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Lendo: O Socialismo Selvagem. Um passo ao lado: auto-organização e democracia directa perante as facilidades da representatividade

O Socialismo Selvagem.  Um passo ao lado: auto-organização e democracia directa perante as facilidades da representatividade

O Socialismo Selvagem. Um passo ao lado: auto-organização e democracia directa perante as facilidades da representatividade


A conversa com Jorge Valadas acontece porque é impossível tapar o sol com a peneira: não há hoje solução governativa que não assente na tão proclamada «crise da democracia representativa». No distanciamento das pessoas com a política, mais estrutural do que uma crise propriamente dita.

Jorge Valadas, sob o pseudónimo de Charles Reeve, é autor de várias obras de reflexão política de cariz libertário, quando desertor à guerra colonial se exila em 1967 em Paris. Participante nos Cadernos de Circunstância (1969-71) e no jornal Combate (1974-78), colabora actualmente em diversas publicações e com o Jornal MAPA na rubrica Felizmente Continua a Haver Luar. O seu mais recente livro O Socialismo Selvagem, editado em França em 2018, surge agora em Portugal pela Antígona. As inquietações hoje em voga da democracia podem funcionar como um possível ponto de partida para este «ensaio sobre a auto-organização e a democracia directa nas lutas de 1789 até aos nossos dias». Razões de sobra para uma conversa por email com Jorge Valadas, a meias com Luís Leitão, o tradutor da edição portuguesa.Quanto mais não fosse, o caminho para o desastre, a que assistimos todos os dias, guiado pelo capitalismo, e a crise do sistema de representação política a ele associado, deve levar-nos a reflectir sobre as experiências passadas e a voltar a debruçar-nos sobre a democracia directa e as correntes espontâneas, autónomas e emancipadoras do movimento social, apelidadas pela social-democracia de «socialismo selvagem». Por isso, o livro tem tanta actualidade. Revisita a história dos movimentos sociais subversivos, os episódios e as concepções acerca das repetidas tentativas de emancipação social nos últimos duzentos anos: da Comuna Revolucionária de Paris (1792) e da Comuna de Paris (1871), dos grandes debates e cisões da Primeira Internacional (Marx e Bakunine), do advento do sindicalismo revolucionário, dos sovietes na Rússia, da revolução alemã e o nascimento dos conselhos operários, da revolução espanhola, Maio de 68, e a revolução portuguesa de 1974/75. E mais recentemente do movimento zapatista, ao Occupy, ao movimento 15-M-Indignados em Espanha ou a «revolução dos comuns».

O objectivo é para o autor, que hoje vive entre Paris e Tavira, poder percorrer um fio condutor que «identificado na prática da auto-organização e das lutas constantes contra as forças dos “emancipadores profissionais” que atravessam a História e que continuam a manifestar-se — ainda que fragilizados — nos movimentos do período actual». Para Jorge Valadas, as formas de organização incipientes que rejeitam à partida o princípio de autoridade e o princípio da representação permanente são, mais do que nunca, uma referência. Por isso ao longo deste tempo, ressurgiram periodicamente as grandes questões que estão no centro deste processo: a questão das vanguardas mais ou menos esclarecidas, o voluntarismo, a delegação permanente versus delegação provisória e revocável a qualquer momento e, sobretudo, como edificar e gerir em bases novas a sociedade. E é precisamente aqui que o livro adquire todo o seu significado: a utopia enquanto única via de escape para o desastre. Longe de apresentar receitas sobre «o que fazer», sublinha a atitude que resta em manter a lucidez, ter a consciência das derrotas passadas e opor-se por diversos meios ao prosseguimento da suicidária aventura capitalista.

Luís Leitão: Encontrando-se recheado de factos históricos, este livro não é um livro de História. Podes descrever, em breves palavras, qual é o seu fio condutor e o significado dado à expressão «socialismo selvagem»?

