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  • Incêndios: depois do luto, a luta

    Incêndios: depois do luto, a luta

    Aproxima-se o equinócio de outono, fim do verão, e o país está em cinzas, com a maior área ardida desde de que há registo. No próximo fim de semana de 20 e 21 de setembro, dezenas de protestos e iniciativas auto-organizadas deflagram por todo o país: contra os fogos florestais, em defesa das serras e das florestas, e por uma transformação de fundo no território.

    No dia 20, a rede Emergência Florestal/Floresta do Futuro está a mobilizar a população para realizar protestos pelo país, sob o lema «Deseucaliptar, Descarbonizar, Democratizar». Dia 21, todos os caminhos vão dar à Torre, na Serra da Estrela: o movimento “Por Serras Dignas” convida a um “momento apartidário de encontro e partilha, em defesa da Serra, do território e das comunidades que aqui vivem.”

    “As serras, florestas, animais, rios e pessoas serranas merecem um futuro de esperança que pede resistência em cada aldeia, em cada trilho, em cada ecossistema”, afirma-se no manifesto “Por Serras Dignas!”. “É urgente um sobressalto popular e cidadão», lê-se no comunicado da rede Floresta do Futuro.

    “A situação que se vive atualmente é completamente fora do aceitável e do razoável e é preciso atuar”, disse à Lusa, em meados de Agosto, um dos elementos da rede, João Camargo. O movimento falava numa «convergência de fatores catastróficos», criticando a «escolha reiterada de entrega do mundo rural ao abandono e à eucaliptização», no «país que mais arde da União Europeia».

    «Em termos relativos, é o país com mais área de eucalipto no mundo. O país com menor área pública florestal da Europa. Disto resultam lucros recorde para a indústria da celulose», acusava a rede.

    Localidades como Arganil, Braga, Coimbra, Lisboa, Lousã, Odemira, Oliveira do Hospital, Pedrógão Grande, Ponte da Barca, Porto, São Pedro do Sul, Sertã e Valongo do Vouga já confirmaram adesão ao protesto de dia 20, podendo juntar-se uma dezena de outras.

    Fernando Amaral, antropólogo que foi vítima dos incêndios de 2017, um dos porta-vozes do movimento, é perentório: «Precisamos que a população não caia no torpor de aceitar que os incêndios são inevitáveis (…): vivemos num interior cada vez mais abandonado, cada vez mais cheio de espécies perigosas como eucaliptos e acácias, que aceleram e espalham os fogos, e cada vez mais quente. Não podemos resolver isto com mudanças superficiais nas estruturas de combate aos incêndios nem podemos deixar que nos virem uns contra os outros. Precisamos de mudar para uma floresta autóctone e resiliente, mudar a estrutura da propriedade e travar a subida da temperatura».

    Ainda segundo Fernando Amaral, «nos últimos 35 anos, já ardeu o equivalente a metade do território nacional. Para podermos ter uma terra onde possamos viver sem medo, temos que organizar a mobilização popular que a política nunca quis nem aceita. Para podermos ter um futuro, temos de construí-lo com as nossas mãos. Dia 20 será apenas o primeiro dia. Dia 21 continuaremos a construir as redes e as pontes que precisamos para sobrevivermos enquanto sociedade».

    “O sofrimento dos incêndios abriu feridas antigas, fez lembrar décadas de abandono, de decisões tomadas longe daqui, de promessas nunca cumpridas. As chamas deixaram um rasto de tristeza, mas revelaram também algo que nunca se perdeu: a força de comunidades que sabem unir-se e resistir”, afirmam as organizações que convocam a concentração “Por Serras Dignas”.

    “No dia 21 de setembro, às 11h00, subimos à Torre de todos os lados da montanha para afirmar o direito de viver aqui. Queremos serras dignas para todos os seres vivos que aqui habitam! A montanha une.”

    A proposta é um momento de encontro e convívio, “para dar voz à dor e transformar a revolta em esperança”, criar “laços e cooperação entre entidades vizinhas” e lançar as bases para um movimento comum em defesa do futuro das serras da Estrela, da Gardunha e do Açor.

    “A montanha não é apenas pedra e vegetação, nem paisagem para turismo fugaz, nem reserva de sacrifício para monoculturas e políticas que vêm de longe. É casa de muitos seres vivos, é trabalho, muitas culturas, escola, futuro! Queremos florestas vivas e diversas, ordenamento regenerativo, biodiversidade, água limpa, empregos dignos, culturas vivas, transportes e casas acessíveis, uma economia que valorize quem cuida e quem permanece. As serras são bens comuns a defender com e para todas as pessoas.”

    Antes, neste domingo, dia 14, tem lugar em Santiago de Compostela, Galiza, um grande protesto convocado pela rede ‘Por un Monte Galego con Futuro’, que agrupa 62 organizações sociais, sindicais e ecologistas.


    Foto de destaque: intervenção regenerativa pós incêndio numa ajudada promovida pela associação Ação Floresta Viva

  • A solidariedade é possível: apoio directo a Gaza

    A solidariedade é possível: apoio directo a Gaza

    Enquanto dois milhões de pessoas estão ameaçadas de morrer à fome, há quem cozinhe panelões de comida, distribua água potável e cultive legumes entre os escombros. Um guia para apoiar diretamente quem tenta sobreviver ao genocídio em Gaza.

    Assistir às notícias que chegam de Gaza pode fazer com que nos sintamos impotentes, mas a solidariedade é possível, não apenas nos gestos de protesto, boicote ou sabotagem, mas também através do apoio aos grupos que trabalham no terreno sem parar para criar ilhas e linhas de sobrevivência para quem vive sob esta ocupação brutal.

    Pode-se participar tanto através de doações como da divulgação do trabalho que estão a realizar. As doações e o apoio são formas directas de ajudar os que tentam sobreviver a um genocídio. Os grupos de apoio mútuo recolhidos no site It’s Going Down e listados abaixo também publicam actualizações constantes sobre o seu trabalho, mostrando os resultados da solidariedade, que se concretiza na criação de infraestruturas que salvam vidas e na satisfação de necessidades directas. Ao desenvolver a capacidade de ampliar a solidariedade material no terreno, estes grupos podem realmente ajudar quem está a ser directamente afectado.

