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  • Tecnologias De Controlo

    Tecnologias De Controlo

    videovigilanciaA afirmação do Estado moderno tem como pilar fundamental do seu exercício a utilização do aparato tecnológico com o propósito de agilizar o controlo social. A tecnologia tornou-se fulcral para a manutenção do poder e sua  extensão a cada vez mais facetas do comportamento humano. Todos os dias são lançadas no mercado novas tecnologias para vigiar, monitorizar, identificar e localizar, ao mesmo tempo que poderosos sistemas de bases de dados permitem armazenar grandes quantidades de informação, cruzar dados, fazer associações, identificar padrões. Muitos destes sistemas foram inicialmente desenvolvidos para fins militares, sendo actualmente utilizados pelas várias polícias do Estado e empresas privadas de segurança.

    Entre as tecnologias de vigilância e monitorização amplamente utilizadas, a videovigilância é a que tem vindo a ganhar mais terreno nos espaços públicos e privados. Esta consiste num sistema de controlo de vídeo, formado por uma ou mais câmaras fixas ou rotativas que recolhem imagens de determinado lugar e das pessoas que aí se deslocam. A maior parte das ofertas de videovigilância existentes actualmente no mercado juntam vários tipos software ao equipamento base, funcionando em redes locais ou através da Internet, o que permite o controlo das câmaras e o visionamento das imagens à distância e em tempo real. Outras soluções incluem mesmo software para reconhecimento facial e seguimento de pessoas ou objectos.

    Em Portugal, foi no contexto do Campeonato Europeu de Futebol em 2004 que se começou a considerar o uso de câmaras de vigilância na via pública. Perante um evento de “excepção”, foram adoptadas medidas a nível policial e judicial que implicaram a suspensão da legislação em vigor, suprimindo direitos individuais em nome da “segurança” colectiva. Aprovou-se assim a lei que passou a regular transitoriamente a utilização de meios de vigilância electrónica em lugares públicos. Pouco tempo depois é publicada a lei que permite a instalação de câmaras de vigilância em espaço abertos, permitindo às forças de segurança monitorizar, registar e fazer o tratamento das imagens recolhidas. Antes dessa data, dispositivos semelhantes podiam apenas ser instalados em centros comerciais, gasolineiras ou bancos, ao serviço de empresas de segurança privada. A cidade do Porto foi pioneira na implementação dum sistema de videovigilância na zona histórica da Ribeira. Seguiram-se pedidos idênticos para outras cidades e zonas do país que foram entretanto implementados. Actualmente, as câmaras de videovigilância estão presentes em lugares de consumo, lazer, na via pública, em zonas habitacionais, nos transportes públicos, nas auto-estradas. O cidadão comum muitas vezes não se apercebe que durante as suas actividades quotidianas está grande parte do tempo a ser filmado.

    A PIIC (Plataforma para o Intercâmbio de Informação Criminal), projectada há vários anos e aprovada pela CNPD (Comissão Nacional de Protecção de Dados) em Janeiro passado, entra em funcionamento durante o mês de Março. Esta plataforma vai permitir à PSP, GNR, Polícia Judiciária, Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e Polícia Marítima, realizarem pesquisas e partilharem informação das suas bases de dados. Segundo declarações do secretário-geral do SSI (Sistema de Segurança Interna), “a plataforma está feita, neste momento, apenas para a investigação criminal, mas o objetivo é transformá-la, numa segunda fase, numa ferramenta de prevenção”. Esta plataforma foi desenvolvida por um consórcio constituído pela Portugal Telecom e pela Critical Software, tendo um custo de cerca de 2,5 milhões de euros, sendo parte deste valor financiado pela Comissão Europeia ao abrigo do programa “Prevenir para Combater a Criminalidade”. Uma dessas bases de dados, aprovada em 2008 e actualmente em funcionamento, está na posse da Polícia Judiciária e encontra-se no INML (Instituto Nacional de Medecina Legal). É uma base de dados de perfis de ADN utilizada para efeitos de identificação civil e investigação criminal. O “google” da polícia utiliza um software designado por CODIS (Combined DNA Index System), que é o mesmo usado pelo FBI e por diversas polícias europeias, tendo sido fornecido e adaptado à legislação portuguesa pelo próprio FBI.

    Juntando a esta plataforma os sistemas de informação do fisco e da segurança social, as técnicas avançadas de cruzamento e mineração de dados, as inúmeras câmaras de videovigilância implantadas em espaços públicos e privados, os sofisticados sistemas de localização por satélite… Surge uma pergunta evidente: onde é que o Estado não está presente?

