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  • Relatos que nos chegam do Curdistão (a continuar)

    Relatos que nos chegam do Curdistão (a continuar)

    21 Fevereiro 2017
    5:47 da manhã. O ar cheirava a cabelos queimados e pólvora e, a 20 metros de mim, enquanto me escondia nos escombros do que um dia foi a casa de uma família da qual ninguém sabe do seu paradeiro, uma cabeça semi-queimada de um homem bomba olhava-me com os seus dentes brancos à vista, como se risse de mim depois de ter explodido à minha frente. Ele sabe que não me matou, mas consumiu um pouco da minha alma. O silêncio é apenas cortado pelo tímido som de música punk que o basco a meu lado ouve no telemóvel.

    Olhei sobre os escombros, em direcção a uma cabana onde sabemos estarem pelos menos 3 daesh, para ver se havia sinal de movimentação. Sabemos isso por duas das 10 raparigas yazidi, as únicas duas que conseguem falar, que encontrámos presas numa cave de uma casa semi-destruída, abandonadas à sua sorte, talvez morte. Nunca chorei tanto como nesse dia…

    Agora, viemos à caça, apesar de ordens contrárias. Mas não consigo parar de ranger os dentes de raiva desde que as encontrei. Eu (o Tuga), o Basco e o Italiano (parece ser o início de uma piada rasca, antes fosse…), viemos à procura dos demónios, mas eles viram-nos a chegar. Um deles saiu a correr em nossa direção e fez-se explodir a uns 30/40 metros de nós. Mais uns 3 ou 4 metros e não estaria a escrever estas palavras. Por momentos pensei que a cabeça dele ia cair a meus pés… Mas não, ficou ali, a olhar para mim e a sorrir.

    Depois de uma longa troca de tiros a noite caiu e com ela o silêncio. O nosso corpo doía com o frio. Fechei os olhos por uns minutos, o que me pareceu uma noite inteira de sono. O meu sono entretanto foi interrompido por tiros na nossa direção. Os daesh conseguiram sair da cabana e flanqueram-nos. Mas eles não esperaram uma coisa, podíamos ter fugido para procurar melhor cobertura , mas com a pouca protecção que tínhamos dos escombros, conseguimos fazê-los desaparecer da face da terra. Estes já não fazem mal a mais ninguém…

    Apesar de alguns estilhaços que me feriram nas costas e ao italiano na cara, estamos bem. Levantámos-nos, sacudimos a poeira dos nossos cabelos e barba e depois de 3horas a caminhar na escuridão, voltámos ao acampamento onde depois de termos recebido tratamento médico, uma caneca de vinho à beira da fogueira e o resto do pelotão ter cantado e dançado para nós, recebemos apenas um pequeno castigo da parte do nosso tenente, por termos contrariado ordens (não vamos ter licença de descanso esta semana) mas um também um olhar de respeito pelo que fizemos e um piscar de olho de aprovação.

  • Prisões: o bode expiatório

    Prisões: o bode expiatório

    com Filipe Nunes

    Garantir os direitos aos presos é difícil. Pôr em causa as prisões mais ainda. Daí a conversa com António Pedro Dores sobre o sistema prisional português.

    O texto que se segue resulta de uma conversa à volta do tema das prisões e é, necessariamente, um texto longo. Porque não é fácil reduzir a poucas linhas uma conversa sobre o pior da política prisional, sobre os exemplos de resistência mais inspiradores, sobre ativismo e abolicionismo. A história de uma associação sem fins lucrativos serve de roteiro a uma viagem pelo interior das cadeias portuguesas, através das reflexões de um sociólogo capaz de demonstrar que a prisão e a sua ausência de humanidade estão no centro da organização social atual.

    António Pedro Dores, 60 anos, apresenta-se na sua página pessoal como “professor universitário, sociólogo, instalado na vida e com o sentimento de ser carro vassoura de uma sociedade que está a desaparecer”.

    Agitações nas prisões portuguesas

    Cruzámo-nos pela primeira vez com o investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do ISCTE, nos idos anos noventa, não nos corredores da academia, mas às portas das prisões. Como ativista participou na APAR (Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso), durante alguns meses de 1996, e no ano seguinte, com outros companheiros também saídos desta, fundou a ACED (Associação contra a Exclusão pelo Desenvolvimento), vindo a assumir os temas prisionais no centro da sua atividade profissional na viragem do milénio.

    Falar do percurso das prisões em Portugal leva naturalmente a um antes e um depois do 25 de Abril de 1974. Mas a distinção óbvia com as mudanças de regime político não evita que subsista na questão penitenciária um mesmo fio condutor e denominador comum que é a condição do preso.

    Desde os motins na década de 1980, com origem nos espancamentos infligidos pelos guardas aos presos, às revoltas e greves de fome no início dos anos 90 devido à sobrelotação prisional e ao colapso dos serviços básicos nas cadeias a auto-organização dos presos ganhava então uma dimensão até aí não vista. O próprio Diretor-geral das prisões, o juíz Marques Ferreira, ameaçado por máfias, é forçado a demitir-se declarando que “o sistema prisional chegou ao fundo e precisa de uma renovação total”. 1996 será o ano de todos os protestos nas cadeias. Rapidamente alastram greves de fome e ao trabalho, acompanhadas de milhares de assinaturas na reivindicação de melhores e dignas condições de vida dentro das prisões.

    É nesse contexto que é chamado para aplacar a situação Celso Manata mantendo-se no cargo até 2001. Os protestos esvaziam-se em 1996, depois da violência dos guardas perpetrada junto dos presos do Reduto Norte do Forte de Caxias, logo acusados de um motim que não foi provado em tribunal 13 anos depois, e será a mão férrea dos serviços prisionais que pautará as décadas seguintes que inauguram o novo século XXI. E atualmente Celso Manata voltou a assumir a liderança dos serviços prisionais.

    Vozes contra o silêncio

    É nas agitações de 1996 que surge o envolvimento de António Pedro Dores. E a coisa não começa bem. Vitor Ilharco à frente da APAR (inativa desde 1997 e reativada em 2012) deixará cair tudo por terra pelas acusações de aproveitamento financeiro em nome próprio que lhe são imputadas. Uma experiência muito negativa para Dores, que se afasta da APAR mas não do trabalho com as cadeias, “nessa altura, falando ao telefone com uma mulher que estava presa, ela perguntou: ‘como é que eu sei se o vigarista é o senhor ou se o vigarista é o outro?’ E eu percebi que ela tinha toda a razão. A partir daí tive de tomar uma posição que foi manter-me ativo. É portanto uma questão de honra”. Estamos em 1997 e nasce a ACED fundada por quatro pessoas que saíram da APAR “com a ambição de fazer um congresso, um congresso contra a exclusão pelo desenvolvimento, uma coisa magnífica em que juntaríamos todas as boas vontades do país para tratar das questões da prisão, que estavam na altura a ser reveladas, nomeadamente pelo provedor de justiça”. Destas quatro pessoas “uma delas era advogada, outra delas era um pai de uma pessoa que faleceu no quadro de intervenções policiais (e que entretanto ele próprio já faleceu), era eu e um homem que estava preso, o Alte Pinho.”

    A ideia era “com base nas denúncias que nos chegavam das cadeias fazê-las chegar às autoridades e estabelecer um diálogo que era impossível de outra maneira”. Editam o SOS Prisões para que “pudesse fazer crescer, por um lado junto dos prisioneiros, mas por outro lado junto da população livre, alguma informação sobre o que se ia passando. Em Sintra, o Director da cadeia permitiu a entrada de um computador, onde eles faziam o jornal. Aliás começaram a fazer o jornal para divulgar junto dos presos. O problema surgiu quando eles quiseram, ao fim de 3 meses, passar a ser um jornal para divulgar fora e o Diretor da cadeia foi pressionado pela DGSP (Direcção Geral de Serviços Prisionais) e entrou numa atitude de repressão. Retirou o computador às pessoas, fizeram uma campanha inventada de drogas, ou álcool, já não me lembro bem, mas lembro-me que a DGSP mandou dizer aos jornais que eu era traficante de drogas, lembro-me bem dessa parte!”