Jorge Valadas: Comecemos então pelo fio condutor. Dois acontecimentos que se desenrolam no tempo presente estão na origem deste texto. Assistimos, nas sociedades da velha democracia, a uma crise do sistema político representativo parlamentar. Há, por outro lado, nestas mesmas sociedades, a emergência de movimentos e de mobilizações de tipo novo que se estruturam a partir do reconhecimento desta crise. Que procuram uma alternativa concreta às velhas formas de organização para afrontar as questões sociais, ambientais, que se colocam. Veja-se, no caso português recente, a maneira nova como os/as activistas da Extinction Rebellion se organizaram para se manifestar e que espantou os «especialistas» locais da política perdidos nas referências bolorentas do passado. Estes movimentos tentam apoiar-se em práticas de democracia de base, directamente sob o controlo dos participantes. Pareceu-me que uma reflexão sobre o sistema representativo era o ponto de partida para desbobinar toda uma filiação das correntes antiautoritárias até hoje. A intenção é esboçar um quadro histórico que permita compreender melhor os novos movimentos de hoje, a aspiração da nova acção política. Romper com a ideia segundo a qual estes novos movimentos e mobilizações são algo de totalmente novo, sublinhar que eles se inscrevem num fio condutor que vem de longe, das correntes antiautoritárias do socialismo que vai dos «Enragés» da Grande Revolução Francesa aos debates no seio da Primeira Internacional, às correntes do sindicalismo revolucionário, às revoluções dos conselhos do princípio do século passado na Rússia e na Alemanha, à revolução espanhola de 1936, aos movimentos dos anos 1960, às práticas «apartidárias» da revolução portuguesa de 1974-75, às revoltas operárias nos antigos países de capitalismo de Estado (que, por falta de espaço, não abordo no livro). Pôr em evidência esta filiação parece-me importante na medida em que muitos dos jovens participantes nos movimentos recentes a ignoram, tendo tendência para reflectir sobre as suas práticas e experiências colocando-se fora da História. As correntes políticas de raiz ideológica marxista-leninista, que sobreviveram em lamentável estado à derrocada do bloco do capitalismo de Estado, desempenham um papel na fabricação do esquecimento da História. Esta gente tenta fazer-se passar por inovadores ou originais que têm ainda algo a propor, escondem o facto de as suas raízes estarem no terreno poluído e morto das versões autoritárias do marxismo social-democrata, leninistas diversos e pós-estalinistas. Para além dos novos movimentos, mais ou menos efémeros que se vão sucedendo, é o estado de crise profunda do sistema representativo e as suas consequências que levantam questões às quais o livro pretende dar “uma” resposta, não “A” resposta.

Sobre a frase do título. Trata-se efectivamente da reacção de um alto burocrata do partido social-democrata perante o movimento espontâneo e autónomo dos conselhos na sociedade alemã, que pôs fim à Primeira Grande Guerra e ao império. Mais que pejorativa eu diria que é uma fórmula negativa, redutora. A social-democracia era uma força gigantesca na sociedade, com uma estrutura e uma organização que controlava, do nascimento até à morte, a classe operária alemã, ao ponto de a ter levado, de olhos fechados, à carnificina da Primeira guerra. O partido sabia o que era «bom» para a classe operária e tinha uma ideia precisa do projecto socialista de Estado. Os trabalhadores deviam seguir a linha do partido, obedecer às suas decisões, reforçar as suas organizações. O partido era o depositário da ciência «marxista», do conhecimento do futuro. Os chefes socialistas eram os «emancipadores» profissionais dos trabalhadores.

