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  • Muito Alta Tensão ameaça Norte e Galiza

    Muito Alta Tensão ameaça Norte e Galiza

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    O projecto para a construção de uma linha eléctrica de Muito Alta Tensão (MAT) desde Fontefria, na Galiza, até Vila do Conde, tem motivado desde o inicio do ano diversos protestos entre as populações de ambos os lados da fronteira. O traçado previsto atravessa 121 freguesias dos distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto, incluindo a maioria dos municípios do Alto Minho: Monção, Melgaço, Valença, Paredes de Coura, Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo e Ponte de Lima. Esta linha de MAT será  uma das mais potentes em território portugês (400 KVs), deixando as populações residentes nas zonas circunscritas alarmadas com os impactos nocivos para a saúde, fauna e flora, assim como para o património natural.

     

    linha_da_morte_gemieiraNa aldeia de Gemieira, Ponte de Lima, estão previstas pelo menos cinco torres de 75 metros de altura e uma área de implantação de 200 metros quadrados, além de margens de segurança de 45 metros para cada lado. Os habitantes de Gemieira e Refóios realizaram já várias acções de protesto e sessões de esclarecimento contra a “linha da morte” em relação ao projecto da REN (Rede Eléctrica Nacional), perante a ausência e o silêncio da Câmara Municipal de Ponte de Lima. Na Gemieira, o traçado previsto coloca a linha na proximidade de 20 habitações, de um aglomerado de 14 moinhos, de áreas de produção agrícola e de uma ecovia. Há vários meses que os populares “se dizem dispostos a tudo” para travar a passagem da linha pela aldeia. Foi várias vezes apontado o boicote às eleições europeias como forma de protesto, tendo o mesmo vindo a concretizar-se no passado dia 25 de Maio, quando mais de uma centena de populares de Gemieira impediram a entrada de membros da mesa, na sede da Junta de Freguesia, onde estava instalada a urna de voto.

    Monção-Alta-TensãoEm Monção, os habitantes das diferentes freguesias só foram informados sobre as intenções da REN e o traçado da linha no final do mês de Dezembro de 2013, através de extensa documentação enviada pela Agência Portuguesa do Ambiente, apesar da elaboração do projecto ter começado no início de 2011. O prazo para a consulta pública do EIA (Estudo de Impacto Ambiental[ref]Eixo RNT entre “Vila do Conde”, “Vila Fria B” e a Rede Eléctrica de Espanha, a 400Kv[/ref]) estava inicialmente previsto terminar a 13 de Fevereiro de 2014, data-limite para que a população se  pronunciasse sobre o projecto. Este estudo, encomendado à empresa Ws Atkins, apresenta os impactos negativos na fauna e flora de forma amenizada, dando a entender que podem ser minimizados e reversíveis, mesmo se a construção desta linha eléctrica ameaça várias espécies protegidas, como é o caso do lobo, ou a possível extinção de aves migratórias em todo o Alto Minho, além da desfiguração de extensa paisagem natural. Não foi efectuado qualquer estudo sobre os impactos na saúde das populações.

    Também em Barcelos o traçado previsto atravessará 63 freguesias do Concelho (segundo a divisão administrativa anterior), tendo motivado já contestação popular e mesmo institucional quando, em Fevereiro passado, a Câmara Municipal aprovou uma moção de “rejeição absoluta” do traçado proposto, declarando que “usará todos os meios à sua disposição” para o “travar”.

    flyer_manif_matMinho e Galiza estão unidos nesta luta e fizeram já algumas manifestações conjuntas. A última aconteceu no passado dia 27 de Abril na ponte internacional de Melgaço, onde foi cortado o trânsito automóvel, após o culminar das duas manifestações que partiram de Melgaço e Arbo, exigindo o enterramento da linha, denunciando os efeitos negativos na saúde, no ambiente e nas economias locais. De ambos os lados da fronteira, as autoridades responsáveis pelo projecto são acusadas de terem decidido tudo “sem virem ao local”, “a partir de Lisboa e de Madrid”.

    São inúmeros os exemplos em Portugal de prejuízos para a população, ambiente e património nas zonas atravessadas pelas linhas de Alta Tensão. O enterramento das linhas é uma solução que a REN não considera porque fica mais cara. Assim consegue minimizar custos sacrificando a saúde das pessoas e o ambiente. Não fosse a impunidade da REN, garantida pelo aparato politico-legal do estado, resultando no escasso poder de decisão dos indivíduos e comunidades, e as linhas de Alta Tensão seriam incomportáveis social e economicamente, bem como o modelo de produção e distribuição de energia inerente. Noutro cenário, compensaria o investimento em alternativas de produção, distribuição e consumo, cuja prioridade fosse o bem-estar dos indivíduos e a preservação dos ecossistemas. Este seria, contudo, um passo subsequente à crítica dos vários factores de desperdício, actualmente justificados em grande parte com a falácia do “crescimento económico”.

