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  • Betão na Ria de Aveiro

    Betão na Ria de Aveiro

    Fotografias: Miguel Crespo

     

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    O Parque da Ciência e Inovação da Coutada

    Há 3 anos atrás noticiávamos no MAPA os protestos populares no lugar da Coutada, Ílhavo, perante a destruição das suas casas e terras em nome do Parque da Ciência e Inovação (PCI). Um projeto liderado pela Universidade de Aveiro, autarquias de Ílhavo, Aveiro e várias empresas (Visabeira, Martifer, Rosas Construtores, Civilria e os bancos CGD e BES). Moradores e agricultores associados desde 2012 no Coletivo de Intervenção na Defesa dos Interesses dos Habitantes da Coutada (CIDHC) contestavam o interesse público da PCI nos seus 35 hectares de terras, denunciando a operação urbanística e especulativa em causa.

    Perderam a batalha. E como em outros tantos exemplos dessa parceria público-privada com financiamentos europeus, sobra uma megalomania sem retorno à vista. Fora o rasgo na Ria de Aveiro, fora a condenação de uma vivência rural e humana pela demagogia do “desenvolvimento”. Mas fica também toda uma história a que não falta um sem número de acusações de ilegalidades, cujo elencar João Paulo Pedrosa, da Quercus e do CIDHC, tem dado conta nas redes sociais e nas interpolações feitas aos organismos públicos. E sem hesitar no terreno atravessou-se sozinho frente às máquinas da obra em 2014, valendo-lhe um processo judicial que ainda corre.

    O enunciado das irregularidades é preocupante. Mas em nada surpreende face ao habitual quadro de compadrios e desresponsabilização nas obras públicas. Junto do CIDHC e através de João Paulo Pedrosa, quisemos antes saber da situação e do impacto atual que a PCI teve nas gentes e na vida da Coutada. Ouvidos 13 residentes afetados pela PCI, os relatos anónimos por opções próprias, dão conta uma vez mais dos impactes que resultam sempre que a um lugar e às suas gentes é-lhes eleito e imposto o “progresso”.

    O emprego da cenoura ou a cenoura dos empregos

    ria-de-aveiro-2Todos os residentes questionados acabam por fazer um simples exercício de contas: no que é que valeu a pena o PCI? Diz-nos um morador que “a resposta tem que ser dividida em duas partes: aspetos globais e aspetos específicos. Se há vantagens globais neste projeto eu respondo: haverá, com certeza. As universidades são quase sempre motores de desenvolvimento das cidades e das regiões. Benefícios específicos para esta região – muito poucos na minha perspetiva. Este tipo de projetos é concebido para movimentar fluxos mais vastos e dirigidos a outros destinatários. Portanto, não traz benefícios diretos à envolvente mais próxima, pelo menos que possam ser medidos objetivamente. Se me perguntam se acho isso correto eu devo responder que não. Tem de haver uma forma de conciliar as duas coisas.“ Isto porque “o projeto do PCI é perfeitamente abstrato – tanto podia ser implementado aqui como no outro lado do mundo. É feito num gabinete por pessoas que, provavelmente, nem conhecem a realidade local. Isto é lamentável e, infelizmente, prática corrente. Não admira que tenha sido rejeitado por diversos habitantes locais (que não foram tidos nem achados), a quem foi imposto. Mas este fator “extraterrestre” do projeto põe também em risco o seu sucesso. As ligações institucionais à universidade são frágeis e muito mais frágeis são aquelas ao tecido empresarial local, sobretudo nos dias que correm. Falta-lhe um elo físico e social. Decididamente, não aprendemos com a História.”

    Menos dúvidas demonstram a maior parte das pessoas ouvidas. Responde uma delas: “tenho muita dificuldade em ver algo positivo neste projeto. Não se esqueçam de que ele foi feito há mais de dez anos, no tempo das vacas gordas. Oxalá eu me engane e aquilo não se transforme em mais uma zona industrial abandonada.” Daí que outro morador descreva o PCI como “um esbanjamento inútil de dinheiro”. “Já viu a área disto? É completamente desproporcionado. Vai destruir um local fabuloso, com boas terras de cultivo, uma bonita paisagem, sem necessidade. Podiam construir o PCI noutro lado que o efeito era o mesmo e, se calhar, ficava mais barato. Até agora houve dinheiro da União Europeia para construir o PCI, mas onde está o dinheiro da contrapartida nacional? Pois é, não há. E depois quem o vai manter? Uma obra desta envergadura é uma amante cara. A câmara de Ílhavo está cheia de dívidas e a universidade está falida. Vão pagar os do costume: os contribuintes”. Outra opinião não hesita em prever “mais um elefante branco. Não há dinheiro para manter um projeto como este aqui em Ílhavo. A autarquia tem um buraco financeiro enorme, a universidade de Aveiro tem dinheiro para pagar os salários e pouco mais… Os outros membros da PCI-SA quem são? Empresas de construção civil (o Rosas construtores está em insolvência) e dois bancos nossos conhecidos: CGD e BES. É preciso dizer mais alguma coisa? Isto vai correr mal…”

    Analisando o projeto como um investimento um dos residentes considera que este “não é um bom investimento. Em primeiro lugar porque não há de facto nenhum estudo sobre a viabilidade do empreendimento. Para mim, e para qualquer empresa não suicida, isso seria o suficiente para não avançar. Seria demasiado arriscado. Depois, há os benefícios (não quero chamar-lhe lucros). Falou-se muito na criação de emprego na região… Este discurso da criação de postos de trabalho é típico dos políticos em campanha eleitoral. Neste caso, os números variaram dos 20 000, inicialmente, para os 5 000, para depois se quedarem pelos 500, o que diz tudo sobre a sua seriedade”. E prossegue numa “questão muito pertinente: a relação entre o montante do investimento e o seu retorno. E aqui parece-me ter existido um investimento infinitamente maior do que o necessário para o retorno pretendido. É que um projeto deste tipo quase não necessita de infraestruturas! Quem conhece este meio sabe que as pequenas empresas (start-ups) funcionam em qualquer lado e a ligação a centros de investigação, universidades e afins apenas necessita de um “facilitamento” institucional. Dito isto, é possível estabelecer uma rede de investigação e desenvolvimento espalhada pela região ou até pelo planeta. Neste sentido, parece-me que a condição que serviu de base a este empreendimento (contiguidade à universidade de Aveiro) é um perfeito disparate! Do meu ponto de vista, seria até muito mais favorável ao desenvolvimento se essa rede estivesse disseminada pela região. Poderia, inclusivamente, ser um modo de estimular os vários polos industriais da zona do baixo Vouga que, neste momento, são estruturas desarticuladas e em degradação acelerada.”

    Outro dos moradores não compreende este projeto “a não ser pela ganância. Quiseram uma área enorme de que nunca irão precisar. O edifício central da universidade é colossal. O que vão meter lá dentro? Computadores? E não me venham dizer que teve de ser construído aqui por precisar de estar junto à universidade. No século XXI ninguém acredita numa justificação dessas. Julgo que isto foi uma manobra hábil para uma empresa privada se apoderar destes terrenos.”

    ria-de-aveiro-3Uma ria de betão

    Consensual é o impacto na paisagem. Recorda-se o antes e o depois. “Esta zona é muito característica pelo seu ambiente e paisagem. É muito sossegada, tem campos de cultivo e muita vida animal. Nasci aqui e custa-me ver este ambiente destruído para lhe meterem uns blocos de betão iguais a tantos outros.” Outro morador aponta-nos como “dantes faziam-se aquelas terras lá ao fundo onde estão agora os blocos. Agora o trator só vem aqui por causa daquele bocado de terra, mas qualquer dia esse também vai embora para fazerem mais blocos.”

    Chamam-nos à atenção de como o betão numa paisagem protegida pode não ser natural, mas ser algo legal: “Já observaram bem a Coutada do outro lado da ria? Vemos lá aqueles mamarrachos que construíram mesmo em cima da margem…. É horrível! Têm um impacto enorme! Destruíram a paisagem toda! Se fossem blocos de apartamentos era especulação imobiliária, assim não é; se fossem as casas dos que lá moravam eram “clandestinos” e “atentados à paisagem”, como disse em tempos o presidente da câmara de Ílhavo, Ribau Esteves: assim já é progresso. O progresso é betão. Depois fazem-se uns espaços verdes ajardinados para dar um ar “ecológico”. Engraçado, não é? Veja como se fazem as coisas neste país: o PDM de Ílhavo não permitia que se construísse neste local. Então muda-se o PDM e já está! Nós aqui na Coutada participámos na discussão pública desta alteração do PDM. E o que aconteceu? As nossas opiniões foram pura e simplesmente desprezadas.”

    Pesadas as coisas parece claro, como numa das opiniões recolhidas que o PCI “não trouxe vantagens nenhumas. Se vai trazer algumas não há de ser para nós, aqui na Coutada. As vantagens são sempre para os mesmos, os políticos, os da universidade, os bancos…” Um exemplo mais preciso, “criaram ali uma linha de autocarro que passa no PCI e liga ao centro de Ílhavo. Podia ser uma coisa boa, mas o autocarro passa uma vez por semana – uma vez por semana! Tem algum jeito? Ainda não vi nenhum a passar…” Outro ainda: “Meteram lá no PCI uns candeeiros todos estilosos e a nossa rua quase não tem iluminação pública. Também não consigo entender porque não melhoraram o piso da rua. Afinal até foram os camiões da obra a passar que o estragaram ainda mais! Estamos fartos de pedir para meterem mais um ou dois contentores do lixo na rua, mas dizem que não mora aqui gente suficiente para isso. E é isto que eu não percebo: se vai haver progresso tem que ser para todos.”

    A generalização é simples: “dantes a Coutada era dos que aqui viviam. Tinham terras, cultivavam-nas para si ou vendiam. Agora os terrenos são todos deles, do PCI.”

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    À margem e divididos

    Muito pouca gente fala nisto: aqui na Coutada estamos a ser segregados. Já tivemos uma amostra disso na forma como fomos tratados por causa deste projeto, de que tomámos conhecimento através de uma carta registada com ameaça de expropriação. Mas também fomos tratados com desdém e tentaram silenciar-nos durante a nossa legítima contestação. Durante as obras, igualmente, nada foi acautelado para nos proteger: os camiões circularam pelas ruas, destruíram o pavimento, derrubaram muros e entraram por dentro de terras privadas. Houve algumas casas que ficaram com um muro à frente. Isto diz bem da atitude que têm para connosco os iluminados que nos querem vender este projeto – somos um entrave ao seu “progresso”. Por isso não tenho dúvidas de que iremos ser segregados e transformados num gueto, condenados a adaptar-nos ou a desaparecer. Lembra-me uma certa aldeia gaulesa no tempo dos romanos. Para mal dos nossos pecados, não temos a poção mágica…”.

    Este sentimento é de um travo acentuadamente amargo porque com a PCI tão pouco agora os vizinhos disfrutam de um momento em que se reúnam de bem com todos. Vantagens? Perguntamos uma vez mais. Há quem nos responda: “as vantagens são para os promotores do projeto, claro! É para eles e para os amigos deles que vão os postos de trabalho. Têm dúvidas? Nós ficamos com os sacrifícios… Quem também lucrou com isso foram as pessoas que venderam os terrenos agrícolas que lá tinham. Preferem receber dinheiro do que continuar a cultivar as terras só que se esquecem que gastam o dinheiro e acaba tudo! Se continuassem a cultivá-las talvez não tivessem tanto dinheiro na mão, mas sempre produziam riqueza para eles e para os outros. São egoístas. Uma coisa que o PCI trouxe foi o conflito e a antipatia entre os habitantes. As pessoas que venderam estão no seu direito, mas nós, que não queremos vender nem sair daqui, também estamos no nosso! Agora olham-nos de lado, quase nem nos falam….Parece que cometemos algum crime.”

    OLYMPUS DIGITAL CAMERAO processo de implantação do PCI foi tudo menos pacífico. Uma das vozes ativas no protesto afiança “o desgaste psicológico foi enorme. Não há palavras para o descrever. Foi a atitude das forças da ordem, que gostam muito de estar de bem com os políticos em vez de proteger e zelar pelos interesses dos cidadãos, como deviam. A GNR, por exemplo, coloca-se ao serviço de uma empresa privada, como esta PCI-SA, para entregar em mão notificações de expropriação. Quando lhe é feita uma denúncia de que estão a ser realizadas obras ilegais diz que a empresa “se esqueceu” da licença, mas não faz nada! Foram os tribunais, que só nos fazem perder tempo e dinheiro. Fazem vista grossa às ilegalidades (que deram como provadas!) porque vão ser criados muitos postos de trabalho (e isto, pode ser provado?). Uma vergonha! Já nem falo das numerosas cartas que escrevi a instituições governamentais que, ou ficaram sem resposta, ou chutaram para canto… A comunicação social só passa notícias favoráveis ao PCI.” Conclui: “a luta é demasiado desigual. É a “democracia” que temos.”

