Blog

  • Uma experiência de horta urbana e muito mais… no fio da navalha

    Uma experiência de horta urbana e muito mais… no fio da navalha

    musas_interiorEncravada entre o Bonjardim e a Fontinha, logo ali a dois passos do Marquês e não demasiado longe da baixa portuense, a Quinta Musas da Fontinha – uma experiência de horta comunitária urbana surgida por iniciativa de uma velha coletividade de bairro – acaba de ser notícia pelas melhores e pelas piores razões, precisamente quando, a velha colectividade conhecida como Musas, se prepara para comemorar o seu 70º aniversário no próximo mês de Abril.

    Exemplo de resistência e reinvenção das formas de cooperação social entre indivíduos, ao avesso da pressão dominante para uma urbanização predadora da natureza e dos valores de competição individual, a Quinta Musas da Fontinha surge ao arrepio de um contexto em que a cidade se esvazia cada vez mais de uma comunidade socialmente operativa para se ir transformando num vazio ocupado e transformado numa arena de operadores turísticos: autocarros panorâmicos e descapotados aparecem cada vez mais a competir nos corredores de bus com os autocarros dos serviços públicos de transportes, uns e outros evoluindo em sentido inverso num claro sinal dos tempos em que os serviços públicos se degradam e os grandes negócios prosperam.

    A Quinta foi notícia, recentemente, por ter transformado uma velha colina, anteriormente cedida quer a funções de depósito de ferro velho, quer a silvado impenetrável e habitat de ratazanas, numa horta comunitária. A iniciativa da Quinta originou então uma ação de despejo sobre a sede da coletividade, o logradouro onde a horta se iniciara e ainda a ameaça de uma choruda indemnização aos proprietários. Conforme atestam as memórias dos vizinhos que acompanharam o Musas para um testemunho em tribunal, a história da utilização do espaço para atividades lúdicas da associação data de há muitas décadas atrás, embora interrompida pelas crises de uma vida associativa nem sempre fácil.

    Situações anómalas ocorridas nas vésperas do julgamento da ação de despejo, entre elas o internamento hospitalar da advogada que acompanhou a coletividade desde o início do processo, acabaram por fazer perigar o desfecho da ação judicial.

    No decorrer do mesmo tornou-se incontornável a aceitação de um acordo judicial que, por um lado salvaguarda a sede do Musas e preserva a coletividade do perigo de extinção – as melhores razões – mas por outro – as piores – a obriga a ter de suportar um aumento pesadíssimo das rendas, caso pretenda manter as suas hortas no logradouro onde se iniciaram. Logradouro este que é o seu acesso privilegiado, o seu miradouro com vista para o mar, e a jóia da coroa da Quinta Musas da Fontinha, ainda que esta se tenha entretanto estendido a terrenos municipais e a terrenos cedidos pela boa vontade de vizinhos.

    A Quinta Musas da Fontinha, que hoje agrega um conjunto de cerca de 25 pequenas hortas com dimensão média e idêntica de 25 m2 (cada uma com o nome de um fruto), a zona de agrofloresta, o jardim elevado, a zona de convívio nascida “terra das crianças”, os canteiros de aromáticas, o galinheiro, a estufa (de momento em transformação), ou o banco de sementes, pelas quais se responsabilizam os sócios do Musas que a tal se disponham – individualmente ou em grupo (com outros sócios) – não é, nem de perto nem de longe, um projeto de entrega de lotes agrícolas para cultivo. É, antes, um processo de criação de uma comunidade, corresponsável pela globalidade do projeto, em que é corrente e natural que uns sócios reguem a hortinha dos vizinhos, se por algum motivo estes não o possam fazer, ou que venham das suas hortas os legumes necessários ao almoço comunitário quando ele se realiza.

    Com quotas de associado definidas voluntariamente por cada sócio e sem mais exigências do que a pertença corresponsável ao projeto comunitário, não só das hortas, mas igualmente do xadrez, da biblioteca, da animação cultural, entre outras actividades, o Musas atraiu à sua proposta gente disponível para uma experiência social em comunidade.

    São eles hortelãos entusiastas ou lutadores pela própria sobrevivência, quintuplicando em dois anos o seu número de sócios, ainda que, de momento, este número ainda não permita responder ao aumento das rendas que lhe foram agora impostas e o deixa no fio da navalha.

