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  • «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra

    Uma declaração de um colectivo composto por feministas internacionalistas iranianas, curdas e afegãs que defende que devemos opor-nos ao ataque assassino que as forças armadas de Israel e dos Estados Unidos estão a levar a cabo contra as pessoas no Irão, recusando-nos ao mesmo tempo a tolerar a opressão perpetrada pelo governo iraniano.

    O colectivo, de nome Roja, redigiu esta declaração em 16 de Junho, o terceiro dia da guerra. Foi originalmente publicada em persa e o Jornal MAPA deitou mão da versão em inglês que aparece no site Crimethink. Muito se passou desde então. Ainda de acordo com este site, o Roja é um colectivo feminista-internacionalista independente com sede em Paris, cujos membros são originários do Irão, do Afeganistão (Hazara) e do Curdistão. O coletivo foi formado em resposta ao assassinato de Jina (Mahsa) Amini pelo Estado e à revolta nacional Jin, Jiyan, Azadi («Mulheres, Vida, Liberdade») em Setembro de 2022. O Roja centra-se nas lutas políticas e sociais no Irão e no Médio Oriente, bem como no trabalho de solidariedade local e internacional em França, incluindo com a Palestina.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    «Mulheres, Vida, Liberdade» contra a guerra
    Estamos contra as duas potências coloniais, patriarcais e belicistas. Mas isto não é passividade. É o ponto de partida da nossa luta ativa pela vida.

    Se Israel conduz as crianças de Gaza para a matança com uma bandeira queer do arco-íris, a República Islâmica do Irão encharca a Síria de sangue sob um pretexto anti-imperialista. Um comete genocídio contra os árabes na Palestina, o outro subjuga as etnias não persas dentro das suas fronteiras. Netanyahu procura usurpar o significado de «Mulheres, Vida, Liberdade» para vestir o seu expansionismo colonial e a sua agressão militar com roupas de «liberdade», enquanto Khamenei investiu todos os recursos na construção de um império xiita, supostamente para combater o ISIS e defender a Palestina.

    De facto, estes dois inimigos de longa data espelham-se um no outro em termos de matança e malevolência. Não devemos equiparar estes dois regimes capitalistas em termos das suas posições na ordem mundial: a capacidade de agressão militar da República Islâmica é, sem dúvida, muito inferior à capacidade de Israel e do seu apoiante imperialista ocidental. No entanto, o sofrimento que infligiu é tão absoluto como a violência do fascismo sionista. Qualquer tentativa de relativizar esse sofrimento, quantitativa ou qualitativamente, é redutora e enganadora. Esse sofrimento abrange múltiplas formas de opressão, incluindo os custos exorbitantes do seu projecto nuclear e a tomada da dignidade humana como refém.

    Esta guerra assimétrica entre Israel e a República Islâmica é, acima de tudo, uma guerra contra nós.

    É uma guerra contra o que criámos na revolta Jin, Jyain, Azadi, o que alcançámos e o que se encontra no seu horizonte potencial: uma revolta feminista, anticolonial e igualitária que não emergiu do poder estatal, mas teve origem nas lutas populares do Curdistão – especialmente as lideradas por mulheres – e que depois ecoou por toda a geografia do Irão.

    É simultaneamente uma guerra contra as classes oprimidas e trabalhadoras: contra as enfermeiras do Hospital Farabi, em Kermanshah, e contra os bombeiros da pequena cidade de Musian, em Ilam, que foram atingidos por ataques aéreos israelitas – os primeiros a 16 de Junho, os segundos duas vezes, a 14 e 16 de Junho.

    Esta guerra visa as infra-estruturas e as redes que sustentam a vida quotidiana nesta região.

    Assumir uma posição clara e intransigente em relação à guerra – condenar a agressão de Israel e dizer «não» à República Islâmica – é a base estratégica mínima para dar forma a uma campanha colectiva que exija um cessar-fogo imediato. «Mulheres, vida, liberdade contra a guerra» não é apenas um slogan; traça uma fronteira nítida em torno de um conjunto de tendências cujas contradições e conflitos são hoje mais claros do que nunca.

    De um lado estão os defensores oportunistas da mudança de regime que, durante anos, apoiaram as sanções ocidentais e norte-americanas, rufaram os tambores da guerra, negaram o genocídio de Gaza – e agora defendem a «libertação» em abjecta subserviência ao seu mestre, Israel. Em suma: os que minimizam o belicismo imperialista ocidental, sobretudo os monarquistas persas-nacionalistas de extrema-direita.

    Do outro lado está o campismo [campism], a posição política que apoia qualquer projecto – por mais autoritário que seja – que se oponha ao bloco ocidental, apresentando-o como «resistência».

    Para além disso, há forças que dão prioridade à luta contra o ataque criminoso de Israel, apelando ao «estado de emergência» ou ao «interesse do povo». Este último grupo acaba por branquear os crimes da República Islâmica no país e no estrangeiro ou por adoptar um silêncio estratégico. Foram estes que, depois de 7 de Outubro de 2023, lançaram avisos sobre o perigo da indiferença em relação ao destino comum dos povos do Médio Oriente – mas, em vez de enfatizarem a luta internacionalista de base, esbateram a linha entre a resistência popular e o poder do Estado. Observaram corretamente que o Irão vem a seguir ao Líbano e à Palestina na chamada «nova ordem do Médio Oriente», mas apenas para minimizar e desvalorizar as lutas das mulheres, das minorias étnicas e das classes oprimidas neste «momento». Os seus avisos permaneceram abstractos porque não disseram uma palavra sobre a apropriação – e monopolização ideológica – do discurso anti-colonial pela República Islâmica desde a revolução de 1979.

    Acreditamos que só traçando estas fronteiras – sublinhando as relações mútuas e inseparáveis entre as múltiplas lutas sociais na região – é que poderemos formar uma frente sólida contra o genocídio de Israel e, simultaneamente, arrancar o discurso anti-colonial ao monopólio da República Islâmica, confrontando os etno-nacionalistas que negam a existência de minorias étnicas e o «colonialismo interno» na República Islâmica.