    O sentimento de despossessão não esconde a raiva a um dos afetados: “Tiraram-me da minha casa para fora! Enquanto lá estive não houve dia em que não me pressionassem, que não me ameaçassem, que não me mandassem bocas, que não passassem para dentro do meu terreno! Tive de deixar a casa que tanto me custou a construir e vir viver para uma casa velha onde nem consigo meter o trator. Semearam o ódio aqui na Coutada. As pessoas zangaram-se umas com as outras, dividiram-se por causa de meia dúzia de patacos que lhes ofereceram pelos terrenos!“

    O antes e o depois vem sempre ao de cima. Recordando como este ”era um lugar sossegado. Agora o sossego foi-se. Temos uma zona industrial nas traseiras da casa e vista para uns blocos de betão. As pessoas que venderam as terras ao PCI acham que nós somos uns chatos e que só arranjamos problemas. Chamam-nos “os magnatas”. Já nem bons vizinhos temos…”. O mesmo refere outro morador: “o PCI veio dividir as pessoas. Trouxe ódio e intriga e fez vir ao de cima sentimentos mesquinhos das pessoas aqui na Coutada. Houve pessoas que se insultaram e deixaram de se falar, outras que foram marginalizadas. Pessoas humildes que iam ser despojadas dos seus terrenos tiveram o apoio e a solidariedade de muito poucos. O PCI não abriu apenas uma brecha no território, separando casas e quintais. Abriu também uma brecha social. Quanto a mim, é o mais grave.”

    OLYMPUS DIGITAL CAMERAO grito de revolta surge silenciado nestas eiras de terra, mas não sem uma perspetiva mais ampla do rumo das coisas. “Estão a destruir o país todo com estas coisas. Isto produz riqueza? Trabalhar com computadores não traz riqueza. O que é que essas pessoas comem? Os computadores? Temos que importar quase tudo porque produzimos cada vez menos. Estas terras que nos querem levar (já levaram grande parte delas) produzem quase uma tonelada de milho por ano, para além de outras culturas (três por ano). Em contrapartida, todas as semanas chegam ao porto de Leixões navios carregados de trigo. Diga-me lá se isto faz algum sentido? Cá por mim, procuro fazer a minha vida normal enquanto não me levarem o quintal. Depois não sei…”

  • Europa a todo o gás

    Europa a todo o gás

    * com J. Martins (j.martins@dev.jornalmapa.pt)

    Na edição nº12 do jornal MAPA publicámos uma peça titulada “A (renovada) corrida ao ouro negro”, que analisava o estado actual da indústria petrolífera em Portugal face ao panorama internacional, destacando a crescente importância das técnicas não convencionais de extracção para um sector que tem redobrado esforços para manter a hegemonia dos hidrocarbonetos na batalha contra as fontes de energia renovável e sustentável. Nesta peça queremos dar sequência a essa análise, olhando para o papel central do gás natural (GN) nessa batalha e em particular para a importância das infra-estruturas de apoio, como forma de entender o desenvolvimento deste subsector em Portugal, no contexto das orientações estratégicas da União Europeia (UE).

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    Num momento crucial para a indústria petrolífera mundial, esta recebe um impulso decisivo vindo da Europa, com a publicação de um plano que vincula o continente ao gás natural para as próximas décadas.

    Tão longe, tão perto

    A indústria petroquímica é constituída por uma rede industrial global cuja presença e impacto superam qualquer outro ramo ou sector comparáveis. Os combustíveis – petróleo e derivados, gás natural e carvão, para citar os principais – e o seu uso são centrais à discussão em torno do aquecimento global e a sua extracção, mais do que nunca, marca o tecido vivo do nosso planeta. Apesar disto, como sociedade, em proporção ao relevo e alcance desta indústria, pouco nos debruçamos, mesmo actualmente, sobre os seus efeitos directos e indirectos no ecossistema, na política e sociedade em geral. Esta falha é ainda mais evidente quando falamos das infra-estruturas de apoio, os gasodutos, oleodutos e pontos de armazenamento, essenciais para a indústria e tão mais relevantes quando frequentemente se localizam em proximidade das populações que “servem”. Sintoma de um sector cuja expansão decorre abrigada do olhar público em proporção inversa à cada vez maior proximidade e promiscuidade entre governos e grandes corporações do ramo. Por tudo isto, para poder agir, é fundamental estarmos informados, quer acerca do sector e destas infra-estruturas de apoio, quer das políticas “públicas” que as enquadram, cuja definição e planeamento condicionam presente e futuro, nomeadamente no que toca ao investimento e desenvolvimento de alternativas renováveis e sustentáveis.

    Integração (energética) europeia a todo o gás

    Antes de abordarmos o caso concreto de Portugal, impõe-se perceber o contexto em que este se inscreve. Qual é a posição da UE em relação ao gás natural como fonte energética, em particular na sequência das resoluções do COP21 em Paris? Quais são as orientações estratégicas decorrentes dessa posição? O uso de gás natural na Europa tem vindo a decair consistentemente. Hoje representa um quarto do consumo energético europeu. Ainda assim, apesar do acordo obtido em Paris, que aponta para a necessidade imperativa de um pico de emissões até 2020 e de uma economia gradual mas rapidamente “descarbonificada”, em inúmeras ocasiões e publicações oficiais recentes, representantes ao mais alto nível da UE descrevem o gás natural como um elemento central na sua política energética, pilar da espinha dorsal da política de segurança energética da UE – e fazendo eco da posição oficial do governo dos EUA e da indústria petrolífera – fundamental na transição para a dita “economia verde”. Estas posições ganharam corpo e dimensão estratégica em Fevereiro deste ano com a publicação do Sustainable Energy Security Package, documento-programa saído do projecto de prioridade estratégica “Energy Union”. O primeiro de três pacotes estratégicos esperados em 2016 que, incorporando as conclusões e agenda do COP21, irão definir a estratégia energética europeia para as próximas décadas, é quase exclusivamente dedicado ao gás natural. Este pacote de medidas de (suposta) segurança energética visa fortalecer a capacidade da UE em resistir a interrupções de fornecimento ou outras crises ligadas à oferta de gás natural. Entre outras coisas, o documento prevê a criação de uma rede integrada de abastecimento e armazenamento de gás à escala europeia, em oposição às redes nacionais ou regionais existentes, a criação de um mercado liberalizado em torno de “Hubs”, centros regionais de distribuição que são ao mesmo tempo mercados locais, em oposição aos contratos de fornecimento de longa duração predominantes na actualidade, e a diversificação da oferta, através da criação de novos gasodutos e terminais com vista ao aumento do volume transitável de gás e capacidade de recepção e armazenamento de gás liquefeito (GNL), de forma a tirar proveito de novos agentes de mercado (como os EUA, a Austrália ou o Curdistão iraquiano), e assim contrariar a preponderância da Rússia, que tem uma posição dominante no fornecimento à Europa. Neste contexto, as interrupções parciais de fornecimento que afectaram países do centro e leste da Europa em 2006 e 2009, fruto de disputas entre a Rússia e Ucrânia, têm sido repetidamente citadas por responsáveis europeus, especialmente à luz das recentes tensões geopolíticas em torno desta última. Esta preocupação não terá tido igual destaque quando em 2011 foi inaugurado o maior gasoduto submarino do mundo, o Nord Stream, ligando directamente a Rússia à Alemanha. Financiado conjuntamente pelas duas nações, com a anuência da UE, o gasoduto contornou cinco países de leste que passaram a poder ser privados de abastecimento pela Rússia sem que alguém em Berlim fosse forçado a requentar as batatas no micro-ondas. Um caso exemplar de “solidariedade” acolhido com choque pela maioria dos países do leste da Europa e críticas veementes do europa-gas-1departamento de estado americano. Como se tal não bastasse, apesar da estratégia europeia conjunta agora apresentada e apesar da referida “tensão”, a Alemanha e a Rússia estão em vias de acordar a expansão do projecto. O Nord Stream 2 duplicará a capacidade existente tornando a Alemanha independente de importações através do leste europeu, com prejuízos (e perigos) acrescidos para os países em causa. É portanto neste contexto, de liberalização, integração e investimento em infra-estrutura por um lado e mensagens contraditórias pelo outro, que os recentes desenvolvimentos do sector em Portugal se enquadram.

    (Quase) todos os caminhos vão dar à Península Ibérica

    Tendo em conta estas considerações, a Península Ibérica fica numa posição favorável para se tornar num importante ponto de entrada e armazenamento de gás para o mercado europeu. Para se começar a perceber porquê, basta atentar às palavras de Gurkan Kumbaroglu, presidente da Associação Internacional de Economia da Energia (IAEE), proferidas em Setembro de 2015 durante o encontro ‘Meeting on Energy and Environmental Economics (ME3) na Universidade de Aveiro: “ duas regiões da Europa a progredir rapidamente para se tornarem ‘hubs’ de gás natural: a Turquia na Europa Oriental e Portugal na Europa Ocidental. (…) Os EUA aumentaram o seu peso no panorama global de energia. A Península Ibérica é influenciada por este desenvolvimento e pode tornar-se uma nova porta para a energia na Europa.” A frase “os EUA aumentaram o seu peso no panorama global de energia” é uma referência à chamada “revolução de gás de xisto”, abordada no número anterior do jornal MAPA. Graças a desenvolvimentos tecnológicos como a fractura hidráulica, durante a primeira década deste século a produção de gás de xisto nos EUA aumentou ao ponto de converter a nação no maior produtor à escala mundial, o que efectivamente transformou o mercado energético norte-americano, tradicionalmente importador, contribuindo decisivamente para a almejada independência energética da nação. A “revolução” está agora a entrar na sua segunda fase, a de exportação. Portugal teve a infeliz honra de estar associado ao que é descrito pelo Embaixador dos EUA em Lisboa como um momento histórico: a primeira exportação de GNL, com origem em gás de xisto dos EUA para a Europa. A 27 de Abril passado deu entrada no Porto de Sines o metaneiro “Creole Spirit” (saboreie quem queira o delicado travo racial), proveniente do terminal GNL Sabine Pass no Texas, propriedade da Cheniere Energy. O “momento histórico” vai muito para além do mero facto de se tratar do primeiro carregamento de GNL derivado de gás de xisto a chegar à Europa. O gás natural é definido como “high volume, low value commodity”, ou seja, um bem de reduzido valor que deve ser vendido em grandes quantidades para ser lucrativo, o que torna os custos de transporte determinantes para a rentabilidade do investimento. Devido a isto, até há relativamente pouco tempo o comércio de gás natural decorria principalmente à escala regional, à semelhança do que acontecia com o petróleo nos anos 50 e 60. O enorme aumento de produção nos EUA, entre outros factores, levou a uma queda de preço que tornam o GNL americano competitivo nos mercados europeus, o que, a par da reorientação estratégica europeia e consequente investimento em infra-estruturas, pode significar o início de uma nova etapa para o sector, na qual Portugal teria um papel significativo sem que isso represente para a imensa maioria dos portugueses qualquer benefício assinalável, bem pelo contrário. Para que se cumpra este alto desígnio pátrio, torna-se necessário ultrapassar um dos principais entraves à integração efectiva da rede europeia de gás: a ligação entre a Península Ibérica e França. Considerada insuficiente, a ligação a França é feita por dois gasodutos (Larrau e Biriatou) com uma capacidade combinada de 5.36 bcm (billions of cubic metres, mil milhões de metros cúbicos) por ano, estando a expansão para 7.1 já prevista. Em 2015, sob o meigo olhar do Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker e do presidente do Banco europa-gas-2Europeu de Investimento, Werner Hoyer, Portugal, Espanha e França acordaram a criação do MidCat. Este novo gasoduto, que se espera que comece a funcionar em 2020, permitirá duplicar a capacidade total para cerca de 15.1 bcm, um volume equivalente à sexta parte das importações anuais totais da Europa. Embora o discurso em torno do MidCat se foque em potenciar a ligação ao mercado argelino – de acordo com dados de 2013, a Argélia forneceu através de Espanha e Itália cerca de 7% do gás usado pela Europa – como forma de (já se adivinha) reduzir a dependência das importações à Rússia, basta relembrar as palavras de Gurkan Kumbaroglu ou do embaixador norte-americano para perceber que este não é o único horizonte do projecto.