     

     

    alfena_caixaPrejuizos para a população, ambiente e património

    Os moradores de Adanaia, pequena aldeia de Calhariz, no concelho de Vila Franca de Xira, têm-se queixado do ruído insuportável vindo das linhas de MAT localizadas na proximidade das suas casas e que se faz sentir em dias de vento ou humidade. O “zumbido” forte e prolongado, denominado por “efeito coroa”[ref]Fenómeno fisico causado pela ionização do ar, junto aos cabos condutores e isoladores, nas linhas de alta tensão.[/ref], martiriza os habitantes de Calhariz, que não conseguem dormir. Alguns moradores tiveram de começar a usar tampões nos ouvidos e, em casos mais extremos, tomar medicamentos[ref]Zumbido das linhas de muito alta tensão não deixa dormir habitantes de Adanaia. Artigo publicado a 14 de Março de no diário online, O Mirante (www.omirante.pt)[/ref]. Têm sido também reportadas interferências frequentes nos comandos dos portões das garagens, comandos das televisões, e nos aparelhos auditivos e de medição cardiovascular.

    Em situação idêntica estão os habitantes de Recarei, em Paredes, que também se queixam do ruido igualmente insuportável, acentuando em dias de chuva, desde que a linha entrou em funcionamento, no final de Março. Alguns moradores tiveram igualmente de recorrer a medicação para conseguirem dormir[ref]http://portocanal.sapo.pt/noticia/22200/[/ref]. A linha passa por cima de várias habitações nos lugares de Terronhas e Rochão. Foram entretanto feitas várias queixas à REN, que não deu qualquer resposta. A Junta de Freguesia salienta ainda que no final da instalação da linha, a REN não efectuou reparações nas estradas e caminhos danificados para esse propósito.

    Os moradores de Lombelho, na freguesia de Alfena, concelho de Valongo, estão preocupados com o aumento da voltagem da linha de Alta Tensão que atravessa aquele lugar para o dobro do existente desde há 13 anos. Contrariamente ao que tinha sido acordado com a REN, a voltagem de 220 KVs foi alterada para 400 KVs “sem aviso prévio”, causando um “barulho ensurdecedor”[ref]Semanário Verdadeiro Olhar, 30-12-2013[/ref]. Vários moradores confirmaram que ao realizarem testes em compartimentos das suas casas, através do uso de busca-pólos, este se “acende no ar sem estar em contacto com aparelho algum”[ref]A Voz de Ermesinde, 15-4-2014[/ref], detectando electricidade. Além de moradias que ficam junto à linha, localiza-se ali também a escola Básica do 1.º Ciclo de Lombelho.

    No Alto Douro, o atentado ambiental perpetuado pela EDP, através da construção da barragem da foz do Tua, não se ficou por aí. Agora é a linha de Muito Alta Tensão, projectada para escoar a energia produzida no AHAT (Aproveitamento Hidroeléctrico Alto Tua) para a Rede Nacional de Transporte de Electricidade, que continua o processo de destruição do habitat e das características especiais dessa região.

    matAs linhas de Alta Tensão e os riscos para a saúde

    Têm sido efectuados vários estudos por diferentes grupos de cientistas internacionais sobre a ocorrência de leucemia infantil, alzheimer ou esclerose lateral amiotrófica, resultantes da exposição a longo prazo aos campos electromagnéticos das Linhas de MAT.

    A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera ser possível que campos electromagnéticos de baixa frequência possam estar associados a algumas formas de cancro, nomeadamente a leucemia infantil, recomendando medidas de precaução. No que diz respeito ao campo eléctrico, a OMS considera que só há efeitos sobre o sistema nervoso acima dos 10 kV/m, o que só é possível de atingir muito perto dos condutores de Alta Tensão. Estes limiares correspondem a reconhecidos efeitos agudos e foram traduzidos numa recomendação da OMS de 1998, adoptada pela União Europeia em 1999, e que veio a ser transposta para a lei portuguesa em 2004.

    No entanto, o grupo “Bioiniciativa”[ref]www.bioinitiative.org[/ref], incorporando vários cientistas internacionais, apresentou em 2007 um relatório[ref]BioInitiative Report: A Rationale for a Biologically-based Public Exposure Standard for Electromagnetic Fields (ELF and RF), 31-08-2007[/ref] em que são contestadas as posições da OMS relativamente aos valores padrão considerados prejudiciais para a saúde. Assim, o grupo Bioiniciativa reclama mais medidas e maior precaução contra as fontes geradoras de campos eletromagnéticos, nomeadamente o enterramento generalizado das linhas de Alta Tensão.

    A proposta de enterramento das linhas de MAT, sendo um mal menor, resolve apenas parcialmente o problema de exposição aos campos magnéticos e a destruição de património natural. O enterramento das linhas implica a construção de um corredor de 13 a 14 metros de largura (para um cabo de 400 KVs), o equivalente a uma estrada secundária, aumentando inclusive o campo magnético à superfície desse corredor.

