Autor: Diogo Duarte

  • Negação e antifascismo

    Negação e antifascismo

    O manto da ilusão de estabilidade, paz e progresso, que pontualmente se afirmou na história do século XX europeu, caiu há muito. A sensação que nos percorre não é mais a de nos estar a faltar «algo», mas sim a de nos estar a faltar «tudo». Deixou de haver alguma coisa a perder. Mas essa sensação não é nova. Os deserdados dessa ilusão sempre existiram. Tentou-se escondê-los na cave para não perturbar a fotografia, mas, por vezes, conseguiram sair desse lugar escuro e invadir a festa para a qual não foram convidados. No pós-guerra, alguns dos deserdados mais ruidosos, incómodos e incategorizáveis saíram precisamente dos locais de onde irradiavam as luzes do progresso e da civilização. No final dos anos 60, as ruas de Paris enchiam-se de multidões e de barricadas. O tédio e a letargia que oxigenam o sangue das democracias viam-se abalados por breves momentos e Charles de Gaulle, o presidente francês então em funções, assistia com pavor ao festim de «grupos de revoltados contra a sociedade moderna, contra a sociedade de consumo, contra a sociedade tecnológica, seja ela comunista, a Leste, ou capitalista, a Ocidente – grupos, além do mais, que não sabem o que deviam pôr no lugar dela mas que se comprazem na negação». Aqueles que encontram no próprio acto da destruição «uma volúpia criadora» (Bakunin) e se recusam, por essa razão, a projectar antecipadamente o que erigir no lugar das ruínas, são por excelência os sujeitos que dominam os pesadelos mais aterradores de qualquer forma de autoridade. Aos olhos daquele que governa e que só vê ordem, são selvagens: não se percebe de onde vêm nem se sabe para onde vão.

    Não foi preciso muito tempo para que o júbilo da negação voltasse a abalar os bons costumes. No Reino Unido, no final dos anos 70, um bando de insolentes atacava o presente enquanto dizia não haver futuro. Em 1978, com alegre rancor, os Crass gritavam «the Frankenstein monster you created/ Has turned against you now you’re hated» (Reject of Society). Uns anos depois, em 1982, e seguindo o caminho mais metafísico e negro que definiria o Black Metal, os Venom anunciavam, com menos espalhafato que os punks, que «If God won’t have me, then the Devil must» (Raise the Dead). Para além das letras, a estética sonora e visual destes estilos que então se desenhavam revelava um prazer semelhante com a decadência: em gravações absolutamente merdosas misturavam-se instrumentos desafinados, guitarras carregadas de distorção e fuzz, berraria e sujidade. Mais importante, abriam a possibilidade de qualquer zé-ninguém se fechar numa garagem com os amigos e, sem tibiezas, lançar um escarro no mundo de que nunca fizeram parte. A beleza do que exprimiam não vinha da melodia, da harmonia e da mestria técnica, mas sim das cidades a desfazerem-se, do fumo das fábricas e das lixeiras a viciar os céus, do cheiro pútrido dos esgotos a invadir os salões de gala. Punk e Black Metal surgiam como a mesma expressão contraditória de repulsa e paixão por um mundo à beira do abismo.

    Algo capaz de chegar a pontos tão extremos não existiu sem incoerências – em alguns casos tão antagónicas que ameaçaram anular toda a força contida nos movimentos imprevisíveis dos dois géneros. Muitos dos deserdados que fizeram a história destes estilos musicais, confundiram o gesto da negação com as suas frustrações pessoais e divergiram do potencial emancipatório da destruição que decidiram abraçar. Em especial no Metal (e muito em particular no Black Metal), mas também no Punk, houve quem julgasse que o racismo, a xenofobia e a homofobia eram formas de fugir do mundo que diziam odiar, quando na verdade só os tornava mais parte desse mundo. Celebrar, hoje, o tumulto que estes estilos causaram implica, por isso, recusar os remédios que alguns dos seus protagonistas nos tentaram impingir e resgatar a denúncia obscena do diagnóstico que ofereceram.

