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  • Jantar de apoio ao Jornal Mapa

    Jantar de apoio ao Jornal Mapa

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    Sexta-Feira, 13 de Setembro, 20:00h no Recreativo Dos Anjos, em Lisboa
    Rua Regueirão dos Anjos, nº69

    – Jantar, música, jogo do Bingo, números anteriores para distribuição, assinaturas, bancas de informação

  • Festival Praga: 3, 4, 5 de Outubro na Figueira da Foz

    Festival Praga: 3, 4, 5 de Outubro na Figueira da Foz

    PRAGA é um fanzine
    é um colectivo
    é um mini-festival
    é um espaço fisico, metafísico…
    é de todos e para TODOS!…

    PRAGA é PRAGA!
    3, 4 e 5 de OUTUBRO 2013 – Figueira da Foz

    festivalPraga

    mais info aqui

  • Prédios da Almirante Reis em Lisboa recebem grades de (in)segurança

    Prédios da Almirante Reis em Lisboa recebem grades de (in)segurança

    Na Avenida Almirante reis, em lisboa, o recente fenómeno, de fechar as entradas dos prédios através de gradeamentos tem aumentado nos últimos tempos. A instalação de grades tem sido levada a cabo por empresas que têm escritórios nos edifícios e, em certos casos, chegam a ocupar a totalidade das fachadas viradas para a avenida. Uma lógica securitária está tambem na origem deste fenómeno que não é consensual na zona.

    Alguns dos prédios que ladeiam a Avenida Almirante Reis em Lisboa, entre o final da Rua da Palma até à Praça do Chile, têm sido alvo de clausura forçada por parte de algumas das empresas que possuem escritórios nessa área. Nos prédios em que desenvolvem as suas actividades têm sido colocados gradeamentos que chegam a ocupar a totalidade da área disponivel das fachadas frontais para a Avenida, numa mudança que em termos de impacto visual é imediatamente notório. Essas alterações têm sido feitas com a concordância dos senhorios e nem sempre com a concordância de todos os moradores, já que muitos dos prédios, apesar de terem escritórios, têm igualmente casas de habitação e espaços comerciais (maioritariamente nos pisos térreos defronte do gradeamento).

    Alguns moradores, como a Ana (nome fictício), 65 anos, mora ali desde os anos 60, não gosta das fachadas fechadas a grades, “uma pessoa sai e vê logo o sol aos quadradinhos (ri)”, mas o “proprietário é que manda e uma pessoa vai fazer o quê?”. António (nome fictício) trabalha no ramo do calçado na zona dos Anjos em Lisboa desde os anos 50. Começou numa pequena sapataria em que trabalhou até aos anos 70 e posteriormente mudou-se para uma das poucas de cariz tradicional que ainda restam nessa mesma área. António também tem assistido a muitas mudanças ocorridas nas zonas limitrofes à avenida. Desde os tempos do cinema Lis, que trazia “muita gente das novelas” (posteriormente ao fecho do cinema o prédio pertenceu à RTP e era palco de filmagens), ao desparecimento de muitas das “casas antigas” (referindo-se às actividades tradicionais de trabalho), ao aparecimento das “casas de chineses” e ao aumento de toxicodependentes, até à mudança do presidente da câmara António Costa para a zona, muito tem mudado na sua representação do espaço urbano.