     

    Júlio Silvestre
    Fotos (linhas de MAT em Alfena): Ursula Zangger

     

     

  • A Primavera Bósnia

    A Primavera Bósnia

    Manifestação em Sarajevo, na faixa pode-se ler: “a minha nação é a liberdade”
    Manifestação em Sarajevo, na faixa pode-se ler: “a minha nação é a liberdade”

     

    No início dos anos 90, as potências ocidentais iniciavam a guerra pelo domínio dos novos territórios que a queda do império soviético deixava disponíveis. Pense-se em guerra não apenas como um fenómeno bélico. Pense-se como diplomacia, influência, dependência económica, colonização. Mas pense-se em guerra também como é costume pensar-se nela. Com armas e mortes. No primeiro tipo de pensamento, surgirá, por exemplo, a Polónia. No segundo, o mais certo é a Bosnia-Herzegovina.

    Tal como nas regiões mais a norte, também aqui a primeira grande resposta à queda da chamada “cortina de ferro” foi uma vaga de declarações de independência. A unidade jugoslava, engendrada por Tito, desfazia-se perante as exigências da Eslovénia, primeiro, e da Sérvia e da Croácia, depois. Na Bósnia, o caso tem particularidades importantes. Existem zonas com maiorias culturais diferentes. Uma maioritariamente católica e de ascendência croata, uma outra essencialmente ortodoxa e de ascendência sérvia e, finalmente, por escolhas da História, uma outra parte maioritariamente muçulmana. Ora, as áreas croatas e sérvias declararam deixar de pertencer à Bósnia. Não propriamente para serem independentes, mas para se unirem às suas respectivas “pátrias mãe”.

     

    bosnia_interior2UMA GUERRA PROVOCADA

    Sendo que as zonas com determinadas maiorias não eram geograficamente contínuas nem necessariamente coladas ao país ao qual se queriam unir, o reconhecimento apressado das independências por parte da comunidade internacional acabou por criar a necessidade de que essas zonas passassem a ser contínuas e contíguas. À força se necessário fosse. E foi. O desmembramento duma economia era demasiado apetitoso para que o ocidente pensasse nas consequências. O FMI entrou em 1989, a rapina podia começar.

    Claro que se pode pensar que, num caso assim, não há culpa para além da negligência. Mas isso seria considerar apenas o lado mercantil da tomada de posse dos territórios disponíveis. Lembremo-nos de que a nova arquitectura mundial deixava obsoletas algumas estruturas criadas para a guerra fria, nomeadamente a NATO. Seria lógico que uma aliança militar feita para combater um determinado inimigo se dissolvesse mal a guerra fosse ganha. Mas o domínio mundial não tem apenas um braço económico. E o militar não queria deixar de existir. Era preciso um novo papel, uma nova legitimação. E uma guerra tão sangrenta, desumana e próxima como a da Bósnia, com as suas inegáveis urgências humanitárias, era uma oportunidade demasiado boa para ser desperdiçada. A comunicação social criou o inimigo, os sérvios, e a NATO entrou para salvar os “bons”.

    Dois exemplos que podem ajudar a que alguém se digne a considerar esta hipótese de a guerra da Bósnia, mais do que mero negócio que correu mal, ter sido uma guerra patrocinada e alimentada pelo ocidente:

    O primeiro, o facto de os acordos de Dayton, que puseram fim à mortandade, serem uma cópia muito pouco alterada duma proposta feita no início da guerra (por um diplomata, por acaso português, chamado José Cutileiro) que, tendo os mesmo defeitos que Dayton, poderia, afinal ter poupado meia década de chacina. Assim se tivesse querido. Não o quis o ocidente e a proposta foi rejeitada pela parte muçulmana, basicamente graças ao poder de influência dos EUA.

    O segundo, o facto duma aliança de defesa contra a ameaça soviética se ter tornado numa organização de resposta a crises humanitárias apenas durante a ausência dum inimigo visível – que acabou por surgir com o 11 de Setembro. E, hoje, a NATO já não é uma agência humanitária. É uma agência de contra-terrorismo.

    Para além de que, mais do que o mero desmembramento, a destruição duma economia é uma oportunidade de negócio ainda maior, ou não fossem os braços económico e militar partes dum mesmo corpo. E assim foi nos anos que se seguiram ao fim da guerra. A rapina, com a receita típica do FMI, instalou-se, num habitat político cuja estrutura – resultante dos acordos de Dayton –, composta por dezenas de governos e milhares de cargos, potencia a corrupção. Uma economia à mercê do apetite do mercado e um país à mercê da voragem da indústria da reconstrução em trabalho de proximidade com milhares de políticos corruptíveis.