    A Equipa Sanabel

    A Equipa Sanabel (Sanabel Team) é «uma equipa de ajuda mútua liderada por palestinianos que presta apoio em Gaza desde 2018». O grupo promove ajuda financeira, prepara refeições quentes que fornece diariamente, traz camiões-cisterna, distribui bens de primeira necessidade, como fraldas e leite em pó para bebés, e trabalha para fornecer artigos como tendas e lonas às pessoas deslocadas pela ocupação em curso. Publica actualizações constantes sobre o seu trabalho no Instagram e está envolvido numa grande variedade de projetos em várias áreas.

    «A nossa missão é continuar a disponibilizar ajuda directa no terreno às famílias durante este período. Os fundos serão destinados a necessidades como alimentos, água e materiais de construção para abrigos, quando disponíveis. A reconstrução da vida será a próxima fase», dizem, acrescentando que «juntos, criamos um efeito cascata que nutre não apenas os corpos, mas também as almas. O nosso compromisso em fazer a diferença na nossa comunidade é inabalável».

    IG: https://www.instagram.com/thesanabelteam/
    Web: https://www.thesanabelteam.com/
    YouTube: https://www.youtube.com/@SanabelTeam/

    Equipa Sadaqah

    A Equipa Sadaqah (Sadaqah Team) é uma iniciativa de apoio mútuo no terreno que opera em Gaza e no Líbano. De acordo com as suas próprias palavras, esta iniciativa «depende totalmente da generosidade das pessoas. Cada doação que recebemos ajuda-nos a alcançar mais comunidades que precisam urgentemente de apoio. A situação em Gaza e no Líbano é desoladora. Com tão pouca ajuda internacional a chegar, as pessoas estão a lutar até mesmo pelo básico. Juntos, porém, podemos fazer a diferença, proporcionando algum alívio e esperança nestes tempos devastadores».

    IG: https://www.instagram.com/the.sadaqah.team/
    PayPal: https://www.paypal.com/paypalme/TharcisZaaruolo

    Operação Ramo de Oliveira

    A Operação Ramo de Oliveira (Operation Olive Branch) é, nas suas próprias palavras, «um esforço colectivo de base, impulsionado por voluntários, para ligar e amplificar as vozes palestinianas, num esforço para apoiar as suas necessidades vitais, que incluem, entre outras, os seus pedidos de ajuda mútua. A nossa iniciativa de solidariedade é dirigida por um conselho central diversificado de defensores globais, incluindo vozes palestinianas e judaicas».

    GoFundMe: https://www.gofundme.com/f/operationolivebranch

     

    Colectivo de Apoio Mútuo de Gaza

    O Colectivo de Apoio Mútuo de Gaza (Gaza Mutual Aid Collective – GMAC) fornece, em Gaza, refeições quentes e apoio directo. O GMAC «é um colectivo de base comprometido em ajudar financeiramente o povo de Gaza, cuja qualidade de vida se tem se deteriorado progressivamente ao longo de quase duas décadas devido ao bloqueio colonial aéreo, terrestre e marítimo e ao cerco pela ocupação sionista».

    Instagram: https://www.instagram.com/gazamutualaid/
    Web: https://gazamutualaid.substack.com/
    Venmo: @/amirqudaih
    PayPal: amirqudaih@gmail.com

    Thamra

    A Thamra é «uma organização palestiniana que promove a soberania alimentar. Trabalhamos para alcançar a auto-suficiência e restaurar a nossa terra». O apoio recebido será utilizado para «garantir que a população de Gaza tenha acesso a frutas e legumes frescos», «construir hortas urbanas (…) em varandas, jardins ou telhados – para capacitar as famílias a cultivarem os seus próprios alimentos, promovendo a sustentabilidade e a auto-suficiência», ou «reparar e restaurar poços de água em bairros por toda a Faixa de Gaza para garantir que as comunidades tenham acesso a este recurso vital».

    IG: https://www.instagram.com/thamra_org
    GoFundMe: https://gofund.me/771b0495

     

    Projecto Sameer

    O Projeto Sameer (Sameer Project) é uma iniciativa de apoio mútuo que está a realizar várias campanhas para fornecer apoio e ajuda directa em Gaza. Ou seja, uma «iniciativa baseada em doações, liderada por palestinianos na diáspora, que trabalha para fornecer ajuda a famílias deslocadas em Gaza».

    IG: https://www.instagram.com/thesameerproject
    LinkTree: https://linktr.ee/thesameerproject

    Projecto Efeito Borboleta

    O Projecto Efeito Borboleta (Butterfly Effect Project) é «uma equipa internacional de voluntários dedicados, unidos por uma missão comum: amplificar as vozes dos oprimidos e apoiar as vítimas da guerra, com especial enfoque no povo da Palestina – Gaza. A nossa missão principal é partilhar as suas histórias nas redes sociais, garantindo que as suas experiências e lutas cheguem a um público global».
    «Além de amplificar vozes, prestamos ajuda humanitária imediata no terreno, atendendo às necessidades urgentes de inúmeras famílias afectadas por conflitos. O nosso compromisso de longo prazo estende-se à realização de campanhas, onde trabalhamos incansavelmente para aumentar a consciencialização e promover mudanças significativas».

    IG: https://www.instagram.com/butterflyeffect.project/
    Web: https://www.thebutterflyeffectproject.org/


    Foto de destaque da organização palestiniana Thamra

  • Power Rangels e um grande amor-monstro-sonoro

    Power Rangels e um grande amor-monstro-sonoro

    Power Rangels, um coletivo a construir um Soundsystem ou um Soundsystem que construiu um coletivo.

    No Brasil, sistemas de som estão a ser usados para desligar drones. Na Colômbia, desde os anos 50 que a cultura Picó e os seus sistemas de som garantem que todos têm acesso à música e à festa. Um pouco por todo o mundo, os sistemas de som são indispensáveis nas ruas: animam paradas carnavalescas, dão voz a manifestantes e prolongam a vida de manifestações, reclamando para si as ruas, as vozes e a dança. Neste artigo, não vos venho falar sobre música ou frequências elétricas. Não por não ser curiosa ou não gostar, mas porque percebo pouco do assunto e sei de pelo menos 15 mulheres que o poderão fazer melhor do que eu: as Power Rangels, um coletivo a construir um soundsystem ou um soundsystem que construiu um coletivo.

