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  • O (Des) acordo Transatlântico (TTIP)

    O (Des) acordo Transatlântico (TTIP)

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    A Parceria Transatlântica para o Comércio e Investimento (PTCI), no original em Inglês “Transatlantic Trade and Investment Partnership” (TTIP), é um acordo bilateral entre os EUA e a UE.

    Na prática é mais um BIT (Bilateral Investement Treaty – Tratado de investimento bilateral) proposto pelos EUA com o objectivo de fortalecer a política de globalização e integração económica corrente, dentro da estratégia delineada pela Organização Mundial de Comércio – que por sua vez mais não é do que uma instituição criada para promover os interesses do poder económico, americano e global. Para além dos habituais discursos de circunstância afirmando a necessidade e justeza da iniciativa, pelo seu alcance e potencial impacto, para a Europa e para o mundo em geral – a Europa representa quase um terço da riqueza global e um acordo desta natureza teria consequências à escala mundial – este acordo representa potencialmente o maior e mais perigoso esforço de reconfiguração socioeconómica, à escala planetária, e da história da humanidade. O acordo será assinado à revelia dos habitantes de cada Estado, graças ao poder da União Europeia para negociar em nome dos seus membros, conferido no contexto do tratado de Lisboa assinado em 2007. O acordo já havia sido apresentado em 2013 durante a reunião do então G8, grupo que reúne os países mais industrializados e economicamente desenvolvidos do mundo, como formula para combater a crise económica mundial. Se for ratificado, prevê-se que possa entrar em vigor em 2015, favorecendo de forma descomunal interesses corporativos e capitalistas globais.

    O primeiro ponto a ter em conta é a harmonização legislativa entre a Europa e os EUA com o objectivo de reduzir os impostos aduaneiros, facilitando a entrada na Europa de produtos importados dos EUA e Canadá. Consequentemente, esta “harmonização” vai piorar a situação dos comerciantes e agricultores locais que veem diminuir ainda mais as suas possibilidades de competir num mercado cada vez mais feito para as grandes empresas. Como exemplo deste tipo de acordos podemos olhar para o já existente Acordo de Promoção e Proteção Recíproca de Investimentos entre Portugal-China que visa potenciar a entrada de produtos fabricados na China, oferecendo benefícios fiscais e por exemplo o uso de “Golden Visa cards”, (vistos dourados) para pagar a sua entrada no país.

    O acordo prevê também medidas de protecção do investimento privado através de Mecanismos de Resolução de Conflitos Resultantes de Relações de Investimento – no original Inglês Investor-State Dispute Settlements (ISDS) – que, de forma gravosa, oferecem a possibilidade às corporações de processarem um Estado por perdas resultantes das políticas desse mesmo Estado. O processo é decidido por um painel ad hoc de advogados especializados em direito comercial internacional que avalia o caso com base nos acordos estabelecidos e nas convenções do direito comercial internacional independentemente de quaisquer questões de justiça social ou interesse comum que o mesmo possa levantar. Como exemplos recentes de processos decorrentes de mecanismos dessa natureza, existentes no âmbito de acordos bilaterais entre dois Estados, podemos citar dois casos esclarecedores. O primeiro opõe uma empresa sueca, a Vattenfall, que reclama biliões em perdas ao governo alemão na sequência da decisão descontinuar o programa de produção de energia nuclear após o desastre de Fukushima e o segundo a multinacional americana Philip Morris, que exige uma indemnização ao governo uruguaio pela passagem de legislação anti-tabagista.

    Para além do já referido, o tratado transatlântico incide sobre variadas matérias e questões, todas elas essenciais para as políticas económicas, ambientais e sociais da Europa.

     

    ttip_ogmORGANISMOS GENÉTICAMENTE MODIFICADOS

    Actualmente o uso de “Organismos Geneticamente Modificados” (OGM) está fortemente regulamentado na Europa. Apesar disso, o intenso lobbying por parte das corporações do sector  agro-alimentar,  apoiado pelo governo dos EUA, têm levado ao aumento de plantações destes organismos, mesmo em países que os proíbem formalmente. Em 2011 foram plantados cerca de 120.000 hectares de OGM na Europa, sendo a Espanha o país líder, seguido por Portugal. No entanto países como França e Alemanha, (assim como a Grécia, Bulgária, Áustria, Itália, Hungria, Luxemburgo e Polónia), proibiram o uso de OGM, utilizando a chamada “cláusula de salvaguarda”, justificando os males dos OGM para os seres humanos e ambiente. A Alemanha, mesmo com a proibição formal, em 2011 plantou 2 hectares de Batata “Amflora” (OGM). O TTIP fará com que estes valores sejam amplamente ultrapassados.

    Da mesma forma, o uso de hormonas como a Somatotropina Bovina Recombinante na criação de bovinos e a Ractopamina na de suínos, bem como a lavagem das carnes com dióxido de cloro são actualmente proibidas. No quadro do novo tratado essa leis serão “ajustadas”, permitindo a introdução na UE desses produtos, já intensamente usados nos EUA. No caso dos OGM, o acordo estenderá a passadeira vermelha a gigantes do sector como a Monsanto ou a Syngenta até ao Alqueva, onde se prevê a plantação de milhares de hectares de produtos transgénicos.

    À luz do acordo, a directiva comunitária de Energias Renováveis (RED), que impede que o Bio-Etanol (extraído a partir de milho e soja transgénicos) receba benefícios fiscais ou subsídios europeus, poderá ser derrubada, enfraquecendo o combate global à produção de Bio-combustiveis.

    Em Portugal, empresas da indústria da produção de papel como a Portucel esperam o fim dos entraves aos OGM, para apostar em variantes transgénicas de árvores, como o Eucalipto, como as desenvolvidas pela FuturaGene/Suzano. No Brasil esta empresa tem feito pressão para a aprovação do eucalipto transgénico. Se o Brasil acompanhar os EUA na aprovação dos OGM, o continente Africano, a América Latina e a Ásia serão inundados com estas novas árvores. As ramificações e consequências da aprovação do tratado serão sentidas à escala global.

     

    ENERGIA

    ttip_tarsandsNo caso da energia, o acordo destruirá todos os esforços – ténues que sejam –  levados a cabo por governos Europeus no combate às Alterações Climáticas. Especificamente, ao tornar o combustível obtido a partir do crude resultante da extracção de areias betuminosas (processo extremamente poluente, o Tar sand oil, é definido como crude “não convencional) no Canadá e o uso da técnica de fractura hidráulica (Hydraulic fracturing ou fracking, técnica altamente danosa através do qual se extrai gás de maciços de xisto argiloso) aceites na UE – permitindo a sua comercialização na Europa e assim fomentando o uso e desenvolvimento generalizados destas técnicas e tecnologias – deita-se por terra qualquer esperança de impor ou desenvolver o trabalho iniciado com os acordos de Quioto sobre as políticas energéticas dos Estados Membros.

    No caso concreto das areias betuminosas, a sua extracção no Canadá bem como a construção de uma super rede de tubagem nos EUA para transportar o crude, têm enfrentado uma grande resistência por parte das populações locais, mas também de cientistas, políticos, ambientalistas e activistas por todo o mundo. Ao mesmo tempo, empresas americanas e canadianas do sector, e o próprio governo Canadiano têm feito um enorme esforço de lobbying na Europa para remover entraves à sua aceitação, exercendo pressão para a passagem de legislação europeia que assim o permita.

    Parte do argumento legal que poderá ditar que combustível derivado de areias betuminosas não possa ser comercializadas na UE prende-se com o seu enquadramento na Directiva de Qualidade de Combustível de Transportes que, no seu artigo 7º, obriga a que fornecedores de combustível para transportes contribuam em 6% para a redução de emissões de gases de efeito de estufa (GEE) até 2020. Esta directiva faz parte dos critérios de sustentabilidade da UE, com vista a reduzir a emissão destes gases. Com a aprovação do acordo o alcance ou relevância desta directiva e de mais legislação semelhante estará irremediavelmente ameaçada. Para as petrolíferas e as empresas dos combustíveis não-convencionais o acordo será portanto uma enorme benesse com consequências desastrosas para o ambiente.