    A Amplificasom revela a coragem para separar as águas e tornar inóspito um sítio onde antes se sentiam confortáveis aqueles que nele não têm lugar.

    É por não saber distinguir uma coisa e outra que muitos se mostraram ofendidos com o anúncio que a promotora Amplificasom fez no seguimento das eleições presidenciais e da «revelação» de que há 500 mil idiotas no país infectados por uma estirpe muito particular de idiotice. Em comunicado, a promotora do Porto afirmou que «a Amplificasom e o Amplifest são anti-fascistas. Nos nossos eventos NÃO há espaço para fascismo, LGBTfobia, racismo, sexismo ou aporofobia». E, com estrondo, fecharam a porta do festival, deixando de fora os pelintras que sonham fazer um banquete ainda mais exclusivo do que o que já existe mas que ficam muito escandalizados quando são excluídos dos banquetes dos outros. Não negamos que possa haver uma dose de marketing na intenção da promotora. Mas a sua importância deve ser apurada, antes de mais, pelas águas contaminadas em que esta se move. O Amplifest reúne todos os anos bandas de renome mas que, no geral, navegam por algumas das franjas marginais do Metal (e não só). Tal como se disse, o Metal sempre atraiu umas almas perdidas que acharam encontrar ali pasto fértil para o fascismo. Com isso, tentaram sacrificar o espírito de negação – profundamente individualista e anti-totalitário – contido no imaginário de muitos dos estilos que compõem este campo musical; confundiram os despojos do velho mundo de que estes se fizeram com materiais prontos a ser reciclados e usados para erguer fantasias de grandes líderes, sonhos de poder e ódios selectivos. O apocalipse anunciado por muitas destas bandas sempre foi a expressão de um desejo para acabar irremediavelmente com o que existe e existiu – «uma revolta contra o mundo moderno», nas palavras de uma das bandas que integra o cartaz, os Wolves in the Throne Room (WTR). Nunca foi uma fórmula hipócrita para regressar a mundos que desapareceram, nem uma panaceia para recuperar um mundo que definha aceleradamente. Os WTR são, aliás, uma das bandas que mais tem contribuído para destruir os equívocos reaccionários que assolaram o estilo. No universo lírico da banda norte-americana, desenha-se uma ecologia de inclinação anarquista que se eleva contra o antropoceno e resgata-se o espírito niilista para o opor à estupidez misantrópica com que foi deturpado. Com o seu gesto, a Amplificasom revela a mesma coragem para separar as águas e tornar inóspito um sítio onde antes se sentiam confortáveis aqueles que nele não têm lugar.

     


    Ilustração [em destaque] de Ana Farias

  • Histórias impossíveis

    Histórias impossíveis

    “(…)não é possível escrever uma história do punk, mas é certamente possível escrever muitas histórias do punk. Diria que tantas quantas quem decide escrevê-las ou tantas quantas as experiências individuais de quem o vive ou viveu”

    Será possível escrever uma história do punk? E será que faz falta a alguém? Há uns números atrás abri as páginas do livro As Palavras do Punk nesta crónica, livro esse que partindo da sociologia oferece um retrato histórico do punk e do hardcore em Portugal. Como se viu pela crónica passada, não tive grande coisa de positivo para dizer sobre a referida obra. Mas, para arrumar o assunto, fique claro que o fracasso do livro não tem nada que ver com o esforço, a intenção e a paixão que a autora Paula Guerra dedica ao tema. Tem sim que ver, acima de tudo, com o caminho escolhido para dar um sentido afirmativo à pergunta que abre este texto. Em poucas palavras, e para não me repetir, o subtítulo promete “uma viagem fora dos trilhos pelo Portugal contemporâneo” e o que nos oferece é um punk arrastado para dentro dos trilhos mais calcorreados e gastos quer da historiografia portuguesa quer de algum discurso sociológico, deixando-nos, no fim, um punk calçado com uns ténis imaculados e umas solas impecáveis, sem o mais leve indício de ter percorrido qualquer caminho. Um punk inofensivo e desinteressante, pouco mais do que uma identidade juvenil, em que dificilmente se reconhece a repulsa, o desconforto, o entusiasmo, a novidade, em suma, a intensidade sentida por muitos daqueles que com ele se cruzaram e vão cruzando.