    O início da ACED resulta num momento marcante pela positiva para Dores: ”o encontro com o Alte Pinho, sem dúvida nenhuma. O Pinho não tem nada a ver comigo, mas soube responder-me como igual quando discordávamos, estando ele preso. É um homem que saiu da prisão e fez uma coisa extraordinária, quis ser activista. Não foi possível, mas ele quis. Nenhum dos outros tentou sequer. E isso é uma coisa que tem um valor extraordinário, de capacidade, de coragem, de dar a cara, de reconhecer a sua própria identidade”. Antes de sair “era ele quem, dentro das cadeias, ia trazendo informação”. Ao fazê-lo “a política da DGSP era transferi-lo. Cada vez que a direção achava que ele se portava mal, não havendo razão para um processo disciplinar, o que havia era uma transferência. Mas isso teve uma consequência, é que ele ficou a conhecer as cadeias todas do país, praticamente, e foi mantendo algum contacto com as pessoas que eventualmente tivessem possibilidade para o fazer. Estou a falar disto porque a generalidade dos presos não sabem ler, não sabem escrever, não sabem falar. Não têm ideia de quais são os direitos das pessoas. Era difícil na altura… talvez agora seja diferente” diz-nos, descrevendo a situação prisional portuguesa na qual “uma pessoa é muitas vezes abandonada no tribunal, outras vezes, certamente à entrada das cadeias, abandonada pelos advogados e não percebe sequer o que tem a fazer ou que direitos é que tem”.

    Nos anos que se seguem “nunca mais a tensão parou entre a ACED e a DGSP. Mas foi possível fazer o jornal durante 3 anos. Significava que, de alguma maneira, já não me recordo bem como, os artigos chegavam, compunha-se, apareceram apoios anónimos”. Como universitário António Pedro Dores passa a “fazer “investigação-ação”. Até que, “a determinada altura, o ministério da justiça faz chegar ao ISCTE, uma queixa por eu estar a utilizar o nome do ISCTE para efeitos de uma associação que eles entendiam que era… subversiva. A partir daí a minha vida foi outra em termos académicos, porque a escola entendeu, de uma maneira pidesca, como na altura disse, que devia acabar com os apoios que me dava para eu fazer investigação”. Ao mesmo tempo Dores avança com um processo-crime face a violação de correspondência da ACED pela DGSP. “O tribunal reconheceu que havia violação mas que, como a correspondência vinha da prisão, já não havia violação de correspondência, ou melhor, já não era crime. Isso está escrito”. A partir de então “ficou muito claro para mim que havia, no quadro da cadeia, duas leis: a lei da cadeia e a lei de fora da cadeia e os tribunais reconheciam essa impossibilidade das leis que funcionavam fora da cadeia funcionarem dentro”.

    A partir de 2001 a ACED procurar estruturar-se de forma mais consistente, mas, por entre o resistir a dirigismos partidários, acaba por se ver reduzida a um pequeno núcleo. António Pedro Dores conclui desse esforço de se alargar que “no caso das prisões, as pessoas podem apoiar muito, acham muito engraçado, mas ninguém se mexe, pedem desculpa mas têm de ficar na clandestinidade. Exatamente o que queriamos fazer era o contrário: fazer com que as prisões deixassem de estar na clandestinidade. Tudo isto tornou impossível a nossa missão”. Posteriormente com a saída de Alte Pinho para fora do país, a ACED ficará praticamente apenas nas suas mãos. “Foi-se mantendo muito à conta dos prisioneiros. Era impossível para mim deixar de responder aos telefonemas que iam surgindo”.

    Porém “em termos organizativos o isolamento era cada vez maior”. Ao mesmo tempo, “tanto o Ministério da Justiça, através da IGSJ (Inspeção Geral dos Serviços de Justiça), como o Provedor de Justiça, habituaram-se a receber as nossas queixas, habituaram-se a tratá-las, e mesmo os presos começam a dirigir-se-lhes. Criou-se uma dinâmica”. Centrada nesse reencaminhar das queixas, “achei que era um bocado redundante a atividade da associação, visto que grande parte da atividade que tinha existido, como por exemplo campanhas por uma sociedade sem prisões, conferências e relatórios anuais sobre a situação das prisões, tudo isso não foi sendo feito”. Debaixo da mira dos Serviços prisionais e com dificuldade para manter uma linha telefónica de apoio verdadeiramente operacional, a ACED fecha portas em 2016. Para António Pedro Dores o maior desconforto é verificar que “ao fim de 20 anos voltarmos ao mesmo, até com o mesmo director-geral [Celso Manata]. É um bocado desmotivante…”

    Experiências que marcam

    Ao longo deste percurso muitas são as histórias. A mais negativa é relatada ainda com angústia. “Certa vez recebemos a informação de que há um homem que está a ser ameaçado de morte em Vale de Judeus. Decidimos fazer um fax (não havia emails) para a provedoria de justiça a informar e, nessa altura, ao contrário do que era costume, não divulgar para mais ninguém para evitar que alguma coisa se precipitasse. O resultado foi que mataram mesmo o homem. Evidentemente a provedoria de justiça não tem nenhuma responsabilidade nisso, mas o que é verdade é que a morte que foi anunciada verificou-se e nós sentimo-nos impotentes, apesar de termos tentado fazer o que foi possível. A partir daí resolvemos fazer as coisas sempre de acordo com uma rotina normal e não termos mais problemas de consciência a esse respeito. Tudo quanto nos chega vai logo para todo o lado, independentemente de sabermos se é verdade, se é mentira, que foi aliás uma das queixas que nos começou por fazer o Provedor de Justiça”. A nossa resposta foi muito simples: “nós não somos obrigados a investigar, nós recebemos denúncias e somos obrigados a canalizar”.

    A denúncia dos nomes de guardas prisionais levou mesmo Dores aos tribunais. O “Sindicato dos Guardas Prisionais atacou-nos em tribunal, evidentemente com as costas quentes por alguma razão, a dizer que nós estávamos a insultar os serviços prisionais (os serviços prisionais que pelos vistos são representados pelo sindicato dos guardas)” até ter desistido da queixa no final de 2008 “por razões que talvez tenham a ver com o facto do ministro da justiça ter sido chamado a depor em tribunal“, evitando-lhe, assim, esse incómodo.

    Droga e repressão surgem sem grande surpresa na essência do sistema prisional. “Se falta droga dentro das cadeias a tensão aumenta de uma maneira explosiva. Além do consumo de drogas ilegais, nas prisões, há também os psicotrópicos para complementar alguma falha. Este tipo de mecanismo é evidentemente responsável pela situação geral nas prisões. Toda a gente lá dentro se orienta conforme pode, num quadro em que a linha de comandos está completamente quebrada e ninguém quer saber exactamente o que lá se passa. E portanto os resultados são estes”. A mesma situação que levou Marques Ferreira em 1995 a ir à televisão dizer que as prisões eram conduzidas por máfias, receber ameaças de morte e demitir-se, “mas sem nunca mais ter dito rigorosamente coisa nenhuma, imagino que para sua defesa pessoal e da sua família”. Daí para frente “houve uma maior discricionariedade dos serviços prisionais e da DGSP, através do GISP (Grupo de Intervenção dos Serviços Prisionais, uma espécie de polícia de intervenção prisional), para controlarem e para darem autoridade pela força ao Estado, porque a autoridade do Estado de facto estava em causa”. Ao invés, de forma pragmática sem esconder o que todos sabem, “e isso é importante, foi proposta da ACED, se os regimes abertos vigorassem em vez dos regimes fechados, o que aconteceria é que os mercados faziam por sua vez a limpeza daquilo. Se as pessoas pudessem comprar cá fora aquilo que estavam a comprar lá dentro, compravam mais barato, mais limpo, mais em condições e não permitia que os poderes absolutos dentro das prisões fossem o que são. Não foi essa a opção política. Evidentemente as consequências são aquelas que são, ou seja, continua exatamente tudo na mesma como estava há 20 anos atrás.”