    Nesse sentido surge o recente apelo do Musas para alargar o seu número de sócios, o único garante de que o projeto, onde o mecanismo fundamental de decisão é assembleário, resista e se fortaleça. Assim se explica que o acordo judicial agora decidido tivesse sido, num primeiro momento, objeto da conferência dos sócios presentes no tribunal, e posteriormente, objeto da decisão obrigatória dos sócios em assembleia.

    O Musas tem vindo a criar um sentido de comunidade em que participam, pela primeira vez, muitas pessoas para as quais esta é uma primeira experiência nesse sentido, algo que, a outro nível, também foi experienciado mais ou menos recentemente dentro do projeto Es.Col.A, ali ao lado, no Alto da Fontinha. Esta colectividade forma também parte de um processo, em cooperação com os seus espaços amigos na cidade, como a Casaviva, o Gato Vadio, a Casa da Horta, o Terra Viva e outros, sendo participante das Hortas pela Diversidade ou da Colher para Semear, de que partilha também os ideais.

    Loureiro da Costa

    http://musas.pegada.net/

  • Construindo a resistência nas margens duma mina de carvão

    Construindo a resistência nas margens duma mina de carvão

    Grupos das activistas durante manifestação que acabou com bloqueio da linha de comboio de transporte de carvão.
    Grupos das activistas durante manifestação que acabou com bloqueio da linha de comboio de transporte de carvão.

    Este verão, teve lugar perto de Colónia, na Alemanha, um acampamento de resistência à mina de carvão a céu aberto da Renânia (Rheinland). O encontro aconteceu numa aldeia que brevemente será destruída pelas escavadoras da companhia eléctrica RWE[ref] RWE (Rheinisch-Westphalian Elektrizitätswerk) é originalmente uma empresa alemã de energia. Explora energia nuclear, carvão, gás, incineração de resíduos e infraestruturas de gás e electricidade e opera no Reino Unido, Países Baixos e vários países da Europa de Leste. Em 2007 a RWE foi considerada, pela Forbes, a 73ª maior empresa do mundo e a 3ª maior construtora de infraestruturas públicas.[/ref]. O campo foi o ponto de confluência de centenas de pessoas com vontade de apoiar esta luta local e partilhar experiências e informação de outras lutas e ocupações contra projectos destrutivos que ocorrem por toda a Europa.

     

    Renânia, situação e efeitos

    A mina de carvão em Hambach é a maior a céu aberto da Europa, um buraco do tamanho do centro de Paris (85km2 de superfície, com 350m de profundidade), planeado para duplicar de tamanho no futuro. Na Renânia existem mais duas minas a céu aberto – Inden e Garzweiler II – e quatro gigantescas centrais eléctricas. A capacidade de produção da zona é de 100 a 120 milhões de toneladas de carvão por ano, 90% do qual é convertido em electricidade, sendo o restante transformado em briquettes para aquecimento. A produção de carvão emite para a atmosfera uma grande quantidade de partículas, algumas radioactivas, com emissões superiores a todo o tráfego automóvel na Alemanha, o que está a provocar o aumento de casos de cancro, demência e doenças vasculares na área da Renânia[ref] Avaliação dos Impacto na saúde das centrais de carvão na Alemanha , Universidade de Estugarda, Instituto de economia da energia e o uso racional da energia. Ver estudo aqui[/ref]. Todo o processo de extracção consome imensa energia: as maiores escavadoras que existem no mundo são aí utilizadas e toda a água do subsolo da área tem de ser bombeada.

    A RWE, apresentada como “energia limpa” e a “solução para uma crise energética”, quer pela própria empresa quer por políticos locais e nacionais, que subsidiam fortemente as suas actividades, é considerada um dos maiores poluidores da Europa por várias investigações independentes, nomeadamente da Price Waterhouse Coopers (de 2008), da Carbon Market Data e da WISE (de 2012). No processo de converter uma tonelada de carvão em electricidade, uma tonelada de CO2 é libertada.

    A escala da operação tem também fortes impactos sociais: aldeias, terrenos agrícolas e 4.500 hectares de floresta virgem estão a ser destruídos pelas minas. Comunidades inteiras tiveram de ser deslocadas para novas aldeias, ou seja, cerca de 30.000 pessoas desde 1948. Para além destas, outros habitantes da região foram forçados a migrar, sem qualquer forma de compensação, por causa dos efeitos da extraçcão mineira: perda de qualidade dos solos agrícolas e do acesso à água, problemas de saúde e poluição do ar. Vários agricultores perderam não só as suas terras como a sua forma de vida.