    As respostas breves às perguntas iniciais são não e não. A história do punk interessa a quem o viveu acima de tudo como memorabilia, como viagem para satisfazer um certo vazio nostálgico, e dificilmente pode ser feita sem cristalizar o seu dinamismo e heterogeneidade. Mesmo as tendências mais disruptivas – e, talvez, especialmente estas – dão excelentes mercadorias e mostram-se muito atractivas a quem lhes pretende colocar uma trela. Não que isto seja uma razão para deixar de escrever tal história. Afinal, não há fuga possível num mundo em que até um balde de merda pode ser posto à venda no ebay. O interesse em escrever tal história existe, também por isso, como resposta a essas cristalizações e a apropriações por gente alheia que se interessa pelo «exotismo» do punk mas que não tem outra forma de agarrá-lo senão à martelada. Trocando isto por miúdos, e correndo o risco de ser apelidado de aldrabão, não é possível escrever uma história do punk, mas é certamente possível escrever muitas histórias do punk. Diria que tantas quantas quem decide escrevê-las ou tantas quantas as experiências individuais de quem o vive ou viveu. E há formas de fazê-lo sem transformá-lo numa borboleta amestrada. O livro duplo Corta-e-Cola: Discos e Histórias do PUNK em Portugal, escrito por Afonso Cortez, e Punk Comix: Banda Desenhada e Punk em Portugal, do Marcos Farrajota, editado em formato split pela Chili Com Carne (2017), oferece-nos, nem mais nem menos, duas histórias impossíveis do punk em Portugal, ambas profusamente ilustradas. Tanto uma como a outra abraçam com sucesso essa impossibilidade e fazem-no a partir de perspectivas e com fins completamente distintos.

    A metade do livro que responde mais directamente àqueles que se renderam à beleza do morto e passaram a ostentá-lo na lapela, dando ao punk ares de glória e reclamando-o como medalha num currículo feito às suas avessas, é Corta-e-Cola do Afonso Cortez. Responde às sedações académicas e identitárias que lhe vão sendo administradas recusando defini-lo e procurando-o, antes, «na voz de quem lá esteve». Usa as capas dos discos editados em Portugal, entre 1977 e 1998, com o seu mau gosto, ousadia ou provocação, para espreitar essa coisa contraditória, fragmentada e em «em permanente mutação» (p. 15) a que chamamos punk. O livro não pretende ser senão isso. Tendo sido em muito maior número as bandas que nunca deixaram qualquer registo, e indo o punk muito para lá quer da sua cultura material quer da música, todas as outras histórias ficam por escrever. Mas, como nos mostra o Afonso Cortez, pegar nesse pormenor da experiência do punk permite-nos abordar a enorme quantidade de vivências que coexistiram ou aconteceram ao longo deste período e reclamaram a mesma designação – mesmo quando elas foram diferentes ou inconciliáveis ao ponto de parecer não haver outra possibilidade de diálogo senão aos gritos ou à pancada.

    Marcos Farrajota, em Punk Comix, pega a coisa de forma ainda mais estrambólica e faz jus como ninguém à ideia de «história impossível». A banda desenhada será, provavelmente, algo tão bizarro quanto o punk para historiar ou dissecar como se fosse um rato num laboratório. E, por isso, o punk serve perfeitamente o propósito de passear pelo percurso da BD portuguesa e espreitar o que esta conta sobre aquele. Digamos que narrar tal relação quase inexistente só é exequível pela fluidez e indomabilidade dos dois, o que lhe permite procurar e esmiuçar não só as representações do punk nas tiras por cá publicadas, mas, acima de tudo, as hipotéticas contaminações mútuas, nomeadamente pelo espírito DIY, independente e até algo marginal que caracteriza muitas das suas expressões. O livro lê-se tão bem que o seu propósito é cumprido com distinção: «ser lido tão rapidamente como se ouve um LP dos Ramones». E cumpre ainda outra coisa assinalável: o de ser, muito provavelmente, o primeiro trabalho de teor historiográfico a citar o Jornal Mapa, reconhecendo-lhe, justamente, um lugar na história (infelizmente, não consigo indicar o lugar da citação porque esta metade do livro não está numerada, mas confiem em mim).

