

O debate sobre a Saúde, levado a cabo pela política convencional, centra-se na aparente oposição entre serviço público e serviço privado. Entre híbridos e variantes, apresenta-se genericamente, por um lado, na defesa do Estado Social e do SNS (Serviço Nacional de Saúde), reclamando o acesso universal aos cuidados de saúde. Sustenta-se na crença de que o Estado é insubstituível e deve a qualquer custo construir as estruturas e mecanismos necessários à garantia desse direito. Isto pressupõe um modelo de planeamento centralizado, sendo a gestão de recursos e necessidades decidida por elites administrativas, de carácter político. Uma das características deste sistema é a permeabilidade ao alojamento de interesses corporativos e à corrupção[ref]A título de exemplo, ver a notícia, 80 médicos arguidos prescreviam aparelhos auditivos a troco de dinheiro e férias, Jornal Público, 11-07-2014.[/ref], que a par da sua estrutura hierárquica e da burocracia, limitam a diversidade de serviços e afastam os utentes dos centros de decisão. Não são portanto os princípios subjacentes ao SNS que se questionam, mas a sua implementação através da colectivização forçada e a consequente distorsão dos seus objectivos. Em todo o caso, esse julgamento deve ser feito por quem vive sobrecarregado de impostos que sustentam o Estado e a classe governativa, e tem que fazer contas para pagar medicamentos, ou deslocar-se a uma consulta que fica a quilómetros de distância, ou esperar meses por uma cirurgia.
Do outro lado, descridibiliza-se o SNS, de forma a beneficiar os interesses de grupos privados da área da Saúde e dos Seguros. O objectivo é ilusoriamente reduzir custos ao Estado e transferir competências para instituições privadas de carácter lucrativo, tanto na provisão de serviços como no financiamento. As propostas deste modelo passam pela constituição de seguros de saúde, organização de grandes hospitais privados com múltiplas valências, e contratualizações com o Estado. Esta perspectiva tem encontrado terreno fértil na actual crise económica e nas medidas de austeridade impostas pelo memorando da Troika[ref]Ver texto de Isabel do Carmo: A Troika, o memorando e os serviços de Saúde, publicado no livro Serviço Nacional de Saúde em Portugal, as ameaças, a Crise e os Desafios (vários autores, Almedina, 2012).[/ref]. Os seus defensores elogiam ao mesmo tempo o assistencialismo, já conhecido em Portugal, desde os tempos do Estado Novo[ref]Ver estudo de Jorge Alves e Marinha Carneiro: Estado Novo e Discurso Assistencialista, publicado na revista Estudos do Século XX.[/ref]. Contrariamente ao que muitas vezes é dito sobre este modelo de privatização, é igualmente necessário um Estado forte e regulador. Trata-se de conceder privilégios através de parcerias, subsídios, concessões e licenças que permitem criar um sistema paralelo, monopolizado por grandes empresas. A redução de riscos assegurada pelo Estado nas parcerias público-privadas é um desses exemplos, onde são socializados custos e privatizados lucros. Sendo o principal objectivo a satisfação dos accionistas, os objectivos não são directamente orientados à satisfação dos utentes. Estes saem duplamente prejudicados, pois o seu poder de decisão e negociação é feito por intermediários, como são as seguradoras ou o Estado.
As críticas apontadas ao sistema de saúde público, resultantes da gestão e planeamento centralizado, servem igualmente para um sistema de saúde privatizado, sob o domínio económico de grandes corporações. Ambas as perspectivas partilham a mesma cultura institucional, dependente de uma superestrutura administrativa e dos efeitos provenientes da sua natureza hierarquizada, separando o trabalho e a qualidade de serviço das suas motivações intrínsecas. A disponibilidade de cuidados de saúde é, neste modelo organizativo, sujeita a procedimentos, tarefas e funções normativas, bem como a um interminável número de certificados e acções de fiscalização. O hospital adquire as características da fábrica, transformando os cuidados de saúde num produto, modelado por estatísticas e indicadores financeiros.
As associações públicas profissionais trabalham em parceria com o Estado no sentido de regular as profissões, através de licenciamentos e da aprovação de leis nacionais. Cada profissão é representada exclusivamente por uma associação pública profissional, denominada por “ordem”, no caso das profissões condicionadas à obtenção de habilitações académicas do nível de licenciatura. À “ordem” é atribuída a função de regular o acesso e o exercício da profissão, a elaboração de normas técnicas e deontológicas, e um regime disciplinar.
Na área da saúde, estes requisitos, ao limitarem o número de pessoas que praticam várias profissões médicas e o tipo de serviços prestados, aumentam a receita dos profissionais de Saúde, e inflacionam artificialmente o valor dos seus serviços. Um dos exemplos, bem conhecido em Portugal, de claro interesse corporativo, tem sido a luta travada há anos pela OM (Ordem dos Médicos) contra o reconhecimento e pela supervisão da MTC (Medicina Tradicional Chinesa). Segundo a OM, a MTC é uma terapêutica não convencional e os seus profissionais devem “actuar exclusivamente sob a responsabilidade de uma direção clínica médica ou em resposta a uma prescrição médica”[ref]Nota justificativa da Ordem dos Médicos, enviada para o Grupo de Trabalho da Comissão de Saúde, a propósito das alterações à proposta de lei 111/XII/2ª relativa à regulamentação da prática das Terapêuticas Não Convencionais (TNC).[/ref]. Apesar das diligências da OM, a última lei aprovada[ref]Lei n.º 71/2013, de 2 de Setembro. Regulamenta a Lei n.º 45/2003, de 22 de agosto, relativamente ao exercício profissional das atividades de aplicação de terapêuticas não convencionais.[/ref] que regulamenta as terapêuticas não convencionais, permite o exercício da MTC sem a supervisão de um médico convencional ou prescrição médica. Por outro lado, esta regulamentação implica a supervisão do Estado e um enquadramento legal igualmente restritivo.