    Questionado sobre a segurança/ insegurança da zona nos dias de hoje, António afirma que “a zona tem estado sossegada” e “não se sente inseguro” por aqui trabalhar, à noite “não sabe como é”, porque não mora em Lisboa, mas, apesar de chegar ao trabalho muito cedo, raramente tem noticia de que algo se tenha passado “por aí além”, daí não considerar a zona insegura: nas suas palavras, “é o que sempre foi”, e apenas o “fecho do casal ventoso trouxe os toxicodependentes”. Representações da mudança que são sobretudo morais. Quanto às grades afirma que “são porque os prédios têm lá empresas… seguradoras” e eles é que “andam a colocar as grades”, mas não sabe bem porquê, se calhar “porque andam a construir muito hotéis e andam sempre sem-abrigo a dormir debaixo dos prédios”. A outra face da opinião foi dada por Luís (nome fictício), morador no Intendente desde os anos 60, questionado sobre os gradeamentos afirma que “deviam ser todos fechados”, já que “esta zona é só ladroagem e gandulos” e uma “tristeza para os turistas que têm que mamar com isto tudo”. À pergunta se alguma vez foi assaltado ou teve problemas com os “gandulos e ladrões” afirma, “ah…não, porque eu já os conheço e eles conhecem-me e sabem que eu moro aqui”. Interessante esta relação entre proximidade e reconhecimento, elementos importantes numa relação recíproca de comunidade.

    Estas mudanças no estilo arquitectónico impõem limitações no espaço e na forma como nos apropriamos do mesmo. Um espaço fechado que nem permite que nos abriguemos do sol ou da chuva, independentemente de termos uma casa para morar, oferece uma relação totalmente diferente com um espaço já de si organizado para uma determinada dinâmica social e económica. Este fecho a grades das fachadas dos prédios, independentemente da validação legal das mesmas, impõe uma lógica securitária que nem sempre cumpre os seus objectivos, mas que cria uma legitimação social para as representações do medo que em tempos de agravamento das condições de vida das pessoas é importante na sua forma de organizar o espaço em que vivem. Um exemplo. As alterações propostas[ref]DR, 2ª Série, nº 168 de 30 Agosto 2012 que propõe alterações ao DR, 2ª Série, nº 239 de 15 Outubro de 1997 que regulamenta o PUNHM.[/ref] ao PUNHM (Plano de Urbanização do Núcleo Histórico da Mouraria) recentemente aprovadas, são um bom exemplo de algumas lógicas de alteração urbanística que introduzem mudanças significativas na relação das pessoas com a malha arquitectónica e com o espaço naquela zona. Interessante de referir que a audiência pública no dia 17 de Maio de 2012 para a discussão do plano teve a presença de 7 pessoas. Se esse facto se irá traduzir na discordância, no desinteresse politico e social  pelo tema, que possa posteriormente traduzir-se noutro tipo de acções locais, é o que iremos ver.

    O próprio objectivo das alterações é seco e contudente, “disciplinar a ocupação, uso e transformação do solo” (p.1). De referir que estas alterações contemplam igualmente zonas junto à Avenida Almirante Reis, que é aqui o nosso foco, mas em que o conceito de historicidade é remetido para o conjunto arquitectónico de finais do séc. XVIII e não propriamente para o conjunto de prédios mais recentes, justamente aqueles em que os gradeamentos têm tomado lugar. De qualquer forma, em termos gerais, o que se propõe é tornar a Mouraria num museu urbano, procurando delimitar no espaço as caracteristicas politico-administrativas-arquitectónicas do que a política define como histórico.

    Se a historicidade humana se deve à capacidade de cada um em ser agente da sua própria história, isso de pouco importa. O importante é delimitar territorialmente as pretensões de alteração pelas pessoas do espaço em que vivem e moldá-lo aos planos politicos e económicos de urbanização forçada. Até o aparecimento de novos estabelecimentos, a título de exemplo, cafés ou restaurantes, é limitada (claro que acredito que a um determinado padrão económico), e se pensarmos que recentemente reabriu a casa da Severa (fadista) como espaço museológico e de restauração de pendor turistico, temos uma imagem mais abrangente dessa alteração legal.