    Essa opção prende-se com outro momento marcante para a ACED e que ocorre já no período em que o atual primeiro-ministro António Costa é entre 2005 e 2007 Ministro de Estado e da Administração Interna do governo de José Sócrates. António Pedro Dores lamenta “a mudança de política que António Costa impôs no sentido de repressão, porque ele podia ter imposto uma política oposta. Estava previsto na lei a possibilidade de alargar os regimes abertos virados para o interior (RAVI) ou os regimes abertos virados para o exterior (RAVE). Estava previsto na lei e era uma questão de organização, mas ele decidiu fazer outra coisa que foram alas de segurança em Monsanto, a prisão de alta segurança. Foi essa a opção para reagir aos homicídios que houve em Vale de Judeus e para reagir, sobretudo, às greves de fome, um pouco por todas as cadeias do país”.

    O bode expiatório

    O activismo de António Pedro Dores em torno das prisões é inseparável das prisões enquanto seu objecto de estudo. Como sociólogo faz parte daqueles que “fazem as críticas da teoria social”, mas afasta-se destes ao verificar que “nunca chegam à conclusão que eu cheguei: que é da ‘culpa’ ser a própria teoria social”. Vira o olhar critico para quem o formula e questiona os problemas dentro da sociologia inerentes ao estigma do bode expiatório. “Como é que se justifica a existência da sociologia? A sociologia é uma coisa que podia ser dispensada. Mas então porque é que apesar de tudo subsiste? Por que cumpre uma função, um papel. Esse papel é o da discriminação das pessoas. Muitos sociólogos dizem, com toda a clareza, que na sociedade somos todos iguais, certo, mas há que reconhecer que uns são mais iguais que outros. E então tudo se justifica com base nessa desigualdade”. Por considerar antes que o importante e a diferença para a teoria social é “explicar as coisas com base na nossa igualdade” observa como “mesmo os meus colegas que trabalham nas prisões, mesmo os que são favoráveis aos presos, fazem em relação a eles a reprodução do estigma, nomeadamente ‘qual é o crime que ele cometeu?’ e que é, afinal de contas, implicitamente, associar aquilo que o Estado produz como etiqueta de alguma pessoa, que eventualmente terá acontecido… Houve um preso que me disse uma frase sociológica de grande gabarito. Ele era assaltante de bancos. E disse ‘mas eu sou um gajo simpático a maior parte do tempo. Eu só assalto bancos de 15 em 15 dias e aquilo demora meia hora; o resto do tempo eu sou um gajo impecável’. Isso tem piada, mas ele tem toda a razão. Há gajos que fazem vida para lixar o resto da humanidade. E fazem-no a vida toda. Por que raio de carga de água é que vamos imputar a alguém, que durante um período de vida relativamente curto tem comportamentos estranhos, esquisitos, condenáveis, porque é que lhe vamos imputar a sua própria identidade, porque é que vamos impor o estigma a essa pessoa. Isto dá que pensar”.

    A hostilidade às prisões é uma questão com que se viu confrontado perante os seus colegas. Acentua que “o problema da crítica em relação àquilo que se passa nas cadeias é de uma profundidade extrema, de uma subtileza extrema, porque quando nós admitimos que há crime, e o crime como objecto, uma coisa que existe, mesmo que seja construído socialmente, mas que legitima a construção de bodes expiatórios, estamos imediatamente a entrar no jogo, e não temos forma de sair”. Precisamente como forma de o evitar e “para denunciarmos isto como uma prática desumana, temos de começar por compreender que o mecanismo do bode expiatório é humano. A ideia de que nós, quando as coisas correm mal, temos de pôr a culpa em alguém para nos aliviar a nossa própria responsabilidade. Para continuarmos a manter um estilo de vida que tínhamos anteriormente, ou para termos margem de manobra para fazermos mudanças sem nos pormos em causa. Esse mecanismo, que é um mecanismo psico-social, é um mecanismo que é preciso compreender, apontar, reconhecer, para que nas alturas em que isso acontece – e isso acontece todos os dias frequentemente e a todos os níveis – sejamos capazes de reagir de uma maneira que seja construtiva, e não antagónica”.

    O reconhecimento desse mecanismo expiatório “significa uma coisa muito simples” e pega nas palavras ditas “espantosamente ou não, por um expoente da direita, o velho professor salazarista Adriano Moreira: ‘que estamos a falar de um problema que é o centro do problema civilizacional que temos neste momento presente’.” Palavras proferidas “a propósito da justiça restaurativa, um projecto que foi apresentado e que pretende, no fundo, reconhecer a humanidade daqueles que estão presos, e que pretende, junto com as vítimas, estabelecerem uma relação que seja viável para as suas próprias vidas, em função do outro”. Um projecto e um conhecimento que para Dores é “indispensável para que sejamos capazes de ver claro o que precisamos de fazer hoje, perante as circunstâncias que temos, que são as de criação de bodes expiatórios, em quantidades industriais, para que se possa justificar tudo e para que possa ficar tudo na mesma, sem que ninguém se mexa”.

    Entre Lucifer e o Jubileu

    Se este problema está no centro do problema civilizacional, António Pedro Dores olha para o ser humano e o seu lado bom e lado mau. “O ser humano pelo facto de ser social, pelo facto de precisar de existir em comunidade tem, em relação às outras pessoas, relações negativas e positivas. É inevitável. Nós humanos e sociedade, temos duas grandes estratégias: desenvolver as relações negativas ou desenvolver as relações positivas. Vão subsistir as duas, mas nós, conscientemente, com os nossos esforços e capacidade de intervenção e de transformar a nossa própria natureza noutra coisa, podemos valorizar as partes positivas ou as partes negativas. Quando valorizamos as partes negativas, que é o caso do sistema criminal penal, vamos tentar identificar o que aquela pessoa fez para depois dizer que ela é a causa de todos os males que aconteceram naquele momento. Com a culpa daquela pessoa que assume para o resto da vida, como é o caso do sistema de encarceramento, estamos a valorizar o mal, de uma maneira que houve quem a chamasse o efeito de Lucifer”.

    Podemos fazer a coisa de outra maneira que é tentar ver o que há de positivo numa experiência que também tem alguma coisa de negativo. E isso, não sei se podemos chamar de educação, há quem chame de justiça restaurativa, há quem chame justiça transformativa”. O certo é que o que quer que se lhe chame é outra coisa distinta da prisão. “A prisão é a ausência de experiência. A prisão é a ausência de justiça. A prisão é a ausência de direito. A prisão é a ausência de humanidade. E, portanto, os resultados de um sistema destes só podem ser negativos. Como é que podiam ser positivos? Não é a ideia serem negativos?!”

    Impossível a António Pedro Dores responder sem hostilidades ao propósito do sistema prisional. “Melhora a sociedade? Não, não melhora. Mas esse é o objectivo? Não, o objectivo da prisão não é melhorar a sociedade, é safar aqueles que assumem responsabilidades e não as cumprem. Pois no outro extremo do espaço social está gente que promete mundos e fundos e não é capaz de cumprir. Mas é capaz de gritar que os criminosos estão ali e apontar com o dedo. É esse apontar com o dedo que distrai as pessoas das responsabilidades que os dirigentes assumiram perante as pessoas e que não cumprem. E portanto esse mecanismo, o mecanismo que permite que haja uma discussão política civilizada, entre gente bárbara que usa os poderes que tem para destruir a vida dos outros, por contraponto a outro mundo onde as pessoas não têm dignidade humana, e são reduzidas a lixo, é esse contraponto que permite que a população, enquanto sociedade, enquanto grupo, seja conduzida na necessidade de cumprir o seu desígnio de sacrifício, de abnegação, de castigar o culpado, e se dirija à prisão e não se dirija aos chefes”.