    Em solidariedade com o destino comum dos povos do Médio Oriente – de Cabul a Teerão, do Curdistão à Palestina, de Ahvaz a Tabriz, do Baluchistão à Síria e ao Líbano – que é a base material da luta internacionalista, dirigimos esta declaração aos oprimidos e aos subjugados no Irão e na região, à diáspora e às «consciências acordadas» do mundo.

    Manifestação em Paris organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

    Morte por bombas e mísseis
    A limpeza étnica perpetrada pelo criminoso Estado israelita não se limita a este dia, a este ano ou mesmo a este século. No entanto, falha geopolítica que se abriu a 7 de Outubro de 2023 ameaça agora engolir a República Islâmica e o povo do Irão por dentro – a uma velocidade espantosa e com uma intensidade chocante – lançando um horizonte sombrio que ultrapassa os nossos limites emocionais e psicológicos.

    Estes podem ser os dias mais críticos das nossas vidas desde a Revolução de 1979.

    Desde a madrugada de sexta-feira, 13 de junho, até segunda-feira, 16 de junho, o exército israelita levou a cabo 170 ataques, atingindo 720 alvos em todo o Irão.

    – Primeira fase: instalações nucleares, bases de mísseis, sistemas de defesa aérea e assassinatos de investigadores e comandantes militares em áreas residenciais – visando dezenas de comandantes de topo do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [um ramo das Forças Armadas iranianas], infligindo um golpe sem precedentes na estrutura de segurança militar do IRGC [corpo de guardas da revolução islâmica].

    – Segunda fase: ataques coordenados a refinarias e depósitos de combustível (Shahran em Teerão e Pars South no Golfo Pérsico), portos, aeroportos e infra-estruturas críticas que afectam não só as artérias militares, mas também a reprodução social e a vida quotidiana.

    – Terceira fase: ataques a símbolos da autoridade governamental – ministérios, edifícios oficiais e a principal agência de radiodifusão da República Islâmica em Teerão – o núcleo central de interrogadores, torturadores e propagadores de ódio. Uma instituição mediática com um historial de quatro décadas a fabricar dossiers, a espalhar mentiras e a difamar os pobres, as mulheres, os emigrantes afegãos e os dissidentes políticos.

    Em todas estas fases, contrariamente às promessas sedutoras dos propagandistas fascistas que vendem a liberdade através de bombas, o que se verificou não foram «ataques pontuais» a alvos militares, mas sim o massacre indiscriminado de civis, mulheres e crianças. Até 15 de Junho, pelo menos 600 pessoas foram mortas e 1277 ficaram feridas. [No momento em que publicamos este artigo, os números são consideravelmente mais elevados].

    Em resposta, a República Islâmica tinha lançado mais de 350 mísseis e drones contra Israel até 16 de Junho. Um dos principais ataques teve como alvo o norte de Israel, incluindo Haifa – o núcleo industrial estratégico e um centro logístico de energia. Embora a maioria dos projécteis tenha sido interceptada pelos sistemas de defesa das forças armadas israelitas e dos seus aliados, vários atingiram zonas civis. Até ao momento da elaboração deste relatório [16-18 de Junho], foram mortos 24 israelitas, incluindo quatro mulheres de uma única família.

    Nesta situação terrível, a República Islâmica não só abandonou uma população aterrorizada – não conseguindo fornecer sequer os serviços mais básicos, como informação pública transparente, abrigos antiaéreos ou sistemas de alarme – como também intensificou o controlo do Estado: destacando esquadrões de choque, erguendo postos de controlo nas cidades e afiando a sua lâmina para execuções sob o pretexto de «espionagem para Israel». Embora isto não seja surpreendente em tempo de guerra – na verdade, é sintomático da incapacidade do regime para garantir a segurança – traz consigo a ameaça sussurrada de «pendurar traidores em todas as árvores». Esta lógica flui naturalmente de um regime cuja própria sobrevivência depende da repressão interna, das execuções, da militarização da vida quotidiana e da expansão regional implacável.

    Faixa da ROJA numa manifestação em Paris contra o genocídio na Palestina

     

    Representação colonial e normalização da guerra
    A «guerra contra o terror» – o projecto imperialista que derramou sangue no Afeganistão e no Iraque no início do século XXI – passou agora o testemunho a Israel: um ataque «preventivo» destinado a conter a ameaça nuclear iraniana [ref] Embora o programa nuclear da República Islâmica tenha sido, desde o início, um processo dispendioso e antidemocrático com graves consequências ecológicas – impulsionado pelos Guardas Revolucionários para garantir a sobrevivência do regime nas competições geopolíticas regionais e globais, Embora não reconheçamos nenhum «direito» à República Islâmica ou a qualquer outro Estado de adquirir armas nucleares e acreditemos que as armas nucleares e a corrida global a elas devem ser totalmente desmanteladas, o ataque de Netanyahu baseia-se, no entanto, numa narrativa falsa, que faz lembrar a invasão do Iraque pelos EUA sob o pretexto de eliminar as «armas de destruição maciça»: ou seja, que o Irão está a poucos passos de construir «a bomba». Embora a República Islâmica tenha, de facto, aumentado significativamente as suas reservas de urânio próximo do grau de pureza para armas, não há provas de uma decisão de construir uma bomba nuclear. Mesmo que partamos do princípio de que a República Islâmica adquiriu uma bomba, são os próprios povos da geografia política do Irão que têm de decidir o seu destino com autonomia e autodeterminação – e isso não justifica de forma alguma o ataque militar de Israel.[/ref]. Mais uma vez, repete-se o guião dominante nos média: Israel tem como alvo apenas «locais militares», utilizando «mísseis de precisão» e «drones inteligentes» para dar liberdade e democracia ao povo iraniano.

