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  • Candidatura da UC a Património Mundial e o saneamento da cidade de Coimbra

    Candidatura da UC a Património Mundial e o saneamento da cidade de Coimbra

    Estão candidatas oficialmente, desde Janeiro de 2012, enquanto património material, a UC, Alta Universitária e a Rua da Sofia, onde se situam os 17 edifícios avaliados como detentores de grande valor patrimonial, e ainda a zona de protecção que envolve a Baixa de Coimbra e vários outros espaços circundantes da zona alvo de classificação. Quanto ao que designam de património imaterial, estão a ser candidatadas as denominadas “tradições académicas”, tais como a tomada de posse do Reitor, a abertura solene das aulas, as provas de doutoramento e os doutoramentos honoris causa e, também, o que designam por “cultura académica estudantil”, na qual incluem a festa das latas, a queima das fitas, as praxes, as serenatas e a Canção de Coimbra. Aglomeram, ainda, as Repúblicas de Coimbra, “marco simbólico e histórico” dessa dita “cultura académica”, entre outros “marcos” incluídos nesta componente imaterial da candidatura.

     

    Rua da Matemática

    Alguns exemplos de patrimonialização precedidos pela UNESCO denunciam a forma como os respectivos instrumentos políticos e legislativos servem não só o propósito de revitalização, regulação e protecção do que classificam de património cultural per se, como também instituem regras respeitantes à inventariação e circulação de bens e produtos culturais, com a finalidade de incrementar o mercado turístico e as indústrias culturais, promovendo processos de gentrificação nas áreas classificadas, nomeadamente, as que compreendem “centros históricos”.

    Nas sociedades contemporâneas, imiscuídas na globalização, constata-se a valorização económica do património, a re-invenção e a mercantilização de “coisas”, lugares, paisagens culturais e identidades, que se integram nas indústrias turísticas. Assim, o património é dramatizado, por exemplo, através dos monumentos, comemorações e museus que, sob uma concepção conservadora e autoritária, procedem ao tradicionalismo e folclorização reproduzidos pelas elites.

    As cidades tornam-se assim rentáveis pólos turísticos, espaços altamente estetizantes, onde as artes e a cultura são “coisificadas” em produtos que rentabilizam os espaços urbanos, moldados para um olhar turístico consumista.

    As directivas da UNESCO devem ser tomadas com precaução e ser alvo de críticas, pois participam da legitimação quer de uma nova ordem económica imposta, quer de políticas e concepções culturais limitadas que despoletam políticas patrimoniais de apropriação cultural pelos grupos hegemónicos e económicos, associadas a uma visão essencialista e tradicionalista de cultura, identidade e património, tal como o que se está a verificar no processo de patrimonialização em Coimbra. A candidatura da UC foi realizada sem consulta da população ou das comunidades inseridas na área que está a ser candidatada a Património Mundial. A inventariação e definição do que é considerado património cultural foi feita unicamente pelos/as peritos/as desta instituição, tendo sido ignoradas as comunidades da cidade já que não houve nenhum contactos com as pessoas. Esta candidatura constitui-se, assim, como uma imposição a estas comunidades. Aqui incluem-se as várias Repúblicas, que em momento algum foram contactadas pela UC, mas que vêm definidas na candidatura enquanto património imaterial sob uma concepção tradicionalista e praxista que não corresponde à realidade e diversidade destas comunidades.

    Este processo torna-se, assim, um processo nefasto, quer para a universidade quer para a cidade, na medida em que os seus verdadeiros propósitos fundamentam-se numa visão economicista neoliberal que procede a uma remodelação e reconstrução da cidade enquanto pólo turístico no mercado globalizado e como produto aliciante da indústria turística.

    Exemplo disso é o empreendimento já desenvolvido pela empresa Be-Coimbra que, através do discurso de revitalização e recuperação da Baixa de Coimbra, está a dinamizar um negócio lucrativo através da construção de hostels para estudantes do programa Erasmus e turistas, em casas antigas e onde cada quarto custa, no mínimo, 250 euros por mês. Apesar de defenderem que estão a impedir a desertificação desta zona, tal constitui uma falácia pois as pessoas que residem nestes hostels permanecem por espaços de tempo reduzidos, não estabelecendo laços com a cidade. Outra agravante é o aumento exponencial das rendas provocado, quer pela “Nova Lei do Arrendamento” que legalmente o legitima, quer pela especulação imobiliária cada vez maior. Algumas casas reabilitadas e recuperadas na zona da Alta e da Baixa têm rendas que podem ascender aos 1000 euros. Este processo em nada vem favorecer as populações locais abrangidas na área de protecção, pois não são estas o alvo de preocupação, mas sim os edifícios e monumentos, bem como a proliferação do mercado turístico, transformando esta área num espaço de exibição turística e monumental.

