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  • Paisagens de fogo

    Paisagens de fogo

    Um grupo de investigadores nas áreas da história e das ciências ambientais conta-nos uma história política e ambiental dos grandes incêndios em Portugal.

    Um grupo de investigadores da Universidade Nova de Lisboa e do Centro de Estudos Sociais, em Coimbra, reuniu-se no projeto FIREUSES  – Paisagens de Fogo[ref]Paisagens de fogo: Uma história política e ambiental dos grandes incêndios em Portugal (1950-2020) em https://projetos.dhlab.fcsh. unl.pt/s/fireuses/page/inicio[/ref] para perseguir a «história do fogo» em dois espaços de montanha: as serras contíguas da Lapa e da Nave, a Norte, e a serra de Monchique, a Sul. Lançámos à equipa um leque de perguntas, respondidas por email por Miguel Carmo, José Miguel Ferreira, Ana Isabel Queiroz, Marta Nunes Silva, Inês Gomes[ref]Instituto de História Contemporânea (NOVA FCSH / IN2PAST)[/ref], Frederico Ágoas[ref]Centro Interdisciplinar em Ciências Sociais (NOVA FCSH)[/ref] e Joana Sousa[ref]Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra[/ref].

    Monchique, 2022 e 2023

    De 2017 a 2025 os mega incêndios são uma realidade em diversas geografias mundiais, nos quais centramos as atenções em cada verão, em função da escala das tragédias, para a eles regressarmos no ano seguinte. Olhando para o passado deste país em chamas, a vossa investigação resgatou a memória de «serras sem incêndios, mas repletas de fogo». Que «paisagens de fogo» constituíam essa ruralidade versus a atual «paisagem de incêndios»?

    As paisagens são o resultado das intervenções praticadas num determinado contexto ecológico e geográfico pelas comunidades humanas que nela habitam ou habitaram. No passado, a agricultura e a pastorícia, nas suas formas e usos locais, eram elementos que contribuíam decisivamente para a redução de combustível na paisagem, isto é, para a eliminação recorrente de vegetação, que se torna inflamável quando as condições atmosféricas o propiciam. A supressão dessa massa vegetal era feita de forma contínua pela gestão dos ciclos das culturas e da criação de animais. Até meados do século XX, a restituição da fertilidade do solo agrícola dependia largamente da gestão local e regional de ciclos de nutrientes, antes da disseminação dos adubos minerais. Os estrumes, as cinzas e os resíduos vegetais eram então os principais meios para o enriquecimento do solo com nutrientes de que as plantas precisam para crescer, tais como o azoto, o fósforo e o potássio. Em grande medida, a configuração dos sistemas agrícolas pré- -industriais respondia, de forma bastante otimizada, às disponibilidades locais de nutrientes e também de trabalho. Além disso, as lenhas e outros materiais lenhosos foram a principal fonte de energia doméstica até ao aparecimento dos fogões a gás. Em suma, grande parte da carga combustível existente nos campos e serras era consumida pelas comunidades rurais.

    Uma das principais novidades da nossa investigação foi a descoberta de que, até ao final dos anos 1960, quando a modernização agrícola caminhava já a passos largos, desde logo no latifúndio alentejano (sobretudo através da motomecanização e dos adubos), os sistemas agrícolas de montanha continuavam a usar o fogo como ferramenta agrícola essencial. As agriculturas do fogo, ditas de roça e queima, que por defeitos de conhecimento nos habituámos a associar apenas às regiões subtropicais do globo, tiveram uma longa vida nas serras em Portugal (que, recordemos, ocupam cerca de metade da área do país). A partir de um trabalho meticuloso de história oral, através de mais de 60 entrevistas gravadas na serra de Monchique e, no distrito de Viseu, no planalto serrano entre a Lapa e a Nave (drasticamente afetado pelos incêndios no passado agosto), percebemos que estas práticas, ou tecnologias, de fogo não eram aspectos marginais ou relíquias de um passado remoto, mas parte integrante dos calendários agrícolas a meio do século XX.

    Sem querer romantizar um mundo rural pré-industrial, é possível afirmar que o fogo era um elemento central da paisagem e da economia rural, numa malha de relações humanas e não-humanas.

    As queimas, queimadas, roças, belgas, moreias, fornilhos, entre outras técnicas e designações regionais, eram usos do fogo determinantes na manutenção da produtividade agropastoril e, consequentemente, das condições de subsistência. No espaço doméstico, nas padarias, destilarias e outras manufacturas que tivessem um fogão ou forno, ardiam as lenhas e carvões recolhidos nas serras. Esta constatação não implica que o fogo fosse sempre benéfico ou que nunca fosse destrutivo. Por exemplo, só nos primeiros anos do século XIX o Pinhal de Leiria foi assolado por quatro grandes incêndios (que queimaram entre 400 e 2 mil hectares). E nos textos publicados neste período por autores ligados à Academia das Ciências de Lisboa, como o naturalista Joaquim Fragoso de Sequeira, encontramos muitas referências a queimadas que escapavam ao controlo e que destruíam pomares e olivais, para além de episódios de fogo posto motivados por vinganças pessoais ou rivalidades entre agricultores e pastores. Mas estes incêndios nunca atingiam uma dimensão semelhante àquela com que nos deparamos hoje em dia. Neste sentido, mesmo sem querer romantizar um mundo rural pré-industrial, é possível afirmar que o fogo era um elemento central da paisagem e da economia rural, numa malha de relações humanas e não-humanas. O fogo, este fogo, contribuía para prevenir os grandes incêndios.

    Na vossa investigação referem que o fogo se consolidou como um sujeito político, sendo suportado por um edifício técnico-científico que esvaziou qualquer ecologia popular na sua gestão territorial, quando da mesma ainda existe memória. Tal inscreve-se, como dizem, na opção da «florestação patrocinada pelo estado e da exclusão/ inclusão do fogo e dos seus usos tradicionais nos espaços rurais como elementos-chave para entender a expansão do poder do estado sobre o território». Que processos de desapropriação foram esses?

    Olhando para uma longa duração, o que observamos é um processo de constituição de uma «razão de estado» que sustentava que uma parte significativa do território, especialmente nas serras do interior onde existia uma prevalência de terrenos baldios ou comunais, era insuficientemente aproveitada e podia ser «melhorada» através da florestação. Esta é uma ideia que começa a disseminar-se a partir da viragem do século XVIII para o século XIX e que combina uma série de argumentos políticos (ligados à construção do estado liberal e à expansão do seu controlo sobre o território), económicos (em torno do potencial dos recursos florestais enquanto riqueza nacional), e proto-ecológicos (quando relacionavam, por exemplo, a cobertura florestal com a regulação do clima e das cheias torrenciais). A consolidação deste discurso político e científico ao longo do século XIX levou, por um lado, a uma insistência na necessidade de «arborizar» os terrenos baldios serranos, por ação do estado ou da iniciativa privada, e, por outro lado, a uma denúncia das técnicas agropastoris assentes no fogo, que referimos na resposta anterior, como sendo «atrasadas», prejudiciais e pouco produtivas.

    Este duplo processo de defesa da florestação e de crítica dos usos locais do fogo foi transversal aos diferentes regimes políticos, mas ganhou uma nova dimensão com o Estado Novo, quando se assistiu efetivamente a um esforço coerente de transformar a paisagem rural do país, nomeadamente através do Plano de Povoamento Florestal de 1938, que preconizava a arborização de uma vasta extensão de terrenos baldios situados a norte do rio Tejo, sobretudo com diferentes espécies de pinheiro. Este plano foi marcado por inúmeros contratempos e por uma forte resistência das populações locais, como mostrou há alguns anos a historiadora Dulce Freire e o nosso projeto observou igualmente para o caso da região da Lapa e Nave, mas levou, efetivamente, a uma transformação muito significativa do espaço rural nas serras portuguesas, que foi acompanhado por uma crescente exclusão dos usos tradicionais do fogo. Por exemplo, a extensão de terreno em torno das matas nacionais onde era proibida a realização de queimadas cresceu de 200 metros em 1886 para um quilómetro em 1926 e, finalmente, para três quilómetros em 1954. Em certo sentido, esta nova floresta devia ser uma floresta sem fogo. Aliás, alguns estudos chegam mesmo a apontar as restrições impostas pelos Serviços Florestais ao acesso aos baldios como um dos fatores que contribuíram para o êxodo rural da segunda metade do século XX. E, de resto, não deixa de ser importante notar que alguns dos primeiros incêndios florestais de grande dimensão que começaram a eclodir na década de 1960 parecem ter atingido áreas que tinham sido submetidas ao regime florestal. A partir dessa altura, começa também a assistir-se a um esforço de florestação dos terrenos privados, através de incentivos proporcionados pelo Fundo de Fomento Florestal. É neste contexto que se inicia a transição para o eucalipto, intimamente ligada ao desenvolvimento da indústria da pasta do papel.

    Vale a pena acrescentar que, ao longo deste processo, a par da estigmatização dos usos tradicionais do fogo, reduziram-se igualmente os usos técnicos do fogo, em particular o fogo controlado, aparentemente comum até ao último quartel do século XIX na gestão florestal (no Pinhal de Leiria, por exemplo). Entre a comunidade técnica e científica, a prática começou a ser desencorajada sensivelmente na mesma altura em que despontam as primeiras ambições de florestação estatal dos baldios, durante o liberalismo fontista. Na primeira metade do século XX, a utilização do fogo pelos Serviços Florestais foi assim relegada a último recurso, objeto de muitas dúvidas e, finalmente, repudiada devido aos potenciais «efeitos psicológicos» que podia ter sobre as populações, cujo uso do fogo vinha sendo crescentemente proibido e restringido pelos mesmos Serviços Florestais.

    Entre os silvicultores, a prática só começou, timidamente, a ser reabilitada na década de 1970, com a busca de novas estratégias de combate aos grandes incêndios, a consolidação de uma nova visão ecológica da floresta e a incorporação de conhecimentos internacionais, em particular oriundos dos Estados Unidos da América. Os primeiros trabalhos académicos sobre o uso do fogo, designadamente silvícolas, são já da segunda metade dos anos 1970, numa altura em que, no rescaldo da revolução de 25 de abril de 1974, uma parte dos baldios foi devolvida às comunidades. À época, lamentava-se a perda de saberes tradicionais e clamava-se até pela necessidade de aprender com os pastores a lidar com o fogo. Mas a verdade é que, quase meio século volvido, os efeitos práticos desta mudança continuam a ser muito escassos, não obstante o consenso técnico e académico a respeito da utilidade e necessidade do fogo controlado. Pela nossa parte, suspeitamos que mais de um século de estigmatização dos usos do fogo – para proteger as plantações de pinheiro e eucalipto – tenha gerado um preconceito social e político em relação à sua utilização que continua a vigorar para além da vigência do anterior paradigma científico.

    Monchique, 2022 e 2023

    Qual foi então a centralidade da indústria do eucalipto no desenho da nossa paisagem, desde essa década até à atualidade? E porque se mantém esse mesmo desenho intocável na gestão territorial?

    Para perceber a transição para o eucalipto foi necessário olhar de perto para a forma como as relações entre o estado, os proprietários rurais e os próprios eucaliptos foram moldando a paisagem portuguesa na segunda metade do século XX. E, quando falamos de proprietários, não estamos apenas a falar de grandes terratenentes ou de proprietários absentistas. Para o caso do Algarve, onde estudámos essa transição de forma mais detalhada, a realidade com que nos deparamos é a de um território que permaneceu até muito tarde à margem dos projetos de florestação que vinham sendo executados desde o final do século XIX. A principal explicação para isto foi a inexistência de baldios que pudessem ser apropriados pelo estado. Como se descreve num relatório de 1911 sobre os «incultos» do Algarve (Memória sobre o reconhecimento geral dos incultos no distrito de Faro), em face da ausência de «baldios» ou mesmo dos «grandes latifúndios» do vizinho Alentejo, a arborização da serra dependia da iniciativa de pequenos e médios proprietários. Por estas razões, o autor do relatório, Carlos Correia Mendes, sugeriu a criação de núcleos florestais de 50 a 100 hectares, que seriam comprados pelos Serviços Florestais com vista à «vulgarização das boas doutrinas e práticas florestais». Estas florestas experimentais deveriam focar-se no melhoramento da exploração do arvoredo existente – no caso de Monchique, árvores como o castanheiro, o sobreiro, a azinheira e a nogueira – e no ensaio de espécies menos usadas ou ausentes como o pinheiro-bravo, variedades de acácia e, para voltar à vossa questão, o eucalipto. Nas últimas considerações, este agrónomo lamentava que sem «auxílio de uma polícia rural séria», não seria possível «corrigir» as práticas usuais e nocivas do «sistema das roças e queimadas» que se opunham, segundo ele, à arborização privada da serra.

    No entanto, apesar destas referências muito precoces, a expansão da exploração madeireira só teve início na década de 1950, com a plantação das primeiras matas de eucalipto, suportada técnica e financeiramente pelo Estado Novo. O primeiro passo significativo no sentido de incentivar a florestação da propriedade privada deu-se em 1954, com a aprovação da Lei 2069, que se dirigia às grandes extensões do regime de latifúndio do sul do país. Seguiu-se em 1963, com efeitos mais amplos, a reestruturação do Fundo de Fomento Florestal, que oferecia modalidades de apoio diversas para pequenos e grandes proprietários, como subvenções e crédito às operações de plantação e a distribuição gratuita de sementes e plantas. Este novo ciclo de políticas coincidiu com o florescimento da indústria portuguesa de pasta de papel, que desenvolveu, no final da década de 1950, uma forma de produzir papel de qualidade a partir da madeira de eucalipto. Esta inovação libertou a indústria da celulose da dependência das fibras longas, características das espécies de pinheiro da Europa do Norte, e colocou o eucalipto – e Portugal – no centro de uma nova economia mundial da produção de papel. É por isso que dizemos que esta árvore representou, em Portugal, uma dupla transição: por um lado, do pinheiro para o eucalipto e, por outro, da florestação dos baldios apropriados pelo estado para a plantação massiva em terrenos privados, que ocupam a esmagadora maioria da superfície do país.

