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  • O matador de Sidónio Pais, vingador dos trabalhadores?

    O matador de Sidónio Pais, vingador dos trabalhadores?

    O cognominado «Presidente Rei» Sidónio Pais é abatido em Lisboa, com um tiro de revólver, na estação do Rossio. O autor do disparo, José Júlio da Costa, é presidente da Junta de Freguesia de Garvão, concelho de Odemira, de onde é oriundo. Segundo o testemunho de um residente em Garvão à data do acontecimento, o sindicalista libertário José dos Reis Sequeira, «ele era a pessoa mais cotada na terra, como lavrador, como comerciante e como político»[ref]José dos Reis Sequeira, Relembrando e Comentando – Memórias de um operário corticeiro, 1914-1938, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978. [/ref], filiado no Partido Democrático[ref]Idem.[/ref]. «Tinha estado na Rotunda no 5 de Outubro de 1910 e feito carreira militar em Moçambique, Timor e Angola»[ref]Depoimento do agente Manuel Alves Oliveira. Citado na obra de Alberto Franco e Paulo Bragança, O Homem Que Matou Sidónio Paes, Lisboa, Guerra e Paz, 2008.[/ref].

    Esta história ocorre a 14 de Dezembro de 1918, no tempo em que os trabalhadores assalariados tinham de conquistar os seus direitos palmo a palmo, por meio de lutas quase sempre desiguais em que algumas vezes conseguiam a vitória do «almejado direito» e outras sofriam pesada derrota, como aconteceu na greve geral de Novembro desse ano convocada pela União Operária Nacional (UON), fundada em 1914. No mesmo ano em que se inicia a guerra interimperialista, dita I Guerra Mundial, em que Portugal irá participar ao lado dos Aliados.

    Como escreveu César Oliveira, «entre Maio de 1911 e Março de 1914 concretiza-se a ruptura das classes trabalhadoras com a república democrática»[ref]César de Oliveira, A Criação da União Operária Nacional, Porto, Afrontamento, 1973.[/ref]. Para os sindicalistas e anarquistas, o governo democrático da república actua como o regime anterior, defendendo os interesses do capitalismo, do qual se revela o mais fiel representante. A república democrática defende a liberdade enquanto esta não se torna um perigo para os privilégios dos que mandam. As classes trabalhadoras organizadas na UON combatem a lei da greve porque esta protege os amarelos (os fura-greves), de modo a permitir todas as manobras destinadas a acabar com as paralisações do trabalho. Lutam contra a lei do inquilinato, por aumentos salariais e contra o custo de vida. Constituem-se assim grupos de militantes e propagandistas que percorrem o Alentejo, as Beiras, o Algarve e Trás-os-Montes em sessões de divulgação e debate. Os trabalhadores rurais em luta reivindicativa constituem uma força pujante, realizando-se em 1912 o seu I Congresso.

    A Greve, nº 55, Ano II, Domingo, 15 de Setembro de 1918, Fundação Mário Soares / Alberto Pedroso

    Greve Geral

    No início de 1916, perante a grave situação económica que se vive, o conselho geral da UON propõe a greve geral contra o custo de vida, contra os atropelos ao horário de trabalho e a injustificada permanência de militantes operários nas prisões. Porém, sem abandonar a luta por aumento dos salários, a proposta de greve geral não chega a avançar, considerando a maioria que o movimento não terá sucesso. A 30 de Janeiro desse ano, pelo facto de se acentuarem as difíceis condições de vida das classes assalariadas, em Lisboa são assaltadas pela população algumas mercearias e padarias, alastrando essa revolta para o resto do país. Muitas pessoas, «levando à frente os administradores do concelho, [vão] encontrar muitos géneros sonegados, especialmente milho, a cuja distribuição procedem»[ref]Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, Lisboa, Seara Nova, 1974.[/ref]. Foi um movimento espontâneo, inorgânico. Mas, entretanto, «a sede da UON [é] assaltada pela polícia e são presas as pessoas que se encontram nas suas dependências, o mesmo sucedendo em vários sindicatos, que [são] encerrados, como aquela o fora também»[ref]Idem.[/ref].

    Em Lisboa são assaltadas pela população algumas mercearias e padarias, alastrando essa revolta para o resto do país.

