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Lendo: Felizmente continua a haver luar (Fevereiro/Abril 2022)

Felizmente continua a haver luar (Fevereiro/Abril 2022)

Felizmente continua a haver luar (Fevereiro/Abril 2022)


Leituras de Outono

Da permanência do cinzento e dos meios para o suprimir

I

Estávamos no ano de 1967, andava eu muito descontente com os meus 20 anos, quando um amigo me passou um livro que circulava assim meio às escondidas e que tinha um título aliciante, O dia cinzento e outros contos. O autor era um tal Mário Dionísio de quem eu nunca tinha ouvido falar. Os tempos eram realmente cinzentos, e as páginas do Mário Dionísio marcaram-nos logo com intensidade. O meu amigo e eu vivíamos fora do mundo político e cultural, éramos jovens adultos, urbanos, sem ligações a actividades políticas clandestinas e estávamos à margem das agitações estudantis. Mas o lado cinzento da sociedade portuguesa que o Mário Dionísio tão bem soube exprimir naqueles contos correspondia tal e qual à tristeza e à miséria do quotidiano, ao horizonte de nuvens negras que marcava a nossa vida monótona e abafada. Não é que a literatura neo-realista — que nós também íamos lendo — nos desagradasse, antes pelo contrário. Aqueles camponeses e assalariados agrícolas em luta pela sua dignidade humana, os operários que ousavam levantar a voz e a revindicação, eram uma prova de que podia haver outra maneira de viver. Mas não era a nossa vida de jovens adultos da grande cidade, era algo exterior a nós. Com a prosa do Mário Dionísio aconteceu outra coisa, ela falava-nos doutra maneira, relacionava-se directamente com o eu de cada um de nós, reforçava as nossas interrogações existenciais. Ele escrevia sobre gente urbana como a que conhecíamos, como éramos, gente prisioneira da grande cidade, à procura de viver. Era uma incitação à liberdade individual que só se podia conceber numa outra sociedade.

A situação agravava-se, o cinzento do dia-a-dia misturava-se cada vez mais com a cor dos uniformes, com a cor e o cheiro da guerra em África. Numa daquelas fórmulas fulgurantes que o caracterizavam, o sinistro Salazar tinha-nos prevenido de que as colónias «são a grande escola do nacionalismo português». Para quem, como eu, se opunha ao colonialismo e desprezava o nacionalismo, a única saída era deixar o barco. Assim veio a ruptura, a deserção de uma sociedade, depois o exílio. E ficaram para trás, na memória, aqueles contos e o nome do Mário Dionísio. Sobre o qual só vim a saber mais quando, em Paris, naquele Outono de 1967, encontrei outros espíritos já mais conhecedores do que eu, que me ajudaram a procurar o caminho das ideias emancipadoras. Que o incêndio de Maio 68 iluminou uns meses depois.

Os anos passaram, as sociedades mudaram, nós mudámos, a história continuou a irromper nas nossas vidas sem prevenir. Entretanto, dizia eu, algo tinha aprendido sobre o Mário Dionísio, o autor dos Dias cinzentos. Descobri o seu posicionamento discordante sobre a corrente do neo-realismo, da qual ele, após ter sido um dos seus teorizadores, se distanciou no pós-guerra, com o consequente distanciamento do partido comunista, que fez aumentar o meu interesse pela figura e pelos seus escritos.

No entanto, só depois do 25 Abril e dos anos em que a poesia saiu à rua, voltei a cruzar-me de novo com o nome do Mário Dionísio, através dos seus amigos e amigas da Casa da Achada, que passaram a fazer parte do meu mundo e a integrar o percurso da aventura da minha vida.

Após ter publicado, entre outras raridades, os Contos Completos do Mário Dionísio, a Casa da Achada lançou-se recentemente no ambicioso projecto da edição dos seus diários. O primeiro volume do Passageiro Clandestino abrange o período que vai de 1950 a 1957. O volume é completado por um outro, de notas, da autoria da Eduarda Dionísio, sua filha. Este último é um extraordinário trabalho de investigação, de informação e de erudição, que dá a conhecer as inúmeras figuras mencionadas no Passageiro Clandestino, situando-as historicamente no quadro da sociedade portuguesa daqueles anos. 1

Artigo publicado no JornalMapa, edição #33, Fevereiro|Abril 2022.