    O gás em Portugal

    O contexto descrito dá indicações claras de que o sector do gás natural em Portugal está, salvo imprevistos, em vias de expansão, nomeadamente em termos de capacidade de armazenamento. Qual é o panorama actual e que consequências acarreta este desenvolvimento? Todo o gás natural em Portugal é importado. Historicamente os principais fornecedores são a Argélia, através do gasoduto Europa-Magreb, e a Nigéria, que fornece gás liquefeito para o Terminal de Regaseificação de Sines, existindo ainda aprovisionamento resultante de compras nos chamados “spot markets”, mercados regionais onde volumes de gás excedentário ou armazenado são transaccionados a curto prazo, como o Mercado Ibérico de Gás (Mibgas). O sector é dominado por dois agentes: a Galp Energia e a REN (Redes Energéticas Nacionais SGPS, SA). Entre muitas outras coisas, a Galp é responsável pela importação tem contratos de fornecimento de longa duração com a NLNG da Nigéria e a Sonatrach da Argélia, sendo que também adquiriram o GNL que chegou a Portugal no passado dia 27 de Abril. Ao mesmo tempo, a Galp também comercializa gás noutros mercados, nomeadamente o espanhol, que servem em parte através da infra-estrutura nacional. Por sua vez a REN, através da subsidiária REN-Gasodutos, opera a Rede Nacional de Transporte de Gás Natural (RNTGN), providencia armazenamento subterrâneo nas cavernas salinas do Carriço no conselho de Pombal através da REN-Armazenagem, e assegura serviços de recepção, armazenamento e regaseificação de GNL através da REN-Atlântico em Sines. Finalmente, é responsável pela gestão técnica global do Sistema Nacional de Gás Natural, ao abrigo de um contrato de concessão de longa duração (40 anos) com o Estado Português. A RNTGN é composta por 1.375 km de gasoduto a alta pressão divididos em dois eixos: Sul-Norte, de Sines a Valença do Minho, e Este-Oeste, de Campo Maior à Figueira da Foz, com derivação para a Guarda, por sua vez com ligação a Mangualde e Celorico da Beira. A rede nacional está ligada ao sistema espanhol em dois pontos, Campo Maior-Badajoz e Valença-Tuy, sendo que a REN, no âmbito da criação do MidCat, prevê o estabelecimento de uma terceira ligação. Em Sines, no Terminal de Gás Natural (TGN) – onde atracou dia 27 o “Creole Spirit” – o gás liquefeito é recebido, transformado e já sob a forma europa-gas-3gasosa, comprimido e injectado na rede de alta pressão. O terminal é composto por uma estação de acostagem para navios com capacidade de 40.000 a 216.000 m3, três tanques com uma capacidade total para 390.000 m3 e sete vaporizadores destinados à regaseificação do GNL. Em termos de armazenamento subterrâneo, o Complexo de Armazenagem do Carriço, em operação (e expansão) desde 2002, é composto por seis cavernas salinas, correspondendo a um volume utilizável de gás de 333.4 milhões de m³ (Mm³). Estas cavernas artificiais foram criadas por “cavern leaching” (ou lixiviação): injecção de grandes quantidades de água doce, que permite a dissolução controlada do sal que compõe o maciço salino. A salmoura resultante é rejeitada e despejada no mar ou, quando viável, utilizada para outras actividades. Em 2012 um estudo de impacto ambiental da Galp (Transgás) e da REN, no âmbito da expansão do complexo, identificava os principais riscos ambientais como: emissões de metano e CO2, perda de biodiversidade devido à construção e manutenção de equipamento, impacto nas reservas aquíferas, nomeadamente pelo rebaixamento do nível freático. A REN dispõe de licença para abrir mais duas cavernas sendo que o local pode abrigar um total de 25, estando estes desenvolvimentos dependentes em última análise do parecer da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE). Ora, recentemente a REN apresentou à ERSE o seu Plano de Desenvolvimento para o período 2016-2025 (PDIRGN 2015). Tal como nas duas ocasiões anteriores, o plano, que continha inúmeros projectos de expansão entre os quais a referida terceira ligação a Espanha, foi rejeitado (com a excepção de três projectos individuais de pequena dimensão, um dos quais relativo ao reforço da capacidade de extracção-injecção no Complexo do Carriço). Sucintamente, a ERSE apontou, entre outras coisas, a previsível transferência de custos para os consumidores na forma de tarifas mais altas, fruto “das incertezas inerentes à evolução da procura de gás natural”.

    pipelina

    Rede integrada, pensamento desarticulado

    Esta rejeição obedece a um padrão de análise. Curiosamente, quem o subscreve não são necessariamente ambientalistas ou activistas, mas analistas do sector, especialistas e académicos. Como referimos, o consumo de gás natural na UE tem caído de ano para ano. O ano de 2014 marcou os níveis de consumo mais baixos desde 1995. A UE no entanto tem constantemente sobrestimado a procura futura e como tal tem sido forçada a revê-la em baixa, todos os anos, desde 2003. Estas previsões, da oferta, da procura, e do consumo, são a base da política de planeamento. A maior parte das projecções e estimativas usadas pela UE apontam para o crescimento do consumo, quando a tendência dos últimos anos mostra o inverso. Este desfasamento pode ter consequências económicas graves perante um pacote de medidas com uma séria componente de investimento em infra-estruturas. Ademais, sabemos por dados da UE que a capacidade industrial de importação de gás existente hoje é suficiente para suprir os níveis de importação previstos até 2040. A capacidade existente permite importar 700 bcm anuais, quando as importações reais orçam as 250, ou seja cerca de um terço da capacidade possível, uma situação definida como “overcapacity”, ou excesso de capacidade. Embora isto possa não parecer um problema, equipamentos industriais não utilizados ou pouco utilizados geram custos adicionais e não dão retorno, o que no clima económico actual se torna ainda mais grave. O que torna a consulta dos dados disponíveis na página da GIE (Gas Infrastructure Europe, uma associação de agentes do sector, que mantém bases de dados dos projectos em curso) uma experiência intrigante. Em Maio de 2015, estavam listados em fase de construção 35 projectos (novos e de expansão), existindo outros 95 projectos em fase de planeamento (a maioria novos). Se todos os projectos forem aprovados e concluídos isto representará um aumento de 60% da capacidade de armazenamento de GNL e de 75% na capacidade de regaseificação até 2025, num sector onde os equipamentos actuais têm uma taxa de utilização de 24%. Por outro lado sendo certo que existem assimetrias ao nível do fornecimento de gás na Europa, quando as analisamos mais em detalhe torna-se evidente que a sua distribuição pode facilmente ser encarada como uma oportunidade e não um problema. Em 2013 três países, a Alemanha, o Reino Unido e a Itália, eram responsáveis por mais de 50% do consumo de gás na Europa e se a estes somarmos França, Holanda e Espanha, o total sobe para 75%. Seis países com mercados desenvolvidos, variedade de oferta, redes interligadas, sectores de renováveis em crescimento sustentado e com bons níveis de eficiência energética, ou seja, os mais bem equipados para resistir a crises e onde tendencialmente a procura irá diminuir mais rápido. No reverso da medalha, os países mais expostos a interrupções de gás a partir da Rússia consumiram um total de 7%. Tendo tudo isto em conta, revisitemos os argumentos e a solução proposta pela UE. A excessiva dependência de importações russas, a par de assimetrias no fornecimento geral de gás e falta de conectividade entre redes, representa uma fragilidade estrutural no panorama energético europeu. Ao mesmo tempo, o gás natural é um componente central na transição para uma economia “verde”. A solução: um programa de investimento em infra-estruturas a par de medidas de liberalização dos mercados e reforma legislativa, resultando em preços mais baixos, melhor qualidade de serviços e maior segurança energética, com a cereja no topo do bolo de tudo isto beneficiar o ambiente. Ora, por tudo o que foi aqui escrito, é evidente que o problema, se problema é, não tem a gravidade nem a relevância que lhe são atribuídas, e as conclusões são no mínimo questionáveis: a procura está em queda em todos os sectores de consumo há anos, novos gasodutos existentes ou em construção em muito reduzem a “ameaça russa”, a Europa tem capacidade industrial que supera três vezes a procura, com vários novos projectos prontos a avançar e as assimetria são muito menos significativas do que se quer fazer crer. Face a isto, torna-se extraordinariamente difícil aceitar de boa-fé os argumentos da UE e consequentemente a solução proposta. Como se justifica então este recente plano de “segurança energética”?

    Gás natural: verde mais verde não há.

    Talvez nos aproximemos de uma resposta ao perceber que as medidas propostas são essencialmente o mesmo que a UE anda a promover desde os anos 90: liberalização e integração dos mercados e rede energética europeia. A Galp não foi criada e privatizada em 2016, nem a miríade de distribuidores regionais de gás que nos batem à porta e telefonam surgiu em Fevereiro deste ano. O pacote recém-publicado é indiscutivelmente mais exaustivo, mais coeso, reflectindo seguramente o novo equilíbrio de forças no centro da política europeia assim como o caminho já percorrido neste processo desde os anos 90, mas traz pouco de novo. O que seguramente não reflecte é a necessidade vital de transformar os nossos sistemas energéticos de forma decidida, inteligente, humana… e rápida. A UE afirma que o gás natural é um componente importante, uma ponte, na mistura energética que sustentará a “União”, rumo a uma economia energética “verde”, de forma suster um aumento da temperatura média global inferior a 2º C (idealmente até 1.5º C). O corolário desta ideia será que a “revolução do gás de xisto” norte-americano é como tal um factor positivo no combate às alterações climáticas. Em resposta a estas pretensões, inúmeros cientistas, economistas e ambientalistas levantam objecções que importa considerar. Antes de mais porém, convém afirmar claramente que a combustão de gás natural emite muito menos CO2 para a atmosfera do que a de carvão e dos derivados de petróleo. Paralelamente, as centrais de produção de energia eléctrica alimentadas a gás natural permitem dar uma resposta muito mais eficiente às flutuações características da produção de energia solar ou eólica, do que as de carvão. Estes, enfim, são os dois argumentos normalmente oferecidos em prol do gás natural como parceiro ideal da energia renovável. O que aqui fica por dizer é fundamental: o gás natural é maioritariamente constituído por metano, um composto que tem um impacto 36 superior ao do CO2. Pondo de lado a factura energética associada à extracção propriamente dita, as fugas de metano durante a extracção, transporte ou armazenamento são bem mais comuns do que se poderá pensar, ou, dito de outra forma, do que a indústria nos quer fazer crer. Vários casos e estudos recentes vieram confirmar esta realidade. No número anterior do jornal MAPA já tínhamos realçado a fuga de gás no campo de armazenamento de Alison Canyon na Califórnia. Entre Outubro de 2014 e Fevereiro de 2015 a fuga, que não pode ser controlada, emitiu cerca de 100.000 toneladas de metano para a atmosfera, o equivalente a 1% das emissões globais anuais. Tratou-se de uma fuga de grandes dimensões, descrita por alguns como o maior desastre ambiental desde a explosão da plataforma “Deepwater Horizon” e consequente derrame de crude. Há semanas, uma dupla de cientistas norte-americanos confirmou que uma só exploração, o campo de Bakken nos EUA, é a causa principal da inversão da tendência global de declínio dos níveis de etano (outro gás de estufa significativamente mais poderoso que o CO2 que compõe o chamado gás natural) na atmosfera registada desde os anos 80, emitindo em média 250.000 toneladas para a atmosfera por ano, entre 2% a 3% das emissões globais anuais. Outros estudos, não relacionados, publicados recentemente, têm produzido resultados igualmente dramáticos, em locais diferentes e fazendo uso de outras formas de medição. Embora estes estudos sejam especialmente reveladores, existia já um volume significativo de informação que apontava nesta direcção. Por outro lado, a ligação entre o uso de técnicas não convencionais, como a fractura hidráulica, e o potencial aumento da actividade sísmica está amplamente documentado. No entanto na Holanda, o maior produtor europeu de gás, o campo de Groningen, uma exploração convencional, está a ver a sua produção reduzida, depois de mais de 1000 terramotos de baixa magnitude mas elevada intensidade (o epicentro encontra-se muito mais perto da superfície) terem sido registados. Depois de décadas a negar qualquer tipo de ligação entre o campo e a actividade sísmica, a NAM, empresa que gere o campo, perdeu um processo em tribunal, durante o qual foi forçada a admitir responsabilidade, podendo vir a ter de pagar vários milhões de euros em compensações. Outro caso que não podemos deixar de referir é o da estação submarina de armazenamento de gás de Castor, ao largo de Valencia. Em 2013, a estação foi escolhida como projecto-piloto da iniciativa “Europa 2020”, com um investimento previsto de 1.7 mil milhões de euros. Um mês após o início dos trabalhos tinham sido registadas centenas de terramotos de baixa magnitude. O projecto teve de ser interrompido e não foi retomado. Se a estória tivesse acabado aqui, o final não teria sido demasiado mau, mas uma cláusula no contrato do projecto obrigou o governo espanhol a assumir os encargos financeiros do mesmo. A solução encontrada cristaliza a noção de solidariedade defendida pela UE: transferir os encargos para a população espanhola na forma de um aumento na tarifa de gás, estimado em 4.7 mil milhões de euros, pagos ao longo dos próximos trinta anos, num dos países que mais sofreu e sofre com as consequências da crise financeira. Estes são apenas alguns casos que exemplificam que nenhum aspecto da exploração de gás natural é seguro ou sustentável, seja em termos financeiros, ou em termos do impacto ambiental, local ou global e a lista de argumentos está longe de se esgotar. Como não temos razões para crer que os responsáveis da UE desconheçam a lei da oferta e da procura, torna-se complicado racionalizar a conversão da Europa numa plataforma global, um hub global, para o comércio e consumo de gás natural, que é o resultado prático desta nova política. Ora, de acordo com os modelos que sustentam o acordo de Paris, quatro quintos das reservas conhecidas de hidrocarbonetos devem permanecer no subsolo para preservar a possibilidade de manter o aquecimento abaixo dos 2ºC, mas a introdução e uso crescente de técnicas não convencionais de exploração veio redefinir (leia-se aumentar) radicalmente o que era entendido por “reservas conhecidas”. Ao investir em infra-estruturas, a Europa, que é o maior importador de gás natural do mundo, está europa-gas-4efectivamente a dar um sinal aos mercados de que podem continuar a produzir e quanto mais barato melhor. Por sua vez, a pressão exercida pelo baixo preço do petróleo e do gás, no contexto económico actual, torna-se um duplo desincentivo: há menos razão para poupar energia ou para investir em energias renováveis, comparativamente mais caras a curto prazo. A única coisa que poderia tornar a situação pior seria um corte nos subsídios às energias renováveis. Curiosamente, é precisamente isso que vai acontecer a partir de 2017, os subsídios serão efectivamente cortados, quando todos os anos a UE continua a investir biliões em subsídios directos e indirectos à indústria petrolífera.