    Mesmo sem o acordo assinado, passos têm sido dados para trazer estes combustíveis para a Europa o que prova que ele é, neste caso específico, apenas a confirmação de uma tendência que já se verifica. Em Junho deste ano teve lugar a primeira descarga de petróleo derivado das areias betuminosas canadianas, no porto de Bilbao, no País Basco. Com a entrada em vigor do TTIP, sem dúvida também Portugal irá receber este petróleo e serão retomadas as explorações de gás de xisto entretanto abandonadas.

    Faculdades, como o Instituto Superior Técnico, trabalham juntamente com petrolíferas americanas, realizando investigação sobre a extracção de gás de xisto e petróleo não-convencional. A empresa Partex Oil and Gas – que pertence integralmente à Fundação Calouste Gulbenkian – tem como presidente um professor do IST, instituição de onde têm saído inúmeras teses de doutoramento relacionadas com o interesse financeiro da Partex Oil and Gas e das petrolíferas americanas interessadas no gás e petróleo no território português. O IST tem sido um grande aliado nos estudos técnicos para extracção de Xisto Betuminoso (Oil Shale) em Portugal.

    Em termos de infraestrutura, os portos de Sines e de Matosinhos têm sido preparados para receber mais cargas de super-petroleiros e metaneiros. Em Abril deste ano o terminal de Gás Natural Liquefeito de Sines, recebeu pela primeira vez, pela mão da REN Atlântico, um navio metaneiro de ultima geração, do tipo Q-Flex. A operação só foi possível devido ao projecto de expansão do porto, neste caso a ampliação dos reservatórios, que tem como objectivo aumentar a capacidade de armazenamento de gás e petróleo. Estes são apenas alguns exemplos de transformações que têm sido feitas de forma a integrar as novas tecnologias e fontes de combustível nas infraestruturas energéticas de Portugal e da Europa. Nesta dinâmica está também inserido o aumento dos reservatórios de gás na estação de Carriço, Concelho de Pombal, propriedade da REN e da GALP Energia. São ainda de referir os estudos para captura e armazenamento de CO2 requeridos pela Tejo Energia em 2009 – realizados conjuntamente com a Universidade de Évora e o Laboratório Nacional de Energia e Geologia, a que deram o nome de projecto KTEJO, na Central Termoelétrica do Pego – financiados pelo erário público para mais tarde servir interesses privados.

    O processo que levará à aprovação do TTIP assemelha-se, em muitos aspectos, ao Plano Marshall, o Programa de Recuperação Europeia apresentado pelos EUA e que, no rescaldo da 2ª Guerra Mundial, serviu para reconstruir e recuperar economicamente os Países Aliados, ao mesmo tempo cimentando a sua dependência e subserviência aos interesses estratégicos Americanos.

     

    SAÚDE

    farma_destaqueEm 2012, Paulo Portas, falando ao congresso americano, afirmou que “existem diferenças entre Portugal e outros países em crise financeira” e sublinhou a “determinação do governo português em cumprir as regras”. Em 2011 Cavaco Silva foi recebido por Barack Obama na Casa Branca, onde numa declaração conjunta se afirmou: “estamos determinados em aprofundar ainda mais o nosso relacionamento, discutimos formas de maximizar o trabalho da Comissão Bilateral Permanente entre Portugal e os EUA, que promove a cooperação em áreas tão diversas como defesa e a segurança, a educação, os intercâmbios de ciência e tecnologia, a revitalização económica, justiça, assuntos internos, e o desenvolvimento dos Açores. Também notámos que nos últimos anos, as parcerias entre Universidades portuguesas e americanas têm desenvolvido a pesquisa avançada em áreas como a engenharia, as tecnologias de informação e a medicina, e comprometemo-nos a promover estes relacionamentos no futuro”.

    As corporações portuguesas têm já acordos bilaterais com corporações e universidades americanas. A LIlly Portugal, corporação farmacêutica americana, está em Portugal a vender os seus produtos ao mesmo tempo que realiza campanhas com a Sociedade Portuguesa de Diabetologia. Num contexto em que o livre acesso a cuidados de saúde se torna, pelos custos inerentes, impeditivo para um número crescente de portugueses, é certo que através do TTIP a situação irá piorar. A privatização da saúde, através do Sistema Único de Saúde (SUS), é um dos objectivos explícitos do documento, seguindo o exemplo americano onde o modelo é essencialmente privado e deixa milhões sem acesso a cuidados de saúde.

     

    CLÁUSULA MODO 4

    tttip_espigaOGMUma das principais interessadas no acordo é, por exemplo, a multinacional agro-alimentar Monsanto. Entre outras vantagens, passará a poder defender os seus “interesses e empreendimentos” agrícolas em Portugal tal como já acontece noutros locais do mundo, recorrendo a empresas de segurança privada como a Academi (antiga BlackWater) que emprega mercenários e protege as suas explorações pelo mundo fora. Dentro da cláusula “Modo 4”do acordo, é permitida a circulação livre de trabalhadores temporários através das fronteiras. Isto é, permite que uma corporação estrangeira que venha a Portugal realizar trabalhos por uma semana ou um mês traga consigo trabalhadores não registados no País. A cláusula não se fica por aqui, pois permite também que empresas subsidiárias de países terceiros estabelecidas nos Estados parceiros, ou empresas de fora dos EUA e da UE, mas estabelecidas num Estado membro, possam fornecer trabalhadores. Foi precisamente isso que a Mohave Oil and Gas fez este ano em Portugal. Para os trabalhos de perfuração do poço de gás natural em Alcobaça, trouxe cerca de 50 trabalhadores de várias nacionalidades e de vários pontos do mundo, para trabalho temporário, já que em Portugal não existem trabalhadores classificados. Com o TTIP, este tipo de movimentações é normalizada, significando isto que se possam empregar trabalhadores sem sujeição à legislação laboral dos locais de destino, dando carta-branca a empresas dos mais variados sectores (com especial incidência no agrícola) para gerirem a sua força de trabalho à margem de leis nacionais e tenham uma autêntica via verde para se deslocarem. Nesta lógica temos por exemplo os empregados sazonais, trazidos por multinacionais para trabalhar na agricultura, em condições de “semi” ou real escravatura, como acontece nos Olivais irrigados pelo Alqueva.

     

    PROPRIEDADE INTELECTUAL

    O acordo poderá ter também o condão de tornar qualquer cidadão num potencial ladrão, ou pirata, culpado de plágio ou violação de direito de propriedade intelectual por, por exemplo, copiar e utilizar conteúdos da internet, de discos ou Cd’s, no processo legitimando a criação de uma rede de vigilância violadora dos mais elementares princípios de privacidade e liberdade de expressão. Pode-se tomar como exemplo mediático o caso de Kim Schmitz, fundador do site de partilha de ficheiros Megaupload, detido na Nova Zelândia por violação de direito de propriedade intelectual, devido à lei americana conhecida como ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement). Os EUA pressionam para que exista no TTIP, um capítulo sobre a propriedade intelectual, que proteja empresas da pirataria, o que estimularia o crescimento económico e nesse sentido querem inserir as estipulações da ACTA – que foi rejeitada pela UE em 2012, por violar o direito à privacidade e liberdade de expressão dos cidadãos europeus – no TTIP. Em última análise, se for ratificado, o acordo transformará os servidores da internet em polícias, ao serviço dos grandes interesses privados, já que estes poderão vigiar o conteúdo e actividade dos seus clientes.

     

    LIBERALIZAÇÃO DO MERCADO

    ttip_monopolyO acordo irá também afectar o sistema financeiro promovendo uma ainda maior “liberalização” (traduzida em mais desregulação e maior opacidade) do sector bancário e finança.