    Por seu lado, a RWE defende que o processo contempla a regeneração das terras: segundo dados disponíveis, depois da extracção, a terra será recuperada, com um parque natural, um lago gigante e terrenos agrícolas. Mas não menciona a perda irreversível de florestas primárias e negligencia a perda de qualidade para cultivo do solo, depois de destruída a sua estrutura.

     

    Contexto histórico do carvão na Alemanha

    A extracção de carvão tem já uma longa história nesta zona da Alemanha, desde o império romano que dali se retira carvão para o aquecimento e cozinha. Nos séculos XIX e XX, o carvão alimentou a revolução industrial, especialmente nos EUA e na Grã-Bretanha, logo seguidos pela Alemanha. A partir de 1850 o chamado carvão-duro, o antracite, que praticamente não emite fumo, tornou-se a fonte principal de aquecimento das cidades e o carvão menos duro (carvão-castanho ou lignito) foi usado em fábricas e comboios.

    Em 2007 o governo alemão decidiu acabar, até 2018, com todos os subsídios para a extracção de carvão, um passo na retirada do carvão da produção energética. Mas após a catástrofe na central nuclear de Fukushima, no Japão, foi pressionado pela população a criar uma lei de retirada da energia nuclear, o que serviu então de pretexto para o carvão ser apresentado de novo como uma alternativa “barata” e “ecológica”. O certo é que a luta por uma mudança real de paradigma na produção da energia irá continuar.

     

    Protestos

    Manheim, que se tornará em breve na próxima aldeia-fantasma da zona, já começou a ser abandonada. O processo de realojamento está em curso, deixando dezenas de casas abandonadas e contentores cheios de mobiliário e objectos pessoais. A padaria e a escola primária já fecharam e as únicas estruturas ainda a funcionar são um banco, um centro desportivo e um infantário. Este ano, pela terceira vez, um campo de acção directa climática foi montado com o objectivo de fortalecer os protestos e campanhas locais que continuamente lutam para parar a extracção de lignito na área.

    Associações de vizinhos, jovens ligados a ONGs e pequenos partidos políticos, agricultores e activistas que ocupam partes da floresta e um campo agrícola juntaram-se numa plataforma política chamada ausgeco2hlt (parar com o carvão/CO2). Esta plataforma tem reuniões mensais e cria a oportunidade de alianças para a organização de eventos e acções específicas ao longo de todo o ano, que vão da constituição de pontos de informação nas aldeias próximas da mina a acções directas de bloqueio da linha férrea usada para o transporte do carvão da mina para as centrais eléctricas. Cada grupo tem a sua própria organização, eventos e apoiantes. Esta estrutura ajuda o crescimento deste encontro de ano para ano. Em 2013, durante duas semanas, mais de mil pessoas participaram no acampamento.

    Além da acção de bloqueio da linha férrea, que durou oito horas, e da reocupação da floresta (cujos ocupantes tinham sido despejados pouco tempo antes), o acampamento trouxe outra vez vida a Manheim, criando espaço para acções e encontros sociais: ocupação de casas abandonadas; criação de uma horta comunitária; acção de informação sobre a mina, oferecendo batatas fritas, de um agricultor local, na praça principal; convites aos habitantes que restam a participar em oficinas, discussões e acções. Os habitantes reagiram de diversas formas: uns bastante positivamente e agradecendo o apoio, mas ao mesmo tempo dizendo “Vêm com 20 anos de atraso, nós há muito que desistimos”; ao passo que outros ignoraram os protestos e reagiram negativamente, destruindo a sinalização do acampamento.

    É bastante visível que a presença da RWE na comunidade local é muito forte, transmitindo, há décadas, os objectivos da empresa como se de um bem público se tratasse, criando emprego para mais de metade da população da região. Nos meses que antecederam o acampamento, a RWE enviou mensagens de propaganda a todas as casas, avisando que “activistas violentos” preparavam o encontro. Existem ligações directas entre a câmara municipal e a empresa, que se tornam claras perante a resposta à requisição oficial para o acampamento, recusado no dia anterior à data de início. Apenas foi autorizada a realização de um encontro político, sem tendas, cozinha ou possibilidade de pernoitar, o que dificultaria a realização do acampamento com a chegada de participantes de toda a Europa. No processo de tentar chegar a acordo para o uso de terras privadas, também se notou clara a pressão da RWE para com os proprietários do terreno, ameaçando diminuir as compensações monetárias caso auxiliassem a instalação do acampamento.