    Gás, amigo, o povo endinheirado está contigo! Gás, amigo, o povo…

    Chegados a este ponto, independentemente do que possam trazer os restantes dois documentos a ser publicados este ano, poucas dúvidas podem restar de que aquilo estamos a presenciar pouco mais poderá ser do que um enorme subsídio (mal) encapotado à indústria petrolífera. Mais, não apenas um subsídio mas uma autêntica bóia de salvação: artigos acerca deste tema, a ERSE e as próprias publicações da UE referem constantemente a “incerteza dos mercados” ou “da procura futura”. Pois bem, ao dar um claro sinal da direcção a tomar, a UE, o bloco político “mais progressivo” e a maior economia do planeta, elimina em grande parte essa incerteza. Regressemos ao início deste texto. As técnicas de extracção não convencionais, e o gás de xisto em particular, revigoraram a indústria petrolífera. Faça-se um esforço de imaginação: o que é que aconteceria se em vez disto, a maior economia do mundo, adoptasse um programa vigoroso de investimento nas renováveis? Pois… mas não. É esta a traição maior, imensa, desta política. Não são as emissões europeias, por muito más e evitáveis que sejam, é o efeito de escala, é a validação de uma indústria que há décadas se comporta como um autêntico parasita no seio da nossa sociedade e é por isso recompensada! Ao adoptá-la, a UE sinaliza às grandes corporações do sector que o caminho está aberto, que as torneiras não vão ter de fechar. Estamos perante um caso exemplar de manipulação governativa, onde nada falta: a eufemística reforma, as pinceladas de medo e ameaça, os imprescindíveis salpicos factuais e claro, doses cavalares de retórica e interpretação criativa embrulhadas em resmas de “burocratês” para garantir aquele travo característico a vazio democrático que a casa tanto aprecia. A UE demonstra aqui, como demonstra nas negociações do TTIP, cujo conteúdo, esclarecedor, foi agora parcialmente revelado, como demonstrou durante o COP21, que hoje mais do que nunca, não fala em nosso nome, não está ao nosso serviço. É por isso que cada vez mais, por este continente fora e para além das suas desumanas fronteiras, há gentes, comunidades, que se juntam e organizam, que lutam para preservar a sua vida e o seu meio ambiente. A nós cabe fazer o mesmo, fazer mais, face aos mascates do medo, que, cantando velhas cantigas, querem que vivamos num armazém de gás, à beira mar escavado, para “a Europa”.

     

  • Especismo não, abolição!

    Especismo não, abolição!

    Especismo não, abolição!” (1)

    Notas introdutórias sobre a exploração de animais para consumo

    Nas últimas décadas, o Movimento pela Libertação Animal tem adquirido uma importância significativa nas sociedades ocidentais, envolvendo um crescente número de activistas. Divergindo das perspectivas bem-estaristas e humanistas, procura combater todas as formas de exploração de animais não-humanos com vista à erradicação daquele que assume como uma das suas principais raízes: o especismo. Criado em Janeiro de 2016, o Movimento pela Abolição dos Matadouros (MAM-Portugal) surgiu no contexto nacional justamente para denunciar o especismo e as suas múltiplas intersecções com os demais sistemas de opressão (e.g., sexismo, racismo, xenofobia, capacitismo, heterossexismo e capitalismo), contribuir para a libertação animal, ao mesmo tempo que pretende estabelecer políticas de aliança com outros movimentos sociais. Apresenta-se como um colectivo horizontal, anti-capitalista e não-partidário, que actua no sentido de potenciar a igualdade, a autonomia e as relações de cooperação e de apoio mútuo, e de activismo anti-especista. O artigo que se segue é da sua autoria.

    mam_portugal

    MAM-Portugal (mamportugal2016@gmail.com)  |  Facebook

    No passado dia 4 de Junho, realizou-se em Lisboa a Marcha pela Abolição dos Matadouros. Integrada numa rede internacional, que envolveu este ano 25 cidades de 17 países, esta marcha foi convocada pelo MAM-Portugal e preparada em colaboração com os grupos Acção Directa e ActiVismo, tendo contado com cerca de 200 activistas. No âmbito da sua preparação, o MAM-Portugal organizou 30 acções em cinco cidades portuguesas (Almada, Braga, Coimbra, Lisboa e Porto), que incluíram a exibição de documentários, debates, projecções fotográficas e acções de rua, apelando ao fim da exploração dos chamados “animais de consumo” (e.g., vaca, porca e galinha).

    Actualmente, mais de 53 mil milhões de animais sencientes (2) (terrestres) são mortos com vista à produção de carne, sobretudo na região Norte do globo. Embora inúmeros estudos apontem os severos impactos da indústria da agropecuária ao nível dos direitos dos animais não-humanos, da saúde humana e da gestão dos recursos naturais (e.g., FAO, 2006), a produção mundial de carne passou de 191 milhões de toneladas, em 1993, para aproximadamente 300 milhões de toneladas em 2010, de acordo com os dados produzidos pela divisão responsável pela estatística da FAO (2013).

    O complexo industrial-animal está hoje organizado a partir do exercício da violência contra animais não-humanos e da apropriação sistemática dos seus corpos. Milhões de vacas, porcas, galinhas e ovelhas são confinadas a espaços reduzidos, insalubres e, muitas vezes, sem luz solar ou artificial. Além da manipulação abusiva dos seus corpos e dos respectivos processos biológicos, são sujeitas a inúmeras formas de mutilação, sem recurso a anestesia, tais como a castração, o corte de cauda, o debicar e o descornar. São injectadas com hormonas, vacinas e antibióticos para acelerar o crescimento da massa corporal. São impedidas de participar em actividades específicas da sua espécie; são-lhes quebradas as relações de parentesco; estabelecem relações sociais muito limitadas; não conseguem comunicar eficazmente com os membros do seu grupo (CiWF, 2006).

    porcosA exploração dos “meat animals” está profundamente radicada no carnismo, isto é, a ideologia que condiciona, sustenta e legitima o consumo de (determinados) animais não-humanos (Joy, 2010). O carnismo atribui diferentes graus de comestibilidade a animais não-humanos conforme a sua espécie: por exemplo, nas sociedades ocidentais, os “animais de consumo” tendem a corresponder àqueles que são exclusivamente herbívoros, aos quadrúpedes e aos ruminantes domesticados, ao passo que as espécies não-edíveis incluem os “pet animals”, os primatas, os carnívoros e os roedores. Diferentemente dos “animais de companhia”, os “meat animals” constituem meros utensílios destinados à satisfação dos interesses humanos, com os quais não é expectável o desenvolvimento de relações afectivas e de proximidade.

    O (eventual) rompimento das fronteiras que separam, de forma dualista, animais edíveis de animais não-edíveis evoca frequentemente estímulos negativos (e.g., o consumo de “carne” de cão ou de gato). Porém, a associação de prazer ou repulsa ao consumo de animais não tem que ver com as suas características intrínsecas, mas antes com o modo como estes são conceptualizados em termos de comestibilidade. Ainda que tenda a ser visto como normal, natural e necessário, o consumo de “carne” é resultado da actuação de diferentes agentes de socialização (e.g., família, escola, Estado, média) que, de forma continuada, hierarquizam as espécies, configuram os palatos e policiam as preferências alimentares não-normativas, transformando o carnismo numa ideologia que nos parece irrefutável histórica e biologicamente. A prática de comer animais é, pois, uma construção social. É uma escolha, não é um imperativo.

    O carnismo constitui uma sub-ideologia do especismo: além de ser uma forma de preconceito contra os indivíduos que não pertencem à espécie humana, este designa também um conjunto de instituições materiais, discursos culturais e práticas sociais que garantem e perpetuam a subordinação estrutural de animais não-humanos. Imbricado na tradição filosófica ocidental, o especismo relaciona-se com o paradigma antropocentrista, que impõe e privilegia as necessidades de indivíduos humanos como o único referencial, sobrepondo-as aos interesses das demais espécies, principalmente de animais não-humanos.

    Conceptualizando os critérios que estabelecem as diferenças entre indivíduos humanos e não-humanos, o legado filosófico antropocêntrico contribuiu, justamente, para a manutenção do dualismo humano-animal no imaginário ocidental, o qual estabelece uma oposição binária onde as duas partes se excluem mutuamente, onde os indivíduos humanos emergem como o Centro e os animais não-humanos surgem como o “Outro”. Esta noção de “humano” é projectada pelas culturas ocidentais como uma categoria universal mas corresponde, por defeito, ao homem, branco, heterossexual, cisgénero, católico, capacitado, adulto, de classe média/alta. Neste sentido, as diferenças entre os indivíduos humanos, e entre estes e animais não-humanxs, são entendidas em relação a um Centro androcêntrico, isto é, são uma expressão subalternizada de alteridade e não uma expressão igualitária de diversidade.

    Num contexto de crescimento da violência estrutural contra animais não-humanos, de iminente colapso ambiental, de agravamento das desigualdades sociais e de intensificação do controlo e da repressão, o MAM-Portugal procura contribuir para a criação no contexto português de espaços de capacitação para a acção que promovam a convergência e o redimensionar de diferentes lutas numa agenda política explicitamente anti-capitalista e anti-autoritária, interseccional e articulada a partir das bases. Durante os últimos meses, projetou-se, dialogou-se e cozinhou-se numa lógica pautada pela ética DIY (isto é, “Faz Tu Mesmo”, que rejeita o sonho capitalista assente no consumo e no lucro), pela descentralização e horizontalidade, pela igualdade e solidariedade, mostrando-se que é possível levar a cabo uma luta auto-organizada, autónoma e auto-financiada através da qual aprendemos, fazendo em conjunto.

    Porque a opressão não constitui um processo arbitrário e ocasional, importa promover a politização da acção colectiva contra o especismo, a (re)significação de animais não-humanxs a partir de perspectivas emancipatórias, bem como a prefiguração de modelos de organização social e económica alternativos que instiguem a abolição de todas as formas de opressão humana e animal. Desde os nossos múltiplos lugares de enunciação, nós – anti-capitalistas, feministas, fufas, bissexuais, queers, heteras, não-binárias, trans, galdérias, anti-fascistas, monogâmicas, poliamorosas, anti-assimilacionistas e libertárias – daremos o nosso contributo.

    Referências:
    Compassion in World Farming Trust. (2006). Trust Stop – Look – Listen: Recognising the Sentience of Farm Animals.
    Consultado a 3 Fevereiro de 2011 em http://www.ciwf.org.uk/.

    Food and Agriculture Organization of the United Nations. (2006). Livestock’s Long Shadow: Environmental Issues and Options. Consultado a 17 de Março de 2014 em http://www.shabkar.org/download/pdf/Livestock_s_Long_Shadow.pdf.