    A massificação do consumo e utilização de novas tecnologias pela sociedade civil também se tornou hoje uma forma voluntária de exposição de hábitos, gostos e actividades pessoais. A Internet e as redes sociais (Facebook, Twiter, Google Plus, entre outras) permitem às empresas fornecedoras desses serviços reter informação privada de milhões de utilizadores, sem garantias reais de como serão usados esses dados e a quem podem ser fornecidos. Os padrões de consumo e comportamento extraídos dessas bases de dados são a matéria-prima para novas campanhas de marketing, para novos segmentos comerciais e para a investigação criminal. Da forma idêntica, a utilização do telefone celular, de cartões electrónicos, ou dos passaportes biométricos, permite o registo, localização e identificação dos seus utilizadores. A propósito da recolha e retenção de dados, a lei actualmente em vigor obriga os provedores de comunicações a guardar pelo período mínimo de um ano os dados relativos a comunicações efectuadas por telefone, mensagens de texto, multimédia ou e-mail, podendo esses dados identificar a origem, o destino e a data dessas comunicações, incluindo a identificação pessoal dos clientes e sua localização.

    Dum ponto de vista técnico, a época actual pode ser descrita como uma sofisticação constante dos mecanismos de recolha, transmissão, manipulação e armazenamento de informação. Neste contexto, as descobertas científicas e tecnológicas que permitem vigiar, monitorizar, identificar, localizar indivíduos e classificar grupos, tornaram-se indispensáveis aos governos para impor o sistema económico vigente, rumo a uma sociedade totalitária.

  • Salvo-conduto I

    Salvo-conduto I

    Há não muitos anos, quando um qualquer cidadão tinha algo a tratar, uma conta para pagar, algo para reclamar, dirigia-se a uma repartição pública ou a um balcão de atendimento, por detrás do qual um empregado, remunerado pela respectiva entidade, preenchia um formulário e prestava-lhe serviço. A fila de espera podia ser longa, o empregado incompetente, a resposta morosa ou deficitária – mas, na era da burocracia, ainda se era atendido por pessoas (ou servidores de carbono).

    A era da tecnocracia é um pouco mais perversa. Quando se é atendido, é por máquinas (ou servidores de silício, Silicon Valley). Se um cidadão qualquer quiser agora resolver algum assunto, dirige-se ao website da entidade, a qual, embolsando vários milhares, despediu o antigo funcionário do atendimento e trocou-o por um software (uma despesa de manutenção sumária, prestando um serviço igualmente sumário), e coage agora o próprio cliente a desempenhar as funções de preencher o formulário, digitalizar documentos, redigir declarações, e, depois de todo esse trabalho não remunerado, ainda paga por isso e pela ligação de Internet, da qual está cada vez mais dependente. É por isso que todas as empresas de cariz tecnológico querem que se forneça um e-mail e que se abra uma conta online e que se adira à factura electrónica, para que se passe automaticamente a ser empregado delas e o parolo ainda paga e tolera aumentos descabidos de preço. Nem sequer se pode dizer que tenha granjeado algum desconto nas contas pela sua colaboração para o lucro empresarial, antes acolheu responsabilidades que o obrigam a consumir recursos (tempo, energia, material) sem receber um centavo como contrapartida. Os custos burocráticos, que anteriormente recaíam sobre a entidade passaram agora para o lado dos clientes: papel, tinteiros, agrafos, clips, electricidade, desgaste e manutenção do material, etc. A antiga fila de espera, à porta da repartição, foi substituída pelo tempo de carregamento de uma impessoal página web (quando o excesso de tráfego não a bloqueia), o cliente agindo em causa própria tornou-se num empregado muito mais eficiente, enquanto que o pedido obtém a resposta automática de uma máquina ou, não raras vezes, perde-se num poço sem fundo e fica sem resposta. Tudo cai no poder do intermediário: o cliente é um serviçal, o receptor não está lá. O atendimento pessoal e o posto de trabalho do antigo empregado foram sugados por este entre-meio tecnológico. Esta meso-região de electricidade engana, parece calorosa, mas, na realidade, é glaciar, uma placa de gelo, sem pingo de humanidade, desumanizadora e desanimadora. Quando o cidadão paga todos os meses a “sua” factura de Internet – incluindo todos os períodos gastos em serviços “por conta de outrem” – consente obedientemente em pagar pela sua escravidão às facilidades digitais, sujeita-se à teia (web) da aranha universal. Assim, o homem comum das sociedades informatizadas passa cada vez mais tempo em frente do écran, agarrado à máquina que o sedentariza, à medida que crescem e se avolumam as tarefas digitais de self-service para as quais ele é requisitado: consultar extractos, pagar facturas, fazer transferências, requerer licenças camarárias, solicitar certidões de registo, comprar online, etc., etc. Tudo centralizado numa só pessoa. O novo escravo tecnocrático: um só indivíduo passa a acumular parte das funções dum ex-empregado de Banco, dum ex-empregado de repartição pública, dum ex-empregado de serviços municipalizados, dum ex-empregado de balcão de loja, dum ex-empregado de… De borla.

