Categoria: Destaque

  • Piratas vs Corsários!

    Piratas vs Corsários!

    Metaneiro para GNL (Gás Natural Liquefeito) atacado no Golfo da Guiné!

    Vou defender a França, seus interesses vitais, a sua imagem, a sua mensagem. E me comprometo diante de vocês: vou defender a Europa, a comunidade de destinos que se deram os povos do nosso continente. É a nossa civilização que está em jogo. A Nossa maneira de sermos livres.”     –     Emmanuel Macron (1)


    A França é um dos países europeus mais interessado no comércio de gás natural importado para a Europa, porque será um dos maiores distribuidores, e é também um dos países fortes da União Europeia e da NATO. O discurso do novo presidente francês deixa antever uma liberdade a ferros. “A Nossa maneira de sermos livres” nunca foi, e ainda não o é, em relação a outros povos fora da “comunidade de destinos” livre de superioridade moral, superioridade ética e tecnológica. A forma como construímos a nossa civilização depende de fontes de energia, que está a tornar este mundo insustentável ambientalmente e socialmente. A principal fonte de energia global impingida para o séc. XXI é o gás natural não convencional, e a Europa aposta forte na sua independência energética. Ao nível ambiental o debate é geral. E ao nível social? O subsolo do mar será o futuro depositário de recursos naturais a explorar em larga escala pelas multinacionais, desde fontes de energia, a minerais, como lítio, cobre, e organismos para biotecnologia. A Europa está preparada. E os “outros”?

    Em 2016 a NATO dava como terminada com sucesso a operação “Ocean Shield”, iniciada em 2008, com o objetivo de proteger a navegação no Oceano Índico Ocidental de piratas, na costa da Somália, que durou 6 anos. Mas…

    No passado dia 11 de Maio o super-metaneiro La Mancha Knutsen, ao serviço da Gas Natural Fenosa, de Espanha, para transporte de GNL, foi atacado por piratas no Golfo da Guiné, a Sul da Nigéria.

    Segundo o site de informação marítima Maritime Herald (2), o metaneiro foi perseguido por um pequeno barco com pelo menos 7 homens armados a bordo. Depois de dado o alarme, o capitão do navio realizou manobras evasivas para evitar que os piratas conseguissem subir a bordo. Os piratas ainda dispararam contra a torre do navio, mas acabaram por abandonar o ataque e voltaram para terra, sem haver feridos ou estragos materiais. Ao contrário do que algumas empresas começaram a praticar, este navio não levava “seguranças”.

    O La Mancha Knutsen tinha saído do porto de Aliaga, Turquia. O navio pertence ao consórcio Trygve Seglem e à NYK, e foi construído pela Hyundai Heavy Industries na Coreia do Sul.

    A Turquia que está nos olhos do mundo pelas piores razões, pode entrar para a União Europeia. Segundo um relatório de 2014 do Parlamento Europeu:

    “Enquanto os EUA tem um abastecimento abundante de gás barato devido à “Shale Revolution”, a UE permanece dependente da importação de gás. A crise na Ucrânia levantou preocupações sobre a segurança do fornecimento de gás para a Europa. A Europa está bem conectada aos seus principais fornecedores de gás através de uma rede de gasodutos, mas existem planos para novos gasodutos para transportar gás da Região Cáspia, e mais tarde talvez do Iraque e irão para a Europa pela Turquia e Itália.” (3)

    Estes planos são alternativa ao abastecimento de gás pela Rússia à Europa, que lhe viu negada a construção de um novo gasoduto que ligaria os Balcãs e a Áustria por não respeitar as regras de mercado da União Europa.

    “Se a adesão da Turquia fracassar, isso dever-se-á não aos europeus, mas “à falta de vontade dos turcos de aplicar os padrões europeus” (presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker ao jornal alemão Bild).

    O metaneiro será o primeiro dos 4 barcos tipo LNG Knutsen que vai entregar gás natural, grande maioria gás de fracking em Espanha (4), vindo do terminal de GNL Sanine Pass da Chenier Energy, Louisiana, EUA. A entrega faz parte de centenas previstas a partir de Agosto deste ano como parte do contracto com duração de 20 anos. Segundo o site thefreeonline.wordpress, alguns carregamentos chegaram antes do período iniciado pelo La Mancha Knutsen. O contracto para a importação de gás natural vindo dos EUA da Gas Natural Fenosa é semelhante ao da EDP.

    A civilização, e o coração da Europa, têm sido atacados por piratas, terroristas… e refugiados. Os piratas e terroristas são os que não conseguiram ser refugiados; todos são reféns de um sistema global que alimenta guerras civis nas suas terras, utilizando-os como recursos humanos, no local ou espalhados pelo mundo. Os piratas, ex-pescadores, que viram o seu mar a servir de aterro para lixo ocidental, lixo tóxico que matou os peixes que os alimentava, forçados pela fome e muitas vezes por grupos paramilitares armados com tecnologia ocidental, levam a cabo resgates em troco de recompensa monetária pela carga dos navios. Nos navios, pais e filhos (piratas) contra pais e filhos (tripulação) estão pelo mesmo objetivo: sobreviver e voltar para casa. Na tomada de decisão de qual o destino de ambos (dependente do interesse na carga), estão os senhores de bem, imperadores e herdeiros contra imperadores e herdeiros (capital); o destino de piratas e tripulação foi variado, mas o destino dos corsários ao serviço de impérios foi exatamente como ensinam na escola: Fraternidade; Igualdade; Liberdade! (Globalização)

    J. Vinagre

    1. Discurso de tomada de posse de Emmanuel Macron como presidente da República Francesa em 2017.
    2. http://www.maritimeherald.com/2017/spanish-lng-carrier-la-mancha-knutsen-attacked-by-pirates-in-gulf-of-guinea/
    3. http://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/BRIE/2014/542167/EPRS_BRI(2014)542167_REV1_EN.pdf
    4. Ainda não se sabe onde vai ser a entrega do GNL. A refinaria mais provável será a de Barcelona, que tem bastante espaço de armazenamento, mas esta é só uma das 7 refinarias adaptadas para tratar e distribuir o gás em Espanha.

     

  • Felizmente continua a haver luar (Abril 2017)

    Felizmente continua a haver luar (Abril 2017)

    Conversa com o meu primo americano

    A crise da representação e os novos monstros saídos das urnas.

    « Pusemos tudo [a situação mundial] em total desordem e ninguém sabe nem como nem onde procurar os meios de a controlar. (…) O demónio anda à solta. (…) Esta é a Idade do Poder, do poder puro e simples. Agora a escolha é entre céu e inferno ; já não é possivel meio-termo. E tudo indica que vamos escolher o inferno (…) Todos, homens, mulheres e crianças, identificados com esta civilização, vamos entrar na nossa Estação no Inferno. É isso que temos andado a pedir ; cá está. »

    Henry Miller, O tempo dos assassinos (1955), tradução José Miranda Justo, p. 46, Antígona, 2016.

    «Nenhuma derrota é somente feita de derrota — porque o mundo que ela revela é um território de cuja existência nunca tínhamos suspeitado.»

    William Carlos Williams, Paterson, 1963.

    A surpreendente eleição de Trump e a consequente tomada de posse da nova administração republicana levantam inúmeras questões e inquietações diversas. Em conversa amena com o meu primo da América, avançam-se ideias e hipóteses que podem ajudar a orientar o espírito crítico através do denso nevoeiro que envolve a crise política da mais poderosa das sociedades do mundo capitalista.

    Não se pode compreender a eleição de Trump sem ter em conta o estado de desastre económico e social permanente que aflige grande parte da América : a desindustrialização, decadência e devastação de regiões inteiras. Tão pouco se pode separar o resultado desta eleição da crise profunda que atravessa hoje o sistema de representação na América, como noutros lugares do mundo democrático. De uns anos a esta parte o novo liberalismo económico refundou a ordem capitalista, tendo sido responsável pelo declínio das condições de vida da antiga classe trabalhadora e, no caso especifico americano, pela falência do mito do «sonho americano». Este ficou soterrado entre as ruínas da sociedade, das suas infra-estruturas, dos sistemas de saúde, de educação, da crise moral e mental das populações.

    Num recente artigo publicado na imprensa alemã, um «especialista» do Instituto da Economia mundial, de Kiel, escreve: «Vivemos uma época em que a ordem mundial liberal é posta em causa». Dito de outra forma, a eleição de Trump, o apoio inequívoco e entusiasta que a sua demagogia encontrou em sectores do povo americano, podem ser vistos como a primeira grande reacção política às consequências sociais desta ordem liberal.