Outro exemplo é a posição da OM relativamente aos partos domiciliários. Sobre o assunto, o Colégio de Pediatria da OM emitiu um comunicado [ref]Ver texto, Posição do Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos sobre Partos no Domicílio, disponível no site da Ordem dos Médicos.[/ref] alertando para riscos, perigos e imprevistos, desaconselhando o parto em domicílio, e argumentando que para esse efeito “seriam necessários meios logísticos muito sofisticados e dispendiosos”, onde acrescenta, “solicitamos aos órgãos dirigentes da Ordem dos Médicos que tomem nesta matéria uma posição firme e esclarecida em favor destes jovens cidadãos indefesos e em favor do bom senso”. São algo curiosas estas afirmações, quando a gravidez e o parto são fenómenos fisiológicos e naturais. Isto não significa que não existam riscos associados. No entanto, esta argumentação promove um modelo de assistência hospitalar, excessivamente medicalizado, condicionado por procedimentos e protocolos, diminuindo o papel dos enfermeiros, parteiras, doulas, e sobretudo o direito de escolha e empoderamento das mulheres grávidas. Os conselhos destes médicos especialistas e o seu paternalismo, acabam por fomentar o medo e a insegurança, e a dependência do hospital. Os partos “normais”, de baixo risco, seguem o mesmo procedimento protocolar do que os partos com complicações. Actualmente, Portugal é um dos países da Europa onde a taxa de cesarianas é mais alta[ref]Health at a Glance 2013: OECD Indicators, publicação da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico).[/ref], aproximando-se dos 35%, mesmo quando a própria OMS (Organização Mundial de Saúde) recomenda uma taxa média não superior a 15%[ref]Monitoring emergency obstetric care, a hand book, World Health Organization, UNFPA, UNICEF, AMDD, 2009.[/ref].
Há outros instrumentos que influenciam a oferta dos cuidados de saúde, entre os quais a limitação do numerus clausus nas faculdades, ou o elevado custo dos anos de formação nos cursos de medicina e enfermagem. Através destes e outros mecanismos legais, as associações públicas profissionais e o Estado têm o poder de controlar a oferta, limitando a competição, criando escassez artificial. O cartel das licenças e dos regulamentos funciona em benefício próprio, dando a aparência de estar ao serviço dos utentes.
Os Fármacos e as Patentes
Um dos exemplos clássicos de intervenção do Estado no mercado em prejuízo de utentes e potenciais fabricantes prende-se com a garantia dos DPI (Direitos de Propriedade Intelectual). O titular de uma patente sobre determinado produto, tem o monopólio da produção, venda e exploração desse mesmo produto, eliminando a concorrência e controlando os preços. No caso da indústria farmacêutica, este mecanismo, de claro proteccionismo económico, ao impor escassez artificial, dificulta o acesso a medicamentos, diagnósticos e vacinas, com especial agravante para os países mais pobres, onde se morre com doenças facilmente tratáveis. Segundo dados da OMS, um terço da população mundial não tem acesso regular a medicamentos essenciais[ref]The World Medicines Situation 2011 – Access to Essential Medicines as Part of the Right to Health, relatório da Organização Mundial de Saúde.[/ref].
A adopção do acordo TRIPS[ref]Do inglês: Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights (Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio).[/ref] em 1994, e a criação da OMC (Organização Mundial do Comércio), trouxeram à regulação de patentes novas dimensões, colocando a protecção da propriedade intelectual como premissa nos tratados de comércio internacional. Esta uniformização de leis tem tido elevado impacto na vida económica e social dos países aderentes, com especial incidência nos seus sistemas de saúde[ref]Comércio Internacional, Patentes e Saúde Pública, Monica Steffen Guise JURUA, 2007.[/ref]. Antes do acordo TRIPS, alguns dos países onde não existiam patentes, como o Brasil, Argentina, Egipto e Coreia do Sul, tinham a sua própria indústria nacional de cópia de medicamentos, sendo estes vendidos a preços consideravelmente mais baixos do que os originais. Neste processo de implementação de um sistema de patentes à escala mundial, e com o advento da biotecnologia, estabeleceu-se uma prática conhecida por biopirataria. Esta consiste na exploração, para fins comerciais, do conhecimento que os povos indígenas têm da natureza. Assim são criadas patentes com base em material genético ou conhecimentos de terapias tradicionais, como foi o caso do Beberu ou do Ayahuasca[ref]A Protecção da Propriedade Intelectual e a Biopirataria do Patrimônio GenéticoAmazônico à luz de Diplomas Internacionais, Helano Márcio Vieira Range, Veredas do Direito, Belo Horizonte, v.9, n.18, 2012.[/ref].