    A tecnocracia procede ditatorialmente. Por exemplo, uma pessoa é obrigada a comprar um aparelho por causa de uma mudança tecnológica que não requereu: TDT. Paga tudo: as infra-estruturas, o aumento na factura, o aparelho conversor, a nova antena, a taxa audiovisual… E fica pior servida, com um sinal e imagem muito mais inconstante e vulnerável. Outro caso frequente: uma pessoa pede um empréstimo ao Banco e taxam-na três vezes mais (e ainda tem de domiciliar o ordenado e adquirir um seguro) do que a taxa de juro que recebe se for ela a emprestar dinheiro ao Banco. Dois pesos e duas medidas. Ou ainda: uma pessoa pede um esclarecimento a uma repartição pública via e-mail, para ser mais rápido e económico conforme proclamam, e, em resposta, solicitam-lhe que vá pessoalmente à delegação para lhe responderem ao e-mail. Há vias que só foram implementadas para servir um dos lados, unilateralmente. Além disso, a tecnocracia pode desdobrar-se numa longa verborreia sem eficácia, como no episódio verídico que se reproduz a seguir. Uma pessoa é obrigada a ligar para um número não gratuito para cumprir com a obrigação imposta por outrem de mudar de fornecedor de electricidade (do mercado regulado para o mercado “livre”, eufemismo) e é uma gravação de atendedor de chamadas que a atende ou, pior, que a não atende, mas faz gastar chamadas em vão: «Autoriza que esta chamada seja gravada? Se não, marque 1. Se sim, marque 2. [A pessoa marca 1.] Contacte-nos pelos meios alternativos na Internet. [Sem pré-aviso, a chamada é automaticamente desligada. A pessoa tem de ligar outra vez para o tal número não gratuito, ouvir o mesmo início, e é obrigada a aceitar ser gravada. Depois, o processo continua.] Se é… [parvo], marque 1. Se é… [totó], marque 2. Se é… [tolo], marque 3. Se é… [pacóvio], marque 4. Se é… [patego], marque 5. Se é… [palerma], marque 6. Para falar com um Assistente, aguarde. [Dez minutos à espera a ouvir uma música irritante…] Devido ao número elevado de chamadas em espera, não nos foi ainda possível atender a sua chamada. Deseja aguardar? Marque 1. [Dez minutos à espera a ouvir uma música irritante…] Não nos vai ser possível atender a sua chamada nos próximos trinta minutos. Se desejar fornecer o seu número, para ligarmos para si logo que nos seja possível, marque 1, se não, tente mais tarde».

  • A Revolta do Manuelinho

    A Revolta do Manuelinho

    A meio da manhã de sexta-feira, 21 de Agosto de 1637, populares que protestavam “furiosa e confusamente” contra o recente aumento de impostos, assaltaram a casa do Corregedor, “botaram quanto acharam na Praça” e “puseram fogo a tudo”. A fúria do povo de Évora “continuou amotinadamente pela Cidade entrando nas casas dos actuais vereadores, que entretanto tinham fugido, e lançando tudo o que nelas havia pelas janelas”. Foram também às casas dos escrivães “pelos livros e papéis” e “tudo trouxeram a queimar na fogueira já acesa”. Dirigiram-se ao matadouro e “racharam as balanças”. A cadeia foi assaltada, “dando liberdade aos presos”. O regresso à ordem estabelecida só viria sete meses depois. Informações que se recolhem dos poucos relatos conhecidos escritos na época[ref]Joel Serrão; “As Alterações de Évora 1637” descritas por Francisco Manuel de Melo e por Manuel Severim de Faria. Colecção Porlugália, 1967.[/ref].
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    O estabelecimento pelo rei Filipe IV de uma renda fixa anual a pagar por Portugal, sob o pretexto de socorrer o Brasil ameaçado pelos holandeses, redundou numa substancial subida de tributos sobre a população portuguesa. A nobreza e o clero nacionais, para não verem reduzidas as benesses de que usufruíam, fizeram recair paulatinamente sobre o povo os encargos da contribuição. Para esse efeito “foi lançado o imposto do real de água e aumentado o cabeção das sisas”, estes impostos viriam a constituir-se no detonador dos acontecimentos que ficaram conhecidos na história como “Alterações de Évora” ou “Revolta do Manuelinho”.

