou apelidar de sociedades modernas e desenvolvidas, em que o interesse produtivista logo se reflectiu num maciço êxodo rural.

    Será já plenamente imersas nesse paradigma industrial da gestão florestal, que as populações retomarão num terceiro momento, com o fim dos regimes fascistas ibéricos, a posse dos baldios. Acrescenta Alberte, que com “a devolução às comunidades, no fim do Franquismo e do Salazarismo, começara uma nova etapa marcada por profundas transformações nas comunidades, em grande parte delas produzira-se uma passagem de uma sociedade rural a uma sociedade híbrida em muitos casos, mas já não directamente vinculada com actividades agrárias. Ao tempo, a usurpação introduziu de modo massivo as espécies florestais de crescimento rápido. O território ficou transformado. Então que aconteceu nestes territórios durante os últimos quarenta, trinta anos? O que está a acontecer agora?”.

    A resposta a essas perguntas é o fio condutor do documentário de Diana Toucedo, pelo que é de actualidade e não da história dos baldios que trata essencialmente o filme. Assistimos ao longo do mesmo à presença daquilo que foi proposto como um acentuado quarto momento da sua história, onde estes são território explorado (e sobretudo controlado) por outros que não os compartes. De encontro ao momento presente em que, em Portugal com a nova Lei dos Baldios, tal como em Espanha, é posta em marcha uma estratégia comum: o roubo dos Baldios. Perante tal, o documentário da Trespés não se coloca à margem da preocupação central aí expressa por um comparte: que “a vizinhança comuneira do séc. XXI não possa passar para a história por ser a única que não soube defender o seu território”.

     

    beiras_baldiosUma Economia dos Bens Comuns?

    A actual vitalidade dos baldios gira essencialmente em torno da economia da floresta. Os baldios assumiram o filão dos madeireiros como fonte de receitas principal, mas para além dessa visão industrial da floresta, outras valências são destacadas em “En Todas as Mans”, favorecendo outros modos de utilização da terra. É certo, diz-nos Alberte, que como “as comunidades receberam essas realidades marcadas pela exploração de espécies de crescimento rápido. Em muitas ocasiões, esse é o aproveitamento principal, mas uma das coisas que descobrimos é que outras visões estão mais presentes do que possamos crer, o gado, produções de frutos como a castanha, o mel”. Essa diversidade económica parece realmente estar na ordem do dia, o que não deixa porém de colocar os baldios perante um dilema, o de ora serem guiados por uma filosofia e economia que funcione de forma a perpetuar o “bem comum” (que são por definição), ora simplesmente pela ambição e a integração no contexto económico os rodeia, assente este no assédio constante e a submissão a grupos económicos, ou meramente à lógica economicista do quotidiano.

    Essa é talvez a névoa maior que se abate sobre as florestas comunais. No filme começa por surgir mágica e encantadora a névoa serrana – imagens de uma beleza diurna. Mais à frente é avassalada pela névoa de cinza e fumo dos incêndios que durante a noite iluminam, num rasto de destruição, as encostas por entre as quais corre um comparte galego, entre as chamas. Nas imagens seguintes, o seu olhar de desânimo sobre a madeira queimada, acalentará a discussão em assembleia sobre como gerir a floresta perante os fogos. Sugere-se cortar tudo antes que tudo arda. O mesmo comparte que corria entre o fogo vivo irrompe: mas afinal o que queremos? criar uma industria madeireira ou criar um monte que é beneficio de todos…

    É esse perpetuar do bem comum que o documentário vem frisar e defender. Exemplifica Alberte como encontraram “comunidades que começaram a introduzir espécies arbóreas de qualidade, como castanheiros, bétulas, carvalhos”, comunidades que “não são alheias aos debates gerados nas próprias sociedades. Muitas comunidades recebem a água que bebem do seu baldio, então há também uma preocupação pelos usos que podem ter um prejuízo na água. A questão da conservação, de proteger certas áreas, de fazer protecção das ribeiras e da vegetação das mesmas”.

    Pelo lado oposto temos o caso da indústria energética, contrário ao usufruto e bem comum. Melhor exemplo não há da ocupação abusiva dos espaços comunais, desde as barragens às torres eólicas. Em Portugal mais de 70% do Plano Nacional de Ação para as Energias Renováveis, está sustentado em áreas comunitárias. No documentário é abordada a questão da energia eólica, que se tem constituído como um recente filão de rendimentos dos baldios. “Na Galiza, e achamos que em Portugal também, o modelo energético foi desenvolvido pelas grandes corporações. Na Galiza, os parques eólicos foram percebidos como uma agressão, como uma imposição. Havia uma outra possibilidade, desenvolver parques comunitários, que ajudassem no desenvolvimento desses territórios. É claro porque não se fez uma aposta assim. O aproveitamento eólico não gera benefícios sobre os territórios, para além de deixar algumas valias. Aliás, não facilita o acesso à energia às populações locais. Na Galiza há zonas que têm perto instalações energéticas e têm um serviço de electricidade com graves problemas. Um despropósito.”

    Daí que para a Trespés “é central conseguir que sejam as comunidades que façam a gestão. Uma gestão que tem que ter como alvo deixar às gerações vindouras, um espaço de vida como o que as comunidades fizeram no tempo. Essa gestão tem que ter, não só um horizonte económico, senão também um horizonte social e sustentável. Há que avançar na melhoria da participação, em conseguir que as gerações mais novas participem. Esta é uma das grandes fragilidades. Mas, também há que dizer que nisto os baldios não são alheios às nossas sociedades, onde o individualismo e a baixa participação social estão presentes.”

