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  • O racismo e a criminalização policial na Europa são cada vez mais alimentados por sistemas digitais de «previsão» e definição de perfis

    O racismo e a criminalização policial na Europa são cada vez mais alimentados por sistemas digitais de «previsão» e definição de perfis

    No final de Junho, a organização de defesa das liberdades civis Statewatch publicou um relatório (pdf) que revela a forma como a polícia e as autoridades do sistema jurídico penal em toda a Europa estão a utilizar sistemas baseados em dados, algoritmos e Inteligência Artificial (IA) para «prever» onde podem ocorrer crimes e classificar as pessoas como criminosas, apesar da aparente proibição da União Europeia (UE) dos chamados sistemas de «policiamento preditivo» na Lei da Inteligência Artificial.

    O relatório descreve em pormenor a forma como os chamados sistemas de «previsão» da criminalidade estão cada vez mais integrados e influenciam a tomada de decisões e as acções das autoridades policiais e do sistema jurídico-penal. Isto leva a que as pessoas e as comunidades sejam colocadas sob vigilância, sujeitas a interrogatórios, a controlos de identidade e a revistas, a rusgas domiciliárias e mesmo a detenções preventivas. Fora do sistema jurídico penal, as chamadas «previsões» e perfis estão a levar a que as pessoas sejam impedidas de trabalhar, a que lhes seja restringido ou negado o acesso a serviços essenciais e até a que sejam deportadas.

    A investigação também fornece dados sobre a forma como os grupos e as comunidades marginalizados em toda a Europa são desproporcionadamente visados e afectados por estes sistemas, incluindo as pessoas e comunidades negras e racializadas, as vítimas de violência baseada no género, os migrantes, as pessoas oriundas da classe trabalhadora e de zonas sócio-economicamente desfavorecidas e as pessoas com problemas de saúde mental.

    O relatório argumenta que a utilização destes sistemas pelas autoridades policiais e do sistema jurídico-penal conduz à definição de perfis raciais e socioeconómicos, à discriminação e à criminalização; tem consequências significativas para os direitos dos indivíduos, incluindo o direito a um julgamento justo, à privacidade e à liberdade contra a discriminação; é deliberadamente secreto e opaco, o que significa que as pessoas não estão conscientes da sua utilização.

    Griff Ferris, um dos relatores, afirmou: «O conceito de definição de perfis e de previsão tem as suas raízes no colonialismo, e estas novas tecnologias estão a ser utilizadas de forma semelhante para manter e reforçar o racismo estrutural e institucional e a violência por parte da polícia e dos sistemas jurídicos penais. Estão a ser utilizadas para fornecer às autoridades a suspeita, a causa razoável e a justificação para a intervenção da polícia: seja para vigiar, parar e revistar, prender – e até mesmo para exercer violência potencialmente mortal. A criminalização de comunidades inteiras com base em dados e códigos tem de acabar. Estes sistemas têm de ser banidos».

    O relatório do Statewatch, “New Technology, Old Injustice: Data-driven discrimination and profiling in police and prisons in Europe” [Novas tecnologias, velhas injustiças: Discriminação e caraterização baseadas em dados na polícia e nas prisões na Europa] foi produzido em parceria com investigadores que trabalham com a Technopolice Belgium e La Ligue des droits humains na Bélgica, La Quadrature du Net e Technopolice France em França, AlgorithmWatch na Alemanha e AlgoRace em Espanha.

  • Viver com dignidade não é um privilégio

    Viver com dignidade não é um privilégio

    Movimento Vida Justa lança carta aberta: «Parar os despejos e resolver a situação da habitação»

    Nos últimos meses, os despejos e as demolições têm sido constantes, em particular na Área Metropolitana de Lisboa. De acordo com o movimento Vida Justa, «na segunda-feira, mais de uma centena de pessoas, incluindo mais de 50 crianças, ficaram sem casa na Amadora e Loures, resultado das demolições violentas – e ilegais – promovidas pelas respectivas câmaras municipais».