    Prédios a serem renovados têm que obedecer a certos padrões que se adaptem não às classes sociais que agora lá residem, mas sim às classes que procuram avidamente estas “zonas históricas”, permitindo a sua acomodação. Veremos se com grades nas fachadas. Mas ainda teremos que juntar a esta questão das representações da segurança, as constantes rusgas policiais por parte da PSP e do SEF naquela zona, fazendo parar o trânsito, revistando lojas de imigrantes, interrogando-os na rua em operações que roçam o espectáculo com o propósito de criar o medo e, justamente, a insegurança de quem bastas vezes anda simplesmente a fazer pela vida. Levar comida que alguns imigrantes vendem na rua com um ameaçador “se te apanho aqui outra vez vais para a choldra”, é não saber sequer o que se entende por relativismo cultural. Se o objectivo é demonstrar força e músculo, o que também sucede é uma sensação de abuso de poder que se traduz num sentimento de insegurança para muita gente.

    A reabilitação de um prédio no início da Rua da Palma para instalar uma divisão criminal da PSP também compõe o ramalhete das formas como as estruturas de poder se organizam para a mudança forçada do espaço em torno das ideias mais básicas de segurança e das lógicas económicas subjacentes. Se liberdade e segurança podem ser consideradas como importantes para o desenvolvimento e reprodução das relações humanas, importa questionar quais são os limites à nossa liberdade que um aumento ou diminuição da segurança implica e qual a relação efectiva entre estes dois conceitos na acção política e económica do Estado e dos agentes económicos. Se a instalação de grades por parte de umas quantas empresas leva a enclausurar prédios inteiros em que, quando se abre a porta da rua, o que se vê são um conjunto de barras que, em alguns prédios, ainda têm que ser abertas pelos moradores para se dirigirem para o seu quotidiano e enfrentarem a realidade, a acção política orientada para a padronização espacial torna-se ideologicamente enformada para a vigilância.

  • Solidariedade-In, CGTP-Out

    Solidariedade-In, CGTP-Out

    protesto_minipreçcoFoi um final de tarde com muitos sabores. O mais forte e vibrante, o da solidariedade. Não julgava possível que uma situação concreta e, diga-se, pequena pudesse, em tão pouco tempo, mobilizar tanta gente. E era mesmo muita. Não foi um 12 de março ou coisa parecida, claro. Não havia multidões. Havia dezenas. Dezenas de pessoas que decidiram responder a uma convocatória que apelava à invasão e ao bloqueio do Minipreço, que exerceu represálias sobre 4 trabalhadores que fizeram greve no dia da Greve Geral. Uma convocatória sem assinatura e sem um discurso que permitisse identificar exactamente de onde vinha. Pessoas que sabiam que os trabalhadores que ali estavam em causa podiam ser outros, talvez elas próprias.

    Muitos sabores. O picante paladar da força. Ali estava muita gente empenhada em levar a bom termo a ideia de bloquear a loja. A polícia tentou que as reclamações fossem todas feitas numa das caixas, de forma a desimpedir as outras para que o comércio pudesse recomeçar com normalidade. Os presentes, vários em cada uma das três caixas, afirmaram o seu direito a manter-se onde estavam. Não seriam as pessoas a ter que se deslocar, teria que ser o livro de reclamações. E assim foi. A um agente mais afoito, que pretendia que estava ali para manter a ordem, foi-lhe explicado que ele existe para fazer cumprir a lei e que esta é que tem que se preocupar com a ordem. Às vezes é bom desfazer os equívocos.

    E o doce sabor da vitória. Várias pessoas desistiram de entrar, ao ver a confusão cá fora. Outras acabaram por deixar carros de compras cheios dentro do supermercado ao repararem que, se quisessem mesmo levar aquilo para casa, iam demorar horas. Que foi o que aconteceu aos poucos que decidiram, ainda assim, abastecer-se ali. O Minipreço da rua Miguel Bombarda esteve literalmente bloqueado durante mais de duas horas. Pouco passava das 19h quando tudo começou e já se tinham ido as 21h30 quando, finalmente, os últimos clientes conseguiram pagar o que levavam. O Minipreço fecha às 21h00. Espera-se que esta meia hora extra seja paga a quem lá trabalha.