    As populações da Alta e Baixa, constituídas maioritariamente por grupos socioeconómicos empobrecidos a viverem em prédios degradados, estão ameaçadas de despejo e deslocação devido à especulação imobiliária fruto do processo de patrimonialização que, aliado à “Nova Lei do arrendamento”, se vai “responsabilizar” pela reconstrução dos edifícios que serão transformados em habitações de luxo com rendas incomportáveis, o que tornará inviável o retorno das pessoas para as suas casas. Tal significa que aquilo que poderá ser chamado de património cultural – as comunidades sócio-culturais presentes na Alta e Baixa – irá ser totalmente descaracterizado, ou melhor, poderá desaparecer. Esta é uma situação que se verifica também noutros centros históricos como Lisboa, Porto e Guimarães e em várias cidades da Europa. Não podemos ficar indiferentes já que alguns e algumas de nós fazemos parte destas comunidades e devemos ter consciência e tomar parte activa na defesa das mesmas.

    história da Alta de Coimbra mostra-nos um processo similar que teve lugar na época da ditadura salazarista, aquando da remodelação e construção de novos edifícios da universidade, sob pressupostos arquitectónicos fascistas. Nesse período assistiu-se à destruição de grande parte da Alta, várias habitações foram demolidas, incluindo Repúblicas, o que obrigou à deslocação das/os moradoras/es para outras zonas da cidade, nomeadamente para o Bairro de Celas. A UC sobrepôs-se, assim, às pessoas e à cidade como instituição e símbolo do poder. Impondo a sua presença, procedeu ao apagamento e extinção de comunidades sitas nesta área.

    Actualmente, assisti-se a um processo semelhante que se mascara sob propósitos de protecção e salvaguarda patrimonial e sob a distinção de património mundial, mas que na verdade vai dar início, mais uma vez, à imposição arquitectónica e cultural da universidade sobre a cidade e a um processo de gentrificação.

    Tudo isto vai beneficiar unicamente os grandes lobbys económicos, e não a população de Coimbra ou a comunidade estudantil, pois a UC vai-se dedicar a uma remodelação arquitectónica encaminhando os dinheiros de futuros subsídios da UNESCO, da União Europeia ou da UC para este fim, secundarizando o papel fundamental de uma suposta universidade pública, que deveria ser um espaço de livre de acesso ao conhecimento e não uma fundação privada preocupada apenas com a estetização dos seus edifícios e com a dinamização de actividades turísticas.

    Outra questão preocupante é o facto da praxe académica estar também a ser candidatada a património mundial, definida enquanto “cultura académica estudantil”. Como se a praxe, ao longo da história da universidade, fosse uma prática generalizada e consensual e como se todas/os as/os estudantes praticassem a praxe ou com ela se identifiquem. A praxe ensina a mandar e a obedecer, através da tortura e da violência seja ela verbal ou física. Ora, a questão coloca-se: como é possível, não de todo concordando com as políticas e definições de património e cultura da UNESCO, classificar a praxe académica como património mundial?

    Esta é apenas uma pequena reflexão sobre as implicações do processo de patrimonialização protagonizado pela UC. As vozes críticas e dissonantes estão silenciadas e, aparentemente, parece haver uma concordância generalizada por parte da população de Coimbra. Contudo, esta situação comporta uma série de questões e consequências nefastas para a cidade e para as pessoas que nela vivem e por ela passam, que é urgente debater, visibilizar e intervir.

  • Hegemonia na cidade e seus descontentes

    Hegemonia na cidade e seus descontentes

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    Este texto tenta produzir, de forma simplificada, uma visão sobre determinado momento histórico da construção de Lisboa e seus descontentes. Uma realidade complexa para a qual os seus interessados devem atender a mais profundas pesquisas. Assim, apresentam-se os termos seguintes como um guia de exploração, mas que não esconde a indissociabilidade entre diversas hegemonias e a construção de cidade.
    Os processos aglutinadores de transformação das cidades adquirem denominações como Renovação ou Reabilitação urbana. A primeira, mais forçada, implica a destruição total do tecido e funções existentes; a segunda é adaptada às mutações do conceito de “património”, mais espaçada no tempo e, tendencialmente, cada vez mais a cargo do mercado imobiliário.