Os defensores das patentes dão especial relevância ao argumento de que é necessário um retorno pelo investimento em I&D (Investigação e Desenvolvimento), de forma a incentivar o desenvolvimento tecnológico, no caso do sector farmacêutico, à descoberta de novos fármacos. No entanto, é omitido o facto de que uma boa parte dessa investigação é financiada pelo Estado, isto é, com dinheiro dos contribuintes, através de fundos para a investigação, parcerias com universidades, hospitais e institutos tecnológicos. Isto é facilitado porque boa parte da investigação médica é levada a cabo em instituições públicas e privadas de renome, sendo os seus directores ao mesmo tempo, gestores e consultores de empresas farmacêuticas[ref]Por exemplo, Amílcar Falcão, consultor da Bial, é vice-reitor da Universidade de Coimbra, investigador e líder do Grupo de Farmacometria do Centro de Neurociências e Biologia Celular.[/ref].
As patentes impulsionam a criação de novos fármacos patenteados, afastando do mercado os genéricos, através de grandes investimentos em campanhas de promoção e publicidade. Muitos desses fármacos consistem em alterações menores da composição química de fármacos já existentes. Um desses exemplos é o tão elogiado Zebinix, desenvolvido pela Bial, sendo o primeiro fármaco de patente portuguesa. Após vários anos de desenvolvimento, o Zebinix foi lançado no mercado em 2010 por um preço 10 vezes superior aos seus equivalentes, com uma comparticipação de 90% para o regime normal e 95% para o regime especial. Na época foram questionadas as suas características inovadoras e a aprovação da sua comparticipação, tendo sido desencadeada uma investigação policial ao próprio Infarmed[ref]Polícia Judiciária no Infarmed por causa de medicamento da Bial. Jornal Público, 30-05-2012.[/ref].
Alternativas ao labirinto da escassez artificial
Surgidas no século dezanove, muito antes dos actuais modelos de previdência se imporem, as associações mutualistas de classe[ref]O termo Associação Mutualista abrange um movimento heterogéneo com diferentes objectivos e motivações, incluindo associações destinadas à caridade e filantropia. Neste contexto, refere-se exclusivamente às associações mutualistas criadas por trabalhadores, por eles geridas.[/ref] funcionavam como estruturas financeiras de suporte aos seus membros e familiares em situações de desemprego, doença, acidente ou morte. Estas associações, inicialmente destinadas à protecção dos trabalhadores, contribuíram para a formação dos primeiros sindicatos e organizações reivindicativas. Faziam parte dum movimento emergente, onde germinava a necessidade de auto-organização e a criação de instituições próprias, organizadas voluntariamente desde as suas bases. Em Portugal, aquelas que sobreviveram ao corporativismo do Estado Novo e às promessas da democracia, são hoje, com algumas excepções, orientadas à filantropia, tendo perdido a relevância do passado.
De modo semelhante, a população negra dos Estados Unidos, tem desde essa época, uma vasta tradição de experiências cooperativas[ref]Cooperative Ownership in the Struggle for African American Economic Empowerment, Jessica Gordon Nembhard, 2004[/ref]. Sujeita à discriminação racial e à exclusão, a melhoria da sua condição social e económica motivou a criação de múltiplas organizações de base, entre as quais fraternidades, associações mutualistas e cooperativas. Os seus objectivos eram diversos e incluíam a implementação de sistemas de crédito para criação de emprego ou sistemas de financiamento para o acesso a cuidados de saúde. Mais recentemente, a Ithaca Health Alliance, uma cooperativa criada na cidade de Ithaca em 1997, desenvolveu um fundo para aliviar custos de saúde aos seus membros, especialmente aqueles que não têm seguro de saúde. Mesmo sendo um projecto local, é de elevada relevância num país onde aproximadamente 15% da população não qualquer protecção[ref]Health Insurance Highlights 2012, US Census Bureau.[/ref]. No entanto, estas experiências estão centradas apenas na questão financeira. Face aos excessivos custos da oferta, o problema mantém-se. É igualmente necessário um controlo cooperativo da provisão.

As clínicas e farmácias sociais surgidas na Grécia nos últimos anos são uma resposta civil ao processo de implosão do sistema de saúde do país. Os efeitos da crise manifestaram-se de forma quase catastrófica no sector da saúde, encerrando hospitais e centros médicos, despedindo profissionais, reduzindo ao mínimo os cuidados de saúde disponíveis. Muitas destas clínicas e farmácias surgiram inicialmente para auxiliar pessoas excluídas do sistema de saúde, em grande maioria imigrantes. Com o acentuar da crise, é cada vez maior o número de gregos que ficam sem cobertura médica, tendo igualmente de recorrer a estes serviços. Sustentadas por trabalho voluntário e donativos de recursos materiais, estas iniciativas são geridas colectivamente pelos voluntários, independentemente da sua função ou qualificação, prestando cuidados diversos que incluem clínica geral, pediatria, tratamentos dentários, entre outros. O facto de muitos destes voluntários serem médicos que trabalham em hospitais públicos e se disponibilizam em horário pós-laboral, ou estarem em situação de desemprego, e a dependência logística de donativos, limitam a sustentabilidade destas iniciativas a longo prazo. É necessário que a solidariedade alcance a economia.