     

    Conexões globais

    A segunda semana do acampamento foi dedicada a conectar pessoas de diferentes locais em luta, com um programa organizado pela Reclaim the Fields (RtF), uma constelação europeia de agricultores, sem-terra e agricultores em busca de terras[ref]Esta constelação europeia é uma coleção de projectos autóno mos, que comunicam, discutem e se apoiam um aos outros. É composta por uma grande diversidade de projectos: hortas comunitárias, cooperativas de produção e consumo, comunidades alternativas e zonas em luta contra a destruição industrial.[/ref]. Durante o acampamento, reforçaram-se relações com participantes da ZAD, em França, e de outros projectos de resistência na Alemanha, Inglaterra, Holanda, Áustria, Portugal, Espanha e Roménia, fazendo debates, apresentações e oficinas práticas.

    Empresas e corporações multinacionais que constroem infraestruturas de grande escala, como minas, barragens, aeroportos, auto-estradas e centrais nucleares, não são originárias de um só país e continuam a crescer, procurando novos recursos e terras para aumentar os seus lucros. Muitas pessoas afectadas directamente não acreditam nessas empresas ou na informação governamental e continuam a organizar-se localmente, procurando formas de resistir, de criar investigações independentes e estabelecendo ligações com outras lutas semelhantes.

     

  • Colher Para Semear: defesa e ilustração da agroecologia

    Colher Para Semear: defesa e ilustração da agroecologia

    A associação Colher Para Semear – Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais (CPS) foi formalmente criada em Março de 2006 por um grupo de pessoas preocupadas com a perda desastrosa de biodiversidade agrícola. Desse grupo inicial de dezoito membros faziam parte agricultores e pessoas com outras profissões que se dedicavam à horticultura. Tem a sua sede na Quinta do Olival, situada na aldeia do Olival, concelho de Figueiró dos Vinhos, distrito de Leiria, onde José Miguel Fonseca e Graça Pinto, co-fundadores da CPS, praticam agricultura orgânica há trinta anos, reproduzindo-se nos terrenos desta quinta a maior parte das variedades de plantas hortícolas e fruteiras que a CPS mantém, protege e propaga.

    Ao Encontro da Semente 2012, Arouca - oficina de poda
    Ao Encontro da Semente 2012, Arouca – oficina de poda

    Desde o início, o objectivo principal da CPS tem consistido em preservar e dar a conhecer o património vegetal cultivado em Portugal, ou seja, as variedades autóctones, hortícolas e fruteiras, cultivadas nas diversas regiões do país, do que resultou a constituição de um banco de sementes cuja lista é publicada anualmente no seu Catálogo de Variedades. Esse objectivo pressupôs desde o início o conhecimento factual de tais variedades, que não se encontrava documentado. Para isso, foi necessário organizar levantamentos, que consistem em investigações agro-botânicas sistemáticas, efectuadas numa determinada área do país, com vista a recolher informação segura e fidedigna sobre as variedades (transmitidas pelos antepassados e também recriadas pelos contemporâneos) que continuam a ser efectivamente cultivadas na zona eleita para estudo. Este trabalho, cuja realização costuma abarcar oito a nove meses, entre o fim do Inverno e o Outono seguinte, tem sido feito em colaboração, sobretudo logística, com autarquias (por duas vezes foi-o também com associações locais afins) e, obviamente, com os agricultores, homens e mulheres, que continuam a cultivar as variedades locais na área em questão, constituindo estes os informadores privilegiados e indispensáveis do material vegetativo a coligir e analisar.

    A obtenção de uma tal informação subentende vários requisitos prévios: uma abrangente capacidade dialogante, de igual para igual, com os agricultores entrevistados, espírito de solidariedade, bons conhecimentos botânicos e agrícolas, não só teóricos mas sobretudo práticos, disponibilidade de tempo, paciência e capacidade de improvisação.

