shop-cart

Lendo: A WEB SUMMIT E O DELÍRIO COLETIVO DE QUE TODAS PODEMOS SER MILIONÁRIAS

A WEB SUMMIT E O DELÍRIO COLETIVO DE QUE TODAS PODEMOS SER MILIONÁRIAS

A WEB SUMMIT E O DELÍRIO COLETIVO DE QUE TODAS PODEMOS SER MILIONÁRIAS


Quem passa pela WebSummit em 2022 assiste a uma performance de optimismo que (mal) esconde a ansiedade das elites tecnológicas que tentam desesperadamente convencer a audiência, e o mundo, de que a recessão é uma “oportunidade maravilhosa”.

No primeiro dia, a abrir o palco dedicado ao Marketing, uma coach aconselha-nos a estabelecer uma intenção para o nosso dia: reflectir sobre o que queremos melhorar em nós próprias e como aumentar a nossa autenticidade. À nossa volta, todos os produtos são verdes, rodeados pela apaziguante “estética à Galp” de stands forrados com relvado sintético. Até ao final do evento, irá pairar no ar um optimismo doentio de que tudo vai ficar bem, desde que sejamos fortes e produtivos enquanto o mundo colapsa. É self-care e ver as crises como uma oportunidade. Se a crise é sem dúvida uma oportunidade para os seus arquitectos, não o é para a larga maioria da população mundial, nem tão pouco para as milhares de jovens empreendedoras que encheram a FIL e que, enfatuadas pelo romance capitalista da trabalhadora que passa as noites no escritório, esperam também tornar-se milionárias.

QUEM QUER SER CEO?
O formato TED Talk domina as intervenções dos mais de 40 palcos que debitam dicas rápidas para o sucesso. As apresentações duram entre 10 a 20 minutos, estão belissimamente ensaiadas e nunca ultrapassam o tempo previsto. O formato permite fundir um tom aparentemente científico com um sales-pitch, temperado com entretenimento suficiente. A linguagem é empresarial, quase evangélica, e frequentemente dedicada a vender um produto. Como acontece com toda a publicidade, isto lança frequentemente uma visão do mundo completamente desligada da realidade. As frases curtas fazem lembrar o tweet perfeito, conciso e pertinente, que a audiência certamente irá partilhar nas redes sociais – tweet it if you want Beyoncé to see it.
Pode dizer-se que o grande arco temático das intervenções é a demonstração de como as oradoras, e as suas empresas, conseguem lucrar no atual contexto das crises múltiplas do capitalismo. Em cima do palco estão as CEO’s milionárias, na audiência estão as jovens start-ups que querem enriquecer. Desfilam receitas para vingar que incluem os ingredientes mais picantes, da ecologia à justiça social – sobre a “diversidade” dentro das equipas de trabalho, por exemplo, saiba-se que “as equipas diversas são mais lucrativas”.
As verdadeiras gladiadoras do formato TED Talk são aquelas que, nos Palcos Pitch, apresentam a sua ideia em 3 minutos a um painel de investidores, tipo shark tank, num gigante concurso que irá culminar numa ideia vencedora anunciada no último dia. Como dita a lei do pitch, uma rapariga começa por lançar uma pergunta à audiência: ‘Sabem qual é o emprego mais stressante do mundo?’. Depois de alguns segundos responde “organizadora de eventos”, numa afirmação tão refém do acto publicitário quanto disconectada da realidade.

A EUROPA ESTÁ DE VOLTA!
Não é de estranhar que a WebSummit seja uma expressão apurada da cultura ocidental e da sua devoção ao capital, assim como das relações neocoloniais que o Ocidente mantém com o resto do mundo. Ouviu-se frequentemente falar de outros continentes como “mercados de fronteira”, onde os produtos saturados de utilizadores ocidentais têm outros biliões de utilizadores à espera de ser “monetizados”. Do outro lado, o Ocidente sempre engendrou criativamente novos recursos para predar. O ministro francês para a transição digital bem lembrou os tempos de glória da Europa como berço de importantes invenções, como a impressão, a democracia ou as vacinas. A Ásia e os EUA são hoje uma ameaça ao imperialismo europeu, mas o ministro garantiu que a Europa irá retomar a dianteira – o Macron já o está a fazer, baixando os impostos e atraindo investimento estrangeiro – e terminou, de braço no ar, “A Europa está de volta! E a França está de volta!”