    A chispa que desencadeou a revolta terá sido a notícia da eclosão de motins em Lisboa. Segundo Severim de Faria, cónego da Sé de Évora, um dos poucos contemporâneos que deixou o seu testemunho sobre os acontecimentos, “as novas dos motins de pescadores chegaram à cidade de Évora muito acrescentadas e creeram muitos que fora movimento formado do Povo contra a nova diligência” de aumentar os impostos.

    Dias antes em Lisboa, “os pescadores tinham desistido uniformemente de pescar”, hoje diríamos que declararam greve, em protesto contra um novo tributo aplicado a todos os barcos que passassem para baixo da Torre de Belém. Uma barca, vinda de Setúbal com peixe ao Cais da Ribeira, foi assaltada pelos pescadores em luta e “botaram o pescado que trazia à água”. Em seguida, apoiados pelas varinas, jovens e pícaros da beira-rio dirigiram-se ao Terreiro do Paço “apedrejando pelo caminho as janelas dos palácios e do Forte”. Os ânimos populares terão sido acalmados pela mediação de nobres, levando à suspensão do tributo.

    Ainda que na capital a acção se tenha ficado por ali, os rumores de “motins em Lisboa” chegados a Évora, a segunda cidade de Portugal, bastaram para o desencadear dos acontecimentos que marcaram de forma indelével a alteração política que viria a concluir-se três anos mais tarde com a restauração da independência de Portugal e ficaram para a memória dos vencidos como uma manifestação mais de revolta dos despojados que de nacionalismo, que é oportuno recordar.

    Levantamento popular

    Ainda que as fontes não estejam de acordo em todos os pormenores sobre a forma como se iniciou o motim, o relato do seu desenrolar é coincidente. Para Francisco Manuel de Melo, intermediário da Coroa nas negociações que decorreriam nos meses seguintes, os representantes do povo “João Barradas, barbeiro de espadas, e Sesinando Rodrigues, borracheiro, foram convocados pelo Corregedor para sua casa”, enquanto para Severim de Faria, estes, “sentindo-se obrigados pelo juramento de ofício que faziam de Mesteres este ano do povo” foram a casa do Corregedor, André de Morais Sarmento, “a pedir-lhe que parasse na execução [dos impostos], porque queriam escrever a S. Majestade em nome do Povo”. A sentença proferida contra “os cabeças do motim”, meses depois, acolhe esta última versão: “os réus convocaram o povo na praça da cidade e foram a casa do corregedor (…) lhe requereram que parasse com a diligência que em efeito estava fazendo, e que, não parando, o povo que estava junto se havia de levantar”. O Corregedor, representante local do poder, terá tentado “já com promessas, já com ameaças” forçá-los a um compromisso. Sem êxito. O tumulto deflagrou após terem comunicado aos populares reunidos o insucesso das suas diligências.

    Logo choveram as pedradas, “despedidas”, refere Severim de Faria, “dos rapazes e pícaros, os quais animados com a assistência do Povo, subiram acima e botaram na Praça, furiosa e confusamente, quanto acharam nas mesmas casas do Corregedor e, fazendo uma fogueira na frente delas, se pôs fogo a tudo”. Enquanto o magistrado se escapulia, acabando por encontrar refúgio no Convento de S. Francisco, donde fugiu para Lisboa a dar conta das ocorrências, uma vez ateado, o fogo da revolta popular crepitava em labaredas altas e alastrava contra a ordem estabelecida.

    As casas de alguns vereadores (Luís de Vila Lobos, Manuel de Macedo e Agostinho Moura), identificados entre os responsáveis pela execução da política tributária, sofreram a mesma sorte. Os relatos são coincidentes no âmbito e nas características das acções populares: “passou adiante o dano e correram a casa dos escrivães e trouxeram a queimar na fogueira da Praça todos os livros e papéis que tocavam ao inventário das fazendas, ao tributo do real de água e à quarta parte do Cabeção; no açougue racharam as balanças donde se cobrava o novo imposto da carne; devassaram a cadeia, dando liberdade aos presos de quem esperavam ser ajudados; saquearam os Cartórios, desbaratando papéis e livros judiciais. Porém, em todas as acções mostrou-se sempre maior a indignação que o interesse.”

    “Não houve ânimo nenhum de se furtar cousa alguma”, refere Severim de Faria, “tudo o que se achou nessas casas ou veio à fogueira da Praça ou saiu em pedaços pelas janelas”. E Francisco Manuel de Melo, surpreendido, explica: “Afirma-se, por cousa rara, que toda a prata, ouro e dinheiro que despojavam queimavam na Praça, sem algum respeito, como cousa pestífera, não havendo entre tanta multidão (que constava da pior gente da República) uma só pessoa que se movesse a salvar para seu proveito qualquer jóia das que outros entregavam às chamas tão deliberadamente. Tal era o ódio, que pode mais que a cobiça, mais poderosa que tudo”. Detalhes que deixam entrever o carácter insurreccional do gesto popular e o consequente desejo de cortar radicalmente com o passado de acumulação de riqueza fruto da exploração e da opressão.