    “Na Bósnia-Herzegovina, essa política começou por volta de 1989, sob os auspícios do FMI e do Banco Mundial – lembremos que o economista-chefe deste último era na altura Joseph Stiglizt, hoje reciclado em mentor de uma esquerda à procura de mentores. Nesses anos, as privatizações e as restruturações despediram então centenas de milhares de proletários, transformados a seguir em presas fáceis da carnificina inter-étnica da década de 90. Os acordos de Dayton, em 1995, puseram fim ao massacre e selaram o processo de desmembramento do país em entidades nacionais, tão fáceis de governar como de pilhar pelos diversos clãs nacionalistas que se constituíram como novas classes dirigentes. Tudo sob a protecção de centenas de burocratas e funcionários internacionais, bem como de milhares de representantes de ONG, todos encarregados de assegurar o respeitável «negócio da paz», e generosamente remunerados para isso.” [ref]Jorge Valadas, A Receita Bósnia, 30 março 2014 http://goo.gl/mvTXIu[/ref] Assim foi a Bósnia entre o fim da guerra e Fevereiro de 2014.

     

    bosnia_interior3A PRIMAVERA BÓSNIA

    Os trabalhadores de algumas fábricas privatizadas (como Dita, Polihem e Konjuh) estavam, há muito tempo, a protestar pacificamente por razões relacionadas com as privatizações, em alguns casos contra o próprio encerramento da empresa. A 5 de Fevereiro de 2014, a juventude, os desempregados e outras pessoas juntaram-se e o protesto começou rapidamente a escalar. No dia seguinte, a revolta já se tinha espalhando, havendo notícias de Tuzla, Sarajevo, Zenica, Mostar e Bihać, algumas das maiores cidades do país, com a grande parte dos confrontos violentos e dos fogos a acontecerem na sexta-feira, dia 7 de Fevereiro.

    As pessoas tinham ultrapassado a ideia de pertença étnica, tinham percebido que o nacionalismo mais não tinha sido do que uma forma de as porem umas contra as outras para possibilitar a ascensão duma nova classe dominante. E tinham, finalmente, compreendido que o que as une, das dificuldades aos sonhos, é igual para as gentes a quem os lucros e a geoestratégia, independentemente da sua nacionalidade, tiram o sangue e a vida. “As nossas elites trataram as pessoas comuns como animais de circo parvos que apenas precisam de ser adequadamente treinados. Viram-se como treinadores com licença para fazerem connosco o que quisessem. Em tempos, de facto, começámos a tornar-nos em animais selvagens. Humilhados e abusados, a nossa dignidade, sistematicamente destruída, agora tem sede de vingança e brutalidade em relação aos nossos abusadores” [ref]Dejan Vuković, Snapshots from Banja Luka: Why a Social Revolution is imminent, 13 março 2014 – http://goo.gl/IVssnU[/ref]

    Enquanto houve sedes governamentais a arder e confrontos com a polícia, ainda se ouviu falar da Bósnia nos meios de comunicação. Depois, com o acalmar da situação nas ruas, o tema foi abandonado. Precisamente quando começou a ficar realmente interessante. A população passou da contestação à criação dum contra-poder, os Plenums, plenários ou assembleias, onde se discutiam problemas e exigências e se formulavam respostas e soluções. E, se é verdade que chegaram, como aconteceu em Tuzla, a mimetizar o funcionamento do governo, não é menos verdade que as reivindicações se foram radicalizando e que os Plenums conseguiram realmente ter influência prática e concreta no dia a dia. Destituindo governos, alterando leis, diminuindo os ordenados e as regalias dos governantes, conseguindo a libertação de manifestantes presos e a demissão de políticos corruptos, alguns dos quais substituídos por pessoas “sem partido”, eleitas nos plenários.

    Mais do que estes resultados e da beleza de ver a consciência nacional substituída pela consciência de classe, o surgimento (e o funcionamento) destes Plenums é o traço realmente entusiasmante do levantamento bósnio. Porque, mais do que contestação e mais do que resultados relativamente populistas, é de toda uma proposta que se trata. Uma nova forma para organizar a sociedade, pensada de baixo para cima. Uma espécie de democracia directa, baseada em assembleias populares (onde todas as pessoas têm poder e voz iguais), com um governo meramente técnico que executaria as decisões tomadas por essas assembleias (e que seria destituído se não o fizesse). Concorde-se ou não com a proposta, é inegável que os Plenums são muito mais do que uma mera organização da contestação.

    No final de Março, a repressão intensificou-se. Detenções, acusações, despejos, processos judiciais, porrada. Se, antes, era difícil receber notícias da Bósnia, agora ainda o é mais. Mas, independentemente de como estejam as coisas, independentemente de quem está, neste momento, a ganhar, há vitórias que já não se perdem tão facilmente. As redes de solidariedade e luta criadas nos plenários, o abandono do nacionalismo, a consciência da força colectiva e a experiência de poder popular auto-organizado são coisas que podem e devem ficar para durar.