UNS COMEM OS FIGOS E A OUTROS REBENTA-LHES A BOCA
Os Estados também têm os seus stands onde vendem as suas jurisdições. Concorrem, com as suas diferentes regulações e incentivos, para atrair investimento privado estrangeiro, nómadas digitais e outros indicadores de modernidade. Ao contrário do que apregoam os mais exagerados defensores do mercado livre, os Estados não são dispensáveis no cenário do capitalismo futuro: sem legislador, juiz ou polícia, quem assegura o direito à propriedade? Os Estados têm assim dois importantes papéis a cumprir: ser o braço militarizado do capital, que assegura a defesa dos seus bens; ser o braço financiador do capital, onde se revela fundamental a capacidade de saquear fiscalmente a população.
A WebSummit é um desses affairs promíscuos entre despesa pública e lucro privado. De acordo com o contrato assinado em 2018, o evento recebe do estado português cerca de 8 milhões de euros por cada edição até 2028. Desses, 3 milhões saem do orçamento da Câmara de Lisboa, que irá ainda assumir os custos da expansão da área expositiva da FIL para 90 mil metros quadrados. Para compor o ramalhete, Carlos Moedas acaba de lançar uma “Fábrica de Unicórnios” (um unicórnio é uma empresa avaliada em mais de 1 bilião) no Hub Creativo do Beato, onde a Câmara de Lisboa vai enterrar mais cinco milhões de euros (pelo menos). No primeiro dia do evento, o ministro da economia anunciou ainda 90 milhões de euros em vouchers para start-ups, e outros 20 milhões de euros para incubadoras. Ao mesmo tempo que a esmagadora maioria da população se vê incapaz de pagar por habitação digna, ou até por latas de atum, o governo anuncia vistos para nómadas digitais, fazendo explodir ainda mais os preços do imobiliário. Será que as fantasias de crescimento eterno irão sobreviver “nesta economia”?

O INVERNO ESTÁ A CHEGAR
No palco dedicado à finança, descobre-se como sobreviver ao “inverno” da recessão global, um termo emprestado pelo crypto-winter, que identifica os períodos (como agora) em que as criptomoedas estão em baixa. É necessário renovar a fé dos agentes de mercado e portanto repetem-se frases como “a crise é uma oportunidade maravilhosa”, “é o momento de consolidar a posição no mercado” ou “se consegues fazer dinheiro no inverno, farás toneladas de dinheiro depois”. Não se chega a perceber bem como fazê-lo, mas certamente terá a ver com a intervenção divina da famosa mão invisível do mercado. Entre aquelas que foram tocadas pela mão invisível está Anne Boden, fundadora e CEO do Starling Bank, um banco digital, sem balcões, que se fartou de fazer dinheiro durante a pandemia. Hoje, o banco tem cerca de 2,7 milhões de utilizadores ativos no Reino Unido e é descrito como um multi-unicórnio. A história de Boden encaixa no típico conto de fadas: a filha de um metalúrgico que saiu de um bairro humilde e acabou milionária à frente de um banco. Depois de se formar em ciências da computação, trabalhou em meia dúzia de bancos, ingleses e internacionais, onde aprendeu os truques do ofício. Como em centenas de filmes de Hollywood, um dia decide lançar o seu próprio banco: arregaça as mangas e senta-se a uma secretária, disparando telefonemas para angariar investidores. Em 2015, depois de angariar uma dívida de 1 milhão e de ser abandonada pelo resto da equipa, a sorte – ou melhor, o bilionário – bateu-lhe à porta. Como conta o The Guardian 1:

“[Boden] foi convocada às Bahamas para conhecer o bilionário Harald McPike, que estava interessado em investir no mercado bancário «alternativo». Durante três dias – alguns deles no seu iate – ele fez-lhe uma série de perguntas (…). Quando Boden regressou a casa, já tinha um apoio de 48 milhões de libras. Em julho de 2016, o Starling conseguiu a sua licença bancária”.

