Desculpa, mas não encontramos nada.
Desculpa, mas não encontramos nada.
Lendo: Anarquismo social organizado na Galiza
A Xesta, nome da giesta, o arbusto que nasce entre as pedras, é uma organização anarquista galega nascida em 2025 e com quem falámos na Feira do Livro Anarquista da Corunha.
Como foi o processo que levou ao nascimento da Xesta?
Estávamos há vários anos a trabalhar num coletivo de memória anarquista, a trabalhar em vários formatos, mas, sobretudo, com as Mapoulas Libertárias, memórias muito anarquistas aqui dum bairro da Corunha [as Mapoulas designam as mulheres que entre 1936 e 1937 organizaram uma rede de casas-refúgio]. Começámos a fazer a feira do Livro Anarquista da Corunha, esta é a quarta edição e há pouco mais de um ano, demos um passo maior, mais teórico, que foi o Seminário de Estudos Libertários Galegos, que era um pouco para refletir em termos estratégicos, em termos teóricos, sobre a questão anarquista nos dias de hoje. E a partir da Galiza, pensando na Galiza. Dedicámos o primeiro ano a debater, a formar-nos a nós próprias e a refletir sobre anarquismo e organização.
Pode dizer-se que surgiu desse processo de procura da memória, do território? Porque é tão importante essa memória, especialmente a galega?
É impossível entender a história recente da cidade sem entender o papel que tiveram os anarquistas. Ao trabalhar a questão anarquista não a partir duma coisa mais fechada, de um ideário concreto, mas como uma questão cultural, de memória, de história relacionada com o bairro, e com formatos muito abertos, chegou-se a muita gente que não parte de uma identidade anarquista, mas que se aproximou por essas causas e que acaba, muitas vezes, por fazer parte dos nossos momentos, de estruturas como sindicatos de bairro ou laborais e até ativamente na organização que acabámos de fundar.
É muito importante pôr o foco no que é mais próximo, é muito mais fácil que as pessoas se aproximem do anarquismo, a partir dessa parte mais emocional, desse lado mais prático, sobretudo se esse referente não forem grandes teóricos, grandes senhores barbudos do século XIX, mas antes mulheres, que eram realmente militantes de base, que sustentaram movimentos sociais mesmo nas maiores crises, no momento de golpe de Estado, que deram refúgio a companheiros, que tinham toda uma rede, que foram imensamente importantes. E pôr também no centro o papel das mulheres nesta luta e nesta repressão.
Qual é a vossa perspetiva sobre as possibilidades de ligações num projeto libertário com as tradições comunais, como os baldios, aqui chamados de Mancomunidade?
Há muitíssimas possibilidades. Nem sequer podemos dizer outra coisa. Bebemos da tradição, não apenas a do socialismo libertário em geral, mas, aqui na Galiza, do movimento independentista, que, nas últimas décadas, foi o movimento mais forte, que lutou e manteve a importância dessas tradições, das Mancomunidades, dessas formas comunais de sustentação.A nossa luta, podemos vê-la como duas lutas. Uma é muito importante: somos um coletivo anticapitalista, cada ação que se faça tem de estar focada num futuro socialista libertário, ou seja, uma luta contra o sistema de exploração capitalista. É uma luta importante, talvez a principal, mas é uma luta de resistência, constróis-te sempre contra um inimigo, é uma luta, digamos, negativa. Mas também queremos valorizar o positivo. Elaborar, tecer um tipo de sociabilidade e de institucionalidade socialista libertária. Prefigurar o futuro que queremos não é uma luta de tudo ou nada, no presente podemos ir dando passos e semeando cooperativas e espaços, clínicas autogeridas, toda uma série de instituições que contenham em si, ou em potência, os sistemas socialistas libertários. E, dentro disso, podemos aprender muito a partir da tradição galega. Temos a sorte de haver locais onde se mantêm muitas dessas instituições. Os Montes em Mão Comum não são apenas um modelo interessante que podemos investigar e recuperar, eles existem juridicamente, são uma instituição enorme, mas mesmo enorme, do território galego.
Por outro lado, quando têm discussões sobre as tradições, não se deparam com visões mais conservadoras que a extrema-direita tenta capitalizar?