As grandes greves selvagens do princípio do século XX tinham animado as novas correntes do sindicalismo revolucionário de índole anarquista, e haviam igualmente despertado as primeiras dissidências nas fileiras do marxismo social-democrata. Como Rosa Luxemburgo teve a ousadia de compreender, o partido e os seus sindicatos tinham-se tornado factores de paralisia, a nova energia colectiva estava nas novas formas de acção e de organização. O fenómeno dos conselhos não podia ser compreendido pelos funcionários do partido. Era-lhes inconcebível imaginar que os trabalhadores, os camponeses, os soldados e marinheiros pudessem elaborar e tentar pôr em prática, a partir da sua própria acção autónoma, uma ideia da nova sociedade. Para eles, os conselhos só poderiam ser organizações limitadas, insuficientes. Daí a fórmula de um Socialismo Selvagem. A comparação será ridícula, mas é como se se pedisse hoje ao Comité Central do PCP que percebesse o que é o projecto de Extinction Rebellion! Dois mundos com concepções diferentes da acção sobre a vida e a sociedade. Segundo a perspectiva que eu defendo, a fórmula Socialismo Selvagem deve ser invertida, deve ganhar um conteúdo positivo, porque ela contém a ideia da auto-emancipação, a construção de uma sociedade nova que implica o controlo do movimento pelos interessados. A aplicação sem mediações da asserção da Primeira internacional: a emancipação dos explorados deve ser a obra dos próprios explorados.

Alentejo

Camponeses alentejanos durante o processo revolucionário que sucedeu à queda do Estado Novo em 25 de Abril de 1974.

O POVO ABSTENCIONISTA

Filipe Nunes: Tornou-se hoje um lugar-comum em todos os quadrantes políticos falar de «salvar a democracia» perante a «crise da representatividade» que a assola. O discurso é (no mínimo) guiado pelo paternalismo da lógica dirigente que menospreza a expressão real da abstenção porque não se pretende colocar qualquer reflexão critica precisamente a essa democracia representativa. Que aspectos destacarias para entender a presente expressão do “povo abstencionista”, tal como é designado. Pergunta que coloco para, a meu ver, poder responder ao libelo acusatório do «depois não te queixes» com a presença de espírito de – como dizia António Guerreiro, cronista do Público, depois das eleições europeias – poder-se afirmar que «não há aqui nada de negativo: a minha recusa de votar é a expressão de uma preocupação pela política e de uma inquietação democrática».

O caso lusitano é exemplar. Nesta sociedade, passou-se, no curto intervalo histórico de 45 anos, de uma participação de quase 100% nas eleições a taxas de abstenção de 50%. Obviamente que esta evolução diz algo, tem um profundo significado. Após as recentes legislativas a confirmação da tendência para a diminuição da participação eleitoral abriu de novo o debate. A maioria das forças políticas não vê aí um problema — ou não o quer ver — e está pronta a reconhecer, por oportunismo político, que um governo para todos pode representar apenas uma minoria dos cidadãos. Como já é o caso. De qualquer forma, para estes cínicos a democracia é a liberdade do negócio e da circulação do dinheiro. Mas há gente que pensa com mais inteligência o problema e que vê a fragilidade num tal sistema. O BE, por exemplo, reconhece que é uma decisão das pessoas não votar, e alarma-se, sublinha que esta evolução é «uma preocupação para a democracia». A abstenção tem «causas complexas» dizem eles. Outros, como o jornalista do Público que mencionas, avança com uma explicação positiva. É possível que em parte se recuse conscientemente votar porque se está preocupado com o estado da democracia representativa. A perspectiva é assim de remediar a coisa, de reparar, de encontrar soluções para que funcione melhor. Há quem reconheça que a democracia representativa não tem conserto, não funcionará nunca — uma ideia que era já expressa por alguns pensadores da Grande Revolução. Mas que é o menor dos males. Do ponto de vista de uma concepção critica — que é a nossa — poder-se-á defender que, pelo contrário, a democracia representativa de tipo parlamentar, funciona bastante bem para impedir que se manifeste uma «real democracia» (fórmula de Robespierre), para impedir a representação directa e controlada da soberania de cada um/uma e da colectividade.