Passageiro Clandestino I é um testemunho precioso sobre a vida intelectual e política do Portugal salazarista do pós-guerra. Através das suas reflexões, relatos quotidianos, comentários, descrições, elementos críticos, Mário Dionísio faz-nos entrar na atmosfera daqueles anos. Anos muito difíceis, na medida em que a esperança criada pela vitória dos aliados foi depressa abafada pela descoberta de que as democracias vencedoras faziam questão de deixar em pé as ditaduras que haviam apoiado, de forma mais ou menos aberta, os totalitarismos derrotados. Era, em parte, uma vitória dos vencidos, uma decisão que anunciava o que viria a seguir, a guerra fria e a partilha do mundo em dois campos capitalistas opostos. E foi um novo fôlego para o salazarismo, que, ao contrário do que se pensava, sai reforçado da guerra. Os anos 50 foram particularmente decepcionantes para quem havia imaginado outro desenlace. No seu diário, Mário Dionísio descreve o quotidiano dos meios políticos e intelectuais portugueses da época, a depressão que alastrava com a atmosfera da guerra fria, e a importância que nele assumia o aparelho comunista estalinista e os seus chefes. Numa situação caracterizada por uma situação de bloqueio, Mário Dionísio dá conta das suas primeiras hesitações e dos desacordos que se iam precisando com o partido comunista, sobretudo no debate à volta do neo-realismo, centrado na questão da forma e do conteúdo das obras. O seu progressivo afastamento do partido vai determinar inevitavelmente uma separação, muitas vezes dolorosa, com todo um meio intelectual. Num meio já bem fechado, abafado e sob a vigilância constante da polícia política, manifestam-se agressividades e hostilidades, afirmam-se atitudes mesquinhas inesperadas, cínicas e cobardes dos que submetiam o seu próprio pensamento e opinião às decisões do partido, fetiche omnipresente na vida social desta camada de pessoas. As revelações do Relatório Khrushchov ao XX congresso do partido comunista da URSS, em Fevereiro de 1956, provocou uma onda de choque que se fez sentir até Lisboa. Mas o aparelho do partido aguentou o embate das revelações. A clandestinidade e a necessidade de preservar o partido contra o regime salazarista dominavam tudo e todos. O despoletar, em Outubro 1956, da revolta húngara e intervenção do exército soviético, que esmaga a insurreição, é um acontecimento maior que abre de novo algumas brechas, leva estes conflitos e posicionamentos ao extremo e marginaliza ainda mais aqueles que se debatem com dúvidas. O isolamento do país, a falta de informação e a força da fidelidade incondicional ao estalinismo são as circunstâncias terríveis do momento. Procurando ultrapassar a confusão e a propaganda dos dois lados, fascistas e comunistas, criticando os que recusam pensar e desejam, «arranjar um pastor e deixar-se tranquilamente seguir no rebanho» 2, Mário Dionísio apercebe-se de que «estamos no mais aceso de uma terrível crise, inevitável, e que esta crise é inegavelmente de crescimento, que o grande braseiro de Budapeste (inaceitável, reprovável, odioso) é apenas um aspecto da longa crise que se processa há anos e que, para que esta crise seja de real crescimento nos seus resultados, a primeira condição — condição fundamental, decisiva — é precisamente cada um estar disposto a pensar, a pensar tudo desde o inicio, até ao fim, e a tomar a sua parte de responsabilidade pessoal na vida humana.»  3 Mais que cinzentos, são anos terríveis e negros que Mário Dionísio testemunha. Como transmite também as dificuldades materiais do quotidiano, reforçadas pelo controlo, absoluto ou quase, que o regime salazarista exerce sobre os meios educativos, artísticos e jornalísticos não afectos ao regime. Não obstante, há que realçar, Mário Dionísio beneficiou de uma enorme vantagem, a de poder viajar para fora nestes anos, quando o isolamento provinciano do país constituía uma força para o regime. Movendo-se ainda na órbita do partido comunista, ele faz em particular uma longa estadia em Paris, em 1949, onde frequenta gente das letras e das artes, entrevistando para a revista Vértice numerosos criadores, Lurcat, Picasso, Pignon, Fougeron e outros.

