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  • O cancro a alastrar

    O cancro a alastrar

    cancro_alastrarPara evitar a crise, o financiamento da economia, o desemprego e as «medidas de austeridade», a classe política tem uma solução, a velha receita da produtividade. Só existe o factor económico: refinaria, betão, eucaliptos ou turismo. Fora disso nada é sério. E tudo tem de se identificar com os desígnios da Economia. Por efeito, toda a classe política sem excepção se une aos grupos empresariais a fim de relançar projectos de obras públicas, por exemplo, o TGV, auto-estradas, aeroportos, etc. Diante da «necessidade» de desenvolver e produzir estragos renováveis, toda a classe política se mete de acordo. A antiga crença em deus e no inferno, foi hoje substituída por novos deuses: os produtos de todos os tamanhos e feitios e o petróleo, respectivamente. E o Homem enche-se de razões. É preciso produzir para viver mas também para dar um sentido à vida, de outra maneira a vida seria absurda e a sociedade (ou instituição estatal) ameaçada. Assim munidos, a classe política moderna e com ela, por via da propaganda e da violência, muita boa gente, encontram na produtividade, logo no desenvolvimento, a saúde e a tranquilidade que, antigamente, só se obtinha na estrita e cega obediência a Deus.

    O desenvolvimento do cancro, cada ano a crescer e a matar mais pessoas em Portugal e no mundo, é proporcional à taxa de industrialização a qual é considerada um factor de desenvolvimento. Os recursos de água contaminados por pesticidas, hectares e hectares de solos empobrecidos pela plantação contínua de eucaliptos ou destruídos pelo progresso do betão, a alimentação industrial standardizada, a poluição do ar, o stress do trabalho versus desemprego…

    Pese embora tudo isso, os dirigentes políticos de todos os quadrantes consideram que a velhinha Produtividade é a solução para Portugal e para o mundo. Ainda e sempre o cancro a alastrar.

  • Saiu o Nº5 do Jornal Mapa

    Saiu o Nº5 do Jornal Mapa

    Acaba de sair o nº5 do Jornal Mapa. Encontra-se disponivel, a partir da tarde de hoje, nos lugares listados aqui.

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  • Interrupção Voluntária da liberdade

    Interrupção Voluntária da liberdade

    aborto_espanhaFoi aprovada em Espanha a “Lei Gallardón”, que volta a criminalizar a interrupção voluntária da gravidez (IVG), 30 anos após a sua despenalização, sendo apenas permitido em caso de violação (até 12 semanas) ou em caso de perigo para a mãe (até 22 semanas). A lei é mais restritiva que a anterior proibição em vigor até 1985, uma vez que criminaliza o aborto em caso de malformação do feto. É ainda de notar que, em caso de violação, é necessário ter apresentado queixa na polícia para ser assegurado o direito à IVG.

    Em Portugal, a Federação Portuguesa pela Vida (FPV) vem pedir o fim do aborto gratuito bem como dos subsídios. A directora da FPV Isilda Pegado volta a surpreender com os argumentos imaginativos que usa para sustentar as suas posições conservadoras: afirma que não faz sentido que“os impostos de um operário que ganha 600 ou 700 euros por mês sirvam para pagar o aborto de uma mulher que se calhar até é economicamente abastada” (jornal Público).

    Este afastamento da realidade é regra geral nos grupos “pró-vida” e torna-se particularmente perigoso quando é utilizado para restringir liberdades tão básicas como o direito de cada um decidir sobre o seu corpo. De facto, a protecção da vida raramente vem incluída neste desejo de controlo: a criminalização do aborto medicamente assistido apenas levará a um aumento dos abortos clandestinos, que são responsáveis por cerca de 47.000 mortes por ano (dados do Guttmacher Institute).

    Contudo, a resistência ao controlo vai-se fazendo sentir. Na véspera de Natal, um grupo de pessoas invadiu uma missa em Sabadell, Barcelona, em sinal de protesto contra a recente lei. Mais manifestações e acções contra a “Lei Gallardón” têm-se repetido, não só em Espanha, mas também noutros pontos da Europa. Em Portugal realizou-se uma manifestação a 8 de Fevereiro em Lisboa e no Porto e a 18 de Fevereiro o Consulado Espanhol no Porto apareceu vandalizado e com a mensagem “Aborto Libre”.

  • Às portas da Europa, continua-se a matar em nome da defesa das fronteiras

    Às portas da Europa, continua-se a matar em nome da defesa das fronteiras

    No passado dia 6 de fevereiro, uma linha de agentes da guarda civil espanhola, colocada na praia de Ceuta, disparou em direcção a um grupo de pessoas que tentavam atravessar a nado, de forma a entrarem em solo europeu, a linha imaginária que separa o enclave espanhol do resto do continente africano. Nesta noite foram pelo menos 15 as vítimas mortais das balas da polícia espanhola. Os tiros foram justificados por desacatos do outro lado da grelha fronteiriça, no entanto as imagens disponíveis (ver video abaixo) mostram um pelotão de fuzilamento a atirar sobre a água, causando mortes não só pelo impacto das balas de borracha, mas também por afogamento.