     

  • Derrame de interesses na Praia da Vitória

    Derrame de interesses na Praia da Vitória

    SONY DSCSituado na ilha Terceira (Açores), o concelho da Praia da Vitória alberga a Base Aérea das Lajes, sob o controlo dos americanos desde 1946. Esta serviu, durante muitos anos, como ponto estratégico na Guerra Fria e, apesar da tendência apontar para uma diminuição do efectivo militar na Base, novas tensões entre os EUA e Rússia podem alterar este fluxo.

    Entretanto, um fluxo de outra natureza tem surgido na Base: o dos derrames acidentais dos tanques de petróleo, que têm provocado focos de poluição nos solos. Destes acontecimentos, resultou uma enorme especulação no ano de 2008, ao terem sido descobertos dados confidenciais norte-americanos que davam conta desta poluição, acrescentando ainda que estaria em causa a qualidade da água dos aquíferos de abastecimento público do concelho. O frenesim criado em torno das respostas, levou a Câmara Municipal a pedir um relatório ao LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) sobre a situação ambiental das águas do aquífero basal de abastecimento público. Salienta-se que este é o aquífero com maior relevância para a ilha Terceira. O relatório final apresentado dá conta que “a água de abastecimento público apresenta boa qualidade”, porque a sua captação é realizada a montante dos focos de poluição identificados. Contudo, não exclui a hipótese de uma possível contaminação no futuro, denominando-a uma “situação de risco”.

    O que é inegável é a contaminação dos solos! Esta é evidente e corroborada quer no estudo do LNEC quer por outros estudos realizados. Acontece que, alguns dos solos contaminados continuam a ser usados para a agricultura de subsistência de algumas famílias, pondo em risco a sua vida e de outras pessoas que consomem estes produtos. Embora a Câmara tenha demonstrado preocupação, os esforços pecaram por serem escassos e estão quase esquecidos por muitos, excepto pelos que têm conhecimento e sofrem com o problema.

    Tendo em conta que os Açores são neste momento um destino turístico cada vez mais em voga e onde se promove um local puro e intocado, seria de esperar uma maior cautela no tratamento de assuntos delicados e que colocam em risco esta imagem.

    Pelo contrário, nos últimos tempos, o porto da Praia da Vitória foi oferecido como local de transbordo de armamento químico provindo da Síria, em mais uma demonstração de total entrega e submissão do governo português perante os interesses das “grandes nações”.

    Interessa saber que custo o governo está disposto a pagar, de modo a manter uma imagem “limpa” para o exterior, ao mesmo tempo que acumula a imundice de desprezar e desrespeitar as pessoas e o meio. Talvez um dia todos se lembrem do que agora só podem recordar!

     

  • Flauta de Luz

    Flauta de Luz

    flauta_luz_2_interiorA revista Flauta de Luz é um atestado de quem sofreu ao longo dos anos uma tamanha indigestão com essa “regra segundo a qual a História produzida para consumo dos dominados de hoje deve ser cozinhada pelos vencedores de ontem”… Por via desse diagnóstico – exposto no seu último número por Jorge Valadas – não cessou Júlio Henriques ao longo dos anos a sua veia de escritor, tradutor e editor. Flauta de Luz é a sua mais recente aventura editorial num mapa que percorre a partir de Portalegre, auxiliado agora por este “Boletim de Topografia”, lançado em 2013 e disposto a coligir “textos de vária procedência que tendem para um diálogo subversor dos fundamentos do presente sistema imperial”.

    A revista que em Março passado lançou o seu segundo número, contém textos de análise da situação actual portuguesa vistas a partir das topografias lusas e da reflexão de cronistas (Júlio Henriques, Jorge Valadas ou Miguel Teotónio Pereira) que não se detêm na data redonda dos 40 anos de democracia que viram surgir de forma directa, e muito mesmo nas ladainhas típicas de mitificação dos abris por cumprir. Olham antes para a forma como se deu o desenvolvimento do capitalismo e esta análise faz ponte para aquela que é uma linha mestra da revista: o desmontar peça a peça dessa Máquina, ou antes dessa sociedade “megamáquina em que todas as máquinas se interligam e deixam de ter autonomia”, numa crítica ao incessante desenvolvimento técnico, que outra coisa não é senão a forma como a “complexificação da «sociedade moderna» tem sido a resposta das classes dominantes às tentativas populares para pôr em causa o seu domínio e criar qualquer coisa de decente”. Nesse âmbito encontramos textos de Jacques Ellul (“Autonomização da Técnica”); Christian Ferrer (“In memoriam: os ludditas”) ou dos Amigos de Ludd (“George Orwell, critico da Máquina”) que prosseguem neste nº 2 a selecção iniciada no n.º 1 com Günther Anders, David Watson ou Dieter Sedlmyr. A partir dessa crítica prossegue a Flauta de Luz em demonstrar essa “qualquer coisa de decente” que o homem tem capacidade de criar. A qual surge, uma vez posta de lado a conceção de poder antropocêntrica, através do olhar indígena. Nesse ponto, a revista orienta a bússola à ameríndia e vai-lhe compilando uma antologia poética contemporânea, complemento essencial para entender as propostas de “Indigenismo e comunalidade” (Georges Lapierre e Quim Sirera) que desmistificam essa impossibilidade da recusa da Máquina. Na busca quiçá de idênticos desejos nestas latitudes de quem perdeu o Norte, a leitura desta revista é de todo aconselhável.