    1. Haussmann e as Barricadas

    Em tempos da modernidade, o movimento de Renovação Urbana foi bastante relatado e discutido em função do plano de Haussmann para o centro de Paris, com início em 1853, tendo durado quase até ao fim do século XIX[ref]O plano estava incorporado nas denominadas Reformas do Segundo  império. Haussmann, enquanto prefect du Seine dieigiu o plano de Paris entre 1853-1870.[/ref]. Napoleão III, influenciado pelas ideias de Saint-Simon, comissariou o plano com intenções de garantir salubridade e higiene aos habitantes de Paris, cuja forma urbana era ainda medieval. Porém, em apresentação pública e oficial, Haussmann congratulava-se das condições de manutenção da ordem pública que o plano oferecia. Para o diretor do projecto, o fim dos becos e curvas medievais enterraria de vez a Paris das “barricadas” e permitiria a livre circulação de tropas[ref]Como escreveu Walter benjamin já no século XX: Il voulait rendre impossible à tout jamais la construction de barricades dans les rues de Paris. (benjamin: 2013).[/ref]. A Comuna de Paris em 1871 viria a provar a adaptação dos revolucionários à nova forma urbana, enquanto Haussmann, já sem funções executivas, se queixaria do atraso nas reformas urbanas.

    A principal externalidade do plano de Haussmann é a tomada da cidade por uma nova classe social, a burguesia. Novos edifícios, avenidas largas, a instalação de galerias e montras. Esse novo centro, órfão das populações mais pobres entretanto condenadas a viver nos arrondissements, encontra eco nas descrições de Baudelaire sobre as experiências sensoriais da nova cidade, um tema continuado por Benjamin e Simmel num percurso que se traduz mais tarde na inevitabilidade de uma sociologia urbana. O flaneur[ref]Expressão empregada por Walter Benjamin a partir da poesia de  baudelaire, referindo-se ao viajante urbano da Paris reformada por Haussmann no século XIX.][/ref] de Baudelaire era eminentemente burguês, e da época estamos despejados do relato da mulher ou do habitante dos arrondissements. Haveria flaneur nestes últimos casos?

     

    2. A Baixa Pombalina

    Cem anos antes do Plano de Haussmann (e do Plan de Cerdà[ref]Plano do Engenheiro  ildefon Cedrá para a reforma urbana de barcelona, 1860.[/ref] pioneira em grandes movimentos de renovação urbana. Mais do que uma visão genuína de alteração de regime urbano e social, foi o terramoto de 1755 que conduziu, ao seu tempo, a alterações consideráveis na cidade.

    Em plena época de conturbações filosóficas pela ascensão do Iluminismo, o terramoto de Lisboa motivou discussões no meio intelectual europeu, de Voltaire a Rosseau. Aos que apregoaram a maldição do terramoto como destino de um certo modo de vida, entre eles alguns clérigos, reservou-lhes o Marquês a execução sumária.

    Em Lisboa, o Marquês não deixou de aproveitar o plano encomendado a Manuel da Maia para fazer emergir a nova classe social burguesa. Foram os comerciantes e financeiros que pagaram a reconstrução da Baixa Pombalina a partir de uma taxa de 4% sobre as transações internacionais, medida fiscal a imperar durante o tempo necessário à reconstrução da cidade. Os palácios Joaninos da nobreza no centro da cidade cederam ao abalo sísmico, e a reconstrução deste tipo de edifícios passou  a estar interdita em toda a área do plano. O novo espaço da aristocracia ficava para além do Bairro Alto: Lapa, Campolide e  Campo de Ourique, áreas da cidade poupadas ao terramoto e, por isso, do agrado da nobreza.

    O centro de poder de Lisboa alterava-se  profundamente. A edificação de igrejas não devia ser destacada, mas sim incluída no traço arquitectónico do Plano[ref]Repare-se, a título de exemplo a  igreja de São Nicolau.[/ref].  O Terreiro do Paço[ref]O palácio Real seria construído fora da área do Plano da baixa Pombalina.[/ref], porta da cidade para o rio e até então símbolo do poder régio, acolheria o senado e serviços municipais, alterando o seu nome para Praça do Comércio, homenageando a importância da «classe» na reconstrução. Por fim, a escolha do tipo de edifício, com quatro pisos mais águas furtadas, fora pensado para promover ganhos financeiros com o arrendamento. Os andares inferiores reservados para a membros da burguesia, e sucessivamente até às águas furtadas para alugueres a assalariados de classes mais baixas.