    Essa reflexão leva-o consequentemente a uma constatação reconhecendo-a como “uma lição histórica. Ou seja, muitas vezes as populações viram-se contra os chefes. E quando se viram contra os chefes, acontece uma coisa curiosa: as prisões abrem-se. Porque não havendo chefes não é preciso prisões para coisa nenhuma. Pelo contrário, quando se destroem os chefes, quando se acaba com aqueles que mandam, fica-se a saber, fica muito claro e até já se sabia antes, que aqueles que estão na prisão estão na prisão injustamente. Então abrem-se as prisões. E as sociedades vivem melhor durante o tempo do jubileu. Aliás, a gente tem a ideia do jubileu como uma coisa agradável, que é a ideia de acabar com as prisões, com as dívidas, com os sacrifícios e passarmos a estar livres dessas cargas, durante um período de tempo… Infelizmente, passado pouco tempo voltamos aos mesmos mecanismos, agora com outras legitimidades, com outras lógicas, com as outras justificações, para quê? Para voltar a justificar que há alguns que estão em cima e outros que estão em baixo, e os que estão em baixo é que têm a culpa de os que estão em cima terem prometido coisas que não fizeram. E esta lógica é uma lógica que deve ser denunciada e não sendo denunciada é reproduzida pelas prisões”.

    Da coacção social à Justiça Transformativa

    O recente Manifesto Para Uma Nova Cultura Penal do Observatório Europeu das Prisões, de que António Dores faz parte, aponta o dedo precisamente à falência dos mecanismos e uso das penitenciárias como instrumentos centrais de execução de penas, nada resolvendo quanto aos maus-tratos, à reincidência e aos seus elevados custos sociais e financeiros. Em alternativa defende a já mencionada “justiça restaurativa” e propõe algumas alternativas às prisões que passam por “redes de coacção social e profissionais susceptíveis de estimular a auto-responsabilização das pessoas envolvidas em práticas indesejáveis”. Impunha-se perguntar como usando o conceito de “coacção” seja possível interromper este ciclo de punição e estigmas de bodes expiatórios.

    Estas redes de coacção já existem. Por exemplo, o que chamamos de educação já é isso. E portanto estudar como é que elas funcionam, como podiam funcionar melhor, é uma urgência. Dito isto, eu não sou favorável à educação que existe hoje. Mas tenho de reconhecer que a escola não é uma prisão, embora às vezes pareça, mas não é a mesma coisa. Ou seja, esses sistemas de coacção existem”. Para os entender fala-nos de um texto sobre abuso sexual de crianças, “Para Uma Justiça Transformativa” da associação americana Generation Five, cuja tradução disponibilizou on line em 2014. Algo claramente delicado, mas que lida com o facto do sistema judicial “não estar preparado, não estar desenhado para resolver problemas como este, da violência doméstica em geral. Porque estão preparados para outras coisas, como por exemplo para gerir mercados, para controlar o assalto às propriedades, para controlar a violência entre pessoas, aí estão mais ou menos preparados. Agora para resolver problemas na privacidade, por definição não estão preparados, o espaço é público e o facto de se tornar público um crime que é privado, não tem resolvido problema nenhum. O que acontece é que não se quer dar a mão a torcer a e dizer que o sistema judicial não está preparado, nem formal, nem substantivamente, nem objectivamente, nem subjectivamente para coisas deste género. Ora bem, estes problemas existem e têm de ser resolvidos e são resolvidos, de muitas maneiras. Uma das maneiras de resolver é o machismo. Quem manda aqui sou eu e acabou a conversa, e muitas mulheres e homens alinham neste tipo de comportamentos e isso resolve o problema. Não resolve, evidentemente, da melhor maneira, certo, portanto tem que haver redes de coacção social para chamar atenção daquelas pessoas, que em privado assim se comportam que não pode ser. Como é que isso tem sido feito? Tem sido feito através de campanhas públicas, associações cívicas, associações de vítimas, etc. Há vários processos que podem ser levados a cabo”.

    E isso funciona? “Sim, funciona relativamente. Mas o problema é o seguinte, do outro lado não funciona. O lado de entregar isso à justiça não funciona. É preciso termos consciência de que se a sociedade não quer assumir as responsabilidades de ela própria tratar da sua própria segurança, seja isso o que for. No sentido de se nós que não queremos assumir o facto de combater o patriarcado enquanto sociedade, ou combater o abuso sexual, ou combater a violência doméstica, ou combater o bode expiatório dentro de nós, de que se nós não queremos combater ninguém vai combater. Pelo contrário, ficamos completamente abertos às políticas do medo, que nos vão ser negativas pessoalmente, mas sobretudo vão ser negativas para as pessoas mais fracas, mais frágeis, que não têm essas redes de coacção social que impedem que a violência seja dominante. Como, por exemplo, aqueles que estão a ser utilizados hoje para serem bodes expiatórios no sistema criminal – as crianças abandonadas, os estigmatizados de várias matizes, os imigrantes, etc. – os que estão mais isolados da sociedade, não por acaso os escolhidos para serem bodes expiatórios. É precisamente porque eles não têm redes sociais de coacção, estou a chamar de coacção, de que sejam capazes de se defender também nessas situações”.

    O entendimento de coacção não coloca nesta perspectiva António Pedro Dores contra o processo-crime, mas apenas quanto à forma vigente da execução penal e aponta mesmo uma forma de reformar o juízo criminal. “Porque a coacção não é só negativa. A coacção tem a ver com uma moralidade que se impõe, eu não conheço uma sociedade onde isso não exista, não espero vir a conhecer uma sociedade onde isso não exista. Agora a discussão do sentido dessa coacção, da moralidade, do direito, é fundamental. Independentemente das instituições? Talvez sim, talvez não. Quando as instituições servem, por exemplo, para identificar crimes, eu não tenho nada contra isso. Que elas sirvam depois para legitimar os crimes, para compensar os crimes, aí já tenho tudo contra. Se o tribunal diz ‘esta senhora cometeu um crime’, óptimo. Agora o que é que se vai fazer em relação a isso? Vamos pô-la num sítio onde se cometem crimes todos os dias! É absurdo mas é isso que se faz. Então como é que é possível romper com isso? Havendo redes sociais onde a declaração de um juiz possa ser apreciada, não acriticamente mas criticamente, para que eles não possam fazer as barbaridades que muitas vezes fazem, mas para que a sociedade se possa defender. O juiz então vai começar a depender do seu prestígio, da capacidade de tomar decisões decentes e passa a ser, não a pessoa mais importante do mundo para tomar decisões sobre a vida de outras pessoas, passa a ser uma orientação para a sociedade se organizar. E passa a ser uma sociedade muito diferente daquela que temos hoje. E portanto eu não tenho nada contra o processo-crime, estou de acordo que houve evoluções importantes. Por exemplo, em vez de a gente matar logo a pessoa, agora pergunta-lhe ‘o que é que aconteceu’. Acho que isso é uma coisa que tem vantagens! Portanto, se o tribunal ou a polícia fizerem isso, parece-me uma coisa boa! Agora se isso significa que a polícia agarra nele e vai matá-lo, em vez do outro que foi morto, então não vale a pena. Mas acontece com alguma frequência. E se o juiz acha que isso não tem nada a ver com o caso que está em causa, porque ele não tem que julgar a polícia, tem que julgar é o caso em concreto, então estamos no mundo da hipocrisia e da estupidez”

    Conclui assim que “quando nós estamos a falar de redes de sociabilização coactivas, estamos falar de redes que hoje são monopolizadas pelo Estado, e para elas não serem monopolizadas pelo Estado alguém tem de assumir essa responsabilidade. E essa responsabilidade deve ser assumida colectivamente. Colectivamente não significa justiça popular, como acabei de dizer, significa pelo contrário que a ideia de que vamos ficar melhor por punirmos, não vai resolver o problema. Já a ideia de identificar os culpados para digerir a culpa e a tratar socialmente, aí é um melhor caminho”.