    Ambos os livros valem por si só, mas não deixam de ser formas de resistir aos usos oportunistas e soporíferos que se vão fazendo do punk. Seja como for, nem tudo é sobre resistência. Às vezes o prazer distrativo de uma boa leitura é suficiente. Mesmo que um gajo tenha escolhido como máscara para respirar neste mundo «um ar de guerra permanente com o sistema» (Corta-e-Cola, p. 25), a verdade é que também se cansa e precisa de baixar as armas, deleitando-se somente com estas visitas museológicas e com a exposição em vitrines do que viveu e não pode ser revivido da mesma forma.

    corta e cola

    Corta-e-Cola: Discos e Histórias do PUNK em Portugal (1978-1998)/Punk Comix
    Afonso Cortez e Marcos Farrajota
    Chilli con Carne/Thisco
    2017

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #24, Agosto|Outubro 2019.

  • No fim era o frio

    No fim era o frio

    As ideias sobre o fim do mundo são provavelmente tão antigas quanto o início da vida humana. O medo do desconhecido e a impotência perante forças insondáveis (a natureza, deus, a morte) desdobraram-se, no nosso imaginário, em múltiplas expressões da vulnerabilidade e da efemeridade da nossa condição. Nas últimas décadas, houve uma explosão da consciência da possibilidade desse fim: no cinema e na música, nas ciências naturais e sociais, na filosofia. Mas a forma como antecipamos e imaginamos esse fim, mudou. Deus morreu antes da sua própria criação e não é mais o centro dos nossos temores. Também as catástrofes naturais deixaram de ser redutíveis a uma ideia exógena de «natureza»: são, cada vez mais, resultado inevitável da acção humana. E mesmo a violência dos seus efeitos é, principalmente, consequência da desigualdade que estrutura as nossas relações e não da incapacidade paralisante de outros tempos.

    Sismos, cheias, epidemias, tal como vimos nos últimos anos – Haiti, 2010; Katrina em New Orleans, 2005; Ébola ou, porque não, a presente COVID-19 – catástrofes com uma dimensão bem para lá da simples fatalidade natural. O ser humano passou a ser o principal agente da sua própria destruição.

    Em Portugal, um dos mais recentes sinais desta sensação de fim que atravessa o mundo, vem – sem estranheza – daqueles que um dia foram apelidados de «narradores da decadência», como os Mão Morta, com o recente álbum No Fim Era o Frio (2019). No cenário que vivemos nestes dias, o álbum parece ter-se tornado súbita e paradoxalmente deslocado, ultrapassado e até anacrónico. A ameaça das alterações climáticas que subjaz a sua narrativa deixou de ocupar o centro das nossas preocupações quanto ao colapso civilizacional e à destruição do planeta. Mas procurar no imaginário das distopias/ utopias previsões futuras é um erro. Estas não servem para nos dar mapas, profecias, ou projectos acabados. Mais do que o que dizem sobre o futuro, interessa o que dizem sobre o presente em que surgem. Não só enquanto crítica desse presente, mas enquanto sintomas do descontentamento e das percepções críticas mais ou menos difusas que o atravessam.

    Por isso mesmo, o apocalipse que nos é contado pelo álbum dos Mão Morta continua tão actual como há seis, ou sete meses atrás quando foi lançado. O mais importante não mudou: continuamos a ser os agentes da nossa própria destruição. A maior ameaça não está no mar que invade a terra e nos empurra para as montanhas, como em No Fim Era o Frio, ou no vírus invisível e aborrecido que nos chega principalmente através da sua espectacularização mediática. O frio de que nos fala o título está há muito entre nós. Sentimo-lo ainda mais, agora, na solidão das nossas casas, no tédio das rotinas entre paredes, nas fugas esporádicas e cronometradas a um exterior onde antes encontrávamos calor e onde agora só parece haver distância. Não precisamos dos «fatos herméticos que impedem o toque, o beijo e o amor» (in O mundo não é mais um lugar seguro) para perceber que atomização é aquela que nos conta esta história. Nem precisamos das paredes vidradas de um bunker para reflectir a nossa agonia (in Passo o dia a olhar para o sol), bastam-nos as paredes da nossa própria casa.

    oficina arara
    Ilustração da Oficina Arara para Mão Morta.