    Em 1917 a guerra interimperialista parece eternizar-se: a intervenção dos EUA injecta-lhe energia em benefício dos Aliados. Ao escurecer do dia 5 de Dezembro de 1917 dá-se um movimento insurreccional contra, segundo se diz, o envio de mais tropas para a guerra. O chefe do movimento é o major de artilharia Sidónio Pais, antigo ministro de governos da república burguesa, último plenipotenciário de Portugal em Berlim. Sidónio mobiliza os cadetes da escola de guerra e monta acampamento no Parque Eduardo VII. Embora a UON não esteja envolvida no movimento militar, muitos trabalhadores a ela ligados participam nesse movimento com a finalidade de se libertarem da opressão exercida pelo Partido Democrático de Afonso Costa. E os operários em armas no Parque Eduardo VII, em troca da sua participação no movimento militar insurreccional, exigem a libertação dos presos que se encontram na Penitenciária por «delitos de ordem económica e social», entre eles, o operário agrícola Gonçalves Tormenta, preso desde 1912[ref]João Gonçalves Tormenta foi condenado, em 1912, a 28 anos de prisão pela morte do administrador do concelho da Moita (Setúbal). Mas o autor dessa morte foi a população da Moita em revolta. Um ano após ter sido libertado, Gonçalves Tormenta foi definitivamente indultado.[/ref]. Quatro dias depois, a UON apresenta ao governo de Sidónio as suas reclamações: a libertação imediata dos indivíduos encarcerados nas mesmas condições, distribuídos por outras cadeias, a revogação da lei de 26 de Julho de 1893 sobre o direito de reunião, a abolição da censura, o estabelecimento de uma jornada máxima de 8 horas de trabalho para todos os ramos de actividade. Além disso, a UON reclama a utilização imediata dos terrenos incultos, quer baldios quer de propriedade particular, pelos sindicatos rurais, em benefício comum, em conformidade com as aspirações manifestadas no II Congresso dos Trabalhadores Rurais, realizado em Évora em Abril de 1913.

    Acção directa no consumo

    Para acabar com a acção nefasta dos intermediários, responsáveis pelo custo de vida através da especulação e do açambarcamento, a UON propõe que os municípios adquiram os bens alimentares essenciais para venda directa aos consumidores, propondo a representação de delegados seus, com mandato revogável a todo o momento, nas comissões criadas para essa finalidade. Em resposta, Sidónio Pais, o chefe da denominada «república nova», já com monárquicos colocados em lugares-chave (o que afasta muitos republicanos)[ref]Inicia-se com o sidonismo a actuação política organizada do «integralismo lusitano». Foi posteriormente uma das correntes ideológicas que se integraram no dito Estado Novo, no fascismo salazarista.[/ref], começa a proceder para com as classes trabalhadoras como os democráticos da «república velha» afonsina. São encerrados alguns sindicatos e vários sindicalistas são presos. E as greves multiplicam-se, porque as condições económicas se agravam.

    Numa moção publicada em quase todos os jornais, em 5 de Março de 1918, a UON exorta os assalariados a ingressarem nas suas associações laborais para «lograrem conquistas e respeito pelos seus direitos e fazer valer as suas reivindicações, pois mais uma vez lhes deve ter sido demonstrado que os trabalhadores só podem confiar no seu próprio esforço de classe, actuando colectiva e solidariamente fora da acção e influência de qualquer partido político»[ref]Alexandre Vieira, Almanaque de A Batalha, 1926.[/ref].

    Com este ânimo, claramente sindicalista revolucionário e anarquista (duas das particularidades mais significativas do movimento operário da época), a UON prepara-se para a greve geral nacional. São de imediato preparados comícios, «marcados para 15 de Setembro, tendo partido cinco delegados da UON para o Alentejo e Algarve, os quais, com igual número de representantes da Federação Rural, realizam, através daquelas províncias, dezenas de sessões preparatórias. Quarenta comícios públicos são organizados em vários centros industriais do País, comícios que as autoridades proíbem, a pretexto de “defesa da Ordem”, fazendo-se em seu lugar, por tal motivo, sessões nas sedes dos sindicatos, por entre violências da força armada, que em Montemor-o-Novo e em Alpiarça fuzila alguns trabalhadores»[ref]Alexandre Vieira, Para a História do Sindicalismo em Portugal, op. cit..[/ref]. A greve geral torna-se inevitável e é marcada para o dia 18 de Novembro. Mas o movimento marcado para esse dia «foi péssimo, por três motivos: primeiro, porque a pneumónica (terrível epidemia que dizimou milhares de vidas) grassava de um extremo ao outro do País; segundo, porque vinha de ser firmado o armistício e como tivesse baixado o preço de alguns artigos que não eram de primeira necessidade, o consumidor, na sua boa fé, supôs que as condições de vida iam melhorar; terceiro, porque numa consulta feita pelo comité central a 60 organismos sindicais de fora de Lisboa, a quase unanimidade deles se manifestou pela inoportunidade da greve naquela conjuntura, ao contrário do que sustentou a maioria dos representantes dos Sindicatos da capital»[ref]Idem.[/ref].

