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  • O animismo fetichista do Candomblé afro-brasileiro e a espiritualidade no Ocidente (Parte II)

    O animismo fetichista do Candomblé afro-brasileiro e a espiritualidade no Ocidente (Parte II)

    Se no culto animista afro-brasileiro de tradição iorubá as entidades e a energia vital (axé) estão por todo o lado, na sociedade global do capitaloceno os dois fetiches dominantes e englobantes das relações humanas, o dinheiro e o «eu», converteram-se em deidades que exercem uma influência mais ubíqua na vida quotidiana da civilização contemporânea do que os nichos e altares na mais sagrada das cidades da Índia. As latrinas repletas de fetiches de que fala o etnólogo surrealista Michel Leiris nas suas campanhas etnológicas por África são uma metáfora de matriz abjeccionista que se afasta com distinção das escatologias finalistas dos monoteísmos.

     
    «Até as latrinas têm o ar de santuários», Michel Leiris in África Fantasma.

     

    Na primeira parte do artigo, observámos que o candomblé afro-brasileiro concebe a espiritualidade como uma prática de re-ligação à vida terrena através do chamamento dos ancestrais divinizados e do contacto com as divindades que descem à terra (os orixás, voduns e inquices), invocação que se exprime numa vivência hedonista pois no culto iorubano «o mundo celeste não está distante nem é superior» [ref] Orixás, Pierre Fatumbi Verger, Corrupio Edições, Salvador, 6ª edição, 2013, pp. 19.[/ref], assevera Pierre Verger. Esta abordagem distancia o candomblé de uma perspectiva escatológica, sendo a frase de Leiris um achado simbólico que sugere que o culto animista ao transcendente está incorporado na realidade mais primária e intestina dos viventes. Em termos filosóficos, dificilmente podemos intuir na raiz animista (ameríndia e africana) uma visão escatológica finalista, porque nela não se encontra presente nem a ideia de redenção, nem a salvação da alma além-túmulo, muito menos ainda qualquer tipo de epifania futura após a morte, quer da humanidade quer do indivíduo. A própria ligação ao mundo sobrenatural, através do transe ou do xamanismo, visa uma recondução da efectividade da existência na terra e tem como orientação a harmonia da cosmologia animista, o que por sua vez está imbricado num resultado sociocêntrico. É sempre a comunidade que ganha, na renovação das suas práticas de pertencimento e de encontro com a diferença, na evolução processual das ligações sociais e na reiteração simbólica da sua cosmologia.

    Na emboscada ao Novo Mundo, constatámos que o impacto cosmológico do Cristianismo (e em menor escala a influência do Islamismo) foi incapaz de impor uma total sujeição espiritual aos povos africanos e indígenas do Brasil. Pura e dura, foi a imposição de um Rei e de uma Lei, no quadro da experiência de acumulação mercantil que o comércio esclavagista transatlântico traçou durante mais de três séculos. Os «acres fantasma» do Novo Mundo (Kenneth Pomeranz) cultivados pelos escravos africanos e os inequívocos elos de ignição com a Revolução Industrial e o trabalho assalariado foram documentados por autores tão distintos entre si como o seminal Eric Williams, passando por Ira Berlin, Barbara Fields, Julie Saville, Silvia Federici, Knick Harley, Kenneth Morgan, Georges Lapierre, Ana Luísa Araújo ou o indispensável colectivo afro-brasileiro Maíra. Se a eficácia económica e política da escravidão, a par de um incessante policiamento da conduta civil das classes escravizadas, foi absoluta e uma condição sine qua non para a transição europeia do regime feudal para a sociedade industrial e o modelo de vida onde hoje colapsamos, o programa propedêutico de inculcar a fé aos gentios foi um logro.

    Poço sem fundo, a tradição oral animista e oracular africana não só resistiu à subjugação como canibalizou as restantes tradições sagradas que veio a conhecer no Brasil. Nina Rodrigues, precursor da etnologia dos cultos afro-brasileiros, destacava que «longe de o negro converter-se ao catolicismo, protestantismo ou islamismo, acontece ao contrário influenciá-los este com o seu “fetichismo” e adaptando-se [aqueles] ao animismo negro» [ref] O Animismo Fetichista dos Negros Baianos, Nina Rodrigues, Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2006, pp. 107.[/ref]. Na «ampla bulimia ideológica» do escravo, tomando de empréstimo uma expressão do antropólogo Viveiros de Castro, por mais que o catecismo pregasse a boa nova do Evangelho de um Deus supremo, único e todo-poderoso, a fé animista fetichista de índole africana manteve-se intacta no candomblé de rito jeje (proveniente de etnias do ex-Daomé) e de rito nagô (que inclui, entre outras, as nações ketu, ijexá, nagô egbá e xambá) ou então esteve na origem dos sincretismos religiosos brasileiros (o candomblé de caboclo, a umbanda, o catimbó-jurema, a encantaria, a quimbanda, etc.). Mais, quando a padralhada os tinha por ganhos e convertidos, eis senão quando os escravos voltavam ao «vómito dos antigos costumes» [ref] Cartas, informações, fragmentos históricos e sermões (15554-1594), José de Anchieta, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1933, pp. 194.[/ref], como Anchieta se lamentava a propósito do animismo dos povos indígenas. Além disso, no credo às divindades de origem nagô, jeje ou bantu ninguém está obrigado a acreditar nas entidades como um artigo de fé, tal como os cristãos crêem nos seus mandamentos. Equivocava-se o profeta dos olhos fechados, Jorge Luis Borges, quando agoirava que «as heresias que devemos temer são as que se podem confundir com as ortodoxias» [ref] Los Teólogos, in Aleph, J.L. Borges, Emecé, Buenos Aires, 1957, pp. 36.[/ref].