    Mas esta narrativa não se refere a Parnia Abbasi, o poeta de 24 anos assassinado em Sattarkhan, Teerão. Não faz qualquer menção aos assassínios de Mohammad Ali Amini, o atleta adolescente de taekwondo, ou de Parsa Mansour, jogador nacional de padel. Nem um sussurro sobre Fatemeh Mirheidar, Niloufar Qalewand, Mehdi Pouladvand ou Najmeh Shams. Não se tratava de «alvos militares» nem de «ameaças nucleares» – apenas de seres humanos, cujos corpos foram desmembrados no silêncio mediático global, retalhados por mísseis israelitas. Esta é apenas a ponta do icebergue da «liberdade» que Israel – apoiado pelo Ocidente – pretende introduzir através do amontoado de cadáveres e de devastação.

    As forças reaccionárias que reduzem a «mudança de regime» a uma mera remodelação política a partir de cima – sem qualquer transformação social real – estão agora a abraçar abertamente o seu salvador de longa data, Israel. Os monárquicos transformaram as vítimas dos bombardeamentos em estatísticas, declarando sem vergonha: «A República Islâmica executa milhares de pessoas todos os anos, por isso a morte de dezenas ou centenas por Israel é justificável». Esta é a mesma lógica desumanizante – o cálculo quantitativo da morte – que os Estados Unidos utilizaram para justificar a destruição de Hiroshima e Nagasaki: «Se a guerra continuar, morrerão mais pessoas, por isso, lancem a bomba».

    A morte de civis nos recentes ataques de Israel, o aumento do controlo estatal no Irão, a destruição de infra-estruturas sociais – nada disto são «erros não intencionais» ou danos colaterais. São a lógica da guerra, especialmente quando conduzida por um regime como o de Israel. A conhecida alegação de que os civis ou locais não militares estão a ser utilizados como «escudos humanos» – outrora invocada em Gaza, agora utilizada para justificar ataques à Prisão de Dizelabad e ao Hospital Farabi em Kermanshah – é uma distorção deliberada, utilizada para mascarar e inverter a verdade desta lógica exterminatória.

    Não existem «ataques justos ou «bombardeamentos justos». As experiências históricas do Iraque, do Afeganistão e da Líbia – sim, a mesma Líbia que Netanyahu cita abertamente como modelo para a mudança de regime no Irão – atestam esta verdade com sangue.

    Manifestação em Paris, organizada por: Roja, Feminists4Jina e Socialist Solidarity.

     

    «A Nova Ordem do Médio Oriente»: Porque é que Israel atacou o Irão?
    A escala sem precedentes dos ataques de Israel indica que Israel está a tentar conseguir uma mudança de regime em grande escala – ou o colapso do regime. Não podemos descartar a Operação «Leão em Ascensão» como uma mera extensão da hostilidade de longa data entre os dois Estados. Está enraizada num processo regional mais vasto que teve início a 7 de Outubro com um golpe no chamado «Eixo da Resistência» e que atingiu agora profundamente o núcleo das estruturas de poder de Teerão.

    O ataque de Israel à República Islâmica marca o último capítulo de uma transformação mais vasta da geopolítica e da economia do Médio Oriente.

    Gaza, para Israel, não é apenas um campo de batalha – é um projetco de colonização. O ataque a Gaza é uma campanha para exterminar ou expulsar mais de dois milhões de palestinianos e transformar a costa ensanguentada na visão de Trump de uma «Riviera do Médio Oriente» – praias de luxo, casinos e uma zona de comércio livre para brancos.

    Passo a passo, Israel expulsou o Hezbollah do sul do Líbano, destruindo as suas infra-estruturas, matando comandantes e desmantelando a sua máquina de guerra. O mesmo está agora a acontecer com a IRGC. Na Síria, um regime apoiado pela Rússia, pelo Hezbollah e pelo IRGC – à custa de meio milhão de mortos e doze milhões de desalojados – desmoronou-se abruptamente perante os rebeldes apoiados pela Turquia. O corredor Xiita Teerão-Beirute, outrora uma artéria estratégica que ligava o Irão ao Mediterrâneo, tornou-se o seu calcanhar de Aquiles – a pista através da qual os aviões de guerra o atacam agora.

    Na nova ordem imposta no Médio Oriente, um bloco de poder capitalista israelo-americano está a remodelar agressivamente a região através de rotas logístico-económicas (o Corredor Índia-Médio Oriente-Europa), da normalização político-económica (os Acordos de Abraão) e do militarismo expansionista sob a forma de genocídio e anexação de Gaza [ref]A operação «Dilúvio de Al-Aqsa» de 7 de Outubro pode ser interpretada no contexto desta nova arquitectura de dominação: como uma tentativa de perturbar o projecto de normalização de Israel através dos Acordos de Abraão e de interferir com uma das rotas mais vitais do fluxo de capital transnacional – que começa na Índia, passa pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, chega a Israel e se estende daí até às costas da Grécia, no Mediterrâneo.[/ref].

    No meio da desintegração do «Eixo de Resistência», a doutrina de longa data do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica de «nem guerra nem paz» – uma estratégia de crises fabricadas e de uma calculada atitude de brinkmanship [jogo de cintura, malabarismo] – entrou em colapso. Durante anos, o regime usou confrontos limitados e controlados como arma para evitar tanto a guerra total como a paz genuína. Hoje, vê-se exposto num campo de batalha onde as regras mudaram irrevogavelmente.

    Este colapso, agravado pela perda total de legitimidade interna do regime – marcada pelas revoltas em massa de Dezembro de 2017, Novembro de 2019 e o movimento «Mulheres, Vida, Liberdade» -, constitui um golpe final. A República Islâmica já não pode gerir, adiar ou exteriorizar as suas crises. Não tem legitimidade a nível interno e não tem qualquer influência estratégica na região. É um resquício queimado numa ordem militarizada e multipolar emergente.