    Casos como o do BES, um banco “too big to fail”, (“demasiado importante para deixar” cair em tradução livre) serão consequentemente mais prováveis e ainda mais difíceis de evitar, já que as mudanças exigidas pelo acordo vêm enfraquecer a capacidade reguladora, de vigilância e intervenção do Estado nomeadamente pela remoção ou alteração de leis que actualmente ainda oferecem alguma protecção aos cidadãos.

    Isto vem ao encontro do que já acontece. Com o Reino Unido à cabeça, a UE promove maior liberalização no mercado e dos serviços financeiros, através da remoção de leis nacionais que  actuem como um entrave ao crescimento de lucros, à revelia do interesse e direitos das populações. Com este acordo a liberalização dos mercados decorrente na UE não só continuará a avançar, como será radicalmente acelerada. Causa directa do acordo será inevitavelmente o aumento da impunidade e inimputabilidade, jurídica e real, dos bancos e agentes económicos em relação à legislação nacional. Isso será possível, por exemplo, criando regras que condicionam ou anulam a aplicação dos regulamentos financeiros nacionais, favorecendo o fluxo de operações financeiras e movimento de capital através e para além da esfera atlântica, o que abrirá aos bancos “too-big-to-fail” o caminho para o “Business as usual”.

    Tudo isto levará a que quantias astronómicas de dinheiro circulem livremente, sem controlo, pelo Atlântico e dele para o sistema global, já que os mecanismos de controlo existentes neste momento sobre transacções, bens, serviços, royalties e dividendos, serão condicionados na sua actuação ou em alguns casos deixarão simplesmente de existir de forma efectiva. O fluxo de capitais para paraísos fiscais ficará de vez fora do alcance da lei. Foi este processo, (que o acordo acelerará), que, em última análise, levou a Grécia a ser obrigada a hipotecar o seu futuro para pagar aos seus credores: os próprios Bancos que promoveram a sua ruína. Portugal e Espanha também já foram processados por privados no caso da falência da Afinsa (Espanha) e do Fórum Filatélico (Portugal), no qual milhares de investidores terão sido burlados. A receita de desregulação apresentada no acordo, modelada como é na experiência e características do sector financeiro americano, é, como consequência, semelhante à que nos trouxe a crise financeira global de 2008, despoletada pela falência do banco americano Lehman Brothers.
    Essencialmente, o acordo visa enfraquecer os mecanismos de protecção e regulação dos estados em favor do capital e corporações, vender ou hipotecar o património comum e empresas públicas, levando nesse processo, o pouco que ainda resta de serviços públicos (Águas de Portugal e Energias), da saúde e protecção social anulando todos os direitos que lhe são inerentes. Será a normalização da corrupção, dos negócios duvidosos e prácticas comerciais e económicas injustas em detrimento das condições sociais no geral.

    Para se ter uma ideia do impacto futuro do TTIP basta olhar para os efeitos do acordo NAFTA (acordo tripartido entre os EUA, o México e o Canadá: um processo semelhante, mas menos ambicioso) nos países que o ratificaram. Começando mais a norte, temos a destruição de boa parte do tecido industrial americano (e de muitas comunidades que dele dependiam), deslocalizado inicialmente para o México e depois para regiões com condições salariais e laborais ainda mais vantajosas (como a Ásia). O congelamento ou diminuição de salários, a perda de poder de compra, o aumento da pobreza e desigualdade e claro, o colapso parcial ou total das instituições públicas perante o poder das corporações. Muitos destes sintomas foram partilhados pelo Canadá mas os efeitos mais dramáticos foram sentidos a Sul, no México. Para um país mais frágil, o acordo trouxe a devastação do pequeno comércio e agricultura mexicanos, com um violento aumento da pobreza extrema e fome e consequentes vagas de emigração de milhões de mexicanos (para os EUA predominantemente) enquanto privatizações a preço de saldo consumiam a insuficiente rede de protecção social e o património público. Isto por sua vez permitiu a expansão desmesurada do poder dos cartéis, (que por estes dias enchem páginas e ecrãs), cujas fileiras engrossaram à custa do desespero de tantos e que, impulsionados pelo implodir das instituições e graças à famosa “War on drugs” (Guerra às drogas) americana – que injectou desde então no México biliões de dólares (do contribuinte americano) em subsídios e equipamento que acabaram divididos entre elites corruptas e cartéis – se transformaram em autênticos Estados dentro do Estado.

    No pólo oposto, a 1 de Janeiro de 1994, no próprio dia em que entrou em efeito o NAFTA, o EZLN (Ejército Zapatista de Liberación Nacional) em resposta ao acordo, declarou guerra ao Estado Mexicano em defesa dos direitos e interesse das populações, contra o que consideravam ser um governo ilegítimo que não mais os representava, dando início a uma experiência de revolta comunitária que dura até hoje.
    É esta, sinteticamente, a herança da NAFTA. Resta dizer que genericamente, nos três países signatários, os milionários tornaram-se bilionários e as fileiras dos mais pobres não mais pararam de engrossar. Podemos desta experiência e do que já vai acontecendo, inferir algo acerca do que se passará na Europa caso o TTIP avance. A UE, através da directriz (2011/0437 (COD)), prepara a privatização das águas na Europa. Uma possível visão daquilo que poderá acontecer é-nos dada pelo caso de Paços de Ferreira, onde o preço da água subiu 400%. (Este e outros casos podem ser seguidos em aguadetodos.com).

     

    EM OPOSIÇÂO

    ttip_oposicaoEm Portugal a plataforma Não ao Tratado Transatlântico (www.nao-ao-ttip.pt) acompanha as movimentações políticas e corporativas sobre o acordo Transatlântico.

    No passado dia 11 de Outubro uma acção a nível europeu teve lugar juntando diversos grupos da sociedade civil, sindicatos, agricultores e activistas com o objectivo de parar as negociações do acordo. Nesse mesmo dia assinalava-se o dia internacional contra o fracking. As acções espalharam-se por toda a Europa. Em Portugal a Plataforma Não ao TTIP organizou uma acção inserida no evento internacional no Rossio, Lisboa. Alem desse encontro a plataforma têm mantido regularmente  acções de informação e sensibilização.

    O TTIP e as suas implicações levantam muitas questões sobre o futuro dos Europeus e do mundo. Existe, no entanto, uma delas, porventura a essencial, que, por trazer mais questões ainda, é de difícil trato. A extrema comercialização de todos os aspectos da vida social e individual, que o pacote de medidas acarreta é, de facto, um passo muito concreto para a instauração cada vez mais coerente de uma nova ordem que canibaliza o todo social como modelo de negócio. Modelo esse que é em última análise partilhado por toda e qualquer grande empresa neste mundo.

    No entanto, o modelo puramente Estatal e regulado (visto de qualquer ponto do espectro político) não pode ser a única proposta que se lhe oporá. Os diferentes Estados na Europa funcionam hoje como extensões e instrumentos das corporações formando uma grande corporação hegemónica, que, como se de uma grande empresa se tratasse, coloca em posições estratégicas, espalhadas nas suas sucursais, os representantes do grande poder económico.

    O maior problema colocado por este tratado é que ele representa um rápido e decisivo passo para a perda formal e efectiva do poder, da independência local e autonomia das populações. De facto, se pouco poder de decisão temos hoje sobre como é governada a Saúde, sobre o nosso modelo de desenvolvimento económico, energético e de produção alimentar, o tratado vem formalizar e acelerar essa tendência que, sob a alçada das políticas estatais, já se impunha.

    Num contexto de colapso ecológico e crise social globais, um tratado como este é, (para além de uma demonstração de refinado sadismo), para uns quantos, uma grande cereja no topo de um já enormíssimo bolo, mas não pode deixar de ser também uma oportunidade para que, com organização, determinação e solidariedade se comece a reclamar esse mesmo bolo que é de – e chega para – todos.