    Alguns dos nossos entrevistados na região de Monchique notaram que numa primeira fase, na década de 1950, o eucalipto cresceu, junto com o pinheiro, em pequenas matas nas estremas menos produtivas ou acessíveis das propriedades, como reserva de madeira para a construção de telhados, entre outras utilidades. Na década seguinte, multiplicam-se os relatos de plantações, tanto na pequena propriedade como em grandes tratos da serra, em explorações de índole capitalista. Este processo foi bem caracterizado pelo sociólogo inglês Robin Jenkins, que passou cerca de um ano, em 1976, em trabalho de campo no Alto, uma pequena comunidade agrícola do concelho de Monchique, experiência que retratou no seu livro The road to Alto (publicado em português como Morte de uma aldeia portuguesa, em 1983). Segundo um dos nossos entrevistados, foi de facto a partir dos anos 1960 que se começaram a plantar «eucaliptos como quem semeava trigo». Os testemunhos dos pequenos proprietários foram decisivos para entendermos a rápida disseminação do eucalipto e o sucesso das políticas estatais. Por exemplo, os cinco hectares de terra que os pais de Fernando (nome fictício) possuíam no interior xistoso da serra eram ocupados por medronheiros, sobreiros e algum cereal. No início dos anos 1960, fizeram ali as primeiras plantações de eucalipto e, por volta de 1967, quando Fernando voltou da Guerra Colonial em Angola, converteram a totalidade da propriedade em eucaliptal através do Fundo de Fomento. Foi só mais tarde, na década de 1970, que surgiram as «grandes manchas» plantadas diretamente pelas firmas da indústria da celulose, que tomaram conta das terras através de contratos de arrendamento de longa duração.

    O que temos aqui é o início da substituição de um calendário agrícola – pautado pelos tempos de roça e queima, de semear e colher – por um calendário meteorológico de risco de incêndio que visava proteger a nova economia do eucalipto.

    Para retomar a vossa questão sobre a persistência deste modelo, é importante ter em conta que o protagonismo crescente do eucalipto a partir da década de 1960 resultou de uma série de fatores, que incluem os incentivos estatais à florestação dos terrenos particulares, a crise cerealífera de meados do século, com o progressivo abandono da célebre Campanha do Trigo, e o início do êxodo rural massivo, que foi muito evidente nas freguesias serranas da serra de Monchique. O eucalipto tornou- -se cada vez mais central, tanto na economia nacional como nas economias locais, o que ajuda a explicar a sua expansão e persistência até à atualidade. Para mais, houve uma forte continuidade em termos de política florestal, como tem vindo a ser estudado, entre a última década do Estado Novo e o período da democracia. Por último, importa talvez explicar que as próprias matas de eucalipto atuaram sobre a realidade política e social. Em 1967, o comandante regional da GNR em Faro dizia que era necessário proibir as queimadas até ao final de setembro, muito depois da época em que eram habituais na economia agrícola da região. O argumento era de que estas podiam provocar «grandes incêndios» prejudicando, nas suas palavras, «a economia nacional e o património do estado», como tinha acontecido no ano anterior com um incêndio que devastou parte da serra de Monchique, chegando até Aljezur. O que temos aqui é o início da substituição de um calendário agrícola – pautado pelos tempos de roça e queima, de semear e colher – por um calendário meteorológico de risco de incêndio que visava proteger a nova economia do eucalipto. Estas novas preocupações não eram, porém, exclusivas do estado, passaram a estar também presentes do lado das próprias comunidades rurais. Um entrevistado contou-nos, num balanço desta transição, que antes não era necessária qualquer autorização para os pastores queimarem os pastos e que os donos das terras geralmente não se importavam, uma vez que as eventuais perdas eram diminutas: «hoje é diferente, hoje está plantado de eucaliptos».

    Na gestão do fogo e da paisagem, o que é possível resgatar de concreto para a atualidade dos ensinamentos das antigas «paisagens de fogo»?

    Esse é o tipo de pergunta que qualquer investigação em história teme, e por boas razões. Está longe de ser um exercício fácil, desde logo porque as antigas paisagens de fogo pertencem agora a um passado que é impossível – e, em muitos dos seus aspectos, indesejável – replicar. Como referimos na resposta à primeira pergunta, procurámos ter cuidado em não romantizar o passado pré-industrial, que estava longe de ser um tempo de equilíbrio ecológico e bem-estar social e económico. Dito isto, existem evidentemente muitos pontos em que o conhecimento das antigas paisagens de fogo pode contribuir e atuar sobre os desafios do presente.

    Um primeiro aspecto que ficou muito claro da nossa investigação é que o fogo não é um elemento «externo» à história humana, mas sim uma parte central da mesma. Não só porque os usos do fogo eram, como dissemos, centrais no mundo rural até bem dentro do século XX, mas também porque o atual regime de fogo é, em grande medida, um produto de décadas (senão séculos) de intervenções humanas no meio ambiente. Isto permite-nos olhar com ceticismo para o tipo de soluções tecnocráticas que, no passado, defendiam a proibição absoluta dos usos locais do fogo e que, na atualidade, anunciam que se prendermos todos os incendiários ou se substituirmos todos os eucaliptais por matas de espécies autóctones resolveremos de vez o problema dos incêndios.

    A par desta constatação geral, existe uma série de pontos concretos em que o passado nos pode ajudar a pensar o presente. Desde logo, ao nível da prevenção dos incêndios, a necessidade de definir estratégias sociais e económicas que promovam a diminuição da área ocupada por plantações de eucalipto e pinheiro e a sua substituição por uma floresta multiespécie ou de usos múltiplos, que possa incluir outras atividades produtivas, educacionais, de lazer e/ou recoleção. Tal como, nas décadas de 1950 e 1960, foram mobilizados com sucesso diversos incentivos para promover a plantação de eucaliptos, será hoje possível construir uma política territorial, focada nas serras de norte a sul, que promova uma paisagem resiliente aos incêndios. As antigas paisagens de fogo sugerem de forma clara que essa resiliência deverá passar pela inclusão do fogo e não pela sua exclusão.

    Numa formulação abrangente, trata-se de recuperar o relevo que a agricultura teve no território português até meio do século passado e pensar, a partir deste objetivo, numa nova ruralidade que atue sobre a gestão dos combustíveis e do fogo, mas também, de forma consequente, sobre a possibilidade de viver e trabalhar no interior português, sem que para isso seja necessário, obviamente, repetir os equívocos ecológicos e a hiperexploração do trabalho, ambos bem patentes, por exemplo, nas monoculturas do trigo ou do pinheiro promovidas e desejadas pelo Estado Novo. Em suma, a agricultura, encarada como um conjunto amplo e diverso de atividades dirigidas à produção de alimentos, sejam eles vegetais ou animais, parece ser o campo privilegiado para reflexão e atuação não apenas sobre as atuais paisagens de fogo, mas também sobre o interior português.

    O conhecimento que adquirimos sobre as paisagens de fogo do passado mostrou também que a sua complexidade social, agrícola e ecológica foi, invariavelmente, mal compreendida e representada pelos programas de âmbito estatal destinados a atuar sobre o espaço rural e a vida das suas populações. E, infelizmente, o cenário hoje em dia não parece substancialmente diferente. O conjunto de memórias e experiências que recolhemos em Monchique e Lapa-Nave revelou distâncias significativas entre as realidades locais e as políticas e o conhecimento científico que lhes eram dirigidos. E isto tanto no passado – por exemplo, na já referida florestação dos baldios – como no presente, no que se refere, por exemplo, à gestão do combate aos incêndios. Esta evidência, que resulta da nossa investigação, poderá orientar o desenho de estratégias de prevenção e combate que valorizem o envolvimento local, seja através da transmissão intergeracional de conhecimentos e experiências sobre como lidar com o fogo, da participação das populações locais nas estratégias de defesa e gestão territorial das suas povoações ou do reconhecimento da necessidade de apoiar de forma adequada as pessoas vulnerabilizadas pelos incêndios.

    Cruzando o olhar com as alterações climáticas, encontraram resposta à vossa questão inicial acerca de qual a importância relativa (e cronologia plausível) das alterações no clima e no uso do solo no novo regime de fogo?

    Ainda não! Temos em curso um estudo, que junta elementos da equipa do projeto e dois meteorologistas do IPMA (Pedro Silva e João Rio), que pretende responder a essa questão. A ideia é cruzar a série de incêndios ocorridos no concelho de Silves entre 1945 e 1986, dados inéditos que nos foram gentilmente cedidos pelos Bombeiros Voluntários da cidade, com registos meteorológicos históricos, e explorar desta forma relações entre fogo e clima. A nossa hipótese de trabalho é que o aparecimento dos grandes incêndios na serra de Monchique, logo na década de 1960 e depois de forma decisiva na década de 1970, com incidência e magnitude crescentes, se deveu fundamentalmente a transformações no uso do solo, com destaque para o abandono da cerealicultura e das práticas, agrícolas e domésticas, de fogo, bem como a expansão dos povoamentos de eucalipto. O resultado foi uma paisagem a cada ano mais inflamável. Em todo o caso, alguns resultados meteorológicos preliminares para a região de Silves parecem sugerir que as alterações climáticas não participaram no início do novo regime de incêndios. Em contrapartida, a partir da década de 1980 começam a ser notórias anomalias positivas nas temperaturas de verão que se acentuam nas décadas seguintes e que terão contribuído para um agravamento cada vez mais significativo do problema.

    O período entre 1980 e a atualidade tem sido muito estudado em Portugal e sobram poucas dúvidas sobre a importância das mudanças no clima na evolução mais recente dos incêndios. Temos hoje uma época de incêndios cerca de um mês maior do que era o período crítico durante as décadas de 1980 e 1990, que é bem explicada por mudanças no clima nos meses de primavera. Ou seja, a época de incêndios tem vindo a começar mais cedo. Verifica-se também um aumento considerável e persistente de eventos extremos, com áreas ardidas de grande dimensão. Nas décadas de 1980 e 1990 houve apenas um incêndio que ultrapassou, ligeiramente, os 10 mil hectares queimados (algo aparentemente inédito até então), na primeira década deste século foram já 11 mil (com uma área ardida média de 14 mil hectares) e na década de 2010 registaram-se 16 mil (com uma média de 25 mil hectares). Este agosto, o incêndio de Arganil chegou aos 64 mil hectares, dados provisórios, superando em dimensão qualquer outro incêndio desde o início dos registos em 1980.

    Que possibilidades ou impossibilidades, ou como se poderão combinar na vossa perspectiva, as estratégias que levam a cabra doméstica aos montes – pelas mãos de uma economia rural – e  as que levam a cabra selvagem aos montes, em nome do rewilding?

    A herbivoria dos caprinos e de outros animais que se alimentam de ervas, folhas e rebentos – tais como as vacas, os cavalos e os vários cervídeos – é uma forma muitíssimo eficaz de controlar o crescimento de vegetação herbácea e arbustiva. Podem pastar em zonas de mato denso e/ou de vegetação rasteira, reduzindo a quantidade de material inflamável. Para além disso, por serem ágeis, alcançam mesmo as encostas mais íngremes e as áreas pedregosas. Assim sendo, podem ser muito eficazes em terrenos onde pessoas e máquinas têm óbvias dificuldades de progressão. O reforço da presença de rebanhos de cabras domésticas nas serranias de Portugal enquadra-se perfeitamente no que dissemos acima sobre recuperar os usos agrícolas do território e, desta forma, assegurar uma gestão dos combustíveis e do risco de propagação de fogos. Há necessariamente questões de viabilidade económica e de acesso às terras por resolver. A verdade é que os produtos tradicionais derivados do pastoreio de cabras e ovelhas (leite, o queijo, a carne, a pele e a lã) muitas vezes não remuneram satisfatoriamente o esforço dos proprietários do gado. Aliás, essa é uma das principais causas para que, tal como ocorreu com a superfície agrícola dedicada aos cereais e outras culturas anuais, os gados em pastoreio extensivo tenham sofrido uma redução significativa desde meados do século XX. Mas, apesar destes desafios, parece-nos que será sempre de maior eficácia e alcance territorial procurar desenvolver uma política económica de fundo que favoreça, no contexto português, este tipo de economias rurais, do que os programas estatais – por definição sempre pontuais e carentes de fundos persistentes – para levar rebanhos de cabras, ditas “sapadoras”, para reduzir a carga de combustível em determinadas zonas.

    Já a reintrodução de cabras selvagens e de outras espécies supressoras de vegetação natural, que, numa primeira análise, se poderá concluir que têm o mesmo efeito, deve ser ponderada num quadro mais geral de adequação ecológica, bem como de potenciais conflitos com as pequenas economias agrícolas que ainda persistem nos espaços de montanha. A pesquisa que desenvolvemos nas serras da Lapa e Nave alertou-nos para esta última questão e para as controvérsias em torno da introdução de animais selvagens. Em particular, os produtores de árvores de fruto daquela região (sobretudo castanheiros, macieiras e frutos vermelhos) não lidam pacificamente com a introdução de cabras selvagens ou com o grande aumento na população de javalis, que constituem, na sua perspectiva, uma ameaça às produções, traduzindo-se em mais um obstáculo para estas economias vulneráveis. Curiosamente, algumas perspectivas do movimento rewilding em Portugal reproduzem largamente o imaginário, criado pelos Serviços Florestais no final do século XIX, de que as serras portuguesas estariam melhor sem pessoas, pastores e agricultores, e, em particular, sem usos do fogo.