    Perante os acontecimentos, o governo espanhol, através de Mariano Rajoy e do ministro do interior Jorge Fernández Dias, não só defendeu a honra e o comportamento da sua polícia como prometeu uma reforma na ley de estranjería (lei espanhola da imigração ) de forma a ilibar os agentes  da Guardia Civil perante possíveis críticas à sua actuação. A situação nas linhas fronteiriças de Ceuta e Melilla é neste momento bastante tensa, o que torna provável a repetição de cenários semelhantes que, de resto, ao longo dos últimos anos, tem tido bastantes episódios menos mediatizados mas igualmente trágicos.

    Segundo alguns dados (fortres- seurope: goo.gl/IB2FJY / The Guardian: goo.gl/MKcm4j), as políticas europeias de protecção de fronteiras causaram cerca de 20.000 mortes nos últimos 20 anos. Os mesmos que militarizam o quotidiano perante a dissidência, que militarizam as fronteiras perpetuando os velhos fantasmas sobre o “estrangeiro”, matam e mentem ao mesmo tempo que clamam Democracia aos 4 ventos, na expansão da retórica duma Europa livre. Nas ruas, nos mares e nas fronteiras, os mortos pertencem sempre ao mesmo lado e essa parece ser a grande vitória da paz podre da harmonia europeia.

     

     

     

     

  • «A Dominação e a Arte da Resistência. Discursos Ocultos»

    «A Dominação e a Arte da Resistência. Discursos Ocultos»

    Tradução: Pedro Serras Pereira. Apresentação: Fátima de Sá. Letra Livre, Lisboa, 2013
    Tradução: Pedro Serras Pereira. Apresentação: Fátima de Sá. Letra Livre, Lisboa, 2013

    Editado pela primeira vez em Portugal, James C. Scott é autor de uma extensa obra que tem como principal foco das suas investigações, o estudo dos povos subordinados, e as diferentes formas de resistência à dominação, com especial incidência no mundo rural. O seu trabalho abrange diversas áreas do conhecimento: economia política, sociedades agrárias, politicas camponesas, relações de classe e anarquismo. Ao longo dos 50 anos de carreira académica publicou, entre outras, as seguintes obras: Weapons of the Weak: Everyday Forms of Peasant Resistance (1985), Seeing Like a State: How Certain Schemes to Improve the Human Condition Have Failed (1998), The Art of Not Being Governed: An Anarchist History of Upland Southeast Asia (2009), Two Cheers for Anarchism: Six Easy Pieces on Autonomy, Dignity, and Meaningful Work and Play (2012).

    Neste livro, originalmente publicado em 1990, James Scott elabora uma tese sobre as formas de resistência dos grupos sujeitos à dominação social, a partir de um discurso escondido, contraposto ao seu discurso público. A partir da análise de exemplos históricos de domínio extremo, o autor questiona as teses clássicas, segundo as quais o discurso, os valores e as crenças que suportam tais formas de dominação, seriam largamente partilhadas pelos dominados, sendo necessário estes serem previamente libertados desse mundo social, para depois se tornarem conscientes da sua condição. Contrariamente a estas perspectivas, o autor vê na aparente aceitação dos subordinados, estratégias de sobrevivência e formas de simulação que se destinam a ocultar a sua revolta e a sua resistência. Este teatro em que se encena a partilha e a submissão das regras e normas das elites dominantes, deve ser visto como uma forma de salvaguarda e protecção dos dominados. Ao mesmo tempo várias acções de contestação vão assumindo outros disfarces, desde o murmúrio, o rumor, à ameaça anónima, ao incêndio de searas do senhor ou do patrão, ou à sabotagem de máquinas. O autor enuncia ainda as «formas elaboradas de disfarce» presentes na cultura popular, como muitos contos da cultura oral ou os rituais de inversão como o Carnaval.

    James Scott é membro da academia de Artes e Ciências dos Estados Unidos. Além de professor de Antropologia e Ciência Politica na Universidade de Yale, onde fundou o Programa de Estudos Agrários, dedica-se também à agricultura.

  • Violência e estupidez

    Violência e estupidez

    praxe2A recente “tragédia do Meco” a 15 de Dezembro de 2013, quando seis jovens, estudantes da Lusófona, foram arrastados, em circunstâncias ainda a apurar, pela forte corrente que normalmente se faz sentir naquela parte da costa, levantou uma questão que durante bastante tempo tinha vindo a ser esquecida e debatida; a da violência e da “estupidez” das praxes académicas.

    Especula-se que aquele fim-de-semana foi dedicado à praxe académica por aquele grupo de estudantes universitários, isto de acordo com vários relatos que têm vindo a surgir nos meios de comunicação, e que o arrastamento se deu devido a falta de zelo dos estudantes, imputando-se a responsabilidade ao único sobrevivente, o “Dux” do Conselho Oficial da Praxe Académica da Universidade Lusófona.