    No princípio era o soundsystem
    Na sala de cinema da Casa do Comum, em Lisboa, num evento organizado pelas Power Rangels para angariar fundos para a construção do seu sistema de som, sentam-se à conversa alguns membros do coletivo.

    Explicam-nos que a conversa funcionará nos mesmos moldes que as suas reuniões: com ordem de trabalhos, tempos para cada um dos temas e uma moderadora. Haverá momentos para falar e intervir, mas também tempo para ouvir.

    Descrevem o início rápido e espontâneo do coletivo e como tudo começou num cenário familiar a todos nós: um grupo de amizades, uma ideia louca e vontade de avançar:

    «Toda a gente já teve uma ideia maluca à volta de uma mesa a beber jolas. Há ideias que ficam para trás e outras que… De repente, se transformam num grupo de whatsapp, com uma de nós a dizer que arranja drivers e horns com 60% de desconto, isto foi um boost».

    Explicam-nos que existem diversas formas de começar um soundsystem, mas que na maioria das vezes sabe-se pelo menos o que se quer: se o objetivo é ter um sistema de som para música Dub, então vão procurar-se as peças mais adequadas, as que melhor potenciam esse género de música. As Power Rangels começaram noutro lugar:

    «Queremos construir um sistema de som, não percebemos nada do assunto, mas temos uma janela de oportunidade para comprar [o material], então acabamos por comprar o que nos foi aconselhado. De um sistema de som boutique acabamos com drivers de 18 polegadas, cada um a pesar 13kg, e um sistema de som impossível de ser mexido apenas por uma de nós. Aí percebemos: isto não vai ser coisa pequena».

    Falar de soundsystem é falar de rave e a rave é política. É sobre coletivização do prazer, auto-organização, desconstrução das normas sociais do lazer, resgatar a diversão das lógicas capitalistas

    Algo do Género, Rave
    Falar de soundsystem é falar de rave e a rave é política. É sobre coletivização do prazer, auto-organização, desconstrução das normas sociais do lazer, resgatar a diversão das lógicas capitalistas: é falar de diversão grátis, sem porteiro nem venue, do gesto hedonista de escolher dançar em conjunto em vez de trabalhar.

    Num fim de tarde de abril, em 2023, no rescaldo de uma free party, acontece, sem as próprias saberem, o primeiro encontro das Power Rangels. Por obra do acaso, um grupo de dez pessoas, todas elas identificando-se como mulheres, sentam-se a uma mesa e falam sobre o potencial empoderador da rave, os seus contornos políticos e as questões de género na organização da mesma.

    Na conversa, torna-se claro para todas que, na maioria das festas, o trabalho de produção – controlar o som, montar o sistema de som… – é um trabalho predominantemente masculino, e que o trabalho reprodutivo da festa – manter o espaço organizado, preparar comidas… – é um trabalho cumprido pelas mulheres.

    Esta conclusão espoletou uma espécie de «disforia coletiva», como descreve uma das Power Rangels. Um desconforto com o facto de, mesmo num lugar que se supõe dissidente, se continuarem a cumprir as mesmas regras e padrões sociais. Este desconforto, um gatilho, rapidamente se transformou numa vontade de agir, de mudar as regras e de aprender, em conjunto, a fazer parte de todos os momentos da construção de uma festa. E então alguém sugere: «e se construíssemos o nosso soundsystem?».

    «Desconstruir a ideia de que é impossível alcançar coisas»
    Se esta aventura surgiu de alguns acasos e espontaneidade, surgiu também de uma vontade emancipadora, da busca por autonomia e empoderamento. A construção de um sistema de som, que era o primeiro objetivo, rapidamente se tornou no objeto que materializa vontades mais profundas:

    «Nas primeiras conversas, o delírio coletivo do soundsystem trazia também uma vontade de aprender sobre a parte mais técnica, sobre o som. Todas nós, de uma forma ou de outra, estávamos ligadas ao som, mas na verdade tínhamos poucas ferramentas e conhecimentos, queríamos muito aprender, mas sentíamos que não tínhamos muito espaço em determinados lugares para o fazer. Então decidimos aprender em conjunto», partilha uma das Power Rangels.

    Com os materiais básicos comprados e o grupo formado, que, por razões logísticas, se fechou nas 15 pessoas, o delírio tornou-se real. Agora, restava-lhes perceber o que fazer com o que tinham em mãos e por onde começar.
    Por coincidência ou não, uma das companheiras do grupo é eletricista e, no primeiro encontro intensivo, começaram pelo início: uma aula sobre eletricidade e sistemas elétricos básicos. A segunda foi sobre o som, como o sentimos no corpo, como o percepcionamos.

    A partir daí foram aprendendo juntas, espantaram-se em conjunto. Perceberam umas com as outras que a «eletricidade não explode» e que o conhecimento não está encoberto e «guardado pelos homens», que existe na internet, em livros, à nossa volta e que afinal não é assim tão intimidante.

    Neste processo, continuaram a cruzar-se com as várias expressões de uma sociedade hiperespecializada e «genderizada», e com a forma como ela nos sujeita a determinadas funções, encurtando-nos assim a capacidade de ver para lá das suas normas. Sobre isto, uma das Power Rangels partilha:

    «Uma coisa que este processo nos tem ensinado é que as coisas nos são passadas enquanto muito difíceis. Sempre que fazes perguntas é-te dado a entender que é muito difícil, que não vais conseguir perceber ou fazer. Isto está muito ligado com a sociedade em que vivemos, mas também com questões de género. Este projeto está-nos a ajudar a desconstruir esta ideia. As coisas são difíceis e complexas, mas passo a passo temos sempre vindo a desbloquear tudo e a conseguir avançar juntas: desconstruir a ideia de que é impossível alcançar coisas.»

    Mais adiante, outra companheira continua: «começamos a perceber que em muitos casos, nós enquanto mulheres, somos educadas a perguntar, a pedir ajuda. Então e se aprendêssemos juntas? Então e se criássemos esse espaço de aprendizagem para nós? E se juntássemos as skills que já temos e agíssemos sobre elas? Gostávamos que no final todas soubéssemos que soundsystem temos e como operá-lo».