    Por vezes, uns sabores arrastam os outros. Neste caso, estes de que falei trazem consigo o da esperança. Afinal, as pessoas existem. E existe o espírito forte e combativo de quem sente que está a fazer a coisa certa. O que deixa antever que um aumento de contestação social, não tanto orientada para a Troika ou outras entidades semi-etéreas mas mais virada para questões do quotidiano, é uma possibilidade ao virar da esquina. Seja em relação a questões laborais, seja em relação a outras, como a habitação, por exemplo. Sente-se nas pessoas – mais do que a vontade – a necessidade de luta. Percebe-se que, com casos concretos em cima da mesa, quem participa sente realmente que está a fazer a diferença.

    Mas nem toda a refeição foi tão saborosa. Muita gente teve até dificuldades em engolir, quando leu a nota à comunicação social do Sindicato dos Trabalhadores do Comercio Escritórios e Serviços de Portugal, que, pelo seu carácter revelador, passo a transcrever aqui:

    A Comissão Sindical CESP/CGTP, na empresa Dia Portugal Supermercados, vem desta forma repudiar quer o boicote pedido quer as acções que outros grupos estão a marcar que nada têm a ver com trabalhadores do grupo ou seus representantes, nem ajudam à resolução dos problemas que afectam os trabalhadores

    Enquanto, nuns círculos, se discutia como é que uma nota à imprensa dum sindicato estava reproduzida às dezenas, em papel amarelo, e colada do lado de dentro dum supermercado, noutros elaboravam-se teorias baseadas na assunção de que a CGTP não podia ter feito aquele comunicado. Uma senhora, mais crente no papel da central sindical, chegou a escrever, em cima dos cartazes que também se viam pela rua, qualquer coisa que dizia claramente que aquilo era mentira e que não fora o sindicato que o fizera. Pobre senhora, com que sabor acordará quando confirmar que, realmente, tanto o site como o facebook do CESP têm aquele mesmo texto? E que sabor sentiram os jovens da JCP que lá chegaram, ao verem tais cartazes? Que paladar lhes enchia a boca quando decidiram retirá-los? Saber-lhes-ia a traição? A vergonha?

    Mas o que me pareceu mais generalizado foi o gosto fétido dum pêssego de pele imaculada e interior podre. Para muitas daquelas pessoas – à excepção, talvez, de quem encara a pertença partidária, ou sindical, como uma questão de fé –, houve uma brecha que se abriu a partir da qual puderam ver o interior do fruto. Um sindicato que devia solidarizar-se com os trabalhadores, afinal, mais do que demarcar-se, repudia aquele acto de solidariedade. Que, entre estar com quem luta pelo direito à greve – porque era basicamente disso que se tratava – e com quem discrimina grevistas, prefere os segundos (de que outra forma se explica que um comunicado de imprensa dum sindicato chegue às mãos das chefias dum Minipreço? O que significa enviar um texto que diz o que os chefes gostam, que diz tanto o que os chefes gostam que até é largamente fotocopiado e afixado por eles?).

    Muita gente acordará com o sabor desagradável da ressaca. A língua áspera, o palato desfeito. Mas os gostos ruins também servem para valorizar os bons e aquelas bocas, se bem que crestadas pela desilusão, não os esquecerão E amanheceremos mais fortes e conscientes.

  • “Flores Silvestres”, uma antologia de Abele Rizieri Ferrari

    “Flores Silvestres”, uma antologia de Abele Rizieri Ferrari

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    Abele Rizieri Ferrari, mais conhecido pelo pseudónimo de Renzo Novatore, foi um poeta da anarquia que viveu alguns dos anos mais turbulentos de uma Itália revolucionária e pré-fascista, em que os sonhos de mudança radical de sociedade se esbateram com a traição socialista e a reacção bruta fascista, num país dividido em dois pólos extremos de conflito. Abele viu a sua vida ser-lhe ceifada muito cedo pelas forças de autoridade, nesse mesmo ano de 1922 em que Mussolini marchou sobre Roma, mas deixou-nos um legado quase único de escritos espalhados por revistas e jornais e que o tornam uma figura ímpar, ainda que quase desconhecida, na história do anarquismo. É parte desse legado que hoje recuperamos e trazemos para o português com esta antologia, que espelha o seu pensamento individualista radical nos antípodas de qualquer concepção anarquista tradicional e que o tornaram “maldito” mesmo entre os seus.