Um dos erros mais comuns, quando se tentam encontrar alternativas ao Estado, é o de se pensar que essas alternativas passam por um modelo de organização único, à mercê dos interesses de empresas privadas, motivadas exclusivamente pelo lucro e sustentadas pela exploração de trabalho assalariado. Contrariando esta ideia, a história mostra que em momentos de emergência social, situações de catástrofe, ou períodos revolucionários, a solidariedade, a cooperação e o apoio mútuo se afirmam como possibilidades à margem do poder. Não obstante, a crise na Saúde é antes de tudo, o resultado de uma miríade de privilégios, concedidos pelo Estado, a protecção de um negócio extremamente lucrativo. Este monopólio afecta tanto o financiamento como a provisão, inflacionando os custos da medicina, tornando-a artificialmente lucrativa. Qualquer contributo realista para o debate sobre a Saúde terá de começar pelo questionamento dos actuais interesses estabelecidos.

Actualmente, entidades reguladoras da saúde estabelecem medidas que determinam como deve funcionar a prescrição de fármacos, num estreito diálogo com a indústria farmacêutica, contribuindo para uma população mundial cada vez mais dependente desses fármacos. Que decisões são tomadas por gestores, médicos e investigadores, de maneira a gerar mais lucro, independentemente das consequências que isso possa trazer às populações?
Este artigo, apesar de ser apenas um levantamento de questões e uma exposição inicial de problemas, pretende ir mais além das estratégias já conhecidas da indústria farmacêutica, como são o marketing e a publicidade, os financiamentos de campanhas políticas ou os incentivos directos aos médicos, para que receitem determinados fármacos. Grande parte destas situações têm sido regulamentadas pelas autoridades, após o seu desencobrimento nos anos 90, mas servem como lição inequívoca de que a Indústria Farmacêutica é uma área de negócio como outra qualquer, pelo que os consumidores (termo intencionalmente usado, ao invés de pacientes ou utentes) devem proteger-se e questionar-se, como fariam com qualquer outro produto anunciado no mercado. Para que esta mega-indústria possa manter margens de lucro que sobem há décadas, é necessário recorrer a manobras menos visíveis. O presente texto procura explorar algumas problemáticas que estão a um nível mais profundo, ao nível estrutural da organização do sistema de saúde actual, tendo em conta as decisões sobre o funcionamento dos estabelecimentos nacionais de saúde e protocolos a serem postos em prática.
Existem três políticas actualmente em vigor na área da saúde que dão, na opinião de vários investigadores independentes, azo à prescrição excessiva de fármacos: a primeira tem a ver com a própria definição de doença e inclui a patologização de sintomas quotidianos; a segunda é a alteração intencional dos valores ou parâmetros considerados de risco, dentro de um diagnóstico; a terceira diz respeito aos processos de teste e escolha de fármacos, as suas patentes, comercialização e estudos de demonstração de eficácia.
Este artigo não pretende ser imparcial nem científico e aspira a ter efeitos secundários.
Patologização: Como convencer toda a gente, incluindo uma boa parte da comunidade médica, que a prescrição actual de fármacos não é excessiva
A primeira problemática levantada dá-se logo na génese de definição de doença. Um conjunto de sintomas é estudado e passa a corresponder à definição de uma doença, que passa assim a estar enquadrada nos manuais de saúde vigentes, conforme dita o Ministério da Saúde, seguindo recomendações internacionais e de algumas organizações da sociedade civil, como a Ordem dos Médicos. Estas decisões têm um impacto directo e imediato nas vidas de todas as pessoas, pois passam a ditar as regras a serem usadas para diagnosticar, assim como as terapêuticas a serem utilizadas em todos os estabelecimentos de saúde oficiais. Aquilo que começou, talvez bem-intencionadamente, por ser uma uniformização de protocolos, com vista à produção de diagnósticos correctos e para evitar o uso dos fármacos errados, revela agora ser um método com graves falhas. E se o conjunto de sintomas que dá origem ao diagnóstico não for conclusivo mas, mesmo assim, a comunidade médica tiver indicações de que o diagnóstico deve ser feito e o protocolo receitado? As doenças do foro psiquiátrico são um claro exemplo disto. Os distúrbios ao nível mental são naturalmente muito subjectivos e, por isso, difíceis de enquadrar, razão pela qual existe o controverso Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Este é o dicionário mais usado por clínicos, mas também por investigadores, companhias de seguro, pela indústria farmacêutica e parlamentos políticos. Ao longo do tempo, o DSM tem sofrido correções e adaptações mas continuam a surgir argumentos que defendem que o sistema de classificações usado por este manual faz distinções categoricamente injustas entre as desordens abordadas e entre o que é considerado normal e o anormal. Em 1973, o DSM sofre uma revisão nos EUA e a homossexualidade deixa de figurar enquanto doença (a Organização Mundial de Saúde retira a homossexualidade da lista de doenças mentais apenas em 1990). No entanto, nos manuais usados em todo o mundo, o travestismo ou o transsexualismo são considerados um transtorno de personalidade, figurando pois no DSM enquanto doença. Para além destes exemplos, outros factores arbitrários e comuns como agitabilidade ou stress, figuram em várias listas de sintomas de doença mental. Dr. Allen Frances, um dos médicos responsáveis pela 4ª edição do DSM, apresenta-lhe agora duras críticas e afirma que, na elaboração do manual “cometemos erros que tiveram consequências terríveis”[ref]Dados retirados de http://ethicalnag.org/2011/07/02/dsm-5-shrinks-bible/[/ref]. Um dos exemplos por ele apontado é o diagnóstico elaborado com base em listas de sintomas, que permitiram um aumento de 40%, em 12 anos, de diagnósticos de bipolaridade infantil. Outro argumento usado é o de que os diagnósticos puramente baseados em sintomas falham em adequar a situação ao contexto em que a pessoa está inserida, bem como em determinar se há real desordem interna de um indivíduo ou simplesmente uma resposta a uma situação em curso. Por exemplo, se durante um período de 2 semanas, uma pessoa experienciar 5 dos 9 sintomas de depressão que constam no DSM, então ser-lhe-á diagnosticada uma depressão clínica e ser-lhe-á aconselhada medicação composta por psico-activos e/ou tranquilizantes, independentemente das suas circunstâncias ou visões sobre os seus próprios problemas.