    Meu Primo Americano (PA): Sem dúvida! Só que, e segundo os esquemas tradicionais, esperava-se esta reacção apoiada em ideologias de esquerda. Esperava-se um renascer dos projectos keynesianos, a reivindicação de uma maior intervenção do Estado na economia e no social. Ora não é isso que observamos.
    A reacção vem, ela também, com o selo do liberalismo, mas aparentemente de forma contraditória, centrada em valores xenófobos e proteccionistas, isolacionistas e em última análise reaccionária. No entanto, e a este propósito, é importante relembrar que entre as classes populares norte-americanas o clã Clinton ficou associado ao desmantelamento do frágil sistema de ajudas sociais, o welfare. As administrações Clinton representaram uma espécie de período « blairiano» nos USA. Onde Blair desenvolveu a violenta deriva liberal de Thatcher, Clinton fez o mesmo com a herança de Regan. Isto explica em parte a fraca popularidade da senhora junto do eleitorado popular e da classe operária. Acrescente-se a isto a desilusão com o imobilismo e o oportunismo da administração Obama para com as classes pobres, imigrantes e trabalhadores negros. Da juventude nem se fala: a marginalização pelo partido democrata da candidatura Sanders, a única oposição legitima e viável a Trump, constituiu um factor decisivo para afastar a juventude do dito partido.

    De uma forma mais geral pode ver-se nesta eleição, como em outras, os sinais evidentes de uma crise do sistema representativo, no qual muita gente já não acredita e que um número crescente de «cidadãos» vê como inadaptado ao momento presente. A corrupção generalizada das elites políticas e o seu imobilismo são factores que aumentam este descrédito. O acto de votar, para além da natureza autoritária que comporta a delegação de poder, já não é um momento de «liberdade dos cidadãos», mas um momento de obrigação, de opressão, de submissão à escolha do mal menor. A Impotência e a frustração, inerentes à condição de «eleitor» e de «cidadão», incitam ao desespero e à procura de indivíduos providenciais que se vendem como anti-sistema, mesmo quando são o puro produto do sistema. Efeito perverso desta falta de confiança no sistema representativo, os «eleitores» deixam-se mesmo seduzir por membros das elites capitalistas que elegem sob o pretexto de que, sendo já ricos, não utilizarão o poder para roubar… Será assim preferível os pobres delegarem o poder aos ricos para que eles se ocupem dos pobres. Neste cenário decadente, as forças da velha esquerda, representadas nos Estados Unidos pelo partido democrata, estão em estado de implosão, divididas entre facções que se devoram, totalmente desacreditadas. No melhor dos casos governam pelo imobilismo, como fez Obama, no pior dos casos governam submetidas à regra de ouro do liberalismo triunfante.

    ­ PA: O que, por agora, é evidente só para uma minoria. Trump corresponde exactamente ao que acabas de dizer. Mas ele é também, claramente, um racista e um xenófobo, com instintos autoritários evidentes e com uma ambição desmedida pelo poder e pela riqueza. Uma criatura monstruosa, produto do belo sistema em que vivemos. Mas tudo isto não é novo na democracia política, e ainda menos na história americana. Mas não se deve esquecer que a sua administração é mais do que ele próprio. Um dos seus conselheiros políticos mais próximos, Steve Bannon, é um supremacista branco com ligações neonazis que, nos últimos anos ergueu um dos projectos mediáticos mais influentes da actualidade norte-americana e que desde o princípio mostrou ter um certo domínio sobre o funcionamento da Casa Branca, aliado a reaccionários patenteados como Stephen Miller ou o cunhado de Trump, o jovem Jared Kushner, um milionário do imobiliário ligado aos sectores sionistas mais agressivos. São alianças estranhas entre personagens diferentes, mas unidas por um projecto reaccionário.

    Outra curiosidade é a aliança deste grupo com os sectores mais extremos do partido republicano, em particular o Tea Party, uma tendência que sempre defendeu a ideia de uma diminuição do papel do Estado federal, e que se encontra hoje a defender um projecto de reforço do mesmo Estado, sobretudo na repressão da imigração e no isolacionismo económico…

    Estamos perante uma situação mais complexa do que o habitual. Um dos aspectos da crise da política actual é a implosão e reestuturação das forças tradicionais. Numa recente entrevista a uma rádio livre de Nova Iorque, o antigo jornalista do Guardian, Glenn Greenwald, agora à frente do projecto The Intercept fez uma análise da nova administração Trump que me parece lúcida. O pessoal político de Trump constitui uma nova elite dirigente que se distingue da tradicional elite de Washington. A nova elite é composta de gente ligada aos meios da grande finança e do capitalismo especulativo e do petróleo, em parte ligada à nomenclatura militar. Ela vai ter que criar o seu espaço dentro do Estado e das instituições e encontra uma forte oposição da antiga elite, que tem o apoio do Estado dentro do Estado, que é em grande medida a CIA, The Company, como dizem os americanos. Esta instituição tinha abertamente apoiado a candidatura da senhora Clinton, que prometia um maior envolvimento nas guerras do Médio Oriente, em particular na Síria. O grupo ligado a Trump, pelo contrário, parece aceitar que a questão síria fique a cargo dos russos. Tudo isto são especulações. O que é certo é que esta luta no seio da classe dirigente abre espaços novos, dos quais poderão sair movimentos positivos ou reacções ainda mais violentas e selvagens. Num primeiro momento, parece que este espaço está a ser progressivamente ocupado por elementos ligados ao segundo Estado dentro do Estado, o complexo militar-industrial e o Pentágono. A promessa de um aumento de 10% do orçamento militar confirma esta tendência. Deste ponto de vista poderá dizer-se que Trump, por trás da sua máscara teatral e demagógica, é um personagem fraco, dependente destas novas alianças e relações de força em formação.

    ­ PA: A agenda política de Trump é antes de mais guiada pelos seus interesses financeiros e especulativos, engendrando uma visão de política estrangeira confusa onde surge a ideia de uma insólita aliança com a Rússia. No campo interior, social, a orientação é estabelecida pelos supremacistas brancos (da chamada Alt Right (Alternative Right). Ela tem como objectivo a destruição do quadro legal dos direitos civis dos últimos 60 anos. Existem duas correntes principais na ampla base da administração actual na sua relação com a elite de Washington. A corrente do Tea Party tem objectivos económicos precisos, essencialmente a eliminação de todos os programas de ajuda social e médica, Medicaid para os idosos, Medicare para os pobres e o Obamacare, sistema que tentou abranger os milhões que não eram cobertos por nenhum dos outros programas mas sobretudo ligado aos interesses dos seguros privados das seguradoras. Há também o projecto de redução dos impostos para as empresas, a liberalização dos controles ecológicos e o incremento da exploração devastadora da extracção de petróleos e ainda mais grave, do carvão. Obviamente, tais objectivos implicam a rejeição de todos os estudos e conclusões sobre o aquecimento global e suas consequências. A segunda corrente é a da direita religiosa, em parte independente da primeira, que insiste mais nas questões de ordem moral, na oposição ao aborto e às políticas de planeamento familiar, bem como na oposição aos direitos dos homossexuais e dos transexuais. O que eles chamam «liberdade religiosa» mais não é que um eufemismo para descriminar, na base da orientação sexual ou crença religiosa. O vice-presidente Pence é um fanático evangelista e, com a sua nomeação, o clã Trump, que não pertence a esta corrente, procurou cooptar e pacificar o extremismo religioso.

    Em troca, estas duas correntes apoiam os projectos proteccionistas e de repressão xenófoba dos imigrantes. Para concluir, a nova administração está nas mãos de ávidos capitalistas e especuladores que contam com estes projectos para continuarem a pilhar facilmente a riqueza social.

    A fragilidade política desta geringonça e o facto de Trump não ser um homem do aparelho do partido republicano, do qual não partilha os valores e a ideologia, levantam algumas dificuldades à sua administração

    ­ PA : Sim. A primeira dificuldade nasce da sua ideia de criar uma nova aliança com a Rússia de Putin para se opor à China e aos seus interesses imperialistas que colidem com os dos Estados-Unidos. A nomeação do patrão da Exxon-Mobil, um homem ligado aos interesses do sector da energia russo, como Secretário de Estado não é um acidente. As demissões e as dificuldades de vários altos membros da sua administração provam que esta relação com a Rússia parece levantar o primeiro grande conflito entre a nova e a antiga elite da classe dirigente. E é também no vazio criado por este conflito que os representantes do Pentágono e da CIA têm avançado os seus piões.


    A segunda dificuldade reside na questão do proteccionismo, na instauração de novos impostos sobre as importações, proposta que divide a classe capitalista. As forças capitalistas orientadas para a exportação, como é o caso da aeronáutica e dos sectores de alta tecnologia apoiam a medida. Pelo contrário, os sectores capitalistas de bens de consumo e dos serviços sabem que serão fortemente penalizados pelos novos impostos e também pela política anti-imigração. Os 13 milhões de imigrantes sem papéis são um factor de alto rendimento para estes sectores, que não vêem como a velha e cansada classe operária americana, brancos e negros, poderá substituir esta mão-de-obra dinâmica e extremamente barata. Além do mais, a ideia do «comércio livre» foi sempre um dogma económico na ideologia do partido republicano. Uma guerra dos impostos e de direitos alfandegários seria desastrosa para a economia, e é possível que, para além da ideologia, haja ainda um resíduo de realismo económico num partido republicano à deriva.