    Apesar disso, a greve é proclamada. Os ferroviários do Sul e Sueste, apesar de os militares ocuparem as estações, paralisam corajosamente. No Algarve, em Portimão, Tavira, Silves e Olhão os trabalhadores aderem, sendo mortos em Portimão alguns marítimos. E os trabalhadores de Setúbal também aderem. Mas no Norte do país a greve não suscita adesão, excepto na Póvoa de Varzim, Ovar e Gaia. Em Lisboa, só os operários gráficos mantêm uma paralisação de três dias, impedindo a saída dos jornais [ref]Idem.[/ref]. Os mais activos são os trabalhadores rurais do Alentejo. Em Évora mantêm-se oito dias em luta, seguidos pelas populações camponesas de S. Manços, Redondo, Torre de Coelheiros, Montemor, Santiago do Escoural, Sousel, Odemira e Vale de Santiago.

    É nestas últimas localidades que o espírito de combatividade se destaca. E é em Vale de Santiago que a população rural, vítima do açambarcamento de bens essenciais, da má paga e do desemprego, emprega o método insurreccional, como acontece na vizinha Andaluzia, para a conquista da riqueza social usurpada por minorias privilegiadas e para esta ser administrada pelos próprios trabalhadores. Cumprindo a aspiração proclamada no II Congresso dos Trabalhadores Rurais: a terra para os trabalhadores rurais, para uso comum.

    Greve Geral de 1918: sabotagem verificada na linha do sul e do sueste (Ilustração Portuguesa, nº 667, 2 de Dezembro de 2018)

    Acção Insurreccional

    Para estes últimos, em particular os do Alentejo, devido aos pornográficos latifúndios e ao seu modo de produção feudal, ao custo de vida e à opressão, a greve geral surge como a oportunidade de dar início à revolução social. Em Vale de Santiago chega assim «o momento de tomar conta das terras que trabalham, despojando os senhores»[ref]José dos Reis Sequeira, op. cit, [/ref]. O povo de Vale de Santiago percorre as ruas dando vivas à revolução social. «No centro da aldeia havia um celeiro, pertencente ao maior agrário da freguesia, António Eduardo Júlio, onde se encontraram 13 moios de trigo que ele se recusava a pôr à venda. O povo decide expropriá-lo, a fim de abastecer os que tinham fome»[ref]Declaração de Francisco Mestre, participante nos acontecimentos, em Os Trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo, de Francisco Canais Rocha e Maria Rosalina Labaredas, edições 1 de Outubro, 1982.[/ref]. À noite, são «espalhados papéis com os dizeres: Viva a Greve Geral, o grupo dos Sovietes Portugueses, Abaixo os malandros, que têm os dias contados»[ref]Os Trabalhadores Rurais do Alentejo e o Sidonismo, op. cit.[/ref]. No dia 19, «os trabalhadores armam-se, sobretudo com as suas caçadeiras, e concentram-se no ponto mais alto da aldeia, o Cerro Alto, dispostos a defender-se, uma vez que em Odemira civis armados encerraram a Associação dos Trabalhadores Rurais e fizeram prisões»[ref]Ibidem.[/ref]. No Alto do Cerro os trabalhadores podem oferecer resistência. A Folha de Beja refere 60 homens armados que tomaram posição nos cerros que dominam a aldeia e afirma que tendo, acendido fogueiras e feito comida em comum, os trabalhadores terão percorrido as herdades tomando conta do gado e das terras[ref]Ibidem.[/ref].

    Como é prática de todos os governos, estes confiam às forças da ordem a função de reprimir por todos os meios a agitação popular. O governo de Sidónio mobiliza para ali uma força de cavalaria da GNR.

    «Eu vi desembarcar essa força na estação do caminho de ferro de Garvão. O José Júlio da Costa estaria por certo informado disso, pois apareceu na estação a fazer recepção a essa força. Apareceu a cavalo e logo que a tropa se encontrou preparada para marchar, o José Júlio tomou a frente como guia a indicar o caminho da região rebelde, direcção de Santa Luzia»[ref]José dos Reis Sequeira, op. cit.[/ref]. Mandado pelo governador civil do distrito de Beja, terá sido ele o interlocutor do conflito e «o negociador da rendição imediata e incondicional dos insurrectos, proposta que lhe foi transmitida de viva voz por um agrário de Vale de Santiago, em nome do representante do Governo»[ref]O Homem Que Matou Sidónio Paes, op. cit.[/ref]. O sobrinho de José Júlio, muitos anos mais tarde, disse que o tio tinha dado a sua palavra de honra e também a palavra de honra do governador civil que, «em troca pela deposição imediata das armas, os rurais poderiam retomar as suas vidas sem que viessem a sofrer quaisquer represálias ou perseguições»[ref]Idem.[/ref]

    A greve geral surge como a oportunidade de dar início à revolução social.