    Neste vórtice de sangue, os Estados Unidos – correndo contra a China e manobrando através da Rússia – esforçam-se por recuperar a sua hegemonia fracturada. Netanyahu agarra-se à guerra sem fim como bilhete para a sua sobrevivência interna. E dentro do aparelho dirigente da República Islâmica, muitos pretendem agora tornar-se eles próprios instrumentos de mudança de regime. Entretanto, o povo continua refém de uma guerra que não é sua, uma guerra que não oferece qualquer horizonte de libertação.

    Não à repetição da Líbia, Não ao massacre do verão de 1988

    Recordar o caminho percorrido desde a «bênção» da guerra Irão-Iraque para a consolidação da República Islâmica nos seus primórdios até à execução em massa de presos políticos pelo regime no Verão de 1988 é hoje tão urgente como recordar o percurso imperialista que conduziu à «Líbiazação» [ref] A «Líbiazação» refere-se a uma estratégia imperialista em que um Estado é primeiro pressionado diplomaticamente para se desarmar – muitas vezes sob o pretexto de acordos internacionais ou preocupações humanitárias -, depois sujeito a uma intervenção militar e, por fim, empurrado para o colapso do Estado e para um caos prolongado. O termo é inspirado no caso da Líbia, onde o regime de Kadhafi foi persuadido a abandonar os seus programas de armamento, mais tarde alvo de uma campanha militar liderada pela NATO, em 2011, e acabou por se desintegrar num país fragmentado e devastado pela guerra. [/ref] de toda uma sociedade.

    A história das «intervenções humanitárias» no Iraque e no Afeganistão – quer sob o pretexto de «armas de destruição maciça» ou de «crimes contra a humanidade» – tem de ser lida em conjunto com a história das lutas no Irão que, desde antes da Revolução de 1979 até hoje, deram erradamente prioridade ao anti-imperialismo acima de tudo. Do mesmo modo, a história colonial de Israel – desde a Nakba de 1948 até à traição de Nasser ao pan-arabismo em 1967 – tem de ser compreendida do ponto de vista do Sara turcomano e do Curdistão, locais de colonialismo interno.

    Durante mais de uma década, os ideólogos da «ilha de estabilidade» (o nome que os campistas deram em tempos à República Islâmica do Irão) utilizaram o medo da «síriazação» para envergonhar as lutas populares independentes e chamar o povo às urnas, vendendo a intervenção sangrenta do IRGC na Síria como uma estratégia de dissuasão para evitar a «síriazação» do Irão. Basta recordar esta história para justificar um «não» decisivo ao discurso dos campistas – um discurso que, em vez de se apoiar no poder popular organizado a partir de baixo, se inclina para a realpolitik e, em nome do anti-imperialismo, trata o inimigo do inimigo como um amigo, mesmo quando ele é igualmente mau.

    Há cerca de 45 anos, no início da Guerra Irão-Iraque, alguns grupos progressistas enveredaram pelo nacionalismo – tratando a guerra como um acontecimento «nacional». Isso só serviu para consolidar o regime autoritário islâmico. Alguns mantiveram-se silenciosos enquanto a República Islâmica usava a palavra «imperialista» para justificar a imposição do véu obrigatório às mulheres e o envio de tropas para o Curdistão; outros, embora tenham falado, não conseguiram mobilizar a opinião pública contra o inimigo interno, feito à imagem de um inimigo externo, ajudando assim a normalizar uma hierarquia centrada no homem/persa/xiita.

    Neste momento – quando a narrativa do «estado de emergência» sugere que se trata de um momento excecional e desconexo -, não há maior imperativo do que invocar uma memória histórica plural e multifacetada. Só a partir de uma memória histórica heterogénea e com várias vozes – do ponto de vista dos povos oprimidos – podemos dizer «não» ao imperialismo, ao controlo estatal baseado na guerra e ao campismo, tudo ao mesmo tempo. Ao projeto de recordar essa história estratificada – de Cabul a Gaza, através de destinos e diferenças partilhados – apelamos ao internacionalismo.

    Num mundo que oscila entre a militarização fascista e as guerras aparentemente intermináveis, o nosso caminho reside na organização activa e de massas para um cessar-fogo imediato, para a paz e para a reprodução da vida contra a máquina da morte. O nosso campo de acção não está alinhado atrás de Estados nem investido em lançar-lhes olhares esperançosos , baseia-se no cuidarmos umas das outras, na ajuda mútua e na construção de uma rede de apoio, consciência e solidariedade – desde as idosos e crianças até às marginalizadas e deficientes – como testemunhámos magnificamente na revolta Mulher, Vida, Liberdade, em que a solidariedade entre as oprimidas se tornou uma força para viver, resistir e criar.

    A transparência da informação e a consciencialização – sem reproduzir as narrativas israelitas ou da República Islâmica – devem ser os pilares desta resistência cultural e política.

    Submetermo-nos ao fatalismo e pintar um futuro apocalíptico em que tudo já acabou são formas de reproduzir a lógica da morte. Contra essa noção de futuro, o que é absolutamente urgente é moldar uma campanha de massas que vise o cessar-fogo imediato e a abertura de um horizonte de libertação:

    Mulheres, Vida, Liberdade contra a Guerra
    Berxwedana Jiyan e
    Resistência é Vida
    Palestina Livre
    Roja
    18 de junho de 2025

    Para conheceres os antecedentes do movimento Jin, Jiyan, Azadi («Mulher, Vida, Liberdade») no Irão, lê isto; para mais informações sobre a revolta que eclodiu em 2022, começa aqui.

  • UE considera que Israel comete crimes, mas…

    UE considera que Israel comete crimes, mas…

    A análise do serviço diplomático da UE (Serviço Europeu para a Ação Externa – SEAE) e da Comissão Europeia sobre se as acções de Israel merecem o congelamento do seu acordo de associação foi divulgada na íntegra pela primeira vez pelo site EUobserver.

    O documento «restrito», de oito páginas, foi distribuído às embaixadas dos Estados-Membros em Bruxelas na sexta-feira (20 de Junho). Nele, a UE corrobora as alegações da ONU de que Israel é culpado de «ataques indiscriminados… fome… tortura… tortura … [e] apartheid» contra os palestinianos.