  • Salvo-conduto II

    Salvo-conduto II

    (Continuação da edição anterior)

    «Um monge, que me observava, perguntou-me:
    – Porque alimentas os corvos e varres as formigas do caminho?
    – Porque gosto de corvos e não gosto de formigas.»
    Tenkei Denson (1647-1735)

    “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, é obra de relevo, não tanto por registar o holocausto judeu e/ou o linchamento do nazi alemão, mas por assinalar a relação entre o burocrata e a instituição da tirania. Eichmann não é só um indivíduo que cometeu crimes numa determinada época e nação, mas passa a ser o modelo representante de todo um sistema civilizacional, cujas possibilidades de aplicação foram desenvolvidas até à náusea: a “banalidade do mal”. A burocracia reproduziu-se exponencialmente e aperfeiçoou os seus dispositivos de poder: tornou-se tecnocracia. Eichmann é o tipo que mata à distância, sem sujar as mãos de sangue, um mero funcionário obediente ao seu superior hierárquico, cumprindo ordens, telecomandando e telecomandado, relegando a acção em extensões e drones tecnológicos. Aquilo que o compromete e o torna culpado não é a violência directa sobre as vítimas, mas o mero facto de ser um intermediário que não se opõe a trâmites cujo fim é o extermínio de uma determinada classe de seres.

    Eichmann está no meio de nós. A buro-tecno-cracia acarreta ainda outras ameaças: o perigo da ocultação por detrás de nomes de código. O mesmo truque foi usado na “Solução Final”, na “Operação Tempestade no Deserto”, numa imensidade de químicos industriais do tipo do ZetaFlow (marca sonante que esconde fortes poluentes usados na fracturação hidráulica e que contaminam as águas subterrâneas), no “Banco Insular” (a máscara do BPN e respectivas construções na Aldeia da Coelha)… Um nome apelativo mascara tudo, serve para vender tudo. Por isso, na escola, aprende-se mais a copiar nomes do que a questioná-los, a revirá-los do avesso, a investigar o que escondem. Pretende-se formar bons cidadãos, quer dizer, bons consumidores e replicadores dos nomes que a máquina de propaganda mediática põe em circulação. Por exemplo, os partidos em que a população vota são aqueles cujos nomes aparecem nos grandes meios de comunicação social, repetidos até à exaustão; os outros não são ninguém, não têm nome na praça. A lavagem cerebral é evidente.