Outro claro exemplo de como se pode diagnosticar e medicar excessivamente é a Perturbação da Hiperactividade com Défice de Atenção (PHDA). Os dados oficiais apontam que em 2002, em Portugal, 3 a 7% das crianças em idade escolar estivessem diagnosticadas com PHDA[ref]Dados retirados de http://www.appdae.net/phda.html[/ref]. Apesar de não se encontrarem facilmente dados actuais, sabe-se que o número de crianças diagnosticadas tem vindo a aumentar significativamente e estima-se que, nos EUA, 6 milhões e meio de crianças estejam a ser actualmente medicadas para o Défice de Atenção com Hiperactividade[ref]Dados retirados do site oficial: http://www.cdc.gov/ncbddd/adhd/data.html[/ref]. Alguns dos “sintomas” que figuram em vários guias para identificação da PHDA são tão comuns como “não permanecer sentado”, “ter bicho carpinteiro”, “impulsividade” ou “não se concentrar durante muito tempo numa tarefa”. Muitas vezes, baseando-se apenas em poucas características gerais, típicas em crianças com personalidades mais activas, a recomendação dos serviços de pedopsicologia é a toma de psico-activos, como a famosa Ritalina, fármaco que foi apelidado de “droga da obediência”. Estas substâncias são bastante contestadas, não só por apenas suprimirem sintomas e não proporcionarem qualquer cura, mas também por criarem dependências permanentes, uma vez que o cérebro de uma criança constantemente medicada é mais propenso a desequilíbrios futuros, criando assim adultos dependentes de drogas para viverem.
Estes exemplos já demonstram haver uma medicação excessiva com base em sintomas pouco conclusivos mas, ainda em relação a diagnósticos, uma das grandes tendências actuais, grandes porque o impacto é tremendamente generalizado, é a patologização de sintomas comuns à população mundial. A patologização é o processo pelo qual comportamentos ou processos biológicos previamente considerados normais são descritos, aceites ou tratados como problemas médicos. São exemplos disto os casos da insónia e da obesidade.
Em Portugal, apesar da insónia ser sobretudo tratada como um sintoma, já é classificada como primária ou secundária. Primária quando é a principal doença e secundária quando se apresenta como sintoma de outra doença ou efeito colateral de um medicamento[ref]Definição retirada de http://www.cufportohospital.pt/SDT/Ins%C3%B3nia/1515[/ref]. “Mas a insónia é uma doença ou uma consequência de algo que foi patologizado porque havia um tratamento químico disponível?” Quem faz a pergunta é a médica Abigail Zuger, partindo dos dados publicados na investigação The medicalization of sleeplessness: a public health concern[ref]Em “Is Insomnia a Disease?”, por Abigail Zuger, MD[/ref]. Normalmente identifica-se primeiro a doença e depois procura-se o tratamento. Os observadores deste estudo argumentam que, hoje em dia, a sequência está por vezes invertida: a comercialização de um agente fármaco dá origem a uma doença, muitas vezes patologizando uma parte natural da existência humana. Este processo criou uma epidemia de insónias nos EUA[ref]Analisa-se o contexto norte-americano, não só porque existem poucos artigos ou estudos sobre estas problemáticas a nível europeu, mas também porque os grandes laboratórios farmacêuticos, centros de pesquisa e os manuais de medicina usados mundialmente são norte-americanos e haverá, portanto, uma tendência de importar não só medicamentos, mas também os diagnósticos e definições de doenças[/ref], tendo o número de receitas de benzodiazepinas (os chamados tranquilizantes, comercializados em marcas como Xanax ou Valium) aumentado uns significativos 50%, entre 1993 e 2007[ref]Recomenda-se para uma leitura mais extensa sobre o assunto: The medicalization of sleeplessness: A public health concern, Moloney ME et al. [/ref].
Recordemos o processo normal, já de si algo controverso: a partir do momento em que certos sintomas sejam considerados uma doença, passa a haver um protocolo associado, ou seja, a indústria farmacêutica pode patentear um fármaco para esse diagnóstico, que passará a a ser receitado cada vez que alguém apresente esses sintomas. A obesidade pode também ser considerada um caso de patologização. Apesar de em Portugal já ser considerada doença crónica desde 2004, a American Medicinal Association só votou a favor da patologização nos EUA em Junho de 2013. O excesso de peso é de tal forma comum hoje em dia, que existe uma enorme pressão para que seja tido individualmente como enfermidade e não associado a outras doenças, já que estamos a falar de milhões de futuros consumidores para o fármaco que se associe a esse diagnóstico. Dentro da própria comunidade médica há vozes discordantes e investigações incómodas que reflectem sobre a influência da alimentação, estilo de vida e condições ambientais, enquanto factores principais para combater a obesidade. Não são portanto todos os médicos ou investigadores que defendem que se devem usar medicamentos sintéticos no combate à obesidade. Mas a prática comum adoptada pelas instituições ligadas à saúde é a da prescrição de fármacos como solução para os casos de doença e, no caso da obesidade ser vista como tal, torna-se possível vender a ideia de um químico ser uma cura para o excesso de peso.