Por outro lado, não há que opor participação eleitoral e abstenção. A abstenção é o produto genuíno do voto representativo. É a representação permanente que produz a abstenção e a alimenta. A escolha eleitoral de quem vai exercer o poder em nome dos que o possuem, a delegação de poder permanente, é o correctivo (diziam os jacobinos da Grande Revolução. Isto é, a fórmula que permite delegar a soberania a representantes porque o povo não a pode exercer. O conceito da «excepção soberana» — outra invenção dos jacobinos que construíram todo este edifício — integra o reconhecimento do facto de os eleitos poderem fugir ao controlo dos eleitores e que, em circunstâncias excepcionais, particulares, o povo poderia, pela revolta, reapropriar-se momentaneamente da sua soberania e corrigir os seus representantes. E é o medo desta «excepção soberana» que inquietará sempre os partidos da esquerda, que se vêem como depositários da vontade do «povo». Há que impedir que, eventualmente, «a política» saia do quadro institucional no qual vivem e que os faz viver, que ela seja ultrapassada pela iniciativa directa, a imaginação concreta da auto-organização da vida, que hoje nos escapa hoje totalmente.

Portanto, e para voltar à questão, a abstenção não levanta nenhum problema ao sistema representativo. O problema levanta-se quando a abstenção se transforma na consciência de que é necessário assumir a soberania social de forma directa e controlada, guardar nas nossas próprias mãos o nosso poder e o nosso futuro. A passagem do estádio da abstenção ao estádio da auto-organização e da auto-afirmação colectiva constitui a ruptura essencial. Até lá prossegue o funcionamento da democracia representativa, com mais ou menos votantes. O que devia inquietar não é a abstenção, mas a perniciosidade do sistema, que permite que a maioria da minoria possa governar legitimamente com grande abstenção. Sabemos, por experiência histórica, que a democracia representativa não se desintegra mecanicamente pelo aumento da abstenção. Ela adapta-se à abstenção e evolui cada vez mais para uma democracia representativa autoritária. É a sua tendência natural, digamos assim.

Uma das pessoas que tem trazido ultimamente alguma luz à compreensão deste processo é Jacques Rancière. As ideias que sublinha não são dele, vêm sendo afirmadas desde os «Enragés» da Grande Revolução até aos movimentos dos conselhos revolucionários do princípio do século XX, às práticas da revolução espanhola, aos movimentos operários independentes na Europa de leste contra o estalinismo nos anos do pós guerra, às práticas apartidárias da revolução portuguesa. Fundamentalmente trata-se de negar a identidade que se veio a estabelecer entre a representação, as eleições e a democracia. Vivemos hoje uma fase aguda da crise da representação, não da democracia. A democracia é um conceito e uma prática histórica que pode ser alargada, desenvolvida. De facto, há uma oposição fundamental entre a lógica democrática e a lógica da representação. A primeira insiste na procura do exercício do poder pelos que o possuem, a segunda resume-se a delegar este poder a representantes eleitos. A primeira procura alargar o exercício da soberania, a segunda tudo faz para o limitar.

REPRESENTATIVIDADE QUE SUFOCA

F.N.: Ainda nessa chamada «crise da representatividade», depois de apontadas as culpas ao abstencionista, a quem não vai ao jogo eleitoral, as culpas são afinal direccionadas a quem vai a jogo eleitoral e elege democraticamente figuras tenebrosas: de Salvini, Le Pen; Orban, Bolsonaro. Toda uma lista que não para de crescer.