    O trabalho de investigação e recolha anual (a CPS fez até agora oito levantamentos[ref]Os levantamentos já efectuados foram os seguintes: Sesimbra, 2006; Odemira, 2007; Sendim,
    2008; Melgaço, 2009; Montemor-o-Novo, 2010; S. Brás de Alportel, 2011; Arouca, 2012; Vimioso, 2013.[/ref]) é publicado em livro, com vista a que esse registo contribua para um conhecimento mais exacto do património agrícola local e, ao expô-lo, sublinhe as potencialidades produtivas que contém, tendo em mira a autonomia e a soberania alimentares. O fim do levantamento coincide com a realização, também anual, da iniciativa intitulada Ao Encontro da Semente, encontro este, de três dias (sexta, sábado e domingo), que inclui palestras ou comunicações de pessoas que desenvolvem na zona actividades de âmbito agrícola, debates, oficinas práticas de diversa índole destinadas a fomentar aptidões (sobre recolha e preservação de sementes, podas, cultivos, processos de trabalho agrícola, etc.), apresentação de filmes, exposições (a começar pela exposição do património vegetal recolhido nesse ano e nessa área), bancas para troca de sementes, venda de produtos agrícolas, livros e outras publicações, e, naturalmente, convívios e trocas de ideias, de que fazem parte as refeições colectivas, sempre confeccionadas com produtos locais, e o baile das colheitas, animado também por agrupamentos musicais da região.

    Além deste encontro anual, a CPS organiza um outro, de um dia, por ocasião da sua assembleia-geral, que costuma ser em Fevereiro. Estoutro realiza-se também todos os anos num local diferente, na quinta de um sócio, e consta, além da assembleia-geral propriamente dita, de um programa de actividades em que se integram oficinas práticas de aprendizagem, bancas para troca de sementes e venda de produtos (incluindo publicações), bem como um piquenique partilhado por todos.

    Por outro lado, a CPS promove regularmente oficinas de recolha, limpeza e conservação de sementes, oficinas de guardiões de sementes, oficinas de fabrico de sumos e outras, quer na Quinta do Olival, quer noutros locais. E participa em feiras de biodiversidade agrícola ou em encontros de associações congéneres, em Portugal e no estrangeiro. Além do já referido livro relativo ao levantamento anual e do também anual Catálogo de Variedades, a CPS publica um boletim trimestral, de distribuição gratuita aos sócios e aberto à colaboração de todos os interessados, O Gorgulho, em que se abordam temas relativos a práticas agrárias, ao conhecimento das plantas cultivares, bem como a iniciativas de luta em prol da autonomia e da soberania alimentares. E editou, de autoria de José Miguel Fonseca, o seu Manual Prático para a Colheita e Conservação de Sementes.

    A CPS constitui uma corrente minoritária entre as entidades agrícolas portuguesas. Na sua defesa da agroecologia e concomitante oposição à agronomia industrial (agroquímica, agronegócio), procura promover uma visão da agricultura como a mais essencial e vital de todas as actividades humanas, que não deveria estar sujeita ao critério único do lucro e a exclusivas considerações mercantis.

    Júlio Henriques

    Contactos: Quinta do Olival – Aguda
    3260-044 Figueiró dos Vinhos
    Telefone 236 622 218236 622 218
    Telemóvel 914 909 334914 909 334
    colherparasemear@gmail.com
    colherparasemear.wordpress.com

  • Lisboa “limpa”

    Lisboa “limpa”

    No último mês de Novembro, o Departamento de Higiene Urbana da Câmara de Lisboa, com os habituais apoios da polícia, desalojaram um acampamento cigano situado em baixo do viaduto do Eixo Norte-Sul. Quando regressaram, ao final da tarde, as pessoas que lá viviam foram surpreendidas por nada encontrar no local onde se iriam abrigar do frio, num dia em que a temperatura mínima registada foi de 8ºC. Dois meses após as eleições, António Costa parece ter esquecido da sua visão de Lisboa como “cidade solidária, que promove a igualdade de oportunidades e inclui os excluídos”. Mais importante que a inclusão e a solidariedade parece ser a higiene urbana. Um acampamento precário onde, com pouco, se tenta combater o frio, é certamente um obstáculo à imagem “limpa” de Lisboa. Segundo a polícia municipal, o local foi encontrado “cheio de lixo diverso, nomeadamente colchões velhos, roupas imundas e fezes humanas”. Um dos agentes esclarece “que os romenos pertencem à Comunidade Europeia. São pessoas que se levantam cedo e abandonam o local para se dedicarem à mendicidade em vários locais da cidade”. É curioso que se levante a questão da nacionalidade, quando não foram identificadas pessoas no local, além do facto de o lixo aí encontrado ser um incómodo maior à polícia e à Câmara, ignorando por completo as pessoas que lá viviam.