Mário Dionísio vive estes anos atribulados na companhia de alguns amigos fiéis e duas figuras femininas, uma que é referência de apoio, de partilha de ideias e de solidariedade, nos bons e maus momentos, a sua mulher, Maria Letícia Clemente da Silva, outra, ainda criança mas sempre presente e guiando os seus desejos de um outro futuro, a filha, Eduarda Dionísio.

A vontade de pintar de Mário Dionísio foi sempre atravessada pela insatisfação — uma actividade criativa que para ele nunca foi «nada pacífica», lembra a Eduarda Dionísio. Nas páginas do diário descobre-se que ele dava preferência à pintura sobre a escrita. Como se esta falta de paz fosse a garantia de um espaço de maior liberdade.

Finalmente, há também passagens em que o cinzento da vida lusitana se dissolve na risível parvoíce e mediocridade burocrática do regime. Quando, por exemplo, Mário Dionísio descreve a sua experiência de um encontro forçado com um dos censores do regime.

houve gente como o Mário Dionísio e outros que disseram não à podridão, que persistiram em acreditar que a colectividade humana não abandonaria a procura de uma saída para a emancipação

Desfilam nas páginas de Passageiro Clandestino I todas, ou quase todas, as figuras conhecidas do meio intelectual e artístico do Portugal do pós-guerra, de Ferreira de Castro a José Cardoso Pires, passando por Júlio Pomar, Ilse Losa, José Gomes Ferreira, Lopes Graça, Lyon de Castro, Vergílio Ferreira, Portinari, Alves Redol, Sophia de Melo Breyner, Aquilino Ribeiro, Eugénio de Andrade, Fernando Namora, e outros que esqueço. E há sempre, em fundo, um pouco na sombra, a personagem austera mas também de forte sensibilidade artística do Álvaro Cunhal. Uma relação amigável da primeira hora, que não sobreviveu ao profundo desacordo sobre a estética do neo-realismo. Como sempre, inevitavelmente, por detrás da questão da estética estava a questão da concepção do mundo e da política.

Neste rodopio de encontros e desencontros, de trabalho febril, de acordos e de desacordos, de esperanças e de desilusões, há momentos fortes que dão uma dimensão particular à maneira como Mário Dionísio caracteriza a sociedade portuguesa, as suas taras profundas que o salazarismo utilizou, reforçou e finalmente revelou. Há, a certa altura, uma troca de reflexões com um dos seus amigos próximos e colega, Cristóvão Santos, que me interpelou, tanto ela faz eco ao insuportável que marcou a minha juventude: a questão da «podridão». Passo a citar: «Uma conversa na sala dos professores sobre casos passados nos tribunais põe novamente a nu o apodrecimento desta vida que temos de aceitar e, de qualquer modo, é a nossa. Um colega simpático, (…), chama-me a atenção para o facto de os nossos ficcionistas parecerem ignorar tal apodrecimento. Mesmo os que nele tanto falam é como se o esquecessem nos seus livros. Concordo. E documento.»  4 Este «apodrecimento da vida» foi o sentimento que impregnou a geração da minha juventude e que levou muitos de nós a rejeitar a ordem das coisas, foi a agitação estudantil e operária dos anos 1960, foram os milhares de desertores e refractários à guerra colonial, ao regime e à vida insuportável da sociedade salazarista, foi, enfim, o 25 de Abril de 1974 e os anos onde a poesia regressou à rua, aos campos e às fábricas. «Apodrecimento da vida» que, infelizmente, qual elemento constituinte da «natureza» profunda da sociedade lusitana, voltou depois a instalar-se, fruto da mediocridade, da insignificância e da corrupção da nova democracia parlamentar a que os Donos Disto Tudo (DDT) e a sua casta política souberam fazer o velho bom povo português resignar-se. Até à próxima vez.