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    Ilustração: Ana Farias

    A heresia espiritual do escravo africano, mais do que incólume ao assédio dos monoteísmos absolutos, cristão e islâmico, foi um factor determinante que inspirou e manteve viva a chama da revolta quilombola, franqueou as portas à integração horizontal da mulher e da sexualidade homossexual e bissexual, e resgatou a cultura matriarcal da reciprocidade e da criação. Além deste efectivo arco de transgressão política e social no quadro geral de uma sociedade repressiva e patriarcal, conservadora e homofóbica, foi a partir da expressão musical dos ogãs alagbês, nas práticas cerimoniais de origem africana, que nasceram vários géneros musicais e de dança do Brasil (o lundum, o maracatu, o jongo, o maxixe, o samba) ou ritmos específicos como o coco, o cabula, o samba de roda, o lilú (associado à Escola Estação Primeira da Mangueira) e o afoxé. Do lugar real e simbólico dos terreiros, espaço de ritualização e de reconstituição da liberdade, deitou ainda raízes o jogo da capoeira. Um amplo e diverso processo histórico de criação cultural, singular e colectivo, e de resistência política valorizado por figuras reconhecidas da literatura (Machado de Assis, Jorge Amado), da música (Pixinguinha, Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Criolo), da arte (Carybé) e também pelo mentor da somaterapia (Roberto Freire) e que contraria a tese de Pierre Bourdieu de que os grupos subordinados «recusam o que lhes é negado e apreciam o inevitável» [ref] Les sens pratiques, Pierre Bourdieu, Paris, Les Éditions de Minuit, 1980, pp. 23.[/ref]. Inevitavelmente, imaginemos antes, por um minuto, a potência dos cultos de tradição animista afro-brasileiros se, em vez de terem estado a contas com a perseguição de um aparelho repressor durante trezentos e cinquenta anos, manietados pela Inquisição e a Igreja Católica, em nome da lei e do comércio mercantil, e de terem carregado até hoje as marcas do preconceito social que adveio do projecto eurocêntrico de colonização, tivessem evoluído numa sociedade de iguais e do respeito pela diferença. Equacionemos ainda a falta que esse ethos cosmológico nos fez a nós, ocidentais, também colonizados há séculos pelo pensamento platónico, antropocêntrico, eurocêntrico e binário-racionalista. Sem volta a dar, foi a favor de outra concepção prepositiva e auto-consciente da existência, da relação com o outro e a natureza, que a cultura candomblecista afro-brasileira resistiu e se rebelou contra os três grandes pilares da ordem social: o Estado, o Capital e a Igreja. Uma tradição ontológica e postura empírica que ao mesmo tempo não se aventura pelos caminhos relativistas das religiões orientais (do hinduísmo ao xintoísmo, do jainismo ao confucionismo, passando pelo budismo), onde a dimensão sociocêntrica se dissolve, o individual evolui num processo a-histórico e a própria ética arrisca-se a evaporar-se no ar.

    Noutros termos, se a hegemonia política e económica subjugou populações inteiras – «São nações escravizadas/ E culturas assassinadas», como canta Bia Ferreira –, em absoluto controlo das estruturas de reprodução do poder material e legal das sociedades, só um corpo de experiências de carácter último espiritual pôde (podia) desestabilizar essa hegemonia, vencê-la e revolucionar as relações de poder, sociais e humanas. Essa específica e recôndita consciência (do sagrado) dos escravos e seus descendentes, traduziu-se numa ética social da reciprocidade e da inclusão – inclusive, a aceitação de franjas da elite da classe opressora, em aparente contradição mas efectiva coerência, como evidenciaram autores como Nina Rodrigues, Roger Bastide e Edison Carneiro –, em que a referência comum a todos os seres da natureza não é o indivíduo enquanto espécie mas a humanidade enquanto condição, humanidade essa que, na linha animista, inclui o extra-humano, o virtualmente tudo, animais, plantas, fenómenos da natureza, a matéria do plenum primordial. Na belíssima prosa de Nina Rodrigues, a que Marcel Mauss não poupou elogios, nos terreiros da Bahia «todas as classes, mesmo a dita superior, estão aptas a se tornarem negras» [ref] O Animismo Fetichista dos Negros Baianos, Nina Rodrigues, Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2006, pp. 116.[/ref]. O itálico é do autor e dá azo a pensar que «negro» não é um pigmento da pele mas uma qualidade anímica. O candomblé está descentrado do imperialismo egocêntrico, etnocêntrico e nacionalista – ademais, integra a fisioesfera, a bioesfera e a noosfera, numa exibição radical e holística da sua alegria intrínseca. Ao fim ao cabo, a filosofia animista afirma há milénios o que Nietzsche (o Anti-Cristo, ele mesmo) veio reclamar no coração da modernidade, «repudio uma vaidade: considerar o homem como tendo sido o grande desígnio prévio da evolução animal. Não é de modo algum a coroa da criação» [ref] O Anticristo, Nietzsche, Guimarães Editores, 9ª ed, 1997, pp 31.[/ref].

    “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente”. Era preciso deglutir “todas as catequeses” e a “consciência enlatada” que “começava no Cabo Finisterra”, a peste trazida pelas caravelas na lábia do Padre Vieira.

    Ao arrepio de teses hegemónicas marxistas de catadura gramsciana, não só as populações escravas não viviam em «falsa consciência», como o reduto animista da sua fé e a prática ritual nos candomblés foi indissociável das várias experiências revolucionárias que levaram a cabo no Brasil (tema que ganhará relevo na terceira parte do artigo). Longe de ser «o ópio do povo», o candomblé resulta na consumação de uma ligação ecológica do particular ao todo, do indivíduo ao colectivo, do colectivo à bioesfera, da bioesfera à transcendência cósmica e a sua festa, o xiré, uma intensificação pontual de um estado de consciência da finitude da vida terrena, num estender de mão aos espíritos (aos ancestrais e aos orixás) para que estes abandonem provisoriamente o orum (o lugar extra-terreno, matriz do tempo eterno e onde moram os orixás) e retomem o caminho da alegria terrena no aiê (a terra).

    O ópio pós-moderno destilado pela mega-máquina soporífica da sociedade de consumo (o aparato publicitário e mediático, o aparato médico-científico e tecno-computacional) é demasiado presente e óbvio para que as verdadeiras causas ganhem visibilidade. De acordo com o filósofo Ken Wilber o estado neurótico da existência contemporânea «é um sintoma de crise ecológica – negação de si e da natureza», recalcamento da natureza interna (libido) e da natureza externa. Em sentido oposto, a vida no terreiro é uma constante procura de equilíbrio ecológico. Os momentos do xirê, espelham as noções de harmonização entre o corpo, o espírito e a vida social, essencialmente ligada à noção de axé, a força vital, intangível e invisível, mágica e sagrada, que todo o ser, coisa viva, seres inanimados e sobretudo os orixás possuem. O povo-de-santo, pouco dado à crença do pecado, vive em plenitude a sua sensualidade, a sua sexualidade e os prazeres do corpo, por meio da dança, da música, do amor, do prazer, da beleza e da vitalidade, nessa busca de equilíbrio do físico, do mental e do social. Uma manifestação da vocação holística do candomblé para o equilíbrio corpo-social-transcendente. A simples ausência do pecado, a inexistência de uma moralidade como essência e de qualquer conceito de sujidade/negatividade sexual (esteios do Cristianismo) incentivam na prática a uma recuperação total da confiança no ser humano, no ser humano enquanto vínculo com o outro/o social, com a natureza e consigo mesmo. E esta prática secular pressupôs uma experiência libertária.