    “Foi este dia de grandíssima confusão nesta Cidade, e quase do mesmo modo os três ou quatro que se lhe seguiram”, continua narrando Severim Faria, “porque esta parte vil do Povo, que foi só a que se moveu, amotinada em troços, andava de dia e de noite, corria e apedrejava as casas daqueles que nas ocasiões dos tributos se haviam mostrado menos zelosos do bem comum (…) E como as justiças (forças da ordem) não apareciam, os nobres recearam que, se resistissem a este ímpeto, o poderiam acrescentar (…)”.

    Entretanto a nobreza e a alta hierarquia eclesiástica, reconhecendo-se impotentes para extinguir os tumultos, congregaram-se na Igreja de Santo Antão, “constituindo-se em Junta que se propunha encontrar os meios considerados adequados para pôr termo à situação criada, que os lançou na alternativa ou de se tornarem suspeitos à corte madrilena ou de se transformarem no alvo principal da ira popular.”

    A nobreza não estava interessada em estimular um levantamento que, directa ou indirectamente, se dirigia também contra os seus privilégios, na medida em que contestava uma orgânica tributária da qual beneficiava todo o aparelho aristocrático do Estado. Usando palavras que nos dias de hoje vão aparecendo nos jornais para caracterizar a situação actual, “a distribuição pouco equitativa dos sacrifícios pedidos aos portugueses”, de então, motivou a revolta.

    Para os especialistas da história europeia do século dezassete[ref]Roland Mousnier, Paul Hazard, Boris Porchnev, J. Vicens Vives, Eduardo Oliveira França, etc.[/ref], “a época é de crise geral, afectando todo o homem, em todas as suas actividades: económica, social, política, religiosa, científica, artística, e em todo o seu ser, no mais profundo da sua potência vital, da sua sensibilidade e da sua vontade”. O predomínio da aristocracia latifundiária e barroca, com os seus grandes palácios, Versalhes, Escorial ou Vila Viçosa, produzia o espectro da fome. “O abismo entre as classes privilegiadas e o povo; a latente revolta popular, não tanto porventura contra a nobreza, mas contra a avidez do fisco real e dos seus executores; a inquietação moral e religiosa, na prática de uma caridade que nunca fora tão necessária e urgente[ref]As Alterações de Évora, introdução, fixação do texto, apêndice documental e notas de Joel Serrão.[/ref]” é uma situação ilustrada num testemunho desta época com os seguintes números: “perto da décima parte do povo está reduzida à mendicidade, das nove outras partes, cinco não estão em estado de poder dar esmolas, porque eles próprios estão quase reduzidos àquela infeliz condição, das quatro partes restantes, três estão em apuros e carregados de dívidas e de processos…”[ref]Vauban; in Fourastié, Machinisme et Bien être, p. 22. Paris, 1962.[/ref]

    Joel Serrão, na obra em que nos apoiamos para escrever este artigo, lamenta a falta de informações sobre a situação em Portugal nestes termos: “se deste plano da história social da Europa do Ocidente transitarmos para a história coeva do povo português, no intento de encará-la em perspectiva, as dificuldades que se nos deparam são, por ora, invencíveis, dada a nossa actual ignorância a esse respeito”. Mas, se dos dados locais sabemos pouco, o facto do preço do trigo ter quase triplicado nos três anos anteriores dá-nos uma ideia da fominha que se passava em Évora de 1637.

    Manuelinho Menino

    Embora algumas fontes refiram a circulação anterior de panfletos clandestinos que mão anónima redigia, onde se criticava a dominação espanhola e se convidava o povo a derrubá-la, o primeiro manifesto conhecido de Manuelinho Menino está datado do dia seguinte ao desencadear da revolta.

    Ninguém podia atribuir a responsabilidade das proclamações ao demente muito popular conhecido por este apodo, em Évora, como reconhece F. de Melo: “um homem doudo e dizedor, cujo nome era Manuel, e, por jogo e sua notável grandeza, ironicamente Manuelinho. Usava fazer práticas pelas ruas ao vulgo, a quem, com vozes desordenadas e histórias ridículas, excitava sempre a alegria, donde procedeu ser na Cidade e seus contornos a pessoa mais conhecida”.