    E ainda assim consideras-te abolicionista? Uma pergunta final a António Pedro Dores nesta conversa em torno das prisões. “Eu não estou muito preocupado com isso. Quando fiz parte da APAR e da ACED, percebi que não havia solução, não havia reforma prisional possível. Na minha opinião, não é tão importante as pessoas tomarem uma posição formal quanto à abolição das prisões, mas quando identificarem uma situação em que as pessoas estão a ser abusadas, reajam contra isso. Que se sintam repugnadas e isso as leve a encontrar formas de travar isso. E eu conheço muitas pessoas assim, que estão a fazer abolicionismo na prática. Eu prefiro de facto um abolicionismo com activistas a tomarem iniciativas, do que um abolicionismo com pessoas tão radicais que não se consegue discutir ou fazer nada com eles. O manifesto que aqui apresentamos não é de facto abolicionista. É um resultado do Observatório Europeu das Prisões, em que existem pessoas que se dizem abolicionistas e pessoas que dizem que não. Há muito poucas pessoas a querer trabalhar neste assunto. Por isso, se a questão do abolicionismo serve para as dividir, eu não vou por aí. As reformas existem, aliás, a prisão serve, de acordo com a lei, para a reinserção social. Mas agora os serviços de reinserção social nem existem… toda a gente sabe que isso é uma fachada e dizer que a prisão serve para a reinserção social de alguém é uma hipocrisia”.

    Este ano deu por encerrado esse capítulo da sua vida que foram os 19 anos da ACED. Duas décadas de apoio aos presos e uma linha telefónica que ainda hoje recebe chamadas. Mas a denúncia do sistema prisional e a busca de alternativas prossegue-a nas aulas e no Observatório Europeu das Prisões. Diz-se “esperançado que as boas sementes da ‘imaginação ao poder’, dos ‘direitos humanos’, de ‘todos iguais, todos diferentes’, do ‘outro mundo é possível’ possam ajudar-nos a reflorir por dentro e por fora, tornando a luta diária numa oportunidade de bem estar, em vez de apenas uma obrigação de sobrevivência”.

  • Panegírico a Zeca Afonso

    Panegírico a Zeca Afonso

    A Associação José Afonso (AJA) [ref]Apresentada publicamente nove meses depois da morte de José Afonso. A AJA “é uma associação cultural e cívica, não confessional, formada em torno da memória e do exemplo de José Afonso”, propondo-se, como primeiro objectivo, “dar a conhecer, nas suas múltiplas facetas, a personalidade e o papel de José Afonso e promover a difusão da sua obra”. Conta com 13 núcleos em funcionamento de norte a sul do país e uma página web (goo.gl/p0O1Pv) que divulga a actividade relacionada com os seus objectivos, onde pode consultar-se um acervo de documentação e ouvir on-line grande parte da obra de José Afonso.[/ref] dirigiu à imprensa um apelo de evocação dos 30 anos da morte do “poeta, andarilho e cantor” e de  divulgação da sua obra. O jornal MAPA aceitou com agrado a invocação e dedica o Retrovisor, desta edição e das próximas, à memória de José Afonso. Os artigos nutrem-se em várias das entrevistas por ele concedidas e divulgadas nos jornais, na rádio e na televisão; em vários livros e artigos publicados sobre ele ou a sua obra; e nalgumas recordações do autor.


    José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (José Afonso, Zeca Afonso) nasceu em Aveiro em Agosto de 1929, ainda Salazar não tinha tomado o controle da ditadura que viria a ser derrubada pelo golpe militar de 25 de Abril de 1974, quase quarenta e cinco anos depois. Já não era moço quando aquela que, hoje, é a mais conhecida das suas obras, “Grândola, vila morena”, serviu de senha indicadora de que as operações militares passavam a estar em marcha irreversível e marcou indelevelmente o processo por elas iniciado.

    O 25 de Abril não teria sido o mesmo sem a “Grândola”. As mensagens contidas nos seus versos, “…terra da fraternidade, o povo é quem mais ordena, dentro de ti ó cidade… em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade…”, ainda que de forma subliminar, deram um mote para o novo tempo que começava, do mesmo modo que funcionaram como contraponto aos apelos à população para que se mantivesse em casa, incluídos nos comunicados do posto de comando do MFA. E aparentemente não houve intenção deliberada nesta escolha, uma vez que a canção de José Afonso inicialmente escolhida por Otelo para o segundo sinal rádio do 25 de Abril era “Traz outro amigo também”, substituída à última hora pela “Grândola”, porque esta não estava proibida pela censura.

    Até chegar a este ponto, José Afonso tinha vivido uma vida rara. Oriundo de uma família da pequena burguesia (o pai, José Nepomuceno Afonso, era magistrado de direito ultramarino e a mãe, Maria das Dores Dantas Cerqueira, professora primária), resumiria em poucas palavras, numa entrevista publicada num momento em que a doença que o vitimaria já o impedia de fazer uma vida normal, a consciência que tinha de si mesmo: “Sou um pequeno-burguês, filho de um juiz do Supremo que fez carreira nas colónias. Isto e uma infância vivida na solidão deixa marcas de cuja importância só nos damos conta muito mais tarde”; e dissipava possíveis dúvidas sobre a avaliação que fazia do seu próprio percurso, acrescentando: “Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz[ref]Entrevista a José Amaro Dionísio, in Expresso, 15 de Junho de 1985.[/ref].

    José Afonso teve uma infância e uma adolescência atípicas, marcadas por longas separações do convívio com os progenitores, colocados nas colónias. Em períodos alternados com as estadias em Angola e Moçambique, foi acolhido pelas famílias de quatro tios e tias, em Aveiro, Belmonte e Coimbra. Ali, quando ainda era estudante no curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras, casou-se sem o conhecimento prévio dos pais, com uma jovem costureira de condição humilde, Maria Amália, mãe do seu primeiro filho, José Manuel, e da sua filha, Helena, de quem viria a separar-se no final da década de cinquenta. Este casamento motivaria um corte de relações durante algum tempo por parte do pai. Estes e outros aspectos da sua biografia não serão aqui aprofundados por falta de espaço, pelo que remetemos o leitor para as obras biográficas publicadas[ref]“José Afonso o Rosto da Utopia”, por José A. Salvador, Edições Afrontamento, Porto, 1999; “Zeca Afonso, As Voltas de Um Andarilho”, por Viriato Teles, Ulmeiro, Lisboa, 1999; José Afonso. Um Olhar Fraterno, por João Afonso, Editorial Caminho, Lisboa, 2002; página web da AJA, Associação José Afonso.[/ref], onde transparece a vida intensa, mas nada fácil de Zeca Afonso.