    Esquecendo por um momento os caprinos, existem alguns bons exemplos, no norte de Portugal e na Galiza, da construção de novas relações entre grandes herbívoros e a prevenção de incêndios em espaços de montanha, que obrigam, na verdade, a repensar a habitual divisão entre economia e ambiente ou mesmo entre o que se considera um animal “doméstico” e “selvagem”. Na serra do Alvão, a norte de Vila Real, a vaca maronesa tem vindo a afirmar-se como um negócio viável através da recuperação do antigo pastoreio extensivo pelos montes baldios e lameiros, em benefício da qualidade e rentabilidade da carne nos mercados, bem como de uma gestão inovadora do território e do fogo. Segundo os criadores, estes animais tendem a recuperar, uma vez colocados em pastoreio livre, algumas características de vida selvagem para, entre outras coisas, se protegerem contra os ataques de lobos. Por outro lado, na região da serra da Groba, na Galiza, está a ser recuperado o “pastoreio” de cavalos selvagens, cujo número estava em grande declínio desde a década de 1970, sendo a prevenção dos incêndios um dos principais papéis que estes cavalos desempenham na valorização e conservação dos ecossistemas locais.

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    Texto publicado no Jornal MAPA nr. 47 – Out.-Dez. 2025

  • Veio o fogo e respondemos todos juntos

    Veio o fogo e respondemos todos juntos

    A auto-organização popular no combate aos incêndios sublinhou a importância de pensar os territórios florestais desde a sua base e ativando o espírito comunitário dos lugares.

    Alimento doado é colocado em pontos de refúgio da vida selvagem no Vale da Aveleira na Serra da Lousã. Foto: Fernando Amaral

    Uma vez mais os incêndios assolaram o país de forma devastadora. No interior florestal, coberto pelas monoculturas do eucalipto e do pinho, as populações que aí vivem, renovadas por gente citadina que procura um outro modo de vida mais próximo da terra, souberam dar uma resposta ímpar aos fogos que cercaram as suas aldeias e quintas. Fosse no Gerês, nas encostas da Lousã, Açor, Gardunha e Serra da Estrela, entre outras serranias, a auto-organização popular no combate às chamas comprovou a importância e o poder da solidariedade e do apoio mútuo. Sem que esteja em causa a abnegação dos bombeiros, em si mesma prova de uma entrega ao bem comum, ficou claro que o centralismo militarizado do estado falha redondamente. E viu-se que as pessoas sabem organizar-se por si mesmas: essa capacidade salvou vidas e permitiu vislumbrar um futuro em comunidade. O jornal MAPA foi ao encontro de algumas das histórias de resistência popular vividas no drama dos incêndios de Arganil e da Lousã, em agosto de 2025. Foram atingidos mais de 64 mil hectares ao longo de onze dias: 8 concelhos atingidos, 3% do território nacional. Estas são histórias que animam outras histórias possíveis de um renascimento rural das nossas serras e montanhas.

    Arganil, uma vez mais o fogo
    «Havia algo que estava muito presente nas pessoas que já cá estavam em 2017: não era um “se”, era um “quando”. Eu sabia que era um “quando”. Ia voltar a acontecer – mas não achei que fosse algo assim tão cedo». As palavras são de Inês, moradora em Benfeita há quatro anos, concelho de Arganil, e ligada à Folha Verde, um projeto educativo comunitário que ilustra o novo repovoamento rural que teima em inverter a longa marcha de abandono do interior. Uma vontade de aí viver que não se tem mostrado fácil, seja para estes novos rurais, seja para as populações locais que se mantêm pelas aldeias serranas. Em 2017, Inês já morava no lugar próximo de Monte Frio e viu os incêndios devastarem o território. Agora conta-nos como «o Monte Frio e a Relva Velha foram arrasados novamente. O cimo da montanha, com enorme densidade de eucaliptais, ardeu com grande intensidade e maior rapidez que nos outros sítios».

    A perceção desta inevitabilidade levara vários habitantes desses lugares à conclusão de que não poderiam ficar de braços cruzados à espera do próximo incêndio. «Depois de 2017 começou a dizer-se: o que é que podíamos fazer? Nesse ano, o único camião de bombeiros que esteve aqui foi um que ficou cá preso, rodeado pelo incêndio, nas Luadas». Já então, na luta contra o fogo, estreitavam-se laços entre os serranos naturais e os estrangeiros recém-chegados. «Observámos o que a Junta de Freguesia fazia: tinha as suas pick-ups com depósitos de mil litros para fazer algo da função de bombeiros. Sem se aventurarem muito, com bom senso. Surgiu a ideia de fazer algo semelhante».

    A Arbor, uma associação local criada no rescaldo dos incêndios com objetivos de regeneração e reflorestação com árvores autóctones, propôs-se igualmente estruturar equipas de voluntários em resposta aos fogos. Em agosto último, a organização voluntária destes habitantes foi posta à prova. Conforme relata Inês, as equipas, em colaboração estreita com a Junta, consolidaram um «apoio aos bombeiros, sem entrar em heroísmos. Conseguiu-se salvar imensas coisas, bastantes sítios. Conseguíamos chegar a sítios de difícil acesso, onde um camião dos bombeiros não podia chegar. O sistema de walkie-talkies usou- -se com sucesso (em 2017 as telecomunicações falharam). Houve pontos de vigia e muito cuidado e atenção sobre as zonas onde já se sabia que tinha acabado o fogo». Toda a gente disponível trabalhou arduamente para controlar as reignições e impedir que o fogo se espalhasse ainda mais. «Tínhamos uma rota grande e uma pequena, a circundar mais ou menos todas as aldeias, a ver se havia reacendimentos, lugares a fumegar e a precisar de intervenção»

    A auto-organização dos habitantes, que de forma espontânea se fez notar em muitas localidades, veio aqui a beneficiar do trabalho prévio do Benfeita Fire Fund. À carrinha da Junta equipada para incêndios, a Arbor juntou outras três e preparou uma rede de recursos hídricos em todos os vales para melhorar a capacidade de resposta.

    «Quando aconteceu o incêndio, era a festa da Benfeita, o que foi um pouco surreal. Havia por aqui montes de “lisboetas”, como lhes chamo. Tínhamos uma bomba no muro do rio para as pick-ups encherem constantemente os depósitos de mil litros, e havia sempre jovens de Lisboa lá a ajudar, com baldes e assim, para encher mais rápido». Ecoando uma situação repetida por todo o lado neste último verão, Inês refere como «muitas vezes os bombeiros não tinham ordem para atuar. Houve situações em que o fogo teria sido muito menor se eles tivessem agido mais cedo, quando ainda está no meio do mato e não está perto de uma aldeia. Não se pode apontar o dedo ao nível local, mas a como as coisas são organizadas mais acima na pirâmide do poder. Não quero apontar dedos, é preciso muita coragem, mas sem dúvida algo está mal na forma como estes meios são organizados».

    Já ao nível local, a sensação é que «muitas pessoas se sentiram empoderadas: há algo que podemos fazer para nos defendermos. É possível. Acho que o facto de as pessoas estarem organizadas e terem desejo de combater o fogo, na medida dos possíveis, não fugirem e decidirem ficar, trouxe imenso respeito por parte dos locais». Recorda o diálogo com uma senhora que lhe dizia como «antigamente, quando havia um fogo, juntávamo-nos todos e, se havia água, era água, se não, era à enxada». «Foi isso que aconteceu, respondemos todos juntos. No meio das perdas, imensas perdas sobretudo da natureza, vegetal e animal, essa foi a parte bonita de ver acontecer».

    Foto: Fernando Amaral

    E, se o fogo se extinguiu, o sentimento local não se esfumou. Sucedem-se dias de trabalho comunitários, sempre guarnecidos de refeições comunitárias que juntam as pessoas. No mercado mensal na Benfeita, várias bandas tocaram gratuitamente para angariar fundos para os almoços comunitários. Nos mercados, ofereceram-se ferramentas, materiais de construção, pratos e lençóis, e angariou-se dinheiro para quem tinha perdido as suas coisas.

    «No primeiro fim-de-semana fomos a 15 sítios, cada equipa tinha uma pick-up para levar destroços queimados até sítios onde os podíamos depositar, em articulação com a Junta». Tentando fazer crescer a floresta autóctone, diz Inês que «a terra nunca quer a sua pele vazia: “limpa”. Este conceito da limpeza é dúbio. Não quer estar nua, quer estar coberta», pelo que «é preciso jogar com esse comportamento espontâneo, deixar que ele exista, misturar outras coisas pelo meio, para com mais rapidez termos uma floresta a que possamos chamar floresta». Inês insurge-se contra a «definição oficial de floresta, do governo português, [onde] cabe perfeitamente uma monocultura: não é uma floresta! Vimos que nas zonas que arderam e que tinham várias espécies é possível intervir e parar, ou acalmar, e salvar coisas».

    Codessais. mulheres que cuidam
    Fernando Amaral perdeu a sua casa nas encostas de Vila Nova de Poiares nos incêndios de 2017. Desde então que, em videoativismo, recolhe testemunhos difundidos pelas redes de resistência a vários projetos extrativistas, das minas do Barroso às monoculturas florestais da região onde vive. Fernando, que diz ser preciso «deseucaliptizar» Portugal, é uma das vozes da Rede Emergência Florestal / Floresta do Futuro, que em setembro passado voltou a organizar diversos protestos em várias localidades do país como na Lousã, Arganil, Pedrógão Grande, Sertã e Oliveira do Hospital. É este o seu alerta: «nos últimos 35 anos, o equivalente a metade do território nacional já ardeu. O que está em causa é a própria viabilidade do país. Para podermos ter uma terra onde possamos viver sem medo, para termos um futuro, temos que organizar a mobilização popular que a política nunca quis nem aceita. Para podermos ter um futuro, temos de construí-lo com as nossas mãos».

    Fernando gravou em três vozes femininas de Codessais, em Serpins, na serra da Lousã, o relato desse momento em que «o dia virou noite», a 15 de agosto. «Três horas de inferno» em que estas mulheres, com os poucos vizinhos, boa parte idosos, combateram as chamas com baldes e mangueiras perante a falta de resposta às insistentes chamadas de emergência. À rapidez do fogo e à ausência de meios, opôs-se a «persistência delas, o instinto de sobrevivência de porem as mãos à obra», apesar de um sentimento contraditório de reconhecerem a «inconsciência» de ficar, nestas situações. «Nós organizamo-nos sem saber como, fazendo uma equipa. Só pelo olhar já dizíamos “vais para ali, tu vais para lá”».

    A sensação que ficou no lugar é que «fomos abandonados». Depois de 2017, a população apresentara várias soluções de prevenção, desde a limpeza dos caminhos à localização de um tanque de apoio. Nada foi feito. Agora deixam um apelo: «temos o outono, o inverno e a primavera; temos três estações do ano para preparar muita coisa, mas também para preparar os habitantes para serem os bombeiros da própria aldeia. Criar condições para que nós possamos ajudar os bombeiros. Quem passou por aquilo que nós passámos, que se juntem, que façam a sua voz ser ouvida pelos autarcas para que isto não volte a acontecer».

    Codessais: «organizámo-nos sem saber como, fazendo uma equipa a tentar salvar-nos. Só pelo olhar já dizíamos “vais para ali, tu vais para lá”». Foto: Fernando Amaral

    À espera da brama no Vale da Aveleira
    Claúdio vive com a mulher e a filha de dez anos na aldeia de Cabanões, em Serpins, onde Fernando gravou o seu testemunho. No dia 15 de agosto, a aldeia viu-se totalmente rodeada pelas chamas e foi evacuada no início da manhã. Quando o fogo chegou, ficaram seis habitantes a combater sem nenhum meio de apoio. A aldeia, diz Cláudio, faz parte «daquele programa da Câmara Municipal de “Aldeia Segura” que visava aqui coordenar uma série de elementos que falharam redondamente, elementos esses que foram apontados por toda a população e que foram ignorados até ao dia 15». Desde logo, «os sobrantes florestais de limpezas que haviam sido feitas» resultaram em «montanhas de combustíveis deixados por toda a serra». A empresa subcontratada pela autarquia, «que era para vir tratar dos sobrantes florestais, uma empresa de lenhas, veio e começou a carregar as madeiras das pessoas todas e deixou os sobrantes!». Depois há o difícil acesso ao tanque instalado e o caricato caso dos 200 metros de mangueiras a que ficaram a faltar os adaptadores às bocas de incêndio, tal como constatado no próprio momento da instalação, feita com pompa e circunstância. Tudo isto foi apontado por Claúdio em reunião com o executivo camarário, um mês antes do incêndio. Quanto ao valor indicado de 36 mil euros adjudicados para Cabanões através da “Aldeia Segura”, Cláudio diz-nos que «nós com muito menos do que isso estamos a tentar garantir a sobrevivência no próximo episódio». Os moradores juntaram-se para comprar bombas submersíveis, equipamento e mangueiras decentes, com as devidas ligações. «Porque já vimos que se estivermos à espera da ajuda de qualquer entidade, vamos morrer todos aqui queimados».