    Entre outras coisas, o relatório conclui que «com base nas avaliações efectuadas pelas instituições internacionais independentes, há indícios de que Israel estaria a violar as suas obrigações em matéria de direitos humanos, nos termos do artigo 2º do Acordo de Associação UE-Israel”, o que é motivo para o congelamento desse tratado com 25 anos, e que poderia custar a Israel mil milhões de euros por ano em benefícios comerciais.

    «A fuga de informação do SEAE deixa bem claro que as instituições da UE sabem muito bem o que está a acontecer em Gaza (…) e que não o negam, nem procuram justificá-lo de uma forma bizarra», disse H.A. Hellyer, do Royal United Services Institute, um grupo de reflexão com sede em Londres.

    «Se a UE não atuar de acordo com as conclusões deste documento, a sua credibilidade será incrivelmente prejudicada», afirmou Hellyer, numa altura em que os ministros dos Negócios Estrangeiros e os líderes da UE se preparam para discutir o seguimento a dar a este documento em Bruxelas, esta semana.

    Lembremos que um anterior relatório do Serviço de Negócios Estrangeiros da UE sobre Israel, realizado em Novembro passado, também falava de «crimes de guerra» israelitas, mas não deu origem a qualquer acção.

    Desta vez não deve ser diferente: o projeto de conclusões para a cimeira da UE da próxima quinta-feira, a que o EUobserver teve acesso, deixava em aberto, de acordo com este site, «o que os dirigentes da UE tencionavam dizer sobre o documento de Kallas, deixando-os livres para “tomar nota” passivamente, em vez de subscreverem corajosamente as suas conclusões».

    Foto: Outros Ângulos
  • Escritórios da Savannah Resources atacados

    Escritórios da Savannah Resources atacados

    Na madrugada de dia 19 de Junho, «um grupo de pessoas solidárias com a população residente na região do Barroso» entrou nas instalações da Savannah Resources, em Carreira da Lebre, Boticas, tendo danificado os seus veículos, pintalgado a fachada de vermelho e escrito a frase «Não à mina».

    Tendo em conta que, perante «uma forte oposição dos residentes e de várias associações e organizações ambientais» ao projecto de mineração, a empresa britânica «adoptou uma postura autoritária de atropelo das vontades locais», este grupo de pessoas considera «este acto de violência legítimo, proporcional e provocado pela falta de alternativas».

     

    Vídeo da acção AQUI

    Comunicado completo:

    Um grupo de pessoas solidárias com a população residente na região do Barroso entrou, na madrugada de dia 19, nos escritórios da Savannah Resources, em Carreira da Lebre, Boticas. Danificou os veículos da empresa britânica, pintou a fachada de vermelho e escreveu a frase: “NÃO À MINA”.

    Esta ação vem como resposta a um projeto que procura explorar as reservas de lítio da região e lucrar com a destruição das Serras do Barroso, das quais as populações locais dependem, parte de uma região considerada património mundial pela FAO.

    Desde o início que o projeto tem encontrado uma forte oposição dos residentes e de várias associações e organizações ambientais que alertam para os riscos ambientais e sociais inerentes à mina. Ao longo do processo, esta empresa adotou uma postura autoritária de atropelo das vontades locais, como se pode verificar pelas duas servidões administrativas que pediram, para aceder à força a terrenos, já que não conseguem a permissão dos proprietários para entrar neles. A Savannah Resources mostra assim que só à força e contra a população poderá avançar com o projeto.

    A Savannah Resources quer-nos convencer que o futuro verde é esburacar património mundial e transformar estas serras em zonas de sacrifício para uma indústria de automóveis elétricos que em nada resolverá a crise climática que atravessamos. Em nome do crescimento económico, querem açambarcar terras, poluir águas e destruir os montes e as serras barrosãs contra as populações locais. E o Estado, o governo e a União Europeia, que deviam proteger a sua população, pavimentam-lhes o caminho.

    Nos últimos anos, a população tem usado todas as ferramentas ao seu dispor para lutar contra esta violência. Organizaram encontros, convocaram protestos, deram entrevistas a meios de comunicação social, falaram com representantes políticos e até recorreram aos tribunais de forma a cancelar a licença de prospeção e exploração da empresa. Todos estes esforços têm sido em vão. É por isso que, em solidariedade com a população barrosã, decidimos recorrer a outro meio. 

    Consideramos este ato de violência legítimo, proporcional e provocado pela falta de alternativas. O mesmo não se pode dizer da violência constante que a empresa exerce sobre a população, atacando sonhos, comunidades e projetos de vida, pondo o lucro acima das pessoas. É por isso uma violência ilegítima e desproporcional. Escalamos a resistência porque reconhecemos que os meios que os habitantes locais têm, com esforço, empregado, se estão a esgotar. Se tudo o que a Savannah Resources pretende é lucrar com a destruição de ecossistemas e comunidades, deixando-nos a todos mais pobres, cá estaremos para resistir. Não à mina!

  • Argentina: líder mapuche é acusado pelos poemas que escreveu na prisão

    Argentina: líder mapuche é acusado pelos poemas que escreveu na prisão

    texto e imagem de Silvia Beatriz Adoue

    11 de junho de 2025. Tem militantes que são poetas e poetas que são militantes. Muitos deles são perseguidos e o Estado mete-os na prisão. Este é um caso excepcional em que as provas de acusação são os poemas e suas falas no lançamento do livro “Entre rejas: antipoesía incendiaria”. Ao frio e névoa da noite de 8 de junho, foi detido o lonko (autoridade política e social mapuche) Facundo Jones Huala, na rodoviária da localidade de El Bolson, pela Polícia Federal Argentina, sem ordem judicial, apresentada aos advogados do lonko 40 horas depois.