    Ainda nas palavras deste movimento, «os prazos que têm sido impostos pelas câmaras municipais para a desocupação das habitações (…) são intoleráveis, não permitindo que estas famílias possam contestar as decisões e sem lhes dar alternativa habitacional».

    O movimento Vida Justa tem estado presente nos bairros onde os despejos têm acontecido e acredita «que é preciso uma mobilização geral contra os despejos e por uma política de emergência para a habitação». Nesse sentido está a dinamizar uma carta aberta a pessoas, organizações e colectivos a apelar à «imediata suspensão dos despejos sem alternativas dignas de habitação» e a um «programa nacional de emergência habitacional e realojamento para as famílias sem casa ou em risco de despejo».

    «O facto de os despejos meramente administrativos proliferarem por todo o lado sem que haja respostas sociais adequadas não provocou qualquer reação do Estado central, apesar das múltiplas informações que têm vindo a chegar aos seus gabinetes sobre este assunto», pode ainda ler-se na carta aberta. «Não esqueçamos: o que se passa com os preços proibitivos na habitação é fruto de más políticas desenvolvidas pelo Estado e da especulação desenfreada no mercado habitacional».

    De qualquer forma, aquilo a que estamos a assistir não é uma mera falta de resposta. «É perseguição. É violência promovida por quem deveria proteger. É um discurso institucional que alimenta o ódio, o racismo, a xenofobia e que transforma vítimas em culpados».

    Podes ler (e assinar) a carta aberta aqui.

  • UE dá «luz verde para o genocídio» a Israel

    UE dá «luz verde para o genocídio» a Israel

    Israel não enfrentará quaisquer sanções antes de Outubro por parte de uma União Europeia (UE) que é «o principal motor da economia de genocídio» desse país e que lava as mãos com um acordo «humanitário» invisível.

    Estava toda a gente em suspenso à espera das possíveis iniciativas contra Israel que Kaja Kallas, a Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, iria apresentar na terça-feira (15 de Julho) ao Conselho dos Negócios Estrangeiros. No entantio, no dia ansiado, à saída de uma reunião dos ministros dos negócios estrangeiros da UE em Bruxelas, Kallas anunciava: «Manter-nos-emos atentos à forma como Israel implementa o acordo e faremos uma actualização do seu cumprimento de duas em duas semanas». Ou seja, uma mão cheia de nada, para além de sangue.

    «Manteremos as opções [de sanções] em cima da mesa e reagiremos se Israel incumprir», afirmou, tendo em perspectiva a próxima reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, prevista para 6 de Outubro. Agora, os diplomatas vão a banhos e, até ao final das férias de Verão, as pessoas que vivem em Gaza podem continuar a ser massacradas. A Comissária Kallas elaborou esta espécie de estudo sobre eventuais sanções na sequência da sua «análise» das acções de Israel, segundo a qual este país é culpado de utilizar a «fome» como arma de guerra, de matar civis «indiscriminadamente», de «apartheid» e de «torturar» prisioneiros.

    A principal opção em análise era o congelamento das regalias de comércio livre de Israel na UE, ao abrigo de um acordo de associação UE-Israel, no valor de cerca de mil milhões de euros por ano para as empresas israelitas. O objetivo da UE «não é punir [Israel], mas melhorar a situação no terreno [em Gaza]», disse Kallas. A ministra austríaca dos Negócios Estrangeiros, Beate Meinl-Reisnger afinou pelo mesmo diapasão, afirmando que a UE precisa de manter abertos os canais de comunicação «especialmente entre amigos [Israel]» para melhorar a situação em Gaza.

    O vice-ministro irlandês dos Negócios Estrangeiros, Thomas Byrne, uum dos derrotados, afirmou: «Muitas pessoas à volta da mesa [na reunião de terça-feira da UE] não queriam mais nenhuma ação [contra Israel]». Para além das sanções comerciais, os 26 Estados-Membros concordaram em colocar na lista negra os colonos israelitas mais extremistas, mas a Hungria, o principal aliado de Israel na UE, vetou essa medida, afirmou ainda Byrne.