     

    Com quantas árvores se faz uma floresta?

    Tal como uma árvore não faz uma floresta, meia dúzia de empenhados compartes num baldio não fazem uma comunidade. A participação surge sem dúvida como o ponto-chave neste filme. Falamos das formas possíveis de gestão dos baldios. Falávamos de uma realidade comum entre Galiza e o norte e centro de Portugal, mas Alberte distingue claramente “dois modelos, um onde as comunidades gerem directamente os baldios e um outro onde os baldios são geridos pela administração florestal. No documentário apostamos por fazer uma achega ao primeiro contexto. Aliás alguns dos Baldios onde estivemos, fizeram o processo de se desligar da administração, isto tanto no caso galego como no português. A conclusão que chegaram nas duas realidades era que o baldio estaria melhor gerido por eles próprios e não noutras mãos.” Isto é, a opção por uma gestão exclusiva dos compartes e não uma delegação da gestão nas Juntas de Freguesia e/ou em parceria entre a administração florestal do Estado, como é o caso da maioria dos baldios. Em ambos os casos acrescentaríamos ainda a incómoda constatação de que com a consequente burocracia e o poder deliberativo que possuem os conselhos directivos eleitos, são os mesmos permeáveis a interesses privados, jogos de poder e prepotência, originando casos graves de caciquismo e corrupção.

    Chegamos ao ponto decisivo de qualquer realidade comunitária. “No nosso entender, o que faz a diferença é a participação direta. Os baldios são estruturas que facilitam a participação directa das pessoas na gestão dos seus territórios. Não é só o interesse de uso das pessoas pelos recursos, senão decidirmos como queremos que sejam os territórios que habitamos. Qualquer um de nós pode trabalhar numa loja, mas sabe que tem um espaço onde participar na gestão do comum. Mas o assemblearismo também é difícil, é necessário, também, aprender a ouvir a directa os outros.”

    As recentes movimentações sociais em prol de “assemblearismos”, redescobertos nas praças e bairros, têm demonstrado “que estas formas de gestão comunitária estão longe de ser coisas do passado, são de plena actualidade.” Por outro lado, a própria separação dos âmbitos rural e urbano parece igualmente descabida no retrato que filmou Diana Toucedo. “Os baldios e os montes vizinhais não estão só vinculados a povos serranos. Na Galiza, a cidade de Vigo, uma das maiores da Galiza, tem uma cintura verde que são baldios. Para nós o destacável desta fase histórica dos baldios, é que a gestão esteja nas mãos dos habitantes desses lugares”. Por outro lado “é claro que as comunidades rurais não vivem isoladas, e o individualismo e a desestruturação social estão presentes. Como já indicamos as realidades dos baldios são múltiplas. Há espaços próximos das cidades e comunidades mais rurais. Que previvam estas estruturas é indicativo da presença de certos valores culturais do comum. A relação entre pessoas de idade, que ainda têm memória do baldio como espaço onde levar o gado e apanhar lenha, e os jovens pode ajudar na transmissão de certos valores do comum. Há que reivindicar o orgulho de ser comparte, de poder governar directamente o território. Para nós, os baldios fazem parte do património cultural como uma forma própria de gerir os nossos territórios.”

    montes_vecinaisAlberte acentua ainda o que considera ser uma questão central: “mudaram as sociedades e os contextos onde os baldios jogavam um espaço central. Desaparecidas essas sociedades os baldios têm que evoluir, eis a questão, para onde? Podem acabar desaparecendo, usurpados, engolidos pelo Estado e os interesses que estão à sua volta. Ou podem pesquisar caminhos próprios. Onde o determinante tem que ser que o usufruto e as valias, sejam económicas, sociais e ambientais, têm que beneficiar aos habitantes desses territórios. A questão da distância entre a posse comum e a sua gestão é um dos grandes debates. Pode um baldio, onde a sua população mudou do agrário ao industrial ou terciário, caminhar por outros trilhos? Na nossa ideia há um ponto inegociável, não ceder as terras a uma grande empresa. Por aí não, mas quando o baldio serve para que jovens possam pôr em marcha experiências de gado e que isso signifique travar a perda de população, achamos que o baldio joga um papel positivo para a comunidade”, neste caso referindo-se ao exemplo de arrendamentos para pequenas iniciativas individuais.

    Será pois possível responder a de que autonomia é possível falar para uma comunidade com Baldios? A névoa adensa-se, mas neste caso o desejável salto para o desconhecido tem algum chão firme. Alberte é no entanto pragmático na sua resposta: “pela natureza jurídica, estes espaços oferecem a oportunidade de trabalhar directamente na transformação das nossas realidades, longe dos tempos e das dinâmicas das instituições públicas. Uma comunidade com Baldios tem um espaço importante para gerir o próprio desenvolvimento da comunidade. As valias geradas repercutem-se directamente sobre as pessoas. As pessoas percebem os benefícios gerados nas nossas vidas e nas nossas comunidades.”