    Food and Agriculture Organization of the United Nations. (2013). FAO Statistical Yearbook 2013. Consultado a 5 de Setembro de 2015 em http://www.fao.org/docrep/018/i3107e/i3107e.PDF.

    Joy, Melanie. (2010). Why We Love Dogs, Eat Pigs, and Wear Cows: An Introduction to Carnism. San Francisco, CA: Conari Press.

    NOTAS
    (1)
    Uma das palavras de ordem da Marcha pela Abolição dos Matadouros (Lisboa, Junho de 2016).

    (2) A senciência consiste na capacidade de sentir emoções e sensações (e.g., dor, prazer, fome, sede, calor, frio, etc.). Um animal não-humano senciente é capaz de interpretar informação, compreender o seu contexto, estabelecer relações com os seus pares, analisar perigos, etc.

  • Intersecções entre a ecologia, o sagrado e o político

    Intersecções entre a ecologia, o sagrado e o político

    permaculturamapaNa palestra intitulada “A permacultura e o sagrado: uma conversa com Starhawk“, somos convidadas a praticar a observação do funcionamento da Natureza e transpor esse tipo de observação para o campo de acção de cada pessoa, analisando os diferentes ecossistemas da nossa vida e reflectindo sobre as suas margens. Aqui propõe-se que a palavra ecossistema represente áreas de interesse de cada pessoa, sejam aspectos sociais, aspectos íntimos, o trabalho, o hobby, o activismo, as tarefas domésticas, o pensamento… Somos convidadas a não ignorar as intersecções entre as várias áreas. Starhawk é uma mulher que encara o seu próprio percurso de vida como um cruzamento entre a ecologia, a espiritualidade e o activismo. Para aqueles que não a conhecem, desde os anos 60 que ela pensa, escreve e age sobre anarquismo, feminismo, paganismo, religião da Terra e Wicca, ecologia e permacultura (1).

    Partindo deste posicionamento, a escritora/professora/permacultora/bruxa propõe-nos uma observação da Natureza em relação, deixando de olhar para as coisas isoladamente, até nos aspectos que antes considerávamos separados. Fazemos isto quando observamos um curso de água, mas também o comportamento das plantas que crescem ao seu redor, na certeza que um influencia o outro. Este “olhar antes de intervir” é uma postura da Permacultura, um modo de agricultura e um modo de estar que Starhawk utiliza e explica brevemente.


    O olhar de uma Permacultora

    A permacultura é um sistema de design ecológico, cuja proposta é partir da Natureza como fonte de inspiração, numa tentativa de recriar a sua fertilidade e abundância, presentes em espaços que dispensam a intervenção humana para darem os seus frutos, suportarem todo o tipo de vida e manterem-se em equilíbrio. Ninguém precisa de ir podar as árvores numa floresta virgem, nem semear ou exterminar pragas e, no entanto, a floresta auto-regula-se. E floresce.

    Tendo conseguido sistematizar um conjunto de princípios e áreas de acção (ver imagem), a permacultura propõe, entre outras coisas, um olhar sobre o conceito de Margem. Zona limítrofe. Fronteira. É o 11º princípio: “Usa os limites, valoriza o marginal; coisas importantes acontecem nas intersecções“. Aqui, “intersecções” refere-se às margens de dois ecossistemas próximos, a zona onde se tocam e se intersectam, zonas de tensão, de grande dinamismo e criatividade.

    olho-ecotonoEm biologia chama-se a isto um ecótono. Um ecótono é onde duas comunidades se encontram e integram. Pode ser um espaço estreito ou alargado; pode ser algo pequeno, local ou constituir em si uma região. Um ecótono pode surgir na forma de uma passagem gradual entre as duas comunidades, ocupando uma área grande, como a zona de intersecção entre o oceano e a terra, à qual chamamos costa. Ou pode manifestar-se através de uma linha de fronteira bem definida e abrupta, como no caso da transição entre áreas desflorestadas com as naturais, como um campo cultivado adjacente a uma mata.

    A palavra ecótono surge da combinação entre eco(logia) e tono, do Grego tonos ou tensão – ou seja, um sítio onde as ecologias estão em tensão. Normalmente dotados de uma grande biodiversidade, os ecótonos são a transição entre duas ou mais comunidades que diferem entre si. Dessa forma, reúnem espécies pertencentes a comunidades distintas e, consequentemente, a fauna e flora presentes num ecótono apresentam espécies jamais vistas antes. Precisamente por ser uma região feita a partir de características dos diferentes ecossistemas que a compõem, são centros de grande dinamismo, resiliência e criatividade, muitas vezes dando origem a um terceiro ecossistema. As costas marítimas são um fervilhar de vida. A zona intermédia entre a floresta profunda e a pradaria é o refúgio perfeito para os veados.

    A permacultura propõe uma série de princípios para interagir com o meio-ambiente físico, que podemos aplicar nas áreas sociais e de desenvolvimento pessoal que nos estejam a inquietar. Usar esse mesmo tipo de observação no nosso dia-a-dia pode ser algo como observar o curso de um projecto (como se de água se tratasse, pensando nas categorias que associamos a esse trajecto) e ver de que maneira se comportam as zonas e seres vivos que existem à sua volta. Trata-se de imaginar como interiorizar estes princípios e aplicá-los noutras margens, descobrindo nos nossos contextos quando devemos corrigir, replicar, cooperar.

    Corrigir desequilíbrios pode acontecer com a técnica de implementar mais daquilo que desejamos, tal como fazemos ao introduzir joaninhas para acabar com uma praga de cochonilhas, em vez de deitar pesticidas tóxicos em cima de plantas que vamos comer. Permitir-nos ver esta solução prática como uma metáfora ganha um novo sentido quando aplicada noutros problemas do dia-a-dia e leva-nos a perguntas híbridas: Qual é o predador natural que vai acabar com a praga dos Bancos?

    Replicar um padrão de ramificação de veios, como o de uma planta – que serve para dispersar, concentrar, fazer chegar, circular – num projecto educativo, por exemplo, pode ter a consequência prática de contrariar a separação entre a matemática e o português, entre a ciência e a arte, que passariam a ser inter-dependentes e ligados pelo mesmo caule.

    Cooperar é a base dos ecossistemas, o apoio-mútuo é o padrão da Natureza. Sim, a competição existe. O conflito existe. Não é preciso ignorá-lo mas também não é preciso assumi-lo como padrão. A grande maioria dos sistemas de vida tem dinâmicas de cooperação, algumas delas bastante inspiradoras. Redes vivas de 8km de fungos ligam subterraneamente, em certas florestas, as raízes das árvores umas às outras, transmitindo nutrientes e sabe-se lá que mais informação. Poderá este exemplo suscitar em nós novas imagens de comunidades alargadas?

    Pensando nas tais áreas marginalizadas ou em tensão, podemos procurar padrões que se repetem nos movimentos/grupos sociais que nos são próximos, mesmo correndo o risco de generalizar. Exemplos? O jornal MAPA é maioritariamente escrito por homens e tem tido uma abordagem inconsistente às questões de género. Os movimentos de Transição parecem não estar a sair de nichos e estratos sociais.

    A Identificação das áreas-margem da nossa vida pode trazer a descoberta que as suas intersecções com áreas “centrais” não estão a ser aproveitadas. O sagrado tende a ser marginalizado, escondido. Talvez porque as grandes religiões causam morte, destruição e ódio e muitas de nós, perante isso, conotamos a espiritualidade como uma questão somente do plano individual, não deixando muita credibilidade à sua exploração colectiva.

    Mais além das marginalizações a que nos dedicamos – imigração, prisões e outras segregações sociais – como poderemos estar a não aproveitar outros sub-produtos deste sistema em que vivemos, como por exemplo, os terrenos baldios entre dois bairros? Estaremos a descurar o potencial da sexualidade como motor de relações? É certo que cada pessoa terá um olhar diferente sobre isto, mas também é certo que podem surgir novas perspectivas quando se cruzam estas questões com as das segregações sociais de que normalmente falamos.

    Os Mantras
    Usa os limites, valoriza o marginal” é um dos mantras inspiradores. Mas há outros, como por exemplo, “o problema é a solução, tudo é um recurso“. Na palestra que serviu de ponto de partida para este artigo, Starhawk dá o exemplo de como as barricadas que afastavam os manifestantes da área do congresso da Organização Mundial do Comércio, à qual queriam conseguir chegar, foram a solução para o problema, quando retiradas do seu sítio numa acção colectiva e depois usadas como escudos, que permitiram aos manifestantes defenderem-se da polícia. Soluções simples e eficazes. É outro dos mantras.

    Aplicar e replicar aquilo que é possível ser observado como fenómeno de sucesso. A diversidade traz resiliência. Mais um mantra, ou princípio extraído directamente da observação da Natureza, facilmente aplicável e referido quando falamos de hortas, mas também usado em relação à natureza humana. A diversidade traz mais defesas, mais inteligência e criatividade. Ou seja, se olharmos em relação, quem defende ou pratica a exclusão social ou étnica, afirma assim a sua fraqueza e monotonia.

    Esta proposta de olhar em relação pode conter o inexplicável e formular teorias para o desconhecido. Dar lugar ao acaso, ao mágico, ao intuitivo, ao imaginário e ao caótico. Porque o mundo é uma teia viva de relações, que não podemos compreender no todo mas na qual podemos participar. Partir para a zona limite das nossas próprias tensões à procura de alargar as soluções criativas. Pôr mais amor no anarquismo, mais luta na Transição. Contagiar a espiritualidade com política. Já existe o sócio-económico ou o sócio-ambiental. Que outras intersecções nos seriam úteis?

    Considerando-nos a nós próprias como um pequeno-grande ecótono, podemos tirar prazer do facto de que não nos conseguimos dedicar a uma só actividade. Que a intersecção entre as nossas várias áreas de interesse possa dar origem a um novo ecossistema, único e mais rico, talvez o grande projecto criativo das nossas vidas – encontrar o nosso próprio modo de abolir a dualidade entre sermos nós próprias e saber-nos em relação com tudo.

    Estas reflexões terão mais sentido para quem considere o planeta Terra como um sistema vivo, do qual fazemos parte, no qual necessariamente intervimos e não simplesmente como o sítio onde vivemos. É provável que alguém considere estas linhas e estas intersecções um desperdício. Mas como propõe a permacultura, o lixo é um recurso. E cada um@ que crie novos mantras.

    Nota
    (1) Não havendo neste artigo espaço para explicar cada uma destas áreas, recomenda-se o visionamento da Palestra, disponível em https://goo.gl/TJy0ZL

  • Em Transição

    Em Transição

    Fotos de Vladimir Vilzborov (Tavira em Transição)

    transicao1A Transição é um movimento e uma linguagem que surgiu nos últimos dez anos enquanto “movimento consciente e motivado de passagem entre a situação actual e o futuro ideal que ambicionamos”. Fora esta expressão de sonho, a definição mais concreta que regra geral encontramos é o objectivo de criar comunidades locais mais resilientes e com uma cultura humana saudável. Não saímos de generalizações. Mais ainda, quando afinal Transição pode ser isto e aquilo conforme as necessidades e soluções de cada local.

    Acabamos por perceber que, nascido de preocupações ambientais, é no sentido da comunidade local – da vizinhança da aldeia ao bairro – que temos que entender aquilo que é uma Iniciativa em Transição. E quando alguém se junta para “agir como catalisador” da Transição, não o faz sem antes se vir a questionar a si próprio num processo de Transição Interior. Mas é o pressuposto horizontal e da confiança mútua destes grupos que marca diferença e assinala um novo tipo de dinamismo associativo.

    Cruzámo-nos com a Transição Portugal (1), uma plataforma horizontal que porém credencia as iniciativas a integrar a rede mãe inglesa da Transition Network (2), e através da mesma lançámos por escrito algumas perguntas para melhor entender este movimento que conta com dezenas de iniciativas inscritas na plataforma, entre outras tantas de Norte a Sul de Portugal (3). Partilham as suas impressões André Vizinho e Sara Serrão, formadores dos Cursos de Transição. Vivem no concelho de Odemira e Sara Serrão, junto com Carmen e Sérgio Maraschin fazem parte da Transição São Luís (4). Mais a sul, Ângela Rosa pertence ao grupo Tavira Em Transição (5), e da cintura de Lisboa, Fernando Oliveira – também ele da equipa da Transição Portugal – fala-nos da Iniciativa Linda-a-Velha em Transição (6).

    Este artigo convida assim a conhecermos o que é isso de Transição. A impressão à partida poderia ser de que se trata de algo demasiado vago e inócuo ou de algo em aberto e potenciador – conforme o olhar crítico que poderíamos optar. Veremos no fundo que não há um modelo da Transição, mas sim processos em construção movendo-se por diferentes campos. Áreas interligadas, como os textos que podemos encontrar neste número do MAPA, com destaque ao de M. Lima em torno das intersecções entre a ecologia, o sagrado e o político, ou as leituras dos documentários Catálise, Que Estranha Forma de Vida e A Selva Estreita e ainda a entrevista aos gregos da Nea Guinea.