    Para a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, «a recusa da UE em suspender o seu acordo [comercial] com Israel é uma traição cruel e ilegal – do projecto e da visão europeia. Os líderes europeus tiveram a oportunidade de tomar uma posição de princípio contra os crimes de Israel, mas em vez disso deram-lhe luz verde para continuar o seu genocídio em Gaza».

    Para lavar as mãos da UE, Kallas tinha, já antes (10 de Julho), feito um acordo «humanitário» com Gideon Sa’ar, ministro israelita dos Negócios Estrangeiros. Refira-se que este acordo foi meramente verbal e não um texto com números e datas para a entrega de ajuda, pelo que não há propriamente nada que possa ser analisado quanto à sua bondade ou possível eficácia. «Há mais camiões e mantimentos que já estão a chegar a Gaza, mais pontos de passagem estão abertos, vemos o abastecimento eléctrico a ser reparado», afirmou a Comissária.

    Também do lado dos derrotados, o Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, disse que permitir a entrada de alimentos e medicamentos em Gaza era um «mínimo indispensável» e que a UE deveria, de qualquer maneira, impor um embargo de armas a Israel devido à «violência injustificável em Gaza». O acordo de ajuda de Kallas é uma «migalha», afirmou por seu lado Bushra Khalidi, da Oxfam. «A ajuda por si só não pode parar esta catástrofe. Não podemos continuar a assistir à morte de crianças e dizer “estamos a fazer progressos”», acrescentou.

    A voz do dinheiro
    Se seguirmos o dinheiro, como mandam as regas básicas de análise em capitalismo, podermos ter uma ideia do que o povo palestiniano enfrenta neste momento. O SOMO, Centro de Investigação sobre Empresas Multinacionais, que investiga os impactos e os factores que facilitam o poder injustificado das empresas, publicou alguns números:

    Os Estados-Membros da UE detinham 72,1 mil milhões de euros em investimento estrangeiro em Israel em 2023 (em comparação com 39,2 mil milhões de euros nos EUA). As exportações da UE para Israel também aumentaram mil milhões de euros, atingindo 26,7 mil milhões de euros em 2024. E a bolsa de valores israelita disparou 213% nos últimos 21 meses de guerra, o que significou um ganho de mercado de 194 mil milhões de euros. Em suma, «a UE é o principal motor da economia de genocídio de Israel», conclui o SOMA.

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    Foto:
    Porto, 30 de Maio de 2024
    @julianji.matti
    @ativismo.em.foco

  • Relatório da MSF denuncia violência e obstrução da resposta de salvamento no Mediterrâneo Central

    Relatório da MSF denuncia violência e obstrução da resposta de salvamento no Mediterrâneo Central

    A remoção orquestrada de navios de busca e salvamento (SAR) do Mediterrâneo Central corta a linha de vida aos sobreviventes que fogem, por exemplo, da terrível violência na Líbia. Esta é a conclusão de um relatório publicado no dia 12 de Junho pela organização médica humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF)[ref]A MSF têm estado ativa e empenhada em actividades de busca e salvamento no Mediterrâneo Central desde 2015, trabalhando em oito navios de busca e salvamento (SAR) diferentes (sozinha ou em parceria com outras ONG) e resgatando mais de 94 000 pessoas. A MSF operou o seu mais recente navio de resgate, o Geo Barents, de Junho de 2021 a Dezembro de 2024, resgatando 12.675 pessoas e colocando-as em segurança em 190 operações de resgate. Durante este período, a equipa também recuperou os corpos de 24 pessoas, organizou a evacuação médica de 14 e ajudou no parto de um bebé.[/ref]. O relatório, intitulado “Manobras mortais: Obstrução e violência no Mediterrâneo Central”, baseia-se em dados operacionais e médicos, bem como em testemunhos de sobreviventes recolhidos pelas equipas da MSF a bordo do navio de busca e salvamento (SAR) Geo Barents durante 2023 e 2024.