    Desde a época de estudante liceal destacara-se na interpretação dos temas clássicos do fado de Coimbra[ref]No Liceu D. João III conheceu António Portugal e Luis Goes, futuros companheiros de andanças musicais e, também, protagonistas da “nova vaga” do fado de Coimbra.[/ref], em serenatas e festas de aldeia. O matrimónio não o afasta da boémia coimbrã, mas com o nascimento do seu primeiro filho, em 1953, viu-se obrigado a buscar trabalho para sustentar a família, fazendo revisões e dando explicações, ao mesmo tempo que prosseguia os estudos universitários. Neste ano gravou em disco os primeiros fados de Coimbra e iniciou o cumprimento do serviço militar obrigatório. A “falta de aprumo militar” determinou que fosse o último classificado do seu curso de oficiais milicianos. “Aqui dentro parecemos bonecos articulados que se encontram nas barracas das feiras e que saltam quando o tiro acerta no alvo: o meu tenente dá licença para aqui, o nosso capitão permite-me para acolá”, escrevia para Moçambique numa carta aos pais, onde também lhes solicitava o envio de 1500 escudos à Maria Amália, que permanecera em Coimbra com o filho. Quando despiu definitivamente a farda do exército, em 1955, e retomou os estudos para concluir o curso, já tinha nascido a sua filha Helena.

    A falta de dinheiro para a sobrevivência da família levou-o a interromper os estudos em 1957, iniciando a sua actividade docente, como professor de História, num colégio particular, em Mangualde, onde foi encontrar um mundo substancialmente diferente do ambiente coimbrão, em que tudo gravitava à volta do universo estudantil. Ali verifica que os professores e directores acabavam por ser menos repressivos que o sistema familiar: “Lambada em carne fresca é que é preciso. Arreie-lhe sô professor…[ref]“Zeca Afonso, As Voltas de Um Andarilho”, por Viriato Teles, p. 44,Ulmeiro, Lisboa, 1999.[/ref]. O convívio com esta nova realidade trouxe-lhe a oportunidade de iniciar a pesquisa de temas da música tradicional portuguesa. Uma versão popular de “Milho verde”, um dos temas do álbum “Cantigas do Maio” gravado alguns anos depois, recolheu-a de um aluno naquela vila beirã. Este primeiro contacto com o ensino permitiu-lhe aperceber-se também das contradições para as quais não estava preparado técnica e profissionalmente como professor. Contudo, o gosto por ensinar ajudou-o a sublimá-las, prosseguindo a docência numa peregrinação que o levou sucessivamente a Aljustrel (apesar de ter estado ali apenas alguns meses, teve uma despedida multitudinária na estação dos caminhos de ferro, por parte de estudantes e populares), Lagos, Alcobaça e Faro (onde o contacto com os trabalhadores-estudantes dos cursos nocturnos lhe abriu novas vias na sua experiência). Mais tarde, já depois de expulso do ensino oficial, expressava a sua opinião sobre aquela actividade a que estivera ligado dez anos: “um ensino de rotina, um ensino de quadro preto, um ensino verbalista, não me interessava, é pouco criativo. Até mais: o ensino destrói a criatividade tanto do próprio professor como do conjunto dos alunos”[ref]Entrevista a A.-P. Vasconcelos, E. G. Carneiro e J. A. in Cinéfilo n.º 8, Lisboa,1973.[/ref].

    O papel transformador de José Afonso no panorama musical português começou com o desvio ao fado de Coimbra, considerado por ele “demasiado sebentarizado” (numa alusão às famosas sebentas das cadeiras dos cursos, limitativas do universo de consulta dos alunos, nas quais era cristalizada a ideia de que existe uma só verdade: a que sai da boca do professor). Como intérprete desta canção tinha atingindo um nível de reconhecida qualidade, materializado na gravação de três discos, entre 1953 e 1956. No final daquela década, para José Afonso, o fado de Coimbra, cujas formas considerava já esgotadas, “atingira uma fase de saturação”[ref]Entrevista a José Armando Carvalho, in Comércio do Funchal, 1 de Junho de 1970.[/ref]. Paralelamente, começara a manifestar o seu desacordo com “uma certa mentalidade que atribuía ao estudante de capa e batina um papel singular, a quem eram permitidas atitudes que de forma nenhuma se perdoariam aos populares”[ref]Entrevista à RTP em 1980.[/ref]. Da conjugação destas duas conclusões surgiria a nova canção coimbrã, que trazia associada uma posição frontal contra a praxe estudantil. No plano musical, alterou o acompanhamento instrumental tradicional, “com a guitarra de Coimbra, parecia que tocava com arame farpado”, privilegiando a viola, que o deixava mais livre para fazer a sua música; e substituiu a mensagem dos fados clássicos pela sua própria poesia ou por temas baseados na música popular portuguesa. Para distinguir esta sua nova expressão denominou-a de “baladas” e passou a cantar sem capa e batina, considerada grave infração à praxe coimbrã, o que lhe valeu muitas ameaças e conflitos. Mais tarde chegará a afirmar: “o fado de Coimbra não me marcou nada (…), era um pretexto para a malta cantar de noite, levar uns garrafões de vinho, beber umas aguardentes, fazer umas viagens com a Tuna e o Orfeão e pouco mais”[ref] Entrevista a A.-P. Vasconcelos, E. G. Carneiro e J. A. in Cinéfilo nº 8. Lisboa,1973.[/ref].

    José Afonso era um compositor autodidata dotado de um instinto musical que lhe permitiu criar uma vasta obra sem ter formação específica, sem escrever música: “só sei dois ou três tons de viola, de modo que componho de cor, imagino as melodias… e realmente acato muito as apreciações das pessoas em quem deposito confiança”. Era professor em Faro, quando gravou o seu primeiro disco em 45 rotações, “Balada do Outono”(1960)[ref]Com Rui Pato à viola, que o acompanhará como instrumentista nos anos seguintes.[/ref]. As canções já não eram fados de Coimbra, tanto na temática como na interpretação, e anunciavam que algo ia mudar na música portuguesa. A “Balada do Outono” é considerada um exemplo de transição entre o fado e a balada, curiosamente no refrão dizia: “Águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar”. Voltou com mais baladas em 1962, já tinha começado a guerra em Angola e vivia-se o ambiente da crise académica, com contestações estudantis violentamente reprimidas, que se prolongaram por todo o ano e que contribuiriam para o envolvimento na contestação política e cultural ao Estado Novo de muitos da sua geração, alguns dos quais chegariam a posições de poder no Estado depois do derrube da ditadura. Este segundo EP, designado simplesmente “Baladas de Coimbra”, inclui “Menino d’oiro”, dedicada ao seu primeiro filho. No ano seguinte gravou o disco que surpreenderá todos aqueles que participavam no movimento de transformação da canção coimbrã. A designação repete-se: “Baladas de Coimbra”; inclui dois temas, “Menino do bairro negro” e “Vampiros”, que foram as bases estéticas[ref]Às quais se junta “Trova do vento que passa”, poema de Manuel Alegre musicado por António Portugal e interpretado por Adriano Correia de Oliveira, perseguindo ainda de perto a linha melódica do fado de Coimbra.[/ref] de uma intervenção de protesto através da música, que não parará de crescer. O alcance destas canções revela a genialidade de Zeca Afonso, expressa na simplicidade da música popular. A sua modernidade pode ser verificada hoje e enquanto perdurar a injustiça, a exploração e a repressão. É claro que artilharia deste calibre tinha de ser silenciada, a censura do Estado Novo rapidamente as proibiu, mas essa decisão já não podia impedir o aparecimento desta nova expressão da música portuguesa. Por esta altura José Afonso começara a frequentar colectividades e a cantar regularmente nos meios populares. De uma destas actuações, em 1964, na Sociedade Fraternidade Operária Grandolense, proveio-lhe a inspiração para compor a “Grândola, vila morena”.