Tudo isto dito e sublinhado, penso que há uma razão essencial para ler hoje Mário Dionísio e particularmente o seu diário. O estado desastroso do mundo, a sua evolução conduzida pelos senhores do lucro são constantemente evocados para justificar, explicar, a depressão dos sentimentos, o desaparecimento da esperança no humano. Mas que dizer de quem viveu estes anos cinzentos, sem horizonte, que descreve o Mário Dionísio nas páginas do seu diário? Ao desespero quotidiano do Portugal salazarista juntavam-se as desilusões face ao modelo comunista estalinista socialista, que a repressão feroz do exército vermelho sobre a revolta húngara dos conselhos de 1956 veio confirmar. Eram nuvens escuras que se acumulavam sobre nuvens. Mesmo nesta situação houve gente como o Mário Dionísio e outros que disseram não à podridão, que persistiram em acreditar que a colectividade humana não abandonaria a procura de uma saída para a emancipação, em Portugal como no grande mundo que o envolvia. A história deu-lhes razão. Da experiência deles há que tirar hoje a lição de que a presença das nuvens negras e o regresso da podridão da vida não deve bloquear o sonho e a esperança. Que dão sentido à Vida.

A leitura de Passageiro Clandestino é mais que aconselhável. Saudável mesmo, o que, pelos tempos que correm, não é de desprezar.

II

Estamos na aldeia dos Cortiços, no concelho de Macedo de Cavaleiros, no Nordeste Transmontano. Onde, de 1975 a 1977, um pequeno grupo de homens e de mulheres se lançaram numa aventura que ultrapassava os limites de vida que outros tinham traçado para eles. Venceram medos, incógnitas, resignações, oposições e dificuldades, ocuparam umas terras e criaram uma unidade colectiva de produção agrícola. Animados pela onda de choque da revolta militar contra o antigo regime salazarista e pela explosão social que se seguiu, os membros da aventura consideraram-se, no Nordeste Transmontano, integrados nesta enorme transformação social e económica da produção agrícola que havia sido iniciada nos campos do Sul do país, Alentejo e Ribatejo. Daí o nome de «Pioneiros» que eles assumiram.

Num curto e bem documentado texto recentemente publicado 5, Fernando Oliveira Batista reconstitui o percurso da experiência; dos primeiros passos ao desfecho triste, o desmantelamento organizado de mão fria pelo poder político socialista da época em meados de 1977. Num breve capítulo final, «Quarenta anos depois», Fernando Oliveira Batista faz um balanço da aventura nas vidas dos participantes, restituindo-lhes a sua total dignidade.

Tem este pequeno livro um interesse muito particular. Que lhe é dado pelo carácter único, isolado e específico da experiência colectiva vivida, numa zona onde dominava a pequena propriedade privada, o poder de caciques e notáveis ancestrais, de uma igreja reaccionária, dominadora dos espíritos e das atitudes rurais.

Do ponto de vista das ideias auto-emancipadoras, que é o nosso, a experiência dos «Cortiços» é também rica de lições. Sobre as dificuldades encontradas pela acção colectiva e também sobre a ligação que, desde o princípio, a unidade colectiva estabeleceu com as estruturas do partido comunista português, com as suas concepções de uma nova forma de produção agrícola.

Sabemos que os homens fazem a história, mas fazem-na sempre em condições que eles não escolheram. Assim foi também com a experiência dos «Cortiços». Isolado num mar de valores conservadores, sem experiência de luta colectiva, o grupo desde cedo ficou dependente de alguns membros com mais iniciativa e de espírito dirigista que impuseram escolhas e orientações, limitando assim o desenvolvimento de práticas e de reflexões nos restantes membros da unidade colectiva de produção. Acrescente-se o papel que jogaram, do princípio até ao fim, as estruturas do partido comunista, cuja fraqueza local e regional foi compensada pela influência dos órgãos centrais do Porto e de Lisboa. Prisioneiros destes dois limites de autonomia, os «pioneiros» não poderiam talvez ter feito mais do que fizeram.

O projecto dos «Pioneiros» só poderia ultrapassar a integração vertical da Aldeia se ele tivesse conseguido criar uma real colectividade horizontal, com uma dinâmica capaz de alargar a sua limitada base do princípio.