    Tomaram então a decisão de que não era muito relevante que o soundsystem estivesse construído no final do ano ou só no próximo verão, mas sim que todas acompanhassem todos os pontos do projeto e que soubessem o que estava a acontecer em cada momento.

    A organização e modo de operar do grupo passou a refletir estes objetivos. Formaram-se grupos de trabalho, cada um com objetos de estudo distintos, trabalhos de casa e a função de encontrar soluções para os problemas que iam surgindo.

    Depois, são marcados encontros e reuniões, alguns online, dado que muitas das Power Rangels não vivem no mesmo sítio, sessões intensivas nas quais são partilhadas as aprendizagens de cada grupo garantindo que tudo é explicado e transmitido devidamente.

    Destas sessões surgem questões, são percebidas as limitações técnicas ou práticas e, a partir daí, definidas novas direções: é decidido que assuntos aprofundar, transformando as limitações em guias orientadoras.

    O Pessoal é Político
    Se o entusiasmo inicial de uma ideia brilhante, tida e levada avante coletivamente, é uma força capaz de mudar marés, fazer parte e viver um coletivo é um feito sisífico. Da gestão de conflitos, às subjetividades de cada uma, o objetivo de aprender mais sobre som e as suas questões técnicas transforma-se em algo maior: aprender a estar num coletivo, neste caso só de mulheres.

    Na intimidade confortável dos primeiros encontros, não sentiam necessidade de se afirmar politicamente ou de ter uma posição conjunta sobre a sua própria constituição. Foi quando precisaram de organizar o seu primeiro benefit e criar uma identidade pública, que o privado se tornou realmente político e deixaram de ser apenas um grupo de amigas para se transformarem nas Power Rangels, um coletivo.

    «Muita energia foi focada na questão de como nos vemos, consumiu-nos imenso. Os nossos maiores embates, as nossas conversas mais longas têm a ver com isto: como nos identificamos para o exterior. Cada corpo tem uma história diferente, somos 15 mulheres, mas não somos um coletivo queer, temos um range de idades gigante. Então o que somos?».

    Outra conta-nos: «estar pela primeira vez num grupo só de mulheres fez-me perceber as diversidades e subjetividades dentro disso [ser mulher], e que é possível encontrar um lugar de discussão saudável».

    Ao longo da conversa refletem sobre como as dinâmicas de poder se constroem à volta de questões como o género, mas que existem para lá dele: «neste processo damos por nós a replicar as mesmas dinâmicas que criticámos “lá fora”, nas quais são sempre os mesmos a fazer as mesmas coisas, e então percebemos que para lá do género há outras camadas, de personalidade e outras. Mas se temos consciência de que replicamos as mesmas dinâmicas que estamos a criticar, então podemos ter agência sobre elas e tentamos mudar, e para a próxima trocar de funções. Este é um dos powers das Power Rangels. (…) Desafiar–nos: muitas vezes quando gostamos de um lugar e nos cingimos somente a ele é porque estamos confortáveis nesse lugar e então é importante desafiarmo-nos. Se não sabes nada sobre eletricidade, este é o lugar para aprender. Diferenciar entre gostar e estar confortável».

    Cada corpo tem uma história diferente, somos 15 mulheres, mas não somos um coletivo queer, temos um range de idades gigante. Então o que somos?

    A ecologia do parafuso
    Na mesma sessão da Casa do Comum, refletem sobre as opções tomadas ao longo do percurso e concluem que o sistema de som que estão a construir não é o mais sustentável. Com madeiras vindas da Polónia, parafusos da Alemanha e peças da China, poderiam ter feito de outra forma?

    «Havia tanta pressão pelo facto de sermos mulheres a fazer isto sozinhas (…). Claro que existem pessoas que sempre nos apoiaram e continuam a empoderar, mas no início houve muita resistência, questionamento e dificuldades nesse sentido. Então estas opções que tomamos eram uma espécie de garantia de que isto ia acontecer, porque se falhássemos ia ser um grande falhanço e não queríamos falhar porque escolhemos a madeira errada. Isto também levantou uma série de questões entre nós no sentido de nos relembrarmos (…) de onde partimos: sobre o processo, sobre aprendermos, sobre trocarmos ideias e empoderar-nos enquanto mulheres com interesse em aprender sobre som».

    Apesar das circunstâncias das quais partiram as ter levado a tomar determinadas opções, ressalvam que, com algum conhecimento de construção, outros caminhos mais criativos e sustentáveis são possíveis: da reciclagem das «colunas da aparelhagem do avô» à utilização de materiais menos convencionais como o cartão ou a cerâmica.

    Hora de aquecer o corpo
    Quase dois anos após a sua formação, várias festas de benefit e um longo caminho de discussão e aprendizagem, o futuro do coletivo é incógnito. Não sabem se continuará a existir após a construção do soundsystem ou se passará a existir apenas para o gerir. Para o futuro, guardam a vontade de partilhar o que aprenderam, de fazer ouvir o sistema de som na rave e para lá dela: nas ruas, em manifestações e que possa ser usado por outros coletivos que precisem.

    Concluem que um dos pontos de financiar o soundsystem através de benefits é também o de diluir a propriedade privada sobre ele. Têm noção das horas de trabalho e tempo investido na sua construção, mas agradecem o que este «delírio coletivo» lhes tem trazido e que «no fundo é um sistema de som coletivo. Não sabemos ainda como vamos gerir isto, mas não temos o objetivo de ter propriedade sobre o som, sobre o conhecimento».

    A nós resta-nos esperar o convite para a primeira festa, que preveem para breve. Ir aquecendo o corpo para dançar em conjunto e manifestar mais ideias loucas e amizades sentadas à mesa com vontade de lhes dar vida.

    As Power Rangels deixam o seu contato para os que ficaram curiosos: powerrangelss@gmail.com


    texto publicado no Jornal MAPA nr. 45 [AbrilJunho2025]
    FOTOS: POWER RANGELS

  • Agroecologia e uma ode à autogestão: o filme

    Agroecologia e uma ode à autogestão: o filme

    Acaba de sair o documentário “Agroecologia em movimento”, um retrato sobre o movimento português das AMAP – Associações para a Manutenção da Agricultura de Proximidade – grupos auto-organizados de produção agrícola, que erguem uma alternativa ao mundo das cadeias globais de supermercados, dos agrotóxicos e da exploração laboral.