    Por fim, o projecto vago e megalómano de «reconstruir a América», isto é, as suas infra-estruturas em ruínas, desde as pontes até aos sistemas de abastecimento de electricidade ou a rede de canalização onde ainda existem vastos sectores com canos de chumbo, ainda que profundamente necessário pode aprofundar os antagonismos e a concorrência no seio da classe capitalista. Claro está, a administração Trump vê este projecto como uma forma de continuar a pilhar de forma privada os fundos públicos.

    Mas, num futuro imediato, o oportunismo e a ambição de conservar o poder incitará sem dúvida o partido republicano a apoiar a nova administração para além das divisões e desacordos.

    Tudo vai depender, em última análise, da oposição social aos projectos da nova administração. Após um primeiro período de reacção às medidas anti-imigração e também aos projectos de destruição do Obamacare, instalou-se uma fase de expectativa. No que diz respeito ao Obamacare, Trump foi incapaz de reunir votos suficientes para passar a sua lei, o “American Healthcare Act”, que mais não era que um Obamacare recauchutado e com ainda mais problemas. É provável no entanto que uma versão ainda mais extrema desta nova lei possa ser proposta a médio prazo.1 Determinante será também a evolução da repressão sobre a população afro-americana. Tendo em conta a presença de representantes dos sectores supremacistas brancos na nova administração, não há lugar para grandes ilusões.

    No imediato, a reacção anti-Trump na sociedade é muito forte, sobretudo entre os jovens, as mulheres e os trabalhadores imigrantes das grandes zonas urbanas. Inúmeras actividades e projectos de resistência ganham forma. O espirito de Occupy e do movimento Black Lifes Matter e outros continuam vivos na sociedade. Paradoxalmente, e ao contrário do que se passa em geral com as campanhas eleitorais, a campanha de Sanders não terminou em desmobilização, mas permitiu que este espírito ganhasse uma dimensão nacional. As grandes manifestações espontâneas nos aeroportos contestando as primeiras medidas destinadas a limitar a entrada de viajantes oriundos de países muçulmanos exprimiram bem este estado de espírito e deram voz e emprestaram força às acções legais que levaram a justiça a anular as decisões de Trump. Uma das ideias hoje lançadas pelo movimento de oposição é a da criação de «zonas protegidas», onde os imigrantes poderiam encontrar apoio e refúgio. Mas tudo isto é embrionário e vago. Sobretudo que esta ideia de «zona protegida» implica a não intervenção, ou pelo menos a tolerância, da polícia dos Estados e, portanto, a colaboração do partido democrata, que tem o poder local em muitas destas grandes cidades, mas a concretização desta possibilidade não parece óbvia, longe disso.

    ­ PA: A este propósito acho que é importante de reflectir sobre a ideia recorrente segundo a qual um «regime fascista» estaria em gestação à sombra da administração Trump, ideia que me parece falsa e induzir conclusões e acções erradas. O termo Fascismo é por demais utilizado e, na prática, perdeu conteúdo para a maioria das pessoas. A velha esquerda, em vez de analisar o porquê da vitória de Trump, obstina-se a tratá-lo de fascista e a condenar em termos morais as suas atitudes e decisões. É verdade que as políticas propostas pelo gangue que rodeia Trump, Banon em particular, têm uma conotação fascista. O slogan «America First!», lançado por esta gente, faz referência à ideologia da corrente fascista isolacionista de Charles Lindberg, da década de 1930, que defendia a não-intervenção dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial e exprimia simpatia para com a Alemanha nazi. Mas o fascismo foi antes de mais um movimento de massas com um projecto de intervenção rígida do Estado em todos os campos da vida económica, social e cultural e esse não é o projecto de Trump nem da grande maioria das tendências políticas que o apoiam e que são ferozmente ultra liberais. Tão pouco se pode considerar que uma mobilização eleitoralista tenha um carácter de movimento de massas! A existência de milícias supremacistas brancas e anti-imigrantes — fenómeno que data já de há anos e que tem uma presença muito limitada na sociedade — não pode ser assimilada à existência de um partido fascista de tipo clássico.

    Passamos do «fim da História» para uma História que está a acelerar, e o movimento das sociedades ultrapassa a capacidade que temos para o analisar com os conceitos que nos vêm do passado. Vamos falando, sempre ajuda…

    (Ilustrações de José Smith Vargas)

    1 (Nota do corrector com a qual está de acordo o autor) Durante o período Obama, o Obamacare foi o grande e mais consistente cavalo de batalha republicano. A campanha foi tão consistentemente agressiva que numa sondagem recente, quando perguntados o que pensavam do Obamacare, uma parte substancial respondia muito negativamente, mas quando perguntavam aos mesmos o que pensavam do Affordable Care Act (nome real da lei), respondiam que viam o programa positivamente. O problema, então como agora, é que o programa é relativamente consensual entre as elites políticas de ambos os campos: deu cobertura a muita gente que não a tinha (só não foram mais porque vários governadores republicanos o rejeitaram) mas acima de tudo representou um subsídio brutal para as seguradoras. A oposição republicana foi desde o início quase exclusivamente “estratégica”. Durante a campanha o Trump usou o tema pela visibilidade que tinha, como usou outros, mas nada mais. Não havia um plano ou intenção que não fosse explorar políticamente a cena. Ganha a eleição, para apresentar alguma coisa, tentaram essencialmente apresentar um obamacare light e que provavelmente, caso tivesse passado, ruiria a médio prazo, porque parte da estrutura de financiamento era removida, nomeadamente uma série de taxas aplicadas aos mais ricos, entre outras coisas, que até levaram a que a oposição à nova lei lhe chamasse o “American Wealthcare Act”. A nova lei apresentada, tinha problemas gritantes e era tão evidentemente mal preparada que não só teve a oposição de todos os democratas (previsível), mas de muitos republicanos que passaram umas semanas quentes a receber chamadas de eleitores republicanos a dizer que se apoiassem aquilo, podiam esquecer o voto deles e a ir a “Townhall meeting” onde costumam estar meia dúzia de gatos, com milhares de pessoas lá a protestar, Ora, como muitos congressistas têm midterm elections à porta, vários republicanos “moderados” não apoiaram a lei. Para complicar as coisas o “Freedom Caucus” (Tea Party recauchutado) rejeitou a lei porque queriam uma versão ainda mais extrema. Isto deixou a administração numa posição complicada e a reacção inicial foi, se não me apoiam, vão ter de continuar a gramar com o obamacare. É provável que no imediato isto não mude, mas a médio prazo, é bem possível que a versão desejada pelo Freedom Caucus venha a passar, uma vez ultrapassadas as midterms e restaurado o Supremo com o nomeado Trump, que é essencialmente um boneco da direita e um pulha.

  • Argemela é nossa e há de ser

    Argemela é nossa e há de ser

    Aldeia de Barco junta-se para travar mina a céu aberto


    Fica a 15 km do Fundão e foi outrora palco da resistência das tribos celtiberas aos invasores romanos. Hoje, a Serra da Argemela é palco de uma vibrante luta popular face à ameaça dum novo projecto mineiro.

    O alerta foi dado no início deste ano, depois de a empresa PANNN, com sede em Aljustrel, ter pedido ao governo uma concessão de exploração – as floresta e zonas de cultivo para agricultura de subsistência, repletas de lendas e vestígios ancestrais, poderão dar lugar a 400 hectares de extracção de lítio e outros minerais a céu aberto. Um contrato de prospecção estava em vigor já desde 2011. “Tudo feito pela calada da noite. O povo não é tido nem achado”, acusam os habitantes. “São 400 campos de futebol. É absolutamente inimaginável. Não aceito que os meus netos amanhã queiram vir para cá, voltar para a aldeia dos seus avós e bisavós e encontrem uma paisagem lunar”.

    Barco, uma bucólica aldeia no sopé da serra, habituou-se nos últimos meses às acções de protesto. No início de março gritou-se ao som dos bombos: “Argemela é nossa e há de ser!”. A 19 de março, a afluência e solidariedade desde as aldeias vizinhas surpreendeu os próprios organizadores: mais de trezentas pessoas juntaram-se para caminhar 10 km entre a aldeia e o emblemático Castro da Argemela, que remonta ao final da idade do bronze .

    “Toda a vida tivemos estas árvores e agora querem substituí-las por aquilo. Os químicos usados nas lavagens de minério rapidamente podem infiltrar-se nos cursos de água. O que vai acontecer aos rios, aos poços e à agricultura?”, pergunta Maria Galvão, que ali nasceu há 70 anos. Entre a serra e a aldeia passa o Rio Zêzere, que desagua no Tejo (o nome da aldeia vem de este ter sido um tradicional ponto de travessia). O projecto mineiro surge após o rio ter sido praticamente despoluído e varias espécies selvagens reintroduzidas na serra.

    “Existem valores mais altos do que o lucro de uma empresa. Não quero que os meus filhos sejam privados da majestosa paisagem, do ar puro que respiram e da saúde que vem da terra e que se tornará em doença caso se dê início à extracção mineira”, escreve Alexandre Carneiro, outro morador da região. “Todos os dias olho com tristeza e vergonha para aquilo que já destruíram desta bela Serra”.