Ponha-se momentaneamente de lado o relato da experiência para dizer algumas palavras sobre o autor. Fernando Oliveira Batista não é, nem pretende ser, alguém neutro nesta história. O homem foi mais que um simples observador solidário da aventura, ele foi ministro da Agricultura e Pescas entre Março e Setembro de 1975, no período dito «radical» da «revolução portuguesa», quando as forças comunistas ortodoxas tiveram mais peso nas estruturas do Estado. Membro importante do partido comunista português na altura, implementou e pressionou a aplicação do modelo soviético de unidades de produção agrícola, os Kolkozes, e ficou conhecido nos meios rurais militantes como o «Ministro da Reforma Agrária». Depois do fim do período revolucionário, Fernando Oliveira Batista prosseguiu a sua actividade de investigador, continuou a escrever no seu campo sobre as questões da agricultura, da propriedade da terra e dos trabalhadores agrícolas. Universitário de méritos reconhecidos e pessoa de integridade – como o prova o espírito deste trabalho –, continuou o seu percurso político para se libertar do pensamento burocrático inerente à sua formação comunista autoritária. Habituado aos números e aos gráficos frios e áridos, soube, neste relato, ficar próximo dos protagonistas e da vida real, oferecendo-nos um texto de leitura directa e cativante. Ele não julga, tenta compreender o que se passou. E, justamente, algumas das pistas de compreensão que avança são originais e merecem ser tomadas em consideração.

A sua análise é particularmente pertinente quando aborda a oposição entre a forma social tradicional da «Aldeia» e a ruptura do «mundo novo» desejado pelos «Pioneiros»  da Unidade Colectiva de produção agrícola. Uma oposição entre um tipo de integração interclassista vertical, o da «Aldeia», e a integração de classe horizontal que seria supostamente a dos «Pioneiros». A confrontação da sociedade da «Aldeia» com a da comunidade dos «Pioneiros» constituiu, nesta região, uma ruptura determinante. Oposição que vai estar presente em todo o processo conflitual da experiência dos Cortiços. Nos campos do Sul, pelo contrário, o confronto foi menos violento, a colectividade dos trabalhadores rurais pré-existia ao movimento das ocupações das terras e, de certa maneira, foi mesmo um dos fundamentos do movimento de colectivização que deu origem à Reforma Agrária. A forma social da «Aldeia» «assenta em relações de parentesco, de vizinhança e de trabalho, bem como em memórias, tradições e identidades partilhadas de há muito e vividas no mesmo território. Paralelamente, estas dimensões articulavam-se com uma «estrutura hierárquica de poder», em torno de chefes tradicionais, de conselhos comunitários, dos senhores das casas grandes ou de uma elite local renovada. Esta integração vertical ainda gerava solidariedades e convergências que se sobrepunham aos interesses associados à estratificação socioeconómica dos diferentes grupos sociais que convivial na aldeia – o que seria uma integração horizontal.»  6

Na medida em que estas «estruturas hierárquicas de poder» não foram destruídas por um movimento geral e profundo da sociedade portuguesa, o voluntarismo de alguns e o dirigismo burocrático das estruturas partidárias nunca seriam capazes de abrir novos possíveis, pelo contrário, vieram reforçar a fragilidade da forma social nova face à «Aldeia». O projecto dos «Pioneiros» só poderia ultrapassar a integração vertical da Aldeia se ele tivesse conseguido criar uma real colectividade horizontal, com uma dinâmica capaz de alargar a sua limitada base do princípio. Desenvolvido a partir de um voluntarismo dirigista, centrado num punhado de participantes, apoiado por estruturas exteriores de natureza burocrática, o projecto nunca foi mais do que um falso colectivo. Que não podia vingar. Estava perdida a aventura, apesar da generosidade e da energia sonhadora que os seus participantes nela investiram.