     

    roubo_baldiosO roubo dos baldios

    Nesse futuro dos baldios a Trespés acredita que entre galegos e portugueses “o dinamismo das experiências galegas pode ser de interesse para os baldios portugueses. E por sua vez, o reconhecimento legislativo do “comunitarismo” em Portugal pode ser uma referência para nós.” Na verdade os povos dos bens comuns enfrentam na península ibérica um ataque feroz do Estado, promotor de recentes alterações legislativas, que procuram equiparar os baldios a uma forma de propriedade pública e a uma figura empresarial, com vista ao desmembramento da sua essência comunitária oposta ao conceito de propriedade e lucro. Há, como esclarece em “En Todas as Mans“ um comparte, uma clara diferença entre o controlo do território e o controlo de uma conta bancária. Outro alerta-nos simplesmente que inscrever um baldio nas finanças é um gesto que o condena de morte.

    Para a produtora do filme, “na nossa ideia, os Estados percebem o “comunitário” como uma anomalia, num mundo que reparte a propriedade entre o Público (Estado) e o Privado. Em Portugal conseguiram introduzir o “comunitário” na própria Constituição. Mas a vaga neoliberal abriu uma nova batalha. Sobretudo ao entender os baldios como empresas, e isso supõe introduzir na sua gestão lógicas que não lhe são próprias. Na Galiza, a Lei Montoro [sobre os “bienes comunales”] não tem incidência directa sobre os montes vizinhais pois estes regem-se por outra norma. Os maiores perigos na Galiza vêm através de privatizar a gestão. A administração tinha a vontade de em 2016 passar à gestão de empresas os montes vizinhais que tivessem convénios com a administração e nessa data não tivessem pago as “supostas” dívidas com a administração. Com esta medida, milhares de hectares de montes vizinhais poderiam ficar em mãos privadas, não a titularidade, mas sim a gestão. Um negócio para a indústria dos biocombustíveis. A luta das organizações comunitárias conseguiu adiar esta data.” Além disso “na Galiza, a luta é conseguir que o marco jurídico reconheça a “titularidade comunitária” como uma forma de possuir a terra em igualdade com as outras formas, a propriedade pública e privada.”

    Assim se “na Galiza, as organizações que agrupam os montes vizinhais desenvolveram uma campanha de denúncia da intenção de usurpar as terras às comunidades rurais” essas vitórias “não supõem um status para as terras comunitárias que garanta que não se mantenham as ameaças. O que evidenciam é que as comunidades, ainda que debilitadas, têm capacidade de resistência e são capazes de reagir. No nosso entender, a realidade do comunitário tem que tecer estratégias com outros movimentos sociais, mesmo urbanos, com os quais têm muitos objectivos em comum. A realidade do que se deu em chamar Economia Social e Solidária é um espaço onde podem convergir com outros movimentos.”

     

     

    Nas nossas mãos

    Lançamos por fim o desafio a Alberte de escolher uma imagem de “En Todas as Mans“ de gente e um momento de natureza. “No momento Natureza, apesar de ser um momento muito duro, a questão do fogo num monte vizinhal. Transmite a ideia da fragilidade, de que o trabalho, os esforços, as ilusões de anos ficam cinza numa noite. No momento Gente, o plano da homenagem de uma comunidade a um dos seus compartes. As suas palavras recolhem o sentir mesmo do documentário: «que não se perca isto, que foi mui duro chegar aqui».

    http://www.entodasasmans.com/

     

     

  • O Direito fica à porta das prisões

    O Direito fica à porta das prisões

    direito_prisoesNo ano em que se celebram os 70 anos da libertação de Auschwitz, a questão do testemunho e da testemunha, a voz de quem não a tem (Gil, 2004), torna-se mais premente. Face à necessidade de uma nova ordem social, as vozes abafadas, estigmatizadas, reveladoras da velha ordem opressora devem passar a ser ouvidas. Com atenção e respeito.

    A verdade é que a situação dos prisioneiros, o seu encarceramento, a perda prática de direitos que lhes são garantidos constitucionalmente – a Constituição garante que apenas a restrição de liberdade ambulatória judicialmente decretada pode ser imposta aos reclusos – é a prisão da própria democracia nos limites de quem tenha interesse em não ouvir os gritos lancinantes que se lançam, sem chegarem a lado nenhum. Por exemplo, Fernanda Palma, professora catedrática de Direito Penal, denunciou a prática banalizada pelos Tribunais de Execução de Penas de imposição da interiorização da pena. A prática de reclamar não apenas a declaração formal de arrependimento mas também a manifestação de uma sinceridade capaz de convencer o juiz, como condição de flexibilização de penas (precárias, liberdades condicionais), é contra direito (Palma, 2015). Em Portugal, as penas efectivas de prisão são três vezes as da média europeia, superior a países onde se admite a pena de prisão perpétua. Pode dizer-se com propriedade: as prisões são administradas à margem do direito.

    O Observatório Europeu das Prisões reporta, a propósito das condições de encarceramento em oito países da Europa, incluindo Portugal, que em nenhum desses países são observadas, sequer parcialmente, as Regras Penitenciárias Europeias, com as quais todos os países se comprometeram ao aderir ao Conselho da Europa (Crétenot, 2014). Mais de quarenta associações europeias dirigiram ao Conselho da Europa uma petição denunciando o facto dos estados membros não respeitarem os seus compromissos para com a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, em particular no que toca ao respeito pela jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Actualmente, o Tribunal, em vez de julgar uma única vez a existência de um tipo de violações dos Direitos Humanos por parte dos estados, verifica ter de se ocupar recorrentemente com o mesmo tipo de casos. Os estados, em vez de colaborarem, como estão obrigados por terem subscrito as convenções e tratados internacionais dos direitos humanos, resistem a reformar as práticas institucionais condenadas (AAVV, 2015).