    O relatório detalha como, após mais de dois anos de operação sob leis e políticas italianas restritivas, particularmente o Decreto Piantedosi[ref]Em Janeiro de 2023, o Decreto Piantedosi (Decreto-Lei n.º 1/2023) introduziu um novo conjunto de regras em Itália, aplicável exclusivamente aos navios de salvamento civis, e um conjunto de sanções em caso de incumprimento, que vão desde 20 dias de detenção no porto até ao confisco do navio.[/ref] e a prática de atribuições de portos distantes, a capacidade das embarcações SAR de fornecer assistência de salvamento foi severamente limitada, levando, em última análise, à decisão de cessar as operações dos MST no Geo Barents em Dezembro de 2024[ref]Desde a aplicação do decreto punitivo Piantedosi, o Geo Barents foi sancionado quatro vezes, totalizando 160 dias de detenção imposta. Entre dezembro de 2022 e dezembro de 2024, as medidas de obstrução também exigiram que o Geo Barents percorresse 64 966 quilómetros adicionais e passasse mais 163 dias no mar para chegar a portos distantes no norte de Itália para o desembarque de sobreviventes após o salvamento, em vez de portos próximos na Sicília.[/ref]

    Devido às restrições, o número de pessoas que o Geo Barents conseguiu resgatar diminuiu drasticamente em 2024 (2.278) para metade do total de 2023 (4.646). Apesar disso, o número total de encaminhamentos médicos aumentou – particularmente os encaminhamentos urgentes – que subiram 14%, sugerindo que uma percentagem consideravelmente maior de pessoas resgatadas estava em estado crítico e necessitava de cuidados especializados vitais em terra.

    «O Decreto Piantedosi apresenta um mecanismo estruturado e institucionalizado sem precedentes para a obstrução das atividades civis de busca e salvamento», diz Juan Matias Gil, representante de MSF SAR. «O impacto dessas sanções piorou ao longo dos anos; a capacidade de resgate de nosso navio SAR foi significativamente subutilizada e ativamente prejudicada».

    O relatório também relata testemunhos de pessoas que conseguiram fugir da Líbia, documentando intercepções violentas que sofreram no mar e regressos à força para Líbia, como parte do esforço mais amplo de externalização das fronteiras europeias. «Os testemunhos, os dados e as provas que recolhemos durante estes anos demonstram a conivência da Itália e da UE com a Guarda Costeira Líbia (LCG) e outros actores armados, que efectuam intercepções e empurram as pessoas de volta para o círculo da extorsão e do abuso», acrescenta Juan Matias Gil.

    De acordo com os dados médicos dos MSF, em 2024, todos os pacientes (124) atendidos pelo psicólogo no Geo Barents relataram ter sofrido violência física e/ou psicológica durante a sua viagem, tendo metade destes pacientes identificado a detenção como o principal local onde ocorreram os abusos.

    O relatório conclui exigindo que as autoridades italianas deixem de dificultar as operações de salvamento no mar e imponham sanções às embarcações de busca e salvamento das ONG. Apela à UE e aos seus Estados-Membros para que suspendam imediatamente o apoio financeiro e material à Guarda Costeira da Líbia e deixem de facilitar deliberadamente a actuação da força.

  • Os monstros de Mary Shelley

    Os monstros de Mary Shelley

    O lar de Mary alberga monstros em vez da família burguesa.