    Caça aos grevistas

    A Guarda Republicana ataca os trabalhadores insurrectos, José Júlio não estaria ao corrente do «plano traiçoeiro». (Mas tinha de estar? É óbvio que não). E os insurrectos acabam por debandar, sendo alguns capturados pelos campos. A população é barbaramente espancada e arrastada para fora de suas casas. A caça aos grevistas continua. «Ouviu-se dizer que José Júlio da Costa andou com a guarda pelos montes à caça dos cabecilhas da greve»[ref]José dos Reis Sequeira, obra citada.[/ref]. Sem julgamento e sem culpa formada, trinta trabalhadores rurais foram deportados para Luanda. José Júlio terá também levado a força repressiva à Comuna da Luz, onde viviam um grupo de sapateiros e suas famílias numa experiência de vida em comum, sendo ali encontrado um grupo de jovens refractários e desertores da guerra. A Comunidade experimental anarquista é destruída e o seu fundador, Gonçalves Correia, preso em Beja.

    José Júlio da Costa nunca esclareceu claramente o motivo que o levou a matar Sidónio Pais. Nunca chegou a haver um julgamento. Permanecendo assim um mistério. Alguns cronistas sugerem que tudo se deveu ao facto de ter sido traído na sua palavra. Chegam a afirmar que ele disparou três tiros, um deles para vingar os trabalhadores. Teria de se punir a si próprio pela colaboração que prestou ao governo sidonista. O que sabemos é talvez muito pouco. «Mas na questão da greve agiu como lavrador – proprietário –, como defensor do capitalismo, sem noção dos interesses partidários e sem consulta aos superiores hierárquicos do partido»[ref]Idem.[/ref].

    O certo é que, após o fracasso do movimento grevista, Sidónio Pais aproveita a oportunidade para «vibrar fundo golpe» na organização dos trabalhadores.

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    Texto de José Tavares, publicado no Jornal Mapa nr. 48, Jan. – Mar. 2026
    Imagem em destaque: Bilhete Postal (1918) “Assassinato de Sidónio Pais”, Fundação Mário Soares / Colecção Fundação Mário Soares/António Pedro Vicente

  • Felizmente continua a haver luar (Março/Maio 2021)

    Felizmente continua a haver luar (Março/Maio 2021)

    Quando o sonho americano se transforma em pesadelo

    Numa entrevista recente a uma revista francesa, diz o escritor irlandês-americano Colum McCann: «Ninguém sabe o que poderá vir a passar-se nos próximos anos nos Estados-Unidos da América. É exactamente isso que cria e alimenta o medo. Nenhum de nós sabe como será o futuro próximo. Ninguém tem a mínima ideia. E isso é verdadeiramente uma situação nova. Até agora as coisas eram claras: mudava-se de presidente e de administração, e o novo presidente aplicava o seu programa eleitoral, (…). Agora, temos de ter em consideração as decisões tomadas por Trump durante os últimos quatro anos, mas sobretudo este clima de incerteza, inédito, que reina no país. (…) Temos de ser lúcidos: vivemos actualmente em dois países diferentes (…) estes dois países já não se compreendem. Já nem sequer comunicam entre si. (…). Alguns intelectuais, nos quais tenho confiança, estão convencidos de que a próxima década verá o fim deste país, os Estados-Unidos da América, tal como o conhecemos. (…) é uma hipótese séria que não podemos totalmente pôr de lado tendo em conta o clima que reina actualmente» [ref] Colum McCann, «Le grand entretien», America, n°16, Inverno 2021.[/ref]. A inquietação do escritor traduz bem o sentimento partilhado por sectores importantes da sociedade americana. Depois da queda do bloco capitalista de Estado, a crise americana, que está ainda em desenvolvimento e que se agrava com as consequências económicas e sociais da pandemia, constitui provavelmente o acontecimento maior do princípio do novo século, com consequências planetárias evidentes. McCann sublinha que o consenso de crença na «democracia americana», que era o cimento interclassista da sociedade, se desmoronou, deixou de existir. A nova administração tudo fará para tentar restabelecer este «interesse geral» interclassista, mas os fundamentos da «democracia americana», a ideia segundo a qual a vitalidade do capitalismo americano cria condições para uma prosperidade partilhada por todos, já não existem. Sobre as ruínas da vitalidade do capitalismo americano, emergem agora os interesses díspares, opostos, antagónicos, de sectores e de classes sociais diversas atravessadas por questões raciais que se misturam às questões de classe e que estavam contidas por essa ideia da «democracia americana». A ideia do «cada um por si», da defesa egoísta do pouco que se tem contra os que nada têm, substitui, pouco a pouco, a ideia do consenso geral interclassista indispensável a um funcionamento minimamente conflituoso do capitalismo. Tudo isto tendo como pano de fundo uma crescente desigualdade de riqueza na sociedade que, há anos atrás, o movimento Occupy denunciou com radicalidade.