    Comunidades Resilientes

    A Transição tem uma palavra-chave: resiliência. O termo mais pesquisado no dicionário online Priberam nos acessos a partir de Portugal em 2015. Sara Serrão explica-nos que “a resiliência se traduz pela capacidade de retomar o equilíbrio depois de um embate. Considerando as alterações climáticas como esse “embate” a que estamos todos sujeitos no presente histórico da sociedade global, e além e aquém das alterações climáticas todo o impacto destrutivo da humanidade no planeta Terra e nos ecossistemas locais que nos nutrem e mantêm. A Transição surge como o processo de procura e de construção do equilíbrio necessário. A primeira parte do processo é tomar consciência do embate. É olhar e ver a degradação da natureza e o que isso representa, emocionalmente, para cada um/a de nós individualmente. A percepção inclui, assim, entender fenómenos externos – de que forma a conjuntura social, política e económica impacta nos sistemas ecológicos dos quais dependemos – e identificar as crenças e dependências internas que nos fazem compactuar e perpetuar esta conjuntura. No movimento para o equilíbrio, a Transição traz uma série de ferramentas e de histórias de sucessos e de insucessos, que inspiram, apelam à acção e apoiam todas aquelas e aqueles que procuram uma nova história. Assim, o objectivo da Transição é menos propor um modelo e mais criar uma rede de aprendizagem e apoio mútuo, na passagem para a sociedade onde desejamos viver”.

    Na origem deste movimento há essa percepção ambientalista, já com pelo menos meio século de discussão. É o colapso da ideia de bem-estar generalizado das sociedades industrializadas, dependentes dos recursos fósseis e sobretudo de um sentido de desenvolvimento à medida do aumento exponencial do consumo energético. Perante esse cenário, o movimento de Transição surge a partir das referências fundadoras de Rob Hopkins (7), do plano de redução do consumo energético para a cidade de Kinsale, na Irlanda, e na primeira iniciativa em transição em Totnes, no Reino Unido, em 2005. O que o move é, antes de mais, essa preocupação ecológica inerente à escassez de recursos, mas igualmente uma crítica a uma economia cada vez mais global e menos local. O sonho é transitar para modelos de vivência comunitária assentes na redução do consumo energético e na dinamização das economias locais.

    A Transição em Portugal

    O movimento de Transição é recente na sua origem anglo-saxónica como em Portugal. Em 2010, germinaram os primeiros encontros de um conjunto de projectos que traduziam já em parte a inspiração da Transition Network, cujas primeiras adesões portuguesas foram nesse ano as Iniciativas de Paredes e de Pombal. Por essa altura já o projecto do grupo ecologista GAIA, a residir na Aldeia das Amoreias (Odemira), tornava-se o caso mais exemplar em meio rural (8) a fazer eco da Transição e em meio urbano haveria que mencionar, desde 2013, o Centro de Convergência de Telheiras, Lisboa (9).

    A rede  social  online  ‘Transição  e  Permacultura  em  Portugal’ (10)  funcionou desde 2009 como primeiro agregador de interessados no movimento, mas veio a ser excluída das iniciativas da Transição Portugal e da Transition Network, sendo-lhe apontada a tentativa de obter uma estrutura hierárquica para controlar o movimento. Criada a Plataforma das Iniciativas de Transição, esta tem desde meados de 2013 cerca de 20 iniciativas registadas. Nesse ano, dos dois primeiros grupos em 2006 (Kingsale e Totnes) estavam já registadas na Transition Network 1116 Iniciativas em mais de 43 países. Esta ONG internacional, secretariada em Inglaterra, anuncia-se como movimento auto-organizado de base em que as iniciativas de transição surgem espontaneamente, de forma gratuita e descentralizada e juntam-se à Rede num processo de credenciação, através de plataformas nacionais associadas. Caso da Transição Portugal.

    transicao2Carmen e Sérgio Maraschin, do grupo de cerca de 20 pessoas do Transição São Luís, que surgiu em 2013, recordam a época em que participaram no movimento de transição em Totnes. Como a “Transition Network foi desenhada essencialmente como uma rede de troca de informações após a explosão viral de Iniciativas em todo o mundo. Um passo lógico, útil e necessário”. Ao qual se seguiu “na percepção da necessidade de assegurar uma certa coerência através de um processo de credenciação, questionamentos acalorados sobre a contradição interna causada por essa imposição, o que seria para alguns sinal evidente de cristalização e assimilação do movimento pelo “sistema”. O que temos hoje é uma credenciação voluntária onde o requisito mais importante é a participação no curso básico de transição por uma ou mais pessoas do grupo. O consenso é que isso possa assegurar um mínimo de coerência em termos de processo, mas sem interferir em forma, decisões, objectivos e resultados das iniciativas”.

    Carmen e Sérgio acreditam por isso “que a imposição de uma estrutura vertical à escala nacional, alinhando e padronizando múltiplas iniciativas, conceito esse já debatido e rechaçado em Portugal, sinalizaria o começo do fim do movimento de transição”. Falando pela Transição Portugal, André Vizinho, igualmente a viver no Alentejo litoral de Odemira, ilustra como a rede se “estrutura neste momento como um apiário em que as diferentes plantas, hortas, pomares ou florestas são as diferentes iniciativas de transição. Neste contexto, a Transição Portugal tem abelhas (pessoas) e colmeias (grupos) que ajudam a promover a polinização e comunicação entre as plantas, hortas, pomares e florestas, ou seja entre as iniciativas de transição. Mais especificamente, a Transição Portugal é uma plataforma em que as várias iniciativas de transição em Portugal se fazem representar através de pessoas. Estas pessoas juntam-se em grupos de trabalho que ajudam a fazer o promover a Transição em Portugal e a criar os espaços de encontro e comunicação que fazem desta, uma comunidade de aprendizagem. Estas acções são a criação de um site, de mailing lists internas, a organização de encontros, a organização de formações, a promoção da comunicação, seja os média ou a Transition Network, ou ajudar a dar a conhecer o trabalho das várias iniciativas umas às outras”.

    Fora isso considera que “o movimento de transição é algo que pode ser considerado mais lato do que a Plataforma das Iniciativas. Uma aproximação deste movimento de transição mais lato pode ser encontrada no site da Rede Convergir (11) onde se destacam, além as iniciativas de transição, um grande número de iniciativas que se associam à Permacultura e depois um número grande de iniciativas que abraçam domínios específicos de actuação mas sempre procurando implementar soluções sustentáveis, alternativas e inspiradoras nos domínios da educação, bem-estar, saúde, construção, gestão da terra, comunidade, etc.”.

    Como tal questionado sobre que lugar existe na formulação da Transição para outras referências e inspirações, nomeadamente processos locais ou momentos da história portuguesa, para lá do trabalho da Transition Network, André afirma que “a actividade das iniciativas de transição necessitam de ir buscar referências a muitas fontes e muitos domínios. Sendo claro que a Permacultura é um domínio claramente inspirador e mobilizador para as várias iniciativas, sabemos que tal como os materiais produzidos pela Transition Network, estes são apenas conceitos agregadores onde juntamos imensas actividades e experiências que nos inspiram de uma ou outra forma”. É-lhe difícil “afirmar quais os momentos históricos em Portugal que constituem inspiração para todos nós. Penso que o 25 de Abril pode indubitavelmente ser considerado um desses momentos mas acima de tudo tenho dificuldade em falar em nome de todos para dizer quais são as referências colectivas de inspiração. Não sei mesmo se ao nível local de cada iniciativa tal seja possível. Sendo o objectivo a inclusão de toda a comunidade numa visão colectiva e positiva de futuro, então temos de assumir que diferentes pessoas têm diferentes referências”.

    O Tavira em Transição formou-se no final de 2011 e apenas no ano passado se integrou na rede Transição Portugal. Começou com cerca de 20 elementos e hoje conta com aproximadamente 60 pessoas, num crescimento exponencial ao envolvimento do grupo nas lutas contra a exploração do gás e petróleo no Algarve. Ângela Rosa conta-nos como se encontram “num ponto de reorganização, de revalidação de princípios para dar início a uma nova etapa ainda mais consolidada e fortalecida dentro dos elos de confiança dos membros, de forma a que possamos abrir e integrar muitas e mais pessoas dentro da substância já criada”. Essa substância não tem um padrão estanque entre os diversos grupos da Transição, inscritos ou não na Transição Portugal. “Cada sítio, cada grupo de pessoas, cada movimento e circunstâncias cria e ganha características únicas. E isso é do mais válido e rico, sejam elas quais forem, desde que sejam sustentáveis e positivas, funciona. A questão é essa mesma, de não padronizar as coisas, e deixar que cada iniciativa encontre as suas fórmulas e construa os seus padrões dentro de uma mesma perspectiva que é a da transição”, afirma Ângela Rosa.

    transicao3Um movimento cidadanista sem apelos revolucionários

    Se os objectivos da Transição podem ser assim partilhados no vasto leque de movimentos de cariz ambientalista e de desenvolvimento local, há dois aspectos cruciais que parecem poder vir a marcar a distinção, e por isso mesmo bem mais relevantes do que a mera introdução de uma nova linguagem que de tempos a tempos readaptam velhas formulações. Em primeiro lugar, uma forma de adesão distinta, que privilegia o pequeno grupo no seu território/bairro, que se aproxima por uma visão comum de comunidade local, em vez de ser uma organização grande, com um modelo de hierarquia piramidal. Em segundo lugar, por trazer esse reportório de metodologias e ferramentas de acção coletiva que fogem da contestação típica das margens esquerdistas ou mesmo anarquistas, ou das cartilhas do ativismo ambientalista, para não falar do partidarismo delegado na gestão de poder local.

    Para Fernando Oliveira, da iniciativa de Transição de Linda-a-Velha, que surge no final de 2010 e hoje com um grupo estável de 14 pessoas, é esse o grande desafio. “Estruturas horizontais, lideranças desinteressadas e com o objetivo de serem abandonadas entre outras formas de governança, são formas que fogem ao padrão educacional e nos obriga a repensar a nossa forma de estar em comunidade. É um trabalho muito pessoal, conhecido por Transição Interior, que nos coloca disponíveis para entrar nesta nova aprendizagem de estar em que, cada um ao seu ritmo vai abraçando aquilo em que se sente confortável. Estes processos são lentos e permitem que se criem laços entre os intervenientes, gerando confiança e autonomia a quem lidera um processo.

    A linguagem política e o léxico clássico das ideologias revolucionárias surgem assim claramente afastadas do discurso da Transição. Mas foi na verdade esta tomar da terminologia política dominante a concepção comum da cidadania, o que nos levou a questionar se haveria lugar nesse envolvimento das Iniciativas em Transição com as entidades instituídas e com as comunidades locais para rupturas e alternativas para lá da mera “gestão do existente”.

    André Vizinho acentua que “o desafio da Transição é antes de mais o de construir uma visão positiva e participada para cada local. Consideramos que isto é bastante inovador (ao invés de usar a palavra ruptura) pois implica juntar as pessoas de um local para parar e sonhar como gostariam que fosse a sua comunidade, o seu bairro, a sua cidade, a sua rua. Em vez de estar a olhar para as alternativas que já existem, os partidos e as ideologias e os modos de governança que já existem, antes de mais procurar sonhar com o ideal. E depois procurar todas as ferramentas e recursos dentro e fora da comunidade para fazer a transição para essa visão”. Mas ruptura sim, enquanto “ruptura clara com algumas coisas que vemos actualmente, como seja o facto de em vez de criarmos uma organização para falar em nome dos outros, criar espaços onde todos tenham voz. E isto pode ser feito a todas as escalas. Fazemos também uma ruptura com algumas formas de comunicar como por exemplo a de termos certezas sobre aquilo que fazemos e o nosso modelo de sociedade: temos princípios e sonhos e ferramentas mas não sabemos se isto vai funcionar! Por isso precisamos de ser inclusivos e abertos e trabalhar em conjunto para podermos construir visões partilhadas e soluções flexíveis que se vão melhorando ao longo do tempo. Quanto mais forem participadas e inclusivas as soluções, melhor. Fazemos também uma ruptura com a necessidade de recebermos os louros e os créditos por todas as acções que daqui resultarem na comunidade”.