    Poucos dias depois de Mary nascer, foram em busca de cachorrinhos para a sua mãe amamentar[ref]The progress of the disease was now uninterrupted. (…) On Monday, Dr. Fordyce forbad the child’s having the breast, and we therefore procured puppies to draw off the milk. Em: Memoirs of the Author of a Vindication of the Rights of Woman, by William Godwin. London: printed for J. Johnson and G.G. and J. Robinson, 1798. Disponível em: https://bit.ly/4bLObHl[/ref]. A ligação humana foi interrompida por motivos de doença, e os cachorrinhos eram usados para retirar o leite dos peitos. O que bebeu a bebé Mary não sabemos, mas a sua mãe bebeu vinho, um anestésico para temperar o leito de morte causado pela febre puerperal. William Godwin relata os últimos dias da esposa, a quem pergunta: “o que farei com as crianças?”, e tem o silêncio por resposta[ref]I therefore affected to proceed wholly upon the ground of her having been very ill, and that it would be some time before she could expect to be well; wishing her to tell me any thing that she would choose to have done respecting the children, as they would now be principally under my care (…) she at length said, with a significant tone of voice, “I know what you are thinking of,” but added, that she had nothing to communicate to me upon the subject. Em William Godwin (citado acima).[/ref].

    A mãe é Mary Wollstonecraft, e enquanto educadora feminista deixou vários livros e cartas sobre como as filhas deviam ser educadas, que William ignorou. As filhas que deixa órfãs em 1797 são Mary Wollstonecraft Godwin e a irmã, Fanny Imlay, de três anos. William cuidará sozinho das duas, mas ao fim de poucos anos sente-se incapaz de conduzir a tarefa e casa-se com a vizinha, para surpresa dos seus amigos mais próximos. A madrasta é incapaz de preencher os sapatos da mãe, e cria-se um fantasma. William refugia-se na atividade intelectual, para a qual requer silêncio constante, e exige ser sustentado por patronos. Mary cresce a visitar a campa da mãe na igreja velha de Saint Pancras, em Londres, e é lá que se encontra secretamente com Percy Bysshe Shelley, poeta, discípulo e patrono do seu pai, que acompanhará até ao fim da vida, que não foi muito longa: quando se conhecem, Mary tem 16 anos e Percy 21; ele morrerá 8 anos depois.

    Percy é um aristocrata, filho mais velho de Sir Timothy Shelley, 2.º Baronete do Castelo de Goring. O seu avô, Sir Bysshe Shelley, nasceu em Newark e era rico à custa da família e de bons casamentos. Percy cresce a sofrer bullying na escola, e por vezes responde com raiva violenta. Interessa-se pela ciência e ocultismo, ganha a alcunha de «Shelley Louco» e faz experiências com pólvora, ácidos e eletricidade. Mais tarde, na Universidade de Oxford, radicaliza-se e aprofunda ideais de pensamento e amor livres com Thomas Jefferson Hogg. O desdenho pela sociedade de Oxford e pela religião motiva-os a escrever o ensaio “A necessidade do ateísmo”[ref]Percy Bysshe Shelley (1811). “The Necessity Of Atheism”. Disponível em: https://bit.ly/4kG96zD [/ref], que enviaram pelo correio aos bispos e diretores de Oxford, valendo-lhes a expulsão. O pai retira-lhe o apoio financeiro quando este foge e se casa com Harriet Westbrook, e expressa que quer doar uma grande parte do dinheiro da família aos mais desfavorecidos. Percy inspira-se na visão económica que elaborou a partir de “Justiça Política”[ref]William Godwin (1793).An Enquiry Concerning Political Justice, and its Influence on General Virtue and Happiness” (London: G.G.J. and J. Robinson). In 2 vols. Disponível em: https://bit.ly/41M01N0[/ref], obra de William. No entanto, o autor da obra, seu mentor, discorda da ideia e aconselha-o a reconciliar-se com o pai para segurar os fundos e a consolidar uma posição académica, afastando-se da agitação política. Percy desobedece ao mestre, passa a viver de dinheiro emprestado e fica incapaz de continuar a ser patrono.