    Por que é que, no Governo, abundam indivíduos com o curso de Direito? Não é, por excelência, o treinamento que prepara o burocrata-legislador? O fascismo burocrático impõe-se como uma lei transcendente sobre o socius. Você, funcionário de Banco ou de um serviço público, que julga estar apenas a cumprir a sua tarefa sistemática para receber um ordenado miserável ao fim do mês, é um Eichmann em potência. Ou você, juiz e senhor da lei, que assina e dá seguimento a dezenas de processos e condenações em série, usando apenas papel e tinta, é um Eichmann realizado, mesmo que nem se chame Eichmann. Ou você que, ouvindo dizer que um cão de raça perigosa abocanhou até à morte um bebé de poucos meses, reclama o fuzilamento canino para desencorajar a impunidade é um Eichmann esquecido de que a raça mais perigosa de todas é bem capaz de ser a sua. Ou você que acha que a Suíça tem um sistema muito melhor que Portugal, porque os inspectores fiscais entram em casa para averiguar e conferir o que cada um tem… Este tipo de discurso indicia que são os próprios cidadãos a submeterem-se ao jugo dos burocratas estatais: é o “Zé-Ninguém” que deseja o fascismo, perversão que Reich tão bem descreveu. A pedido dos civis – “mais trabalho, mais segurança, mais fiscalização!” – o Estado-Sanguessuga foi-se instalando em todas as articulações do nosso corpo social, pré-paralítico, apertado entre torniquetes, em que quase todos os fluxos são mediados por um imposto de passagem (o salvo-conduto pago a peso de ouro, em tempo de guerra). Seja o que for que pense em empreender no domínio material – colocar um anúncio, estacionar uma viatura, pedir um livro de cheques, registar uma escritura, etc., etc. – o Estado tem de comer. Então, as palavras de Alejandro Jodorowsky ganham um tremendo sentido: «Qualquer pessoa com um ofício conhecido – sapateiro, padeiro, médico, pintor, engenheiro, etc. – é uma presa para o Estado. Ter um ofício normal é perder a liberdade. Temos de exercer ofícios desconhecidos, que não tenham interferência na vida material, mas sim que produzam estados de consciência». O Estado é como o porteiro que exige um suborno para deixar alguém passar ou autorizar que determinada operação se realize. Interessa-lhe tornar tudo propriedade privada e segmentar esta ao máximo, porque é entre-segmentos que ele se coloca como cobrador de imposto, portanto, quantos mais segmentos houver, maior o seu proveito. Arendt, em “O Sistema Totalitário”, expôs de que forma a compartimentação dos indivíduos servia aos regimes totalitários. Os domínios parasitados pelo Estado são hoje inúmeros e as malhas estreitam-se diante das infinitas possibilidades de cruzamento de dados (CRM e business intelligence como armas de predação): é o trabalho, a família, a habitação, o ensino, a saúde, o consumo, a património, a circulação viária, o inves- timento, etc. Diante de tais estratagemas, Isabelle Eberhardt é ainda mais crítica do que Jodorowsky: «Há um direito que só muito poucos intelectuais cuidam de reivindicar: o direito à errância, à vagabundagem. E no entanto, a vagabundagem é a emancipação, e a vida ao longo das estradas, a liberdade. (…) Ter um domicílio, uma família, uma propriedade ou uma função pública, meios de existência definidos, eis outras tantas coisas que parecem necessárias, indispensáveis quase, à imensa maioria dos homens, incluindo até mesmo os intelectuais que se crêem mais emancipados. Todavia, todas essas coisas são apenas formas variadas da escravidão (…)».

    O que nos choca não é que a taxa de desemprego seja cerca de 20%, mas que não seja muito maior…

    As formigas são uma sociedade milimetricamente organizada e silenciosa. Por comparação, os corvos formam um bando barulhento e desorganizado. Ambos são negros como a noite. A rainha das formigas segrega uma hormona que serve para manter um número massivo de operárias sob o seu controlo hipnótico, trabalhando automaticamente em prol do ninho imperial. Pelo contrário, o corvo é uma ave de comportamentos irregulares, pouco conivente com uma homogeneidade de grupo. Quando voa em bando, com quanta descontinuidade o faz: há sempre um corvo que ficou para trás, outro que se deteve a furtar comida, moedas, ovos de outros ninhos… São várias as tribos, nomeadamente norte-americanas, que fizeram do corvo um animal de elevado grau totémico. O corvo é como o índio: recusa trabalho que não seja por sua própria conta e risco. Os colonizadores europeus das Américas tiveram de importar escravos africanos, porque os índios nativos consideravam grande indignidade trabalhar por conta de outrem, preferindo a morte. No folclore português, o corvo foi popularmente tipificado como ladrão, ave de olhar arguto, sensível ao mínimo brilho das coisas a longas distâncias. Não são estas características que fazem os bons ladrões? “Ladrões” deriva originalmente do latim “laterones”, laterais, vigias que ladeiam o imperador, nada mais fazendo do que estar atentos, para preveni-lo ou protegê-lo com o seu corpo no caso de eventuais ataques. Um crocitar de corvo o avisa.