A falta de confiança no sistema político representativo e nos seus profissionais só é nova pela amplitude que toma e pelo eco que encontra. Estamos a viver o começo de uma nova situação. Como se disse, a perversão deste sistema representativo é tal que as democracias parlamentares podem hoje funcionar e ser legitimadas com taxas de abstenção elevadas e com um desinteresse crescente dos «cidadãos». O eleitorado de direita e de extrema-direita, que curiosamente manifesta uma maior adesão ao sistema, ganha assim uma preponderância que não corresponde à implantação real das suas ideias nas sociedades. E sabemos também que as ditaduras se instalam muitas vezes através do sistema representativo. O desinteresse massivo e crescente pela «política», medido, bem ou mal, pela taxa de abstenção, exprime uma crítica superficial do sistema representativo, mas não leva necessariamente a um empenho directo dos que continuam a reproduzir a sociedade para assumirem o controlo dos seus próprios interesses. Não há confiança na classe política para lhe delegar soberania, mas assume-se a passividade. Esta passividade e a consequente ausência de acção directa na implicação da vida, são valores compatíveis com a perpetuação do sistema de representação, eles são mesmo produzidos pela prática da representação permanente que esvazia toda iniciativa e autonomia ao indivíduo. Já sabemos que a condição de cidadão é sinonimo de submissão e de resignação. Os novos movimentos e mobilizações procuram dar resposta a esta paralisia, procuram uma saída para fora do frasco onde o ar puro se faz raro. Por seu lado, as correntes reformistas modernistas continuam a agitar-se dentro do frasco prometendo revigorar a política tradicional. Nos novos movimentos, as correntes antiautoritárias estão presentes, mas são travadas por esta ambiguidade, esta presença da passividade que reforça o perigo de um regresso ao passado. Veja-se o extraordinário exemplo do caso espanhol, onde, em poucos meses, Podemos, uma formação política saída do «movimento das praças» se encontrou totalmente prisioneira das instituições da política e dos jogos eleitorais no seu sentido mais podre. A curta história de Podemos é uma miséria franciscana.

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Barricadas em Paris em Maio de 1968.

L.L.: Estarão estas formas de organização incipientes de que fala o livro, que rejeitam à partida o princípio de autoridade e o princípio da representação permanente (que regem as actuais sociedades capitalistas), irremediavelmente datadas? Ou ainda nos servem de referência tendo em vista o elevado grau de complexidade das sociedades actuais?

Defendo que, pelo contrário, elas são mais do que nunca uma referência. Este é justamente o propósito do ensaio. O percurso dos emancipadores profissionais, das organizações de chefes que possuem o saber e a ciência da sociedade acabou com o desmoronar do bloco do socialismo de Estado e o simultâneo desaparecimento da velha social-democracia. Estes modelos estão, eles sim, irremediavelmente datados. Claro está, o próprio funcionamento do sistema capitalista reproduz quotidianamente a hierarquia do saber e a submissão aos chefes, a resignação perante o que existe. Mas do lado do desejo de uma sociedade nova, liberta da alienação da exploração, todo movimento ou mobilização que ganhe amplitude procura rapidamente romper com o modelo do socialismo autoritário. Não se imagina hoje que uma movimentação importante exprima como objectivo a construção de um partido de tipo leninista. Para esse peditório já se deu. Mesmo organizações de raiz autoritária que procuram conservar o controlo das suas bases são hoje obrigadas a evocar com mais ou menos demagogia as ideias libertárias. Tal é, por exemplo, o caso dos estalinistas curdos do PKK.