    O profundo investimento financeiro na reconstrução da Baixa Pombalina impediu a extensão do plano para as áreas de Lisboa hoje consideradas como «bairros históricos».

     

    3. Do plano de Ressano Garcia à abertura da Almirante Reis

    Os grandes planos urbanos apenas retomariam a cidade de Lisboa no fim do século XIX, início do Século XX. Influenciado pela estética da Paris de Haussmann, Ressano Garcia, enquanto chefe da repartição técnica da Câmara de Lisboa, pretendia o avanço da cidade para Norte a partir dos vales da Avenida e Intendente. Ainda no século XIX, Ressano Garcia promovia a projecção e inauguração da Avenida da Liberdade e da Avenida das Picoas até ao Campo Grande. Contudo, o Plano Geral de Melhoramentos da Capital apenas seria consubstanciado em 1903, contemplando o alargamento a Norte, Este (estrada de Sacavém/Morais Soares) e Oeste (São Sebastião/Campolide), criando as denominadas «Avenidas Novas».

    A opção de crescimento para Norte, coincidia com a vontade de Ressano Garcia de atribuir a Lisboa uma condição metropolitana. Essa vontade fez com que contornasse a questão dos bairros populares, não intervencionados (ou sujeitos a uma demolição completa), adicionando-se as questões financeiras.

    Contudo, a partir da disponibilidade para profundas alterações na cidade de Lisboa, muitos se posicionaram pela destruição da Mouraria e Alfama. Prezart, antecessor de Ressano Garcia proporia a sua destruição em 1858. Com a emergência das ideias republicanas, os reptos para a destruição desses bairros aumentaria. Angelina Vidal e Fialho de Almeida foram signatários dessa vontade. O segundo, filiado nas ideias socialistas utópicas, diria que uma cidade «Republicana e Proletária» deveria substituir esses bairros por habitações novas e dignas contra a “ganância” dos proprietários.

    A consumação do Plano Geral de Melhoramentos da Capital continuaria nas primeiras décadas do século XX, posteriormente à morte de Ressano Garcia (1911), implicando a expropriação de quintas e a expulsão da comunidade cigana acampada em áreas a edificar.

    No início da década de trinta, com o fundamento de ligar a Av. Almirante Reis ao Rossio, e providos de teorias higienistas de um “urbanismo civilizador” (Menezes: 2008), destrói-se parte da Mouraria e o mercado da Praça da Figueira, do qual boa parte da população do bairro dependia economicamente. Com o movimento, esse bairro da cidade perdeu no mínimo cinco mil habitantes[ref]Na década 1930-40, a freguesia do Socorro perde cerca de três mil quinhentos habitantes e a de S. Cristovão/São Lourenço mil e quinhentos. Recenseamentos gerais da população Socorro: 1900: 10058 habitantes, 2001: 2675 habitantes; São Cristovão e São Lourenços 1900: 5815 habitantes, 2001: 1615 habitantes.[/ref]. As demolições deram lugar a um novo lugar na cidade: Martim Moniz, uma toponímia que honrava uma personagem mítica da conquista cristã da cidade de Lisboa, e por isso “(…) bastante conveniente à ideologia do Estado Novo, regime autoritário para quem a apropriação dos espaços públicos era um instrumento de política cultural.” (Menezes: 2008, p. 307). Para esse lugar, pretendia o engenheiro Duarte Pacheco uma praça, o que só veio a acontecer cinquenta anos mais tarde.

     

    4. Fazer periferia

    Como referido, o Plano Geral de Melhoramentos da Capital estendeu a cidade de Lisboa até Campolide (Oeste), Praça Paiva Couceiro (Este) e Campo Grande (Norte). Foi à volta e a partir destas localizações que, na década de 50 do século XX, se estabeleceram vários núcleos de bairros abarracados. O êxodo rural para Lisboa forneceria os moradores desses bairros, mas também as intempéries[ref]Como as cheias de Novembro de 1967 e aluimentos de terras.[/ref] planos de urbanização de outras áreas da cidade.

    Desses planos, aqueles que originaram mais movimentos de população foram a ampliação do aeroporto da Portela[ref]O Aeroporto da Portela foi inaugurado em 1942. Em 1962 abriu-se uma nova pista.[/ref] construção da ponte sobre o Tejo. A ponte Salazar obrigou à remoção de milhares de habitantes do Vale de Alcântara. Sob coacção da polícia, tinham a opção de sair “voluntariamente”, beneficiando da reutilização do entulho das demolições para a construção de novas habitações em locais definidos pela Câmara Municipal. Aos moradores pouco cooperantes não restavam outras opções.

