shop-cart

Lendo: Construindo a resistência nas margens duma mina de carvão

Construindo a resistência nas margens duma mina de carvão

Construindo a resistência nas margens duma mina de carvão


Grupos das activistas durante manifestação que acabou com bloqueio da linha de comboio de transporte de carvão.

Grupos das activistas durante manifestação que acabou com bloqueio da linha de comboio de transporte de carvão.

Este verão, teve lugar perto de Colónia, na Alemanha, um acampamento de resistência à mina de carvão a céu aberto da Renânia (Rheinland). O encontro aconteceu numa aldeia que brevemente será destruída pelas escavadoras da companhia eléctrica RWE 1. O campo foi o ponto de confluência de centenas de pessoas com vontade de apoiar esta luta local e partilhar experiências e informação de outras lutas e ocupações contra projectos destrutivos que ocorrem por toda a Europa.

 

Renânia, situação e efeitos

A mina de carvão em Hambach é a maior a céu aberto da Europa, um buraco do tamanho do centro de Paris (85km2 de superfície, com 350m de profundidade), planeado para duplicar de tamanho no futuro. Na Renânia existem mais duas minas a céu aberto – Inden e Garzweiler II – e quatro gigantescas centrais eléctricas. A capacidade de produção da zona é de 100 a 120 milhões de toneladas de carvão por ano, 90% do qual é convertido em electricidade, sendo o restante transformado em briquettes para aquecimento. A produção de carvão emite para a atmosfera uma grande quantidade de partículas, algumas radioactivas, com emissões superiores a todo o tráfego automóvel na Alemanha, o que está a provocar o aumento de casos de cancro, demência e doenças vasculares na área da Renânia 2. Todo o processo de extracção consome imensa energia: as maiores escavadoras que existem no mundo são aí utilizadas e toda a água do subsolo da área tem de ser bombeada.

A RWE, apresentada como “energia limpa” e a “solução para uma crise energética”, quer pela própria empresa quer por políticos locais e nacionais, que subsidiam fortemente as suas actividades, é considerada um dos maiores poluidores da Europa por várias investigações independentes, nomeadamente da Price Waterhouse Coopers (de 2008), da Carbon Market Data e da WISE (de 2012). No processo de converter uma tonelada de carvão em electricidade, uma tonelada de CO2 é libertada.

A escala da operação tem também fortes impactos sociais: aldeias, terrenos agrícolas e 4.500 hectares de floresta virgem estão a ser destruídos pelas minas. Comunidades inteiras tiveram de ser deslocadas para novas aldeias, ou seja, cerca de 30.000 pessoas desde 1948. Para além destas, outros habitantes da região foram forçados a migrar, sem qualquer forma de compensação, por causa dos efeitos da extraçcão mineira: perda de qualidade dos solos agrícolas e do acesso à água, problemas de saúde e poluição do ar. Vários agricultores perderam não só as suas terras como a sua forma de vida.

Por seu lado, a RWE defende que o processo contempla a regeneração das terras: segundo dados disponíveis, depois da extracção, a terra será recuperada, com um parque natural, um lago gigante e terrenos agrícolas. Mas não menciona a perda irreversível de florestas primárias e negligencia a perda de qualidade para cultivo do solo, depois de destruída a sua estrutura.

 

Contexto histórico do carvão na Alemanha

A extracção de carvão tem já uma longa história nesta zona da Alemanha, desde o império romano que dali se retira carvão para o aquecimento e cozinha. Nos séculos XIX e XX, o carvão alimentou a revolução industrial, especialmente nos EUA e na Grã-Bretanha, logo seguidos pela Alemanha. A partir de 1850 o chamado carvão-duro, o antracite, que praticamente não emite fumo, tornou-se a fonte principal de aquecimento das cidades e o carvão menos duro (carvão-castanho ou lignito) foi usado em fábricas e comboios.

Em 2007 o governo alemão decidiu acabar, até 2018, com todos os subsídios para a extracção de carvão, um passo na retirada do carvão da produção energética. Mas após a catástrofe na central nuclear de Fukushima, no Japão, foi pressionado pela população a criar uma lei de retirada da energia nuclear, o que serviu então de pretexto para o carvão ser apresentado de novo como uma alternativa “barata” e “ecológica”. O certo é que a luta por uma mudança real de paradigma na produção da energia irá continuar.

 

Protestos

Manheim, que se tornará em breve na próxima aldeia-fantasma da zona, já começou a ser abandonada. O processo de realojamento está em curso, deixando dezenas de casas abandonadas e contentores cheios de mobiliário e objectos pessoais. A padaria e a escola primária já fecharam e as únicas estruturas ainda a funcionar são um banco, um centro desportivo e um infantário. Este ano, pela terceira vez, um campo de acção directa climática foi montado com o objectivo de fortalecer os protestos e campanhas locais que continuamente lutam para parar a extracção de lignito na área.