    Granado da Silva
    Ana Rute Vila

    Artigo publicado na edição impressa (nº8, Dezembro de 2014)

     

  • Subestação EDP/REN no Alto de São João

    Subestação EDP/REN no Alto de São João

    alto_s_joaoPerante a indignação dos habitantes, REN e EDP avançam com projeto de estação de alta tensão nas Olaias, em Lisboa, uma zona de bairros sociais, onde existe já uma ETAR e um cemitério.

    Os moradores de vários bairros na zona do Alto de São João estão indignados com o projeto de construção de uma subestação elétrica de alta tensão, em terrenos cedidos pela Câmara Municipal de Lisboa (CML), a pouco mais de 50 metros de habitações sociais. A zona, descrita por um técnico da EDP como “um vazio urbano”, engloba várias áreas residenciais, como o bairro da Quinta do Lavrado, a Calçada da Picheleira ou o Bairro Horizonte.

    A subestação servirá para baixar a tensão nas linhas de transmissão da Rede Elétrica Nacional (REN), (com tensões de 220kV) para os 60kV das linhas de média tensão da Energias de Portugal (EDP). A infraestrutura será composta por dois edifícios onde estarão instalados os transformadores, num projeto conjunto entre as duas entidades. Na zona de Lisboa existem outras subestações do mesmo tipo, nomeadamente na calçada de Carriche e em Sete Rios. Segundo técnicos da REN, foram já “dados passos para a implantação deste projeto através da instalação de cabos subterrâneos”, garantindo não haver necessidade de instalação de novos cabos. A energia chegará então a uma subestação isolada por gás (Gas-insulated substations), uma tecnologia que usa hexaflouoreto de enxofre para isolar os campos elétricos e magnéticos produzidos pelos cabos e outros equipamentos na subestação.

    Convém notar que o impacto e riscos para a saúde e para o ambiente decorrentes da exposição a campos eletromagnéticos de alta e média tensão têm sido intensamente questionados e denunciados onde quer que linhas de Alta Tensão sejam erguidas. Precisamente pelos mesmos motivos, o projeto de construção da linha de Muito Alta Tensão entre o Minho e a Galiza tem encontrado grande resistência em ambos os lados da fronteira. Nesse caso trata-se de linhas em altura cujos cabos estão em contacto com o ar. Na instalação do Alto de S. João, as linhas serão subterrâneas.

    De acordo com informação da própria EDP sobre Alta Tensão e Saúde Pública publicada pela no seu site, o facto de se tratar de cabos subterrâneos (o que faz com que os cabos elétricos estejam mais próximos entre si) a intensidade e impacto dos campos é menor a maiores distâncias da linha mas, diretamente em cima dos cabos, a intensidade será muito maior, superior até à de linhas em altura. A questão é, portanto a que profundidade estão enterrados já que esse facto por si só não significa que os campos (e os riscos) deixem de existir.

    É notório que quando se trata das questões técnicas e impacto dos grandes projetos de empresas do setor energético – como a REN e a EDP – são sempre os seus argumentos que ganham força e projeção no espaço público. São as próprias empresas que encomendam os estudos de impacto ambiental e posteriormente divulgam os resultados, sempre na tentativa de legitimar os seus projetos. Se tivermos em consideração que as estas empresas fazem da eletricidade e da energia em geral, um negócio altamente rentável, não é de estranhar que todos os projetos por si dinamizados venham envolvidos numa aura de segurança e respeito pelo ambiente, com a qual o poder local compactua. O sucesso dos seus negócios depende em grande medida da imagem de segurança que transmitem.

    Para além dos efeitos dos campos eletromagnéticos, durante a apresentação do projeto, os técnicos foram também questionados acerca do nível de ruído que se fará sentir na zona e as suas respostas foram evasivas. Estes transformadores geram um zumbido constante. Dada a necessidade de estarem colocados próximo do exterior, os níveis de ruído junto a subestações elétricas desta natureza podem chegar aos 80 dBA, o mesmo valor registado, por exemplo, numa estrada movimentada.

    No entanto sem minorar estas questões, o grande problema deste projeto prende-se com os seus impactos económicos e sociais, já que os terrenos para onde está prevista a subestação não são o “vazio urbano” que a EDP afirma. Nas suas imediações existem várias zonas residenciais, assim como uma creche, uma escola, várias associações e pavilhões desportivos. O terreno, vendido pela CML por cerca de 557.000€, tem mais de 8.000 m2 foi concessionado à REN por 99 anos. A região circundante estava integrada no Plano de Urbanização do Vale de Chelas. Com data de 1998, este previa a construção de várias urbanizações e estruturas públicas, bem como a demolição do antigo bairro da Curraleira. Originalmente pensado em quatro fases, o plano nunca passou da primeira, que consistia no realojamento dos moradores e construção de uma estrada. Cinicamente, a existência do plano (que está parado) tem sido a justificação utilizada pela CML para não instalar outros equipamentos exigidos pelos moradores. Embora a estação seja apresentada num contexto de reabilitação urbana da zona, a verdade é que a instalação de uma subestação desta natureza e dimensões num local onde já existem habitações sociais, uma ETAR a céu aberto e um cemitério, apenas vai desvalorizar ainda mais a área e os seus imóveis.

    Segundo Sandro Fonseca, morador da zona, é como se tivessem sido “esquecidos no purgatório”. A paredes-meias com o cemitério do Alto de São João, Sandro ironiza: “já estamos entre um cemitério e uma ETAR a céu aberto, e agora uma central de alta tensão, só temos de atravessar o muro [do cemitério] e ficar lá”.

    O processo decorreu essencialmente à margem dos moradores, que nunca foram consultados nem viram as suas (muitas) questões esclarecidas. Na zona apenas se sabia da construção de uma estação de alta tensão, que estaria a ser negociada entre a CML e a EDP/REN. João Paulo Mota, da Associação Viver melhor no Beato, interroga-se sobre o secretismo das negociações: “se eu vejo que uma coisa não tem maldade não vou esconder. Por que é que eles não consultaram a população, para saber se achavam bem ou não? Fizeram tudo às escondidas”. As preocupações de João Paulo Mota compreendem-se melhor se notarmos que apenas no passado dia 21 de outubro foi apresentado à população o estudo de impacte ambiental, bem como o projeto em questão.

    O projeto desta subestação e o processo em torno da sua instalação é mais um exemplo da forma como o espaço urbano se pensa e organiza. Existem claramente zonas onde é aceite pelas autoridades a instalação deste tipo de infraestruturas –  como as periferias e bairros pobres dos grandes centros urbanos –  e zonas onde isso não é possível. Obviamente as razões serão sempre justificadas de um ponto de vista técnico e qualquer questão levantada é soterrada num sem fim de normas, dados técnicos e diretivas internacionais mas a verdade é que a haver prejudicados de todo este processo não serão os hotéis, o comércio e as infraestruturas de turismo do centro de Lisboa mas os habitantes dos bairros contíguos à nova subestação. A escolha desta zona não deve, portanto, ser coincidência.

     José Pedro Araújo

  • Nem mortos saímos das casas

    Nem mortos saímos das casas

    pinhal_negreiros2“Nem mortos saímos das casas” tem sido uma das frases mais repetidas entre 41 das famílias que habitam dois bairros situados em Azeitão. Há cerca de um ano e meio, os moradores dos Bairros dos Trabalhadores de Pinhal de Negreiros e das Vendas de Azeitão foram surpreendidos com a insolvência da cooperativa que, em 1987, tinha construído as suas habitações.

     

    A gravidade da situação financeira da cooperativa nunca tinha sido comunicada aos moradores. Foi por isso que a surpresa maior chegou quando tomaram conhecimento da potencial consequência da situação da cooperativa: o despejo.

    Depois de 25 anos a pagar as casas, período após o qual seria realizada a escritura – tal como acordado contratualmente com a cooperativa – estes moradores viram as suas casas ser incluídas na massa insolvente com o propósito de ressarcir os principais credores que integram o processo (de entre os quais, a banca, detém a maior fatia).