Cada vez mais, certas sensações são agora consideradas sintomas de doença. Experiências quotidianas como insónia, tristeza, pernas latejantes e falta de desejo sexual são agora diagnósticos: disfunção do sono, depressão, síndrome das pernas inquietas e disfunção sexual[ref]What’s Making Us Sick Is an Epidemic of Diagnoses[/ref].
Até a nível da prevenção se pode dizer que se pratica “excesso de zelo”, sendo cada vez mais comum um médico aconselhar a medicação como forma de prevenção, coisa que não está clinicamente comprovada, sobretudo em relação aos malefícios que muitas drogas implicam. Também no caso de certos exames de rotina, tais como as mamografias, para detectar cancro da mama, alguns profissionais de saúde questionam as normas do actual sistema: estes exames superam realmente, em benefícios, os prejuízos que provocam? “Apesar de não se questionar a gravidade da doença, estima-se que mais de um milhão de mulheres tenham sido sobre-diagnosticadas e sobre-medicadas nos EUA, nos últimos 30 anos , porque as mamografias são passíveis de apresentar falsos-positivos”[ref]Las mamografías periódicas a examen: ¿superan realmente los beneficios a los perjuicios en el programa de cribado del cáncer de mama?, Guadalupe Martín, na revista Mujeres y Salud[/ref].
A constante alteração dos valores ou parâmetros considerados normais e de risco
A segunda grande problemática encontrada que pode levar a uma medicação excessiva são as flutuações dos valores, níveis ou indicadores considerados normais ou de risco, para que alguém seja considerado doente ou não, sobretudo quando estes tendem a descer.
Voltando ao caso da obesidade, os valores de referência para o Índice de Massa Corporal (IMC) que se praticam nos EUA e na Europa são tão baixos que figuras públicas como Tom Cruise ou George W. Bush são considerados obesos. A razão principal apresentada para justificar os valores de referência actuais, tem a ver com a relação entre um valor alto de IMC e o risco de doença. Segundo um estudo independente conduzido em 2013 e publicado no Journal of the American Medical Association[ref]http://goo.gl/O2jZLD[/ref], a associação entre risco de morte e excesso de peso é menos óbvia do que a que figura em estatísticas oficiais. O estudo refere que o governo considera existirem cerca de 165 milhões de pessoas com obesidade ou pré‑obesidade. Mas se o governo redefinisse a marca de peso normal num estatuto que não incluísse o risco de morte, 130 milhões de pessoas não entrariam nessa contabilização[ref]http://goo.gl/EZvuHo[/ref].
Tomando como exemplo a hipertensão, uma das doenças mais comuns dos nossos tempos, pode-se observar que os valores considerados críticos têm flutuado tanto que metade da população inteira do planeta é considerada hipertensa ou pré-hipertensa. Se metade de nós somos considerados doentes, como se pode continuar a usar o termo “normal”? E se a recomendação para metade da população mundial for a toma de medicamentos, pior ainda, pois constata-se clinicamente que “ao tratar elevações ligeiras ou moderadas da tensão arterial com fármacos não se melhora a condição geral de saúde do paciente e os efeitos secundários são um risco maior do que a tensão alta”[ref] Segundo a opinião do médico Harlan M. Krumholz (goo.gl/lziFcX)[/ref].
O colesterol é outra condição comum e referenciada no sistema nacional de saúde como sendo de risco com valores pouco elevados, de maneira a que, até em condições de alterações normais devidas à idade, a pessoa seja considerada como tendo necessidade de medicação diária. É sabido, por exemplo, que o efeito da menopausa nas mulheres pode aumentar os níveis de colesterol total, a fracção LDL (“colesterol mau”) e HDL (“colesterol bom”). Ainda assim, muitas mulheres são diagnosticadas como tendo o colesterol demasiado alto nessa altura das suas vidas e é-lhes receitado um fármaco para combater artificialmente essa condição. A medicação é muitas vezes desnecessária, já que o corpo se adapta às novas circunstâncias, bastando promover pequenas mudanças nos hábitos alimentares. Em vários casos pode ser prejudicial à saúde, pois ainda hoje se receita em Portugal a Niacina para combater o colesterol, um medicamento cujos efeitos adversos são elevados e foi já retirado do mercado em vários países[ref]Sobre a Niacina e outros medicamentos com efeitos adversos, ler os artigos de Martha Rosenberg publicados no site outraspalavras.net.[/ref].
Cada vez que o limite dos valores referenciais de uma doença é expandido – se o limite para a hipertensão baixar 10 pontos, se as marcas para a obesidade variarem em 5 quilos – o mercado das drogas expande-se em milhares de consumidores e milhões em lucro. Quem tem o poder para tomar estas decisões? E quem escolhe que fármacos são considerados eficazes para combater determinada doença?