Galeria da Sotheby’s no metaverso da Decentraland.

TRENDS: A WEB3 E O METAVERSO
Nesta WebSummit fizeram-se vários apelos para que se deixe de falar em blockchain, o protocolo descentralizado que se popularizou com a Bitcoin. A tecnologia é demasiado complexa para a população leiga e assim os produtos não vendem. O que as pessoas querem é uma app que funcione, independentemente do protocolo que a suporta. Em substituição, fala-se na Web3: a internet descentralizada. Em vez de dados centralizados nos mega-servidores da Google ou do Facebook, como acontece na atual Web2, os dados ficam armazenados de forma distribuída pelos vários computadores que operam a rede. Como dizia uma marketeer, enquanto que na Web2 as empresas sequestram os nossos dados, na Web3 as empresas terão de pedir delicadamente por eles. Na Web3 seremos “livres” para vender os nossos dados, tal como somos “livres” para vender a nossa força de trabalho no mundo analógico.
O metaverso é a grande tusa da Web3. O metaverso é o mergulho total – experiências imersivas, como realidade virtual ou realidade aumentada. Todas garantem que o metaverso não é de ninguém; a infraestrutura é aberta e livre – já que funciona em cima de um blockchain, mas isso não interessa. O que interessa é que em cima da infraestrutura livre podem funcionar apps proprietárias e é isso mesmo que os gigantes tecnológicos se propõem fazer: colonizar a Web3, a próxima fronteira exótica da Internet como a conhecemos hoje.
Uma experiência já em curso no metaverso é o jogo Decentraland, uma espécie de Sims com uma wallet, em que as jogadoras podem comprar e vender coisas. No Decentraland, podes comprar propriedade – slots de superfície no mapa do jogo. Quem comprou um slot foi a americana Sotheby’s, uma sociedade de vendas de obras de arte por leilão. Nesse lote, a Sotheby’s abriu uma galeria de arte digital que as jogadoras podem visitar e organizou um leilão que teve mais gente do que é costume na galeria que a Sotheby’s tem em Nova Iorque. Hoje a Sotheby’s; amanhã, quem sabe, o Pingo Doce, a Uber e uma loja do cidadão.

YOU ARE THE BEST, PADDY!
A sessão de encerramento aconteceu no pavilhão da Altice Arena. A lotação ficou praticamente esgotada para ouvir o Noam Chomsky que, com 94 anos, fez uma intervenção sobre os últimos avanços na área da Inteligência Artificial. O Chomsky não falou enquanto filósofo anti-imperialista que muitas conhecem, mas sim na qualidade de linguista, cuja abordagem estruturalista lhe vale o título de “pai da linguística moderna”. A sua crítica foi, por isso, de tom científico, brando e tecnicista. Mas logo a seguir, em doses intoxicantes, foi reposto o ambiente de show televisivo, com o anúncio da start-up vencedora do concurso de pitches, com muitos confettis e uma empreendedora à beira das lágrimas. Para encerrar o evento, o palco recebeu Marcelo Rebelo de Sousa que entrou em palco na galhofa, com a audiência em êxtase, a gritar “7 years! Congratulations, Paddy! You are the best, Paddy! He is the best!” Varreu a audiência à procura do Carlos Moedas e, depois de o encontrar algures nas primeiras filas, apontou-lhe o dedo e fê-lo prometer ali mesmo que a Câmara de Lisboa avançaria para o ano com as obras da FIL. A arena iluminada em tons de catedral viu confirmadas nas palavras do presidente que, perante os vários desafios que o mundo enfrenta, só o “digital” salvará as nossas vidas. Ainda bem, nesse caso, que a WebSummit acontece em Lisboa, território santo, onde culmina a peregrinação anual das milionárias do futuro.

 


Texto de L. Silva


Written by

Jornal Mapa

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “A WEB SUMMIT E O DELÍRIO COLETIVO DE QUE TODAS PODEMOS SER MILIONÁRIAS”