    Vendo os seus créditos totalmente subordinados aos interesses dos principais credores, para além de não lhes ser reconhecida a propriedade das casas que pagaram integralmente e que habitam há quase três décadas, é-lhes negada qualquer possibilidade de reaver o dinheiro que pagaram no caso de estas serem vendidas.

    Tudo se torna mais revoltante quando percebemos que um dos maiores credores deste processo e o único credor das habitações destas famílias, é um instituto estatal que tem como responsabilidade a salvaguarda do direito constitucional do direito à habitação: o Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU).

    As habitações em causa foram construídas com fundos públicos provenientes da referida instituição e cedidas a preço de custo a famílias sem grandes posses económicas. Estas famílias – na altura constituídas na sua maioria por operários – contam hoje com um número crescente de reformados e desempregados.

    O IHRU reconheceu publicamente e em diversas ocasiões, que tinha conhecimento de que as famílias sempre pagaram as amortizações mensais, mas não deixou de lhes atribuir, perversamente, responsabilidade pela dívida da cooperativa. Apesar disso, e de portanto ser evidente que os moradores não podiam ter conhecimento que o seu dinheiro não chegava ao IHRU, nunca procuraram informá-los da gravidade do problema da cooperativa.

    Ao fardo que estas pessoas sempre carregaram, comum a todos os que ocupam a base da pirâmide social, juntou-se então a responsabilização por uma dívida que nunca contraíram e a consequente ameaça de perderem as casas que pagaram integralmente. No meio de um desespero e revolta crescentes, os moradores uniram-se e têm procurado intervir de diversas formas, realizando assembleias e acções com o propósito de sensibilizar e lidar com a enorme injustiça que enfrentam. Fruto dessa mobilização, e no seguimento da divulgação do anúncio público de leilão das casas em Setembro, entretanto suspenso, o caso ganhou ampla repercussão mediática e atenção política.

    O IHRU, que sempre se recusara a falar directamente com os moradores, desconsiderando a gravidade social do problema e remetendo a sua resolução para a esfera judicial, apenas em Outubro mostrou disponibilidade para receber os visados e só nessa altura afirmou agir em sua defesa.

    Para já, em termos processuais, a situação encontra-se suspensa. Todavia, a luta dos moradores não cessa e todos garantem que abandonar as casas não é sequer uma possibilidade, tal como não será aceitável ter que pagar qualquer valor para além do que já pagaram.

    Segundo um dos moradores, que pediu anonimato, “quem comprar estas casas compra uma guerra e terá que lidar com ela até às últimas consequências.”

     

     

     

  • Novas energias, velhos poderes

    Novas energias, velhos poderes

    solarserpa

    De acordo com um comunicado emitido pela associação ambientalista Quercus, com base em dados da Rede Eléctrica Nacional, durante o ano de 2013 as fontes de energia renovável (ER) foram responsáveis por 60% da produção de electricidade, nomeadamente eólica e hidroeléctrica[ref]A classificação das centrais hidroeléctricas como forma de geração de energia renovável é meramente técnica pois, embora seja assim classificada, os impactos ambientais e sociais das grandes barragens fazem com que esta seja uma tecnologia que está longe de poder ser considerada como ecológica.[/ref], sendo que a contribuição da primeira se manteve inferior à da segunda[ref]Comunicado da associação Quercus: http://goo.gl/qqHggR[/ref]. Mais concretamente, este recorde de produção deve-se aos quase 5000 MW de capacidade instalada através dos mais de 2000 aerogeradores distribuídos por mais de 200 parques eólicos concentrados, maioritariamente, na zona norte de Portugal, bem como à rede nacional de barragens[ref]Notícia do Jornal Expresso: http://goo.gl/FPGDnN[/ref]. De facto, Portugal tem assumido políticas energéticas que fazem recair sobre as ER grandes esperanças na resposta aos desafios colocados pela necessidade de “independência energética” ou pelas imposições decorrentes das alterações climáticas[ref]Para 2020 foi definida a meta de ter cerca de 20000 MW de potência instalada proveniente de fontes de energia renovável em Portugal.[/ref]. Na prática, trata-se da dinamização desse novo negócio de grande rentabilidade que são as ER. Exemplo disso são os lucros de 135 milhões obtidos em 2013 pela EDP Renováveis, subsidiária da EDP no sector das ER.

    Embora exista um potencial enorme para a produção de energia de forma ecológica no território português, inúmeros projectos de ER, tomando formas e dimensões industriais, têm sido apresentados como soluções sustentáveis para o futuro por governos e empresas do sector. Desta forma, as ER não poderão resolver o problema fundamental da exaustão de recursos e do colapso ambiental já que não questionam o paradigma do permanente crescimento económico.

    Nos próximos anos continuaremos a assistir à engorda de grandes empresas do sector Solar e Eólico ou ao nascimento de novas barragens numa lógica de criação de um monopólio que retira às ER o seu potencial de alternativa sustentável ou o seu contributo para a autonomia energética de comunidades e populações.

    Mais que dissecar a realidade portuguesa, é importante compreender que o entusiasmo luso com as ER é apenas parte de uma tendência global de aposta em novas formas de produção energética de forma a dar resposta a uma suposta crise energética com origem na escassez de recursos energéticos ou como medida de resposta às alterações climáticas.

    A ideia que tem surgido com força nos últimos anos é a de que a composição da mistura de fontes de energia que alimentam a sociedade e a economia terá de se alterar de forma a permitir uma transição para uma sociedade que não seja movida a combustíveis fósseis. É então que se defende a “segurança” e “independência energética” dos países, surgindo diversas soluções para satisfazer estes objectivos. Como veremos, de lado ficam a segurança e independência energética das comunidades e populações.

    De forma mais directa, a ideia que subjaz ao presente sistema económico e social é a de que, enquanto a Terra “financiar” a expansão e o crescimento da indústria e do consumo, ele cá estará para aproveitar. Quando a Terra entrar em total exaustão estarão já desenvolvidas toda uma série de novas tecnologias de produção energética que manterão o mesmo tipo de economia como modelo dominante.

     

    fracking_orig_destPetróleo não-convencional

    De acordo com a Agência Internacional de Energia, 80% da energia primária no mundo advém de combustíveis fósseis. No entanto, a era do petróleo barato parece ter acabado, o que significa que os custos de extração e produção de petróleo através dos clássicos poços se tornaram insustentáveis por várias razões.

    Neste contexto, surgem por todo o mundo técnicas de exploração dos chamados combustíveis fósseis não-convencionais que visam manter o uso dos combustíveis fósseis durante muitos anos. A verdade é que existem enormes impactos ambientais e sociais associados à extracção de areias betuminosas ou à famosa fractura hidráulica (FH) para a obtenção de gás de xisto[ref]Ver o artigo “A Elevada Factura da Fractura Hidráulica” na edição número 4 do jornal MAPA ou disponível em goo.gl/ay1MRq[/ref]. Na prática, são uma colectânea de diferentes técnicas e tecnologias que se encontram em pleno desenvolvimento. A FH, especificamente, tem efeitos devastadores no ambiente já que na perfuração e fracturação das rochas são usados milhares de químicos cuja listagem é muitas vezes desconhecida e há fortes possibilidades de se libertar metano durante o processo, gás este que gera mais efeito de estufa que o dióxido de carbono. Conta-se ainda o problema da mistura de camadas estratificadas da crosta terrestre, para além do facto de o processo exigir consumos de água astronómicos, e, devido à acção de perfuração horizontal, poder provocar acidentes sísmicos e contaminação de lençóis freáticos.