    Percy desinteressa-se de Harriet após esta dar à luz a sua filha, Eliza Ianthe Shelley. Quando expressa a William que está apaixonado pela sua filha Mary e quer viver com ela, deixando para trás Harriet que está novamente grávida, este bane-o de casa e proíbe-o de ver a filha, mas sem sucesso. Mary e Percy fogem de casa levando com eles Claire Clairmont, filha da madrasta. Escapam de Inglaterra e atravessam a França devastada pela guerra, para horror de Mary, e viajam pela Alemanha e Holanda. Regressam a Inglaterra meio ano depois com Mary grávida, deprimida e a fugirem de oficiais de justiça para escapar a dívidas. A filha de Mary nasce prematura e morre 10 dias depois. Engravida no espaço de três meses e em 1816 nasce William Shelley. No mesmo ano conhecem Lord Byron, 6.º Barão, e viajam para Geneva, na Suíça. Pouco tempo após regressarem, Mary perde a sua meia irmã Fanny, que se dedica extremosamente a todos sem sentir amor de volta[ref]I have long determined that the best thing I could do was to put an end to the existence of a being whose birth was unfortunate, and whose life has only been a series of pain to those persons who have hurt their health in endeavouring to promote her welfare. Perhaps to hear of my death may give you pain, but you will soon have the blessing of forgetting that such a creature ever existed as…. (nota de suicídio de Fanny). Em: Florence A. Thomas Marshall (2011). The Life and Letters of Mary Wollstonecraft Shelley, Volume I (of 2). Disponível em: https://bit.ly/4iNOIe8[/ref], por suicídio com laúdano. Enlutado, William enterra-a numa campa anónima para evitar mais escândalos. Uns meses depois, Harriet, sentindo-se abandonada, também se suicida. Percy e Mary casam-se, e no ano seguinte têm mais uma filha, Clara Everina Shelley, que morrerá cerca de um ano depois. Vivem anos de intensidade emocional extrema e grande produção artística, mantêm diários, escapam a credores mudando de casa e de país, e convivem com outros radicais e poetas. Em 1818 viajam para Itália para curar os problemas pulmonares de Percy (provavelmente tuberculose) mas com a morte dos filhos, Mary deprime e distancia-se dele emocionalmente. No ano seguinte sofrem mais duas mortes, da filha adotada, Elena Adelaide Shelley, e de William Shelley, possivelmente de malária. Em novembro nasce Percy Florence Shelley, o único filho sobrevivente do casal. Três anos depois, Mary engravida pela última vez e quase morre num aborto; é salva por Percy que a coloca num banho de gelo, parando a hemorragia. A relação entre os dois deteriora-se cada vez mais, com Percy a envolver-se com diversas mulheres, e a acordar aos gritos dum sonho em que estrangula Mary e vê a amante e o seu marido como cadáveres ambulantes. No mesmo ano morre num naufrágio no Mediterrâneo.

    O pensamento e escrita do pai e marido de Mary testemunham os principais eventos do seu tempo e criticam brilhantemente as instituições políticas, expressando enorme compaixão pelos desfavorecidos e pelas vítimas da opressão e violência. Porém, remetem os infortúnios das mulheres e crianças para tragédias pessoais que devem ser ultrapassadas. Quando o neto William morre, escreve a Mary dizendo que a depressão a faz cair na turba das mulheres comuns, ao invés de estar entre os mais nobres espíritos que honram a natureza humana[ref]You must, however, allow me the privilege of a father and a philosopher in expostulating with you on this depression. I cannot but consider it as lowering your character in a memorable degree, and putting you quite among the commonalty and mob of your sex, when I had thought I saw in you symptoms entitling you to be ranked among those noble spirits that do honour to our nature. What a falling off is here! How bitterly is so inglorious a change to be deplored! Em Marshall (citado acima).[/ref]. William deposita fé na razão para o progresso da humanidade, e acredita que um dia a imortalidade será alcançada. Por sua vez, Percy escreve sobre o Prometeu libertado, desvinculado das amarras impostas pela sociedade que atrasam o progresso.

    O corpo e as emoções não são facilmente calados pela razão nem se submetem ao seu poder.