    No refluxo das naus, na ressaca do naufrágio cósmico, social e humano do imperialismo Europeu, o enjoo toma conta dos descendentes dos «argonautas». O que foi feito da espiritualidade na civilização ocidental para dela nos afastarmos e negarmos, senão mesmo espezinharmos?

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    Ilustração: Ana Farias
    A Modernidade, movimento anti-religioso

    À luz da macro-história, a modernidade anunciou a morte de Deus, como a pós-modernidade veio bradar a morte das utopias sociais universalistas (as grandes narrativas, em linguagem pós-moderna). Atrelado ao movimento das Luzes impôs-se um marco epistemológico, em particular à boleia da tecno-ciência e seu discurso, que pressupõe que todo o conhecimento implica a anulação da subjectividade. Paradigma que se constituiu na imposição de um dogma, a objectividade como verdade absoluta, que por sua vez criou um regime de subjectividade excludente de outras subjectividades, da diferença e de outros saberes, e que normativizou o olhar humano à diferença. Esta hierarquização de saberes, juntamente com a hierarquia de sistemas económicos e políticos, assim como a predominância da voz das culturas de raiz eurocêntrica, tem sido apelidada por vários investigadores de “colonialidade do poder”. Uma das expressões mais claras da colonialidade das relações de poder acontece com a persistência da colonização epistémica do conceito de objectividade – prato do dia no discurso dos media, da economia à política, da ciência aos detergentes da loiça, enfim em todos os campos da existência –, um carrossel de reprodução de estereótipos e de formas de exclusão. Nem por acaso, a objectividade enquanto centralidade do conhecimento racionalista é um paradigma nos antípodas do saber animista para o qual conhecer é entranhar o outro, é subjectivar ao máximo para introjectar o outro, canibalizando o plural e o singular, trazer o que está para lá de nós ao âmago do que nos liga. «Tupi or not tupi, that is the question», antropofagiava Oswald de Andrade num dos mais flamejantes, férteis e insurrectos manifestos em língua portuguesa: «Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente» [ref] Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade, Revista de Antropofagia, 1928.[/ref]. Era preciso deglutir «todas as catequeses» e a «consciência enlatada» que «começava no Cabo Finisterra», a peste trazida pelas caravelas na lábia do Padre Vieira. «Já tínhamos o comunismo, (…) a língua surrealista». «Fizemos foi Carnaval»… Desta cosmognose, Viveiros de Castro infere o palavrão «antropocentroanimismo».

    O largo espectro de traumas e de sombras do pensamento ocidental remete-nos para o enunciado de que «todo o documento de cultura é um documento de barbárie», célebre frase de Walter Benjamin. Como sublinha a notável socióloga e historiadora Sílvia Cusicanqui, «a centralidade da “cultura letrada” perpetuou uma particular exclusividade do conhecimento ocidental em detrimento das culturas orais subalternas» [ref] Oprimidos Pero no Vencidos – Luchas Del Campesinado Aymara y Quechwa 1900-1980. La Paz: La Mirada Salvaje/Editorial Piedra Rota, 2010.[/ref]. Crítica que nos estimula a questionar se na tradição oral dos saberes mitológicos do candomblé não está a explicação da sua abertura conceptual ao não-normativo e ao outro, a origem da sua processualidade evolutiva propensa à mudança e à integração de contrários, o esteio da sua outorgada autonomia e ausência de um poder centralizador, marco da sua propensão à roda e à horizontalidade do poder entre géneros, consumada numa informal hierarquização de poderes, todavia insusceptíveis quer de uma hegemonia quer de um centro.

    Nos terreiros da Bahia, todas as classes, mesmo a dita superior, estão aptas a se tornarem negras.

    A ausência de escrituras sagradas é um factor pendular durante milénios nos cultos africanos das nações iorubá-nagô, jeje e bantu [ref] “Até onde se tem notícia, data de 1928 o primeiro documento extenso escrito contendo os mitos da arte oracular, um caderno compilado por Agenor Miranda Rocha, (…) mas esse documento somente foi trazido à luz mais de meio século depois de ter sido escrito”. Reginaldo Prandi, in Mitologia dos Orixás, pp. 25.[/ref], e há razões para acreditarmos que é inextricável da génese de uma praxis espiritual (o candomblé afro-brasileiro, em particular) propiciatória da assimilação de pluralidades e da aceitação das singularidades, e com evidentes rasgos transgressores em vários campos das relações de poder. Amadou Hampâté Bâ – um dos grandes etnólogos africanos e que dizia que «em África quando morre um velho é uma biblioteca que arde» – destacou que, para vários povos do continente negro, a oralidade tem duas dimensões: uma ascendente – do ser que busca comunicar com o sagrado – e outra descendente – do sagrado que procura conectar os humanos. Neste sentido, a oralidade é um instrumento transcendental de conexão ao sagrado e um meio de coesão social da comunidade. A oralidade não manifesta uma inaptidão da África negra para o registo escrito mas revela que a linguagem oral predominou porque foi o meio mágico e sociocêntrico que melhor garantiu a sobrevivência cultural e identitária de um determinado povo.

    O etnólogo Tobias Schneebaum, em Lá onde o rio te leva, não se contradiz ao escrever que «para me tornar Michii [nome próprio de um indígena na Amazónia peruana] tenho não apenas de me livrar da necessidade de escrever, mas do próprio conhecimento de que a escrita existe» [ref] Lá onde o rio te leva, Tobias Schneebaum, Antígona, Lisboa, 1990, pp. 67.[/ref]. Em afro-samba: «O homem que diz “dou” não dá, porque quem dá mesmo não diz» [ref] Canto de Ossanha,Vinicius de Moraes.[/ref]. Sem gingado, na (outra) face da moeda da Civilização, a codificação escrita de uma tradição filosófica ou religiosa acarretou o risco verificado de cristalizar significados, esterilizar o conhecimento e tiranizar o olhar.