    A atitude expectante que nos prende «às janelas envidraçadas, a aguardar as águas que se aproximam», ou que nos faz passar «o dia a olhar o sol, ofuscados pela ânsia da salvação», sem nos deixar «chamar vida a esta inércia», há muito que se banalizou. O mundo que é narrado e que não é mais um lugar seguro, é um mundo que há muito deixou de o ser; é o mesmo mundo que se tornou «apenas o lugar de um desconforto crescente e de uma solidão cada vez mais cruel e sem fim à vista» (idem). O presente só ajudou a expor a atomização e a solidão que há muito se espalhava de forma mais contagiosa do que qualquer surto pandémico. Tornou-se um chavão, repetido vezes sem conta, a ideia de que «é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo». A crise instalou-se de tal forma que deixamos de conseguir visualizar um mundo diferente depois do fim deste. Poucas pessoas antecipam a sua possibilidade para lá do muro que nos fecha nessa impotência. Forçadas a ficar entregues a nós próprias, não conseguimos senão deixar-nos assoberbar pelo tédio de contemplar o mundo que definha, como pessoas amarradas a um presente que parece eterno. Até os desejos de quem nos diz que depois disto alguma coisa vai mudar, porque a podridão já não se esconde mais debaixo do soalho brilhante mas está, agora, à vista de todas as pessoas, são pouco mais do que sonhos passivos. São uma esperança, essa trela da submissão de que nos falavam há mais de vinte anos os mesmos Mão Morta, citando Raoul Vaneigem (in Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável, 1998).

    A ideia do vírus parece acelerar a normalização deste paradoxo que é uma comunidade atomizada. O Outro, que sempre serviu para unir comunidades, já não é algo que se distinga de um Nós, como algo exógeno. É, sim, algo que pode estar dentro de nós. Toda a pessoa pode ser o inimigo. A fantasia do papão terrorista trouxe o inimigo para perto de nós, mas o vírus superou-a trazendo-o para dentro de nós. Se o terrorismo já servia para abrir a porta a todo o tipo de aparatos securitários e de vigilância, imagine-se o que nos traz o medo de ter que enfrentar um inimigo desconhecido e invisível que afecta todas as pessoas sem excepção, colocando, por isso, todas do mesmo lado. É um inimigo que não suscita qualquer possibilidade de simpatia, condescendência, ou compreensão. Não é mais uma entidade com interesses específicos que está ameaçada – uma nação, uma religião, um ideal –, são todas as pessoas enquanto espécie.

    Assim nos querem fazer crer. Talvez para que passemos a acreditar que estamos de facto «todos no mesmo barco». Mas não estamos. Acabo como comecei: os desastres naturais, ou todos os cenários que possamos imaginar que o fim assumirá, há muito que deixaram de ser naturais. Tais desastres são tão naturais quanto sociais. E o mesmo se pode dizer da forma como enquanto espécie nos impusemos sobre o mundo e o moldámos em função dos nossos desígnios. A distinção entre sociedade e natureza nunca foi tão insubsistente. Serve apenas a vontade daqueles que procuram naturalizar o calculismo da sua acção perante a catástrofe, «a crise que aí vem», ou as respostas draconianas e desproporcionais que vêm embrulhadas no manto da «emergência». Se esta é uma guerra, lembremo-nos que não há guerras em que seja impossível distinguir entre o amigo e o inimigo. Não entreguemos a nossa vontade a quem faz da catástrofe uma fatalidade para se eximir da responsabilidade das suas decisões. É esse o inimigo. E, enquanto o seu mundo acaba, há outros mundos por fazer. Não nos resta só o frio. Ainda.

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #27, Maio|Julho 2020.