    Nesse primeiro manifesto, assinado por “Manuelinho” em nome dos “meninos e rapazes executores da justiça divina”, fazem saber “levados pelo amor à pátria, fome de nossos irmãos, pobreza de nossos pais, necessidade de nossas órfãs (…) finalmente, da grande pobreza de que a nós se queixa toda a gente”, desejando “pela obrigação do nosso ofício buscar meio para se atalharem traições e roubos tão públicos e escandalosos”, mandam “a toda a pessoa, assim seculares como frades e clérigos (…) para nos acudirem a executar a sentença, que ora se despachou no tribunal da divina justiça, para que morra todo o que for traidor à pátria e quiser executar tributos do rei tirano (…)”.

    Em prosa ou em verso, na forma de Avisos[ref]Em 1994, no decorrer da luta nas prisões portuguesas, foram enviados um conjunto de Avisos às principias instituições do Estado assinados por Manuelinho Menino em nome dos presos.[/ref], Provisões, Bandos ou Decretos, “amanheciam cada dia, afixados pelas praças e portas da cidade”, como conta F. de Melo, “debaixo desta forma se escreviam e despachavam cartas às Câmaras do Reino, se despediam Ministros de seus ofícios e se acomodavam neles outros, em virtude de um simples provimento assinado por Manuelinho de Évora. Chegou a tanto a autoridade dos seus mandatos, que bastava, para que um Cidadão, Fidalgo ou Ministro, deixasse a cidade, casa e ofício, ou entregasse a sua fazenda, ser-lhe assim mandado pela incerta voz de Manuel, porque já se sabia que nela era inclusa tacitamente a vontade do Povo, a que nenhum poder resistia”.

    Verificou-se que a desobediência de muitos suspeitos aos mandatos de Manuelinho levavam à execução das penas “as quais não eram menos de morte e incêndio”. Francisco Manuel de Melo detalha: “usavam deste artifício nas cousas que tratavam tumultuosamente; mas aquelas que julgavam conforme com o seu poder ordinário, em público as resolviam e, com a autoridade da Câmara, que, violentada, lhe obedecia, eram dispostas”. Este protagonista da tentativa de pacificação fracassada dos motins alentejanos revela também os modos de acção política nestes dias de Évora: “De sorte que dentro da própria Cidade (cousa jamais vista) concorriam todos os três modos do governo que assinam os Políticos: o dos nobres, que em lugar d’el-rei significava o modo Monárquico, sempre continuava com as suas conferências; o da Câmara, que, não desistindo do seu exercício competente, representava o modo Aristocrático; e o do Povo, que em benefício da liberdade proclamada, exercia um Regimento comum, por modo Democrático: donde qualquer do vulgo tinha igual autoridade que o mais sábio ou poderoso”. E Severim de Faria sintetiza esta maneira, afinal, tão antiga de actuar : “o Povo se chamava repetidamente, o Povo se ouvia, o Povo dispunha e executava”.

    Das disposições saídas destas assembleias não há registo conhecido, mas certamente para além daquelas que asseguravam o controlo da situação na capital do Alentejo, outras buscavam também alargar à escala nacional a revolta que ali eclodira, se arraigara e duraria cerca de sete meses. “Chegou”, conta Francisco de Melo, “não se sabe qual primeiro, se a fama ou aplauso do sucedido em Évora, aos povos circunvizinhos e, pouco depois, aos mais apartados da província do Alentejo, donde tão depressa foi tudo ouvido como imitado”. E eis que, segundo Severim de Faria, quase todo o Alentejo (com excepção de Elvas, Moura e Beja), o Algarve (especialmente Tavira, Faro, Loulé e Albufeira), e o Ribatejo (Tancos, Santarém e Abrantes) aderiram à revolta. Há ainda outras fontes que referem o alastrar da ira popular a Setúbal, Beiras, Porto e Viana do Castelo, desenvolvendo-se de modo semelhante, por toda a parte, contra os agentes do fisco real, assaltos às repartições públicas, libertação de presos e pedidos de apoio à nobreza, que, com maior ou menor diplomacia, o nega.

    Em Vila Viçosa, o povo amotinado apedrejou o Paço Ducal, o futuro rei D. João IV, está de cama. Está, ou finge estar, doente. Consegue acalmar os ânimos de forma enigmática, fazendo passear sozinho pelas ruas o seu filho D. Teodósio, então com 3 anos de idade. A doença não o impediria de “assistir pessoalmente ao pôr das novas balanças nos açougues em Vila Viçosa e Borba, nos primeiros de Dezembro”, as mesmas balanças que o povo amotinado tinha destruído em Agosto.