    Haja novos antros de extermínio na Europa, setenta anos depois, como são os casos de detenções secretas praticadas pela CIA, com a colaboração de muitos governos europeus; ou nas fronteiras mediterrânicas, onde se organizaram várias barragens para perseguir os imigrantes, com a colaboração dos estados do Norte de África, impondo mortes sem conta; ou nos centros de detenção para imigrantes indocumentados, tratados como criminosos, sobretudo em Espanha, Itália, Grécia e Bulgária; ou, ainda, nos asilos que recebem crianças e jovens e são incapazes de evitar, em muitos casos, a sua desinstitucionalização, levando-os ao desespero, ao encarceramento, à morte. Haja esses antros de extermínio e nem o activismo é suficiente para denunciar aquilo que as pessoas preferem acreditar que é impossível estar a acontecer. Num continente que diz ser defensor dos direitos humanos.

    Os esforços da ONU, através do Protocolo Adicional à Convenção da Tortura, que Portugal ratificou, prevê mecanismos nacionais, descentralizados, próximos dos locais onde a tortura pode ocorrer, como esquadras, prisões, quartéis. A luta contra as condições que facilitam a tortura precisa de quem as denuncie. De quem não se conforme com os maus tratos e humilhações e tenha algum apoio de quem possa e esteja capacitado para formular petição junto de organismos competentes, como as inspecções do ministério da justiça ou dos serviços prisionais, do Provedor de Justiça, do Ministério Público e, agora, da Entidade Nacional de Prevenção da Tortura, instituída pelo protocolo acima referido. A própria Entidade Nacional de Prevenção se inibe de usar no seu título a palavra tortura, ficando quem não saiba sem saber a que raio de prevenção se dedicará tal instituição.

    O testemunho de quem é humilhado ou mesmo torturado enfrenta um aparato de contrariedades, a começar na própria consciência do que sejam os seus direitos. Quatro quintos dos presos em Portugal, é uma estimativa mas não é irrealista, quando crianças e jovens, passaram por instituições de acolhimento incapazes de as socializar em liberdade. Incutiram neles a noção de obediência endémica e de resistência espontânea, como forma de sobrevivência, sem instâncias seguras de recurso. Aprendem a ser manipuladores, como se queixam funcionários das instituições sociais e prisionais. Aprendem a defender-se sozinhos, perante a indiferença geral e a hipocrisia das instituições e de tantos profissionais que justificam a sua existência (socialmente integrada) com a caridade que dedicam aos excluídos. As regras são pensadas para abafar os testemunhos de vida dos alvos do auxílio social. Além de serem mal tratada/os, as crianças e jovens devem estar agradecida/os. E ninguém lhes perdoa quando testemunham as misérias de que são vítimas. Estamos no mesmo limbo que permitiu (e permite) o alheamento social dos campos de concentração ou dos abusos sexuais de crianças.

    A estimativa mencionada foi-me oferecida por Carlos Gouveia1 – a quem dedico este texto – depois de ter sido alvo de um ataque cobarde de um grupo de assalto especial da guarda prisional, vindo a público em vídeo, no Público[ref]Ver http://www.publico.pt/multimedia/video/agressao-na-cadeia-de-p-de-ferreira-634340015213906250[/ref]. O inquérito interno dos serviços prisionais reconhece ser a história do recluso um exemplo do que está mal nos serviços sociais e prisionais do Estado. Institucionalizado praticamente sem interrupção desde os 4 anos de idade, enviado pelos serviços prisionais para Vale de Judeus com 17 anos, viu-se obrigado a matar para se defender do assédio de prisioneiros mais velhos. O mesmo inquérito também informa que foi a própria direcção dos serviços quem deu ordens para a equipe de torturadores avançar. Entretanto, numa decisão rara, um tribunal condenou dois dos guardas, entre os sete ou oito que lá estavam, mais um enfermeiro. Sem menção para as responsabilidades da direcção, da instituição ou dos colaboradores in loco das torturas.

     

    Terá havido tortura. Mas não é crime colaborar com ela!?!

    O CDS-PP apoiou a posição cobarde do director-geral que se escondeu da comunicação social, dizendo estar à espera do inquérito interno para saber o que se passara, sem admitir ser ele o responsável. O ministro da justiça lavou as mãos do assunto através de uma proibição do seu ministério voltar a usar as armas taser que tinha comprado às dezenas. Posição sem consequências na continuidade do director-geral, que ainda hoje se mantém em funções. Os comentadores, por seu lado, dividiram-se. Nenhum se atreveu a denunciar o que se passou como um crime de tortura. Muitos foram perentórios na sua condescendência de reconhecer as dificuldades da vida dos guardas prisionais. Não para pedir melhores condições de trabalho mas para justificar a tortura como ossos do ofício … dos guardas. Como se as vítimas não fossem gente.