  • Uma noite que não acaba nunca

    Uma noite que não acaba nunca

    A inesperada reforma antecipada de Allen Halloween mudou-me os planos para esta crónica. Com a saída de cena deste bandido que já nasceu velho, perdemos um dos maiores cronistas de uma parte de um vasto território ocupado que as estatísticas não representam e que os noticiários só usam como pasto fértil para alimentar o monstro insaciável dos pesadelos e mitos que entretêm e sustentam a chamada classe média. Um território (ou territórios) invisibilizado e ignorado, mas densamente povoado, que vive debaixo do tapete, distante da gente elegante exibida em praça pública e das preocupações oficiais que insistem em fazer-nos crer ser comuns. O desemprego, o salário de merda, a ausência de presente e de futuro, toda a imundice quotidiana de quem percorre a vida um dia de cada vez: o país que ninguém ouve e ninguém vê, o país onde habita a maioria e que só aparece como contraste a essa classe idealizada e imaginária, mais definível por aquilo que não é do que por uma suposta coesão socioeconómica ou por qualquer traço comum entre aqueles que por ela são categorizados. Mais do que um território, é um país que é varrido para debaixo do tapete, o lugar para onde se empurra o que ninguém quer enfrentar.

    allen-halloween

    Não é de negar que a transversalidade da popularidade de Allen Halloween se deva, também, a essas fantasias de um mundo sem rei nem roque que satisfaz alguns dos mitos fundacionais da «nossa» sociedade: para alguns, as suas letras oferecem uma janela para um mundo onde a criminalidade serve a sobrevivência e é usada como a corda possível para fugir ao negrume de um poço cujo fundo parece não existir. Mas, contrariamente a tantos outros rappers, não há qualquer romantização da criminalidade (nem qualquer condenação moralista), não há glamour ostentatório nem tentativas de afirmação badass. Está lá a carga que poderíamos chamar gangsta, mas pesada, crua e taciturna, sem carros a brilhar enquanto deslizam por uma cidade luminosa com miúdas em pouca roupa. Nas palavras do próprio, numa entrevista concedida a um blog (nunofaulha.blogspot.com) em 2009, bem antes da sua explosão, «kriminal não significa ser um gangsta ou um delinquente, kriminal significa sobrevivente e é isso que eu sou». Narrar a sobrevivência é o que Allen faz e fazê-lo é contar a vida de «homens que deram tudo até não terem nada» (in “O Grande Gentio”), sem procurar a beleza no lixo, até porque, por muito que o reviremos, não é lá que vamos encontrar a superação catártica que regozija a plateia. «Não há paz onde não há justiça» (in “O Grande Gentio”).

    “kriminal  não significa ser um gangsta ou um delinquente, kriminal significa sobrevivente e é isso que eu sou.”

    O universo de Allen oferece-nos um drama complexo e contraditório, com toda a fealdade e absurdo da existência, mas sem catastrofismos e fatalismos trágicos. A melancolia e auto-reflexividade das histórias que nos conta, sem máscaras que sirvam a culpa e a vergonha, não nos afagam com maniqueísmos fáceis de heróis e coitadinhos. Não há vitoriosos nem derrotados, nem nos espera a luz no fundo do túnel. Há «uma noite que não acaba nunca» (in “Bairro Black”) e é nessa noite que há que fazer o caminho. A fusão da voz empastada e de cadência modorrenta com beats melódicos mas lentos e lúgubres é o ambiente perfeito para estes contos de um sobrevivente. Longe do cânone do rap, o som dialoga com ambientes familiares a diferentes registos musicais, o que torna difícil classificar Allen musicalmente. É conhecida e assumida a influência do grunge no trabalho de Allen, notória não só numa certa angst que perpassa o som e as letras como, também, nos berros que irrompem em algumas músicas (uma influência que se nota ainda mais no recente Unplugueto). Talvez seja o primeiro e único artista de grunge rap, mas mesmo isso parece pouco para classificá-lo.