     Filipe Nunes

     Flauta de Luz – Boletim de Topografia: Painel da Antiqueira, 39

    Vargem; 7300-430 Portalegre

    flautadeluz1@gmail.com

     

     

     

  • Saiu o nº6 do Jornal Mapa

    Saiu o nº6 do Jornal Mapa

    Acaba de sair o nº6 do Jornal Mapa. A partir de hoje podes encontrá-lo nos locais do costume. Vê aqui a lista.

     

    mapa6EDITORIAL

    As últimas eleições Europeias, a par com outros atos eleitorais dos últimos anos, mostraram que a abstenção tem sido a opção e a escolha mais sensata de boa parte dos portugueses. Ao mesmo tempo, o boicote como forma de protesto surgiu em várias zonas do país, como na aldeia de Gemieira em Ponte de Lima, onde os populares tentaram impedir a abertura da mesa de voto, em protesto contra a linha de muito alta tensão cujo traçado previsto atravessa a aldeia. Por este andar, os abstencionistas serão igualmente os vencedores de outros tantos actos eleitorais futuros. No entanto, nestas últimas eleições foi atingido um novo máximo, e esse Domingo, a 25 de Maio, nem sequer era um bom dia de praia… Imaginem só se fosse…

    Esqueçamos o simulacro da política e os seus resultados, bem comentados na praça pública por profissionais da dissimulação, e concentremo-nos no essencial: a democracia, adornada com o sorriso do cidadão que vota, enfeitada pelo empreendedor que cria valor e perfumada pela insídia da igualdade de oportunidades, é uma perversa mentira. Vejamos, por exemplo, a violência e o caos que os variados corpos de polícia impõem sobre muitos dos habitantes, quando não estão a fazer teatro em frente da assembleia. De facto, a realidade em inúmeros bairros sociais das periferias de Lisboa, Setúbal ou Porto é de permanente estado de sítio e acosso policial. O preocupante é que esta é uma tendência que se alastra ao espaço público no qual todos caminhamos. Os transportes públicos são “protegidos” por empresas de segurança privada que agem sem qualquer tipo de controlo. Estão ainda por registar a maioria dos inúmeros casos de espancamentos que vão tendo lugar em comboios e estações desse Portugal fora. Na mesma linha, o metropolitano de Lisboa lança a campanha mais pidesca e bufa de que há memória na tentativa de lançar para cima daqueles que necessitam de transporte, não só a responsabilidade de controlar os seus vizinhos, mas também a culpa pelos erros de gestão da empresa.

    A ordem e o normal funcionamento das coisas mantêm-se apenas pelo uso continuado da violência. Que o digam a FIFA e a Dilma que, para organizar a Copa do Mundo, têm de mobilizar autênticos exércitos de polícias e corpos de segurança para sitiar bairros e reprimir os protestos de habitantes e moradores, ou os assassinatos de crianças de rua por grupos de exterminadores, para “limpar” as ruas por onde os gringos vão caminhar… Tudo para organizar um evento desportivo megalómano e lucrativo.

    A verdade é que quando a resposta coletiva se faz ver, os abusadores recuam. Do Brasil têm vindo bons sinais e na última semana de Maio em Barcelona, a demolição de um histórico centro social ocupado no Bairro de Sants transformou-se em dias de revolta e luta. Não só o Município recuou, como centenas de pessoas se organizam, neste momento, para reconstruir o edifício, deixando bem claro que é às suas próprias custas que a reconstrução será feita. Como dizia o anarquista Bakunin, cujos 200 anos do nascimento se celebram este ano, “A volúpia de destruir é também uma volúpia criadora”. E vice versa.

     

    Nota do coletivo editorial: como terão notado os leitores do Mapa, a presente edição sofreu um atraso, pelo que pedimos, desde já, a vossa compreensão, esperando que nos continuem a acompanhar nos próximos números.

  • Gulbenkian, filantropia e petróleo

    Gulbenkian, filantropia e petróleo

    gulbenkienrapina_interiorFilantropia é um termo de origem grega que significa “amor à humanidade”. Diz-se que Gulbenkian foi um filantropo. Mas não se diz que criou uma corporação petrolífera bem-sucedida, ainda hoje detida na totalidade pela sua Fundação.

     

    O termo “filantropia” foi criado por um imperador Romano, no ano de 363, pois achava que o “amor à humanidade” era a característica principal das suas atividades, como sinónimo de caridade.