    Sem entrar de forma mais aprofundada na análise destas questões, pensamos que seria uma boa introdução dar a palavra a alguns camaradas americanos que viveram em directo e de perto os recentes acontecimentos e que reflectem sobre as suas consequências. Mais uma conversa não acabada…

    Comecemos pelo 6 de Janeiro de 2021. Como chegámos a este acontecimento?

    B.- Esta chamada «insurreição»… Privilégio branco, supremacia branca, poder branco. E a polícia do Capitólio deixou-os entrar. Estes clamores de fraude eleitoral e a tentativa de inverter o resultado de uma eleição, pondo em causa a legitimidade dos votos – o que não se sublinhou o suficiente é que estes votos são votos dos NEGROS. Foi exactamente isto que aconteceu após a Reconstrução a seguir à Guerra da Secessão. A democracia é atacada quando isso significa que os negros votaram. «Fraude eleitoral» significa: Não queremos que os negros votem.»

    A.- Vendo as coisas em retrospectiva, os acontecimentos de 6 de Janeiro parecem quase inevitáveis. Trump andava há meses a espicaçar a turba supremacista branca (veja-se, por exemplo, o ataque ao parlamento do estado do Wisconsin) e, antes da eleição, já afirmava que se preparavam para lha roubar. Continuou sempre a reivindicar para si uma vitória esmagadora. Tentou reverter a derrota através dos tribunais, das assembleias estaduais e do congresso. Organizou o motim ao dizer aos seus apoiantes para irem a Washington no dia 6 de Janeiro, que ia haver «festa».
     
    Os republicanos sempre souberam que Trump era um psicopata, mas era o seu psicopata e consideravam, com razão, que podiam tirar proveito da sua presidência. Além disso, tinham medo dele, pois toda a energia do Partido Republicano provinha dos partidários de Trump, que se contavam por milhões. Enquanto a maioria dos republicanos «respeitáveis» se apressam agora a saltar do barco Trump, que se está a afundar, o mesmo não acontece com os seus partidários.

    Tem-se discutido muito sobre como foi possível que a turba de nacionalistas brancos tivesse conseguido penetrar no Capitólio. Os polícias do Capitólio abriram as portas e inclusivamente pousaram para tirar selfies com os trumpistas. Depois do ataque, o chefe da polícia do Capitólio demitiu-se. Porém, é impossível dizer se houve um acordo entre a polícia do Capitólio e Trump ou alguns dos seus sequazes.   

    G.- Os conservadores estão ansiosos por subverter o sufrágio universal em virtude de a demografia ter diminuído a sua base potencial de eleitores brancos, rurais e suburbanos. A longo prazo, estão votados a desaparecer por causa desta mudança populacional. Mesmo assim, nesta última eleição, conseguiram angariar alguns votos de imigrantes recentes, sobretudo latinos e asiáticos. Embora estes grupos ainda continuem a votar maioritariamente nos democratas, os republicanos fizeram incursões no seu seio, porventura por eles se verem em competição directa com outras minorias urbanas, em particular afro-americanas e caraíbas. 

    Victoria_Pickering
    D.C. 6/6/20, fotografia de Victoria Pickering.

    Voltemos a esta ideia reaccionária da «supremacia branca» e à sua dimensão política hoje.