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    Ilustração: Ana Farias

    Historicamente, os sistemas de sabedoria e ética tradicionais do mundo foram sob vários aspectos e na sua maioria contrários à modernidade e acabaram soterrados na era da pós-modernidade, asfixiados pela mega-máquina do mercantilismo e do Estado. É o que sucede actualmente com as sociedades indígenas na América do Sul ou com as populações da «Zomia» [ref] Termo cunhado pelo historiador Willem van Schendel para referir-se à enorme massa de terras altas do sudeste da Ásia cujas populações de diferentes ramos linguísticos e origens étnicas (aproximadamente 100 milhões de pessoas) têm historicamente vivido fora do controlo governativo e estatal, e de quem o antropólogo James Scott tem magistralmente vindo a dar conhecimento.[/ref]. Descontados os romanticismos, seres humanos unidos mediante o tecido da experiência comum e relutantes em passar à discricionaridade e impessoalidade do mercado, ao cash nexus, como definiu Thomas Carlyle a relação das pessoas conectadas pelos laços do mercado. Sociedades «regidas pelos princípios da reciprocidade, redistribuição e o intercâmbio de bens equivalentes», como elucidou o cientista social Karl Polanyi em The Livelihood of Man.

    O que é extraordinário na Europa da razão crítica é a sociedade, quase que por inteiro, incluindo as vanguardas culturais e políticas, ter cavado um fosso de estigmatização desses saberes, modos de sentir, pensar, estar e agir. Observe-se, por exemplo, a silenciadora rejeição das perspectivas anti-desenvolvimentistas por todos os quadrantes sociais e a frequência com que as teses críticas à ideologia do progresso e à indústria tecnológica são rotuladas de puro reaccionarismo, por mais que um século de factos históricos e políticos e algumas décadas de acumulação de dados sobre o colapso da bioesfera nos convidassem a valorizar os variados e heteróclitos movimentos de transição e a problematizar as sociedades a partir de questionamentos que encontramos nas propostas do neo-primitivismo, do neo-luddismo e do decrescimento.

    A vocação trágico-cómica da Civilização estreitou-se tanto a ponto de só quando a tragédia global nos toca e se transforma no nosso «drama em gente», para citar Álvaro de Campos, começamos a guinchar. Apenas quando sentimos na pele a marca neurótica deste tempo olhamos de raspão para o programado desastre colectivo da sociedade capitalista, no plano humano – os milhares que sucumbem à guerra, à fome, os que atravessam fronteiras num fluxo migratório forçado, enfim, toda a massa humana que esfalfando-se ou perdendo a vida sustenta um projecto economicamente absurdo e irracional, e eticamente fascista – e no plano da bioesfera, com quatro dos nove limiares planetários já atravessados em resultado da actividade humana – o limite planetário de mudança climática, o da integridade da biosfera, o da mudança no sistema terrestre e o dos ciclos bio-geoquímicos alterados [ref] Cf. artigo Earth Has Crossed Several ‘Planetary Boundaries,’ Thresholds of Human-Induced Environmental Changes (2015), publicado no site da Scripps Institution of Oceanography, UC San Diego.[/ref]. Qualquer fuga em frente do capitalismo transnacional é mais um prego no progresso do seu próprio caixão.

    Caso para perguntar, para que serviu à Europa a acumulação espiritual da razão crítica? Se aparentemente só a tragédia privada nos faz questionar a nossa posição social, humana e ética, então, será a razão eurocêntrica mais do que uma farsa? Até onde foram recalcadas as outras dimensões humanas? Que corte profundo separou a nossa sensibilidade do saber? Os sentimentos da ética? A dimensão espiritual e imaginária da visão social e cósmica? Nem por acaso, no contexto desse ocultismo secular levado a cabo pela racionalidade eurocêntrica, assistimos a um (outro) factor que se reveste de novidade: a generalizada morte da esperança. Num passado não muito longínquo, a nostalgia de um mundo perdido no neo-romantismo alemão era o ócio de meia-dúzia de poetas e o niilismo arrebatado, no dealbar do séc. XX, um culto reservado a um punhado de irados russos. Porque morreu a esperança?

    Com o Renascimento, não foi apenas Deus que saiu do altar, e a modernidade, para impor o seu projecto, não queimou apenas as bruxas. Do cheiro a queimado, exala o suspiro de todas as vastas e diversas heresias que se opunham à redefinição das forças dominantes na transição do feudalismo para o mercantilismo, dos ana-baptistas aos ludditas, das seitas religiosas milenaristas às sociedades de tendência anarco-primitivista. Todas as visões que propugnavam uma mudança secularizada da existência e das sociedades, que manifestavam um modo de organização de significativa tendência auto-governativa, que outorgavam um espaço à liberdade do corpo e da consciência (como ainda antes do Renascimento defendiam os Cátaros), que viviam sob relativa autonomia económica e política, foram perseguidas e dizimadas. O historiador Brian P. Levack estima que em cinco séculos houve mais de 110 mil processos crime por bruxaria (sem incluir, portanto, as restantes heresias, como a blasfémia, a imoralidade, o judaísmo). Outros investigadores, estimam que durante os dois séculos da Inquisição durante o período da Reforma entre 40 a 80 mil mulheres foram queimadas em auto de fé. Escusado será dizer que maioritariamente estas mulheres (e os seus filhos não eram poupados) pertenciam às classes populares e de baixa condição.

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    Ilustração: Ana Farias

    Era preciso punir a ama. A que cuida e a que distribui carinho. O projecto antropocêntrico de dominar a natureza prestou-se ao correlato lógico de punir quem na praxis e simbolicamente estava vinculada com a reprodução da natureza e quem dela cuidava (em extensão e horizontalidade): a mulher. Acusada de bruxaria «para que o povaréu continue a crer nas máscaras do medo» [ref] El obsceno pájaro de la noche, José Donoso, Seix Barral, 1970, pp. 219.[/ref]. As palavras são de José Donoso e a bruxa é em particular Peta Ponce, autor e personagem de um dos mais brilhantes e diabólicos romances dados à estampa: El obsceno pájaro de la noche. Peta Ponce ou as «mestres-cucas sifíliticas que enrolam jibóias aos pescoço» [ref] Michel Leiris in África Fantasma, Cosac Naify, São Paulo, 2007, pp. 211.[/ref]. Ou as feiticeiras da Odisseia. Ou a coruja Hécate que, através da pena de Apuleio, alude às mulheres que voam de madrugada, ávidas de carne e sangue humanos, mas que não passam das Deusas das terras selvagens e dos partos na mitologia grega. Ou Blimunda, filha de uma bruxa queimada em Memorial do Convento. E, claro, as Iá Mi Oxorongá, as velhas mães-feiticeiras da cosmologia iorubana. Correlato ou não do antropoceno, foi necessário perseguir e punir, queimar (para) vigiar. Porém, desenganem-se, o patriarcado por si só não foi capaz de derrotar a cultura matriarcal, nem com a instituição do Direito romano, a lei patrilinear, nem com a Santa Inquisição. As Antígonas e Macabéas, as Elsalliles e Oxuns, coexistiram com as sociedades patriarcais e resistiram. Libertas do ónus da culpa e libertando a potência da sua fertilidade – o dom de criar e dar a criar – «mulheres que se confundem como imagens de fumaça, mutáveis e em mutação constante», como escreveu o bestial Donoso –, são devir e processo, renovam-se e escapam aos ditames que a sociedade patriarcal e religiosa impõe. Haveria de ser a transição para o mercantilismo e a industrialização, como documenta Silvia Federici (Cf. Calibán y la bruja: mujeres, cuerpo y acumulación originaria e Revolución en punto cero), que anularia sumariamente a condição da mulher, a história e a batalha nocturna, como lhe chamou Carlo Ginzburg, e imporia o actual regime mitológico e opressivo sobre a mulher.