    Não nos compete aqui tentar apurar a verdade dos factos, especular sobre o que se passou naquela noite, culpabilizar seja quem for ou criar uma novela em volta do caso. É um caso que se tornou público, que continua a ser falado na opinião pública com julgamentos distintos por parte dos vários analistas, mas o que nos importa em toda esta situação é o facto de só depois de uma tragédia destas proporções, supostamente devido à prática da tradicional e “bem intencionada” praxe académica, se vem discutir estas práticas nos meios de comunicação e na sociedade em geral. Sempre com um binómio moralista a definir até que ponto essas mesmas práticas são benéficas para a integração do aluno, ou maléficas para o seu bem-estar.

    Todos nós sabemos no que consiste a prática da praxe académica, especialmente aqueles que vivem em cidades universitárias e que constantemente dão de caras com estas práticas durante o ano lectivo universitário. É um ritual de iniciação, diz-se de integração, em que os alunos veteranos da universidade realizam algumas “brincadeiras” aos alunos caloiros que estão a iniciar o seu percurso académico. É um ritual que se reproduz ano após ano, com o aluno caloiro, no primeiro ano vítima, a tornar-se mais tarde aluno veterano e a repetir as mesmas práticas nos alunos caloiros do ano seguinte. Mas é também uma prática que teve início com a instituição de uma jurisdição especial na Universidade de Coimbra, o “foro académico”, com um corpo policial próprio, os archeiros, que, sob a tutela das autoridades universitárias, tinham como função fazer cumprir as normas instituídas pelas autoridades universitárias dentro dum quadro legal exclusivo. O desenvolvimento dessa prática fez com que passasse de uma prática persecutória para uma de caçoada. Um dos resquícios dessas práticas policiais em Coimbra é o das trupes que perseguem quem não cumpre as regras instituídas pela praxe e que são responsáveis por algumas cenas de violência tidas como normais no meio académico.

    Mas não é também objectivo aqui fazer um julgamento moral de quem se dedica as estas práticas, até porque a participação nestas é na maioria dos casos voluntária, ainda que sejam conhecidas a violência e humilhação que lhe são inerentes. A questão que queremos levantar aqui é a da banalização destas práticas, tidas como normais dentro da nossa sociedade, e que parecem cobrir um grande espectro do nosso mundo universitário.

    Existe uma forte identidade de grupo que caracteriza tudo aquilo que pode ser definido como tradição académica. Basta olharmos para o próprio traje que distingue, desde logo, o estudante veterano durante esse rituais académicos. A integração dentro desse mundo que contempla uma suposta camaradagem, as festas regadas a álcool, as ditas novas amizades ou mesmo a possibilidade de relacionamento amorosos ou práticas sexuais, é o fulcro que leva muitos dos estudantes a serem vexados e humilhados em público, para gáudio dos estudantes de capa e batina que, outrora alvo de semelhantes humilhações, reproduzem o papel de vitimizadores. Como já foi referido antes, estes rituais reproduzem-se de ano para ano, e a sua reprodução parte também de um assentimento de que, entrando pela porta da humilhação que a praxe impõe, se poderá ser mais tarde aquele que humilha, numa relação de poder voluntária, como voluntária é também a servidão do empregado que sonha um dia ocupar o papel do patrão. Neste tipo de relações de poder prepara-se, também, a entrada nesse mundo do trabalho, em que os proto-doutores ambicionam um dia chegar a uma posição de poder e autoridade nas suas áreas de especialização. Existe também uma conivência no que diz respeito à aceitação de uma hierarquia e de uma autoridade não refutada. Essa mesma refutação poderia levar a uma punição. O fantasma da não integração, da marginalidade dentro do mundo académico, faz-nos também lembrar o da marginalidade no mundo que existe fora das universidades em que o não integrado nas normas sociais acaba sempre por ser marginalizado. E a lógica militar que é inerente às praxes, acarreta também a disciplina necessária ao respeito das autoridades sejam elas praxistas ou estatais.

    A universidade, com os seus rituais e as suas práticas integradoras, é assim, também ela, o laboratório de experimentação da autoridade dos especialistas que reproduz a situação na qual estamos integrados. As suas práticas espelham-se, de forma algo disforme, naquelas que são as do nosso quotidiano. E a violência inerente a essas mesmas práticas é também aquela que se sofre no nosso dia-a-dia, mas que é calada devido à sua própria banalização e aceitação como normal. É preciso que se dê o epílogo trágico para que se faça a crítica revisionista. A história dos jovens que foram levados pelas ondas do Meco, e toda a novela que se tem vindo a criar na comunicação social, faz-nos lembrar também outras situações que se encontram latentes na nossa sociedade e que se aceitam como banalidades. Só quando um jovem negro morre às mãos de um grupo de jovens brancos, se fala de racismo; só quando uma mulher morre às mãos do marido ou namorado, se fala de sexismo; só quando uma transexual morre ás mãos de um grupo de jovens, se fala de homofobia; só quando um grupo de jovens morre supostamente devido à prática estúpida da praxe, se fala da sua violência. E a sociedade continua reproduzir-se a si mesma de forma pacífica.

    P.M.