    Foto: Fernando Amaral

    Entretanto, Claúdio transporta cereais e frutas doadas para pontos de refúgio da vida selvagem do Vale da Aveleira. Depois de 15 quilómetros percorridos de jipe em terra batida, começa uma caminhada de dois quilómetros com as sacas às costas, até chegar a pontos de água que subsistem no único verde que resta em toda a serra: «não queremos que eles se vão embora». «Se as entidades não quiseram saber das pessoas aqui em Cabanões, eu não vou delegar agora essa tarefa no caso dos animais. Com os nossos próprios meios, os nossos veículos e o nosso tempo, estamos a levar o alimento». Fala dos javalis e dos veados, alimentados pelo esforço voluntário de Cláudio e de quem mais o acompanha, evitando que desçam às aldeias e causem prejuízos nas lavouras que ficaram, mas sobretudo para «proteger aquilo que resta desta floresta, deste bosque lindíssimo». As imagens são vislumbres de esperança em vales «acantilados muito profundos» por entre o negro das encostas e cumeadas.

    Com as chuvas que virão «isto vai ficar tudo um caos e alguém terá de fazer alguma coisa aqui no terreno, não sei bem como, mas estou à espera das diretrizes para poder ajudar no que possa». Virão ainda as invasoras e o momento, para Claúdio, será mesmo «de menos eucaliptos, ou nenhuns, se possível». Defende o plantio de árvores autóctones, em particular do carvalho alvarinho, «uma árvore sapadora que consegue controlar e até extinguir os incêndios». Até lá, Claúdio assegura que vai continuar o seu trabalho, «pelo menos até sentir que a floresta está a recuperar e que o alimento já assegura a sobrevivência deles». A «brama está quase aí», o ritual outonal de acasalamento dos veados, e «esse será o momento de confirmação do nosso trabalho: quando os ouvirmos bramir neste vale e soubermos que eles estão a procriar e que o futuro está assegurado».

    O espírito da comunidade a acontecer
    A quinta situa-se entre a freguesia de Paul e a freguesia de Ourondo, na Covilhã. São cerca de 50 hectares que, desde 2010, albergam uma comunidade espiritual de cerca de 30 pessoas sob o nome de Ananda Kalyani. Exemplo da nova toponímia que constará quando atualizada a cartografia e os cadastros da nova ruralidade do nosso interior.

    Falámos com Guilherme acerca do drama vivido entre as chamas. Há já uma semana que ardia uma serra próxima, a cerca de 20 km, mas, como todas as populações serranas, estavam habituados a ter incêndios por perto. «O incêndio, para chegar aqui, teria de queimar aldeias, como a de Casegas, para chegar até nós. Pensámos: “não é possível, o governo português, os bombeiros não vão deixar que isto aconteça”. Dia 16 de agosto, aconteceu. Queimou essas aldeias, muitas quintas arderam completamente, casas, armazéns, animais, olivais centenários… é mesmo muito triste, estamos a falar de gerações e gerações de trabalho ardido em minutos».

    «E chegou até nós. Na nossa quinta principal, dos 30 hectares, arderam 25 hectares. Conseguimos preservar esses 5 hectares pelo trabalho de quatro membros da nossa comunidade, que ficaram a noite toda a combater as chamas, porque os bombeiros não vieram cá. Não tivemos apoio dos bombeiros porque era uma calamidade, um desastre de tal tamanho, não havia recursos, não havia meios, era impossível, uma tragédia. Percebo completamente que os bombeiros não tivessem forma de dar vazão a tudo. Então tivemos nós que proteger a nossa própria quinta».

    Guilherme conta-nos que a maioria das pessoas evacuou porque «era, de facto, muito perigoso». O combate empreendido pelas quatro pessoas que decidiram ficar «foi mesmo tirado de um filme, um filme com heróis de ação a meterem a sua vida em causa para proteger a nossa quinta. Por um lado, incrível, por outro lado, há que dizer que o que a maior parte das pessoas fizeram foi tomar a ação mais sensata, que é evacuar. Mas, graças ao sacrifício desses quatro membros da comunidade, conseguimos preservar a maior parte das nossas infraestruturas. Porque, de outra forma, teríamos perdido tudo, teria ardido o yurt de habitação muito bonita, mas feita de madeira, a casa com armazém agrícola também feita de madeira, uma produção de meio hectare de amoras que nos dá algum retorno financeiro, e claro, as estufas. Temos uma estufa incrível que produz toneladas de comida todos os anos, é de onde vem a maior parte dos nossos vegetais. E teria sido um desastre para nós. Mas, mesmo assim, perdemos 25 hectares: 10 destes hectares eram cerejal com 500 cerejeiras, um sistema de rega, várias colmeias de abelhas, isso perdemos tudo. Estamos a falar de 10 anos de trabalho que desapareceram e que não vai ser assim tão cedo que vamos conseguir reaver.» Seguiram-se «vigias de 24 sobre 24 horas, turnos de duas horas durante a noite toda e durante o dia todo, para apagar todas as reignições».

    Foto: Diogo Tavares Ribeiro

    Guilherme acentua ao longo da conversa um ânimo positivo perante a tragédia. «Uma das razões é que nos ativou. Somos uma comunidade espiritual e vimos o poder de viver em comunidade e as mais valias». Uma leitura que extravasa para as aldeias vizinhas. «Observei, em particular, nos dias depois da grande tragédia, este espírito de comunidade, a acontecer no Paul. E, em Ourondo, vizinhos a juntarem-se, a apagarem as reignições dos terrenos uns dos outros, vi esse espírito de comunidade acontecer também».

    «O que estou a observar aqui é mesmo o poder da comunidade, essa entreajuda, a solidariedade que se ativou. Para mim é muito inspirador e quero continuar assim. A nossa missão a um nível maior é viver numa sociedade em harmonia entre nós, seres humanos, mas também com todos os outros seres, as plantas e os animais. Não queremos viver numa sociedade em guerra, individualista, capitalista, em que o individual está acima de tudo, o indivíduo acima do coletivo. Nós queremos viver numa sociedade que viva realmente em entreajuda. Esta tragédia está a ativar este espírito. Estamos a fazer o nosso melhor para aproveitar o que este momento está a gerar.»

    Daí nascem as ajudadas Mãos na Terra que, como em Benfeita, são celebradas com um almoço partilhado. Juntam-se em diferentes quintas afetadas a apanhar lixo, a cortar giesta queimada, a fazer estruturas de retenção da água para mitigar a erosão e apoiar quem tudo perdeu. Mas, para Guilherme, os objetivos não se ficam por aí. «Acredito num processo passo a passo. A curto prazo estamos a fazer estas ajudadas nas quintas uns dos outros, a criar aquele espírito de comunidade». A solução de médio prazo será fazer uso das previstas Áreas Integradas de Gestão da Paisagem (AIGP), e dos fundos do Programa de silvicultura sustentável (PEPAC). «Estamos a falar já de uma grande escala, aliás, ideal até seria uma ZIF (Zona de Intervenção Florestal) a partir de 500 hectares e um mínimo de 25 proprietários, mas a AIGP é mais flexível e prevê também espaço agrícola. Estamos a falar de um agrupamento de terrenos que são geridos de uma forma verdadeiramente comunitária e temos uma entidade central que gere o terreno em nome de todos os proprietários». A associação ambiental Ecoativo, ligada à Ananda Kalyani, irá pôr em marcha um projeto próprio nesse âmbito.

    Já a longo prazo, sublinha o objetivo de «sairmos deste paradigma de pensar na floresta como um meio de obtenção de lucro e em que a prioridade seja a criação de ecossistemas saudáveis e funcionais. Aí, estamos a falar de misturas de plantas, estamos a falar da criação de floresta verdadeira com os diferentes estratos, com os estratos emergentes, as árvores grandes, o estrato alto, o estrato médio e o estrato baixo. As plantas anuais de ciclo rápido, os arbustos de ciclos mais lentos, as árvores de ciclos médios e as árvores de ciclos longos». Para Guilherme, temos de ir para além do mosaico que estes subsídios permitem: «as faixas de sobreiro, as faixas de medronho, faixas de carvalho negral…», embora «esta ideia de um mosaico seja mil vezes melhor do que temos hoje em dia: 70 ou 80% de monocultura de pinhal abandonado».

    Por fim, uma outra ideia final, à qual Guilherme confessa saber «que vai ser muito difícil convencer as pessoas de que isso realmente é o caminho, mas a medida é simples: todo o terreno florestal que está claramente abandonado há mais de 10 anos, automaticamente passa a baldio. Uma vez que passa a baldio, as entidades que trabalham com a floresta passariam a geri-lo».

    Temos que organizar a mobilização popular que a política nunca quis nem aceita. Para podermos ter um futuro, temos de construí-lo com as nossas mãos.

    Do ponto mais alto do continente
    Combatidos os fogos e reiterado o poder da auto-organização popular por essas aldeias, quintas e comunidades fora, por entre novos residentes ou gerações locais, ao forte sentimento de abandono que a todos assolou a única resposta possível seria, em diante, dar continuidade à dignidade dessas histórias de resistência. Muitas mais histórias haveria para aqui relatar.

    No dia 21 de setembro, mais de 150 pessoas subiram à Torre, na Serra da Estrela, sob o apelo de um «momento apartidário de encontro e partilha, em defesa da Serra, do território e das comunidades». Diversas pessoas, associações e organizações locais, apresentavam o movimento Por Serras Dignas. Do seu manifesto em construção, citamos: «As chamas deixaram um rasto de tristeza, mas revelaram também algo que nunca se perdeu: a força de comunidades que sabem unir- -se e resistir. As serras, florestas, animais, rios e pessoas serranas merecem um futuro de esperança que pede resistência em cada aldeia, em cada trilho, em cada ecossistema. A montanha não é apenas pedra e vegetação, nem paisagem para turismo fugaz, nem reserva de sacrifício para monoculturas e políticas que vêm de longe. A montanha é casa de muitos seres vivos, é trabalho, muitas culturas, escola, futuro! Exigimos respeito. Exigimos dignidade».

    ———–

    Texto de Filipe Nunes com Francisco Colaço Pedro e Fernando Amaral
    [publicado na edição nr. 47 de Jornal MAPA – Out.-Dez. 2025]

  • Carmo 81

    Carmo 81

    Para além de ser o único ponto de venda do jornal Mapa em Viseu, o Carmo 81 é um espaço que
    foge à regra na cidade. Não é um bar, não é (só) uma sala de concertos, é um espaço de criação e
    encontro, onde a experimentação ocupa um lugar central. Foi no quintal que conversámos com o
    Nuno Leocádio, um dos fundadores deste espaço.

    O que é que é o Carmo 81? E como é que apareceu este sítio?
    Nuno Leocádio: O Carmo 81 é a sede de uma cooperativa cultural. Em 2015, um grupo de amigos de diferentes áreas, como produção cultural, cinéfilos, fotógrafos e também duas colegas ligadas à educação, que hoje em dia são professoras primárias, juntaram-se e queriam constituir uma cooperativa, por dois motivos.

    Primeiro, a questão da empregabilidade, numa altura em que estávamos ali no governo de Passos Coelho e tudo era, ainda é, bastante precário. O outro motivo era o acesso à cultura; se quiséssemos ver alguns concertos, a oferta cultural estava demasiado litoralizada.

    Ou seja, ainda existe uma grande discrepância na fruição da cultura entre o interior e o litoral. Isso não é uma opinião minha, basta ver o atlas da cultura e a oferta que existe. A distribuição denota que tem havido um grande esforço para haver esta descentralização, mas não, nomeadamente, no nosso meio. Se eu quiser ver um concerto de Linda Martini, ou espero por uma festa de Verão de uma cidade próxima, tenho de me deslocar ao Porto, ao Maus Hábitos, ou a Lisboa. Enfim, com base também no que são as venues, as grassroots venues de outras cidades e do que vimos noutros países, acreditávamos ser possível em Viseu haver uma sala de espectáculos, de concertos, independente e com uma programação que nós não víamos a acontecer na cidade.

    Um dos nossos colegas queria um espaço onde apresentar as sessões do Shortcutz Viseu e então juntámo-nos todos à procura de locais e encontrámos este espaço que estava completamente abandonado. Era uma antiga oficina de motores de rega e estava devoluto e em muito mau estado.

    O telhado tinha imensos buracos, chovia lá dentro em todo o lado, aquela parede do fundo não existia, a bancada estava a suportar o telhado. Este espaço onde nós estamos era fechado com chapas de lusalite, as paredes de pedra não se viam, estavam cobertas por cal, enfim, fizemos uma série de trabalhos aqui dentro. E recuperámos o espaço, na medida do possível, com financiamento próprio, fizemos uma vaquinha, cada um meteu o que pôde.

    E com pouquíssimo dinheiro recuperámos o espaço e com a nossa mão de obra: não houve nenhuma empresa envolvida. E assim surgiu o Carmo, na altura, não propriamente para ser uma sala de espectáculos dirigida a concertos. Sabíamos que seria local de ensaio para bandas de amigos, para apresentar livros, cinema. Era uma cooperativa cultural que queria fazer o trabalho próximo do associativismo e do que as associações culturais fazem. E disso tínhamos a certeza.

    Entretanto, o meu gosto pela música, e o interesse dos meus colegas também, fez com que começássemos a programar alguns concertos. E, desses concertos, começámos a perceber que nos davam imenso gozo, davam-nos muita pica e era ao que o público mais respondia, foi o que deu mais hype e credibilidade também à nossa programação e ao nosso espaço. Começámos a perceber que havia uma grande falha, porque bares e espaços que façam concertos existem várias dezenas ou centenas, não sei especificar, mas grassroot venues existem poucas, e no interior do país existem mesmo muito poucas.

    E agora fechou o Club de Vila Real, por exemplo, e que eu conheça o Salão Brasil em Coimbra, é litoral, Coimbra é interior, mas é litoral, existe o She em Évora, e eu não me quero estar a enganar, mas eu acho que é só o She em Évora. Existe também o GrETUA, em Aveiro, mas é litoral. Enfim, acreditávamos que era preciso haver um espaço que tivesse uma programação regular, mas, ao mesmo tempo, independente, daí a necessidade de criar um espaço como este.