    A angústia provocada pelo afastamento dos filhos, que se encontravam à guarda dos avós paternos em Moçambique depois da separação, levou Zélia, a companheira com quem vivia depois da sua ida para Faro, a sugerir-lhe a partida para a capital moçambicana. A sua chegada a Lourenço Marques, hoje Maputo, coincide com o início da luta armada contra o colonialismo português: “quando em 1964 fui para Moçambique estava interessado em conhecer as pessoas e o país em que ia trabalhar. Porque eu já considerava aquilo um país, com a identidade própria que o caracterizava. Tinha uma vaga percepção de que era uma realidade intocável, diferente da nossa, e que aquela é que estava certa naquele meio e naquele ambiente”[ref]Zeca Afonso, As Voltas de Um Andarilho”, por Viriato Teles, p. 48, Ulmeiro, Lisboa, 1999.[/ref]. Apercebeu-se como professor que havia duas realidades completamente distintas: aquilo que ia ensinar não tinha nada que ver com a maneira de estar dos africanos na sua própria terra, nem com o seu passado. Conviveu com intelectuais moçambicanos e passou a frequentar os subúrbios, onde conheceu, ouviu e gravou a música local. Para além da sua actividade de professor do ensino oficial, dava aulas, acompanhado por Zélia, num centro associativo de negros. Eram os únicos brancos a desenvolver tal actividade e, como era de esperar, a reacção dos interesses instalados não se fez esperar, sendo transferido compulsivamente para a cidade da Beira, no litoral da parte central da colónia. Aqui assistiu revoltado às manifestações festivas dos colonos portugueses que exultavam pela declaração unilateral da independência da Rodésia. Continuou as actividades de recolha e registo das envolvências dos bairros africanos, da sua música e dos seus costumes, alimentando-se da sua cultura, o que lhe serviria para composições futuras, como “Lá no Xepangara”, uma bela canção-retrato da vida de um bairro de tabancas no tempo colonial. Com o seu irmão João Afonso e os amigos do cine-club local encenaram “A excepção e a regra”, de Brecht, com música da sua autoria. Sob observação permanente da PIDE, vivendo um sistema colonial para si insuportável por mais tempo, José Afonso, em 1967, decide regressar a Portugal com Zélia, Helena e a sua filha Joana, ali nascida em 1965; Zé Manuel fica ao cuidado dos avós e da sua irmã Maria. Regressava com o objectivo de retomar a sua actividade de professor em Faro e não fazia ideia exacta de que as suas canções tinham continuado a escutar-se e a ser cantadas nos ambientes da oposição ao regime.

    Quando o barco atracou no cais de Alcântara, a única pessoa que o esperava era um jornalista da rádio, Adelino Gomes, a quem declara estar na disposição de ser exclusivamente professor, porque era seu propósito firme abandonar as cantigas. Este informa-o que havia grandes expectativas à volta dele, ao que Zeca respondeu: “Vou para o Algarve, vou deixar de cantar, porque isto de cantar não quer dizer nada, não interessa a ninguém”; explicando-lhe ainda que não lhe daria a entrevista que lhe solicitava porque já não se considerava um cantor. Perante a insistência: “Mas você não pode deixar de cantar, você é extremamente importante, para os estudantes, para a malta, aquilo que você canta diz-nos tanto, é através da sua voz que nós chegamos lá. Nós na rádio quando queremos dizer qualquer coisa dizemo-lo através das suas canções”[ref]Entrevista a Joaquim Vieira, documentário “Maior que o pensamento”, parte II, 2011.[/ref], lá lhe deu a entrevista. José Afonso referir-se-á mais tarde a esta importância “exagerada” que encontrou no regresso de Moçambique “fui rodeado por um mito quase sebastianístico (…) constatei com alguma surpresa, que à minha volta se formava um clima de expectativa, como se eu viesse trazer alguma coisa de novo (…) Parecia que as pessoas queriam manifestar-se e não sabiam como. E agora estava ali um tipo que falava em vez deles[ref]Entrevista à Vida Mundial, 15/12/72.[/ref].

    Regressou a Faro para exercer a actividade docente, mas pouco depois foi colocado em Setúbal. A chegada à cidade do Sado implicou um envolvimento nas actividades dos círculos mais variados da oposição ao regime, participando com outros dos cantores da música de protesto[ref]Participavam nessas sessões Manuel Freire, José Jorge Letria, Francisco Fanhais e Benedito Garcia. A quem nos anos seguintes se juntam Fausto, Vitorino, A. P. Braga, Carlos Moniz e Nuno Santos.[/ref] nas sessões de convívio cultural nas colectividades populares da Margem Sul e em actos das associações e pró-associações de estudantes de Lisboa, nas quais o PCP como organização clandestina tinha a maior influência. As condições técnicas em que estas actividades decorriam eram muito precárias, a maior parte das vezes nem microfones havia, e muito menos “cachet”, quase sempre vigiadas e muitas interrompidas ou proibidas pela PIDE. Por esta altura foi convidado a aderir ao PCP. Declinou o convite, uma das atitudes ilustrativas da sua rebeldia permanente e do seu imaginário sem rédeas, incompatíveis com a disciplina partidária. “Sou o meu próprio comité central”, sublinhava nas conversas com companheiros e amigos sempre que o tema aflorava.

    Toda esta actividade resultou num esgotamento que o levou ao internamento hospitalar durante 20 dias. Quando voltou a casa tinha sido expulso do ensino oficial por motivos políticos. De modo fortuito, por mais paradoxal que possa parecer, esta decisão do aparelho repressivo salazarista deu-lhe mais um empurrão para as cantigas. Confrontado com as necessidades da sobrevivência, viu-se obrigado a repensar a continuação da carreira musical, interrompida quando da ida para Moçambique, e profissionalizou-se. O contrato com a Orfeu, discográfica que teve a coragem de o editar, apesar dos riscos de ver os discos apreendidos pela censura, é sui generis: contra o pagamento de uma mensalidade, José Afonso tinha de gravar um álbum por ano. Contrato que cumprirá. Passa a viver uma situação original: era profissional do disco, mas não se considerava um cantor profissional porque não cantava em espectáculos. Compensava esta ausência dos palcos cantando em sessões populares e em colectividades de cultura e de recreio, onde vivia experiências diferentes “há mais qualquer coisa para lá das canções (…), uma esfera afectiva, comunitária, que é propensa ao despertar de uma série de preocupações (…), os sectores que consomem a minha música gravada são menos extensos do que aqueles que a ouvem[ref]Entrevista a A.-P. Vasconcelos, E. G. Carneiro e J. A. in Cinéfilo, n.º 8. Lisboa,1973.[/ref]. Os relatórios do posto da PIDE em Setúbal enviados para a sede, em Lisboa, revelam a vigilância permanente a que estava sujeito. “Além de bastante conhecido pelas canções subversivas que compõe e interpreta”, está referenciado em inúmeras reuniões clandestinas, desenvolve larga atividade nos meios ‘culturais’, ‘democráticos’, e recebe em casa muitos indivíduos estranhos, alguns deles estrangeiros, principalmente espanhóis. Sai de casa normalmente depois do almoço, instala-se na esplanada do Café Central, junta imediatamente à sua volta larga assistência de ‘jovens’, aos quais vai insinuando a sua doutrina, provocando a maior desorientação nesse meio”.

    De 1968 a 1974, pelo Natal, José Afonso publicou todos os anos um álbum. Com “Cantares de Andarilho”, “Cantos Velhos Rumos Novos” e “Traz outro amigo também[ref]Álbum que teve a colaboração de Carlos Correia (Bóris), por impedimento de Rui Pato que cumpria o serviço militar.[/ref], produziu uma transição no seu percurso estético-musical, recuperando formas musicais e poéticas ancestrais, e alargou o acompanhamento musical a novos instrumentos. Para além da sua poesia, cantou vários poetas portugueses, autores surrealistas e versões de temas da música tradicional portuguesa.

    Em 1971, quando embarcava para gravar em Paris o álbum “Cantigas do Maio[ref] Inicia a colaboração com José Mário Branco, produtor deste álbum.[/ref], foi detido no aeroporto pela PIDE e interrogado durante um dia sobre a distribuição de um manual de guerrilha urbana, ficando preso e incomunicável durante outros vinte dias, naquela que foi a mais prolongada das suas várias detenções.