    “Agroecologia em movimento” é um olhar íntimo sobre o caminho paciente rumo à soberania alimentar, onde ambientalismo e ecologia se constroem a partir da dignidade de quem trabalha no campo e da solidariedade das comunidades em seu redor. Ao longo deste documentário, realizado por João Garrinhas e apoiado por 117 pessoas através de crowdfunding, ouvimos as vozes de quem está na horta e quer fazer agricultura, mas não consegue sobreviver no «mercado». Ouvimos também as vozes de quem quer fugir dos supermercados e das suas cadeias, que exploram mão-de-obra, envenenam os nossos solos e os nossos corpos. As AMAPs surgem, portanto, como um elo prático de ligação entre ambas as vontades: uma forma de organização social que ultrapassa intermediários e que acolhe relações diretas entre produtoras e consumidoras, que em conjunto organizam um sistema local de produção e distribuição. Por isso mesmo, no contexto das AMAP, as consumidoras são chamadas de co-produtoras. Ao assentar num acto de militância, e numa prática radical de apoio mútuo, as AMAP são um gesto maior. Em primeiro lugar, de defesa do alimento – e de todo o ecossistema que o nutre – como um bem comum e um direito fundamental, que tem sido dominado e violentado pelo actual sistema de produção e de consumo. Em segundo lugar, de criação de comunidades autónomas, que se auto-organizam para manterem vivas as suas redes locais de abastecimento alimentar. Por isso este documentário é, nas palavras de João Garrinhas, com quem conversámos, uma «ode à autogestão».

    Jornal MAPAFizeste este documentário enquanto membro ativo de uma AMAP. Vê-lo como um forma de comunicar o movimento, de dentro para fora?

    João Garrinhas – De alguma forma, sim. Em 2019 estava a viver na Quinta Maravilha, em Palmela, quando começámos a nossa AMAP. Porque a câmara é um objecto que utilizo há já alguns anos e o vídeo uma forma de registo e de expressão política/social, fui filmando vários momentos sem a ambição de os expor ou de criar conteúdo para outrxs… Não só do projeto AMAP, como de outros processos que passavam pela Maravilha. A AMAP surge de uma relação próxima entre membros da quinta e do Centro de Cultura Libertária, em Cacilhas, e essa proximidade era minha também, o que me deu confiança e intimidade para filmar o processo com estas pessoas. Nesse ano (2019) estivemos em vários momentos assembleários com outras AMAP mais a sul, onde também fui captando imagens, retratando pessoas e registando alguns testemunhos. E foi nestes momentos que percebi que já tinha material para contar uma história, esta nossa história enquanto movimento em torno da agroecologia, da agricultura regenerativa e da auto-organização.

    JM – O documentário foi, ele mesmo, um processo colectivo – de várias AMAP, de várias mãos e de vários apoiantes. Queres falar um pouco sobre isto?

    JG – Quando filmava estes processos colectivos, o pessoal perguntava-me o que pretendia fazer com todas as filmagens que fazia. Foi aí que a ideia de documentar audiovisual ou cinematograficamente os nossos projetos foi ganhando forma. Faltava tempo e financiamento mas, com a chegada da pandemia a dimensão temporal ganhou outra forma… A situação financeira ficou ainda pior, mas decidimos lançar uma campanha de crowdfunding para a qual fiz um trailer e contei com o apoio de várias companheiras da Regenerar (rede de AMAPs) para escrever os textos. O crowdfunding propunha-se a pagar as despesas mais básicas associadas à fase de rodagem e assim foi, com o apoio de 117 pessoas concretizámos essa fase de rodagem. Toda a equipa trabalhou por militância ou afinidade, por fazer parte do grupo. O envolvimento surge ao nível das relações – quem filma, quem escreve e entrevista, quem capta som… Todas estamos relacionadas com estes projectos e com estas pessoas retratadas, então essa partilha é real e profunda, de igual para igual. Nós estamos ali a fazer um filme mas as pessoas conhecem-nos das mondas, das assembleias e das colheitas. Não somos uma equipa audiovisual urbana que chega e tem um olhar exótico sobre o tema.

    JM – Este documentário pretende também inspirar outres a filmar os seus próprios processos de trabalho, movimentos e comunidades?

    JG – Acima de tudo, este documentário pretende que as pessoas se organizem e tomem, de alguma forma, as suas vidas pelas suas próprias mãos. Que dependamos cada vez menos de modelos de produção intensivos ,que enriquecem os patrões e exploram xs trabalhadorxs e a terra; que dependamos cada vez menos de redes de energia «estatais»; que tenhamos recursos para cuidar da nossa saúde e bem estar; de nos cuidarmos umas às outras em solidariedade e apoio mútuo. Pretende mudar o paradigma da agricultura, que seja regenerativa em vez de extractivista, ou seja, que a produção de alimentos seja em cooperação com a terra, deixando-a mais rica a cada cultura em vez de explorada e destruída. O vídeo é uma ferramenta de comunicação poderosa mas banalizada, está ao dispor de toda a gente através dos smartphones. Esta pode ser utilizada para produzir conteúdos revolucionários, para inspirar e dar voz a projetos que melhoram as nossas vidas… As AMAP surgem no Japão,nos anos 50, num contexto de crise sanitária que teve origem na indústria alimentar, numa altura em que as pessoas não podiam confiar nas empresas, e se reorganizaram. E quando isso acontece, estas redes criadas potenciam o encontro de pessoas, com o alimento na base, mas com o potencial comunitário de construção de relações de entreajuda. Esta forma de organização tem tornado possível criar também modelos de economia paralelos, porque não dependemos de uma autoridade que nos carimba enquanto ecológicos ou biológicos (fuck them), nós certificamos a nossa cena de forma participativa! Somos anti-autoritárixs, se queremos plantar a semente guardada pela avó do Henrique [agricultor da Quinta Maravilha] em Miranda do Douro, pois plantamo-la. Se quisermos usar estrume das ovelhas do vizinho, ninguém nos vem dizer que as ovelhas não comem comida certificada. É de nós para nós, decidimos em assembleia, somos um grupo de pessoas e não fazemos mercados biológicos nem vendemos para lojas… Quem consome coproduz, ou seja, participa de forma activa nas decisões e nos trabalhos em torno desse alimento que consome. ‘Bora sair das teias destas máfias que promovem o nosso isolamento e precariedade. Este filme retrata projectos com convergências e divergências, que seguem os princípios básicos da Agroecologia e se organizam enquanto AMAP ou CSA (community supported agriculture), mas para mim é uma Ode à Autogestão.