Associações de vizinhos, jovens ligados a ONGs e pequenos partidos políticos, agricultores e activistas que ocupam partes da floresta e um campo agrícola juntaram-se numa plataforma política chamada ausgeco2hlt (parar com o carvão/CO2). Esta plataforma tem reuniões mensais e cria a oportunidade de alianças para a organização de eventos e acções específicas ao longo de todo o ano, que vão da constituição de pontos de informação nas aldeias próximas da mina a acções directas de bloqueio da linha férrea usada para o transporte do carvão da mina para as centrais eléctricas. Cada grupo tem a sua própria organização, eventos e apoiantes. Esta estrutura ajuda o crescimento deste encontro de ano para ano. Em 2013, durante duas semanas, mais de mil pessoas participaram no acampamento.

Além da acção de bloqueio da linha férrea, que durou oito horas, e da reocupação da floresta (cujos ocupantes tinham sido despejados pouco tempo antes), o acampamento trouxe outra vez vida a Manheim, criando espaço para acções e encontros sociais: ocupação de casas abandonadas; criação de uma horta comunitária; acção de informação sobre a mina, oferecendo batatas fritas, de um agricultor local, na praça principal; convites aos habitantes que restam a participar em oficinas, discussões e acções. Os habitantes reagiram de diversas formas: uns bastante positivamente e agradecendo o apoio, mas ao mesmo tempo dizendo “Vêm com 20 anos de atraso, nós há muito que desistimos”; ao passo que outros ignoraram os protestos e reagiram negativamente, destruindo a sinalização do acampamento.

É bastante visível que a presença da RWE na comunidade local é muito forte, transmitindo, há décadas, os objectivos da empresa como se de um bem público se tratasse, criando emprego para mais de metade da população da região. Nos meses que antecederam o acampamento, a RWE enviou mensagens de propaganda a todas as casas, avisando que “activistas violentos” preparavam o encontro. Existem ligações directas entre a câmara municipal e a empresa, que se tornam claras perante a resposta à requisição oficial para o acampamento, recusado no dia anterior à data de início. Apenas foi autorizada a realização de um encontro político, sem tendas, cozinha ou possibilidade de pernoitar, o que dificultaria a realização do acampamento com a chegada de participantes de toda a Europa. No processo de tentar chegar a acordo para o uso de terras privadas, também se notou clara a pressão da RWE para com os proprietários do terreno, ameaçando diminuir as compensações monetárias caso auxiliassem a instalação do acampamento.

 

Conexões globais

A segunda semana do acampamento foi dedicada a conectar pessoas de diferentes locais em luta, com um programa organizado pela Reclaim the Fields (RtF), uma constelação europeia de agricultores, sem-terra e agricultores em busca de terras 3. Durante o acampamento, reforçaram-se relações com participantes da ZAD, em França, e de outros projectos de resistência na Alemanha, Inglaterra, Holanda, Áustria, Portugal, Espanha e Roménia, fazendo debates, apresentações e oficinas práticas.

Empresas e corporações multinacionais que constroem infraestruturas de grande escala, como minas, barragens, aeroportos, auto-estradas e centrais nucleares, não são originárias de um só país e continuam a crescer, procurando novos recursos e terras para aumentar os seus lucros. Muitas pessoas afectadas directamente não acreditam nessas empresas ou na informação governamental e continuam a organizar-se localmente, procurando formas de resistir, de criar investigações independentes e estabelecendo ligações com outras lutas semelhantes.

 

Notas:

  1.  RWE (Rheinisch-Westphalian Elektrizitätswerk) é originalmente uma empresa alemã de energia. Explora energia nuclear, carvão, gás, incineração de resíduos e infraestruturas de gás e electricidade e opera no Reino Unido, Países Baixos e vários países da Europa de Leste. Em 2007 a RWE foi considerada, pela Forbes, a 73ª maior empresa do mundo e a 3ª maior construtora de infraestruturas públicas.
  2. Avaliação dos Impacto na saúde das centrais de carvão na Alemanha , Universidade de Estugarda, Instituto de economia da energia e o uso racional da energia. Ver estudo aqui
  3. Esta constelação europeia é uma coleção de projectos autóno mos, que comunicam, discutem e se apoiam um aos outros. É composta por uma grande diversidade de projectos: hortas comunitárias, cooperativas de produção e consumo, comunidades alternativas e zonas em luta contra a destruição industrial.

Written by

Jornal Mapa

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “Construindo a resistência nas margens duma mina de carvão”