    E foi assim que começámos, um pouco sem ter a certeza absoluta do que queríamos, mas sabendo que queríamos descentralizar a oferta cultural e tendo sempre esta preocupação também pela democracia cultural, que não é só a questão da acessibilidade e da bilheteira, mas também a oferta que podemos dar, que não existia até aqui em Viseu, antes de surgirmos.

    Como é que vocês se relacionam com os outros espaços culturais de Viseu, e como é que o Carmo 81 vive nesta cidade do interior centro?
    N: As relações têm sido incríveis. Ao longo de 10 anos, o Carmo também se apresentou, desde o início, como um espaço de confluência. É aqui que a malta do cineclube se pode encontrar com a malta do jazz, é aqui que os artistas plásticos se podem encontrar com os músicos. Ou seja, é um espaço de debate, discussão, de encontro. Foi sempre assim desde o início, mas, a partir do momento em que começámos a programar de forma ativa, sempre procurámos perceber qual era o nosso lugar. Por exemplo, nós temos o Shortcutz, que é dedicado às curtas, mas a função do Cineclube [de Viseu] é o cinema, então essa não será a nossa função. Os concertos de jazz que aqui fazemos são em colaboração e em parceria com o Festival de Jazz de Viseu, com a [associação] Gira Sol Azul. Temos várias parcerias, seja o Teatro Viriato fazer eventos aqui dentro do Carmo, seja o Carmo propor atividades, nomeadamente concertos, para o Teatro Viriato, isso existe e vai-se fazendo sempre que possível. Ou seja, o que nos tem salvo e o que nos tem ajudado muito também tem sido este ecossistema cultural local, que, apesar das dificuldades de que vou falar a seguir, é forte, sempre foi, já de há uns anos por cá. Pode-se dizer que são pequenas ilhas, mas que constituem assim um ecossistema e é verdadeiro, e que depois acaba por criar uma rede de interações.

    Além desse ecossistema local, também nos conseguimos inserir num ecossistema nacional. Existe uma associação, que é a Circuito.live, de espaços semelhantes ao Carmo, que neste momento representa 23 casas, acredito que em breve possa vir a representar mais. É uma associação localmente constituída, onde entramos em contacto uns com os outros, partilhamos experiências, dividimos serviços jurídicos, e isso ajudou-nos já em alguns momentos, nomeadamente esse serviço jurídico já salvou a existência do Carmo. Ou seja, se não fosse essa associação Circuito.live, se calhar o Carmo não existia. Com o Maus Hábitos no Porto, por exemplo, temos uma parceria do Super Nova, que é um evento que eles criaram com apoio da Superbock, e que difundiram pelo país todo, e o Carmo é uma das salas que recebe esse evento.

    E com todas as agências e músicos que, ao fim de pouquíssimos concertos perceberam, ok, o espaço é pequeno, mas garante todas as condições dignas para artistas emergentes, mas também para artistas consagrados. A malta, como os Clã, como os Capitão Fausto, como os Linda Martini, enfim, se calhar é melhor não estar a nomear, porque vou-me esquecer de muitos outros e isso é injusto, mas também gostam de voltar a este tipo de local. E é muito bom porque essas bandas sabem que a sala tem uma lotação pequeníssima, mas que vão tirar daqui um som muito bom, vão ser muito bem recebidos e vão conseguir ter o público a esta distância e vão conseguir perceber que músicas é que funcionam melhor, as interações dos artistas e tudo, e os músicos… Enfim, no fim deste mês vamos receber a Surma. A Surma já é artista de salas maiores do que a nossa. Na semana passada tivemos o Jorge Cruz, do antigo Diabo na Cruz. Ou seja, todas estas redes, a rede local com os nossos colegas e parceiros locais, mas também os nacionais têm-nos ajudado muito e é isso que tem permitido a um espaço com estas limitações conseguir sobreviver.

    Acaba por ser mais difícil por todas as questões financeiras extra que implica, que para a malta que vive no litoral não existe. Custa-me porque é um discurso um bocado do coitadinho do interior, mas é uma realidade. Não dá como disfarçar.

    Mas, de verdade, eu nem quero, nem defendo nenhum tipo de política específica. Não quero nenhuma discriminação positiva para a malta do interior. Neste momento era preciso pensar numa política pública que defendesse espaços de criação, de ensaio, de programação, independentemente do sítio onde estão. Sejam no interior ou no litoral. Tenho a certeza que, havendo essa política pública, surgiria e existe na Covilhã um espaço que já programou e que se está a preparar para o voltar a fazer de forma bastante participativa. Já existiu em Vila Real, e de certeza que voltaria a existir. Ou seja, no dia em que surgirem essas políticas públicas, vão surgir mais espaços destes.

    Mas o vosso foco aqui é muito a música? Ou é a música e outras coisas?
    N: É a música e outras coisas. Acaba por ser a música a que o público atribui mais relevância e é que a está mais representada. Mas, mesmo assim, nós não fazemos mais do que dois concertos por mês. Deixamos sempre espaço para criações, para ensaios das nossas criações e para ensaios de outros artistas. Nós não somos agência nem management. Nunca o fizemos. Ainda não sabemos bem responder porque não. Mas já colaborámos com vários artistas locais, dando-lhes espaço de ensaio, fazendo uma espécie de mentoria.

    Sempre que está a surgir uma banda nova de Viseu, com quem nos identificamos, procuramos colaborar da melhor forma. Pedir ao nosso técnico de som que os ajude a compor um raider técnico, de luz, ensinar-lhes tudo isso. No fundo não somos management nem agência, mas procuramos colaborar com o que sabemos. E com o que fomos aprendendo também ao longo destes anos.

    Isso quer dizer que há um espaço de programação aberto ao público, mas também há um espaço mais de backstage, de estúdio, de prática.
    N: Sim, isso é possível, como estava a falar há pouco. O Carmo só abre em dias de eventos. E, como só abre em dias de eventos, nós conseguimos ganhar essa disponibilidade de, nos outros dias, receber a malta, reunir com eles, dar espaço para a sua criação.

    Muitas vezes não é de todo criação nossa. A Joana Martins, uma atriz de Viseu, mas que trabalha pelo país todo, criou um espetáculo incrível com o nosso som, em que o som era o principal.

    Aí foi ela que nos ensinou muito a nós, mas foi possível por ter sido neste espaço, com este sistema de som, com o nosso técnico de som a colaborar muito com as ideias dela. Montaram sonoramente e o espetáculo que eles já tinham escrito.

    Como é que é a vossa relação com a vizinhança?
    N: Os vizinhos são muito incríveis connosco, porque percebem perfeitamente o respeito que nós temos por eles, por não fazermos disto um bar, nem uma discoteca, que funciona todos os dias com ruído. Percebem também que nós cumprimos os horários. Desde o início que criaram afinidade e sempre foram bastante solidários com a nossa ação. E nós também tentámos ser sempre bastante comunicativos com todos. E aqui, paredes meias com o Carmo, vive uma família que tem duas crianças, uma de nove, outra de cinco ou seis. E o Carmo tem dez. Ou seja, eles nasceram com o Carmo com vida. Com vida e com o ruído que isso implica algumas vezes por mês. E sempre foram muito simpáticos connosco.

    Com o município… existem municípios, não estou a dizer que são melhores ou piores, e cada espaço tem a sua dificuldade, mas em Viseu não nos sentimos protegidos. Não nos sentimos bem-vindos.

    Agora, as políticas públicas, sejam nacionais ou locais, por mais que colaborem pontualmente, através da DGArtes ou de apoios financeiros como a Eixo Cultura, não resolvem nada.

    E como é que o festival Karma aparece e continua a acontecer?
    N: O Karma surgiu em 2019 com a ideia de ser um festival no Fontelo, um misto entre a natureza e o urbano, o que não nos foi possível, porque o Fontelo não é um jardim, é uma mata, e tinha ali alguns problemas que a Proteção Civil insistiu em não desbloquear, o que nos impediu de fazer uma série de coisas. E no ano a seguir, meteu-se o Covid e o Fontelo tinha espaço suficiente para fazermos com aquelas regras todas distópicas, mas necessárias. Porque, foram anos e anos a estudar como é que o público chega mais cedo, como é que o público usufrui melhor, como é que o público se diverte mais… e, de repente, fomos obrigados a saber como é que a malta se afasta, como é a malta chega só na hora, como é que a malta sai a tempo, foi tudo o contrário do que andávamos a fazer até ali. Em 2020 e 2021 fizemos com pandemia, o que nos orgulhou muito, porque não desistimos. Na altura tínhamos um financiamento digno para fazer o festival e isso também nos ajudou. E ajudou todos os parceiros com quem trabalhámos, numa altura mesmo difícil para todos. E ficámos mesmo muito felizes com essa possibilidade, mas, na verdade… não foi um festival. Foi para pouca gente, e com todas aquelas condições. E passou para o skate park, em exclusivo, o que foi muito incrível, mas muito mais urbano, muito mais direto, foram três noites de concertos e ponto final. Tínhamos a Inês Flor com artes plásticas, tínhamos workshops de skate e de fotografia e de pintura, tínhamos uma parceria com o Cineclube…

    O Karma costuma durar três dias e costuma ser no primeiro fim de semana de setembro.

    E para onde é que vai o Carmo 81, para onde está a caminhar?
    N: Nós sabemos que até aqui foi a programação e o público que nos têm sustentado, mas também sabemos que sempre tivemos uma preocupação grande em não ser apenas uma sala de espectáculos, de programação, de nunca sermos vistos como um bar, embora muita gente confunda o espaço com um bar. E as criações sempre foram o que mais nos realizaram. Embora eu me arrepie muito com todos os artistas que cá trazemos… É com as criações que nos completamos e surgiram coisas incríveis. Houve um ano, antes de haver Karma, em que quisemos fazer algo dedicado a solistas, a artistas a solo. Então, convidámos o Afonso Cruz para fazer um texto sobre o ser mais solitário que ele conseguisse conceber. E então ele fez um livro sobre a Audax Viator, que é a bactéria mais isolada, mais pequena, mais escondida, mais ínfima do mundo. E ele fez um texto incrível sobre essa bactéria chamada Audax Viator: Depois convidámos o Jaime Raposo para ilustrar esse texto e foi uma publicação, foi um livro que concebemos. Ao fim do livro feito, mostrámo-lo a um amigo, que é músico e é cozinheiro, o Rui Sousa. Fizemos uma peça de teatro musicada ao vivo sobre esse livro, sobre essa bactéria. Ou seja, de uma criação, já temos outra, uma peça de teatro musicada ao vivo com um órgão de tubos. Nós não temos aqui um órgão de tubos, tivemos de o procurar e fazer uma parceria com a Igreja da Misericórdia, que tem um órgão de tubos incrível. Ensaiámos lá, eles deixaram, até foram bastante simpáticos, porque quem ficou connosco foi o zelador da igreja, o sacristão, o sr Jorge, que nos acompanhou durante as duas semanas de ensaio dessa criação do Audax Viator. E ao fim de duas semanas ali a ensaiar, ele diz-nos que canta uns fados. E lá perdeu a vergonha e começou a cantar o “Boa noite solidão”, do Fernando Maurício, uma música incrível que ele canta muito melhor que o original, que nos arrepiou a todos. E o Rui Sousa, o Dada-Garbeck, que estava a musicar com o órgão de tubos, disse-me que tínhamos que fazer uma banda com aquele homem, que na altura tinha, 61, 62 anos, com alguns problemas de saúde. E então juntámos o sr. Jorge com o Dada-Garbeck, que é de Guimarães, com o J, que é o guitarrista dos The Lemon Lovers do Porto, com o Nuno, que é o guitarrista e vocalista dos Unsafe Space Garden, de Guimarães também, com o Pedro Oliveira, que é baterista de várias bandas e professor de música… enfim, juntámo-lo com uma malta mais nova, num confronto de gerações e criámos a banda Sr. Jorge, que é um fado com esta roupagem mais experimental, menos convencional. E para nós tem sido um experiência muito linda trabalhar com ele, porque ele fica super desconfortável com os sintetizadores e está habituado a receber o aplauso no fim de cada música do fado, mas neste neste projeto não, porque ainda está ali a distorcer qualquer coisa… E nós nunca nos preocupámos em vender a ideia de um velhinho que tem alguns problemas de saúde e que é sacristão e assim… mais, as letras são sobre decadência, sobre a velhice, sobre coisas que certamente não vais querer ouvir quando estás a ouvir rádio. Mas nós vamos insistir por aí, porque achamos que a cultura não serve só para dar, a cultura não tem de ter serventia, mas acima de tudo, o direito à tristeza, à melancolia, o direito a não teres que estar sempre a sorrir, sempre feliz, tem que existir e acho que aquele projecto serve muito para isso.

    É nas criações que vemos o futuro do Carmo, não é que a programação vá deixar de existir, são mesmo as criações… sempre tivemos muita preocupação em fazer workshops para malta mais nova, para nós também conhecermos o público mais novo e estarmos em contacto com eles e sempre nos preocupámos muito em não sermos apenas um salão de festas. [Acrescento que] o Carmo não é um espaço partidarizado, mas é um espaço politizado. Isso pode não agradar a pessoas mais conservadoras, mas nós nunca vamos prescindir disso, porque temos os nossos valores e acreditamos em determinadas coisas que são básicas e que nem tinham que estar em debate, ainda. Mesmo numa cidade tão conservadora como Viseu, eu percebo que estas lutas ainda tenham que existir, e nós colaboramos com elas. Somos um espaço não partidarizado, mas somos um espaço politizado e continuaremos a ser, sem dúvida alguma.