    Mas as bruxas que foram queimadas na Europa reapareceram nos terreiros de candomblé porque «a bondade animal da vagina» [ref] Ibidem, pp. 107.[/ref] resistiu e tudo venceu…

     


    Artigo publicado no JornalMapa, edição #24, Agosto|Outubro 2020.

  • O animismo fetichista do Candomblé afro-brasileiro e a espiritualidade no Ocidente (Parte I)

    O animismo fetichista do Candomblé afro-brasileiro e a espiritualidade no Ocidente (Parte I)

     

    Este artigo é um salto no escuro. Abre-se à possibilidade de uma heresia contra as nossas próprias crenças. Nos dias que correm o óbvio é mais radical do que aquilo que se pensa e não poucas vezes a ganga de camadas de lugares comuns e de processos seculares de aculturação fazem-nos olhar com preconceito para a noção de espiritualidade. O tema é inesgotável e não é possível achar aqui acordo com a amplitude do questionamento às referências culturais e filosóficas que este convoca: espiritualidade, religião, a necessidade humana de transcendência, o uso da razão crítica e o maná da liberdade. Resta-me atirar a primeira pedra: ao passar à escrita, tal intento de reflexão converteu-se numa interminável fantasmagoria…

    Candomble

    O sítio do terreiro é ermo e recôndito e não temos mais do que subir o morro seguindo os ecos da música e dos cantos que atravessam a noite. A melopeia africana é dolente com «um cunho de poesia selvagem e misteriosa» [ref] O Animismo Fetichista dos Negros Baianos, Nina Rodrigues, Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2006, pp. 51.[/ref]. Já se vê o barracão. À soleira da porta há cabaças com farofa amarela e azeite-de-dendê. Entramos no recinto e mergulhamos numa atmosfera de comunhão, mulheres, homens e crianças, som de palmas, guirlandas de papel de cores intensas, folhas de pitanga espalhadas pelos cantos, quartinhas d’água e cheiro a pau santo. O ritmo dos atabaques é agora mais intenso e a cadência torna-se cada vez mais rápida. Os iniciados ostentam vestes de todas as cores, mescla de sedas, veludos e panos de chita, adornados de colares de contas e missangas, lançam-se na dança e invocam os orixás. É um drama sagrado, um teatro indescritível à fraca luz das velas que rodeiam as oferendas e o peji, o santuário de fetiches, engrinaldado a murta e flores vivazes, e de onde sobe o fumo de ervas, raízes e incensos. Há quem dance liberto pela libido de sorriso nos lábios, há quem se mova agitado por tremores em aparente desmaio, há quem rodopie e dê saltos que terminam rente ao chão onde a giz se desenharam círculos e riscos indecifráveis. Há dedos que se entrelaçam, braços que se estendem para abraçar outro corpo, gestos cabalísticos que profetizam o mistério da conexão aos ancestrais. É a festa que chama as divindades à terra para o xirê, o momento de os orixás virem brincar no terreiro.

    Tomando de empréstimo à cosmovisão do candomblé afro-brasileiro a sua dimensão histórica e cultural, o seu ethos e a politização das relações que os cultos de raíz africana implicaram na sua vasta e plural comunidade, bem como a sua profícua influência geral na sociedade, na religião (o sincretismo religioso), na política (a resistência e cultura quilombola), na música (o lundum, o maracatu, o maxixe, o samba), na culinária, na cultura popular (a capoeira) e na arte, procura-se aqui iniciar uma reflexão sobre as interrogações últimas e insondáveis do ser humano. Livrai-me de bosquejar uma visão esotérica sobre a espiritualidade. Semelhante busca seria uma profanação – tanto para os cultos animistas de tradição africana como para o culto da razão crítica… –, um desígnio a jusante da discussão que se pretende abrir. A índole esotérica cabe aos iniciados, aos elégún (aquele/aquela que pode ser «montado», possuído, por uma divindade, ou orixá) e aos abiãs, àqueles que se fazem à gira e partilham da fulgurante festa do candomblé.

    Calundu, batuque e batucajé eram os termos mais correntes que designavam os cultos de origem africana no Brasil até ao século XVIII. Referiam-se genericamente às danças e aos cantos colectivos, acompanhados pelo som de instrumentos de percussão, às invocações dos ancestrais, à adivinhação, à cura mágica e ao transe.

    Desde o período quinhentista e durante mais de trezentos e cinquenta anos, os navios negreiros transportaram através do Atlântico, não apenas um contingente de cativos destinados ao trabalho forçado no Novo Mundo, mas o seu universo plural de crenças, identidades culturais, étnicas e linguísticas. As convicções do ethos das populações escravas traduziram-se numa extraordinária resistência, mais atreita à criação defensiva e secreta de «um discurso oculto» – evocando a expressão do antropólogo James C. Scott – do que ao confronto aberto, infra-narrativa que todavia se opunha com determinação às forças de alienação e de extermínio do tráfico negreiro transatlântico, os senhores e os comerciantes de escravos, a Igreja Católica, o Reino de Portugal e, posteriormente, do Brasil independente e seus respectivos aparelhos de repressão.