    Para André, o esforço de ser inclusivo não diminui a voz das comunidades e dos grupos em expressar as suas necessidades e direitos. “Pelo contrário, como membros plenos das comunidades onde nos inserimos, sentimo-nos confiantes para, em conjunto com os nossos conterrâneos, defender o território para que ele possa ser gerido de forma ecológica, socialmente justa e economicamente viável. Precisamente por pertencermos e nos entregarmos ao território, em cada local procuramos debater para encontrar as soluções e não deixar que agentes externos degradem o território ou a comunidade sem respeitarem as pessoas e todos os seres vivos que nele habitam. Mas procuramos que tudo comece com um exercício criativo e inclusivo de criar uma visão positiva para a nossa comunidade”.

    transicao4Também para Sara Serrão “há lugar para a ruptura com o status quo, e com muita frequência. A primeira ruptura é passarmos, individualmente, do comodismo para sermos activos na nossa comunidade, dentro dos temas que nos tocam e nos apaixonam”. E não deixa de observar que “na interacção com as autoridades locais, os indivíduos que lá operam também desejam novas formas de estar em sociedade”. Daí que não creia “que a cooperação com instituições implique a institucionalização do movimento, tal como não creio que colaborar em plataformas de contestação do sistema coloque a Transição numa atitude co-destrutiva. Através da Transição vejo a possibilidade de dialogar e cooperar com a maior diversidade possível de agentes no território. Existe uma visão ideal de uma sociedade em equilíbrio, logo existe um posicionamento que não deixa de ser político. E tudo isto coexiste. O desafio abraçado pela Transição é, precisamente, como abraçar pontos de vista diferentes quando, no terreno, todos nós ambicionamos uma comunidade saudável e resiliente?”

    Assim, conclui Sara: “a Transição apresenta-se como o processo, o salto de um paradigma indesejado para uma sociedade desejada, e assim sendo não congela as fronteiras das suas concepções políticas, sociais, económicas, antes propõe metodologias de diálogo e integração de vontades, procurando apoiar os aportes específicos de cada indivíduo e de cada entidade, no nível onde esta actue. Assim sendo, também o diálogo com as entidades de gestão territorial, como a autarquia, é necessário para se implementarem ideias que tenham por âmbito esse território. Se, pelo contrário, o tema a ser trabalhado concerne apenas um grupo social específico, o poder de decisão e de acção concentra-se numa escala mais pequena. É o chamado princípio de subsidiariedade da Transição”.

    Agindo localmente

    Nitidamente posicionados à margem da conflituosidade declarada ao sistema, os grupos de Transição assumem uma dimensão local não institucional de co-construção como referido nas suas formações. Esse sentido cidadanista formula-se assim apolítico nessa vontade inclusiva não centrada em ideologias, mas não foge à prática política na co-construção com os actores institucionais. E aqui inevitavelmente dois tipos de actuação acabam por se cruzar, mais tarde ou mais cedo.

    Para Fernando Oliveira, “por um lado a estrutura formal e hierárquica de uma associação, liga, cooperativa, e por outro a estrutura horizontal e não formal sugerida pela Transição, obriga os intervenientes a utilizarem a criatividade para conciliar estas duas realidades. E os resultados quando atingidos geram um grau de satisfação enorme”. Como em Linda-a-Velha, foi-se criando “um vínculo de confiança entre a Iniciativa não formal e o poder local”, exemplificado em projetos autárquicos como uma Quinta Urbana Pedagógica (12) ou a recuperação/conversão de um Mercado num espaço social e cultural. Assim, afirma que “a questão da formalização surge por necessidade e não é necessariamente uma “coisa má””, não sem deixar antes de destacar que “uma das grandes mudanças é o facto de as pessoas terem a mesma ou mais credibilidade que as instituições e essa é a grande mensagem a passar aos agentes locais. Acreditar nas pessoas é um processo mais directo que acreditar numa instituição mas estamos educados a valorizar o contrário”.

    Carmen e Sérgio explicam como, desde o seu início, “o grupo Transição São Luís optou por ser um movimento de pessoas interessadas em revitalizar a Freguesia e aldeias, através da prática de uma cidadania participativa, sem hierarquias ou rótulos ideológicos cansados, estimulando assim a auto-organização, a criatividade e a responsabilidade colectiva em propor e implementar soluções ao nível adequado”. Como tal, o movimento de transição parece que se tornou também uma espécie de “linguagem” de conexão entre movimentos associativos e outros grupos de atuação local. Isso é significativo pois, em vez de fundar mais uma associação distinta e legalmente separada, o grupo pode trabalhar – com a humildade necessária – como conector dentro do tecido vivo já existente na freguesia”.

    É nesse âmbito que o grupo participa nas Comissões Sociais Inter-Freguesia, na revisão da Carta Educativa e do PDM (Plano Director Municipal) de Odemira, e desde o início no Orçamento Participativo, incluindo a formulação da proposta “Aldeia Solar” aprovada em 2012, a qual trará quatro unidades de micro-geração de energia eléctrica para as entidades públicas de São Luís. Ao mesmo tempo, participa em grupos de debate e cooperação informal, que se vão desenvolvendo entre várias comunidades e quintas ecológicas na região, como é caso da RECO – Rede Cooperar (13), mas igualmente a nível nacional com o movimento ecologista, da permacultura e da economia social e plataformas de consciencialização, como as Sementes Livres, Transgénicos Fora ou a resistência ao TTIP. Isso sem deixar de apoiar e retomar “iniciativas de coesão social tradicionais, como as festividades locais e os mercados de produtos hortícolas” ou criando novas propostas como foi o evento das Montras – Mostra de Artistas e Artesãos de São Luís (14) – que em 2015 se associou às festividades de verão locais e envolveu os criativos residentes na freguesia, os proprietários das lojas, voluntários e todas as entidades públicas locais culturais e de turismo local.

    O movimento de Transição é, como diz claramente Fernando, “de base local e apenas sugere metodologias para se alcançar um fim. Como sugestões que são, grande parte são testadas pelas iniciativas, umas adoptadas e outras adaptadas ou abandonadas. Cada localidade, bairro ou mesmo rua, tem a sua identidade e o seu percurso histórico e serão estas as condicionantes para o sucesso da iniciativa”. Uma palavra torna-se fulcral em Linda-a-Velha: vizinhança. “Tudo acontece quando estão estabelecidas relações estruturadas de vizinhança e para nós esta é a chave de tudo. Recuperar os laços de vizinhança, criar confiança e vontade de estar juntos leva a que grande parte dos projetos surjam à mesa do café. Para nós, que fizemos uma análise dos sucessos e insucessos do nosso passado, apesar de curto muito rico em experiências, concluímos que é nesse bem-estar pessoal e coletivo que está a fórmula da transformação social”.

    transicao5A preocupação central de actuar em e com a comunidade transparece do mesmo modo em Tavira. Diz-nos Ângela Rosa que “a nossa abordagem em relação a muitos assuntos e áreas determinadas é generalista, transversal”. A forma de actuar distinta dos modos institucionais e clássicos do associativismo explica o que considera ser “essa magia que nos fez em pouco tempo (4-5 anos) fazer tanto e tão fenomenalmente. Somos todos voluntários, todos população, sem fins lucrativos, sem grandes convenções, até aqui aprendemos por nós mesmos. Sabíamos que o que queríamos era um mundo, uma localidade mais sustentável, comungámos do mesmo amor pela natureza, pela comunidade”. Assim, conclui: “Os nossos simples princípios e motivações foram o nosso sucesso e o facto de serem simples e reconhecidos facilmente nos outros fizeram com que criássemos tantos eventos e actividades com tanta facilidade, porque qualquer pessoa se sentia parte e se revia neles como cidadão activo em prole e defesa do bem colectivo da comunidade”.

    Em Tavira, essa motivação traduz-se em “vários grupos de curta e média intervenção para elaborar as muitas atividades e iniciativas que desenvolvemos”. Desde sessões de eco-cinema, uma horta escolar, programas na rádio, “assim como outros que permaneceram, como o grupo das artes, o grupo de canto e música, o grupo da imprensa, o grupo contra as “estufas”, e agora mais recentemente o grupo da saúde e o grupo media. E há outros grupos em perspectiva, como o grupo da terra ou o grupo da economica circular”. Destaque ainda para o trabalho de reflorestação na mata nacional da Conceição e a parceria pedagógica com a escola secundária de Tavira. Não admira por isso que “os miúdos já tenham feito dois vídeos sobre a questão do fracking, sendo que neste momento andam pela cidade a fazer um estudo ao mesmo tempo que informam a população sobre o fracking”. Ângela acentua mesmo como perante “a ameaça da exploração de gás e petróleo, de fracking, assim como a “plastificação da paisagem” através da proliferação descontrolada de estufas para agricultura intensiva e “exótica”, a nossa envolvência nestes temas e com a restante população de Tavira, do Algarve e do país, assim como com a autarquia, tem-se revelado surpreendente”. No evento pelo clima no dia 29 de Novembro, a propósito da COP21, Tavira em Transição reuniu no centro de Tavira 600 pessoas, contribuindo para que os autarcas locais e da região se posicionassem finalmente ao lado dessa luta.

    Sara Serrão resume enfim o modo de operar da Transição: “Uma pré-disposição para a construção positiva da comunidade “ideal” – baseada numa visão partilhada para o mesmo território – que inclua a diversidade de agentes locais, indivíduos e entidades. A meu ver esta postura inclusiva da Transição é inovadora, ao invés da separação pela etiquetagem: ecologias, activistas, economistas, empresários… Somos um grupo de pessoas motivadas para cooperar e superar as fronteiras conceptuais que, muitas vezes, nos separam em indivíduos ou grupos de indivíduos distintos. Assim sendo, considero que existe muito espaço e permeabilidade na formulação teórica e na aplicação prática do movimento para entrecruzar referências e modelos”.

    Comunicar e comungar em comunidade

    Se a formulação teórica da Transição é deliberadamente um campo vago ou aberto, existem efectivamente nas tais ferramentas de acção coletiva, alguns conceitos complexos e metodologias com nomes “estrangeiros” (world café, dragon dream), o que na prática requer alguma atenção em como são apresentadas nas comunidades.

    Tavira em Transição replica logo à partida não ser “um movimento com linhas muito académicas, mas sim um movimento com uma aprendizagem original e orgânico, fiel à sua espontaneidade, prática, experiência e história. Sim, usamos recurso a alguns desses conceitos, mas temos preferido criar dinâmicas por nós mesmos e dessa maneira temo-nos introduzido junto da comunidade com uma linguagem natural, espontânea e autêntica”. Exemplo do programa semanal na rádio local coordenado por Ângela, mas aberto a participações: “um programa de eco-cidadania, o eco-ponto da transição”.

    Em São Luís, diz-nos Sara: “optamos por, deliberadamente, não usar estrangeirismos. Por cá temos Café do Mundo, Espaço Aberto, Sonhar do Dragão (15)… Enquanto grupo, temos uma atitude de aplicação prática dos princípios da Transição e assumimos trabalhar à escala das nossas possibilidades. Para desenvolvermos consciência sobre a economia local realizamos um mercado; para as energias alternativas propomos o orçamento participativo “Aldeia Solar” em conjunto com a Junta de Freguesia e a Casa do Povo; para políticas de ordenamento do território juntamo-nos ao colectivo de propostas para o PDM; para estimular a cooperação comunitária lançamos as Montras. Há uma escolha consciente de actividades pró-activas e positivas que se coaduna com a comunidade prática de São Luís. Organizamos ainda uma vez por mês uma Conversa sobre um tema relevante, aberta a todas as pessoas que gostam de debate mais conceptual”.

    Fernando chama-nos à atenção de novo como “tudo tem sido um processo e uma aprendizagem. Esta nova forma de estar e de nos organizarmos em comunidade, que nos trouxe também uma série de metodologias para auxiliar essa abordagem”. E no decorrer disso “a base está na escuta. Escutando o que alguém tem para oferecer e redireccionar de modo a que essa proposta vá ao encontro do objetivo colectivo. No fundo, todos nós temos a nossa rede de confiança, constituída por aqueles que nos são mais próximos e acreditam em nós e nas nossas intenções. Ora se cada um de nós motivar três pessoas para a iniciativa, o movimento ganham uma dinâmica de crescimento. Claro que isto é teoria e nem sempre acontece, mas a nossa experiencia local valida esta forma de estar”.

    Transição Interior

    Os aspectos mais práticos associados à dimensão social e a ambiental não são pois suficientes para definir a Transição sem a interligação com a dimensão pessoal. O desígnio da Transição surge assumidamente assente num plano ético. Caberia então perguntar como é que se interligam as propostas mais fáceis de assimilar da dimensão social e ambiental com as propostas da chamada transição interior, cujo apelo e adesão pessoal tropeça não poucas vezes na dificuldade (ou perigo) de submeter a uma visão comum de espiritualidade, visões e vontades individuais distintas.