    B.- Esta supremacia branca não é nada de novo. O que estamos a assistir é à emergência das velhas contradições, vindas desde a fundação deste país de colonizadores, que levaram a uma guerra civil que foi ganha militarmente, e depois perdida politicamente, sendo sobretudo os negros a sofrer as consequências. Os negros, os latinos e os indígenas – e as mulheres durante muito tempo – nunca tiveram democracia aqui e continuam a lutar por uma verdadeira sociedade multirracial. Os próprios comentadores da imprensa de referência não puderam deixar de ficar chocados (enquanto nós, pela nossa parte, não ficámos surpreendidos) com a incrível diferença como foram tratados os supremacistas brancos pela mesma polícia que se especializou em espancar e prender manifestantes negros e de esquerda. Torna-se agora cada vez mais evidente que havia muitos polícias e militares naquela turba que tentou reverter os votos negros. A polícia, mais do que os militares, está fortemente impregnada de supremacistas brancos, e ainda mais de uma grande simpatia pelas suas opiniões e de hostilidade para com as pessoas de cor. Sabíamos isso. Mas estes acontecimentos determinaram um conhecimento mais alargado da enorme diferença como a polícia trata negros e brancos. Ninguém com olhos pode negar o que viu em 6 de Janeiro. 

    Trump pode ser visto como um personagem unificador de todas as correntes reaccionárias, racistas, conspiracionistas, religiosas, fascistas? Neste sentido, é legítimo pensar que tenha um papel político no futuro?

    G.- Trump teve de renegar a extrema-direita para manter a sua posição no partido republicano. Com uma condenação, não seria útil para ninguém. Penso que, de uma forma geral, ele não tem bons argumentos mobilizadores. Só foi capaz de unir conservadores e fascistas porque já tinha o poder supremo. Sem isso, as suas tácticas de intimidação tornar-se-ão muito menos eficazes e serão mais fontes de novas fracturas do que factores de união à sua volta.

    A aliança entre conservadores e a extrema-direita está a desfazer-se muito rapidamente. Sem um líder que esteja já no poder, não há unidade possível. Por agora, o motim na capital pode ser visto como um último fôlego, do mesmo modo que as planeadas manifestações da extrema-direita nos parlamentos estaduais no dia da posse do presidente. Suspeito que muito em breve se irão digladiar entre eles. Tal como os republicanos estavam divididos nalgumas quinze facções antes da eleição de Trump, o partido ir-se-á dividir de novo internamente e a extrema-direita desagregar em dezenas de grupos separados e conflituantes entre si. 

    Pode dizer-se que, nos Estados-Unidos, o Estado não está ao serviço da classe capitalista; pelo contrário, é a classe capitalista que é o Estado. Toda a elite política está íntima e directamente ligada ao capitalismo. De uma certa forma, a censura final das GAFAM a Trump veio sublinhar quem governa, quem tem o poder. Passamos do espectáculo político para a cena dos capitalistas que manipulam o dito espectáculo…

    G.- Sim. Hoje em dia, as empresas tecnológicas são todo-poderosas; é um verdadeiro «capitalismo monopolista». O seu controlo dos meios de comunicação social permite-lhes destruir qualquer candidato político. Agora que Trump perdeu a possibilidade de usar o twitter e outras plataformas, a extrema-direita ficou basicamente decapitada. Isto explica os apelos, tanto de democratas como de republicanos, para regular as empresas tecnológicas, e mesmo acabar com elas. Estas empresas ajudaram Trump a ascender ao poder e, depois, a espalhar as suas mentiras, e agora têm a possibilidade de o silenciar. Os políticos percebem que podem ser os próximos e, de facto, os republicanos que votaram contra o reconhecimento de Biden como presidente estão a sofrer as consequências. Muitas companhias comprometeram-se a retirar-lhes os apoios.

    Portland
    Portland, após as eleiçōes de 2020.

    E agora, o que se segue? Os Democratas podem conservar o poder político durante dois, talvez quatro anos. Biden e o seu governo de orientação liberal não parecem ser capazes de dar resposta a nenhuma das crises que o país enfrenta. Eventualmente, a crise sanitária poderá ser mitigada pela campanha de vacinação, mas a economia está a afundar-se, a miséria explode, a crise ambiental agrava-se cada dia que passa…

    A.- «Ficaria surpreendido se a democracia burguesa «ao estilo Obama-Biden» sobrevivesse nos EUA mais de dez ou quinze anos… No passado, a classe dirigente americana podia entender-se mais ou menos quanto a um rumo futuro. Esse acordo sofreu um sério rombo durante os anos 60 com o fim do compromisso no congresso. Desde então, as divisões agravaram-se. Há anos que a política norte-americana se encontra polarizada e, com a ascensão ao poder de uma figura como Trump, um governo autoritário tornou-se uma possibilidade real.