    Durante séculos, além da exploração, da repressão e da aculturação, a historiografia oficial sobre a cultura afro-brasileira foi realizada pelos próprios poderes repressores. Autores como Pierre Verger e René Ribeiro assinalaram que as primeiras menções às religiões africanas no Brasil apareceram a partir de 1680 a cargo do Santo Ofício da Inquisição, que denunciava «o costume dos negros, na Bahia, matarem animais para lavar-se no sangue» [ref] Orixás, Pierre Fatumbi Verger, Corrupio Edições, Salvador, 6ª edição, 2013, pp.26.[/ref] e as «pretas da Costa da Mina que faziam bailes às escondidas, com uma preta mestra e com altar de ídolos, adorando bodes vivos, untando seus corpos com diversos óleos e sangue de galinha» [ref] Cultos afro-brasileiros do Recife, René Ribeiro, 1952.[/ref]. Verger, fotógrafo francês que dedicou grande parte da sua vida ao estudo e documentação dos cultos afro-brasileiros de tradição iorubá, demonstrou que o olhar dos próprios dominadores sobre o candomblé se estendeu para lá da segunda metade do séc. XX [ref] Cf. Verger, Pierre, op. cit., pp. 21.[/ref], comprovando a velha máxima atribuída a Orwell de que a história é contada pelos vencedores.

    Os terreiros de candomblé consolidam-se no Brasil sobretudo após a abolição da escravatura em 1888 (Lei Áurea), constituindo-se em espaços que vão muito além do carácter de culto ao sagrado. À volta dos terreiros foi possível reconstituir heranças culturais, solidificar experiências sociais, de solidariedade e de ajuda-mútua não controláveis pelas forças repressoras, afirmar e recriar identidades culturais que permitiram a sobrevivência não apenas de uma memória colectiva, como a sobrevivência e emancipação política de um povo. Locais nucleares de encontro social e de reforço identitário, de lazer e solidariedade, não só dos negros e mestiços mas também das classes pobres brancas.

    Candomble

    A história por contar do povo-de-santo, tão singular quanto plural, responde a várias interrogações: desde finais do século XIX, que espaço comunitário no Brasil reiterava a horizontalidade de género, praticava a sabedoria dos valores matriarcais, integrava como iguais homossexuais, lésbicas, bissexuais, brancos, indígenas, mestiços, pedreiros e prostitutas, médicos e agnósticos, e até a fina-flor da própria classe alta? Que grupo social oferecia uma prática de resistência duradoura e dissimulada contra as instituições repressivas (Estado, Igreja e Capital), servia de retaguarda às frentes de luta política progressistas, inclusive de grémios libertários, e funcionava como corpo de reinvenção de uma identidade cultural e política? Que entidade defendia uma perspectiva holística da relação humana com a natureza? Que grupo de homens e mulheres não vivia com o conceito maniqueísta do bem e do mal? E não acreditava no castigo? E vivia numa cultura hedonista e sem repressões da sexualidade? Que prática espiritual não tem um fundamento escrito, nem escritura sagrada, nem uma hierarquia centralizada? Que pulsão criativa foi fonte e inspiração de vários géneros musicais no Brasil?

    Caminho estreito tem levado o ocidente na dialéctica de construção e destruição do imaginário de espiritualidade. O entremeado desse drama histórico é susceptível de mal-entendidos, pelo que convirá balizar a noção de espiritualidade, em si mesma relutante à fixação de uma doxa e aberta a uma pluralidade de interpretações.

    Proveniente do termo eclesiástico latim spiritualitas, significa num sentido amplo a condição espiritual, referindo-se à disposição primariamente moral, psíquica ou cultural do indivíduo que tende a desenvolver as características do seu espírito. Num certo sentido, é possível falarmos de práticas espirituais sem que necessariamente estas evoluam sob o que geralmente consideramos uma religião organizada. De outro modo, debaixo de uma igreja, estaríamos a falar «da moral de rebanho», na acepção de Nietzsche. A espiritualidade (seria preferível falar em mística) de rebanho é convencionalmente relacionada, no Ocidente, à religião, na perspectiva de o ser humano e a sua conduta pessoal estar submetida a seres superiores (deuses e/ou demónios) e à crença na salvação da alma. Do ponto de vista das doutrinas filosóficas materialistas ocidentais, refere-se à oposição entre matéria e espírito ou mesmo entre interioridade e exterioridade. Ambos os conceitos operam a partir de falácias, a própria oposição binária é já em si um maniqueísmo redutor da experiência e do vir a ser humano. De um lado, o fundamento metafísico que estabelece uma separação entre vida terrena e celestial (Aristóteles, um dos primeiros pensadores ocidentais a demonstrar que moralidade, virtude e bondade podem ser derivadas sem apelar a forças sobrenaturais, argumentou que «os homens criam Deus à sua própria imagem» e não o contrário; premissa simplificada milénios depois por Bakunin na versão «se Deus não existisse, haveria que inventá-lo»), do outro, a falácia do erro cartesiano de retalhar o ser humano em compartimentos estanques (antes d’ O Erro de Descartes de António Damásio, já o «corpo sem órgãos» de Artaud troava para acabar com todo o tipo de absolutismos e reducionismos, inspirando uma das teses centrais do pensamento deleuziano).

    Extirpada da dimensão alienante, a espiritualidade pode ser entendida como dissociada da religião ou da fé em um Deus, para evocar uma «espiritualidade sem religião» ou uma «espiritualidade sem deus». Ao encararmos o candomblé como uma religião literal, qualquer pensamento que rejeite a metafísica e deificação não poderia nunca validar, na sua qualidade esotérica (sublinhe-se), o culto afro-brasileiro. A reivindicação do candomblé como religião pelos próprios candomblecistas é um fenómeno recente, na esteira do movimento de legitimação social da umbanda, religião sincrética brasileira, iniciado nos anos 40 do século passado. Este processo obedeceu à circunstância óbvia de uma vez conformados à lei estatal, enquadrados enquanto religião, poderem evitar a repressão do seu culto, dos seus praticantes e lugares de culto, e assim lutarem contra o preconceito social generalizado. O facto de os praticantes dos cultos animistas africanos não terem durante séculos problematizado as suas práticas ritualísticas como religião não nos deve surpreender e vai ao encontro de teses de antropólogos que consideram que o animismo designa na antropologia ocidental o sistema de crenças de alguns povos e grupos indígenas, especialmente antes do desenvolvimento das religiões organizadas. A perspectiva animística é tão mundana e fundacional das perspectivas espirituais que os povos indígenas «animistas» nem sequer têm uma palavra em seus idiomas que corresponda a «animismo» (muito menos «religião»). O termo é uma construção antropológica desenvolvida no final do século XIX por Edward Tylor («um dos primeiros conceitos da antropologia, se não o primeiro», Bird-David, Nurit, 1999). Com efeito, segundo Moulero, o primeiro nagô a ser ordenado padre no antigo Daomé [actual Benim] «as populações neste país só acreditavam nos ídolos e não conheciam a Deus» [ref] Citado por Pierre Verger em Verger, Pierre, op. cit., pp. 22 .[/ref].