    texto publicado no Jornal MAPA nr. 46 [Julho-setembro 2025]

  • A inevitabilidade histórica de hoje lutarmos assim

    A inevitabilidade histórica de hoje lutarmos assim

    Este ano, o EuroPride realiza-se em Lisboa, e com ele voltam à superfície debates que marcam historicamente a comunidade queer. O caminho que a luta da comunidade LGBTQIA+ percorreu até aos dias de hoje faz-nos questionar: onde estamos? Como lutamos? Porque lutamos assim? Quem ficou e permanece de fora? Como sonhar com um mundo novo, se lutamos dentro de um sistema que nasceu no mundo velho, que sempre nos quis criminalizar, marginalizar e matar?

    Como tantos outros textos, este nasce de um lugar de tensão.

    Hoje, num mundo em que o autoritarismo ganha força, a resposta mais conciliadora – e menos transformadora – tem sido a defesa da democracia. Hoje, num mundo em que o neoliberalismo domina todas as esferas das nossas vidas, até a resistência política se transformou em produto. Hoje, num mundo em que o autoritarismo, financiado pelo capital, pretende exterminar as existências queer – dentro e fora da esfera institucional – a luta LGBTQIA+ continua centrada nas conquistas jurídicas e políticas, que são as únicas vias legitimadas pelo estado.

    Eventos como o EuroPride, com a sua dimensão internacional, festiva e institucional, são amplamente vistos como sinais de conquistas da luta LGBTQIA+. No entanto, num mundo em que o autoritarismo ganha força, a realidade obriga-nos a questionar: será suficiente que a luta queer se remeta à legalização das nossas existências, quando governos autoritários – que podem apagar, num só dia, anos de conquistas legais – continuam a chegar ao poder?

    Será suficiente que eventos como o EuroPride, entregues à lógica do mercado neoliberal– financiado por empresas e corporações que exploram e rentabilizam a sobrevivência – sejam o símbolo máximo das conquistas LGBTQIA+?

    E será suficiente que, hoje, a imaginação política queer se limite a um lugar dentro da norma – branca, cisgénero, heterossexual, monogâmica; capitalista, colonialista, patriarcal, extractivista; criminalizante e punitivista – esquecendo, uma vez mais, a sua origem utópica, radical e dissidente?

    Como tantos outros textos, este nasce de um lugar de tensão: entre o passado, o presente e o futuro; entre as ruas de Stonewall, o EuroPride e o novo mundo…

    A centralidade do sistema jurídico nas conquistas LGBTQIA+ não é um acaso, mas o resultado de uma inevitabilidade histórica. A luta institucionalizou-se porque, desde o seu início, o movimento LGBTQIA+ dominante excluiu e marginalizou experiências dissidentes: pessoas trans, racializadas, migrantes, pobres – excluiu aqueles que não questionaram apenas a homofobia, mas o próprio sistema que a produz; excluiu aqueles que sonhavam com transformação radical; e hoje, estamos aqui.

    Manifestação na Catedral de St. Patrick com a Street Transvestites Action Revolutionaries, outono de 1970. Foto de Diana Davies, cortesia da Divisão de Manuscritos e Arquivos da Biblioteca Pública de Nova York.

    O Passado
    Em 1969, os protestos nas ruas de Stonewall, protagonizados por pessoas trans e travestis migrantes, marcaram o início de um movimento LGBTQIA+ mais visível e combativo. A revolta de Stonewall foi uma resposta directa à repressão policial e à marginalização social.

    Apesar da origem combativa da revolta de Stonewall, rapidamente o movimento LGBTQIA+ começou a priorizar pautas assimilacionistas que beneficiavam as pessoas brancas, burguesas e cisgénero. Um exemplo disso foi a primeira Marcha do Orgulho de Nova York, em 1970, quando activistas trans migrantes presentes na revolta de Stonewall, como Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, foram afastadas das organizações oficiais, evidenciando como as vozes dissidentes também sofreram exclusão dentro do próprio movimento que integravam. As organizações assimilacionistas trabalhavam para construir imagens da comunidade LGBTQIA+ como semelhantes à sociedade hétero-mono-normativa, em contraste com o movimento trans migrante, que lutava pelo rompimento total com as instituições e por uma auto-determinação que não pretendia ser legitimada nem pela sociedade normativa, nem pelo estado.

    «We fought for survival on the streets – not for respectability or approval from the state.»

    Como o movimento trans migrante não era bem-vindo nos espaços políticos normativos da comunidade LGBTQIA+, organizou-se para responder às pessoas migrantes de género desviante esquecidas pelo activismo assimilacionista. Street Transvestite Action Revolutionaries (STAR) foi uma organização anticapitalista radical fundada em 1970 por Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, e que, no seu manifesto, se identificava como «a revolutionary army opposed to the system», opondo-se fortemente ao poder estabelecido e com uma perspectiva radical de transformação social, política e económica.

    Em vez de se integrar no estado para adquirir direitos e reconhecimento, o activismo da STAR era sobre amenizar o fardo da sobrevivência de jovens queer, pessoas racializadas e trabalhadoris sexuais – a STAR era composta por pessoas que viveram na rua a maior parte das suas vidas. Esta organização reconheceu a forma interseccional como a opressão estatal afectava as vidas trans e criou espaços de apoio mútuo em que competências e recursos podiam ser compartilhados. O foco da STAR era a capacitação de pessoas trans para sobreviverem sem o estado – não queriam entrar no sistema, queriam derrubá-lo.