    D. João, duque de Bragança, que três anos depois será el-rei de Portugal, incapaz, como a restante nobreza nacional, de corresponder à situação gerada pela revolta popular iniciada em Évora, assistiu do seu Paço Ducal à entrada simultânea de dois exércitos castelhanos previamente estacionados junto à fronteira portuguesa. Um com mais de 4000 soldados, originário de Guipúzcoa, esperava, havia semanas, aquartelado em Badajoz, o momento de reduzir Évora e o Alentejo; o outro, formado por mais de 6000 infantes organizado pelo Capitão-General da Andaluzia, tinha estabelecido base em Ayamonte, com o Algarve como objectivo. Paralelamente, “não eram só as armas castelhanas aquelas que se convocaram e preveniram contra o Reino”, como recorda F. de Melo, “mas das próprias suas, as mais nobres e mais religiosas”, em referência ao Decreto cuja execução encomendava a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, S. Tiago de Espada e S. Bento de Avis, onde se fazia saber: “caso se cheguem a castigar os Povos desobedientes, hei resoluto que se avise a todos os Comendadores e Cavaleiros das ditas Ordens, que estejam prontos para quando se lhes der recado.”

    Com as unidades combatentes dispostas no terreno, a manobra e a batalha decorrem com os Ministros da Justiça Portuguesa na primeira linha de ataque. Em Évora, “a Justiça, animada no mesmo exército, foi prosseguindo nas suas averiguações até proscrever como réus de sedição e cabeça dos amotinados a Sesinando Rodrigues e João Barradas, pelo qual crime foram condenados à morte, e em estátua de palha justiçados a 17 de Março, com horrendos pregões e bandos, prometedores de grande honra e interesse a qualquer pessoa que, vivos ou mortos, os entregasse nas mãos da Justiça. Foram confiscadas as suas fazendas e mandadas salgar de sal as casas em que viviam”. Viriam a reaparecer em Lisboa “a beijar a mão a el-rei”[ref]Manuel Lopes de Almeida; “Noticias da Aclamação e de Outros Sucessos”; p.37. Coimbra, 1940.[/ref] D. João IV, depois de três anos de clandestinidade nos arredores de Évora. Outros foram também presos e condenados “uns à forca, outros às galés e desterros perpétuos”.

    No Algarve, o povo, observando os passos de Évora, “como se lhe viu igual na culpa, não esperava de lhe ser desigual no castigo”, terá encarniçado a resistência. A dirigir o “ajuste de contas”, apoiado no exército castelhano, destacou-se Pêro Vieira da Silva, Doutor em leis e Desembargador dos agravos, quem, segundo F. de Melo, “processou causas, formou processos e pronunciou sentenças; sendo em número e qualidade, quase iguais às que em Évora se haviam executado, tendo sentenciado à morte, parece, sete cabeças de motim”. O que não o impediu de ser chamado por D. João IV para o cargo de Secretário de Estado, três anos depois. Assim se pagavam os serviços prestados à causa da nobreza, que bem necessitava de técnicos especializados na repressão nos tempos que se avizinhavam. Logo a seguir à Restauração da Independência, em 1641, amotinou-se o povinho de Lisboa contra “a fuga dos nobres para Castela”, seguiram-se motins no Funchal pela “substituição de cargos públicos” e, alguns anos depois, o “motim que houve no Porto por causa do imposto do Papel Selado”.

    A revolta de Nápoles e a guerra dos “Segadors” (ceifeiros) na Catalunha, na repressão da qual, ao serviço de Filipe IV, viria a participar Francisco Manuel de Melo, uma das fontes mais citadas neste artigo, obrigariam a uma concentração das forças militares castelhanas nesses conflitos, afastando os exércitos das nossas fronteiras. A Casa de Ástria, que tinha de se ocupar com as rebeliões nesses lugares e da guerra contra a França, foi incapaz de responder ao Movimento de Restauração lançado pela nobreza nacional em 1 de Dezembro de 1640.

    Com a narrativa da Revolta do Manuelinho limitada ao espaço de um artigo de jornal, recordemos alguns dados sobre o contexto político e social em que se produziu o grito alentejano. À morte na batalha de Alcácer-Quibir do rei Sebastião I, acompanhado na mesma sorte por outros sete mil portugueses, sobrevive uma crise sucessória no trono português. Depois de algumas escaramuças com outros pretendentes ao trono, que não aprofundaremos aqui, sucede-lhe Filipe I, filho de Isabel de Portugal e de Carlos V, o mais alto soberano da cristandade, com jurisdição sobre a Alemanha e vários reinos e senhorios da Espanha, Itália, França, Flandres, etc. Perdendo Portugal a independência por esta via, com a integração da coroa na Casa de Áustria. O centro de decisão política passou para a corte de Madrid, ficando a gestão dos negócios do país entregues a alguns nobres portugueses apoiantes da sucessão verificada, debaixo da supervisão do valido do rei. Os reinados filipinos não puseram em causa os privilégios da nobreza nacional, pelo contrário, os nobres passaram a beneficiar também da prata e do ouro extorquidos aos povos latino-americanos, fazendo recair o esforço tributário sobre as classes baixas. Nestas condições não surpreende nem a revolta dos “mesteres e do povo miúdo”, nem o papel da nobreza nacional nos acontecimentos. Salvaguardadas as devidas diferenças, como se parece tanto a situação com a dos dias de hoje…

    Por toda a Europa nesta época os levantamentos populares apresentavam as mesmas características: espontaneidade; ausência em tais tumultos de ideologia definida; o pretexto e a causa eram sempre a luta contra as imposições tributárias, especialmente a mais recente; no decurso destes motins não havia roubo nem assalto à mão armada; verificava-se no desenrolar dos tumultos um papel decisivo desempenhado por jovens e ainda o “papel extraordinariamente importante das mulheres”.