    E o que é que se vende ali na loja onde também está o jornal Mapa?
    N: Vendemos o Mapa, vendemos livros e publicações que apresentamos cá, algumas fanzines de todo o lado, não só portuguesas mas também de fora, discos das bandas de Viseu mas também de bandas que já passaram pelo Carmo. E, durante muito tempo, tivemos livros de especialidade, artes, artes plásticas, fotografia, cinema. Neste momento, é mais fanzines, discos, vinis, livros que cá são apresentados e publicações como o Mapa.

    Actualmente, fazem parte do Carmo 81:
    Catarina Loureiro, José Marques, Rafael Farias, Rui Sousa, João Pedro Silva e Nuno Leocádio

    Carmo’81
    Rua do Carmo, nº 81
    3500-096 Viseu

    ………….

    Entrevista de Ana Queijo, publicada na edição #46 do Jornal MAPA [Jul.-Set. 2025]

  • Em memória do anarquista Kyriakos, nas ruas de Atenas

    Em memória do anarquista Kyriakos, nas ruas de Atenas

    Há um ano, uma explosão acidental vitimou o anarquista Kyriakos Xymitiris, deixando ferida Marianna Manoura. Seguiram-se diversas detenções, escalando a perseguição do estado grego ao movimento anarquista.

    A 31 de outubro de 2024 uma explosão acidental num apartamento em Ambelokipi, em Atenas, causou a morte do anarquista Kyriakos Xymitiris. Marianna Manoura, que também estava no apartamento, sofreu múltiplas lesões, foi levada para a unidade de cuidados intensivos hospitalar, sob vigilância constante da polícia. Após 15 dias internada e apenas um dia após ter sido submetida a uma segunda operação, foi transferida para a prisão feminina de Korydallos, onde lhe foi negada, de forma vingativa, conforme os comunicados divulgados, o acesso aos cuidados médicos de que necessitava para melhorar o seu grave estado de saúde.

    Bombas e anarquistas. Com estes dois elementos em jogo, num país onde essa equação nunca desapareceu totalmente da esfera anarquista, a qual mantém uma forte presença nos movimentos sociais, o acontecimento veio reforçar no último ano por parte do estado grego uma «caça às bruxas», apoiada por diversos meios de comunicação social. Neste contexto de propaganda estatal, arbitrariedade judicial e alarmismo mediático, conforme refere o recente comunicado anarquista que apelava a manifestações de solidariedade, um ano decorrido da explosão que tirou a vida a Kyriakos, esta foi imediatamente transformada numa ferramenta política. Em marcha toda uma narrativa de terrorismo, invocando o artigo 187.º A, que define o terrorismo no código penal grego, com vista a criminalizar relações de camaradagem e amizade em torno de Kyriakos Xymitiris e Marianna Manoura.

    Durante o último ano, com provas supostamente «irrefutáveis», a anarquista Dimitra Z. e o anarquista Dimitris foram presos, embora a sua única ligação aos acontecimentos fosse somente a sua relação com o apartamento onde ocorreu a explosão. Ao mesmo tempo, e no clima político mais amplo dos dias que se seguiram à explosão, Nikos Romanos foi igualmente preso logo a 18 de novembro. O seu invocado envolvimento no caso baseia-se na descoberta com valor processual legal facilmente questionável: uma impressão digital num saco de plástico. Sem espaço para refutar a irrelevância de uma prova num objeto que facilmente se move de um lado para outro, tal foi o suficiente para iniciar uma campanha de propaganda nos media sobre supostas «provas irrefutáveis que fecham o caso de Ambelokipi». Na esperança de abrir um novo ciclo de processos judiciais, poucos dias depois após a detenção de Romanos, a 26 de novembro, o «saco de plástico» levou a polícia da unidade antiterrorismo a efetuar mais uma prisão e detenção, a de A.K.

    A morte de Kyriakos, a repressão e as prisões que se seguiram, têm sido marcantes para o movimento anarquista grego, mobilizando ondas de solidariedade em toda a Grécia. No passado dia 31 de outubro, uma manifestação em Atenas mobilizou-se para relembrar Kyriakos. No texto da convocatória, é sublinhada uma análise mais ampla suscitada em torno deste caso: «não esquecemos e não deixaremos de dizer que os terroristas foram, são e sempre serão os Estados e os capitalistas. São eles que sistematicamente degradam as nossas vidas e priorizam o lucro às nossas custas. Participam direta e indiretamente em guerras e têm repetidamente tomado uma posição a favor do genocídio e do massacre em Gaza, da deslocação dos palestinianos pelo Estado israelita e dos interesses sangrentos do Ocidente no Médio Oriente. São estes os que sistematicamente encobrem o crime capitalista do Estado em Tempi [acidente ferroviário de fevereiro de 2023] e difamam os familiares das vítimas que lutam por justiça. São eles que tentam negar as suas responsabilidades de forma ensurdecedora e criticam aqueles que lutam e devolvem uma parte da violência aos opressores das nossas vidas. Aqueles que assassinam pessoas todos os dias em hospitais e campos de trabalho, chamando aos assassinatos “acidentes”, que impõem turnos de 13 horas de trabalho intensificado e sem seguro. Aqueles que sistematicamente reforçam o armamento das polícias e assassinam imigrantes em esquadras, campos de concentração e nas fronteiras. Aqueles que, através da pilhagem dos bens comuns e da austeridade, oprimem e esmagam as classes sociais mais baixas. Que reprimem, esmagam, torturam e prendem qualquer pessoa que se levante e resista coletivamente à brutalidade capitalista. Aqueles que encobrem violadores e assassinos de mulheres e toleram a violência social e de classe diária sofrida pelos setores explorados da sociedade às mãos do Estado e do capital e, ao mesmo tempo, nos convidam a juntar-nos aos seus gritos de guerra».

     

    Texto de K
    Fotos de Alexandros Zampitoglu (@alex.zampitoglu)

  • Anarquismo social organizado na Galiza

    Anarquismo social organizado na Galiza

    A Xesta, nome da giesta, o arbusto que nasce entre as pedras, é uma organização anarquista galega nascida em 2025 e com quem falámos na Feira do Livro Anarquista da Corunha.

    Como foi o processo que levou ao nascimento da Xesta?
    Estávamos há vários anos a trabalhar num coletivo de memória anarquista, a trabalhar em vários formatos, mas, sobretudo, com as Mapoulas Libertárias, memórias muito anarquistas aqui dum bairro da Corunha [as Mapoulas designam as mulheres que entre 1936 e 1937 organizaram uma rede de casas-refúgio]. Começámos a fazer a feira do Livro Anarquista da Corunha, esta é a quarta edição e há pouco mais de um ano, demos um passo maior, mais teórico, que foi o Seminário de Estudos Libertários Galegos, que era um pouco para refletir em termos estratégicos, em termos teóricos, sobre a questão anarquista nos dias de hoje. E a partir da Galiza, pensando na Galiza. Dedicámos o primeiro ano a debater, a formar-nos a nós próprias e a refletir sobre anarquismo e organização.

    Pode dizer-se que surgiu desse processo de procura da memória, do território? Porque é tão importante essa memória, especialmente a galega?
    É impossível entender a história recente da cidade sem entender o papel que tiveram os anarquistas. Ao trabalhar a questão anarquista não a partir duma coisa mais fechada, de um ideário concreto, mas como uma questão cultural, de memória, de história relacionada com o bairro, e com formatos muito abertos, chegou-se a muita gente que não parte de uma identidade anarquista, mas que se aproximou por essas causas e que acaba, muitas vezes, por fazer parte dos nossos momentos, de estruturas como sindicatos de bairro ou laborais e até ativamente na organização que acabámos de fundar.
    É muito importante pôr o foco no que é mais próximo, é muito mais fácil que as pessoas se aproximem do anarquismo, a partir dessa parte mais emocional, desse lado mais prático, sobretudo se esse referente não forem grandes teóricos, grandes senhores barbudos do século XIX, mas antes mulheres, que eram realmente militantes de base, que sustentaram movimentos sociais mesmo nas maiores crises, no momento de golpe de Estado, que deram refúgio a companheiros, que tinham toda uma rede, que foram imensamente importantes. E pôr também no centro o papel das mulheres nesta luta e nesta repressão.

    Qual é a vossa perspetiva sobre as possibilidades de ligações num projeto libertário com as tradições comunais, como os baldios, aqui chamados de Mancomunidade?
    Há muitíssimas possibilidades. Nem sequer podemos dizer outra coisa. Bebemos da tradição, não apenas a do socialismo libertário em geral, mas, aqui na Galiza, do movimento independentista, que, nas últimas décadas, foi o movimento mais forte, que lutou e manteve a importância dessas tradições, das Mancomunidades, dessas formas comunais de sustentação.A nossa luta, podemos vê-la como duas lutas. Uma é muito importante: somos um coletivo anticapitalista, cada ação que se faça tem de estar focada num futuro socialista libertário, ou seja, uma luta contra o sistema de exploração capitalista. É uma luta importante, talvez a principal, mas é uma luta de resistência, constróis-te sempre contra um inimigo, é uma luta, digamos, negativa. Mas também queremos valorizar o positivo. Elaborar, tecer um tipo de sociabilidade e de institucionalidade socialista libertária. Prefigurar o futuro que queremos não é uma luta de tudo ou nada, no presente podemos ir dando passos e semeando cooperativas e espaços, clínicas autogeridas, toda uma série de instituições que contenham em si, ou em potência, os sistemas socialistas libertários. E, dentro disso, podemos aprender muito a partir da tradição galega. Temos a sorte de haver locais onde se mantêm muitas dessas instituições. Os Montes em Mão Comum não são apenas um modelo interessante que podemos investigar e recuperar, eles existem juridicamente, são uma instituição enorme, mas mesmo enorme, do território galego.

    Por outro lado, quando têm discussões sobre as tradições, não se deparam com visões mais conservadoras que a extrema-direita tenta capitalizar?
    É verdade que a extrema-direita utiliza todo esse conservadorismo para captar muita gente, precisamente pela parte mais emocional de que antes tudo era melhor. Não transportamos essa perspetiva. Usamos a perspetiva do que havia antes, por ser anterior ao capitalismo. Talvez o que tenha mudado aqui tenha sido o capitalismo, talvez seja nessa crítica que temos de investir. Com muita pedagogia sobre o que nos desagrada agora e o que nos agradava nas tradições de antes. Talvez de que o que agrade seja que havia outros ritmos de vida, ritmos mais calmos que o capitalismo acelerou. Ou seja, a resposta é a pedagogia. Não há outra.

    Em Portugal não se pode falar do ressurgimento do anarquismo, mas é notória uma maior participação de libertários, sobretudo nos movimentos ecologista e feminista. Aqui também há luta contra as minas, por exemplo…
    Não na questão das minas, mas sim nas lutas ecologistas e de defesa do território. Ou seja, eólicas e celuloses. Neste momento a luta principal é contra a Altri, uma empresa de pasta de papel portuguesa, que não pôde construir a sua fábrica de celulose em Portugal por ser ecologicamente inviável e que, aqui, com o governo regional do Partido Popular, está a tentar entrar.
    Mas, sobre a questão em concreto… sobre o ressurgimento do anarquismo, por assim dizer, sim, estamos a ver todo um surgimento de organizações anarquistas que têm nascido nos últimos anos. Um pouco dentro dessa corrente que se está a chamar anarquismo social e organizado, uma vez que nascemos um pouco da crítica ao anarquismo dos últimos anos, de tendências mais autorreferenciais, mais autonomistas, mais quase evasivas da luta, mesmo, as insurrecionalistas. Fazendo autocrítica enquanto anarquistas, percebendo como não estamos a ter o impacto na sociedade que esperávamos ter.
    Não sei como é em Portugal, mas aqui também foi isso que nos levou a organizarmo-nos. Estávamos todas em muitos movimentos, em muitos movimentos sociais de massas, na questão da habitação, na questão ecologista, na feminista, na dos centros sociais ou do independentismo. Muitos temas, muito variados, que agrupam um monte de coletivos e muita gente. Estávamos a participar de forma individual enquanto anarquistas. Foi um bocado isso que nos levou a pensar que seria estratégico, eficiente, transparente, participar nesses espaços e sentir uma organização por trás que nos apoiasse, sentir essa inteligência coletiva, poder partilhar opiniões, estratégias, poder debatê-las, criá-las entre todas, que a pluralidade de opiniões e de mentes cria estratégias muito mais fortes.
    Muitas anarquistas têm participado em muitas lutas e temos encontrado muita gente. Por exemplo do BNG, o partido independentista galego mais importante, digamos assim. Essa gente estava nas lutas da Altri, nas lutas pela defesa do território, contra as eólicas, de forma organizada. E, na verdade, isso acaba por ter muita força e dá-lhes a capacidade de, por vezes, fazerem as lutas autónomas derivarem para o institucional. Esta gente atuava de forma coletiva organizada. E nós, por outro lado, como anarquistas, estávamos a atuar como indivíduos. E isso entra em contradição com o próprio anarquismo. Vem daí, então, a necessidade de criarmos uma organização anarquista onde possamos atuar coletivamente em todas estas lutas e não apenas como indivíduos.
    Fazer uma leitura partilhada, neste caso do país, da Galiza. Um diagnóstico de quais são os seus principais problemas. Um programa para agir sobre isso e estratégias para atuar nas diferentes frentes de luta. Não quer dizer que queiramos praticar, como muitos partidos, o dirigismo. Não queremos que essas lutas se convertam em lutas anarquistas. Não é esse o objetivo. O objetivo é que, quando interviermos, que o façamos de acordo com uma perspetiva anarquista coletiva. E também dotarmos as lutas de ferramentas que temos enquanto anarquistas, como a horizontalidade, ou a transparência. De forma a que seja mais difícil aos partidos dominarem, seja pela via autoritária, seja pela via da institucionalização da luta.

