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Lendo: Atenção à direita

Atenção à direita

Atenção à direita


Portugal não é um país

Enquanto desconfinávamos (e se percebia que afinal pouco importa a biopolítica, que os canais de Veneza nunca tiveram golfinhos ou que os níveis de poluição voltaram rapidamente ao velho normal), o mundo continuou a girar e não se deu redenção pós-pandémica. Na brava terra lusitana, que há um ano ainda era estudada por ser terreno onde a extrema-direita e os populismos reacionários não singravam, as coisas também giraram. Um senhor deputado da República que já tinha mandado uma opositora que lhe fazia frente para «a terra dela», veio apresentar na primeira semana de maio uma proposta no parlamento de «abordagem e confinamento» especificamente dirigido às comunidades ciganas, o seu papão pessoal.

No entanto, coisas bem mais graves se passavam do outro lado do Atlântico. Um polícia de apelido Chauvin, e de passado sombrio, foi filmado a asfixiar com toda a calma um cidadão negro. O pedido de George Floyd, «I can’t breathe», tornou-se bandeira e não poderá ser esquecido por quem acha que as «forças de segurança» têm sempre razão – e não deverá ser esquecido por quem coloca em dúvida essa asserção imperiosa. O assassinato de Floyd, a 25 de maio, em Mineápolis (EUA) deu a volta ao mundo e gerou um protesto de massas global de caráter antirracista como nunca se tinha visto. Numa semana, toda a opinião pública e a publicada é antirracista. Quando, logo a seguir, os mesmos protestos se viram contra símbolos (estátuas, toponímia) que pintalgam os Estados Unidos da América com as sombras da escravatura e do racismo institucional, algumas vozes começam a titubear.

A 6 de junho, organizam-se sob o lema Black Lives Matter manifestações em cinco cidades portuguesas. A adesão surpreende e já não são os ativistas brancos e bem-intencionados do antirracismo a ocupar a linha da frente, é uma geração negra e portuguesa que toma a palavra e ocupa a rua, como já tinha acontecido após o assassinato, em Bragança, de Giovani Rodrigues, no final do ano de 2019.

Lá no seu canto, André Claro Ventura revolve-se. Ele já tinha prometido que «sempre que a esquerda sair à rua para dizer que Portugal é um país racista, nós sairemos à rua com o dobro da força para mostrar que Portugal não é racista». E eis que a 27 de junho se dá, pela primeira vez (tirando as ações do PNR e da NOS contra isto e contra aquilo mais as mesquitas), uma saída orgulhosa e de cabeça levantada da gente que acha, que sabe, que sente que «Portugal não é racista». Foram mil pelo Terreiro do Paço e a dona Maria Vieira subiu ao palanque.

Nesse mesmo dia, à noite, a RTP 2 entrevista no seu telejornal um académico que, num brilhante golpe de marketing livreiro, escreveu em três meses um pequeno livro que conta a história do Chega e do seu mentor (tem o lado positivo de lembrar com pormenores de onde vem e com quem andou na área social-democrata e na Distrital de Lisboa de um certo partido). Logo a seguir, sete dezenas de académicos lamentam numa carta aberta o espaço dado ao livro de Riccardo Marchi, o cientista político que se esquece de colocar aspas para melhor mergulhar o leitor na toada Chegófila.

Estávamos assim quando, provavelmente entusiasmado com a ideia de que Portugal não é racista, um kota de Moscavide se desentende com um nigga. Nada corresponde às imagens mentais que possam surgir: o velhinho é atlético, anda de boné com pala, pergunta durante três dias pelo vizinho com quem se desentendeu por causa de um canídeo; o moço não é jovem das ganzas mas antes um ator de 39 anos, três filhos, que recuperou de um atropelamento quase mortal. Bruno Candé foi morto a 25 de julho, à hora de almoço, numa rua de Moscavide, com quatro tiros à queima-roupa, por um miserável que lhe gritou «volta para a senzala». André, Claro, Ventura teve o topete de no dia seguinte ir choramingar para o esgoto: «Acabem lá com essa ladainha habitual do racismo», voltando a garantir que Portugal não sei o quê, até porque a PSP também disse que não houve racismo. Fontes bem informadas garantem que foi a primeira vez que o Correio da Manhã titulou na primeira página a expressão «crime de ódio». Sucederam-se manifestações pela memória de Candé e outra pela memória do assassino, que à chegada à prisão se gabou assim: «No ultramar, matei muitos como ele.» A segunda manifestação do Chega já só tem trezentas pessoas.

À parte isto, o eurodeputado e dois deputados do Pessoas-Animais-Natureza – conotados com a linha animalofascista do IRA – abandonam o partido, sem gerar um centésimo da atenção de uma outra deserção parlamentar nesta sessão legislativa. É neste contexto todo que emergem os verdadeiros, os únicos, os da Bayer, nazis cá do burgo: um grupúsculo denominado Nova Ordem de Avis (gente sabedora de história templária, esta) barra Resistência Nacional organiza a 8 de agosto uma parada mascarada à la KKK frente à sede do SOS Racismo e envia um ultimato a dez ativistas antirracistas (com três deputadas, incluindo Joacine Katar Moreira, que é desta terra e aqui ficará). Assim estamos, já não imunes coisa nenhuma. A continuar assim, vamos precisar de alargar esta coluna.

 


Artigo publicado no JornalMapa, edição #28, Agosto|Outubro 2020.


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