    A Fundação Calouste Gulbenkian, anunciada no Portal de Filantropia, apresenta-se como “criada por disposição testamentária de Calouste Sarkis Gulbenkian. Com um património de 3 mil milhões de euros, atua através de projetos próprios ou em parceria em áreas como a arte, a filantropia, a ciência e a educação distribuindo subsídios, bolsas e apoios. Tem delegações em Paris e em Londres, cidades onde Calouste Gulbenkian viveu. Em Lisboa, tem o Museu Calouste Gulbenkian, o Centro de Arte Moderna, uma biblioteca de arte, orquestra e coro como principais polos de irradiação da sua atividade cultural.” O site refere ainda que “Calouste Sarkis Gulbenkian era um generoso filantropo (…) no seu testamento (1953) deixou bem expresso o seu carácter de filantropo ao legar boa parte da sua fortuna à fundação que quis instituir.”[ref]www.gulbenkian.pt e portaldafilantropia.org[/ref]

    O amor à humanidade não é filantropia. Podemos ver por quem criou o termo. E também pelo exemplo de filantropia distribuído por Gulbenkian e o seu legado. A Partex Oil and Gas talvez terá sido uma das razões pela qual Gulbenkian enveredou pela filantropia. Mas o que tem Gulbenkian a ver com uma petrolífera?

    Retiramos este excerto do site da Corporação: “A Fundação Calouste Gulbenkian é uma instituição privada portuguesa de utilidade pública. Os seus fins estatutários estão no campo das artes, caridade, educação e ciência. Criada pelas premissas estabelecidas numa cláusula do testamento de Calouste Sarkis Gulbenkian, os estatutos da Fundação foram aprovados em 1956.  Os seus principais ativos eram a coleção de arte de Calouste Gulbenkian e os seus interesses internacionais no petróleo, principalmente a participação de 5% na Iraq Petroleum Company (…) A Fundação detem 100% da Partex Oil and Gas Group Companies”

    Apesar da Fundação não fazer segredo disso, poucos são os que sabem da origem dos fundos da Fundação Gulbenkian. As coisas foram mudando quando se começou a ter conhecimento que a Partex é uma das corporações que investe na exploração de gás e petróleo em Portugal. No site da corporação ficamos também a saber que investe em explorações em Angola, Algeria e Brasil.

    Sobre a exploração em Portugal pouco se sabe. O secretismo da corporação segue fielmente o modus operandi do seu fundador. Sabe-se, no entanto, que foram identificados gás de xisto, reservas pré sal, tight gas e fontes “ não convencionais”.

    Este anunciado “novo petróleo” ou gás natural “não convencional” só é possível com a tecnologia que saiu das explorações Tar Sands (areias betuminosas) no Canadá: um “bom exemplo” do comportamento agressivo das corporações petrolíferas ainda hoje. As técnicas necessárias e implicadas como a Fractura Hidráulica e Prefuração Horizontal vêm multiplicar os efeitos nocivos já conhecidos da indústria petrolífera. O investimento em investigação, testes tecnológicos, matéria prima para novas tecnologias, nas infra-estruturas, no lobbying, na propaganda, nos subornos, etc., será refletido negativamente para o consumidor no preço das “energias”. O impacto negativo no ar, na água e na sociedade é já conhecido nos locais onde existem explorações como as pensadas e previstas para Portugal. E vários grupos de cidadãos e ONG ambientalistas, dos direitos humanos e dos direitos dos animais já confrontam as corporações e os seus governos com o impacto das operações para extrair gás e petróleo das chamadas “Oil Shale” (areias betuminosas, gás de xisto, pré sal, etc…).

    Em Portugal a Fundação Gulbenkian é a solução para muitos investigadores nas áreas da ciência e da arte, sendo aproveitados como saída profissional para os interesses financeiros da Partex Oil and Gas. O presidente da Partex é António Costa Silva, professor no Instituto Superior Técnico de Lisboa. Todos no concelho de administração da Fundação passaram ou estão em actividade na Partex Oil and Gas.

     

    gulbenkien_interior2Gulbenkian e Petróleo

    Podemos ler em“Caloust Gulbenkian; uma reconstituição” de Francisco Corrêa Mendes[ref]Francisco Corrêa Guedes “Calouste Gulbenkian: uma reconstituição”, Lisboa : Gradiva, D.L. 1992[/ref] como “o jovem arménio (Gulbenkian) tinha muitos interesses e curiosidades múltiplas e interdisciplinares, nenhum se comparava com o petróleo! E eram, fundamentalmente, 3 as razões para isso. A 1ª a grande intuição do grande futuro daquele produto; a 2ª a de que se tratava do negócio da família e o melhor de todos eles; a 3ª a sua forte convicção de que havia um mar de petróleo para descobrir no imenso Império Otomano. (…)Outras das importantes áreas das cogitações de Gulbenkian foi, portanto, a económica.”