    Facundo Jones Huala, o mais velho de 6 irmãos, nasceu há 38 anos em Furiloche (conhecida como Bariloche), localidade do Puelmapu, território mapuche ao Leste da cordilheira dos Andes. Como weichafe (combatente), participou nas lutas pela recuperação de terras ancestrais de um lado e de outro da cordilheira dos Andes. No Ngulumapu, território mapuche ao Oeste da cordilheira, participou na luta contra a instalação de uma hidro-elétrica no rio Pilmaiken, no setor do Wenuleufu (literalmente Rio do Céu, que os colonizadores batizaram como Río Bueno), por uma empresa escandinava. Foi preso junto com a machi (autoridade espiritual mapuche) Millaray Huichalaf, que cumpriu a sua pena em liberdade. Durante o julgamento, Facundo deslocou-se a Puelmapu e foi condenado in absentia. Como lonko e membro da Resistência Ancestral Mapuche (RAM), recuperou terras usurpadas pelo Estado argentino, já ocupadas pela transnacional Benetton, que, apenas na região do rio Chubut, se apropriou de 356 mil hectares, explora gado ovino, planta pinho e tem concessões mineiras. Foi preso pelo Estado argentino e deportado para o Chile, onde foi julgado e onde cumpriu parte da pena. Fugiu novamente para o Puelmapu, onde foi preso mais uma vez e deportado. Foi mantido preso para além do tempo de pena que lhe tinha sido imposta, realizando diversas greves de fome, tanto sozinho como com outros presos políticos mapuche, na prisão de Temuco. Durante esse último período, o seu irmão Fausto, também combatente, tirou a própria vida. Fora da prisão e expulso pelo governo do Chile, voltou a Puelmapu, onde, no dia 2 de fevereiro deste ano, lançou “Entre rejas: aintipoesia incendiaria”, em grande parte escrito na prisão.

     

    Durante o lançamento, na pequena Biblioteca Aimé Paine, em Furiloche, província de Rio Negro, o lonko fez uma exposição sobre o seu livro e respondeu a perguntas sobre a cultura e a luta mapuche. Alguns dos temas abordados durante o encontro, que foi filmado, foram o colonialismo; as coincidências com o militante e escritor martinicano Frantz Fanon; o autonomismo mapuche; a usurpação das terras pelos Estados argentino e chileno, e a entrega dessas terras a latifundiários e empresas transnacionais; as sabotagens à infraestrutura do capital, e as formas de luta anticolonial.

     

     

    O lançamento do livro coincidiu com episódios de grandes queimadas em todo o Puelmapu, resultantes da mudança climática e de ação criminosa para favorecer o negócio imobiliário, florestal e mineiro, que pretende mudar o uso da terra. As políticas de ajuste, com a consequente retirada de recursos públicos para a prevenção e combate a incêndios, também contribuiu para a expansão de fogos incontroláveis. As comunidades mapuche e os demais habitantes da região auto-organizaram-se em brigadas para apagar os incêndios. A ministra de Segurança, Patricia Bullrich, responsável pela prevenção e combate às queimadas, assim como o governador da província patagónica de Chubut, Ignacio Torres, apressaram-se a apontar mapuches e brigadistas em geral como incendiários. Justamente aqueles que estavam a apagar os fogos!

    A ocasião bastou para o oportunismo da ministra Patricia Bullrich e do governador Ignacio Torres, que acusaram o lonko de apologia do delito, sem qualquer denúncia formal, ao mesmo tempo que o governador fazia batidas barbarizando lof mapuches (unidades territoriais habitadas por famílias ampliadas) em Chubut. Seis dias depois do lançamento do livro, o porta-voz presidencial, hoje presidente de câmara eleito da Cidade Autónoma de Buenos Aires, Manuel Adorni, deu a conhecer a inclusão da RAM na lista das organizações terroristas como uma decisão do poder executivo, quando o procedimento legal exige uma posição do poder legislativo. No entanto, nenhum processo judicial foi aberto contra o seu militante mais público, Facundo Jones Huala. Perante a preocupação manifestada pelos seus advogados, o governo confirmou que não havia qualquer processo aberto contra ele. Porém, um mês antes, o lonko tinha sido convocado para uma audiência judicial onde tinha sido informado que estava a ser investigado no seguimento de uma acusação feita em abril, que haveria sigilo enquanto durasse a investigação, e que haveria uma nova audiência no dia 12 de junho. Também sua mãe foi objeto de trabalho de inteligência, quando, recentemente, foi seguida pela inteligência do Estado. Na noite do dia 8, sem acusação formal, quatro dias antes da anunciada audiência, Facundo Jones Huala foi detido, para sua surpresa, quando se estava a preparar para voltar ao campo, onde está o seu domicílio. Foi levado para Furiloche, para uma sede policial cercada com tapumes de ferro, à frente dos quais se pôs sua mãe.

     

    No dia 11 foi realizada a audiência, que deveria ter sido pública e não foi. Nela foram expostas as acusações de “intimidação pública, incitação à violência coletiva, apologia do crime e associação criminosa”, segundo a denúncia da ministra Patricia Bullrich. O juiz de Bariloche, Ezequiel Andreani, ditou 90 dias de prisão preventiva na prisão de Rawson, a mais de mil quilómetros da sua família. Mas a condenação, no dia anterior, da ex-presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, a 6 anos de prisão, eclipsou o processo irregular de Facundo. Durante uma mobilização em Furiloche contra a condenação de Kirchner, uma senhora idosa entrevistada na rua disse: «a situação é muito grave, prenderam o lonko Facundo Jones Huala, daqui, e sabe por quê?». Não esperou pela resposta da entrevistadora. «Ele escreveu um livro». Essa senhora entendeu o tamanho da barbárie do Estado argentino. As poesias não foram apenas tratadas como prova, elas foram, em si mesmas, o crime perpetrado por Facundo.

    Sabemos que o Estado argentino, assim como o chileno, usurpou o território mapuche, para colocá-lo à disposição para extração de matérias-primas de exportação. Entregou essas terras para latifundiários e empresas transnacionais. Para isso, exterminou e escravizou as gentes da terra. Mapuches como Facundo Jones Huala, conscientes da sua responsabilidade com essa terra, combatem contra os que a destroem, com todos os meios de que dispõem… inclusive com poemas.