    As destruições no Vale de Alcântara fizeram emergir, então, bairros de génese ilegal em locais opostos na cidade, como o do Relógio e Musgueira Norte, em autênticas operações de promoção pública: delimitação de áreas geográficas, marcação de lotes, cobrança de taxas de ocupação de terrenos e cedência/venda de materiais.

    O combate à pobreza e a habitação digna estavam longe de ser as prioridades da política fascista em vigor, e por isso não havia pejo algum em organizar a miséria, até para salvaguardar a cidade privilegiada.

    Entre a segunda metade da década de 70 e a primeira metade da década de 80 do século XX, centenas de milhares de retornados e cidadãos de países africanos de língua oficial portuguesa emigraram para Portugal Continental, em especial para Lisboa. A falta de condições de acolhimento originou o levantamento de novos bairros de génese ilegal, que se foram situar outra vez nas extremidades da cidade, nas suas novas fronteiras e, por isso, já fora do concelho de Lisboa: Amadora, Oeiras, Cascais, Loures, Margem Sul; aproveitando áreas administrativamente disputadas entre concelhos e o desuso de alguns terrenos para os fins a que estavam propostos (como nas Estradas Militares).

    Foi também por essa altura que surgiram as primeiras tentativas de organização colectiva para a promoção da habitação, nomeadamente através das operações SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local[ref]O SAAL foi um diploma assinado em Junho de 1974 pelo então Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo Nuno Portas.[/ref]), fundação de cooperativas, ocupações de casas; movimentos emancipatórios e de aprendizagem, escassas para as necessidades da Grande Lisboa até porque, pouco depois, o 25 de Novembro traria inflexões ideológicas com consequências nas políticas de habitação. Dominado pelos interesses corporativos do sector da construção civil, a política de habitação passou a privilegiar o mercado livre, direccionou-se para as “famílias” e “pessoas” e ao seu financiamento junto da banca.

    A paisagem urbana da Grande Lisboa continuou praticamente inalterada até perto do fim século XX. Os bairros de génese ilegal de habitabilidade precária eram uma constante nos passeios pela cidade, pelos Vales de Alcântara e de Chelas, ao longo das linhas de comboio de Sintra e Cascais, na margem sul e até o Estádio de Alvalade era vizinho de um bairro de nome homónimo.

    A entrada de Portugal na União Europeia e a disponibilidade dos fundos estruturais conduziu à expansão do mercado imobiliário. Mais do que corresponder a uma demanda do artigo 65 da constituição[ref]Artigo 65 da Constituição da República Portuguesa: todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar (…).[/ref], o Plano Especial de Realojamento (PER) foi uma resposta proporcional às necessidades do mercado e sua expansão: valorização da orla costeira de Cascais, Expo 98, Ponte Vasco da Gama, auto-estradas ou libertação de áreas centrais como a de Algés. Para a concretização dos realojamentos, os municípios beneficiaram de um duplo financiamento: por um lado o dinheiro cedido pela União Europeia ao abrigo do qual se criou o programa PER; por outro, a exploração imobiliária dos terrenos libertados.

    A política de realojamento incentivada pelo PER situou-se entre o fim da década de 90 e inícios do século XXI, embora o programa ainda esteja para cumprir na totalidade[ref]Questões políticas, imobiliárias e fundiárias permitem a continuação da existência de diversos bairros de génese ilegal precários. A titulo de exemplo:trafaria, Santa marta (Corroios), bairro 6 de maio (Amadora), Reboleira (Amadora), Quinta da Lage (Amadora), Jamaica (fogueteiro), Quinta da Serra, bairro do Rato (Laranjeiro), Santa filomena (Amadora).[/ref]. A sua implementação conduziu verdadeiramente a uma periferização da Grande Lisboa, deslocando milhares de pessoas para locais ermos, longe dos seus empregos, deficitários em transportes, sem actividade económica. Achou-se que o acesso a uma habitação digna resolveria os problemas da pobreza mas, mesmo do ponto de vista democrático, os direitos só se efectivam quando são pontos da extremidade de Lisboa, (e é só escolher), ocupam-se garantidos na totalidade e correlacionados entre si.