    Tal como na Irlanda ocupada as mulheres abusadas pelos carcereiros ingleses usaram sangue menstrual para os intimidar e combater (O´Keefe, 2006), assim Carlos Gouveia[ref]Ver http://iscte.pt/~apad/ACED_juristas/carlos%20gouveia.html[/ref], na sua luta isolada e de uma vida pelo reconhecimento da sua dignidade humana, utilizou as suas fezes para dizer estar vivo e ser gente. Disse estar todo partidinho da porrada, mas que não pode vergar-se ou negar a sua própria existência. (E é possível, oh Ordem dos Médicos, que não se dê pelas mazelas da tortura?). Explicou-me um ex-prisioneiro, igualmente experiente como vítima de torturas, que, perante o isolamento social extremo numa prisão, provocar uma qualquer ligação social, nem que seja com abusadores, agressores, torturadores, pode ser necessário para romper com o isolamento. Álvaro Cunhal explica algo de semelhante quando se refere à sua longa passagem pelas prisões de Salazar. As torturas de pancadaria misturada com o impedimento de dormir, durante vários dias, são más. Mas o isolamento, sem contacto físico, é pior (Cunhal, 2008:89-90).

    É quem está socialmente isolado que volta à prisão. Como acontece à maioria dos prisioneiros (taxas de reincidência que não se conhecem, mas rondarão os 60%, sendo que 50% dos presos são filhos de pais que já estiveram presos). Há mesmo quem não queira sair da prisão, apesar dos maus tratos, por não ter como escapar (“Recluso em liberdade protesta à porta da cadeia,” 2015).

    A maior das incompreensões vai a par com a construção social dos isolamentos sociais estigmatizados. O jornal refere-se ao “recluso em liberdade”, sem se dar conta da contradição semântica radical. Que raio de liberdade será essa?

    Existem associações que se especializam em dar a cara e proteger o corpo de quem receia ser outra vez vítima dos abusadores, na esperança de que alguns testemunhos registem os crimes que se praticam impunemente em nome das instituições judiciais. Num caso de um casal espanhol preso em Portugal por um crime grave, recebemos a queixa de graves abusos sexuais e torturas. Notícias da cumplicidade com a acusação de um advogado contratado pela defesa, incluindo extorsão, completaram o cenário de isolamento dos prisioneiros. Abandono dos queixosos pelo ministério público, com a cumplicidade do advogado, quando a senhora tentou transmitir as experiências de tortura de que terá sido vítima. Pressões com origem nos serviços do tribunal de julgamento para inibir a acção de outro advogado de defesa que procurou minimizar, sem o conseguir, os efeitos dum julgamento sem direito a defesa. A decisão de condenação, embora ilegal, deixou a defesa exausta, descrente e incapaz de reacção.

    Transferidos os condenados para Madrid, surge um processo-crime contra a denúncia de tortura publicada por uma associação. Processo instruído pelo Ministério Público, desta vez muito atento aos grunhidos sem sentido, que acompanhou, dos dois polícias judiciários destacados para se fingirem ofendidos por denúncias de serem autores de tortura. Processo-crime sem outro préstimo que não fosse a intimidação da associação.

    António Pedro Dores

  • O que nos liga à Europa? Energia em tempos de crise social, ecológica e climática

    O que nos liga à Europa? Energia em tempos de crise social, ecológica e climática

    energia_pirineus_destNo passado dia 20 de Fevereiro, o primeiro-ministro francês Manuel Valls e o seu homólogo espanhol Mariano Rajoy inauguraram a linha de Muito Alta Tensão (MAT) na localidade de Montesquieu-des-Albères, nos Pirenéus Orientais, junto à fronteira com a Catalunha na província de Girona. Pouco dias depois, a 4 de Março, teve lugar em Madrid a cimeira tripartida Espanha-Portugal-França onde os chefes dos governos dos três países, incluindo Pedro Passos Coelho, apresentaram três novas interligações de MAT através dos Pirinéus e, como se não bastasse, defenderam que estas deveriam ser classificadas como Projetos de Interesse Comum (PIC).

     

    A linha agora inaugurada, com uma tensão de 400 kV, tem como objetivo aumentar o nível de interligação elétrica entre a Península Ibérica e França de 3 para 6%, de uma potência de 1400 para 2800 MW. Com tão baixo nível de interligação, a península é considerada uma ilha energética face ao resto da Europa. A linha atravessa os Pirinéus Orientais entre as localidades de Baixás, em França, e Sta. Logaia, na Catalunha, num traçado de 64.5 Km dos quais 8.5 se fazem através de um túnel subterrâneo por baixo da montanha. Admite dois regimes de tensão, transportando-se em corrente alternada numa parte do percurso e corrente contínua noutro troço. O projeto é da responsabilidade da gigante elétrica espanhola Red Electrica de Espanha (REE) e da Réseau de Transport d’Électricité (RTE), o operador francês da rede elétrica de Alta Tensão, organizadas na corporação INELFE (interconexão França Espanha) criada para o efeito.