O que se segue não é um projecto fácil, longe disso. Porque o empenho em princípios antiautoritários exige mais energia e investimento que a facilidade da delegação da soberania em chefes. O modelo da representação é a facilidade. A relutância que os novos movimentos exprimem relativamente aos antigos modelos, às formas de representação permanentes, explicam o seu lado efémero. Porque são opções que exigem muito, pesam sobre as suas dinâmicas e fragilizam o seu desenvolvimento. Em França o recente movimento dos Coletes Amarelos é um exemplo forte. Pela primeira vez, de há anos a esta parte, um movimento que se prolongou durante meses não produziu um só chefe nem mesmo uma estrutura de organização que tenha tido vida perene. Produziu, isso sim, um espirito de luta radical e uma série de revindicações não negociáveis, como a de igualdade e justiça social, que continuam presentes. Um movimento que foi reprimido violentamente pelo Estado, mas que não foi derrotado nem esmagado como no passado. Um dístico de um Colete Amarelo numa manifestação dizia: «O nosso movimento não pode ser decapitado porque ele não tem uma cabeça». Quanto à questão da complexidade do mundo poder-se-á argumentar que quanto mais se acentua a complexidade da sociedade capitalista mais a sua estrutura e funcionamento é frágil. Há, evidentemente, a complexidade destruidora que está patente na catástrofe ambiental e climática. Neste campo não se vê que as continuidades dos modelos autoritários de governo sejam mais propícias a uma solução dos problemas; pelo contrário, eles revelam-se impotentes e agravantes. Nunca esta frase de Marx foi tão actual: no capitalismo cada solução é um novo problema. No campo das tecnologias ditas «modernas» há também que considerar que, para além do carácter alienante e atomizador que têm, para além do custo ambiental da sua produção, elas abrem novos possíveis para as perspectivas da auto-organização e mesmo para imaginar a planificação horizontal e democrática de base de uma sociedade igualitária. Todos os novos movimentos utilizam as redes sociais para se auto-organizar.

A EXPERIÊNCIA PORTUGUESA

L.L.: A experiência da «revolução portuguesa» é talvez o mais próximo destes movimentos de emancipação social que conhecemos e que vivemos. A auto-organização espontânea de que se dotaram os trabalhadores portugueses logo que surgiu uma brecha na autoridade do Estado aberta pelo golpe do 25 de Abril – as comissões de trabalhadores e as comissões de moradores – insere-se neste fio condutor de movimentos revolucionários que atravessaram muitos países nos últimos duzentos anos. Não foram «aprender» com os outros, mas perceberam qual era o caminho. No entanto, enfrentaram e, finalmente, foram derrotados pelos mesmos inimigos de sempre: a repressão do Estado, as tentativas de controlo por parte das organizações «revolucionárias» burocráticas e as próprias contradições no seio dos trabalhadores quando quiseram passar da autogestão das lutas para a autogestão económica. Em termos sucintos, como é que o livro olha para este processo? Haverá nele ainda uma ligação, mesmo que ténue, com o velho movimento anarco-sindicalista do princípio do século XX em Portugal?

O livro do Phil Mailer, Portugal, a Revolução Impossível? (Antígona, 2018), responde perfeitamente às questões que levantas. E eu reconheço-me totalmente nas suas conclusões, que retomo no capítulo que dedico à revolução portuguesa, embora o faça com uma abordagem diferente. Ele diz: «A experiência portuguesa (…) mostra que a actividade revolucionária não se desenvolve em resultado de estratégias delineadas por analistas de sistemas ou planeadores burgueses travestidos de generais revolucionários (…). Surge no decurso da própria luta, e as suas formas mais avançadas são assumidas por aqueles para quem a luta é uma necessidade». E lembra que o inimigo dos trabalhadores «surgiu-lhes sempre à frente com umas vestes inesperadas: as das suas próprias organizações. Cada vez que criavam uma organização, viam-na ser instrumentalizada por supostos líderes ou vanguardas que não eram os seus». Isto é: a constante luta entre as correntes autoritárias e antiautoritárias do socialismo foi também central no movimento português. A neutralização das perspectivas de auto-emancipação foi, não só a tarefa das inúmeras vanguardas que «sabiam» o que se devia fazer, mas sobretudo o resultado da presença da ideia de vanguarda no espírito da grande maioria dos trabalhadores. Que mais não era que a expressão da sua fraqueza.

Parece-me, não obstante, indiscutível que os princípios antiautoritários do velho movimento anarco-sindicalista e sindicalista-revolucionário encontraram expressão na energia da auto-organização e no desejo de «apartidarismo». Nas ocupações também, nas zonas rurais de velha tradição revolucionária, onde o partido comunista tinha recuperado e utilizado as velhas tradições colectivistas e libertárias. Um facto extraordinário que prova que os valores do passado podem fazer erupção na consciência social, exactamente onde menos se espera.