    Até há poucos anos a FH era totalmente desconhecida mas o seu suposto “sucesso” nos EUA ditou que uma corrida frenética se iniciasse em diversos países em todo o mundo. A FH tem sido vendida, desde então, como uma tabua de salvação e tem-se tornado uma aposta para certos países reivindicarem a sua independência energética já que reduz as dependências através da produção doméstica. De acordo com um relatório publicado pelo Post-Carbon Institute[ref]Relatório Drill, Baby, Drill disponível em postcarbon.org[/ref], nos EUA existem mais de 65.000 poços e a produção de gás de xisto representa 40% do total de gás produzido. No entanto, o relatório mostra também que a taxa de produção dos poços de gás de xisto se pode reduzir para 15% ao fim de 5 anos, colocando em xeque as promessas da indústria e do governo de que o gás de xisto é o garante do crescimento económico a longo prazo.

    No final de 2013, o ex-presidente ucraniano Víktor Yanukóvytch assinou acordos com os gigantes energéticos Chevron e Royal Dutch Shell para a exploração de gás de xisto em diversas zonas da Ucrânia. De acordo com o relatório BP Statistical Review, a Ucrânia detém a 3.ª maior reserva de gás de xisto na Europa. Recentemente Hunter Biden, filho do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, foi contratado para a direcção da maior empresa privada ucraniana de produção de gás Burisma Holdings[ref]goo.gl/kMmK8Z[/ref]. Com a crise política, militar e social na Ucrânia o gás e o petróleo tornam-se uma questão central perante a dependência energética face à Russia. A FH será, também ai, usada como forma de atingir a “indepedência energética” arrastando consigo todos os impactos.

    Na verdade, é justamente na criação de um contexto de emergência, crise energética e medo que as empresas e os governos apostam. O motivo da crise e da ameaça de escassez de recursos e preços altos tem servido à criação do contexto ideal para que se generalize a aposta na FH. Apenas o tempo dirá em que mais projectos industriais de produção de energia.

    A avaliar pela concessão de exploração de gás de xisto dada pela Direcção Nacional de Energia e Geologia à empresa canadiana Oracle Energy Corporation até 2021 na margem sul do Tejo, tudo indica que o processo de lavagem e propaganda, para além dos impactos ambientais, estão também a chegar a Portugal. No site da empresa[ref]www.oracleenergy.com[/ref], Portugal é apresentado como um paraíso. Para além das estimativas e números apresentados relativamente às potencialidades energéticas do investimento e das condições técnicas a empresa sublinha as condições fiscais benéficas para o investimento, a existência de modernas autoestradas e de um governo estável. Embora não se conheçam, em profundidade, os pormenores e detalhes associados a esta concessão, é essencial estar atento à iniciativa do movimento anti-gás de xisto no Barreiro que começa a preparar a resistência a este projecto[ref]Mais informação em movimentoantigasdexistobarreiro.wordpress.com[/ref].

     

    novosventosRenováveis

    No que toca às variadas tecnologias de ER a questão é mais complexa. Por um lado existe um grande potencial para a produção autónoma e descentralizada de energia através de variadas tecnologias como turbinas eólicas de pequeno tamanho, painéis solares fotovoltaicos domésticos ou solar térmico ou tantas outras que estão em pleno desenvolvimento e experimentação. As ER de pequena dimensão, numa perspectiva local de auto-suficiência, são um importante passo em direcção a uma maior independência das companhias eléctricas, das petrolíferas ou da energia nuclear. Por outro lado, a opção política é, muitas vezes, a instalação de aerogeradores de grandes dimensões ou enormes campos de painéis solares que, tal como as grandes centrais termoeléctricas ou centrais nucleares estão ligadas a um sistema energético centralizado gerido por governos e empresas e operado por técnicos especializados. Obviamente que a natureza industrial e as grandes dimensões acarreta gravíssimos impactos nos locais onde se instalam os grandes aerogeradores ou os campos de painéis solares.

    As ER encontram-se cheias de contradições que as afastam, muitas vezes, do seu potencial de sustentabilidade. Em 2012, 86% da produção global de módulos fotovoltaicos teve lugar na Ásia o que é apenas um entre os inúmeros dados que caracterizam o mercado global das energias renováveis[ref]Relatório Renewables 2013, Global Status Report[/ref].

    No entanto, é o seu uso político e económico que é preocupante. Não são só os parques eólicos, as centrais solares ou as monoculturas para a produção de biodiesel que estão a potenciar uma economia, apelidada de verde, que, tal como a sua irmã fóssil, almeja os mesmos lucros fáceis. Existe todo um uso das ER na criação de uma imagem e um discurso de responsabilidade, sustentabilidade e respeito pela natureza que é, nos dias que correm, transversal a governos e grandes grupos económicos. Inevitavelmente, o discurso “verde” sequestra o debate em torno do modelo energético sob o qual vivemos e como nos queremos relacionar com os recursos naturais.

    É justamente neste ponto que as alterações climáticas (AC) ganham importância. Concretamente, os cenários que têm vindo a ser traçados pelo IPCC[ref]O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas é uma colaboração científica internacional criada sob o auspício das Nações Unidas para sintetizar e informar sobre o estado das alterações climáticas. O IPCC emite regularmente relatórios de avaliação sobre a ciência climática, a economia e as medidas de mitigação.[/ref], referentes à relação entre as emissões de gases com efeito de estufa e o aumento da temperatura média da atmosfera, mais que servirem para questionarmos de forma profunda o sistema económico e social em que vivemos, têm servido para criar uma capa de emergência e crise climática. Não está em causa a crença ou a descrença nos modelos climáticos usados no traçado dos cenários mas, tal como no caso das ER, o uso político que tem sido feito ao nível da governação e das empresas.

    Mais que uma genuína preocupação com a Terra e a natureza, a grande consequência da exploração do medo e da emergência, na questão do clima e da energia, traduz-se na criação da ideia de que apenas o estado bem-intencionado e as empresas responsáveis poderão solucionar o problema

    Efectivamente, muitas grandes empresas que têm sido os actores principais na criação do colapso ecológico a que hoje assistimos passaram a adoptar todo um discurso centrado na necessidade de eficiência energética ou na transição para “modelos sustentáveis” tentando varrer o lixo para debaixo do tapete.

    Os impactos na Terra decorrentes do uso de combustíveis fósseis e das suas várias formas de produção e transporte é diferente do impacto das grandes centrais eólicas ou fotovoltaicas. No entanto, a expectativa de que todas em conjunto poderão assegurar um futuro energético para a sociedade e a economia faz com que as ER industriais nos sejam impostas de forma austera sob o pretexto de uma crise energética, que se soma a uma crise económica e, inevitavelmente, a uma crise social. Assim, interessa pensar sobre que formas de produção energética queremos e para que é que as queremos.

    A utilização que podemos fazer das ER é grande, variada e há ainda um longo caminho para percorrer. É possível dar-lhes um uso sustentável, dimensionado em função das nossas necessidades reais e equacionado a partir da base.

     

    centralsinesO modelo energético, a economia e o crescimento

    A concentração de grandes centrais de produção de energia nas mãos de governos ou grandes grupos económicos determina, hoje em dia, o poder que estes possuem.

    O sistema energético, composto por todas as etapas que vão da detecção de recursos naturais à distribuição de electricidade e combustível, é, portanto, um reflexo fidedigno do projecto do sistema económico capitalista não só pela forma utilitarista e violenta como suga os recursos energéticos mas também pela forma centralizada como está organizado retirando aos utilizadores a possibilidade de controlarem e fazerem parte do processo. A energia nuclear, com a sua complexa tecnologia e necessidade de especialização, é o expoente máximo desta “ideologia energética”, ou seja, muita energia concentrada num reactor que só pode ser operado por físicos e engenheiros com altas qualificações só pode ser o resultado de um extenso processo de concentração de poder.