    A prioridade dada às interligações elétricas foi aprovada no acordo sobre Clima e Energia do Conselho Europeu, em Outubro de 2014, em Bruxelas, após uma forte pressão do Ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Jorge Moreira da Silva. O objetivo é estabelecer, até 2020, um nível de interligação elétrica de 10% da capacidade instalada em cada país e 15% até 2030. Para esse objetivo contribuirão uma ligação marítima de 360 Km de cabo submarino através do Golfo da Biscaia para ligar Aquitânia, em França, e o País Basco com capacidade para uma potência de 2000 MW. Entre as novas linhas de 400 kV, conta-se também uma entre a localidade de Peñalba, em Huesca, e a localidade de Isona, em Lérida, que pretende ligar as subestações presentes nestas localidades e tenciona reaproveitar, numa parte do traçado, as velhas torres, nunca demolidas, do antigo projeto de interconexão com França chamado Aragón-Cazaril. A juntar a esta existe ainda a linha entre Navarra, no País Basco, e Bordéus no País Basco Francês, bem como a linha entre a localidade entre Sabiñánigo, na comuniddae autónoma de Aragão, e Marsillon, em França.

    Os PIC para a área da energia foram revelados em 2013 pela Comissão Europeia (CE) e contam com 5.85 mil M€ de investimento para cerca de 250 projetos em toda a Europa. O interesse pelas interligações é explicado à luz do processo de liberalização que atravessa o sector energético Europeu onde é essencial a existência de uma infraestrutura de suporte ao gigantesco mercado de compra e venda de eletricidade que se começa a delinear. Embora a liberalização permita, de certa maneira, a participação de pequenos produtores no mercado (como é o caso das cooperativas de produção elétrica) são os gigantes da eletricidade e os Estados, com especial participação nas empresas elétricas, que têm interesse numa autoestrada de transporte de eletricidade já que as linhas serão sempre sua propriedade. O mercado energético liberalizado, embora se torne mais flexível nas duas extremidades do processo, ou seja, na produção e na comercialização, continua a ser um monopólio assumido no transporte e na distribuição onde a operação da rede e gestão das linhas são adjudicadas pelo Estado às empresas. Em Portugal é a REN que opera a rede de Muito Alta Tensão e Alta Tensão e a EDP a operadora da distribuição em Baixa Tensão.

    Na prática a perspetiva de uma “Europa energética” coloca em marcha muitos outros projetos de linhas de MAT em Portugal, no País Basco ou na Galiza. As interligações elétricas querem-se ainda fazer desde o Norte de África, através de Tarifa, até aos Balcãs num anel em torno do Mediterrâneo. Para além da eletricidade, é também no gás que se pensam as ligações depois de Jean-Claude Juncker, presidente do Concelho Europeu, ter defendido, em Março, uma união energética com o objetivo de liberalizar a circulação de energia, onde se inclui também o gás.

    Os projetos para as interligações elétricas entre França e Espanha não são novos, remontando ao início dos anos 90 e, se não fosse devido à forte resistência, mobilização popular e denúncia pública suscitadas pelas linhas de MAT na Catalunha, nos últimos anos, seria apenas mais um mega-projecto numa infindável lista de infraestruturas energéticas que se edificam atualmente no velho continente.

    protesto_matNa Catalunha o processo foi tudo menos pacífico e, nos últimos anos, contou com inúmeros momentos de resistência e luta por parte de uma quantidade e diversidade de coletivos, plataformas, grupos ecologistas, agricultores, agentes de turismo e até Câmaras Municipais. Embora as dinâmicas partidárias não tenham ficado de fora de todo o processo, foi com base na autonomia política que uma grande parte da resistência se desenvolveu. Contou com cortes de estradas em inúmeras localidades e manifestações em Girona, Barcelona, nas localidades afetadas, junto às obras e junto à fronteira com França onde participaram milhares de pessoas. Em Março de 2010 uma operação da polícia Catalã, Mossos D’esquadra, despejou uma ocupação de protesto contra a MAT num bosque junto à torre 114 do traçado. Como resultado do despejo, 9 pessoas foram detidas e presentes a tribunal. Mesmo com a inauguração da nova linha a verdade é que a mobilização contra a MAT tem continuado ao longo dos anos e continua ainda hoje.

    Mais recentemente, em Janeiro de 2014, um indivíduo cavou um buraco onde se enterrou a si próprio  e se prendeu ao solo, no município de Villadesens, no local exato onde estava prevista a construção da torre número 66 do traçado da MAT, com o objetivo de parar as obras. Junto ao local, uma concentração de apoio ao ativista foi fortemente reprimida pela polícia. Durante o mesmo ano muitas foram as sabotagens realizadas contra as infraestruturas de apoio tais como veículos da REE e empresas que realizam a segurança da infraestrutura.

    noalmatAssim como atualmente existem projetos de MAT em praticamente toda a Península Ibérica, existem também processos de mobilização e resistência. Veja-se a plataforma “Autoestrada Elétrica Não” no País Basco ou os protestos contra a ligação entre o Norte de Portugal e a Galiza em 2014. Desta e de muitos outras lutas a ter lugar na atualidade é notório que as visões que as comunidades locais afetadas têm sobre os diversos projectos contrastam fortemente com aquela que têm as empresas promotoras.

     

    Para que serve a MAT na Catalunha?