F.N.: Das formas de organização incipientes de que fala o livro, que atenção merecem da tua parte o reabilitar dos sentidos e práticas comunais e comunitárias que estão ainda inscritas na nossa ruralidade, mesmo que isoladas e em risco de desaparecerem (por muito que de alterado tenhamos que entender hoje o sentido do rural). Falo das possibilidades em torno das práticas comunitárias de gestão do território, dos baldios às entreajudas comunitárias, que uma nova ruralidade que vem das cidades reclama nas suas práticas: de economias solidárias, de comunidades intencionais que repovoam o campo, etc.

Claramente estas práticas que vêm de um passado não tão longínquo, fazem parte das nossas ideias, do nosso fio condutor, integram os princípios antiautoritários que revindicamos. Isto dito, há que ter em conta que o mundo não para de se transformar, que as forças destruidoras do capitalismo reduziram estas práticas a fenómenos marginais que passam por folclóricos. Mas os princípios que fundamentam estas práticas reaparecem e tomam novas formas em práticas mais ou menos isoladas, limitadas. Prova da sua vivacidade.

Há pouco lia a correspondência trocada entre Marx e a figura do populismo revolucionário russo Vera Zassoulicht que data do princípio dos anos 1880 e que só recentemente nos foi dada a conhecer. Marx, interessou-se particularmente pelas práticas das comunas rurais russas e discutiu intensamente com Zassoulicht essa mesma questão. Estas formas sociais poderão permitir uma passagem mais rápida para uma sociedade pós-capitalista? Nestas cartas, que Maximilien Rubel considerou como «o verdadeiro testamento político de Marx», este afasta-se explicitamente de toda a visão determinista e mecanicista da evolução das sociedades que os «marxistas» começavam a colar-lhe ao pêlo. O que o marxismo «ortodoxo» depois condensou na rígida e fria fórmula da «necessidade do desenvolvimento das forças produtivas» como condição indispensável para a construção do socialismo. A história das etapas necessárias. Sublinhando a riqueza, a energia e as potencialidades destas formas pré-capitalistas, Marx levantava apenas a questão do quadro histórico, das circunstâncias que permitiriam, sim ou não, a estas formas de se desenvolverem, de se amplificarem e de participarem no movimento de subversão das sociedades. Um quarto de século mais tarde, elas marcaram o movimento dos sovietes das revoluções russas de 1905 e 1917. De igual modo, no caso português, as práticas comunitárias e colectivas das sociedades rurais do passado tiveram decerto uma importância na energia revolucionária de 1974-75, nos campos, mas também na consciência dos trabalhadores. Tudo isto para apoiar a ideia, que exprimes na tua intervenção, de que estes elementos do passado devem fazer parte do desejo de subverter o presente. Devemos revindicá-los.

cartazes_anarquistas

Lisboa, Outubro de 2019: cartazes anarquistas nas vésperas das eleiçōes legislativas.

COLMEIAS DE AUTONOMIA

F.N.: Encadeado nesta última pergunta, haverá ainda uma diferença a estabelecer no modo de actuar e possibilidades inerentes numa acção política municipalista, numa a acção de base eminentemente local?

Vamos partir do real. No estado presente do capitalismo, a geografia das sociedades continua a alterar-se: desertificação do interior e alargamento de zonas urbanas desestruturadas e periféricas. Nesta situação, o poder municipal é hoje um apêndice das forças capitalistas, por vezes agentes directos das mais parasitas e especulativas. Não há hoje administração municipal que não esteja enfeudada aos capitalistas da agro-indústria, da química, do automóvel, do turismo, da construção, do imobiliário. A corrupção é a regra. Ao mesmo tempo, a centralização do poder político continua a reforçar-se e a reduzir o antigo poder municipal a uma forma vazia. Neste quadro, parece totalmente ilusório, e uma perda de energias, o investimento numa qualquer «acção política municipalista», no sentido institucional, entenda-se. A menos que falemos de uma aldeia perdida na serra da Marofa, onde provavelmente só haverá meia dúzia de ruínas, e nesse caso não se vê razão para investir as energias particularmente na revitalização de uma instituição desse tipo.