    Mary lida com a realidade do trauma e com os horrores da doença, da guerra e da morte. Para ela, não basta soltar as amarras da opressão para haver progresso; há desafios internos que continuam sem resposta e se materializam nas interações humanas. O corpo e as emoções não são facilmente calados pela razão nem se submetem ao seu poder. Kock e Pasteur ainda não nasceram, e a sociedade ocidental não conhece os antibióticos nem os desinfetantes. Vários episódios de peste assolam os países da Eurásia e da bacia mediterrânica. A mortalidade materna e infantil é aterradora, e piora com a entrada dos médicos no parto, que contaminam as mulheres com as doenças que as vitimizam. Seis décadas depois da morte de Mary Wollstonecraft, Ignaz Semmelweis, considerado o «salvador das mães», será expulso do hospital e morrerá internado num asilo de loucos por defender que os médicos deviam lavar as mãos antes do parto, sendo ridicularizado pelos colegas que diziam «um cavalheiro tem sempre as mãos limpas». O planeamento familiar e controlo de natalidade estão longe de estar popularizados, a sociedade não reconhece a necessidade de sexo e de afeto, nem a importância de expressar emoções negativas.

    Aos vinte anos, Mary publica Frankenstein, ou o Prometeu moderno[ref]Mary Wollstonecraft Shelley (1993). Frankenstein; Or, The Modern Prometheus. Disponível em: https://www.gutenberg. org/ebooks/84[/ref]. O livro conta a história de Vitor Frankenstein, um homem que perdeu a mãe por escarlatina que procura derrotar a morte reanimando cadáveres. É bem-sucedido na sua empresa, mas quando consegue o feito, rejeita a criatura por ser muito feia. É a irresponsabilidade perante a criação que marca a história: Vitor não estava preparado para ser pai. Movido pela paixão pela ciência e o oculto desenvolveu a tecnologia de reanimação, mas foi incapaz de amar, cuidar e nutrir a criatura gerada. Esta incorpora a monstruosidade da rejeição, condenada a viver sem companhia humana, por vir ao mundo numa forma detestável.

    Frankenstein não foi o único livro de Mary. Muitos outros se seguiram, incluindo a obra-prima de ficção científica O último homem[ref]Mary Wollstonecraft Shelley (2006). The Last Man. Disponível em: https://www.gutenberg.org/ebooks/18247[/ref]. O enredo passa-se em 2073, ano em que finalmente cai a monarquia britânica e é instaurada uma república. Apesar deste progresso, a ciência continua incapaz de derrotar a guerra e a peste. O poder é concedido naturalmente ao descendente do rei, Adrian, quando este abdica da hierarquia formal. Adrian conquista o respeito dos homens ao permanecer junto do povo na doença, enquanto os que buscam a fama e a glória morrem ou se afastam. Os sobreviventes procuram escapar à peste que avança de forma inexorável, e lutam contra grupos religiosos que creem ser salvos pela fé. Só a doença destrói a hierarquia e torna as divisões sociais obsoletas, expondo as pessoas à mesma desgraça. As personagens centrais são repletas de virtudes, mas dadas a excessos emocionais e à limerência. Apesar de viverem momentos de paz, amizade e abundância, envolvem-se em projetos políticos que resultam em tragédias. Os privilégios das personagens ora são máximos, ora são mínimos, podendo viver como párias da sociedade em abrigos ou em castelos na companhia de reis, dependendo de circunstâncias que não controlam.

    Só a doença destrói a hierarquia e torna as divisões sociais obsoletas

    Mary sobrevive à depressão, às dívidas e paixões intensas, guardando no corpo múltiplos fantasmas e lutos. Depois da morte de Percy, Mary escreve para se sustentar a si e ao filho, ajudando o pai com frequência. Dedica o resto da sua vida a editar os trabalhos de Percy e outros autores, escrever romances e a envolver-se com a política de Itália, país que ama. Sofrerá mais uma desilusão: o revolucionário Ferdinando Gatteschi da Jovem Itália, escritor aristocrata por quem se sente atraída, tenta chantageá-la ameaçando publicar as suas cartas pessoais. Mary consegue reaver as cartas usando a polícia francesa, por intermédio de um amigo do filho. Apesar de considerar o poder policial revoltante, não se arrepende de o ter usado.