    Anteriores explorações de minério deixaram feridas abertas na montanha e causaram ao castro danos irreparáveis. Agora, os barquenses garantem que usarão todos os meios até travar este projecto e apelam à solidariedade de todas e de todos.

    A junta de freguesia e as câmaras da Covilhã e do Fundão garantiram estar ao lado da população. Uma petição circula em linha e conta à data com duas mil assinaturas. A próxima ocasião para amplificar a luta será já a 29 de abril, no âmbito do Festival Fornos da Argemela (FB: Festival Fornos da Argemela), em que a aldeia de Barco divulga o seu património gastronómico e cultural e atrai centenas de visitantes.

    Acompanha no facebook: Movimento Serra da Argemela é Nossa

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    texto: Francisco Colaço Pedro
    foto: Nádia Brito, Movimento Serra da Argemela é Nossa

  • Resistência em Código Aberto

    Resistência em Código Aberto

    O Colectivo 1000101 reúne-se às terças-feiras no espaço da Recreativa Dos Anjos em Lisboa. O colectivo dedica-se à criação de um espaço de partilha de ferramentas e conhecimento em torno da reparação e reciclagem de material informático, em espírito “Do It Yourself “

    por Ana Rute Vila e Tercero Romero

    Na oficina qualquer um pode arranjar o seu computador, mas mais importante, qualquer pessoa pode aprender a fazê-lo, num ambiente de cooperação e horizontalidade, onde não existem profissionais da informática, apenas pessoas dispostas a aprender e partilhar. A par da oficina, o colectivo dedica-se também à divulgação da filosofia Open Source e à instalação de Software Livre, promovendo um espaço de debate e discussão acerca da infinita gama de questões que emergem da actual cultura digital, da Internet e da sua influência e confluência na sociedade. Nesse sentido organiza uma vez por mês as Conversas em Código Aberto, durante as quais se projectam documentários, se apresentam projectos e se dinamizam debates em torno destes temas.

    Numa altura em que a Internet, as redes sociais e aplicações informáticas se misturam com uma situação política global instável marcada por crises variadas, discutir a partilha de informação, a protecção de dados, a privacidade, ou o software e hardware que usamos no quotidiano é da maior importância, sobretudo se for feito de um ponto de vista crítico.

    A conversa começa com o recente bloqueio de sites de partilha de ficheiros. Há pouco mais de um ano atrás, em Julho de 2015, foi assinado um memorando de entendimento Anti-Pirataria, entre a Secretaria de Estado da Cultura e entidades como a Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC) e operadores de telecomunicações. O memorando permite que associações como o Movimento Cívico Anti-Pirataria na Internet, (MAPINET), compilem listas de sites a bloquear pelas operadoras de Internet, sem qualquer tipo de ordem judicial ou aviso prévio. Em Espanha uma lei muito semelhante à nacional, a lei “Sinde”, foi aprovada em 2012, permitindo também aí o bloqueio de sites. No entanto, o problema não reside unicamente no bloqueio em si, já que este é realizado tecnicamente através de um bloqueio do DNS*, contornável pela mudança deste endereço nas definições do sistema operativo usado. O problema da implementação de práticas de bloqueio de sites prende-se mais com o precedente criado, ou seja, com a possibilidade de serem utilizadas para outros fins, que não a defesa dos direitos de autor ou conteúdos culturais. A respeito disto o colectivo alerta para o efeito de leis semelhantes “por exemplo a DMCA”, uma lei americana de grande abrangência no campo dos Direitos de Autor e da intersecção destes com as novas tecnologias, em particular a Internet. Implementada por Bill Clinton em 1998, pode ser considerada uma super lei de direitos de autor que, pela sua abrangência, tem um historial enorme de abuso. Em concreto, a lei não é usada apenas para “proteger” conteúdos culturais mas foi e é frequentemente usada para remover material político, durante campanhas eleitorais por exemplo. Tanto nos EUA como em Portugal, através dos protocolos entre as operadoras de Internet e a MAPINET, o processo de remoção de conteúdos é extrajudicial. Em primeiro lugar um site ou conteúdo específico é bloqueado ou removido, por indicação da MAPINET, tendo depois os visados que fazer a sua defesa perante o Estado. Tudo isto fora de um tribunal e sem que a parte visada tenha conhecimento ou oportunidade de defesa. O IGAC torna-se assim num potencial departamento da censura, agora para a Internet, recuperando memórias do Secretariado Nacional de Informação instituído pelo regime fascista nacional. As medidas tomadas são unilaterais e têm carácter preventivo. Ou seja, quem bloqueia um site de streaming de vídeos, pode potencialmente bloquear qualquer site independentemente da validade da argumentação que sustenta o pedido de bloqueio. Estamos perante uma inversão perversa do princípio da presunção da inocência, característico do direito penal: o acusado é em termos práticos considerado culpado, porque sancionado, até que se estabeleça a sua inocência. Os efeitos potenciais deste mecanismo sobre a liberdade de expressão de indivíduos ou grupos, entendida de forma ampla (partilha de ficheiros por exemplo) ou mais estrita (comentário político, activismo, etc.) são no mínimo preocupantes.

    A possibilidade de censura e bloqueio de conteúdos toma outras proporções quando recordamos que “os acordos TTIP*, o TTP* e o TISA* vão permitir solidificar o poder das grandes corporações neste âmbito. Todos contêm provisões relativas aos direitos de autor e propriedade intelectual, recuperando basicamente o SOPA*, derrotada nos EUA e o ACTA* derrotado a nível europeu, após vários governos e parlamentos, sob forte pressão popular, terem recusado ratificar o acordo”.

    Estado de excepção.
    A capacidade de censurar, proibir ou cercear o fluxo de informação e comunicação ganha especial relevo nos momentos em que Estados impõem regimes de excepção. Os ataques em solo francês reivindicados pelo Estado Islâmico em 2015, a recente tentativa de golpe de Estado na Turquia ou os protestos em Istambul, contra a construção de um centro comercial na praça Gezi, em 2013, têm em comum o facto de terem sido usados, pelos respectivos governos, para passar ou reforçar alterações legislativas que visam controlar ou limitar o uso de redes sociais, ferramentas de anonimato e privacidade na Internet, quando não a própria capacidade de aceder a certos serviços ou à rede em geral.

    Por exemplo em França, com a imposição do Estado de Emergência, quiseram barrar o uso da rede TOR* a reboque da questão securitária”, sem quaisquer indícios de que a mesma fosse utilizada por supostos grupos terroristas. “Na altura em que o YouTube foi bloqueado na Turquia, durante os protestos na praça Gezi de Istambul, um vídeo da execução de um juiz foi publicado no YouTube. O governo turco pediu ao YouTube para bloquear o vídeo e perante a recusa deste, o governo turco simplesmente bloqueou o acesso à plataforma. Passados uns dias, um avião a jacto transportou os CEOs do YouTube para a Turquia, para uma reunião com o presidente turco, após a qual o site foi desbloqueado”. O bloqueio na Turquia de plataformas como o Youtube, Twitter ou Facebook tornou-se corriqueiro, ocorrendo ao primeiro sinal de uma crise política ou revelação indesejada. O YouTube chegou a estar bloqueado três anos, entre 2007 e 2010. Turquia e França são exemplos claros de aparelhos estatais a tentar controlar ou suprimir redes sociais, e estão longe de ser casos isolados.

    A intensa mediatização do terrorismo, em proporção inversa ao espírito crítico demonstrado no tratamento do mesmo, traz à baila com crescente frequência a encriptação*, um processo em que o recurso a uma variedade de ferramentas permite proteger uma mensagem, tornando-a privada e potencialmente indecifrável. Inevitavelmente, governos, polícias e os seus porta-vozes oficiais e oficiosos acenam com o suposto perigo para a “segurança nacional” que estas ferramentas representam. Daí a consequente necessidade de legislar e regular o uso destas técnicas ou mesmo, indo mais longe, criar vulnerabilidades nas mesmas que permitam a serviços de informação e segurança acesso ilimitado aos conteúdos protegidos. Sobre a possibilidade da sua fragilização e criminalização, a resposta do colectivo é imediata:

    Há um esforço grande para isso. Sempre que há um ataque terrorista surge uma notícia a tentar implicar a encriptação de alguma forma, mas sempre de forma fantasiosa. Depois dos ataques em Paris, relatos referiam o possível uso do serviço de mensagens da Playstation por parte do Estado Islâmico. Mais tarde era o Telegram*. 24 horas depois vêm uns tipos muito sérios declarar que tudo aquilo só era possível por causa da encriptação. De facto os conteúdos das mensagens era bastante claro, eles não se davam ao trabalho de encriptar nada.”

    Na mesma linha de pensamento Markus Beckedahl, director do blogue netzpolitik.org, declarava em Novembro de 2015, em entrevista ao jornal Público: “Nós já nos perguntávamos quantos jornalistas iriam retransmitir a propaganda dos serviços secretos, que alega que a encriptação tinha auxiliado os terroristas a cometerem os atentados. Isto é puro spin. Neste momento é evidente que os terroristas não utilizaram a encriptação para organizar as suas acções, e que estes terroristas já estavam identificados pelas autoridades.”