    Allen não é um artista politizado ou de «intervenção», movido por uma agenda ou por qualquer espírito de missão. Se é cronista, como o classifiquei atrás, é, em parte, involuntário. Não pretende falar por ninguém, dar voz ou ser a voz de alguém, nem se arvora em mensageiro de uma certa «realidade». «O Halloween não é um bravo nem um G[angster]/ é uma alma perdida que vagueia na street” (in “No Love”), cuja onda que navega «não vai a lado nenhum/ antes de chegar à praia sou um homem afogado» (in “Fly Nigga”). Se uma certa realidade transparece nas letras, é sempre através da sua experiência, como se de um diário se tratasse, num imaginário que não obedece a convenções de estilo e onde convivem figuras tão contraditórias quanto as suas crews e a Mary Poppins. Para usar as suas palavras, em Allen encontramos «as folhas perdidas de um diário, (…) o quotidiano suicida de quem vive num bairro»: do branco de terceira, do cigano (in “SOS Mundo”) e, especialmente, do «homem africano, imigrante, desempregado/ Um indivíduo considerado um inimigo do estado» (in “Raportagem”). Um mundo que parece não ter lugar para a poesia mas que encontrou um poeta neste «rei [de um] rio que não chega ao mar» (in “Debaixo da Ponte”).

    Não há vitoriosos nem derrotados, nem nos espera a luz no fundo do túnel.

    Dizem que não há ateus nas trincheiras. Outros tantos, que por elas passaram, dizem que foi aí que viram Deus ficar mais longe. Por isso, a fórmula é discutível. Mas, neste quarto sem luz de onde nos escreve Allen, agitado por contradições e fantasmas, qualquer luz que surja a brilhar no escuro é algo que não se nega a ninguém. Allen anunciou, recentemente, o fim da sua carreira como rapper para se dedicar a servir Jeová, presença frequente nas suas letras. Duvido que mil igrejas a arder iluminassem tanto quanto o que partilhou. Mas o que nos deu ninguém nos tira. Em “Ódio”, há uns anos, escrevia: «Deus abandonou-me/ Deus já não me ouve mais/ Mas não é tarde/ um dia a gente faz as pazes». O anúncio de despedida terminou com o pedido para «que ninguém fique triste porque eu estou feliz». Por isso, se fizeste as pazes e tornaste mais suportável esta noite que não acaba nunca, eu fico feliz por ti, Allen. Obrigado.


    Texto de Diogo Duarte


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #26, Fevereiro|Abril 2020.

  • Por baixo do solo, tudo arde

    Por baixo do solo, tudo arde

    De repente, a sociedade portuguesa parece dividida. A extrema-direita entra no parlamento, em simultâneo com a eleição de três mulheres negras para deputadas. Antes disso, o «caso Jamaica» colocou o racismo policial em cima da mesa e fez grande parte dos racistas saírem da toca, escandalizados, ora para dizer que não há racismo em Portugal, ora para dizer que a polícia devia entrar com tanques de guerra «naqueles bairros» e varrer tudo «porque não se atiram pedras à autoridade e aquilo é uma lixeira». A intenção de construir um «Museu dos Descobrimentos» trouxe, também, a discussão pública do passado colonial português, com um lado da barricada a defender o heroísmo daqueles que só ocuparam novos territórios para fazer novos amigos, e com o outro a recordar a violência de todo o processo, com a escravatura, as violações, a expulsão dos nativos das terras que habitavam. Noutra esfera, mas com igual impacto mediático, Valete, o embaixador do rap político e consciente português, enfia o pé na argola e decide «contar apenas uma história» cujo resultado, fosse qual fosse a intenção, é um tratado de sexismo e de legitimação da violência doméstica (refiro-me a BFF).