    O realojamento não provocou grandes focos de resistência. Uma residência digna constituía uma realização pessoal para a grande maioria dos moradores dos bairros de génese ilegal, mesmo que não previssem a contínua “estética da falta”. Alguns actuaram mesmo de forma isolada, como o músico Pascoal Silva no bairro da Pedreira dos Húngaros, que chegou a cercar a sua casa com bulldozers e tractores alugados de modo a que a Câmara de Oeiras não a conseguisse demolir. No fim conseguiu exercer o Usocapião, recebeu uma indemnização e escolheu onde quis viver. Momentos mais colectivos de resistência ao realojamento aconteceram em situações que não garantiam habitação a todos os moradores[ref] Veja-se os casos da Azinhaga dos besouros e das marianas.[/ref].

     

    5. E agora?

    Criámos novas noções de património, que nos permitiu desistir da ideia de destruir os bairros históricos. Reabilitar o centro da cidade é um conceito amigável, de largo consenso, mas a sua aplicação obriga a alterações estruturais. Um edifício reabilitado num bairro como a Mouraria ou Alfama é reduzido a pelo menos metade da sua ocupação original. Edifícios construídos a pensar nos pobres não animam o mercado pelas condições de insalubridade e tipologias pequenas que apresentam. Por isso, num contexto de mercado, a sua reabilitação normalmente representa alterações na ocupação residencial, de classe e estatuto social.

    O poder público assume a função de animação territorial, requalificando o espaço público e garantindo as condições para o exercício cultural e artístico, num conjunto de acções que deriva em alterações nas funções comerciais e usos do espaço público. Primeiro aparecem os visitantes, depois os novos residentes.

    Estes processos normalmente deixam de fora dos processos de decisão (deliberativos e consultivos) aqueles que habitam e vivem as casas e os espaços comuns desses locais, a não ser que sejam meros figurantes na elevação a marca de ritos, credos e tradições. Interessa o fado mas não o fadista, a marcha mas não o marchante, o tandoori mas não o comerciante.

    Enquanto isso, na periferia, destroem-se bairros “ilegais” sem direito a realojamento e promove-se a extradição para Cabo Verde de amadorenses. Noutros pontos da extremidade de Lisboa, (e é só escolher), ocupam-se casas em bairros sociais, cessa-se de pagar rendas e crescem novos focos de génese ilegal. Nas ruas, aumenta o número de quem as vive horizontalmente.

    Uma cidade cada vez mais de descontentes.

    Cidade e cidadania, são historicamente conceitos indissociáveis e o grande desafio das cidades globais de hoje, como Lisboa, é perceber como se dissociaram e como se faz cidade a partir daí.

     

     

  • Os tentáculos da secil

    Os tentáculos da secil

    O êxito de um empreendedor ambicioso começa por ter capital para investir. Precisamos de uma boa ideia, com procura, futuro e a partir daí estuda-se como obter um produto da maneira mais rentável possível.Suponhamos que a maneira mais rentável seria que nós mesmos fabricássemos esse produto em vez de o comprar a terceiros. Que precisamos agora? De um bom local para fabricar esse produto, da matéria prima que vem da natureza para ser transformada, da energia necessária para essa transformação, que pode ser humana e/ou mecânica e que por sua vez necessita de outra matéria prima para funcionar.

    Um bom exemplo de uma empresa de alta rentabilidade é a empresa Secil, do Grupo Semapa, que se dedica à produção de cimento, o material mais consumido pelo homem depois da água. As suas fábricas encontram-se junto a pedreiras de onde se extrai a sua matéria prima: o calcário e a argila. Para esta extracção procede-se à dinamitação de lugares de pouco interesse, tais como Serras e Bosques… Uma vez extraída, a argila é transformada em Clínquer (o principal componente do cimento) por meio de fornos de altas temperaturas onde também se co-incineram vários tipos de combustível que, em parte, são biomassa produzida por outras empresas do mesmo grupo da Secil e, em parte, resíduos perigosos recuperados de outras indústrias. A co-incineração de resíduos perigosos é um serviço pago e, deste modo, não é preciso investir em energia resultando isto num aumento dos rendimentos do grupo económico..

    Assim, temos uma empresa bem sucedida que de facto tem um ritmo constante de expansão e crescimento que custa a acompanhar. O seu desenvolvimento foi tão rápido que em poucos anos conseguiram absorver várias outras empresas, eliminando a concorrência e quase monopolizando a sua área de actividade. Para além de Portugal, onde conta com várias fábricas e entrepostos, continua a sua expansão além fronteiras.