    Os argumentos que os políticos portugueses e espanhóis, e empresas como a REE, apresentam para sustentar o projeto são de aparente simplicidade. O seu discurso defende que a Interligação é uma estrutura essencial para garantir a “segurança energética” tanto a nível nacional como local e aporta uma contribuição importante para acabar com o isolamento energético da Península Ibérica relativamente ao resto da Europa. A linha é também anunciada como essencial para o abastecimento elétrico do Comboio de Alta Velocidade (TGV), projeto que no País Basco tem também enfrentado uma forte resistência organizada através da mobilização popular. Mas a razão mais esclarecedora para esta linha é o facto de as interligações elétricas possibilitarem a entrada no mercado europeu de energia das empresas Ibéricas atualmente a negociar apenas no mercado ibérico de energia, o MIBEL. Concretamente, no caso da linha de Peñalba-Isona o objetivo é escoar o excesso de produção eólica proveniente da zona de Monzón mas também os excedentes de origem fóssil resultantes da produção elétrica das centrais térmicas. Do lado das importações as linhas permitem ainda importar energia nuclear de França. O projeto da MAT é um projeto das grandes companhias elétricas espanholas REE, mas também das portuguesas EDP e REN que beneficiarão diretamente com a nova ligação já que poderão passar a exportar e importar eletricidade para a Europa. O grande objetivo da sua construção é possibilitar que o negócio da eletricidade e da energia alcance um novo patamar com a entrada nos mercados Europeus de um conjunto de novas entidades que poderão vender no mercado europeu liberalizado os seus excedentes. Desta forma os lucros astronómicos registados pelas grandes companhias elétricas podem continuar a aumentar já que o business as usual continua a alimentar-se das necessidades energéticas dos indivíduos. Para a plataforma No a LA MAT Girona, “o real objectivo da MAT é resgatar o setor elétrico espanhol e permitir que este exporte os seus brutais excedentes elétricos para a Europa e assim evitar ter que parar as novas centrais de ciclo combinado a gás e reduzir a sua potência ou parar reatores nucleares”.

    Em janeiro de 2014 o blog Crash Oil publicava uma entrada onde se lia que “é claro que Espanha não necessita de traçar uma grande autoestrada para transportar os excedentes elétricos para França mas reforçar a sua própria rede interna para redistribuir os seus próprios excedentes. (…) Do ponto de vista da produção e distribuição local trata-se de uma infraestrutura tremendamente sobredimensionada: a potência que a MAT transporta é 10 a 30 vezes o consumo de áreas como Girona.”

    A MAT é, de facto, uma infraestrutura megalómana cujos impactos ambientais, sociais e económicos são gigantes. Representa um modelo de produção energética que se baseia na existência de grandes centros produtores e grandes centros consumidores e a sua construção é apenas justificada se se quiser transportar grandes quantidades de eletricidade ao longo de grandes distâncias. Outra das razões que tem servido de argumento base para a instalação de linhas de MAT é a crescente necessidade de integração da produção elétrica de fontes renováveis proveniente dos grandes parques eólicos ou centrais fotovoltaicas que podem atingir muitas centenas de MW de potência instalada. Através da MAT é de facto possível escoar a produção renovável, caracterizada por uma enorme variabilidade, através de enormes distâncias mas é também possível escoar qualquer outro tipo de produção, fóssil ou renovável, para que esta seja comercializada e consumida noutro ponto. A questão é que, independentemente da origem da energia, fóssil ou renovável, estamos a falar de produção em grande escala e não podemos compreender as grandes estruturas se não tivermos em conta o grande consumo que atualmente registamos nas sociedades ocidentais, fruto de um intenso nível de industrialização. A propósito da dimensão da linha, o grupo espanhol Ecologistas En Accion refere, no seu comunicado do passado dia 11 de Março sobre a linha Peñalba-Isona, que “as redes de transporte e acesso à eletricidade devem-se reestruturar de acordo com a gestão local e distribuída, limitando custos, reduzindo perdas no sistema e fomentando os sistemas de microredes”. De facto, quando consideramos o autoconsumo e a produção local de eletricidade estamos a garantir que existe muito menos energia a transitar na rede de grande dimensão (Alta Tensão) e mais energia a transitar na rede local (Baixa Tensão). Para agravar o contexto em Espanha, em 2013 o governo espanhol aprovou um pacote de medidas que impõem o pagamento de taxas por cada kWh produzido em instalações fotovoltaicas bem como uma série de outras obrigatoriedades técnicas que tornam o autoconsumo renovável economicamente inviável. Desde então fala-se do imposto solar. energiacomunitariaDe um outro prisma é de sublinhar a projeção ganha na Península Ibérica pelas experiências cooperativas de produção energética como forma de criticar e desenvolver uma outra relação com a energia. No atual contexto de crise económica e ecológica, cooperativas como a Som Energia na Catalunha contam já com quase 20.000 membros. Estas têm servido para desenvolver a autonomia energética de pequenas empresas e cidadãos perante os monopólios das grandes companhias elétricas como a REE. Portugal não tem sido imune a estas experiências e a Coopérnico tem já quase 200 associados.

    A razão para uma forte oposição ao projeto na Catalunha é consequência, em primeiro lugar, dos gigantescos impactos ambientais e sociais que estruturas físicas tais como torres de mais de 50 metros de altura, centenas de quilómetros de cabos, subestações, transformadores e valas têm no território. Principalmente por estarmos a falar da região dos Pirinéus, uma zona natural montanhosa com um ecossistema único e precioso. Em geral a grande estrutura impacta de forma violenta não só na paisagem mas também na fauna e flora que se encontra nas zonas intersectadas pelo traçado da linha. Para a sua instalação é necessário que se desmate a vegetação circundante num perímetro de vários metros e, no caso das linhas na Catalunha, o traçado servirá também para eletrificar o projeto do TGV o que potencia ainda mais o seu impacto. Para isto ser possível é necessário abrir caminho à passagem de maquinaria, gruas e transportes diversos. No caso da linha de Peñalba, um extenso levantamento realizado em 2013 por associações e grupos locais contra a linha de Alta Tensão revela o que os estudos de impacto ambiental apresentados pela REE tentam esconder: a existência de ecossistemas únicos com um sem número de espécies cuja linha afetará de forma permanente.