    Apesar disto, no seguimento dos dois recentes atentados em Paris, as propostas e apelos, em vários países, para a aprovação de legislação que proíba o uso de encriptação não se fizeram esperar. Logo em Janeiro o então primeiro-ministro inglês, David Cameron, apresentou uma proposta para banir as comunicações encriptadas através de aplicações de mensagens instantâneas como o Whatsapp ou o Snapchat.

    David Cameron, quando era PM, falou em proibir qualquer forma de encriptação que o governo britânico não fosse capaz de descodificar. A actual primeira ministra, Theresa May [à data ministra da administração interna], foi a responsável por essa lei.”

    Em Agosto deste ano, o ministro do interior francês Bernard Cazeneuve e o seu homólogo alemão Thomas de Maizière, tomaram a iniciativa de sugerir à Comissão Europeia que legisle a obrigatoriedade dos operadores de serviços de mensagens instantâneas – como o Whatsapp, ou o Imessages* da Apple – em providenciar total acesso ao conteúdo das mensagens, a investigações alegadamente ligadas aoterrorismo. Em todos estes casos o que é pretendido pelas polícias e Estados, quando se trata de encriptação, é ter acesso a backdoors, ou seja, formas de contornar as protecções ou desencriptar as mensagens transmitidas. A proibição é, exceptuando situações específicas, pouco útil e até contraproducente, sendo o acesso controlado muito mais interessante. Veja-se o exemplo recente da disputa entre a Apple e o governo dos EUA. Em Dezembro do ano passado, a recusa da Apple em facultar backdoors ao FBI na sequência dos atentados de San Bernardino, no Texas, esteve no centro de uma acesa disputa em torno da desencriptação do Iphone. Em Fevereiro deste ano o FBI declarou que não conseguia desencriptar o Iphone pertencente a um dos atiradores e a tarefa transitou para a NSA, que por sua vez também foi incapaz de o fazer. O FBI resolveu então exigir à Apple que criasse uma nova versão do sistema operativo do telefone. A nova versão seria instalada e não contendo as protecções existentes, permitiria aceder ao conteúdo do telefone. A Apple negou-se a fazê-lo e o processo chegou aos tribunais. O Juiz responsável decidiu em primeira instância contra a empresa, aceitando o requerimento do Estado de que se aplicasse uma lei de 1789, a “All Writs Act”, Esta lei, uma espécie de “pau para toda a obra” legal de sucessivas administrações, já foi invocada 76 vezes desde 2008, sempre com o intuito de obter acesso a informação codificada. Impôs-se assim que a empresa desse ou facilitasse acesso ao conteúdo do telemóvel. A recusa da Apple, que recorreu da sentença, prendia-se com a impossibilidade de garantir a inviolabilidade dos seus dispositivos e consequentemente, a segurança dos dados dos seus utilizadores. Sendo um backdoor essencialmente uma vulnerabilidade no sistema, seria uma questão de tempo até que fosse explorada por outros actores, ficando entretanto o governo desde logo com acesso. A disputa terminou em Março de 2016 quando o FBI declarou ter conseguido o acesso ao Iphone, graças a dois hackers* que garantiram ter identificado uma vulnerabilidade pré-existente, informação que venderam ao governo. Esta disputa e dezenas de outras, de semelhante natureza durante os últimos anos, juntamente com as nervosas tentativas de legislar contra a protecção da privacidade, provam que a encriptação e outras medidas de protecção de dados são vistas como uma ameaça: ameaçam a capacidade do Estado em aceder à informação pessoal privada dos cidadãos, rejeitando a sua natural expectativa de privacidade e protecção de dados. Neste ponto as atenções viram-se para o desenvolvimento mais significativo das últimas décadas: a possibilidade muito real de uma vigilância efectiva das comunicações online e telefónicas globais.

    O ano de 2013 pode ser considerado o início da era pós-Snowden. Edward Snowden, um analista de sistemas, esteve na origem daquela que é, até à data, a maior fuga de informação classificada da história, cujas reais proporções são ainda agora desconhecidas. É comum referir-se que Snowden trabalhava para a NSA. Na realidade este trabalhava para uma empresa privada, a Booz Allen Hamilton, subcontratada pela NSA. Esta questão, por si só, é de tremenda importância mas perdeu-se no ruído mediático, dada a magnitude e periodicidade das revelações que se sucederiam ao longo dos anos seguintes, mas acima de tudo dado o pouco interesse dos meios de comunicação tradicionais em explorar criticamente as ramificações deste caso. Snowden, em coordenação com jornalistas do The Guardian, Washington Post e Der Spiegel divulgou publicamente documentos internos que expunham tacitamente a extensão global dos programas de vigilância dos EUA. Dezenas de ferramentas, softwares e programas – mais de 150 programas supostamente, incluindo um, “Heartbeat”, concebido pelo próprio Snowden para mapear e listar as restantes ferramentas – que a NSA desenvolvia em segredo de forma a espiar ilegalmente e em massa, através de todas as plataformas, uma quantidade astronómica de pessoas em todo o mundo. Uma empreitada global que naturalmente não poupava a população dos EUA, alvo principal de vários sistemas. Sobre este episódio o colectivo esclarece: “O grande contributo de Edward Snowden foi mostrar à sociedade que a questão da vigilância em massa por parte de Estados, não é uma questão de paranóia, é a realidade. Foi o primeiro a mostrar que isto não era uma paranóia de meia-dúzia de activistas, era a realidade.”

    Neste contexto convém referir que uma das primeiras grandes revelações foi a de que os maiores operadores telefónicos dos EUA (Verizon, AT&T, entre outros) tinham sido intimados pelo governo a passar informação relativa a todas as comunicações em território norte-americano. Este tipo de informação é o que na indústria se apelida de “metadados”. Os metadados* representam não o conteúdo concreto, mas os dados acerca dessas comunicações, como por exemplo a hora e duração. Isto permite que “os Estados digam que é uma coisa inócua, pois não ouvem o conteúdo das conversas, só olham para os metadados.” No entanto “existe uma frase de um antigo director da CIA, em que este afirma que matam pessoas com drones, com base em metadados”, o que revela o seu potencial. Mesmo se tal não acontecesse, saber quem fala com quem, quando e por quanto tempo, não é algo inócuo como qualquer um de nós pode facilmente imaginar. Vários dos programas da NSA revelados por Snowden serviam para tratar, cruzar e processar metadados à escala mundial.

    Outro exemplo do que são metadados é quando se tira uma fotografia com o telemóvel e esta é partilhada no facebook. Mesmo que seja copiada para um computador, a fotografia contém metadados ou dados EXIF. Estes dizem qual o foco da câmara e se foi usado flash. Dizem também o modelo e até as coordenadas GPS da câmara… sendo que cada um tem um modelo de telemóvel diferente é facilmente detectável, no meio de um grupo de pessoas, saber exactamente quem tirou a foto”

    Em 2015, o Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP) tentou alterar o seu regime jurídico de forma a ter acessos a metadados relativos a comunicações no território nacional, fora do âmbito de investigações criminais ou de uma ordem judicial. A tentativa foi chumbada pelo Tribunal Constitucional, tendo sido considerada inconstitucional. Portugal é, na UE, o último país a não conceder estes poderes às secretas, situação que pode mudar a qualquer momento, à imagem do que aconteceu em outros Estados, nomeadamente a reboque do já mencionado uso do estado de emergência.

    A conclusão do colectivo de que “O recente caso entre o FBI e a Apple [e outros exemplos semelhantes] serve acima de tudo para colar a encriptação ao terrorismo” ilustra a forma como o Estado e as polícias querem moldar e condicionar as ideias do público acerca das práticas de segurança na Internet. Antes de tudo mais, é preciso afirmar claramente que não cabe aos cidadãos provar que a encriptação não é usada por terroristas, ou em geral justificar os méritos da sua utilização pela população. Bem pelo contrário, cabe ao Estado provar conclusivamente que o uso da encriptação por terroristas é estrutural ao ponto de justificar o condicionamento do livre acesso da população a estas tecnologias que, por si só, são inócuas. Vista a questão de outro prisma, mais afirmativo, é fácil perceber que num momento onde cada vez mais informação é disponibilizada pelos utilizadores, em cada vez mais plataformas, quaisquer ferramentas que propiciem a protecção de dados e da privacidade de cada um, só podem ser entendidas de forma positiva. Finalmente, a ideia abundantemente promovida de que “quem não deve, não teme”, que neste contexto se transforma no recorrente “eu não tenho nada a esconder” não passa de um chavão de consumo fácil, mas potencialmente indigesto.

    O colectivo explica que “a encriptação não é usada por quem tem um segredo terrível. Por um lado serve para te proteger da manipulação, já que quanto melhor conheces outra pessoa mais vulnerável está perante a manipulação. Hoje temos uma geração de pessoas que cresceram com o Tablet e que estão de tal maneira expostas, que todos os pontos de manipulação emocional vão estar arquivados em algum lado e portanto trata-se de uma geração inteira que é fácil de manipular num ponto ou noutro. Por outro, qualquer um de nós pode não ter nada a esconder mas aquele que trabalha num sindicato, que está a tentar organizar trabalhadores numa cadeia de Fast-food, ou que vive algures num país repressivo pode ter realmente uma ameaça específica. As pessoas que têm alguma preocupação de forma a preservar a sua privacidade, são olhadas com desconfiança, como se tivessem algo a esconder.”