    Longa vida ao povo mapuche!

    Liberdade ao lonko Facundo Jones Huala!

    Longa vida à poesia revolucionária!

    [a filmagem do encontro de lançamento do livro “Entre rejas: aintipoesia incendiaria”, em Furiloche, pode ser vista aqui]

  • «Guerra à guerra»: das lutas ecologistas ao complexo militar-industrial

    «Guerra à guerra»: das lutas ecologistas ao complexo militar-industrial

    Em França a coligação «Guerra à guerra» anunciou uma primeira ação comum por ocasião do salão da aviação militar em Le Bourget, no próximo dia 21 de junho, onde a presença de empresas militares israelitas foi confirmada por Macron. Soulèvements de la Terre (Insurreições da Terra), um movimento de resistência no território francês nascido em 2021 e que tem levado a cabo diversas lutas contra megaprojetos industriais, anunciou a sua adesão a essa coligação, que se apresenta como agregando «numerosos coletivos e indivíduos de todos os horizontes, com o objetivo de desarmar a máquina de guerra e relançar um antimilitarismo popular.»

    Em comunicado disponível na página, também em português, dos Soulèvements de la Terre, este grupo justifica a sua adesão «porque nos recusamos a permanecer espectadores diante da intensa retomada dos bombardeamentos em Gaza e dos planos de deportação da população palestina; porque nos recusamos a ser reduzidos à impotência diante da ofensiva antisocial e antiecológica conduzida em nome da economia de guerra; porque nos recusamos a que, às portas de Paris, sejam realizadas transações mortíferas entre cúmplices de genocídios e crimes de guerra. Contra a marcha forçada da economia de guerra e face ao genocídio na Palestina, estaremos lá.»

    Num seu apelo à mobilização do próximo dia 21 de junho – e que pode ser lido AQUI – denunciam a lógica da guerra que é dominante no discurso mediático e governamental, recordando que «as guerras, mesmo as mais distantes, são fabricadas perto de nós. A França é o segundo maior exportador de armas do mundo. A proliferação de conflitos armados é um negócio lucrativo para ela. É cúmplice dos massacres de civis na Palestina e no Sudão. Deixa as suas empresas contornarem o embargo para entregar armas à Rússia. Continua a operar em vários países por meios militares, abertamente ou nos bastidores, para saquear matérias-primas, urânio ou níquel. Procura sempre manter o seu domínio imperial sobre parte da África e do Indo-Pacífico.»

    Simultaneamente impõe-se a lógica da militarização e «há já muito tempo, no território nacional, onde se reforça um continuum de segurança entre o exército, a polícia e as fronteiras. Este visa o “inimigo interno”: os estrangeiros, os muçulmanos, marginalizados, os opositores políticos (…) Não nos enganemos, em matéria de política interna, o apelo à “remilitarização” marca a perpetuação de um estado de exceção que se tornou a norma. É um salvo-conduto concedido ao Estado reduzido ao seu aparato mais simples: um órgão militar e policial gangrenado pela extrema-direita.»

    A relação das lutas ecologistas ao complexo militar-industrial é por demais evidente. Para os Soulèvements de la Terre, «se as lutas ecológicas e antimilitaristas foram durante tanto tempo complementares, é porque existe uma continuidade entre as infraestruturas de guerra e as de destruição da terra». As guerras «são o instrumento e o motor do extrativismo desenfreado e da apropriação da água, do petróleo, do gás, dos minerais e das terras agrícolas.» e «as reconfigurações geopolíticas em curso marcam uma nova etapa desse processo de pilhagem».

    Nesse contexto, referem, e «face a esta interligação entre o complexo militar-industrial e as infraestruturas que devastam a terra, temos de repensar hoje a articulação entre as nossas resistências ecológicas locais e a luta internacional contra as guerras imperialistas. Quando lutamos contra a empresa ST Micro-electronics em Grenoble, em março de 2025, opomo-nos, num mesmo gesto, à apropriação da água, à sua contaminação e à fabricação de componentes eletrónicos que acabam nas mãos dos exércitos israelita e russo. Quando visamos as instalações da Lafarge-Holcim, multinacional que será julgada no outono por financiamento do terrorismo (Daesh), visamos tanto os atores da artificialização na França quanto um grande predador de guerra no Médio Oriente.»

    O grupo francês não evita ainda declarar-se afim nem do pacifismo, nem da união sagrada. «”Guerra à guerra” foi o grito de Rosa Luxemburgo e Jean Jaurès na véspera do grande massacre de 14-18. A fórmula resume hoje o paradoxo que nos move: somos contra a própria lógica do complexo militar-industrial, mas assumimos que, na Palestina, na Ucrânia ou em qualquer outro lugar, os povos não podem defender-se sem armas contra as invasões imperialistas, coloniais ou as ditaduras que os oprimem. As possibilidades de autodeterminação popular, com as quais nos solidarizamos, dependem de meios muito concretos para enfrentar as guerras. (…) Elas inventam e mantêm equilíbrios precários entre as necessidades da luta armada e o ideal da soberania popular, entre as dinâmicas da militarização e as da emancipação.» Assim, o grupo no seu «compromisso face ao complexo militar-industrial segue uma linha de equilíbrio: nem oposição moral de princípio a toda a guerra, isentando-nos de tomar partido nos conflitos em curso; nem aliança à união sagrada por trás do “nosso” Estado-nação, inação face à corrida ao armamento e aceitação passiva dos sacrifícios que ele nos quer impor em seu nome.»

    No dia 21 de junho, no salão da aviação militar em Le Bourget, as palavras dão lugar à ação.

     

  • Agricultura e ecologia, uni-vos!

    Agricultura e ecologia, uni-vos!