    Mas existe um reverso da moeda e surgiram alguns problemas. Em Setúbal, a população que parecia já descontente com a presença das pedreiras na serra da Arrábida reagiu imediatamente contra a instalação da co-incineração com protestos, manifestações e campanhas – talvez porque não queriam aceitar a ideia de viver debaixo de uma nuvem de furanos e dioxinas, altamente cancerígenos e prejudiciais para a saúde.

    A consequência desta reacção traduz-se na perda de tempo, e portanto de dinheiro, assim como numa péssima reputação para esta empresa. A solução é fácil e a Secil pinta-se de verde: contratam-se uns técnicos de marketing, uns engenheiros e psicólogos do ambiente e prepara-se uma campanha de desenvolvimento sustentável fazendo crer as pessoas que esta empresa é fundamental para o desenvolvimento da região. Como? Fazendo alguns amigos,

    patrocinando as associações locais e exigindo a visibilidade do emblema. Evitando que a destruição provocada pelo desenvolvimento não se veja da praia. Repovoando parte das pedreiras com plantas autóctones e situando bem visíveis ao lado da estrada os viveiros, bem assinalados, onde estas são cultivadas. Contratando empresas de estudos de impacto social e criando empresas de controlo da qualidade do ar que confirmem os valores mínimos permitidos não deixando muita margem para as dúvidas sobre os riscos da co-incineração.Nada disto teria sido possível sem o imprescindível apoio e simpatia dos serviços prestados pelos meios de comunicação locais, dos favores dos tribunais e do governo, com especial agradecimento ao Ministério do Ambiente. Parece certamente que a Secil até faz um favor à Serra e aos cidadãos.

    A Secil quer fazer acreditar que o desenvolvimento económico, enquanto gerador de riqueza, é sempre compatível com o respeito pelo património ambiental do planeta. Como se a natureza se renovasse ao mesmo ritmo da sua destruição. Como se fosse possível prolongar até ao infinito os actuais níveis de desenvolvimento/produção. Como se o consumo dos recursos naturais, proporcional ao desenvolvimento económico, pudesse ser sustentável para gerações futuras.

    A ideia de progresso e desenvolvimento económico, tão cara às sociedades modernas, implica um total ordenamento do território que investe na escravatura da terra com vista à produção de riqueza para o homem. Aquelas restantes e isoladas ‘zonas verdes’ são denominadas parques, ou “parque natural”, para ser exploradas por outros sectores como o turismo, por exemplo. Este modo de vida tornou todos os lugares numa uma grande fábrica. Quer queiramos quer não dela fazemos todos parte, uns como directores outros como arquitectos e outros ainda como peões. Negoceia-se a exploração e dependência do trabalho sob o mote da prosperidade, qualidade de vida e abundância. No final, a maioria apenas trabalha para mal viver. Para continuar a funcionar, esta grande fábrica precisa tanto da mentalidade capitalista do desenvolvimento económico como daquela verde alternativa da esquerda, ou daqueles que a pretendam aperfeiçoar ou melhorar.

    Não será nunca a politica que acabará com a exploração do homem e da terra. É uma boa questão o modo como cada um de nós poderia, à sua maneira, recuperar a sua autonomia e libertar-nos desta sucata.