  • Policia: 25 mortes em 7 anos

    Policia: 25 mortes em 7 anos

    mortes_policiaA Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) publicou, no passado dia 21 de Novembro, o Relatório de atividades de 2012 com o objetivo de “averiguar todas as notícias de violação grave dos direitos fundamentais de cidadãos por parte dos serviços ou seus agentes” e onde constam apenas os abusos formalmente denunciados. Dentre as informações que constam no relatório, registam-se 405 ocorrências abusivas atribuídas à PSP e 310 à GNR, onde se incluem ofensas corporais, abuso de autoridade, ferimentos e/ou ameaça com arma de fogo, ou ilegalidades, irregularidades e omissões. O relatório refere também as queixas relativas a outras entidades como a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária ou o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. No que respeita a vítimas mortais resultantes de operações policiais, o relatório é mais abrangente, compreendendo o período entre 2006 e 2012. Constata-se, então, que não existe um ano sem vítimas mortais e são atribuídas 14 mortes à GNR e 11 à PSP, totalizando 25 mortes em apenas sete anos.

  • Os paparazzi e a taxidermia ou Manuelito, já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar

    Os paparazzi e a taxidermia ou Manuelito, já te tenho dito que não é bonito andares-me a enganar

    carrilho
     

     

     

     

    Mas como não sentir um certo gostinho ao assistir à canibalização desta gentalha, na escandalosa percepção do miserabilismo que todos conhecem de ginjeira mas que raros enxergam nestes figurões que se fazem nobilíssimos tratantes, pé ante pé, numa majestade periclitante pelas estrias da Cultura (com letra grande, pois claro!).

    Manuel Maria Carrilho, ex ministro da dita, todo “aqui me tens”, a desfiar as tricas e fulanices da sua vidinha conjugal, entregue de corpo e ruínas à “abutrinagem” da comunicação social. Que beleza! A minuscular, a implorar a redenção pública enquanto, publicamente, se desossa num striptease repugnante. Nem mais, só as alforrecas é que morrem de pé.

    E é vê-lo, titubeante, a espremer os seus olhos de morto e a dizer: Por amor de deus, eu sou um homem de afectos! Ai, coisa mai linda, inexorável na sua tacanhez, tão bem adestrado pelas tiranias do sensacionalismo. The show must go on, e daí adiante vergando-se à cabotinagem pechisbeque, ao sucedâneo de si, desmandibulado na representação vesga e mui reaça do fiasco real. Como uma luva ao contrário, se me entendem…

    Acabar de vez com a lógica comezinha do parcialmente público. Ou é ou não é, e se é, deve sê-lo radicalmente e existir apenas na medida da sua reprodutibilidade, na liquidificação absoluta do seu carácter (imaginando-se que alguma vez existiu um), na massa.

    Ser condição sine qua non a todo e qualquer cargo de poder uma ininterrupta vandalização dos eu ́s que os arrogam. Roubá-los definitivamente da sua ausência, da sua aptidão de ser. Serão como máquinas cénicas, e cada gesto, cada palavra, cada silêncio esgotar-se-á pela iteração. Que impludam abafados pela sua imagem mil vezes autopsiada.

    Expropriá-los de si até que nos dêem só e meramente vontade de rir senhores, de estalar a rir!

    Todos passados a pente fino, certinho direitinho, e depois que se desenrasquem, que nos entretenham com o espectáculo do seu malogro, com as suas mundanidades; apanhados a fumar crack nas esquinas de Toronto, a encomendarem prostitutas tailandesas para o jantar de negócios com o ministro da economia iraniano, a chorarem que nem umas madalenas, a definharem com disenteria nas clínicas privadas da Suécia, a incendiarem os seus 27 Porshe’s, a ordenarem para que se incendeiem os seus 27 Porshe ́s, etc, etc…