    ……

    Entrevista publicada no Jornal MAPA #47 [Out. – Dez. 2025]

  • Acesso à terra, agroecologia e convivialidade: três lados de um triângulo em construção

    Acesso à terra, agroecologia e convivialidade: três lados de um triângulo em construção

    A Poucaterra é uma revista que nasce da vontade de explorar três conceitos que têm significado por si só e que, postos em relação, permitem pensar que uma transição cultural é possível, como antecâmara de uma transição agroecológica. É também um exercício de imaginação da Madalena André e do Pedro Mendonça, que não abdicam de procurar respostas que contrariem o colapso civilizacional iminente.

    Como surgiu a ideia da Poucaterra?
    Madalena: A minha primeira memória que eu tenho de nós falarmos em revistas, foi quando eu fui à COP26 (Conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas) em Glasgow, porque queria conhecer o movimento, queria conhecer as pessoas, e surpreendeu-me muito a quantidade de coisas que havia em papel, era tudo assim muito acessível para quem estava lá enquanto ativista e para os grupos. Eu trouxe um dos jornais, que se chama Less, que é um jornal escocês sobre decrescimento. Perguntámo-nos se seria uma forma fixe para falarmos sobre estas coisas e foi assim que começou.
    Mais tarde, quando eu estava na Alemanha, em Erasmus, já estava a pensar em começar uma revista, eventualmente com amigos, e que se chamava A grande recusa. Era inspirada no Marcuse, que falou muito dos estudantes do Maio de 68 e daquele movimento mais libertário. Depois não avancei com isso, mas recebi um e-mail do Pedro, a dizer que queria começar uma revista, direcionada mais para a agroecologia e sobre o acesso
    à terra, essencialmente.
    Uma revista pareceu-nos uma boa ideia, porque nenhum de nós estudou agroecologia de raiz. Eventualmente, cresceu o interesse e acabámos por mergulhar mais no assunto. Na minha cabeça eu vejo isto um bocadinho como desculpa para continuarmos a aprender e conhecer mais sobre estes temas. Foi um processo um bocado longo, foram quase dois anos, antes de termos a primeira impressão, porque nenhum de nós tinha feito uma revista antes, porque tínhamos muito claro que queríamos que transparecesse de uma certa forma, que não fosse a académica, que fosse acessível a mais pessoas, que envolvesse mais do que só textos de opinião e que recolhesse testemunhos portugueses sobre agroecologia.
    Pedro: Nessa altura em que mandei o e-mail, eu a Madalena estávamos em trajetórias opostas, mas no mesmo plano, isto é, a Madalena a afastar-se do campo e a tentar perceber como é que a vida dela iria dar de novo ao campo; e eu a chegar ao campo pela primeira vez na minha vida, que eu sou um rato de cidade. Tirando campos de férias, nunca tive qualquer tipo de contacto com a vida rural, e deparei-me com uma série de questões sobre as quais nunca tinha pensado. Até do ponto de vista da diferença cultural, entre mim e as pessoas que vivem cá. E também com os meus filhos, na escola, houve um grande choque cultural. Eu estava a iniciar o meu longo divórcio da academia e, nessa altura, a Madalena estava a acabar o mestrado em sociologia e ainda estava a celebrar as bodas dela com a academia.
    Quando vim para Coimbra fiz uma mudança muito grande na minha área de estudos, Na altura, estava a estudar comércio internacional, mas depois, por uma série de razões, em que fiquei convencido do colapso iminente da civilização ocidental, decidi tentar trabalhar para ajudar a resolver alguns problemas. Fui parar ao Centro de Ecologia Funcional, do Departamento de Ciências da Universidade de Coimbra. E comecei a trabalhar numa série de coisas que eu achava que também não era aquilo que devia ser feito, que era trabalhar com a noção de serviços de ecossistema, sobre o qual temos um texto a criticar no número 1, e também porque a maior parte destes projetos têm uma abordagem que tenta quantificar economicamente, se vale a pena evitarmos o desastre ecológico. Eu estava a fazer análises de custo-benefício da adoção de métodos agroecológicos. O que me parecia, do ponto de vista conceptual… nós sabemos qual é o custo, que é o colapso. Então, se evitarmos esse custo, qualquer que seja o benefício, está bom, não é? Estávamos mais ou menos nesta trajectória cruzada, a Madalena a embrenhar-se na academia, eu vou tentar sair, a Madalena a tentar voltar ao campo e eu a chegar pela primeira vez.

    Madalena: Sim, acho que esse o choque cultural é mesmo relevante. Eu estava há 3 anos na cidade e, na verdade, mesmo quando estava na Alemanha, em Erasmus, estava mais no campo do que na cidade. E foi uma choque grande. Como as primeiras chuvas no Porto, cheiravam-me mal, a cidade cheirava mal. E eu lembro-me que para mim a chuva era uma altura maravilhosa, porque vem o cheiro da da terra, cheira a lareira, não cheira a poluição molhada. E quando eu vim para o Porto, tive a sensação de que quem vive cá desde sempre não tem noção de que há outras vidas possíveis. Nesse sentido, para mim é importante falar sobre estes temas, porque existem outras formas. Também fui para a Cop, porque foi uma altura em que o colapso climático e civilizacional estava presente na minha cabeça, e em todo o meu corpo e coração.

    Para mim a Poucaterra é um exercício de imaginar em conjunto com outras pessoas essa direção e é mais fácil pô-la em prática depois de a imaginar.

    Então, as vossas próprias vivências levaram-vos a achar que era relevante passar essas ideias a outras poucas pessoas, é isso?
    Pedro: Honestamente, não é esse o meu principal motor. Eu estou, de facto, a tentar ter uma vida ligada ao acesso à terra, à convivialidade e à agroecologia. É difícil, sobretudo se se vai parar a um contexto ainda com muito pouca coisa construída nessa direção. Só o facto de imaginar essa direção é difícil, quanto mais pô-la em prática. Para mim a Poucaterra é um exercício de imaginar em conjunto com outras pessoas essa direção e é mais fácil pô-la em prática depois de a imaginar. Mas eu acho que é uma imaginação mesmo frágil. Quando as pessoas ouvem a apresentação da Poucaterra, do que ela quer explorar, a reação é entre «estão tontinhos» ou «utopia ao cubo», ou algo assim. Eu mesmo, ao pensar em como se fala no acesso à terra para malta que vive em Lisboa, não é óbvio para mim. Quando eu vivia lá, sentia necessidade de escapar desse ambiente, não sabia bem como, e sentia que, de alguma forma, um pedaço de terra me traria satisfação. Mas não chega, há uma série de outras coisas que é preciso. Mas se me dissessem, quando eu estava lá, que o que eu queria mesmo imaginar, ou lutar por, ou procurar, para mim e para as outras pessoas na mesma situação que eu, sobretudo no desemprego, em que é muito difícil, porque a nossa relação com a cidade fica muito reduzida em termos de como é que nos ligamos aos outros… Se me dissessem que «o que tu estás a precisar é de pensar no acesso à terra», eu nem sequer saberia por onde começar a conversa. Isto para dizer que eu faço isto mais por mim do que pelas pessoas.
    Eu gosto é de fazer isto com pessoas. Não nos interessa muito encher isto com a nossa opinião.

    Madalena: É exatamente isso, nós temos essa curiosidade e há pessoas que já começaram este caminho, outras que estão a começar agora. Os caminhos são todos muito diferentes, é aprender com as tentativas de cada um e juntá-las num sítio. Até porque para haver uma transição agroecológica ou uma transição que nos permita evitar ou minimizar de alguma forma o colapso, também é preciso uma transição cultural. Eu acho que a Poucaterra tenta, de uma forma muito pequenina, criar um espaço para pensar essa transição cultural, para que se arranje um vocabulário para falar sobre isso, e para que se juntem os testemunhos de quem já está a tentar praticar isso.

    Foi por isso que vocês foram buscar a convivialidade, do Ivan Iliich?
    Pedro: O Illich foi uma revelação, mas foi já a meio, final do caminho que fizemos com a Poucaterra. A introdução do termo «convivialidade»naquele subtítulo, foi mesmo no último segundo, quase. Mas é uma presença fundamental, pelo menos para mim, para navegar nas ideias de que estamos a falar, a relação com a tecnologia, com o progresso, com a autoprodução. Mas eu li-o sempre como uma coisa à parte da Poucaterra, só veio cá parar mais recentemente. Mas estou meio obcecado com ele.
    Madalena: Pois, a escolha antes da convivialidade era artes e ofícios. As artes, para incluir mais do que só a parte intelectual e académica. E acho que os ofícios como aquela passagem de conhecimento, que tem de ser de uma geração para a outra, que tem de ser com prática, que tem que ser vivida no corpo… mas até isso era um bocado redutor, porque as interpretações de artes e ofícios são sempre muito diferentes. E acho que a convivialidade aglomerou isso e ainda acrescentou mais coisas. Nós falámos disso no editorial, de ser preciso juntarmo-nos, e cantarmos juntos, e dançarmos juntos. E termos jantares e isso tudo…
    Pedro: Mas mais uma vez, isso já estava descrito antes de chegarmos aqui, isto é, nós já estávamos a pensar na convivialidade antes de sabermos o nome. Mas facilitou imenso ter um nome, conseguirmos dar um nome a isto. E descobrimos, depois de publicar, que há uma Internacional Convivialista e entraram em contacto connosco. É altamente, têm dois manifestos e tudo. Mas não fazíamos ideia, quando isto começou.

    Na parte de sair da economia de mercado, não só nos sentimos sozinhos como muito ignorantes.

    E isso faz-vos pensar que não estão sozinhos neste devaneio?
    Pedro: Sim. Mas eu acho que o Illich iria discordar da maior parte das coisas, acho que ia ter muito a dizer sobre a Internacional Convivialista. Mas, a grande solidão, nem é quando falamos sobre convivialidade, porque toda a gente tem uma experiência mais ou menos breve com convivialidade, seja, no associativismo, seja em campos de férias, a fazermos prendas uns para os outros, ou massagens uns aos outros, ou juntaram-nos à noite para cantar, em vez de ir para um bar, beber, por aí fora. Nunca sentimos muitos sozinhos nessa aspiração de estarmos mais uns com os outros, e sabermos suprir as necessidades uns nos outros, sem elas terem de ser mediadas pela economia de mercado e pela tecnologia. Mas, para sair da cidade já somos menos acompanhados, eu diria. E depois, na parte de sair da economia de mercado, aí não só nos sentimos sozinhos como muito ignorantes. Portanto, para além do exercício de imaginação, também é preciso um exercício de transmissão de saberes e de experiências.
    E mais, nós estamos à procura de uma vida, em que o nosso trabalho, a possibilidade de ter família, pertencer a uma comunidade, tenha significado. É na direção de uma autonomia crescente da economia mercado, porque achamos difícil ela ter significado dentro de uma dependência do mercado de trabalho e da economia de mercado. E gostamos de pensar nesta coisa do acesso a terra, também como um direito básico de optar por não participar na economia de mercado, extrativista, na carbo-economia.
    Já falámos com urbanistas sobre este tema e sentimos-nos muito doidos.

    Porque é uma visão completamente diferente?
    Pedro: Porque eles estão habituados a lidar com a terra como um bem escasso, que tem de ser pensado dentro de uma visão muito estreita, a que eles chamam a função social do solo. E quando começamos a falar da função social do solo, é dar abrigo às pessoas, é dar-lhes nutrição, é dar-lhes um sítio para passear, e por aí fora, depois há certas coisas que deixam ter grande lugar. Porque há uma série de infraestruturas que servem para manter a tal economia de mercado, que tem normalmente prioridade quando se pensa na função social do solo.
    E todas estas necessidades, como abrigo (quando digo abrigo é habitação), uma alimentação saudável que não dependa de mão de obra semi-escrava, ou migrante, por aí fora, um sítio onde possamos estar sem pagar para consumir, portanto o direito ao espaço, quando falamos destas coisas todas, elas são pensadas no fim de tudo. Se calhar estou a ser um bocado injusto, porque os urbanistas também pensam em praças e espaço público, mas é dentro de um esquema que não admite a possibilidade de optar por não participar dessa economia.
    Madalena: Sim, acho que há muitas disciplinas que acabam por estar naturalmente embrenhadas
    no que é a nossa economia. Eu a seguir a estudar sociologia fui estudar planeamento regional e urbano e, então, deparo-me muito com isto, estas coisas pequeninas de estarmos a olhar para uma praça e ver, quais é que são os problemas. Muitas vezes fala-se dos serviços e do comércio e não se fala das pessoas que também precisam de um espaço, ou que não têm de gastar dinheiro para estar. Quando há um espaço verde que não está perto da cidade, que não está construído,
    a ideia que vem primeiro é construir um campo de golfe porque, assim, estamos a potenciar a economia local. Enquanto que, se calhar, esse espaço verde tem uma função diferente daquela a que os urbanistas, por estarem nesta economia, ou por trabalharem com as câmaras, acabam por ter de responder.

    Pedro: Mas, tipicamente, são urbanistas que fazem esses planos diretores municipais. E, se eles disserem, a cidade tem vindo a perder habitantes, vamos fazer um plano que pense como é a cidade decresce, são imediatamente despedidos.

    Até porque a ideia é a cidade crescer, e não decrescer, não é?
    Pedro: Pois. O que é meio paradoxal, tendo em conta esta compulsão para o crescimento ser simultânea com a ideia da terra como bem escasso. Mas as duas vivem em conjunto.
    Mas, acontece uma coisa mágica qualquer que, quando falamos nos termos do urbanismo, nós é que parecemos tontos, apesar deste paradoxo, óbvio e mais ou menos flagrante. E eu ainda não sei explicar o que é.