  • O automóvel de esquerda

    O automóvel de esquerda

    automovel_esquerda_interior«O futuro é o automóvel eléctrico!» Ninguém quer é prescindir da mobilidade. Como conciliar a autonomia da mobilidade, a sua acessibilidade, o seu conforto e que, simultaneamente, possa ser «ecologicamente sustentável»? É uma questão técnica, é tudo. Metem-se os engenheiros à volta de uma mesa e exigimos que encontrem a solução. Não podemos, segundo os defensores do «capitalismo sustentável» é sair das energias fósseis sem uma planificação, desta vez, ecologista. Felizmente existem técnicos de esquerda para nos salvar dos técnicos de direita. Porém, sair da civilização do automóvel é que não pode ser para amanhã. Os técnicos de esquerda tentam fazer-nos crer que se tornaram ecológicos e vá de nos impingirem mais uma mercadoria: o automóvel eléctrico, o qual, obviamente, requer mais produção eléctrica, é isso que escondem e não discutem, mais barragens e centrais nucleares.

  • Os portugueses esqueceram…

    Os portugueses esqueceram…

    Cavaco Silva que foi o responsável, enquanto primeiro-ministro, pela estocada final na agricultura, pela entrega do país ao capitalismo financeiro e à tecno-indústria afirmou, como se nada se tivesse passado, que «os portugueses esqueceram a agricultura». A classe política despreza o campo e com ele os camponeses. Nos últimos cinquenta anos, tudo fizeram para acabar com uma cultura onde o ser humano reencontra a natureza, a terra e a vida vegetal ou animal. Com as comunidades rurais destruídas nada mais conhece do que o contacto com o metal, o betão ou o plástico inerte. Os hipermercados, as grandes superfícies instaladas às portas das cidades e a TV absorvem o que resta dos camponeses na sociedade global – uniformizadora. A industrialização fez da agro-química um elemento da economia política. Como qualquer outro, está integrada no sistema abstracto do mercado, depende dele, e, obviamente, do Estado, o grande legislador. Por que é que não se conserva a aldeia, reconstruindo-a, mantendo uma sociedade de dimensão humana que a situação de miséria e de despossessão actual torna cada vez mais necessária? Por que é que não se constituem aí pequenas comunidades auto-suficientes, de fora da lógica do crescimento infinito e destrutivo, de fora da lógica tecno-industrial? Por que esquecemos que podemos fazer caminho com os nossos próprios pés?

  • O dom da gordura

    O dom da gordura

    dom_da_gorduraHoje em dia muitas pessoas, como as ditas tias de Cascais, recorrem à intervenção cirúrgica mais em voga no mundo: a lipoaspiração. O propósito é obter uma silhueta tipo presunto sem gordura e para o alcançar preferem uma boa lipoaspiradela à prática desportiva. Com a lipoaspiração é possível retirar toda a gordura acumulada durante quarenta anos. A imensa quantidade de gordura que se obtém é depois incinerada. Mas por que é que não podemos reciclar este produto puro da nossa sociedade mercantilizada? Nesta sociedade imposta é um desperdício incinerar essa imensa gordura. A lógica é aproveitar tudo o que permita o crescimento económico. Se dá dinheiro, não se pode perder a oportunidade. Vai daí, um «homem de negócios» norueguês, Lauri Venoy, propôs recuperar este maná para fabricar carburante. Entrou em contacto com diferentes estabelecimentos hospitalares, entre os quais o grande hospital americano Jackson Memorial. Com este último, o  negociante combinou adquirir todas as semanas 11. 500 litros de gordura humana, provenientes das lipoaspirações, com a finalidade de produzir 10.000 litros de biodiesel. Porém, até ver, o projecto emperrou na legislação americana dos dejectos. Mas este fazedor de capitais mostra iniciativa empresarial «sustentável». E, estamos avisados, quer seja animal, vegetal ou humano, a gordura pode vir a ser utilizada em diferentes sectores do nosso quotidiano tecno-industrial, por exemplo, como óleo para fritar. A quem se agradece?