O mundo privado dos comités científicos, testes clínicos e entidades reguladoras
O funcionamento dos comités de avaliação e equipas de investigação na área da saúde é bastante desconhecido em Portugal, e de resto no mundo inteiro. O livro “Bad Pharma”[ref]Publicado pela Bizâncio em Portugal (2013), foi traduzido como “Farmacêuticas da Treta”. O título “Bad Pharma” faz uma alusão ao termo Big Pharma, o nome pelo qual é conhecida a grande indústria farmacêutica nos Estados Unidos.[/ref], escrito pelo médico e jornalista Ben Goldacre, analisa em detalhe não só a realidade das políticas das farmacêuticas, mas também uma série de conivências do sistema de saúde – publicações de medicina, entidades reguladoras e até médicos – que têm posto os interesses das farmacêuticas acima da saúde das pessoas.
“As drogas são testadas pelas pessoas que as fabricam, em testes mal concebidos, em números insignificativos de pacientes pouco representativos da normalidade, e usando técnicas que têm falhas à partida, fazendo com que os resultados exagerem os benefícios dos tratamentos. Não é surpreendente que estes testes favoreçam os fabricantes”.
O autor dedica vários capítulos do livro aos problemas que identifica como responsáveis pela falta de veracidade dos testes a medicamentos, tais como dados insuficientes nos estudos sobre os efeitos das drogas actuais, omissão de efeitos secundários, as decisões relativas aos estudos de novas drogas, entidades reguladoras e as suas ligações à indústria farmacêutica, entre outros. Ao longo do livro, o leitor é confrontado com dezenas de relatos como este, que ocorreu no Reino Unido e dizia respeito a investigações sobre doenças comuns: “Para 16 dos 44 ensaios, a empresa patrocinadora tinha de ver os dados à medida que se acumulavam, e noutros 16 tinha o direito de interromper ou suspender o estudo em qualquer momento e por qualquer razão. Isto significa que uma empresa pode ver se um ensaio está a ir contra ela, e pode interferir à medida que avança, distorcendo os resultados”.
Alguns outros exemplos que merecem ser referidos, reveladores da influência que as grandes farmacêuticas exercem na medicina, são certas publicações de prestígio (normalmente os Journals of Medicine) serem inteiramente propriedade de laboratórios farmacêuticos. No caso da informação disponível na internet, há sites que aparentam ser desenhados para disponibilizar informação sobre saúde ao público em geral, mas que também pertencem a farmacêuticas – como é o caso de WebMD, site de referência norte-americano que é propriedade da Eli Lilly.
Algumas denúncias têm sido feitas sobre o facto de os manuais de prática clínica serem escritos por médicos a serviço das farmacêuticas, como no caso do Dicionário de Saúde Mental, em que “O potencial conflito de interesses tem surgido porque aproximadamente 70% dos autores que previamente selecionaram e definiram as desordens psiquiátricas do DSM tiveram ou têm relacionamentos com indústrias farmacêuticas”[ref]Diagnosing Conflict of Interest Disorder[/ref].
Outra dúvida, sobre conflitos de interesse mas em relação aos governos, tem a ver com a dívida externa de vários países europeus à grande indústria farmacêutica. Naturalmente, isto levanta suspeitas quanto à imparcialidade das decisões governamentais.
Outras das questões que uma parte não-comprometida da comunidade científica levanta, contrárias ao discurso e à prática das farmacêuticas, são o abandono de investigações sobre tratamentos que aparentam ser eficazes mas não são lucrativos, a falta de disponibilidade para comercializar tratamentos em países pobres ou as taxas de sucesso do efeito placebo, que ultimamente têm acendido o debate sobre a capacidade inata do corpo de curar-se a si próprio.
Estas matérias – que merecem uma análise cuidada, baseada em dados que dificilmente são tornados públicos – estão aqui enumeradas em tom de denúncia, para impulsionar uma reflexão sobre os paradigmas do sistema de saúde actual. Se existem mecanismos encobertos que permitem a sobre-medicação de uma população cada vez mais dependente de drogas, para benefício de muito poucos, então há que começar a descobri-los.
M. Lima
m.lima@dev.jornalmapa.pt

Saúde é um estado total de bem estar físico, emocional, psicológico, espiritual e social
No dia 23 de Julho de 2014 passaram 7 anos que o meu professor/mentor (sifu) Doc (Ron Rosen) faleceu. O Doc começou em criança a praticar artes marciais chinesas, a aprender medicina chinesa, inicialmente medicina die da (quedas e murros) de traumas físicos, ervas, acupunctura, massagem e começou a praticar medicina em Denver em 1974. Estudou também rituais de cura e ervas da medicina tradicional Lakota e tornou-se membro adoptivo deste povo após o cerco de 1974 em Wounded Knee[ref]http://goo.gl/1caOu4[/ref].
Foi um dos fundadores do colectivo Street medics[ref]http://goo.gl/zsizdF[/ref] (médicos de rua) nos anos 60 nos Estados Unidos, membro do comité médico para os direitos humanos (Medical Comitee for Human Rights), fundador e membro da direcção da GUAMAP, (Guatemala Medical Aid Project / Projecto de Ajuda Médica para a Guatemala) – organização que desde o início dos anos 90 envia para aldeias no norte da Guatemala acupuntores/as e outros voluntários provedores/as de cuidados de saúde para ensinarem promotores de saúde e integrar a acupunctura nos cuidados de saúde prestados nas comunidades mais remotas. E em 2002, após vários treinos em medicina de emergência e a formação de grupos de Médicas/os de Rua Europeus (European Street Medics) foi também responsável pelo início do programa Europeu de Médicas/os Pés Descalços Sem Fronteiras (European No Borders Barefoot Doctor Program) no qual eu, entre outros, iniciámos o estudo e a prática da medicina tradicional chinesa.