    “Era a miragem do enriquecimento súbito que punha as multidões em movimento: fora assim no ouro da Califórnia, do Canadá ou da Austrália, fora exatamente assim com o petróleo de Oil Creek e de Bacau. Calouste  “desgostava-se” com esta “fase” – mesmo que indispensável – e com o tumulto a que se assistira na Pensilvânia ou no Azerbeijão. Tinha uma aversão instintiva à “populaça…”. “J. D. Rockfeller completava o “quadro de valores” americano com essa compaixão pelos pobres que faz da americana a mais filantrópica sociedade do mundo e aquela também que maior necessidade produz dessa filantropia! De facto uma das eminentes características de Rockfeller foi também a completa ausência de escrúpulos nos negócios e a crueza com que esmagava impiedosamente quem ousasse atravessar-se nos caminhos da construção do seu império. Curioso paradoxo! Sempre pronto a proteger, a amparar, a salvar, os “filhos da desgraça”; sem hesitações nem réstia de misericórdia a lançar na “desgraça os filhos” daqueles que arruinava”

    Gulbenkian seguiu os “quadros de valores” de filantropos petrolíferos como Rockfeller. A história da indústria do petróleo é a mesma para todas as corporações, para todos os investidores. Gulbenkian, além de não fugir à regra, foi um dos “grandes homens” do mundo petrolífero. Como todo o “bom capitalista” não olha a meios para atingir os seus fins. Conhecido em Portugal pela sua fundação filantrópica, pela sua coleção de arte, e pelo apoio científico, a verdade sobre Gulbenkian é disfarçada com um véu de nostalgia.

    Gulbenkian foi empreendedor na Turkis Petroleum Company, mais tarde Iraq petroleum Company. Em 1928, Gulbenkian entrou num contrato celebrado entre a Royal Dutch Shell, Anglo Persian (agora BP), Companie Française des Pétroles (agora Total) e a Near Develoment Company (agora Exxon/Mobil). O grupo resultante desse contrato acaba por criar o “Red Line Agreement” que teve grande influência no futuro desenvolvimento das reservas petrolíferas no Médio Oriente e que levou diretamente ao presente interesse da Partex oil and Gas nos Emirados Àrabes e em Omã. Gulbenkian responsabiliza-se ainda pelo envolvimento da indústria petrolífera no México e na Venezuela. Os problemas entre a indústria das energias e as populações são ancestrais e actuais, as consequências são várias e bem documentadas. Gulbenkian estava no lado dos opressores, apoiando a declaração actual de Warren Buffet: “Existe guerra de classes, claro, mas é a minha classe, a classe dos ricos, que a fazemos, e estamos a ganhar.”[ref]afirmações do multimilionário americano warren Buffett numa entrevista ao jornal “new York times” em 2006. [/ref] Em Portugal a Partex Oil and Gas tem uma participação de 20% off shore na Bacia de Peniche, juntamente com a Petrogal ( 30%) e Petrobrás (50%). As técnicas de exploração são para extração “não convencional”. E apoia todas as investigações diretamente ligadas à exploração petrolífera.

     

    Animais, Petróleo e Gulbenkian

    Só o negócio do petróleo e suas consequências no ecosistema e na vida dos animais não humanos e humanos é suficiente para o recusar como um dos pilares da sociedade humana. Mas falemos das consequências nos animais não humanos. É conhecida a pretensão da Gulbenkian construir um Biotério (centro de criação de animais para testes), juntamente com a Champalimaud. Grande parte dos testes são para cancros, e grande parte dos quais aumentaram ou surgiram depois da Revolução Industrial, instigada pela indústria do petróleo e seus subprodutos. A Shell utiliza animais para testar os seus produtos, utilizando a Huntingdon Life Sciences, conhecida por várias violações dos direitos dos animais. A American Petroleum Institute, que pagou à HLS para testar petróleo, sofreu uma forte campanha por parte da SHAC (Stop Huntingdon Animal Cruelty).  E a Gulbenkian tem actualmente o seu Biotério, onde vários animais são criados para testes. Os ratos são os mais rentáveis, pelo que a Gulbenkian está no programa EMMA (European Mouse Mutant Archive), onde os preços dos ratos podem atingir 3.000 euros. Apoia ainda a investigação em organismos genéticamente modificados, utilizando-a para “fabricar” os animais transgénicos para as suas experiencias.

    Numa altura em que a população mundial procura uma nova direção, que tipo de cultura queremos deixar para as gerações futuras? Crescemos, aprendendo quais são os valores e quem são os valorizados. Escolhemos entre os que a nossa cultura divulga. Mais tarde podemo-nos cruzar com uma cultura alternativa. O petróleo, as escolhas de Gulbenkian e o “laisse fair” político e cultural impedem que o mundo mude para melhor.

    Quanto vale a arte? Quanto vale a Filantropia? Quanto vale a Gulbenkian?

    Quanto vale o gás e petróleo? Quanto vale a Troika? Quanto vales tu?

    Granado da Silva / granadodasilva@dev.jornalmapa.pt