capa_cortiço_peqFica, para citar uma vez mais Fernando Oliveira Batista, «a memória e a história da possibilidade de “os de baixo”, ainda que com imperfeições e dificuldades, tomarem os seus destinos nas suas próprias mãos. Para além de um antes e de um depois, das origens e das consequências, foram tempos em que, localmente, se rompeu radicalmente com a submissão do “espaço coercivo” dos latifúndios e das imposições dos grandes patrimónios fundiários das aldeias do Norte e Centro, e se procurou um outro modo de vida e de inserção laboral.»  7 Embora a fraqueza da experiência da colectividade dos Cortiços relativamente aos princípios verticais da «Aldeia» seja bem sublinhada por Fernando Oliveira Batista, há um aspecto que ele tem dificuldade em analisar criticamente, dificuldade que parece explicar-se pela sua própria construção ideológica, pela sua fidelidade ao modelo de origem, o Kolkoze. Não se questiona a estrutura cultural, também vertical, dos participantes na experiência, o peso e os determinismos da cultura hierárquica das figuras centrais, mesmo que animadas por «uma paixão do socialismo» 8. Que, justamente, mais não seria que o modelo socialista de Estado defendido pelo partido comunista. O autor reconhece, no funcionamento da unidade colectiva, algumas falhas ou derivas, nas iniciativas tomadas, no autoritarismo das decisões e mesmo até na reprodução das relações assalariadas com membros exteriores, como por acaso (ou não!) mulheres trabalhadoras sazonais, precárias 9. A unidade de produção transformou-se pouco a pouco numa empresa com traços clássicos, onde as figuras mais militantes funcionavam como chefes, dirigentes, e com este estatuto eram vistos, criticados até. A hostilidade exterior, da «Aldeia», encontrou aí uma fixação privilegiada. Este autoritarismo interno foi inevitavelmente reforçado pela intervenção das instituições burocráticas que deram apoio à unidade colectiva, as estruturas do partido comunista, por um lado, que projectavam «a entrada da futura unidade colectiva de produção no universo ideológico e político do PCP» 10, e os organismos do Estado (também nessa altura controlados pelo mesmo partido), por outro.

A ruptura com a submissão aos antigos poderes existentes não foi acompanhada por uma ruptura com os valores de submissão integrados na colectividade dos que lutam; o Estado parece nunca ter saído da cabeça dos «Pioneiros» dos Cortiços. O inimigo interior foi finalmente o melhor aliado do inimigo exterior 11. O colectivo não era um verdadeiro colectivo, mas «um grupo capaz de conviver com a inevitável conflitualidade da aprendizagem do trabalho em comum» 12, diz Fernando Oliveira Batista; um espaço de poder que funcionava segundo os valores da velha sociedade, um funcionamento que «não era harmonioso» 13. No seu relato, Fernando Oliveira Batista identifica o problema, sem no entanto tirar todas as conclusões políticas:  «O declínio dos Pioneiros ocorreu, assim, também por dentro, criando um terreno frágil para resistir e para enraizar a procura de um rumo.» 14 Mas não foi o projecto que foi fragilizado, foi o projecto que, pela sua natureza autoritária, se autolimitou. A actividade da unidade de produção não pôde alargar-se para além do que era na cabeça de alguns, abranger outros participantes, outros desejos.

passageiro_clandestino_II volume do diário de Mário Dionísio (1950 – 1957)
Com introdução de Eduarda Dionísio de índice de nomes e assuntos.
230 pp.
Col. Mário Dionísio 11
Edição Casa da Achada – Centro Mário Dionísio
capa_cortiço_peq
A aldeia e o mundo novo. Os pioneiros dos cortiços.

Fernando Oliveira Baptista
127 pp.
100 Luz, 2021.

 


Ilustraçōes de André Lemos.


Artigo publicado no JornalMapa, edição #33, Fevereiro|Abril 2022.

Notas:

  1. Mário Dionísio, Passageiro Clandestino I, Casa da Achada, Lisboa, Abril 2021; Eduarda Dionísio, Notas Passageiro Clandestino I, Casa da Achada, Lisboa, Abril 2021.
  2. Passageiro Clandestino I, p. 196.
  3. Ibid., p. 196.
  4. Ibid., p.133.
  5. Fernando Oliveira Batista, A Aldeia e o mundo novo, os Pioneiros dos Cortiços, 100LUZ editora, Castro Verde, 2021.
  6. Ibid., p. 97.
  7. Ibid., p. 101.
  8. Ibid., p. 62.
  9. Ibid., p. 75.
  10. Ibid., p. 59.
  11. Sobre esta dimensão essencial nos limites da «revolução portuguesa», nunca é demais relembrar e aconselhar a leitura do livro do Phil Mailer, Portugal, A Revolução impossível?, tradução Luís Leitão, Antígona, 2018.
  12. Fernando Oliveira Batista, A Aldeia e o mundo novo, os Pioneiros dos Cortiços, op. cit., p. 38.
  13. Ibid., p. 68.
  14. Ibid., p. 71.

Written by

Jorge Valadas

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