     
  • O Poder a Olho Nú

    O Poder a Olho Nú

    No Terreiro do Paço é bizarra a vista que se tem. Vemos o edifício que nos envolve, outrora paço real e símbolo em diferentes épocas do Poder em Portugal (ainda hoje restam alguns ministérios), povoado de esplanadas e de análogos serviços turísticos. Antes de mais nada, tudo pelo Crescimento. A classe política há muito que aposta na “economia de serviços”, como a solução para Portugal. A indústria turística assegura os lazeres dos trabalhadores do mundo inteiro, desejando multiplicar o emprego. Embora o resultado seja: por um lado, como já o sentimos, o que cresce aqui é o desemprego, por outro, aumenta a devastação do território por via da construção de hotéis, resorts, campos de golfe, auto-estradas…
    Em todas as épocas o Poder dominante sempre apresentou sinais que se podem ver a olho nú. Nos séculos de domínio religioso «um manto branco de igrejas», catedrais e capelas cobriu os quatro cantos do Mundo e foram para esses tempos os edifícios que mais impressionaram. Com o aparecimento da indústria e dos Estados-nações foram sendo construídos (plantados como eucaliptos) ao longo dos anos edifícios administrativos, escolas, fábricas nacionais, regionais, locais, vilas operárias…
    Hoje, na baixa de Lisboa os pequenos comércios fecham as portas. Como antes desapareceram os sapateiros, tanoeiros, cordoeiros, ourives, ofícios que deram o nome a ruas e travessas. O desenvolvimento do progresso, obriga. E se um dia a cidade se atrasa, é preciso demolir. É imperativo que os arquitectos “criem” e que a Economia viva. Ao lado da sede do Município lisboeta, uma antiga igreja foi convertida em museu do Banco de Portugal. A fachada foi mantida, o interior alterado. Por toda a cidade uma ocupação mais subtil dos lugares opera-se através do mantimento da fachada, a única que é legalmente protegida, mesmo que todo o interior seja arrasado a fim de construir escritórios, parques de estacionamento, hotéis, apartamentos, museus….
    Enquanto as necessidades reais são ignoradas, a publicidade e outras formas de pressão social impõem à população toda a espécie de utensílios. Por isso, logo que nos aproximamos da cidade somos acolhidos por uma muralha de reclames coloridos, flamantes, agressivos. Há cerca de trinta anos que se anda a construir às portas das cidades gigantescos espaços comerciais. Assim, o centro das cidades foi progressivamente esvaziado de habitantes, de comerciantes e do formigueiro social que o acompanhava. Se na «idade média», como em outras épocas, as portas fortificadas demarcavam a cidade, hoje o seu limite são as zonas comerciais-industriais. A cidade apresenta-se rodeada por um bastião periférico representando o mesmo que as antigas fortificações representavam.
    O centro da cidade é assim um museu para os turistas visitarem, uma galeria de bares onde se compra o «tempo livre», onde nos empregamos no entretenimento, especialmente ao fim de semana. As pessoas desaparecem argamassadas pela massa feita de produtos e de lixos industriais, esmagadas numa avalanche de ruídos, imagens, de dirigentes políticos e de leis.

  • Esquilos terroristas e um rato que ameaça o mundo

    Esquilos terroristas e um rato que ameaça o mundo

    esquilos

    Há dois anos atrás no sul da região de Swindon (Sul), Grã Bretanha, a polícia procurou os terroristas que tinham sabotado os travões de sete viaturas e cortado os cabos de telefone. Os polícias chegaram mesmo a lançar um apelo a eventuais tes- temunhas e reforçaram as patrulhas para conseguir encontrar os culpados da destruição que começou a perturbar a vida local. Todavia, após um estudo detalhado aos cabos cortados, a polícia chegou à conclusão que os terroristas eram simplesmente os esquilos.

    Agora, em Março deste ano, um rato esteve na origem de um curto-circuito que provocou uma avaria na distribuição de elec- tricidade em parte dos sistemas de refrigeração da central nuclear de Fukushima. «Durante cerca de trinta horas os sistemas de refrigeração dos reactores 1, 3 e 4 estiveram parados». Nas piscinas de arrefecimento estão mergulhadas toneladas de combustível usado. «A disseminação na atmofesra de 264 toneladas de combustíveis nucleares – afirmou o fisíco francês J-L-Basdevant – pode conduzir à evacuação (teórica) do hemisfério Norte. Mais precisamente ao fim do mundo». Vejam bem o que um simples rato pode fazer ao sofisticado aparato Técnico…

  • Banalizar a irradiação e a contaminação nuclear em Fukushima

    Banalizar a irradiação e a contaminação nuclear em Fukushima

    Oficialmente a dose radioactiva que um ser-humano pode receber é de 1 milisievert por ano, independentemente do ponto geográfico onde se encontre ou da profissão que exerça. Já aqueles que ficam por razões profissionais expostos às radiações podem receber por ano até 220 milisievert. Estes últimos perten-
    cem à classe de trabalhadores do nuclear.

    No Japão, depois da catástrofe em 11 de março de 2011 – vinte e cinco anos depois da catástrofe de Tchernobyl, abril de 1986 – todos os habitantes da região de Fukushima passaram a pertencer à
    classe de «trabalhadores do nuclear». No entanto, as autoridades encarregues da «restauração de Fu- kushima» declararam que o seu objectivo é alcançar o retorno a 1 milisievert. Não se sabe bem é quando!

    Este proclamado objectivo serve para banalizar a forte dose diária a que os habitantes estão sujeitos. Banalizar também a existência da central nuclear, que não pode funcionar sem irradiar e contaminar não somente os que estão encarregues da sua manutenção, como também todas as pessoas e toda a vida da região.