É verdade que a extrema-direita utiliza todo esse conservadorismo para captar muita gente, precisamente pela parte mais emocional de que antes tudo era melhor. Não transportamos essa perspetiva. Usamos a perspetiva do que havia antes, por ser anterior ao capitalismo. Talvez o que tenha mudado aqui tenha sido o capitalismo, talvez seja nessa crítica que temos de investir. Com muita pedagogia sobre o que nos desagrada agora e o que nos agradava nas tradições de antes. Talvez de que o que agrade seja que havia outros ritmos de vida, ritmos mais calmos que o capitalismo acelerou. Ou seja, a resposta é a pedagogia. Não há outra.

Em Portugal não se pode falar do ressurgimento do anarquismo, mas é notória uma maior participação de libertários, sobretudo nos movimentos ecologista e feminista. Aqui também há luta contra as minas, por exemplo…
Não na questão das minas, mas sim nas lutas ecologistas e de defesa do território. Ou seja, eólicas e celuloses. Neste momento a luta principal é contra a Altri, uma empresa de pasta de papel portuguesa, que não pôde construir a sua fábrica de celulose em Portugal por ser ecologicamente inviável e que, aqui, com o governo regional do Partido Popular, está a tentar entrar.
Mas, sobre a questão em concreto… sobre o ressurgimento do anarquismo, por assim dizer, sim, estamos a ver todo um surgimento de organizações anarquistas que têm nascido nos últimos anos. Um pouco dentro dessa corrente que se está a chamar anarquismo social e organizado, uma vez que nascemos um pouco da crítica ao anarquismo dos últimos anos, de tendências mais autorreferenciais, mais autonomistas, mais quase evasivas da luta, mesmo, as insurrecionalistas. Fazendo autocrítica enquanto anarquistas, percebendo como não estamos a ter o impacto na sociedade que esperávamos ter.
Não sei como é em Portugal, mas aqui também foi isso que nos levou a organizarmo-nos. Estávamos todas em muitos movimentos, em muitos movimentos sociais de massas, na questão da habitação, na questão ecologista, na feminista, na dos centros sociais ou do independentismo. Muitos temas, muito variados, que agrupam um monte de coletivos e muita gente. Estávamos a participar de forma individual enquanto anarquistas. Foi um bocado isso que nos levou a pensar que seria estratégico, eficiente, transparente, participar nesses espaços e sentir uma organização por trás que nos apoiasse, sentir essa inteligência coletiva, poder partilhar opiniões, estratégias, poder debatê-las, criá-las entre todas, que a pluralidade de opiniões e de mentes cria estratégias muito mais fortes.
Muitas anarquistas têm participado em muitas lutas e temos encontrado muita gente. Por exemplo do BNG, o partido independentista galego mais importante, digamos assim. Essa gente estava nas lutas da Altri, nas lutas pela defesa do território, contra as eólicas, de forma organizada. E, na verdade, isso acaba por ter muita força e dá-lhes a capacidade de, por vezes, fazerem as lutas autónomas derivarem para o institucional. Esta gente atuava de forma coletiva organizada. E nós, por outro lado, como anarquistas, estávamos a atuar como indivíduos. E isso entra em contradição com o próprio anarquismo. Vem daí, então, a necessidade de criarmos uma organização anarquista onde possamos atuar coletivamente em todas estas lutas e não apenas como indivíduos.
Fazer uma leitura partilhada, neste caso do país, da Galiza. Um diagnóstico de quais são os seus principais problemas. Um programa para agir sobre isso e estratégias para atuar nas diferentes frentes de luta. Não quer dizer que queiramos praticar, como muitos partidos, o dirigismo. Não queremos que essas lutas se convertam em lutas anarquistas. Não é esse o objetivo. O objetivo é que, quando interviermos, que o façamos de acordo com uma perspetiva anarquista coletiva. E também dotarmos as lutas de ferramentas que temos enquanto anarquistas, como a horizontalidade, ou a transparência. De forma a que seja mais difícil aos partidos dominarem, seja pela via autoritária, seja pela via da institucionalização da luta.
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Entrevista publicada no Jornal MAPA #47 [Out. – Dez. 2025]
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