Foi missão de vida do Doc devolver às pessoas o poder que vem delas, lhes pertence por direito e que é o da medicina enquanto ferramenta para a vida.
Partilhar conhecimento para dispersar o poder
Aprendi com ele que qualquer pessoa que tenha acesso a informação correcta, partilhada de forma clara, pode providenciar cuidados de saúde básicos na sua comunidade. Isto aconteceu na China, em grande escala, nos anos 40[ref]http://goo.gl/2bUJEm[/ref] e na América Central nos anos 70. Quando agricultores foram instruídos em cuidados de saúde básicos contribuíram muito para melhorar a nutrição, o ambiente, a higiene, o planeamento familiar e a condição geral de saúde da população rural. Também desde os anos 60 até agora, quando pessoas sem formação médica formal praticam primeiros socorros em protestos/manifestações, como é o caso dos street medics.
Tanto na altura como agora, a verdade é que nós somos os nossos recursos mais valiosos. Partilhar conhecimentos e técnicas para gradualmente deixarmos de depender de um sistema cuja prioridade é o lucro, e não a nossa vida, é vital para a nossa saúde. Um valioso recurso educativo para o tratamento e prevenção de problemas de saúde comuns é o livro (disponível gratuitamente) “Onde não há médico”[ref]http://goo.gl/4VesYK[/ref] de David Werner. Editado originalmente em castelhano para servir as populações do México, rapidamente foi traduzido em muitas línguas e sucederam-se as edições de livros semelhantes para mulheres, crianças com necessidades especiais, medicina dentária, etc.[ref]http://goog.gl/qshu63[/ref], acompanhando as necessidades crescentes desta população mundial, cada vez mais esmagada pela violência do seu papel de consumidor, pela ausência do sentido de comunidade, de solidariedade e de pertença deste todo que é o planeta e o universo.
As guerras, a pobreza, a fome, os desastres ambientais, são hoje resultados directos e globais do modo de produção e vida capitalista. Que infligem sobre a maioria da população do planeta uma pressão constante e imensa, traumatizando indivíduos, comunidades, tribos e populações inteiras.
A tensão/stress da vida quotidiana afecta a maioria das pessoas e, embora não seja uma patologia em si, pode causar doenças se for sentida por um período de tempo prolongado e se o corpo não conseguir reagir adequadamente ao evento stressante.
É vital cuidar de nós, das nossas cabeças… curar é uma habilidade a aprender.
Quanto mais conscientes estamos da destruição e violência constante que este sistema e seus Estados promovem contra nós e agimos contra isso, confrontando a classe dominante, as estruturas do poder, as hierarquias, mais intensa e constante se torna essa confrontação, a todos os níveis. Frequentemente neste processo esquecemo-nos de nós mesmas[ref]A partir daqui uso o substantivo feminino para me referir a todas as pessoas.[/ref]. Trabalhamos, organizamos, protestamos até sofrermos um colapso. Arcamos com consequências, lidamos com perseguições e cansaço, sem nos apercebermos das consequências a longo prazo em nós, nos nossos corpos e mentes.
É tão comum encontrarmos pessoas que enfrentam situações emocionais complicadas derivadas das suas vidas, que há tendência a considerar isto normal. A exaustão, colapsos nervosos, traumas, depressões ou dependências, são extremamente debilitantes e perturbam profundamente o nosso saudável funcionamento. É vital encontrarmos um maior equilíbrio, tempo, espaço para relaxar e descansar, reflectir no que aconteceu, recuperar forças e apoiarmo-nos mutuamente em todo este processo.
A medicina chinesa é um sistema independente que se desenvolveu ao longo de milhares de anos de observação e compreensão dos padrões e ciclos naturais e do nosso funcionamento. Nela não há diferenças entre sintomas físicos e emocionais, todos fazem a imagem geral de um padrão que é posteriormente tratado como um todo. O corpo e a mente são tratados como um só.
As feridas emocionais podem ser como feridas físicas, se não forem tratadas permanecem como obstruções tóxicas dentro dos nossos corpos.
As alterações do estilo de vida são consideradas cruciais para o bem estar do paciente. Por isso:
– O apoio comunitário é fundamental não só durante os momentos problemáticos mas também nas alturas de afastamento e recuperação.
– Conhecer os nossos limites pessoais e aceitá-los.
– Não ignorar os sintomas relacionados com stress que surjam.
– Dormir e descansar o suficiente.
– Comer bem e regularmente.
– Exercício (qi gong, yoga, bicicleta, escalada…).
– Sintonizar com os ciclos naturais (dia/noite, primavera/verão, outono/inverno).
Todas nós podemos beneficiar ao sermos capazes de promover e providenciar cuidados de saúde básicos nos nossos círculos. A ideia de partilhar conhecimento ajuda a dispersar o poder e pô-lo onde deve estar, nas nossas mãos!
Este pequeno artigo pretende ser o primeiro de uma série destinada a partilhar conhecimento prático, preventivo, básico e histórias inspiradoras, tudo bom para a nossa Saúde!
Maria Freixo