    Poderíamos fazer exactamente a mesma afirmação sobre o sistema alimentar, sobre a água e o acesso à terra mas, perante as quantidades de energia que são necessárias para fazer movimentar a actual sociedade, recai sobre o sector energético um papel bem mais determinante, já que a maioria dos restantes sectores da sociedade dependem da disponibilidade energética. O panorama é, portanto, evidente: grandes companhias orientadas pela ideia de monopólio tratam de nos fornecer energia através de complexas redes que alimentam, para lá das nossas necessidades mais imediatas, infraestruturas de transporte, de defesa, de comércio. Em qualquer dos casos não nos é permitido decidir sobre a forma ou o estado dessa rede e estamos dependentes dos preços praticados pelas companhias que monopolizam o mercado. Assim, recai sobre elas o poder de criar incluídos e excluídos no acesso à energia. Os cortes de luz levados a cabo no Bairro do Lagarteiro, na cidade do Porto, no fim de 2013, são disso um exemplo. Nessa altura, dezenas de pessoas ficaram sem acesso a electricidade. Mais ilustrativo é ainda o facto de, no ano de 2013, a EDP ter cortado a luz a cerca de 285 mil familias em Portugal[ref]Notícia Dinheiro Vivo: goo.gl/jrfwsm[/ref].

    As grandes companhias eléctricas têm o poder de decretar qual é o nosso acesso à energia ao mesmo tempo que impõem arrogantemente, ao longo do território, barragens, gigantes turbinas eólicas e a rede de Alta Tensão ignorando os seus impactos imediatos.

    No entanto, há certamente uma diferença entre a quantidade de energia necessária para sustentar a vida dos indivíduos e das suas comunidades e as necessidades energéticas da economia global, do permanente transporte de mercadorias, da grande indústria ou da criação de guerras em todo o globo.

    De facto vivemos numa sociedade que é viciada em grandes quantidades de energia e desperdício para se manter em funcionamento e esse vício tem um impacto gravíssimo no ar, na terra, nos ecossistemas e na biodiversidade. Na prática este é o resultado do crescimento económico, ou seja, uma economia mais forte, com um movimento de mercadorias mais intenso, um maior fluxo de capital que resulta num consumo de energia maior e, inevitavelmente, num planeta cada vez mais inabitável para todos os seres vivos.

    A transição para um modelo energético sem combustíveis fósseis, de que tanto se fala hoje em dia, pode ter várias interpretações e caminhos. Ela terá sentido se construirmos alternativas à sociedade que necessita do petróleo ou das infraestruturas megalómanas industriais de produção energética para existir. Caso contrário, estaremos a construir apenas uma versão “verde” e “sustentável” da sociedade em que vivemos hoje. Inevitavelmente esta continuará com os mesmos problemas de desigualdades sociais, de exploração, de violência estatal, de prisões, de pobres e ricos.

    Se os membros do governo se transportarem em automóveis ecológicos, livres de emissões de dióxido de carbono para a atmosfera isso não impedirá que poucas pessoas com poder continuem a decidir sob a vida de milhões.

    Quando olhamos para o problema da energia a longo prazo vemos que as soluções não passam por decisões políticas ou delegações de responsabilidades em candidatos verdes. É justamente no caminho de nos dotarmos a nós próprios de capacidades de produção e distribuição energética colectiva e a partir de uma escala local que pode estar o início de uma solução.

    Simultaneamente, é imprescindível que projectos como a produção de gás de xisto através da fractura hidráulica não se materializem, de nenhuma forma, nem em Portugal nem em lado nenhum, sendo óbvio que é na resistência a esses projectos que começamos a construir o futuro.

     Ana Rute Vila
    anarutevila@dev.jornalmapa.pt

  • Muito Alta Tensão ameaça Norte e Galiza

    Muito Alta Tensão ameaça Norte e Galiza

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    O projecto para a construção de uma linha eléctrica de Muito Alta Tensão (MAT) desde Fontefria, na Galiza, até Vila do Conde, tem motivado desde o inicio do ano diversos protestos entre as populações de ambos os lados da fronteira. O traçado previsto atravessa 121 freguesias dos distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto, incluindo a maioria dos municípios do Alto Minho: Monção, Melgaço, Valença, Paredes de Coura, Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Esta linha de MAT será  uma das mais potentes em território portugês (400 KVs), deixando as populações residentes nas zonas circunscritas alarmadas com os impactos nocivos para a saúde, fauna e flora, assim como para o património natural.

     

    linha_da_morte_gemieiraNa aldeia de Gemieira, Ponte de Lima, estão previstas pelo menos cinco torres de 75 metros de altura e uma área de implantação de 200 metros quadrados, além de margens de segurança de 45 metros para cada lado. Os habitantes de Gemieira e Refóios realizaram já várias acções de protesto e sessões de esclarecimento contra a “linha da morte” em relação ao projecto da REN (Rede Eléctrica Nacional), perante a ausência e o silêncio da Câmara Municipal de Ponte de Lima. Na Gemieira, o traçado previsto coloca a linha na proximidade de 20 habitações, de um aglomerado de 14 moinhos, de áreas de produção agrícola e de uma ecovia. Há vários meses que os populares “se dizem dispostos a tudo” para travar a passagem da linha pela aldeia. Foi várias vezes apontado o boicote às eleições europeias como forma de protesto, tendo o mesmo vindo a concretizar-se no passado dia 25 de Maio, quando mais de uma centena de populares de Gemieira impediram a entrada de membros da mesa, na sede da Junta de Freguesia, onde estava instalada a urna de voto.

    Monção-Alta-TensãoEm Monção, os habitantes das diferentes freguesias só foram informados sobre as intenções da REN e o traçado da linha no final do mês de Dezembro de 2013, através de extensa documentação enviada pela Agência Portuguesa do Ambiente, apesar da elaboração do projecto ter começado no início de 2011. O prazo para a consulta pública do EIA (Estudo de Impacto Ambiental[ref]Eixo RNT entre “Vila do Conde”, “Vila Fria B” e a Rede Eléctrica de Espanha, a 400Kv[/ref]) estava inicialmente previsto terminar a 13 de Fevereiro de 2014, data-limite para que a população se  pronunciasse sobre o projecto. Este estudo, encomendado à empresa Ws Atkins, apresenta os impactos negativos na fauna e flora de forma amenizada, dando a entender que podem ser minimizados e reversíveis, mesmo se a construção desta linha eléctrica ameaça várias espécies protegidas, como é o caso do lobo, ou a possível extinção de aves migratórias em todo o Alto Minho, além da desfiguração de extensa paisagem natural. Não foi efectuado qualquer estudo sobre os impactos na saúde das populações.

    Também em Barcelos o traçado previsto atravessará 63 freguesias do Concelho (segundo a divisão administrativa anterior), tendo motivado já contestação popular e mesmo institucional quando, em Fevereiro passado, a Câmara Municipal aprovou uma moção de “rejeição absoluta” do traçado proposto, declarando que “usará todos os meios à sua disposição” para o “travar”.

    flyer_manif_matMinho e Galiza estão unidos nesta luta e fizeram já algumas manifestações conjuntas. A última aconteceu no passado dia 27 de Abril na ponte internacional de Melgaço, onde foi cortado o trânsito automóvel, após o culminar das duas manifestações que partiram de Melgaço e Arbo, exigindo o enterramento da linha, denunciando os efeitos negativos na saúde, no ambiente e nas economias locais. De ambos os lados da fronteira, as autoridades responsáveis pelo projecto são acusadas de terem decidido tudo “sem virem ao local”, “a partir de Lisboa e de Madrid”.

    São inúmeros os exemplos em Portugal de prejuízos para a população, ambiente e património nas zonas atravessadas pelas linhas de Alta Tensão. O enterramento das linhas é uma solução que a REN não considera porque fica mais cara. Assim consegue minimizar custos sacrificando a saúde das pessoas e o ambiente. Não fosse a impunidade da REN, garantida pelo aparato politico-legal do estado, resultando no escasso poder de decisão dos indivíduos e comunidades, e as linhas de Alta Tensão seriam incomportáveis social e economicamente, bem como o modelo de produção e distribuição de energia inerente. Noutro cenário, compensaria o investimento em alternativas de produção, distribuição e consumo, cuja prioridade fosse o bem-estar dos indivíduos e a preservação dos ecossistemas. Este seria, contudo, um passo subsequente à crítica dos vários factores de desperdício, actualmente justificados em grande parte com a falácia do “crescimento económico”.