    Golegã acolhe II Confluência pela Agroecologia, 20-22 Junho

    Tecer redes para a transição em Portugal é o mote da segunda edição da Confluência pela Agroecologia que este ano acontece de 20 a 22 de Junho na Golegã. Com um programa fértil em trocas de experiências, visitas a quintas, conversas e sessões de trabalho, o evento convida à participação todas as pessoas implicadas na construção de um sistema agroalimentar mais justo, sustentável e resiliente.

    No cardápio, destacam-se as “rotas pela agroecologia”, com visitas a várias quintas da região, uma sessão em torno do 50o aniversário da Reforma Agrária e a participação de redes internacionais como a Agroecology Europe, a Rede Ibérica de Agroecologia e a Aliança Europeia pela Agricultura Regenerativa. Ao longo dos três dias de encontro, não faltarão oportunidades para avançar com a articulação de redes e movimentos em Portugal e além, bem como momentos de convívio, cultura e repasto para nutrir o espírito de todas as pessoas que irão confluir na Golegã neste solstício de Verão.

    Nos trilhos da agroecologia
    O pré-evento começa na sexta-feira, 20 de Junho, com três rotas de visitas a quintas e projetos inspiradores na Golegã e territórios circundantes. Na Rota Norte, as Hortas da Rainha (Torres Novas) e o Horto do Amor (Tomar) abrem os seus portões para a colheita de produtos e uma oficina de biofertilizantes. Na Rota Sul, The Landscape Farm (S. Vicente de Paúl) e Vivid Farms (Casével) farão visitas guiadas com demonstração de processos  degustação. Estes trajectos convergem às 17h numa visita à agrofloresta da Casa Mendes Gonçalves (Golegã), onde durante a manhã haverá também uma oficina de construção de cercas para pastoreio dirigido. Há ainda a Rota dos Cereais, com visita à moagem da Farinha Paulino Horta (Alenquer) e à quinta de João Vieira (Cadaval), retornando à Golegã onde haverá um jantar partilhado entre participantes.

    Reforma Agrária, 50 anos depois
    Ao fim do dia de sexta-feira, será relembrada a Reforma Agrária no ano que se celebra o seu 50.º aniversário, com a projeção do documentário “O Rendeiro” (1975, 26m), de Luís Gaspar, em torno da lei do Arrendamento Rural, ao qual se seguirá uma conversa com um dos seus protagonistas, João Vieira, da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e também anfitrião na Rota dos Cereais.

    Pés na terra! Mercado, partilhas e co-construções
    No sábado de manhã, um Mercado de Produtores com espaço para Trocas de Sementes marca o início da II Confluência às 9 horas no Equuspolis — um espaço exterior à beira rio onde irão decorrer as actividades ao longo do fim de semana. Pelas 11:30, começa o Plenário de Agricultores/as em torno de necessidades para alavancar a produção agroecológica, alcançar o equilíbio entre procura e oferta, sustentabilidade financeira e comunicação entre quem produz e quem consome.

    Após um almoço entre núcleos territoriais, acontece o Rodízio de Iniciativas, com apresentações relâmpago de diversas iniciativas agroecológicas. Durante o resto da tarde, um Espaço Aberto convida ao trabalho conjunto em torno de necessidades concretas identificadas pelas pessoas participantes. Entre os temas propostos para estas sessões paralelas, estão as redes de quintas farol, os Sistemas Participativos de Garantia, as redes de distribuição agroecológica, as políticas públicas e a relação entre saúde e alimentação. Os trabalhos terminam com uma apresentação em grande grupo dos trabalhos feitos em cada tema e com a definição de passos para a sua continuação em rede. O dia terminará com convívio, jantar e festa cantada pelas próprias vozes de quem participa com oficinas de cante tradicional.

    Enxadas ao alto! Tecendo redes
    A manhã de domingo é dedicada à dimensão política da agroecologia e à articulação de redes nacionais, ibéricas e internacionais. Num primeiro momento, serão ouvidos representantes de movimentos sociais em Portugal que trabalham no terreno a transição agroecológica e/ou contestam projetos extractivistas que disputam recursos comuns essenciais à soberania alimentar. Num segundo momento, serão trabalhadas reivindicações  possibilidades de articulação numa dinâmica que envolverá também a participação das redes
    internacionais Agroecology Europe, Rede Ibérica de Agroecologia e Aliança Europeia pela Agricultura Regenerativa. Espera-se que daqui resulte um Manifesto das Confluências pela Agroecologia, com a definição do projeto comum e de que agroecologia afinal ali se trata, perante a co-optação do termo a que já se assiste que deixa de fora a transformação estrutural das relações de poder do sistema alimentar atual. O texto será lido e aprovado no últim plenário antes do almoço e celebração de encerramento.

    Dois anos depois da I Confluência pela Agroecologia, que juntou cerca de 170 participantes em 2023 em Torres Vedras, esta segunda edição está a ser co-organizada por Al-Bio (Associação Agroecológica do Algarve), AMAP (Associações para a Manutenção da Agricultura de Proximidade), CeCaFA (Centro de Competências para a Agricultura Familiar e Agroecologia), ESAV (Escola Superior Agrária de Viseu do Politécnico de Viseu) e GAIA (Grupo de Ação e Intervenção Ambiental), e conta com o apoio do Município da Golegã, da Rede das
    Cooperativas Integrais, da Reflorestar, da ReformaAgraria.pt, coletivos.org, e diversos parceiros locais.

    Mais informação: https://agroecologia.coletivos.org/

    “Um espaço de conexão, solidariedade e co-construção em torno da soberania alimentar, da transição justa, da dignidade de quem produz alimentos e pela saúde dos ecossistemas.”

    Mais informação: https://agroecologia.coletivos.org/
    Inscrições: https://framaforms.org/inscricao-ii-confluencia-pela-agroecologia-20-a-22-de-junho-2025-1739401143
    Programa: https://agroecologia.coletivos.org/programa/ (em construção)
    Visitas: https://agroecologia.coletivos.org/visitas/
    Informações úteis: https://agroecologia.coletivos.org/informacoes-uteis/
    Contactos: redeagroecologia@coletivos.org