    Assim, de forma sucinta convém manter presente uma série de ideias. Os Estados não são intrinsecamente “bons”. São construções políticas orgânicas, passíveis de ser cooptadas ou capturadas por interesses que não têm o bem comum como fim último. A expectativa e direito à privacidade no espaço virtual não são, em termos absolutos, distintos dos do espaço real. A informação na Internet, independentemente da sua natureza ou tipo, representa não só poder, como dinheiro para as empresas que se dedicam a recolhê-la, logo devemos dispor dela com cuidado e critério. Consequentemente, se não podemos ter a certeza que não existirá abuso de poder na utilização das capacidades com que o Estado se dota, se não estamos preparados para ter câmaras e microfones espalhados pela casa acessíveis ao governo, polícias e empresas que deles queiram dispor e se não passamos o dia a distribuir informação pessoal a qualquer pessoa com que nos cruzemos na rua, é fundamental que, na Internet, dispunhamos de ferramentas que permitam acautelar o que seria efectivamente o equivalente a estes factos na esfera real. Não é provável que alguém questione porque é que os envelopes com que envia o seu correio não são transparentes. Do mesmo modo, não é natural esperar que na rede, os nossos “envelopes” tenham de o ser.

    Em todos os casos, no primeiro plano de toda esta discussão estão as assimetrias no direito à protecção de dados, ao anonimato e à privacidade entre indivíduos, governos e os gigantes da Internet. Os Estado e as empresas têm todo o direito de tornar opaca, ao ponto de ser inescrutável, muita da sua actividade governativa e económica (veja-se os escândalos de corrupção ou as negociações secretas de tratados como o TTIP) e de omitir ou esconder informação, sempre que lhes convém, da esfera pública e dos cidadãos. Mas os cidadãos, por sua vez, são gradualmente obrigados, através de mecanismos legais ou meios ilegais, a manter transparentes e acessíveis todos os seus dados e comunicações pessoais.

    A actual campanha eleitoral americana traz-nos mais um exemplo de como as questões em torno da vigilância de Estados sobre os indivíduos podem ser muito mais complexas e sinuosas do que a narrativa oficial quer fazer crer. Conta-nos o colectivo que “existe muita gente a entrar em pânico porque compreende que talvez ter sistemas de vigilância permanente sem qualquer supervisão ou programas de assassinato [extrajudicial] por drones pode não ser uma boa ideia, perante a possibilidade de um psicopata [Donald Trump] se tornar presidente. Mas aqueles que construíram o sistema, sempre que eram criticados diziam que isso era coisa de malucos ou teorias da paranóia.”

    A realidade incontornável é que, sem práticas de cyber-segurança e protecção de dados disponíveis aos utilizadores, a maioria da nossas interacções na rede e com o mundo digital, independentemente do meio escolhido, é presa fácil para agências de segurança, empresas ou indivíduos de dúbias práticas e intenções. Se a recolha e tratamento da informação que geramos, o rasto virtual das nossas vidas, já é em grande medida a principal actividade desenvolvida actualmente na Internet, desenvolvimentos como estes arriscam potenciar uma realidade ainda mais sinistra. A recente febre do Pokemon Go, o jogo de realidade aumentada para smartphones que coloca miúdos e graúdos nas ruas em busca de criaturas virtuais, é um bom exemplo de uma aventura que, no que toca à privacidade, pode ter um final infeliz. Embora não existam provas de que o jogo tenha uma finalidade particularmente nefasta, o mesmo não pode imediatamente ser dito dos seus promotores. O jogo foi desenvolvido por uma empresa chamada Niantic, que por sua vez foi fundada pela Keyhole, criada por um individuo chamado John Hanke. Hanke é um antigo funcionário do Foreign Service do governo dos EUA, uma espécie de ministério dos negócios estrangeiros. A Keyhole é famosa por ter desenvolvido o “Earth”, uma aplicação de localização baseada no sistema de GPS, como parte de um projecto financiado pela In-Q-Tel, uma firma de capital de risco pertencente à CIA. O projecto foi mais tarde vendido à Google e rebaptizado, tornando-se o nosso bem conhecido Google Earth.

    A análise do colectivo resume em poucas palavras a actual dinâmica da Internet. “a ideia da Internet descentralizada é uma mentira, porque tens os serviços concentrados em meia dúzia de empresas como a Google, Facebook, Netflix ou Yahoo. Para vermos o poder de uma empresa como a Google vejamos a seguinte história: Há cerca de 6 anos atrás o Google teve uma falha em todos os serviços e o volume de tráfego na Internet baixou cerca de 40%. Isto é apenas uma demonstração da preponderância e consequente poder de uma única empresa, numa rede que toda a gente apregoa que é descentralizada. Cada vez mais o caminho é justamente o inverso.

    Redes Sociais
    De acordo com a enciclopédia livre Wikipédia, em 2012 o Facebook tinha cerca de 1000 milhões de utilizadores em todo o mundo. Os documentos revelados por Snowden estabelecem que a empresa foi uma das que colaborou com o programa de vigilância electrónica PRISM*. Para lá da imagem e tom que marcam a sua presença mediática e na rede, a estrutura da rede social mais famosa do mundo, bem com o seu conceito de comunicação, levantam sérias dúvidas quando consideramos o funcionamento dos algoritmos que a sustentam. A ideia de que a informação partilhada chega de forma uniforme e não filtrada a todos os “amigos” de um dado utilizador não corresponde à verdade. Ironicamente ou talvez não, as redes sociais podem tornar-se cada vez mais redes anti-sociais. O colectivo explica que:
    há um incentivo natural das empresas que gerem as redes sociais de te manter inside e para isso vão-te mostrar coisas que gostes de ver, o que é puxado de coisas que já tenhas visto antes, ou de coisa vistas por pessoas que pensam como tu. Isto tem um efeito de atomização social em que as pessoas deixam de ter percepção de todo o espectro. Vêm uma espécie de discordância mas dentro do espectro em que se está de acordo. Pessoas com opiniões divergentes começam a ficar isoladas umas das outras. É o chamado filtro-bolha.”

    O conceito de filtro-bolha aplica-se também aos motores de busca. A ideia de motores de busca alternativos, como o Duckduckgo, é justamente permitir uma busca o menos condicionada possível. O seu uso mostra que os resultados de uma pesquisa no Google são adaptados à nossa pessoa a partir do histórico de navegação. Por exemplo, a palavra EGIPTO, no Google, pode devolver resultados sobre os protestos de 2011 contra o governo de Hosni Mubarak, ou informação sobre agências de viagem para destinos turísticos naquele pais, dependendo do perfil e historial do indivíduo que a escreve. Em todos os casos o Google define aquilo a que o utilizador terá acesso. De acordo com a ideia de que “informação é poder”, na Internet de hoje, cada vez mais controlada por grandes empresas, estes monstros da rede detêm um poder descomunal, muito para além das suas supostas vertentes “educativas” ou sociais. “Um estudo recente mostra que o peso do Google no resultado de uma eleição é cerca de 5%. Em outro estudo, feito sobre o Facebook, este brinca com as emoções de alguns dos seus utilizadores. O algoritmo foi mudado para um dado grupo alvo para que uma parte do grupo seja bombardeada com notícias negativas e outros com notícias positivas, para testar a influência nos posts que as pessoas faziam, ou seja para perceber se era possível alterar o seu estado emocional [e comportamento].

    Além disso os gigantes da Internet são hoje muito mais do que simples empresas que gerem as comunicações. Maiores e mais poderosos que muitos governos, assumem-se cada vez mais como uma nova forma de governar e fazer política. Voltemos novamente às eleições americanas. “A ideia de que as empresas podem usar o seu poder para satisfazer uma agenda política não é uma ideia teórica. CEOs do Google, Facebook e representantes do departamento de Estado Americano reuniram-se para se coordenar entre si, de forma a impedir a eleição de Donald Trump. Mesmo tratando-se de uma figura detestável como Donald Trump a pergunta que se coloca é: “quem é que nos garante que já não o fizeram antes e por que razões?” Da mesma forma, “uma outra notícia surgida entretanto relata que o Facebook é acusado de favorecer os democratas e concretamente Hillary Clinton em detrimento de Bernie Sanders.” Os colossos da rede entretêm-se com marionetas e fantoches, enquanto moldam o futuro.

    Alternativas na rede
    A Internet não é apenas terreno de eleição, no qual as agências governamentais controlam, espiam e monitorizam indivíduos, organizações e jornalistas. Logicamente é também o espaço no qual se desenvolvem alternativas de comunicação e acção. Assim, nos tempos que correm, tornou-se um autêntico campo de batalha, entre as grandes corporações e uma miríade de organizações, comunidades e utilizadores que desenvolvem ferramentas livres e gratuitas. Acima de tudo é um espaço onde se confrontam visões e concepções diferentes sobre o que é a rede e como esta deve funcionar.