    Trump pode ter perdido a eleição, mas a ameaça trumpista mantém-se. Este ano, tal como em 2016, a maioria dos eleitores brancos votaram em Trump. Obteve mais de 72 milhões de votos e aqueles que votaram nele não vão desaparecer. Trump vai deixar o cargo, mas tentará conservar o controlo do partido republicano e continuará a vomitar ódio e a insistir em medidas autoritárias. Os EUA continuarão polarizados em termos políticos entre republicanos e democratas, ou, para dizer as coisas de um modo ligeiramente diferente, entre uma direita autoritária (partidários de Trump) e uma «esquerda» dividida entre centristas neoliberais e «progressistas».
     
    A divisão entre republicanos e democratas tem sido uma batalha entre a «Main Street», ou localistas e a «Wall Street», ou globalistas. A «Main Street» agrupa os pequenos comerciantes, o imobiliário (de onde vem Trump), retalhistas, pequenos industriais, etc. focados sobretudo nos mercados locais. A Main Street tende a ser nativista, abertamente racista, muitas vezes anti-semita e, sobretudo, antigoverno. Abarca elementos da direita libertária e é apoiada discretamente pelas grandes empresas de combustíveis fósseis e por centenas de milhares de pessoas abastadas. O partido republicano de Trump faz lembrar o movimento em França de Pierre Poujade na década de 1950 (racista, anti-impostos, antigoverno) e a Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen (antigoverno, racista, anti-imigrantes, anti-semítico, etc.). Contudo, ao contrário destes, Trump e os seus aliados conquistaram o poder, pelo menos durante quatro anos. Durante esse tempo, com a ajuda de um Senado complacente, fizeram tudo o que estava ao seu alcance para converter a democracia burguesa, tal como é, no governo de um só homem. Trump gostaria de tentar fazer censura à imprensa («a inimiga do povo», como lhe chama), incentivar a violência contra os manifestantes, destruir tudo o que existe de cultura liberal, etc.
     
    «Wall Street» – os globalistas – dominou a política americana desde a década de 1930, embora tenha havido republicanos – Goldwater, Nixon, Reagan e, mais às claras, Trump – que cortejaram a Main Street, fazendo apelo ao racismo e alimentando-o. Pelo contrário, Biden representa um regresso ao status quo neoliberal de Obama. A sua missão, na visão dos centristas democratas, é «restituir» aos EUA o seu lugar «legítimo» no mundo, o que significa a renovação do poder imperial a nível global, domínio da NATO, «comércio livre» (eliminando as tarifas de Trump), melhores relações com a China e mesmo com o Irão, e uma política mais dura para com a Rússia e a Coreia do Norte. A nível interno, significa o apoio a programas que tiveram a sua origem com Roosevelt nos anos 30 (Segurança Social, aliança trabalhadores-governo), e com Kennedy nos anos 60 (seguros de saúde Medicare e Medicaid) e um apoio moderado aos direitos civis.

    Os conservadores estão ansiosos por subverter o sufrágio universal em virtude de a demografia ter diminuído a sua base potencial de eleitores brancos, rurais e suburbanos.

    P.- Por agora, a maior parte do país está contente por se ter visto livre de Trump e com esperança de que os democratas consigam pelo menos dar uma resposta organizada à pandemia.  Quanto ao resto, não tem grandes expectativas de que as coisas mudem. É como que um atrasar do relógio para 2016, para antes de Trump, excepto que o fosso ideológico entre os neoliberais reaccionários e os neoliberais progressistas se alargou. Biden será empurrado um pouco para a esquerda e o partido republicano pode muito bem desfazer-se. Verdadeiramente importante para a classe capitalista americana foi o facto de o populismo social-democrata de Bernie Sanders, uma preocupação nova, ter sido contido. As pessoas que não são conspiracionistas fascistas, nem notórias racistas, nem fundamentalistas religiosas ficaram tão aliviadas que estão de um modo geral contentes com o que lhes oferecem os democratas, pelo menos por agora. Mas a crença subjacente no sistema terá ficado porventura suficientemente debilitada para que, quando as disfunções do capitalismo inevitavelmente se manifestarem na degradação constante da economia, do clima e da saúde da população mundial, se comece a procurar uma alternativa.

    A.- Biden vai revogar as ordens executivas de Trump, restaurar as salvaguardas ambientais que estavam em vigor em 2016, suavizar a política de imigração de Trump, admitir mais refugiados e imigrantes «legais», trabalhar com cientistas governamentais para controlar a pandemia, etc. Os dias dos «factos alternativos» e da anti ciência terminarão, pelo menos a nível do governo, embora Biden vá enfrentar revoltas a respeito de questões como o uso obrigatório de máscara e as leis das armas, ou estabelecer alguma forma de controlo sobre a polícia. Biden não dará seguimento à exigência dos progressistas de reduzir o orçamento da polícia, mas pode tentar avançar com reformas nas forças de segurança, o que provavelmente estará votado ao fracasso. Nos EUA, a polícia mantém uma cultura de funcionamento autónomo e continua a violar grosseiramente a lei, reprimir violentamente as manifestações e a assassinar negros, muitas vezes com total impunidade.
     