    Após ter vivido de forma transgressiva, Mary reconcilia-se com a sociedade, permanecendo radical ao longo da vida: casa-se, sendo promotora do amor livre; o seu filho será 3.º Baronete; e incapaz de ter fé, entende o apelo da religião. Na viagem que faz com o filho à Itália, diz sobre os camponeses:«Pobres pessoas! A sua religião está rodeada de falsidade, mas é um grande conforto para eles»[ref]Mary Wollstonecraft Shelley (2024). Rambles in Germany and Italy in 1840, 1842, and 1843, vol. 2 of 2. Disponível em: https://www.gutenberg.org/ebooks/74301[/ref]. Apoia sempre que pode as mulheres transgressoras da sociedade, como as mães solteiras, adúlteras e lésbicas, e considera a sua generosidade como atos de simples justiça. Segue a via política da não-violência, e exerce a compaixão e a simpatia. Por esta razão despolitizaram-na, e consideraram-na defensora da vida doméstica. Só recentemente foi reconhecida como uma das principais figuras Românticas, que escreve com uma voz política e liberal que desafia o radicalismo de William e Percy. O doméstico de Mary alberga monstros em vez da família burguesa, e tem de ser transformado para o amor e o cuidado serem possíveis. Morreu aos 53 anos com um tumor cerebral, e foi amada e cuidada pelo seu filho, que não teve descendentes, pondo fim à prole da mãe do feminismo. O último sobrevivente exumou os restos mortais dos seus avós maternos e colocou-os na mesma campa da mãe na igreja de Saint Peter, com o coração de Percy que se recusou a arder na pira funerária. O que aconteceu aos cachorrinhos fica para outra história.

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    Texto de Borboleta Azul, publicado no Jornal MAPA nr. 45 [Abr. – Jun. 2025]

  • Porta-te bem ou poderemos eventualmente vir a talvez ter de quem sabe

    Porta-te bem ou poderemos eventualmente vir a talvez ter de quem sabe

    De acordo com a decisão dos estados membros da UE da passada segunda-feira (23 de Junho), Israel pode evitar sanções se deixar entrar comida em Gaza, mesmo depois de todos os crimes já cometidos. Ou seja, o acordo de associação com Israel «não deve ser suspenso», mas a situação humanitária em Gaza «tem de ser tratada».

    No início de Maio, 17 estados membros da UE encarregaram os Ministros dos Negócios Estrangeiros da União de analisar possíveis desrespeitos do direito humanitário por parte de Israel. Desde essa altura, e apenas desde essa altura, 672 crianças foram mortas em Gaza.

    Entretanto, o relatório foi elaborado, conseguiu fintar a secretismo e acabou por ser divulgado no dia 20 de Junho, conforme demos notícia aqui. Nele se concluía que «há indícios de que Israel estaria a violar as suas obrigações em matéria de direitos humanos nos termos do artigo 2º do Acordo de Associação UE-Israel».

    Como curiosidade mórbida, assinale-se que, nessa mesma sexta-feira, 20 de Junho, 34 palestinianos foram baleados e mortos por tiros israelitas quando tentavam aceder a ajuda humanitária. Outros 26 foram mortos no sábado. Vinte e nove no domingo…

    Na segunda-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE reuniram-se para discutir as conclusões do relatório, enquanto pelo menos mais 43 pessoas foram mortas em Gaza. «Se a situação não melhorar», anunciou Kaja Kallas (Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança), «então podemos examinar e discutir também outras medidas e voltar a este assunto em Julho».

    Perante as suas próprias conclusões da existência de «ataques indiscriminados», «fome», «tortura», «apartheid», em suma, violação das «suas obrigações em matéria de direitos humanos», perante a transparência dum genocídio, a UE prefere tratar Israel como se de uma criança ligeiramente mal educada se tratasse.