    No caso do Facebook ficamos a saber que “existem alternativas às redes sociais mainstream, mas a sua utilização é ínfima, como por exemplo a Diaspora, uma rede social Open Source descentralizada, em que os voluntários podem acrescentar servidores e criar nós. No entanto é mais usada entre a comunidade Open Source ou activista. Existe ainda a GNUSocial, uma alternativa ao Twitter. Se olharmos para o Facebook eles tentam centralizar tudo: seja o sistema de mensagens, de páginas, de publicações de amigos, notícias… tudo. O que temos de fazer é descentralizar tudo. Ou seja, se queremos publicar informação devemos fazê-lo num blogue, se queremos trocar um mail interno, usamos uma mailing list em vez de centrarmos tudo no Facebook.”

    O uso de alternativas também cria desafios para os utilizadores, já que “tentar convencer as pessoas a largar funcionalidades não é a melhor abordagem. O ponto onde se está a querer chegar é que se tu quiseres explorar alternativas, não só em redes sociais mas em comunicações seguras o melhor é descentralizar, só que descentralizar é muito inconveniente. Uma das coisas em que as grandes empresas conseguiram convencer as pessoas, foi o conforto de ter tudo centralizado num único serviço, a filosofia Big Silo. A questão é que tentar procurar uma alternativa implica sair deste modelo, implica descentralizar, ou seja, ter uma mailing list num dado serviço, um site para comunicações mais públicas e isso dá mais trabalho. As empresas nos últimos anos conseguiram habituar-nos a esta ideia maravilhosa de ter tudo centrado num único serviço, do qual muitas pessoas não conseguem sair porque é chato, é inconveniente. Na verdade não é um problema só da tecnologia ou da Internet, mas de muitas coisas na sociedade.”

    No caso dos servidores de DNS, também existem alternativas, como o OpenDNS ou o Opennicc, de especial utilidade no caso dos bloqueios, feitos em Portugal pelas operadoras, a sites de partilha de ficheiros.

    O DNS é como uma espécie de lista telefónica da Internet. Quando escrevemos um endereço o teu browser pergunta a um servidor de DNS qual é o IP deste site. O servidor diz: O IP de um dado site é este e assim podes visitar o site. Um bloqueio de DNS é como falsificar a lista telefónica, mas existem muitas listas telefónicas no mundo e existem servidores de DNS alternativos. Nas nossas casas usamos o servidor de DNS da operadora de Internet e é assim que está a ser feito o bloqueio [das operadoras]. Mudar de servidor de DNS, por exemplo usando o OpenDNS, automaticamente desbloqueia toda a censura que se faz em Portugal, pelas operadoras e pela MAPINET.”

    Uma das lições que podem retirar das revelações de Edward Snowden é que, caso alguma dúvida houvesse, os Estados e as suas agências de segurança respeitam pouco ou nada as regras que as suas próprias instituições criam. Por isso mesmo, não são poucas as alternativas que garantem que a segurança de dados, a privacidade e o anonimato, se materializam em ferramentas informáticas no controlo dos utilizadores. O colectivo avança que ““existem algumas ferramentas, como o Tor*, e protocolos que “mascaram” o facto de se estar a usar o Tor”. Sobre as suas potencialidades acrescentam que “o Tor é das poucas ferramentas que consegue ultrapassar a censura na China”. Mas existem outras ferramentas que permitem uma abordagem mais exaustiva e estrutural à questão, como o “TAILS*, um sistema operativo feito a pensar na privacidade, que não deixa rastos no computador, e traz um conjunto de ferramentas de privacidade e anonimato online”.

    Neste ponto torna-se essencial fazer a distinção entre anonimato e privacidade. O Tor é uma ferramenta de anonimato, enquanto o Tails, um sistema operativo Linux, garante a privacidade e o anonimato pois, entre outras ferramentas, inclui o TOR. “Anonimato é não se saber quem somos, de que país somos, enquanto privacidade é não se saber o que estamos a dizer. O Snowden utilizou o Tails para comunicar com os jornalistas, e também o GnuPG* e o Pigeon OTR* que também estão incluídos no TAILS. Não são os programas mais “confortáveis” de usar (em oposição ao Signal*, por exemplo), mas funcionam e são testados nesse sentido há mais de 20 anos.

    No entanto é inegável que, para o utilizador comum, nem sempre é possível ou confortável escolher uma ferramenta específica pois “cada vez há mais ferramentas disponíveis. Há mais de 800 softwares de encriptação, para diferentes funções: chat, email, voip, etc. O que surge muito no debate sobre encriptação é que muitas vezes não é fácil ter-se encriptação bem feita. Há muitas aplicações que tentam arranjar um equilíbrio entre uma boa encriptação e a facilidade de utilização, mas nem todas conseguem.”

    Resistências na rede
    Nos últimos anos, graças à dedicação de indivíduos e grupos, em várias ocasiões os papéis, entre quem controla e quem é controlado, foram invertidos. Organizações como o Wikileaks* habituaram-nos à exposição pública de segredos e comunicações internas de grandes corporações, agências e governos, provando que a informação não corre sempre no mesmo sentido na Internet. Na verdade muitas outras revelações de documentos confidenciais têm tido lugar, algumas menos conhecidas mas não menos relevantes. Em Julho de 2015 o Hacker Phineas Fisher foi o responsável pela divulgação de um Torrent* de 400 GB, contendo e-mails internos, documentos confidenciais e o código fonte do software, desenvolvido por uma companhia italiana chamada Hacking Team. Um ano depois, o Hacker publicou um documento, detalhando os pormenores técnicos da sua actividade, onde se pode ler que
    “Hacking Team é uma companhia que ajuda governos a hackear e espiar jornalistas, activistas, opositores políticos e outras ameaças ao seu poder.”

    Um ano antes o nome Phineas Fisher esteve também associado a um ataque contra o Gama Group. Esta corporação, dedicada a criar programas para vigilância e infra-estruturas informáticas tem como clientes corpos militares, agências de espionagem e polícias internacionais que usam os seus produtos para espiar pessoas e inclusive outros Estados. Se, tal como no mundo físico, a disparidade de recursos entre quem detém o poder e quem contra ele se bate é enorme, a natureza ainda relativamente aberta do campo de batalha na rede, permite muitas vezes ultrapassar essas disparidades de forma espectacular. Ainda assim, são muitos os activistas e jornalistas que continuam a sofrer sob a vigilância e represálias de governos e interesses alinhados.

    Na Etiópia há relatos de jornalistas que estavam a ser espiados com estes softwares e que foram presos pelo governo, quando este descobriu que se preparavam para frequentar um curso de privacidade online, para proteger o seu trabalho”, aponta o colectivo. De facto, no documento publicado* por Phineas Fisher, surgem inúmeras provas do envolvimento global da Hacking Team, no auxílio à espionagem contra activistas e jornalistas.

    Acrescenta o colectivo que as revelações são uma forma efectiva de limitar o poder desta companhia e dos clientes que usam os seus produtos, já que “o código-fonte é especialmente importante pois mostra como funciona o programa e o que precisamos de fazer, enquanto utilizadores, para proteger o nosso sistema operativo desse software”. Como seria de esperar, as acções não se ficam por aqui e “foi também o Phineas Fisher que roubou os 300.000 emails internos do governo turco, antes do golpe, que planeava publicar no Wikileaks e entregá-los aos curdos, para apoiar o Curdistão Sírio contra o governo turco”.

    Os posts, na conta de Twitter de Fineas Fisher, revelam ainda que no início de Junho o Sindicato dos Mossos D’esquadra, o corpo de polícia catalão, foi hackeado. Foram revelados nomes e dados pessoais de polícias afectos aos Mossos. A conta de Twitter do sindicato foi ainda “desfigurada”. O ataque foi acompanhado pela divulgação de um vídeo no qual se mostra todo o processo. Num texto divulgado pelos hackers, pode ler-se que o objectivo era “colocar informação cá para fora que sirva a qualquer um que esteja a investigar seriamente a polícia”.

    A Internet continua a ser um veículo de cooperação de enorme potencial, mas ao mesmo tempo é, mais do que nunca, um campo de batalhas e um espaço de conflito com uma “geopolítica” e uma dinâmica próprias. Nunca como agora foi tão vasto o alcance daqueles que querem moldar a rede à imagem dos seus objectivos. Felizmente, à medida que vamos integrando cada vez mais do mundo que nos rodeia na rede, da torradeira ao carro, do brinquedo a cidades inteiras, também são cada vez mais os indivíduos e grupos que se capacitam e agem, produzindo actos resistência criativa. Tal como no território físico, que uns querem definido por fronteiras e exércitos, a forma futura da rede, aberta ou controlada, resultará dos usos que as comunidades, os indivíduos e os colectivos on-line lhe dêem. Em todos os casos, usando uma velha máxima da cultura cibernética, “A Internet trata a censura como um dano e consegue contorná-lo”.