     

     

    alfena_caixaPrejuizos para a população, ambiente e património

    Os moradores de Adanaia, pequena aldeia de Calhariz, no concelho de Vila Franca de Xira, têm-se queixado do ruído insuportável vindo das linhas de MAT localizadas na proximidade das suas casas e que se faz sentir em dias de vento ou humidade. O “zumbido” forte e prolongado, denominado por “efeito coroa”[ref]Fenómeno fisico causado pela ionização do ar, junto aos cabos condutores e isoladores, nas linhas de alta tensão.[/ref], martiriza os habitantes de Calhariz, que não conseguem dormir. Alguns moradores tiveram de começar a usar tampões nos ouvidos e, em casos mais extremos, tomar medicamentos[ref]Zumbido das linhas de muito alta tensão não deixa dormir habitantes de Adanaia. Artigo publicado a 14 de Março de no diário online, O Mirante (www.omirante.pt)[/ref]. Têm sido também reportadas interferências frequentes nos comandos dos portões das garagens, comandos das televisões, e nos aparelhos auditivos e de medição cardiovascular.

    Em situação idêntica estão os habitantes de Recarei, em Paredes, que também se queixam do ruido igualmente insuportável, acentuando em dias de chuva, desde que a linha entrou em funcionamento, no final de Março. Alguns moradores tiveram igualmente de recorrer a medicação para conseguirem dormir[ref]http://portocanal.sapo.pt/noticia/22200/[/ref]. A linha passa por cima de várias habitações nos lugares de Terronhas e Rochão. Foram entretanto feitas várias queixas à REN, que não deu qualquer resposta. A Junta de Freguesia salienta ainda que no final da instalação da linha, a REN não efectuou reparações nas estradas e caminhos danificados para esse propósito.

    Os moradores de Lombelho, na freguesia de Alfena, concelho de Valongo, estão preocupados com o aumento da voltagem da linha de Alta Tensão que atravessa aquele lugar para o dobro do existente desde há 13 anos. Contrariamente ao que tinha sido acordado com a REN, a voltagem de 220 KVs foi alterada para 400 KVs “sem aviso prévio”, causando um “barulho ensurdecedor”[ref]Semanário Verdadeiro Olhar, 30-12-2013[/ref]. Vários moradores confirmaram que ao realizarem testes em compartimentos das suas casas, através do uso de busca-pólos, este se “acende no ar sem estar em contacto com aparelho algum”[ref]A Voz de Ermesinde, 15-4-2014[/ref], detectando electricidade. Além de moradias que ficam junto à linha, localiza-se ali também a escola Básica do 1.º Ciclo de Lombelho.

    No Alto Douro, o atentado ambiental perpetuado pela EDP, através da construção da barragem da foz do Tua, não se ficou por aí. Agora é a linha de Muito Alta Tensão, projectada para escoar a energia produzida no AHAT (Aproveitamento Hidroeléctrico Alto Tua) para a Rede Nacional de Transporte de Electricidade, que continua o processo de destruição do habitat e das características especiais dessa região.

    matAs linhas de Alta Tensão e os riscos para a saúde

    Têm sido efectuados vários estudos por diferentes grupos de cientistas internacionais sobre a ocorrência de leucemia infantil, alzheimer ou esclerose lateral amiotrófica, resultantes da exposição a longo prazo aos campos electromagnéticos das Linhas de MAT.

    A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera ser possível que campos electromagnéticos de baixa frequência possam estar associados a algumas formas de cancro, nomeadamente a leucemia infantil, recomendando medidas de precaução. No que diz respeito ao campo eléctrico, a OMS considera que só há efeitos sobre o sistema nervoso acima dos 10 kV/m, o que só é possível de atingir muito perto dos condutores de Alta Tensão. Estes limiares correspondem a reconhecidos efeitos agudos e foram traduzidos numa recomendação da OMS de 1998, adoptada pela União Europeia em 1999, e que veio a ser transposta para a lei portuguesa em 2004.

    No entanto, o grupo “Bioiniciativa”[ref]www.bioinitiative.org[/ref], incorporando vários cientistas internacionais, apresentou em 2007 um relatório[ref]BioInitiative Report: A Rationale for a Biologically-based Public Exposure Standard for Electromagnetic Fields (ELF and RF), 31-08-2007[/ref] em que são contestadas as posições da OMS relativamente aos valores padrão considerados prejudiciais para a saúde. Assim, o grupo Bioiniciativa reclama mais medidas e maior precaução contra as fontes geradoras de campos eletromagnéticos, nomeadamente o enterramento generalizado das linhas de Alta Tensão.

    A proposta de enterramento das linhas de MAT, sendo um mal menor, resolve apenas parcialmente o problema de exposição aos campos magnéticos e a destruição de património natural. O enterramento das linhas implica a construção de um corredor de 13 a 14 metros de largura (para um cabo de 400 KVs), o equivalente a uma estrada secundária, aumentando inclusive o campo magnético à superfície desse corredor.

     

    Júlio Silvestre
    Fotos (linhas de MAT em Alfena): Ursula Zangger

     

     

  • Derrame de interesses na Praia da Vitória

    Derrame de interesses na Praia da Vitória

    SONY DSCSituado na ilha Terceira (Açores), o concelho da Praia da Vitória alberga a Base Aérea das Lajes, sob o controlo dos americanos desde 1946. Esta serviu, durante muitos anos, como ponto estratégico na Guerra Fria e, apesar da tendência apontar para uma diminuição do efectivo militar na Base, novas tensões entre os EUA e Rússia podem alterar este fluxo.

    Entretanto, um fluxo de outra natureza tem surgido na Base: o dos derrames acidentais dos tanques de petróleo, que têm provocado focos de poluição nos solos. Destes acontecimentos, resultou uma enorme especulação no ano de 2008, ao terem sido descobertos dados confidenciais norte-americanos que davam conta desta poluição, acrescentando ainda que estaria em causa a qualidade da água dos aquíferos de abastecimento público do concelho. O frenesim criado em torno das respostas, levou a Câmara Municipal a pedir um relatório ao LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) sobre a situação ambiental das águas do aquífero basal de abastecimento público. Salienta-se que este é o aquífero com maior relevância para a ilha Terceira. O relatório final apresentado dá conta que “a água de abastecimento público apresenta boa qualidade”, porque a sua captação é realizada a montante dos focos de poluição identificados. Contudo, não exclui a hipótese de uma possível contaminação no futuro, denominando-a uma “situação de risco”.

    O que é inegável é a contaminação dos solos! Esta é evidente e corroborada quer no estudo do LNEC quer por outros estudos realizados. Acontece que, alguns dos solos contaminados continuam a ser usados para a agricultura de subsistência de algumas famílias, pondo em risco a sua vida e de outras pessoas que consomem estes produtos. Embora a Câmara tenha demonstrado preocupação, os esforços pecaram por serem escassos e estão quase esquecidos por muitos, excepto pelos que têm conhecimento e sofrem com o problema.

    Tendo em conta que os Açores são neste momento um destino turístico cada vez mais em voga e onde se promove um local puro e intocado, seria de esperar uma maior cautela no tratamento de assuntos delicados e que colocam em risco esta imagem.

    Pelo contrário, nos últimos tempos, o porto da Praia da Vitória foi oferecido como local de transbordo de armamento químico provindo da Síria, em mais uma demonstração de total entrega e submissão do governo português perante os interesses das “grandes nações”.

    Interessa saber que custo o governo está disposto a pagar, de modo a manter uma imagem “limpa” para o exterior, ao mesmo tempo que acumula a imundice de desprezar e desrespeitar as pessoas e o meio. Talvez um dia todos se lembrem do que agora só podem recordar!