    Condicionados ao uso do termo, o animismo (do latim animus, «alma») consiste numa cosmovisão em que entidades humanas e não humanas (animais, plantas, objectos inanimados ou fenómenos) possuem uma essência espiritual (como os kami, divindades ligadas à prática do Xintoísmo no Japão). Vários antropólogos (Herbert Spencer, Edward Burnett Tylor), teóricos da teologia (Grant Allen) e sociólogos (Auguste Comte) assumem que a crença do monoteísmo evoluiu do politeísmo que, por sua vez, evoluiu do animismo (e mesmo este do fetichismo). «Evolução» que se veio a traduzir num empobrecimento do imaginário mitológico e numa gradual tendência histórica para a perda da autonomia das práticas e da concepção espiritual, ao mesmo tempo que acompanhou a justificação terrena da complexificação, hierarquização e estratificação social das sociedades no caso do politeísmo (Antigo Egipto, Grécia Antiga, Roma Clássica, e o hinduísmo da sua fundação aos dias de hoje) e, por fim, a concentração absoluta de um poder centralizado, messiânico e imperialista, no caso das religiões monoteístas.

    Candomble

    Para completar a sua plural definição, propõe-se ainda que a espiritualidade se refere também à busca de sentido, esperança ou libertação. Para alguns, o objectivo da espiritualidade é uma profunda exploração da interioridade, levando ao despertar espiritual, a uma conversão íntima ou à obtenção de um estado de consciência modificado e duradouro. Por um lado, a espiritualidade não se limita a uma abordagem conceptual ou dogmática, e, por outro, a vertente exotérica da problematização do candomblé afro-brasileiro leva-nos a perspectivá-lo sob o ponto de vista cultural e político, a partir do que se poderia chamar a praxis da constituição de um sujeito e das relações de poder que institui e promove na vida quotidiana, real e terrena – na segunda parte do artigo, reunimos argumentos que invitam a pensar que a cultura quilombola e a formação de quilombos, bem como a presença de uma linha matriarcal e a ausência de nepotismo no candomblé, além da sua secular abertura à vivência da sexualidade homossexual e bissexual ou ao sincretismo sui generis de orixás masculinos em santas católicas, são inegáveis traços inextricáveis da cosmovisão animista fetichista, rasgos e idiossincrasias do seu processo mutável de viver a espiritualidade e que, ao mesmo tempo, não sem contradições, o distinguem da sociedade de Ifá, em África, de hierarquia patriarcal e consanguínea.

    Devido às relações de aliança, migração ou de dominação entre diferentes nações e etnias africanas, a história da África negra ocidental testemunhou a difusão dos cultos e das divindades entre diferentes regiões. Nesse processo de intercâmbio cultural, o povo iorubá, que cultua os orixás, e a nação jeje, que presta culto aos voduns, adoptaram algumas deidades originalmente estranhas à sua devoção. Não é mais do que um exemplo de um amálgama progressivo de crenças multiformes e provenientes de diferentes lugares. No culto de Ifá dos iorubás (proveniente do sudoeste da Nigéria), o número de divindades é impreciso, podendo ir de duzentas a mil e setecentas, segundo Maria Inez Couto de Almeida [ref] Cf. Cultura Iorubá: costumes e tradições, Maria Inez Couto de Almeida, 2006.[/ref]. Pluralidade que é enfatizada também por Verger para «demonstrar que certos orixás, que ocupam uma posição dominante em alguns lugares, estão totalmente ausentes em outros» e concluir «que em todos os pontos do território chamado Iorubá não há um panteão dos orixás bem hierarquizado, único e idêntico» [ref] Verger, Pierre, op. cit., pp. 17.[/ref]. Permanente fusão e impossível uniformização parece ser o legado africano das tradições e ritos do candomblé brasileiro, eixos que podem em parte explicar a propensão animista afro-brasileira à adaptação e recriação, à abertura, mutação e renovação. O fotógrafo e etnólogo francês remata: «Diante dessa extrema diversidade e dessas inúmeras variações de coexistência entre os orixás, fica-se descrente perante certas concepções demasiado estruturadas» [ref] Ibidem, pp. 18.[/ref].

    Com efeito, no Brasil, o contacto destes grupos sudaneses (originários da África ocidental, não confundir com o actual estado do Sudão) com os bantos (a nação angola-congo, que cultuam os inquices) ampliou o diálogo intercultural entre os africanos e seus descendentes, a que não é estranho o fenómeno típico de as diásporas, condicionadas pela colonização cultural e religiosa e acossadas pela repressão política, terem o reflexo de unir esforços e partilhar agonias no sentido de reforçar uma identidade comum, tal como faziam «quando se reagrupavam aos domingos em batuques por nações de origem» [ref] Ibidem, pp. 25.[/ref] (Verger). Ao contrário das teses que procuravam sustentar a conversão ao catolicismo dos africanos e descendentes africanos durante o período colonial, a aproximação dos escravos ao culto católico foi originalmente uma forma de dissimulação das verdadeiras crenças animistas africanas. A concepção de sincretismo religioso apenas faz sentido enquanto justaposição de cultos. Por isso, o processo de equivalência entre as divindades de origem africana e os santos católicos, flutuante e variável, não se traduziu numa fusão conceptual mas antes numa estratégia de disfarce e conformação exterior «para inglês ver», um meio de ludibriar o poder sacerdotal e toda a sorte de poderes instalados da classe de amos. Práticas deliberadas e típicas dos grupos subordinados, como reivindica James Scott, e que assumem «o disfarce e a dissimulação (…) mantendo simultaneamente uma atitude exterior de consentimento voluntário» [ref] A Dominação e a Arte da Resistência Política, James C. Scott, Letra Livre, 2013, pp. 47.[/ref]. Disso nos dá conta Nina Rodrigues, em O Animismo Fetichista dos Negros Baianos (1896), documento que abriu caminho à etnologia dos cultos de tradição africana no Brasil, ao constatar que mesmo no final do século XIX «a conversão religiosa não fez mais do que justapor as exterioridades muito mal compreendidas do culto católico às suas crenças e práticas fetichistas que em nada se modificaram. Concebem os seus santos ou orixás e os santos católicos (…) como perfeitamente distintos». Enfatizando que entre os devotos do candomblé, o catolicismo e a fé de tradição iorubá permanecem separados, prossegue: «Os africanos escravizados declaravam-se e aparentavam-se convertidos ao catolicismo; mas as práticas fetichistas puderam manter-se entre eles até hoje quase tão estremes de mescla como na África» [ref] Rodrigues, Nina, op. cit., pp. 108.[/ref].