    A verdade é que a sociedade portuguesa sempre esteve dividida. Portugal é um país racista, sexista, homofóbico. De tal maneira que durante décadas todas essas «medalhas» conseguiram ficar na sombra, banalizadas e relativizadas, reduzidas a meros fait-divers cuja existência só se notava, vagamente, quando aparecia com barulho a empunhar tacos de baseball e de soqueiras na mão. A diferença é que muitos daqueles e daquelas a quem foi negada a voz – e eram invisibilizados com ordens para se comportarem bem, viverem civilizadamente e andarem vestidos/as condignamente – começaram a irromper, pouco a pouco, na esfera pública. Começou a surgir uma massa crítica que começou a remexer no lixo e a destapar a violência com que um sistema inteiro lhes cai em cima quotidianamente. E, inevitavelmente, quando se remexe no lixo, as baratas que nele habitam começam a correr desenfreadamente em todas as direcções. Não há dia em que não surja alguém a agitar o pânico moral do seu mundinho perturbado, assustado com o «politicamente correcto», o «marxismo cultural» e outros espantalhos fantasiosos. É caso para dizer: mil vezes os excessos desse tal «politicamente correcto» do que o silêncio paralisante que reduzia, e reduz, uma parte tão grande da sociedade ao «come e cala». A sociedade portuguesa, como todas as outras, é uma guerra. Essa guerra é, por vezes, silenciosa, outras vezes, ruidosa. Mas a verdade é que, por baixo do solo“ já tudo arde, há muito tempo.

    O caso Valete é «apenas» mais uma parte deste episódio em que as chamas do subsolo nos começam a queimar os pés. Este ano, em Portugal, segundo os números da comunicação social, são já 30 as vítimas fatais de violência doméstica. No ano de 2018, foram reportados 26432 casos de violência doméstica. É fácil perceber que os números oficiais dificilmente captam a extensão do que arde nesse mesmo subsolo. É neste contexto, e, também, pelo seu estatuto de rapper consciente política e socialmente, que se deve entender a dimensão do «caso Valete» («Rap Consciente», é, aliás, o nome de uma das suas últimas músicas). Neste cenário, nenhuma história que remeta para a banalidade desta forma de violência «conta apenas uma história», reclamando uma neutralidade que não existe (há alguma história que exista só por si?), muito menos numa letra em que as duas personagens têm uma espessura digna do maniqueísmo da Disney. Na letra de BFF, a mulher é sempre a «cabra», a «puta, cona alargada, pura insana / encharcada de moralismo sempre armada em puritana»; e o homem a vítima, enganado e usado, com o seu «direito» de posse sobre a mulher violado – «uma vida debitada, dedicada a ti / o esforço que fiz para teres a vida acautelada, (…) quando fui eu que comprei as tuas jóias, as tuas roupas». Como agravante, há antecedentes: o mesmo sexismo e a mesma culpabilização moralista da vítima e ilibação do culpado já aparece na letra de Colete Amarelo, numa antecipação de BFF, ora lamentando a sina de outro amigo que assassinou «a dama dele» («cobiçar a dama dum tropa é o máximo desrespeito»), ora apontando às damas que comem «manos» e “engravidam só para prender homens» (o homem, nestas «simples histórias», é sempre passivo, coitadinho).

    Tal como disse, o estatuto de Valete não é alheio à discussão que se gerou. Não só porque um rap que se considerava de intervenção, como o de Valete, faz falta neste mundo em ebulição, mas, especialmente, porque faz falta no presente do rap em Portugal, invadido que tem sido por um bando de trogloditas (diria TRAPloditas, não quisesse eu evitar a generalização sobre o Trap, o estilo que escolheram), cuja rebeldia se resume a reclamar ouro para o pescoço, dinheiro, grandes carros e em tratar as mulheres como objectos descartáveis. Labels como a Think Music têm-nos oferecido um desfile de misoginia e materialismo ostentador, em vídeos com milhões de views, com artistas como Sippinpurpp, Lon3er Johny, ProfJam, entre outros. Para além de numa boa parte dos casos nos brindarem com mau Trap, agridem-nos também com letras cujo sumo a tirar, depois de tudo muito bem espremidinho, não é muito mais do que uma lista de prendas para o pai natal: «eu quero um Lambo[rghini]», «anéis para pôr no meu dedo», «um bom Benz», «quero dinheiro», «quero um AMG Mercedes», «só quero ouro no pescoço» e até o regalo de um retrato do convívio familiar natalício, «eu estou com a minha família a juntar o cash». Sem rap de intervenção, é para estes cromos que a passadeira fica estendida. E, entretanto, a guerra continua.

    Texto de Diogo Duarte [diogo.mainselduarte@gmail.com]