    Não importando para este texto questionar se a experiência de transgressão de género é, por si só, anárquica, importa compreender que pessoas trans desafiam a dependência do estado em classificações binárias de género e sexo. É por essa razão que a violência estatal contra pessoas trans acontece: o estado cria fronteiras sociais como método de disciplina e controlo, e quem as transgride é sistematicamente marginalizado. Para as pessoas trans poderem viver de acordo com o seu género, têm de interagir com instituições psico-médicas e legais, pois são experiências vigiadas, controladas e puníveis.

    Organizações como a STAR romperam estruturalmente com o sistema de classificação de sexo e género, porque as suas conceptualizações de identidade rompiam com os parâmetros estatais que definem legalmente quem somos. Mas também porque a sua luta era radicalmente interseccional: reconheciam que a opressão que enfrentavam era uma questão de identidade, mas também de classe – em que o estado, o capitalismo, o patriarcado, a autoridade, o heterossexismo e o racismo interagiam para conservar o poder dominante que governava o mundo. A sua insurreição era uma recusa total, não apenas da marginalização para onde eram empurradis, mas também do mundo que a possibilitava.

    Ir ao passado é essencial para entender a razão como lutamos. A inevitabilidade histórica de, hoje, estarmos aqui é o resultado de um apagamento das vozes dissidentes e radicais, que foram sistematicamente expulsas do espaço político LGBTQIA+. A transfobia, a supremacia branca e as ideologias assimilacionistas marginalizaram essas vozes e apagaram da história colectiva a práxis queer insurreccionista. Hoje, lutamos dentro do sistema, porque foi esse o legado que sobreviveu – precisamente porque se aliou ao capital, ao estado e à norma. Inevitavelmente, foi esse legado que venceu sobre a vontade de transformação radical.

    De volta ao Presente
    Para quem tem estado atento, não é surpresa que o EuroPride, evento que simboliza a aparente conquista da comunidade LGBTQIA+, funcione também como moeda cultural para estados-nação competirem por uma «marca» progressista. O EuroPride é um produto cultural e político: reproduz uma lógica neoliberal ao transformar a diversidade – domesticada – numa marca usada para atrair turismo, capital económico e prestígio social. A luta LGBTQIA+ é instrumentalizada por empresas e governos que, enquanto nos rentabilizam, fazem parte da estrutura que nos quer apagar e matar.

    Também não é surpresa que Diogo Vieira da Silva, fundador da Variações (Associação de Comércio e Turismo LGBTI de Portugal) e ex-chefe de imprensa da Embaixada de Israel, tenha sido nomeado comissário municipal do EuroPride2025. O Europride mantém ligações a embaixadas como a de Israel e legitima o pinkwashing – estratégia que usa a imagem da tolerância queer para encobrir e legitimar políticas coloniais, autoritárias e violentas. Este alinhamento político não é um erro, mas o reflexo de anos de luDiana Daviesta entregues à norma, ao capital e à aliança com estados e mercados que continuam a assassinar vidas dissidentes.

    Ao mesmo tempo que o EuroPride perpetua narrativas coloniais – por coligar-se a estados e instituições que recorrem ao pinkwashing – também reproduz uma imagem homogénea e celebratória da comunidade LGBTQIA+. Essa representação invisibiliza as lutas interseccionais de pessoas trans, racializadas, migrantes e reforça as estruturas de poder que historicamente marginalizam essas comunidades.

    Se a luta queer tivesse mantido a radicalidade da sua origem, e o activismo de grupos como a STAR, que confrontava o sistema de poder em todas as suas dimensões, tivesse sido o caminho seguido, talvez não estivéssemos presos a um modelo mercantil de luta, dependente do reconhecimento estatal e da validação institucional.

    Se a luta queer tivesse mantido a radicalidade da sua origem, talvez a revolução social, política e económica já tivesse acontecido, e não estivéssemos a viver num mundo cada vez mais fascista, violento e excludente….

    Marsha P. Johnson, numa fotografia de 1970 de Diana Davies. Johnson está de pé com o seu cartaz à porta do Hospital Bellevue da Universidade de Nova Iorque para protestar contra o tratamento desumano dado pelo hospital aos homossexuais, transgéneros e sem-abrigo.

    Talvez, o Futuro…
    Fatalmente, o percurso recente das instituições que legitimam algumas dimensões das identidades queer revela, cada vez mais, a sua natureza fascista e autoritária – como alertaram no passado as irmãs da STAR. A democracia burguesa é violenta, tem sangue nas mãos: os estados-nação do norte global nasceram da violência colonial e, ainda hoje, hierarquizam vidas com sangue, muros e prisões. O fascismo não é um acidente democrático; o fascismo nasce no mesmo berço que a democracia burguesa.

    É por isso essencial que o futuro ainda possa ser um espaço de ruptura, onde a luta LGBTQIA+ recupere a sua imaginação radical e se organize fora das estruturas estatais. A luta queer necessita de recuperar práticas de apoio mútuo e de se organizar politicamente contra o neoliberalismo, o conservadorismo e o fascismo. Precisamos de desenterrar o legado insurrecional da luta queer e construir alianças entre quem sempre foi deixado de fora.

    Talvez, o futuro da luta queer seja possível se voltarmos a imaginar a liberdade como algo incompatível com a polícia, as fronteiras, o estado, a propriedade, a norma e o capital… Talvez, o futuro seja possível se voltarmos a sonhar com uma revolução que nos liberte de todas as esferas que nos oprimem.

    Como tantos outros textos, este nasce de um lugar de tensão: estamos sempre entre o passado, o presente e o futuro; entre as ruas de Stonewall, o EuroPride e o novo mundo. Entre aceitar o possível e lutar pelo impossível; entre a política do reconhecimento e a política de libertação; entre o reconhecimento legal e a utopia dissidente; entre a integração e a insurreição; entre como luta a luta e onde nos pode levar a nossa imaginação – entre fogo; sonhamos; guilhotinas; lutamos; revolução; gritamos; motim; surge o novo mundo; criamos; o sonho; sem fim.


    texto de Eça Sofia, publicado no Jornal MAPA nr. 46 [Julho-setembro 2025]

  • Os lobos voltam a uivar na Serra

    Os lobos voltam a uivar na Serra

    O Acampamento em Defesa do Barroso regressa para a sua 5ª edição, entre os dias 8 e 10 de agosto, num momento em que cresce de tom a luta contra a mina.