Parece-me mais interessante sublinhar a tendência, que se observa hoje na sociedade francesa, da construção de espaços autónomos de sociabilidade alternativa nos pequenos centros urbanos da periferia das grandes cidades e também nas zonas rurais abandonadas, onde se instala um número crescente de jovens à procura de uma forma de vida diferente, empenhando-se nas actividades agrícolas e outras deixadas ao abandono pela desertificação. Estes «locais», «centros», por vezes mesmo «bibliotecas associativas», têm vindo a proliferar e, em regiões como a Bretanha ou o Centro da França, constituem já uma rede importante. São lugares de vida que respondem a uma necessidade de sociabilidade, que dão apoio a uma população abandonada pelos poderes públicos e pelos seus serviços — que, como se sabe, foi um dos motores do movimento dos Coletes Amarelos —, no campo jurídico e técnico. São colmeias de encontro e cruzamentos, de debate político e de actividades culturais diversas, da música à pintura e à leitura. São lugares de vida e de espírito solidário e de entreajuda com uma visão crítica do mundo, que põem os problemas locais em perspectiva com a globalidade do mundo. São núcleos activos que evitam o espírito de gueto e que, pelo contrário, se preocupam em envolver o que resta das populações locais nas suas actividades. Uma energia que tem efeitos bem mais emancipadores que a actividade nas instituições bolorentas do sistema. Sim, há uma diferença a estabelecer entre os dois tipos de acção e a diferença é fundamental, entre o velho mundo da política e o mundo que «surgindo vem ao longe».

LL: O livro, mormente na sua parte final, sublinha que a utopia destas concepções, que vão ao arrepio da ideia de que o mundo é mesmo assim e não se pode mudar, não deve conduzir à impotência do utopismo. Cada episódio histórico, cada teoria política, cada movimento, cada conquista, cada grupo, cada activista contribuiu para este processo, e embora se não possa prever quais serão os seus futuros desenvolvimentos, há princípios que se mantêm. Queres comentar?

Eu não diria «cada», mas só quando a História normal faz um passo para o lado, quando há ruptura na reprodução do mundo tal qual ele é e parece ser para sempre. Nesse passo para o lado, nessa ruptura estará a negação da «impotência do utopismo», estará a concretização da utopia dos novos princípios, do imaginário social da construção de um novo mundo. E é no elogio deste «passo para o lado» que está todo o sentido do nosso trabalho. Porque no desfile da reprodução da normalidade nós não temos lugar reservado. Resume-se tudo à questão do «Não», a tal palavra que foi sempre mal vista na cultura lusitana tão bem comportada. Não era por acaso que durante o salazarismo a expressão «ser do contra» tinha uma potente dimensão existencial e contrariante, incomodava. Trata-se de nos reapropriarmos dela e dar-lhe um conteúdo positivo de outra visão social. Éramos do contra antes e somos do contra hoje. Mudou-se de tempo, mudou-se de espectáculo e de artistas de cena, mas não se mudou de Vida, no sentido que lhe deu o José Mário Branco.

 


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O Socialismo Selvagem. Ensaio sobre a auto-organização e a democracia directa nas lutas de 1789 até aos nossos dias.
Charles Reeve
Antígona, 2019


Texto de Filipe Nunes [filipenunes@jornalmapa.pt] e Luís Leitão [leitao.luis@gmail.com]


Artigo publicado no JornalMapa, edição #25, Novembro 2019|Janeiro 2020.

 


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