    Sara diz-nos precisamente que “o que a Transição me traz de novo e me faz sentir em casa é a parte interior e o foco nas relações interpessoais. Haver lugar para o desenvolvimento pessoal e poder trabalhar de forma concreta e consciente nas minhas crenças internas, com isso impactando a minha postura e a minha concepção da realidade, tem sido o grande ganho pessoal”. Atenua-nos em seguida o tom crítico da nossa pergunta: “Dentro do movimento de Transição não existe uma visão comum de espiritualidade. Curiosamente em São Luís as propostas da Transição Interior têm sido as mais bem aceites e as mais participadas pela comunidade local, o que pode pôr em questão onde está a “facilidade” e a “dificuldade” do envolvimento individual. Precisamente por não haver uma visão comum de espiritualidade, as pessoas que participam demonstram vontade para encontrar um espaço colectivo de bem-estar, no seio do qual podemos compreender os desafios individuais e ousar mudar hábitos quotidianos”.

    Estes processos são igualmente simplificados no entender de Fernando: “A Transição interior é um processo contínuo e de adesão espontânea e normalmente não surge como uma proposta mas como uma necessidade identificada pelo próprio em que cada um no seu momento e ao seu ritmo entrará em processos de transformação pessoal”. Depois “tudo isto se passa inserido num grupo de pessoas que vai suportando o processo, que não tem propriamente de acontecer em formatos de reunião. Muitas vezes é um processo acarinhado num convívio ou à mesa de um café não perdendo a sua eficácia por isso”.

    transicao6Economia solidária

    A economia solidária e a relação produtores-consumidores é outro aspecto central à Transição, inerente à harmonia holística almejada entre preocupações ambientais e a economia quotidiana local. Joga aí um papel crucial o estabelecimento de um novo tipo de relações de proximidade. Porém, nessa prática o posicionamento anti-capitalista (e estamos a pensar no capitalismo verde) parece ausente. De facto, as iniciativas em Transição reflectem ainda na relação a propor com o dinheiro e o consumo enquanto grupo comunitário ou se enquanto grupo pretenda ou não criar uma economia comunitária, trocar serviços, criar empregos ou mesmo vender produtos.

    Fernando frisa uma vez mais o posicionamento abrangente: “A nível local o entendimento não passa por vincar uma posição contra o que quer que seja, porque consideramos que todas as realidades são válidas e numa comunidade existem argumentos para defender tudo. Se passo a passo formos envolvendo pessoas no processo que acreditamos de favorecimento à economia local e produção de proximidade, aos poucos a localidade torna-se pouco atractiva para as grandes empresas assentes em padrões de capitalismo, acabando estas por abandonar a sua atividade dando ainda mais espaço para novas oportunidades inovadoras e socialmente sustentáveis, caminhando assim para a “tal” resiliência”.

    Nesse sentido o tema é devolvido à comunidade onde se inserem, pois como referem Carmen e Sérgio, contrastando com o “adoptar e seguir cegamente rótulos ideológicos já preparados”, uma nova economia “terá maior probabilidade de germinar se resultar de um processo emergente a partir de movimentos comunitários diversos e independentes mas trabalhando em rede. Pensamos que a relação produtor-consumidor não é linear mas circular. A vivência na aldeia mostra que essa troca tende a ser recíproca… Acreditamos ser necessário pensar em termos mais abrangentes do que somente “produtores” ou “consumidores”, termos esses que cabem bem em qualquer discurso de economia neoclássica”. Ao nível local, “a economia solidária passa por uma relação de confiança mútua (tipo olhos-nos-olhos) entre os membros da comunidade, onde a distinção entre produtores e consumidores frequentemente não se aplica. Quando a situação aperta, o pessoal da aldeia tende a achar soluções próprias e engenhosas que nascem espontaneamente. É interessante notar que as relações familiares têm aqui um papel importante nessas situações mas há também um sentimento de solidariedade para além do círculo familiar que nos surpreende”.

    Como tal, concluem Carmen e Sérgio, “a transição não tem uma receita pronta para essa nova economia. Aquilo com que a transição pode contribuir é um processo para identificar aspirações e esboçar caminhos. A frase pode soar simplória mas é aquilo que realmente sentimos. Nas nossas conversas em grupo sobre essa nova economia sugerem noções de co-dependência, resiliência a todos os níveis, confiança mútua e reciprocidade, além de valores éticos e limites ecológicos. As nossas pretensões são de ajudar a revitalizar a economia local, assim como trocar serviços e gerar empregos que se alinhem numa (futura) economia solidária. Mas isso passa também por educação, capacitação e requalificação pessoal, assim como projectos que revertam o fluxo de pessoas para os centros maiores”.

    Em Tavira, Ângela refere como a questão dos aspectos económicos criou um pequeno impasse. “Todos nós, na grande maioria, à parte do movimento somos profissionais na área da sustentabilidade (hotelaria bio, eco turismo, agricultura bio, terapias alternativas, arquitectura paisagística, comércio local e bio, educação integral, etc.) e por tal nunca envolvemos esse aspecto pessoal. Há pouco tempo, e muito por conta de algumas sugestões de redes socio-económicas que o Rob Hopkins e a Transição oferecem, o movimento viu-se numa encruzilhada, e neste momento estamos a discernir as coisas e a tentar ser autênticos com o que realmente queremos e nos trouxe até aqui. E é preciso ter coragem tanto para mudar como para ser original. E por tal estamos numa fase decisiva na qual não poderemos desconsiderar o passado e o respeito a tudo o que criamos e como criamos”. Ângela não identifica “a transição como uma mercadoria em si, muito menos a comunidade, e isso, desde que o grupo cresceu acima das 50 pessoas, foi tema de grande debate aqui. O Tavira em Transição emancipa de uma maneira geral e comunitária, não de uma maneira específica. Agora pessoalmente, sim, o eco-capitalismo é mais real do que se pensa, numa perspectiva de lucros acima das pessoas, é para mim inadmissível! E eco-capitalismo com a chancela da Transição é simplesmente triste e frustrante na minha óptica, sentir-me-ei como se tivesse sido usada para os outros tomarem oportunidade para lucrarem sobre mim”.

    Para Fernando, de Linda-a-Velha, “o dinheiro como ferramenta de troca será sempre uma solução desde que assente em conceitos de uma economia justa e partilhada”. Mas tal como nos restantes, “enquanto grupo ou iniciativa local não nos ocorre a necessidade de criar empregos ou vender produtos mas, potenciar uma economia comunitária apoiando a criação de empresas (associações ou cooperativas) locais que trabalhem para uma economia de proximidade e eticamente justa será o caminho que optamos seguir. Este será um passo muito importante para se conseguir criar sustentabilidade financeira aos intervenientes nesta nova forma de estar, podendo estes fortificar no seu próprio trabalho o caminho sonhado por uma iniciativa de Transição”.

    Claramente, esta dimensão social e da economia definida a partir da dimensão ambiental primordial às iniciativas de Transição não é um aspecto de fácil resolução perante o espírito largamente inclusivo que é a espinha dorsal do movimento, avessa que é ao determinismo ideológico. A ausência desses compromissos poderão, de um ponto vista crítico, acabar por reverter essa energia do movimento na sua própria paralisia cidadanista e do processo de transição. Porém a dimensão pessoal e ética e nesse compromisso de uma visão comum à comunidade da vila, da aldeia e do bairro, parece ser uma robustez de toda a ordem que dará ao sonho a sua maior conquista: a imprevisibilidade. Atenta que esteja essa força à horizontalidade das relações manifestada pela Transição, este é certamente um movimento e um debate que não se ficarão por aqui.

    NOTAS:

    (1) transicaoportugal.net
    (2) transitionnetwork.org (Fundada em 2007)
    (3) Aldeia das Amoreiras, Aveiro, Benfeita, Cascais, Coimbra; Covilhã, Beja (Eco-Comunidades na Planície), Eco-aldeia de Janas (Sintra), Gaia em Harmonia (Évora), Lagoa, Linda-a-Velha, Madeira (Funchal), Olivais Encarnação (Lisboa), Portalegre, São Brás de Alportel, São Luís (Odemira), Telheiras (Lisboa), Transição Universitária na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Lisboa), Vila Nova de Famalicão. Para além destas Iniciativas à data no site da Transição Portugal, outras mais são anunciadas na Rede Convergir ou na Rede Permacultura Portugal: Tavira, Alverca, Monchique, Serpa, Santarém, Famalicão, Azambuja, São Miguel (Açores), Pombal, Faro, Corroios, Figueira da Foz, Paredes, Sintra, Oeiras.
    (4) transicaosaoluis.wix.com
    (5) facebook.com/tavira.emtransicao
    (6) transicaolav.blogspot.pt/
    (7) Activista ambiental e a figura emblemática do movimento de Transição, é autor dos livros The Transition Handbook (2008), The Transition Companion (2011), The Power of Just Doing Stuff (2013) e 21 Stories of Transition (2015) (mais em https://goo.gl/KlAjfp)
    (8) centrodeconvergencia.wordpress.com
    (9) vivertelheiras.pt
    (10) permaculturaportugal.ning.com
    (11) redeconvergir.net
    (12) facebook.com/quintaurbanapedagogica.lav
    (13) Artigo no Jornal MAPA sobre a Rede Cooperar em http://goo.gl/v5dfCg. Mais em redecooperar.blogspot.pt
    (14) montrassaoluis.wordpress.com
    (15) Espaço Aberto/Open Space é uma técnica que permite que grupos (pequenos, grandes ou enormes) se auto-organizem para discutir vários assuntos de forma simultânea, que os próprios participantes escolhem e gerem com muita liberdade. O papel dos facilitadores é o de ajudar a que o grupo de participantes co-desenhe a própria dinâmica. Esta técnica permite que os grupos se formem por interesse e que as pessoas possam dividir o seu tempo em vários grupos;outras metodologias grupais são o Café do Mundo/world Café – processo de diálogo em grupos nos quais participantes se dividem em diversas mesas em torno de uma pergunta central e circulando entre os diversos grupos – ou Sonho do Dragão/ Dragon Dreaming, ferramenta que assenta na leitura e reconhecimento dos padrões de comportamento, na análise e estudo de milhares de sonhos-projectos fracassados e bem sucedidos (dragondreamingpt.blogspot.pt/).

  • Solidariedade com a ZAD

    Solidariedade com a ZAD

    “No dia 8 de Outubro milhares de pessoas juntam-se na ZAD para demonstrar que a determinação do movimento está tão forte como sempre. Honrando as lutas dos agricultores do passado, vamos deixar bastões de madeira na zona, como um sinal de compromisso, e voltar para os utilizar outra vez se necessário. Vamos também criar um celeiro construído por dezenas de carpinteiros durante o verão, que vai ser usado como base caso o despejo aconteça.

    Estamos a fazer um apelo internacional a todos os grupos e movimentos para virem à ZAD no dia 8 de Outubro mostrar a sua solidariedade directamente ou através de acções contra o governo francês ou a multinacional Vinci nas suas próprias cidades ou vilas nesse dia.

    O aeroporto nunca vai ser construído. A vida na ZAD vai continuar a florescer.

    zad7

    6 Pontos sobre o futuro de ZAD.

    Como não vai ser construído nenhum aeroporto…

    Assim que o projecto seja abandonado, queremos:

    1 – Que os habitantes, proprietários ou locatários que foram vítimas de uma compra obrigatória ou de um despejo possam ficar na zona e recuperar os seus direitos.

    2 – Que os agricultores que resistem e rejeitam a vergar-se à vontade da Vinci, possam continuar livremente a cultivar as terras que estão a usar e recuperar os seus direitos para continuar a trabalhar em boas condições

    3 – Que as pessoas que foram para a ZAD para fazer parte desta luta possam continuar na zona. Que tudo aquilo que foi construído desde 2007 como parte do movimento de ocupação, desde as formas de agricultura alternativa, casas auto-construídas, ou abrigos temporários (caravanas, cabanas, etc) e formas de vida e resistência possam ficar e continuar.

    4 – Que as terras que todos os anos são redistribuídas pela Câmara da Agricultura à Vinci sob a forma de arrendamento precário sejam tratadas por um conjunto de pessoas que venha do movimento de resistência e que reúna todos os seus elementos. Para que seja o movimento anti-aeroporto, e não as instituições, a decidir que uso devem vir a ter estas terras.

    5 – Que estas terras sejam para novos projectos de agricultura e outros projectos, sejam autorizados ou não, e não para a expansão das quintas já existentes.

    6 – Que estes acordos se tornem uma realidade através da nossa determinação colectiva e que se resolvam todos os eventuais conflitos ligados à operacionalização destas reivindicações

    Nós já estamos a semear e a construir um futuro sem o aeroporto na nossa unidade e na nossa diversidade. Cabe-nos a todos nós, a partir de hoje, permitir que floresça e defendê-lo.”


    Retirado do Apelo internacional – Defender a #ZAD
    Foto de ValK