    A tese desenvolvida pelo precursor da etnologia do candomblé vai mais longe, curiosamente contrariando as indefensáveis teorias racialistas de que era defensor. «Aqui na Bahia, como em todas as missões de catequese dos negros africanos, sejam elas católicas, protestantes ou maometanas, longe de o negro converter-se ao catolicismo, protestantismo ou islamismo, acontece ao contrário influenciá-los este com o seu “fetichismo” e adaptando-se [aqueles] ao animismo negro» [ref] Ibidem, pp. 107.[/ref]. Era o animismo matriarcal a envaginar o messianismo patriarcal. O amplexo criador e que se abre aos seus limites a recusar a imposição vertical de uma doutrina absoluta; a crença plural e em extensão do terreiro aberto e circular contra a repetitiva e uniformizadora genuflexão dentro da igreja e à frente do altar.

    Candomble

    O amplexo da cultura do candomblé revela-se num devaneio real desde há mais de duzentos anos em Salvador: a devoção ao Senhor do Bonfim é uma réplica dos rituais fetichistas africanos prestados a Oxalá. Descreve Nina Rodrigues: «Sexta-feira é o dia consagrado a Oxalá, aquele em que os iniciados vestem de branco, trazem contas brancas, lavam as quartinhas e mudam a água de santo. E para provar que não é o sentimento da adoração cristã que ali leva [à Igreja do Bonfim, nos arredores de Salvador] a grande massa da população (…) basta saber que quer na ida quer na volta, mesmo dentro dos bondes, as negras entoam sambas, esboçam danças que destoam por completo das práticas cristãs. As coisas chegam ao ponto de a imprensa reclamar providências da polícia…» [ref] Ibidem, pp. 112/113.[/ref]. E era assim que um jornal da época (A Renascença, 1895) dava livre expressão à sua reclamação: «A lavagem [da Igreja do Bonfim] na quinta-feira é uma verdadeira bacanal num templo cristão! Negros aguadeiros e mulheres com potes de água e vassouras em grande alarido de sambas e vivas entravam pela igreja com o fim de lavá-la e os cantos obscenos, os lunduns e a bebedeira reinavam sem respeito ao lugar, sendo toda a cena representada por homens e mulheres semi-nuas e embriagadas!» [ref] Citado por Nina Rodrigues cf. Rodrigues, Nina, op. cit., pp. 113.[/ref]. O candomblé canibaliza, incorpora, transcende. Mesmo quando é incontestável para os investigadores que na sua matriz jamais o move o proselitismo, um traço que o distingue da esmagadora maioria das religiões.

    A fé dos negros nos deuses das suas crenças originais manteve-se inegavelmente intacta apesar das condições absolutamente repressivas e aculturadoras do contexto histórico e social. Porém, era inevitável que ao longo dos séculos de coexistência a fé dos ex-escravos e seus descendentes se tivesse mesclado com as outras culturas do sagrado. No Brasil colonial e pós-colonial, as religiões que lá se encontraram romperam os seus limites dando origem a novas formas ou a factuais religiões sincréticas, como a umbanda (sintetismo de catolicismo, espiritismo europeu e candomblé). As semelhanças estruturais entre o animismo indígena e africano possibilitaram esse intercâmbio entre os seus elementos constituintes comuns, a devoção às entidades intermediárias, o aspecto mágico, a cura, a mediação da alimentação para atingir estados alterados e o profundo respeito pela natureza. Desta forma, resultou uma complexa e plural panóplia de rituais afro-brasileiros, uns mais próximos do sagrado de raiz indígena e dos bantos como a pajelança, o catimbó, o candomblé de rito angola e a própria umbanda, outros mais próximos da tradição sudanesa, em especial dos jejes e dos nâgos, como o candomblé do rito keto, o tambor-de-mina, o Xangô pernambucano e o batuque gaúcho.

    No velho continente, a modernidade foi o grande movimento anti-religioso, o interminável processo de secularização racional, que matou Deus. Mas a morte de Deus – ou retirá-lo do altar – não significa que a necessidade do absoluto no ser humano ou a busca de transcendência tenham desaparecido. Sob o arco desta tensão, na segunda parte do artigo, teremos a oportunidade de problematizar marcos axiais da história do Ocidente (a queima das bruxas e a Inquisição, o Iluminismo e a ciência materialista, o marxismo e a razão instrumental capitalista, o fetichismo do Eu e o revivalismo New Age), que sustentam a hipótese que, além de Deus e da crítica ao poder das religiões organizadas, a modernidade levou a efeito uma extorsão da magia do mundo que tornou obscuros os caminhos da espiritualidade. Daremos conta que o escravo africano, ou já nascido no Brasil, não podia subscrever o monoteísmo sem negar a sua própria condição porque o monoteísmo (cristão e islâmico) vem do fundamento das velhas fés absolutistas e tinha uma finalidade: a obediência do homem-escravo ao senhor da terra. Na esteira da resistência afro-brasileira e dos processos de luta pela abolição da escravatura, procuraremos polemizar que o escravo quer libertar-se das correntes com que o agrilhoaram enquanto o revoltado metafísico luta contra toda a espécie de correntes, as que o amarram ao pelourinho bem como aquelas que o deixam preso na sua própria mente, no seu imaginário e nas suas limitações humanas. É o quilombo de Palmares de um lado, e o terreiro de candomblé do outro. De um lado, a rebelião; do outro, a revolta metafísica, essa que se insurge contra a criação inteira. Um fresco da manifestação plural e singular da cosmovisão afro-brasileira, um mosaico da extravagante e omnipresente cultura dos orixás do culto de Ifá, onde «até as latrinas têm o ar de santuários», como averbava Michel Leiris no seu assombroso Diário de Campo (1931-1933) e que veio a chamar-se «África Fantasma».

    Texto de Júlio do Carmo Gomes [jc@utopie-magazin.org]
    Ilustraçōes de Ana Farias