    A juntar a isto surgem os impactos dos campos eletromagnéticos nas pessoas e nos animais. Esta questão tem sido fonte de uma longa polémica sobre o seu real impacto e diversos estudos defendem a inexistência de impactos percetíveis para os seres humanos. Na prática muitos dos estudos são financiados pelas empresas promotoras, já que estas são as principais interessadas em provar que os efeitos dos campos eletromagnéticos são desprezáveis.

    Mas o impacto nas comunidades não se fica por aqui já que qualquer um dos projetos de MAT, em execução neste momento ou planeados no futuro, não se fará sem expropriações de terras aos seus proprietários, ocupação de zonas e uma forte repressão contra quem ouse criticar e lutar contra a MAT. Em 2013, foi usada a lei das expropriações forçadas de 1956, para expropriar dezenas de terrenos na província de Girona e assim permitir que as obras e o levantamento das torres metálicas pudessem avançar. Em certos troços o traçado real da linha era diferente daquele que estava contemplado nos estudos, havendo um desprezo total das companhias pelas distâncias mínimas a respeitar para este tipo de obras.

    O processo de implementação da MAT nos Pirinéus não é novo mas toma novo fôlego com a inauguração da nova interligação entre França e o Estado espanhol e pela projeção de três novos traçados. Ele serve para ilustrar a forma de atuação das grandes empresas elétricas por todo o globo e, obviamente, também em Portugal. Nos seus gabinetes concebem projetos com o objetivo exclusivo de garantir os seus lucros milionários, já que a venda de energia é, para elas, um negócio antes de ser uma necessidade. Para isso omitem impactos e consequências seja das linhas de Alta Tensão, das barragens ou das centrais nucleares. Ocupam e transformam territórios e regiões onde existem comunidades que têm economias locais deles dependentes, fazendo dos recursos comuns um bem privado. De seguida, “nacionalizam” os custos através de subsídios pagos por todos nós e privatizam os ganhos. Para tudo isto, fazem uso da força e da violência da polícia e dos tribunais.

    Os inúmeros projetos de interligação elétrica em MAT a decorrer pela Europa fora, lado a lado com os projetos para o início da fratura hidráulica, catalisados pelo recente TTIP, a manutenção de centrais a gás e carvão bem como as nucleares trazem consigo a reprodução de um modelo de produção energético que tem sido responsável pela destruição da Terra e da natureza. Para além disso, este modelo traz a promessa de que, energeticamente, os indivíduos e as suas comunidades continuarão a ser totalmente dependentes de grandes empresas que atuam de forma monopolista no setor energético. A implementação de fontes de energia renovável, embora tenha a potencialidade de se desenvolver através de modelos económicos cooperativos e comunitários, é ainda feita em grande parte de forma “centralizada”, através do investimento privado de empresas. Para além disso a aposta é sempre na grande dimensão e, inevitavelmente, nos grandes impactos. Neste sentido pouco há que distinga o modelo económico das centrais nucleares ou a produção fóssil quando comparado com o dos grandes parques eólicos ou das monoculturas para a produção de biocombustíveis, mesmo que os impactos ambientais sejam, obviamente, diferentes. O grande problema é que as empresas do setor energético olham para as fontes de energia renovável como mais um negócio contrapondo ao facto de um número crescente de comunidades urbanas e rurais, coletivos e movimentos sociais as considerarem uma alternativa para a sua autonomia e independência. Para que essa alternativa se torne numa realidade é necessário que a energia seja interpretada não como um produto submetido à especulação e à geração de lucros mas como uma necessidade e um bem a que todos os seres humanos devem ter acesso caso seja essa a sua vontade. Da mesma forma é importante abordar o problema do lado do consumo energético galopante verificado sob o atual modelo económico e social. As tecnologias de produção energética renovável permitem hoje traçar objetivos reais na direção da autonomia e sustentabilidade.

    No entanto, a lógica do monopólio, o lucro e a tentativa de hegemonia energética de grandes grupos limitam e constrangem a discussão e a reflexão sobre, talvez, a questão mais importante da atualidade. O isolamento energético da Península Ibérica, ou de diversas das suas sub-regiões, não é necessariamente um problema e as “ilhas” podem até tornar-se uma realidade a ter em conta na idealização e concretização de um sistema energético sustentável para a Terra, livre de monopólios e auto-organizado desde a base pelos seus utilizadores e produtores. Quando pensamos que a uma intensa crise ecológica e climática global se junta uma violenta crise social e económica é importante pensar em soluções para todas as crises de uma só vez já que a sociedade que é capaz de perturbar os ciclos naturais climáticos, arrasar uma montanha ou uma floresta é a mesma que impõe a miséria económica, a pobreza energética, a austeridade e o controlo social como forma de se manter. O problema não se resolve de forma parcial e acima de tudo não se resolve mantendo a circulação global de mercadorias, serviços, capital e, agora, também de energia.