    A ameaça sobre as populações de Covas do Barroso intensifica-se depois de os projetos de lítio da mina do Barroso, em Boticas, e da mina do Romano, em Montalegre, terem sido incluídos no primeiro lote de projetos designados como estratégicos ao abrigo do Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas (REMPC), beneficiando por isso de mecanismos de financiamento facilitado. O Estado português, depois de há mais de um ano atrás ter desvalorizado o pedido do Ministério Púbico de anulação da validade da Declaração de Impacto Ambiental (DIA) da mina do Barroso, prossegue contornando toda e qualquer ação legal, como as providências cautelares colocadas pela população à servidão administrativa, através da qual o Governo forçou os trabalhos de prospeção da empresa Savannah Resources em terrenos privados e comunitários.

    Depois de autorizada uma primeira servidão administrativa, em dezembro de 2024, a Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB) veio em inícios de junho deste ano acusar a Savannah de «persistir no assédio» às comunidades ao solicitar uma segunda servidão administrativa para aceder aos terrenos e expandir trabalhos de sondagens em Boticas. Conforme declarou a UDCB à imprensa regional, essa nova servidão demonstra a expansão «dos trabalhos de prospeção através da instalação de novas plataformas de sondagem e de poços geotécnicos que aprofundam a agressão em curso às serras» e que «continua a não ter o consentimento da comunidade local de baldios e da grande maioria dos particulares».

    A luta dos últimos sete anos contra a mina do Barroso, cuja DIA foi emitida em maio de 2023 e com anúncio de início da produção em 2027, não tem esmorecido. Ao longo deste ano, tiveram lugar em diversas localidades do país, como na Europa, múltiplas ações de solidariedade. No terreno, nos inícios de março, duas máquinas de perfuração e um trator de apoio foram danificadas. O escalar da resistência voltou a ser constatado na madrugada de dia 19 de junho quando «um grupo de pessoas solidárias com a população residente na região do Barroso entrou nas instalações da Savannah Resources, em Carreira da Lebre, Boticas, tendo danificado os seus veículos, pintalgado a fachada de vermelho e escrito a frase “Não à mina”». Contrapondo com a violência do projeto mineiro, refere o comunicado enviado aos meios de comunicação social que «nos últimos anos, a população tem usado todas as ferramentas ao seu dispor para lutar contra esta violência. Organizaram encontros, convocaram protestos, deram entrevistas a meios de comunicação social, falaram com representantes políticos e até recorreram aos tribunais de forma a cancelar a licença de prospeção e exploração da empresa. Todos estes esforços têm sido em vão». Razão exposta para este grupo de pessoas declarar «este ato de violência legítimo, proporcional e provocado pela falta de alternativas».

    Mais referem que, perante «uma forte oposição dos residentes e de várias associações e organizações ambientais» ao projeto de mineração, a empresa britânica «adoptou uma postura autoritária de atropelo das vontades locais». «A Savannah Resources quer-nos convencer que o futuro verde é esburacar património mundial e transformar estas serras em zonas de sacrifício para uma indústria de automóveis elétricos que em nada resolverá a crise climática que atravessamos. Em nome do crescimento económico, querem açambarcar terras, poluir águas e destruir os montes e as serras barrosãs contra as populações locais. E o Estado, o governo e a União Europeia, que deviam proteger a sua população, pavimentam-lhes o caminho». Simultaneamente caem sobre habitantes locais processos judiciais com o objetivo de amedrontar e esgotar financeira e animicamente aquelas pessoas que são vistas como as «cabeças» da resistência.

    Em sentido contrário, de solidariedade e de apoio, irá regressar à Quinta do Cruzeiro, nas Covas do Barroso, a 5ª edição do Acampamento em Defesa do Barroso, entre os dias 8 e 10 de agosto. Este acampamento, que se quer longe de um escape festivaleiro, revolucionário e urbanita, como apontado no texto “A luta Possível no País Impossível”, publicado na revista Flauta de Luz, (nº 11, Junho 2025), constitui uma oportunidade e desafio em ultrapassar o distanciamento «ativista» para que «na falta de maturidade, tempo e meios materiais (…), o primeiro passo para uma resistência [seja], talvez, que cada um saia da sua redoma e retome os antigos processos de convívio e comunicação humanas. Que se caminhe humildemente ombro a ombro com as populações afectadas com o único e comum objectivo de parar o processo de extermínio das suas vidas».

    Nesse sentido, é incontornável atender aos esforços de consolidação d’A SACHOLA. Trata-se de um «espaço de encontro entre quem habita o território barrosão e quem com ele se solidariza», que nasceu em junho de 2023 numa das salas da antiga escola primária de Covas do Barroso. «Aqui, organizámos sessões de cinema, concertos, reuniões, exposições, residências artísticas, e albergámos gente vinda de todos os cantos do mundo para lutar lado a lado com as populações barrosãs. Foi também aqui que mantivemos um centro de informação em permanência, com documentos, panfletos, zines, flyers, cartazes e jornais sobre a luta». Atualmente, um novo espaço está a ser reconstruído para, como refere o coletivo d’A SACHOLA, «possamos continuar a fazer tudo isto, de forma autónoma». Em comunicado, não escondem a urgência desse espaço: «foi o momento atual que acelerou esta necessidade de criar um espaço. A empresa britânica Savannah Resources está a entrar em força nas aldeias de Covas do Barroso, Romainho e Muro, ferindo as águas e as terras, e trazendo os seus trabalhadores para estas aldeias».

    Tal como citado na apresentação da Jornada contra as Minas, que tiveram lugar em abril no Espaço Musas, no Porto, podemos concluir com as palavras da UDCB que «a única coisa normal aqui é RESISTIR. Em defesa da Serra e dos modos de vida que dela dependem. E por um combate à crise ecológica justo, que apenas sacrifique os responsáveis pelo estado a que chegámos. Não somos nem seremos meros territórios de extração. E nunca desistiremos de lutar contra uma empresa, um Estado e todos aqueles que se uniram para acabar com a nossa comunidade. Os lobos voltam a uivar na Serra».


    notícia publicada no Jornal MAPA nr. 46 [Julho-setembro 2025]