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    Dicionário Digital

    Do it Yourself
    Filosofia segundo a qual o utilizador, familiarizando-se com materiais, técnicas e tecnologia, produz e arranja as suas próprias coisas sem recorrer a profissionais
     

    Open Source Software
    Em português Software de Código Aberto é o software cujo código fonte é disponibilizado. Mais que uma filosofia, é um método de desenvolver o software partilhando o código e promovendo a colaboração e livre uso.
    opensource.org

    Software Livre
    Software cujo código é aberto e disponibilizado, que pode ser partilhado, estudado, modificado e melhorado pelos utilizadores. Nasce como movimento nos anos 80 pela mão de Richard Stallman como forma de criar alternativas aos sistemas operativos proprietários.

    www.fsf.org/about/what-is-free-software

    Linux
    Também conhecido como GNU/Linux é um Sistema Operativo Livre e Open Source inventado por Linus Torvald no início dos anos 90. Resultante da junção do Kernel Linux com componentes desenvolvidos pela Free Software Foundation através do projeto GNU como uma alternativa livre aos sistemas operativos proprietários tipo UNIX.

    DNS
    Acrónimo inglês para Domain Name System. É o sistema de gestão de nomes na Internet. É como a lista telefónica na internet, na qual figura o endereço de IP de um site, permitindo a um browser encontrar e aceder a um site na internet.

    TTIP
    Acrónimo para Tratado Transatlântico de Investimento e Parceria é um acordo de livre comércio e investimento entre os EUA e a UE, atualmente negociado em segredo entre as duas potências. O acordo abre caminho às a multinacionais e corporações de ambos os lados do Atlântico através da suplantação de códigos legais e proteções em todos os sectores da economia e da sociedade, com previsíveis efeitos nefastos para o bem estar social, económico e ambiental dos indivíduos e comunidades abrangidos e à escala global

    TTP
    Parceria Trans-Pacifica é a versão asiática do TTIP, envolvendo 12 nações do anel do Pacífico.
    info sobre o TTIP e o TTP em
    www.nao-ao-ttip.pt

    TISA
    Um acordo internacional entre 23 países, incluindo UE e o EUA que visa liberalizar o sector dos serviços à escala global, com um enfoque no comércio global de serviços bancários, de saúde e de transportes.

    SOPA
    Acrónimo inglês para Stop Online Piracy Act, um projecto de Lei apresentado nos EUA em 2011, que tinha como finalidade aumentar a capacidade da lei americana em combater a partilha, na Internet, de conteúdos protegidos por direitos de autor. O projeto recebeu grande oposição popular assim como da parte de organizações e projetos como a enciclopédia Wikipédia por exemplo, já que na prática serviria para limitar fortemente a liberdade de expressão na Internet, através dos mecanismos de censura com que dotava as autoridades

    ACTA
    Acordo comercial internacional que visa proteger a propriedade intelectual e os direitos de autor

    Encriptação
    Processo através do qual um algoritmo é usado de forma a transformar informação e impossibilitar a sua leitura, exceto por aqueles que tenham a capacidade de reverter o processo, através de uma “chave privada” e assim ter acesso à informação original.
    Manifesto Chypherpunk (ativistas que desenvolvem software de encriptação) –
    http://activism.net/cypherpunk/crypto-anarchy.html

    Tor
    Software livre que permite  navegar na internet anonimamente. O seu princípio de funcionamento baseia-se no redireccionamento de uma comunicação ou navegação na Internet através de uma rede global de servidores antes de chegar ao seu destino. Composto pelo TOR Browser (um browser de internet) e uma rede de cerca de 6000 servidores espalhados pelo mundo e geridos por voluntários.
    torproject.org

    PRISM
    Programa clandestino de vigilância, lançado em 2007, através do qual a NSA recolhe informação de, pelo menos, nove das maiores companhias da Internet. A sua existência foi tornada publica através das revelações de Edward Snowden

    Metadados
    Literalmente dados sobre dados. Informação sobre o tamanho, a data de envio, o destino ou a duração de um contacto é transmitido numa rede. A ficha de leitura de um livro (titulo, ano, autor, temática) numa biblioteca pode ser considerada um exemplo de meta-dados.

    pt.wikipedia.org/wiki/Metadados

    Hacker
    Uma pessoa altamente especializada em computadores, capaz de modificar software ou hardware e sistemas informáticos para fazer algo que não é inicialmente suposto. Atualmente considera-se que há vários “sub-tipos” de hackers; White Hat (hackers que testam sistemas informáticos para procurar falhas de segurança ou funcionamento e melhorar esses sistemas), Black Hat (Hackers que procuram danificar, tomar conta de, ou obter informação de sistemas informáticos e causar “dano”, muitas vezes para lucro), “Grey Hat” hackers que atacam sistemas informáticos com um objetivo que não o lucro recorrendo a meios considerados por muitos como “ilegais”, (hacktivistas) e Hackers que criam meios para um programa ou pedaço de hardware fazer algo que não é suposto fazer, (por ex: acrescentar novas funcionalidades a um programa, corrigir um erro, um software correr em hardware antigo).
    Entre outras definições, correspondeu inicialmente também a uma filosofia de liberdade para explorar sistemas informáticos e aprendizagem.
    Hacker Manifesto:
    http://tinyurl.com/ztbbpcy 

    Tails
    Um sistema operativo, baseado em Linux, dedicado totalmente ao anonimato e privacidade.
    tails.boum.org

    GnuPG
    Implementação de software para encriptação de mensagens tais como e-mail e ficheiros.

    gnupg.org/

    WikiLeaks
    Organização jornalística que, desde o lançamento do seu site em 2006, se dedica à divulgação de material secreto ou confidencial, provindo de fontes anónimas, sobre guerras, vigilância e corrupção. Até ao presente publicou cerca de 10 milhões de documentos.
    Alguns sites onde se podem procurar ferramentas para proteger a privacidade e procurar software alternativo ao das grandes empresas para comunicar na net: The Guardian Project
    guardianproject.info

    I have Something To Hide
    ihavesomethingtohi.de/

    Prism Break
    prism-break.org/en/

    Email self-defense (em Português)
    emailselfdefense.fsf.org/pt/

  • Mapa #16 nas ruas

    Mapa #16 nas ruas

    Já está aí o Jornal MAPA nº 16 Abril-Junho: Conversa com José Carlos Marques sobre o passado, presente e futuro do movimento ecológico | Que Transição Energética: novos modelos e experiências | O feminismo constrói-se todos os dias, a partir do Coimbra e Porto | Trabalho para a Google e nunca fui a uma entrevista de emprego: a Internet substitui a fábrica, e o trabalho agora é gratuito e voluntário | A história esquecida da Coordenadora dos Presos em Luta em espanha | Conversa com o meu primo americano. A crise da representação e os novos monstros saídos das urnas | Panegírico a Zeca Afonso, Segunda parte: Do 25 de Abril ao 25 de Novembro | Mário Soares: Como se cria um mito | Pré-publicação: Ivan Illich, Para uma História das Necessidades | Mas afinal, o que é o transhumanismo? E quem são os transhumanistas? | Thoreau | O Educador Mercenário | Florestas Comunitárias

    À venda nos locais habituais

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  • Relatos que nos chegam do Curdistão II (a continuar)

    Relatos que nos chegam do Curdistão II (a continuar)

    6 de Março 2017. Cortamos a estrada que fazia a ligação entre Raqqa e Deir ez-Zor, a principal via de abastecimentos dos daesh e hoje vou para Este de Raqqa, para nos juntarmos novamente à operação Wrath of Euphrates. Hoje está a ser calmo e quente e a sede é tanta que dou por mim a mastigar a ponta do meu lápis, com o qual vou escrevendo as minhas experiências, para continuar a salivar e manter a boca húmida. O sabor da poeira invade a boca e sinto o estalar das pequenas partículas de areia entre os dentes. As narinas secam e os olhos ardem.

    Pequenas coisas que temos como garantidas, naquela vida anterior antes de vir para aqui, há séculos atrás, não existem… Papel higiénico por exemplo! Usamos trapos, água quando disponível e no outro dia encontrei num bolso de um daesh caído, uma embalagem de toalhetes! Parecia um puto quando o encontrei, com um sorriso de orelha a orelha, com um cadáver a meus pés! A revolução é agora a minha vida, mas ninguém me disse que ia ser bela, romântica e esterilizada… Acabei por não ficar com os toalhetes, dei-o a uma companheira que apanhei a olhar para eles com ar triste e lembrou-me a minha irmã, mãe, avó…

    Estamos a caminho de Raqqa e o caminho é acidentado. Na minha cabeça vou cantando “Come out and fight” , quem conhece a canção pode perceber o porquê de me lembrar dela… Os tempos que se avizinham não vão ser fáceis. Afinal de contas, ninguém me disse que a revolução ia ser bela, romântica e esterilizada. Mas mesmo assim, aqui estamos. Deixei para trás o papel higiénico, a cama confortável, a segurança da minha vida fútil no meu Porto seguro, que está sempre na minha memória. Afinal de contas “Trazemos nos nossos corações um mundo novo”!

     

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