    É diferente pensar o que é suficiente e o que é sustentável

    Vocês também dizem que é preciso mais acesso à terra, mas também é preciso que se use menos a terra, ou seja, deixá-la estar.
    Pedro: Sim. Vou recuperar o Illich. Uma das coisas que temos pensado é sobre como para nós a convivialidade é um objetivo social, possivelmente mais meritório do que a sustentabilidade.
    E uma das coisas tem a ver com uma diferença que achamos fundamental. É diferente pensar o que é suficiente e o que é sustentável. Normalmente, o que é sustentável é pensar qual é o máximo que podemos tirar, sem prejudicar a possibilidade de isto se reproduzir. Enquanto que, o que é suficiente, não pensa em qual é o máximo que podemos tirar, mas em quanto estamos a precisar de facto agora, para aquilo que nos interessa, em termos das relações sociais que queremos, e por aí fora.
    E a convivialidade promove esta coisa, não sei qual é que seria a tradução, mas o Illich chama-lhe
    critical enoughness, que é essa ideia de, se temos uns recursos por explorar, nós não temos necessariamente de ir a correr explorá-los. Mas isto também é meio chanfrado na maior parte dos círculos onde se fala sobre estas questões.
    O que nós gostávamos com a
    Poucaterra, era de criar uma espécie de discurso que mostrasse a imoralidade desta relação com a terra e desta assimetria de uns terem milhares de hectares e outros não terem onde cair mortos e também da ideia de olhar para a terra apenas como um recurso a consumir, para alimentar a economia.
    Temos uma grande ênfase sempre no tom com que dizemos as coisas, porque queremos dizer coisas que, dado o
    status quo, são altamente radicais, mas queremos dizê-las com a razoabilidade que elas têm de facto. Ou seja, que não pareçam pedidos extravagantes.
    Madalena: É essa a ideia, haver pouca terra e usar pouca terra, não ser antagónico. E também que há outras formas de nos relacionarmos com os recursos, com o território, com o que é local.

    Há alguma espécie de filtro para os textos que vos chegam? E vocês pedem textos a pessoas específicas, ou esperam que vos mandem coisas?
    Madalena: Eu acho que esta pergunta terá respostas diferentes nos próximos números, se a Poucaterra chegar a mais pessoas. O número 1 foi muito específico, porque partiu muito de nós pedirmos a pessoas que são nossas conhecidas que escrevessem, ou seja, fomos nós que convidámos as pessoas para escreverem.
    Pedro: Há textos neste número que têm coisas nas quais não me revejo. Mas não são coisas que me chocam, é só porque penso de maneira diferente. E estou confortável em conversar com pessoas que pensam daquela maneira. Tirando casos extremos, e duvido que essas pessoas queiram participar na revista, temos mais cuidado com o tom, isto é, por mais diferente que seja a tua ideia da minha, o que eu quero é que ma apresentes no tom mais cortês e cordial possível. E nas coisas que eu, como editor, não estou a perceber, que faças um esforço maior do que o costume para esclarecer, porque se calhar estás habituada a falar com pessoas que já estão de acordo contigo nesse ponto. O que aconteceu, por exemplo, neste número, foi que isto gerou muitas trocas para trás e para a frente entre nós e autores. Mas já temos autores do número 1 a dizerem que já têm um texto para o número 2, portanto, foi uma troca que funcionou. Na verdade, é um processo que enriquece as duas partes, porque a outra parte também é obrigada a traduzir as suas ideias para uma linguagem diferente. E este esforço, para quem está disposto a percorrê-lo, acho que abre sempre coisas para explorar. Agora que fizemos estas apresentações todas, conhecemos uma série de pessoas que achámos que seria altamente contribuírem com textos. Vamos tentar persuadi-las a fazerem-no. Mas não sabemos se isto vai dar de facto um salto em que, de repente, estão textos a chegar-nos que não queremos. Acho muito improvável, mas vai ser um problema com o qual será fixe lidar. Enfim, é um problema com que ainda não lidámos, mas que pode acontecer.
    Por exemplo, com a Internacional Convivialista, eu achava altamente ter um texto deles e tentar perceber como é que se ligam com as questões d
    a agroecologia e do acesso a terra, que estão ausentes desse manifesto. E no número 2, o que para nós era fixe era ser mais explícito em relação a cada um destes três pontos [do subtítulo]. Ter mesmo uma secção só dedicada ao acesso a terra, à agroecologia, mas sempre a tentar lançar as pontes para os outros dois pontos do triângulo, porque para nós só faz sentido cada ponto em relação com os outros.
    Madalena: E também acho que, quando pensamos em convidar pessoas, há muita gente que gosta de pensar sobre estas coisas, mas não tem necessariamente o hábito de escrever sobre elas. E é também um desafio porque é um bocadinho intimidatório e há o fantasma da academia e do intelectual.
    Pedro: Pois, como a Madalena está a dizer, às vezes as pessoas podem ter pudor em avançar, porque acham que isto é um território dos outros.
    Madalena: E o que nós queríamos é que a Poucaterra fosse um território de todos e não apenas de quem já praticou o escrever.

    Apresentação da Poucaterra na Livraria Gato Vadio, no Porto

    Gostava que me falassem um pouco do mapa da agroecologia.
    Madalena: Então, o mapa veio desta vontade de juntar testemunhos e, simultaneamente, de sabermos que nem toda a gente vai escrever para a revista. Há pessoas que estão muito focadas no trabalho prático e na vivência e achamos que, conhecendo o que existe em Portugal, talvez a comunidade da Poucaterra se alargue um bocadinho. E isso não tem que ser necessariamente só para partilhar conhecimentos; às vezes, pode ser só para saber que há um projeto aqui ao lado e vou lá pedir um copo de água. Ou seja, é não só conhecer a agroecologia e as formas diferentes como as pessoas ocupam o pequeno acesso à terra que têm, mas também promover a convivialidade entre quem se interessa pela revista.
    Pedro: Na nossa cabeça o mapa ia-se enchendo de pontinhos, queríamos ter um separador no site onde eles estivessem permanentes e a cada número acrescentar, ir povoando esse mapa. O que eu suspeito é que, para o número 2, vamos ter de ser nós a ir procurar sítios e metê-los no mapa, com autorização, claro, esperando que isso crie algum balanço para outras pessoas irem fazendo o mesmo e torná-los visitáveis. Agora, isso tem uma responsabilidade grande, porque estamos a pôr projetos no mapa que, de repente, podem ser visitáveis por pessoas indesejadas. E, para nós, é importante perceber como é que isto se faz de uma forma segura para os sítios que avançarem. Era fixe haver uma espécie de código de conduta, de visita, de coisas básicas, não fazer isto, não fazer aquilo… Mas, se calhar, isto também é a minha veia ditatorial a achar que é preciso e se calhar não é, e vai tudo na base da convivialidade. Enfim, é uma preocupação.
    Madalena: Acho que na criação da Poucaterra a ideia nunca foi que ela ficasse só nossa. Foi sempre que chegasse a mais gente e que as pessoas a tomassem como delas também. E se isso se puder materializar em pessoas reais e em projetos reais, melhor ainda. Eu acho que o mapa da agroecologia, se calhar não vai dar em nada, mas se calhar alguém fica mesmo entusiasmado com esta ideia e vê valor nisto e vê valor em partilhar a sua história e o seu espaço. E se calhar somos uns sortudos e tivemos uma boa ideia.
    Pedro: Uma metáfora que às vezes penso sobre a Poucaterra não ser só para nós é estarmos só a fazer uma espécie de hotel de insetos, ou de passarinhos. Depois, se correr bem, eles vão para lá morar. Nós vamos tentar fazer o melhor hotel de insetos possível. Depois, tudo o que vier de bom e de rico serão esses insetos a trazer. E aí já não temos grande controlo sobre isso. A única coisa que podemos fazer é manter esta casinha o mais arrumada e acolhedora possível. Gostávamos que isto fosse, sobretudo, sobre quem contribui para a revista. E que, eventualmente, pudéssemos ter conversas mais alargadas entre as diversas pessoas que contribuem e diálogos dentro da revista. O que nós queremos oferecer é o nosso tempo de trabalho para permitir que isso aconteça e a nossa curiosidade sobre o tema.

    Sobre o número 2, o que é que já podemos saber?
    Pedro: Isto de comunicar o resultado do número 1 foi mesmo uma coisa difícil para nós.
    Nem eu nem a Madalena temos talento particular nem vontade de falar sobre coisas que fizemos. Isto tem sido uma aprendizagem. Por exemplo, ainda não fizemos nada sobre os lançamentos que fizemos no
    Instagram e sabemos que isto é necessário, para dar a conhecer às pessoas. Mas eu não tenho redes sociais e a Madalena tenta evitá-las ao máximo. Para a semana vamos tentar resolver isto. Ainda temos mais duas apresentações para fazer, uma vai ser na Universidade de Aveiro, o que para mim é importante, para pensar como é que se fala nisto para um público académico sem trair a essência do que estamos a fazer. E eu sinto que só depois deste processo acabar e de percebemos como é que se faz isto da apresentação é que nos podemos lançar para o número 2. Porque por nós, por mim e pela Madalena, tudo isto que estamos a fazer é contra natura e já estávamos a preparar o número 2.
    Houve uma série de textos que ficaram mais a menos a meio e que não chegaram a entrar no número 1, era recuperar esses; há as pessoas que fomos conhecendo ao longo dos lançamentos e que gostávamos de trazer agora; alguns autores que gostavam de volta a contribuir, porque curtiram a experiência, ou descobriram a
    Poucaterra; esta ideia de termos alguém da Internacional Convivialista. E podem aparecer surpresas, de pessoas que queiram participam.

    E o nome da revista, como é que surgiu? Porque há vários significados aqui, não é?
    Pedro: Eu acho que foi a polissemia da coisa que nos atraiu. Isto é, quando ouvimos o nome é impossível não pensarmos logo em qualquer coisa. E todas as associações que ele permite, para mim, são positivas. A ideia de que há muita gente com pouca terra, a ideia de que temos de começar a depender menos de tanta terra, no nosso modo de vida. E também as minhas reminiscências de infância, de brincar aos comboios e dizer «pouca terra, pouca terra» e aquilo nunca ter significado óbvio para mim e agora encontrar um significado: gostávamos que a revista viajasse. Não estamos preocupados em crescer quantitativamente, ou ter tiragens cada vez maiores, mas gostávamos de crescer qualitativamente. Isto para nós quer dizer andar devagarinho, sem pressa, com passos seguros, curtos, e ir tendo uma confiança cada vez maior nas palavras que usamos para falar sobre isto, e na imaginação que ousamos conjurar a propósito desta curiosidade.

    A agroecologia (…) tem uma base social muito importante, de querer produzir comida de forma justa, nutritiva, culturalmente apropriada em relação ao território, à terra onde cresce.

    Acho que o conceito que explorámos menos foi o de agroecologia. Querem explicar melhor?
    Madalena: Da mesma maneira que a sustentabilidade foi sendo cooptada e utilizada para promover coisas que não é óbvio que ela quisesse promover, a agroecologia também corre o mesmo risco. A agroecologia é um movimento principalmente de agricultores, que começou na América Latina, mas também é uma ciência cada vez mais estudada na academia, e também é uma prática agrícola. É uma forma de produzir comida, alimento. E tem uma base social muito importante, de querer produzir comida de forma justa, nutritiva, culturalmente apropriada em relação ao território, à terra onde cresce. São as coisas que nos fazem sentido, até por promover muito mais produções pequenas e estas dependem muito mais umas das outras e de uma cultura convivialista, e não de uma separação ou de uma comercialização de tudo.
    Pedro: Nós nunca vamos propor fronteiras óbvias entre o que é agroecologia e, por exemplo, o que é a permacultura. Não nos interessa essa discussão. Interessa-nos perceber qual é a forma de produzir comida mais alinhada com a possibilidade de convivialidade e, do ponto de vista económico, qual é a forma de produzir comida que possa estar mais autónoma da economia de mercado, em termos, por exemplo, da produção de fertilidade. A economia industrial depende essencialmente da economia de mercado para produzir fertilidade, de cadeias de produção extensíssimas, com nutrientes e combustíveis fósseis a vir de sítios longínquos, e por aí fora. Quando falamos em agroecologia é também o que fazer quando se tem acesso à terra para se produzir comida, o que, do ponto vista cultural está alinhado com a convivialidade na ligação que tem com os saberes tradicionais e ancestrais. Do ponto de vista da produção alimentar, é o que é compatível com os outros dois pontos do triângulo.
    Madalena: Quando estávamos a falar de a agroecologia ser apropriada pela narrativa de mercado, uma das coisas que tem acontecido é aprovarem climate smart solutions, como plantas geneticamente modificadas, que aguentam secas e pragas. Mas, na verdade, se nós tivermos curiosidade e aprendermos com o conhecimento tradicional, ou indígena e local, já existem soluções para isso que não dependem de comprarmos nada a ninguém, ou de consumirmos pesticidas e fertilizantes específicos. Na verdade, é só aprendermos com quem está lá há mais tempo e com quem é indígena local e sabe os ciclos daquela terra.

    Pedro: Quando eu estava a trabalhar para a academia, íamos falar com agricultores e dizíamos, «vejam estas técnicas agroecológicas que descobrimos», normalmente depois de dezenas de milhares de euros. E alguém dizia lá do fundo, «ó pá, eu faço isso há 30 anos!….». Era assim em quase todas as sessões. Isto é uma indústria, não é? A própria investigação alimenta uma série de pessoas.

    Revista Poucaterra
    https://www.poucaterra.pt/

    revista.poucaterra@gmail.com

    …………..

    Entrevista de Ana Queijo, publicada na edição #46 do Jornal MAPA [Jul.-Set. 2025]