    Em termos mais gerais, Biden, no seu primeiro ano no cargo, tentará prosseguir um programa neoliberal que provavelmente conjugará austeridade e globalismo amigo das grandes empresas. A sua administração tentará estancar a disseminação do coronavírus, tentar suster a queda da economia, talvez insistir num salário mínimo de 15 dólares por hora, etc. Todavia, tal como aconteceu com Obama, não conseguirá levar este programa muito longe. Entretanto, a polarização política continuará.

    Capitolio
    Apoiantes de Trump no Capitólio, fotografia de Carol Guzy | Zuma Wire.

    Voltemos à questão da tendência social-democrata que se manifestou à volta da candidatura do Bernie Sanders. Quais são as suas perspectivas futuras?

    A.- A grande maioria dos que seguem Bernie Sanders são, como o próprio Sanders, sociais-democratas moderados, muito sintonizados com o Democratic Socialists of America (DSA). Se alguém se der ao trabalho de eliminar a retórica republicana, o seu programa atrai grandes faixas da população, inclusivamente muitas pessoas que votaram no partido republicano: cuidados de saúde públicos universais («Medicare para todos»), universidades públicas sem propinas, o «New Deal Verde» (um esforço em grande escala para parar o aquecimento global), maior diversidade, uma política de imigração humana, etc. Sanders lidera uma corrente «progressista» que tem vindo a crescer no partido democrata, que teve ganhos nas eleições de 2018 e 2020 para a Câmara dos Representantes. O arauto mais conhecido da social-democracia na Câmara dos Representantes talvez seja Alexandria Ocasio-Cortez, que se tornou uma estrela da comunicação social e um dos ódios de estimação dos republicanos. O seu grupo na Câmara, conhecido por «squad» [brigada], constituída por mulheres de cor, tem também tido direito ao seu quinhão de ódio racial e de demonização.
     
    Os eleitores jovens impulsionaram o desvio para a esquerda. Muitos encontram-se a braços com dívidas de empréstimos de estudos, muitos têm empregos precários e sem futuro, e não vêem perspectivas viáveis para si próprios ou os seus amigos, e têm mais consciência do que os mais velhos da ameaça que representa o aquecimento global. Uma sondagem recente do New York Times incindindo sobre a faixa etária dos 18 aos 39 anos mostra que, perante uma escolha entre capitalismo e socialismo (estava subjacente que se tratava aqui de social-democracia), metade escolheu o socialismo. E a percentagem pró-socialista seria sem dúvida maior se a pesquisa tivesse incluído apenas a faixa dos 18 aos 29 anos. Esta é uma tendência completamente nova na América!
     
    Além disso, a análise estatística dos resultados eleitorais por idade mostra que, em estados em que os democratas ganharam, o grupo etário com maior percentagem de votos nos democratas foi o dos 18 aos 29 anos. A segunda maior percentagem referia-se às idades de 64 anos ou superior – o que não surpreende, dado que estes eleitores receavam, muito justamente, que, num segundo mandato, Trump e os republicanos eliminariam ou restringiriam a segurança social, o Medicare e o Medicaid.
     
    As manifestações do Black Lives Matter que ocorreram durante o Verão acentuaram as divisões políticas. Os republicanos classificaram as manifestações de «motins», que deviam ser «dominadas» pela polícia e pelas milícias paramilitares governamentais, descreveram o Black Lives Matter como um «grupo de ódio» e tentaram fazer passar a ideia de que se os democratas ganhassem, os «antifa» e os «anarquistas» arrasariam as cidades. Os democratas tentaram apropriar-se de um movimento que começou por ser espontâneo e basista e, em grande medida, conseguiram-no. Black Lives Matter, que surgiu durante a revolta de Ferguson em 2014, beneficiou de uma enorme vaga de aprovação popular no início do Verão. No Outono, o movimento ainda promoveu manifestações, mas também apelos às pessoas para que fossem votar.

     


    Texto de  Jorge Valadas, com a colaboração de  Luís Leitão que traduziu as passagens do Inglês.
    Ilustração de  Goncalo Salvaterra.


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #30, Março|Maio 2021.


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