    No Natal de 1972 foi lançado o álbum “Eu vou Ser Como a Toupeira”. Poucos dias depois, no final do ano, na Capela do Rato, Zeca apoiava uma acção de jejum contra a guerra colonial coordenada por um grupo de “católicos progressistas”, com ocupação das instalações do espaço religioso, mantendo as portas abertas a todos aqueles, crentes e não crentes, que desejassem debater o problema da guerra colonial, manifestando assim o crescente mal-estar provocado por uma guerra injusta e sem saída. Nesta acção participaram também as Brigadas Revolucionárias, com a colocação de petardos, cujo rebentamento provocava a distribuição de panfletos com a informação do acontecimento, em vários locais estratégicos de Lisboa e da Margem Sul. Dias antes da ocupação da Capela do Rato o Exército português tinha massacrado as populações civis das aldeias de Wiriyamu, Juwau e Chawola, em Moçambique, soube-se meses depois.

    No decorrer deste período de dedicação já exclusiva à actividade musical, cantou em Madrid e Barcelona, nas Astúrias e Galiza (onde pela primeira vez, em 1972, interpretou em público a “Grândola”), França, Bélgica, Inglaterra, Cuba e no Brasil (em representação de Portugal no VII Festival Internacional da Canção Popular, depois de ter sido escolhido pelos votos dos leitores do Diário de Lisboa, interpretando “A morte saiu à rua”, uma canção que evocava o assassinato do escultor Dias Coelho, militante do PCP, pela PIDE, uma actuação a que o público reagiu mal, reação enfatizada na imprensa do regime). Nos países europeus actuava junto aos núcleos da emigração e mantinha contactos com a diáspora no exílio. Ficou conhecido um episódio provocatório, protagonizado por militantes afectos a uma organização maoísta, num concerto designado “Chanson de Combat Portugaise[ref]O concerto pode ouvir-se na íntegra aqui: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/concerto-la-chanson-de-combat-portugaise/.[/ref], realizado na sala parisiense La Mutualité, em Novembro de 1970. Começou com a distribuição de um panfleto à entrada em que acusavam Zeca de pactuar com o regime e com essa atitude poder continuar a viver em Portugal e a gravar discos. As provocações continuaram durante as actuações de Sérgio Godinho, José Mário Branco, Tino Flores, Luís Cília e, quando chegou a sua vez, Zeca Afonso perante as “bocas” que interrompiam as canções, desafiou os provocadores a ir ao palco e o concerto acabou à lambada.

    Em Abril de 1973 José Afonso seria preso de novo, durante 20 dias, período em que compôs parte das canções do disco “Venham mais cinco”, editado no final desse ano. Esta nova detenção ocorreu poucos dias depois do 3º Congresso da Oposição em Aveiro, no qual tinha participado e cantado. A propósito das suas detenções e da perseguição que o regime movia aos seus opositores, afirmaria mais tarde numa entrevista: “estive incomunicável, mas nunca me torturaram fisicamente. Alguns intelectuais afirmam ainda hoje que a minha geração foi muito castigada, mas eu não penso isso. Mesmo a repressão foi adaptada aos bons costumes deste povo. Não se mata um governante em Portugal há 75 anos. Isso diz tudo, se pensarmos que tivemos o regime fascista mais longo da história contemporânea[ref]Entrevista a José Amaro Dionísio, in Expresso, 15/6/85.[/ref].

    A 29 de Março de 1974, iniciava-se com meia hora de atraso, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, o primeiro Encontro da Canção Portuguesa, com a participação dos cantores[ref]Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Fausto, José Jorge Letria, José Barata-Moura, Fernando Tordo, Carlos A. Moniz e Vitorino. Participaram também, entre outros, o poeta Ary dos Santos e o compositor e guitarrista Carlos Paredes. Os impedidos de estar presentes: José Mário Branco, Sérgio Godinho, Francisco Fanhais e Luís Cília foram evocados por Adriano e fortemente aplaudidos pelo público. [/ref] da oposição ao Estado Novo que estavam no país. Esta demora devia-se às diligências de agentes da censura e do Director-geral dos Espectáculos que nos bastidores sugeriam aos organizadores, a Casa da Imprensa, o “bom senso de cancelar o espectáculo”, com o argumento de que a censura tinha recusado dezenas de canções, proibindo que se cantassem versos de algumas outras. A situação era bastante tensa e o Coliseu, com a sala de espectáculos a abarrotar com mais de seis mil espectadores que pateavam e entoavam canções proibidas, estava cercado por centenas de elementos da polícia de choque, equipados com canhões de água e de tinta azul, bastões, gás lacrimogéneo, polícias a cavalo e cães. Na rua, espalhadas pelas imediações estavam mais de mil pessoas, que não arredavam pé, apesar de impossibilitadas de entrar na sala. José Afonso, tido entre os seus pares como o fundador do movimento de música de protesto, encerrou a sessão cantando “Grândola, vila morena” e “Milho verde”, os únicos temas que lhe foram autorizados. Logo a seguir, com todos os outros músicos no palco de braços entrelaçados, oscilando da esquerda para a direita, em cadência alentejana, no que foram imitados pelo público, foi cantada de novo a “Grândola, vila morena”. Sem pausa nem transição, os últimos versos da canção fundiram-se, entre aplausos, com os primeiros do refrão do hino nacional, “às armas, às armas, sobre a terra sobre o mar, às armas, às armas…[ref]Pode ouvir-se parte substancial do concerto, editado, aqui.[/ref], entoado pelo público num clima de grande emoção. O canto prolongou-se pelas ruas limítrofes, à medida que os assistentes iam abandonando o Coliseu, com a sensação de que a situação do regime era insustentável e algo estava a mudar.

    Vinte e seis dias depois, “Grândola, vila morena” era emitida pelos emissores do Rádio Clube como sinal para o início das operações militares do golpe de Estado de 25 de Abril, mundialmente conhecido como “A Revolução dos Cravos”, convertendo-se logo a seguir no seu hino. Passados quarenta anos ressoa para silenciar discursos de ministros e em manifestações de resistência e protesto em Portugal e além fronteiras[ref]A 16 de Fevereiro de 2013, na Plaza del Sol em Madrid, “Grândola, vila morena” foi cantada no decorrer de um acto da Plataforma de los Afectados por las Hipotecas, PAH.[/ref]. Enquanto houver força, “cantai rapazes, dançai raparigas e vós altivas cantai também”.

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    Segunda Parte: Do 25 de Abril ao 25 de Novembro

    Terceira parte: O Canto do Cisne

  • Está aí o nº 15 do Jornal MAPA (Janeiro-Março 2017)

    Está aí o nº 15 do Jornal MAPA (Janeiro-Março 2017)

    O Jornal MAPA navega em águas turbulentas para compreender o futuro das portas de entrada na Europa.

    Portos, Petroleiros e Metaneiros: entre as greves dos pescadores contra a poluição em Sines nos anos 80; o 14º aniversário da catástrofe do Prestige ao largo da Galiza e o desenvolvimento da actual economia dos combustíveis não-convencionais | A luta dos imigrantes, as consequências da agroindústria: escravatura e degradação ambiental | e a agricultura bio como alternativa ao produtivismo capitalista | A resistência dos índios Sioux contra o Dakota Access PipeLine | José Afonso: poeta, andarilho e cantor | Salvar Doñana | Terrorismo:os suspeitos do costume | A história do arame farpado | Carta ao meu vizinho que fez a guerra colonial | …

    A começar a circular nos locais habituais e a seguir para os assinantes que apoiam este jornal de informação critíca
  • Fronteiras: lucrar com a tragédia

    Fronteiras: lucrar com a tragédia

    No campo político europeu, a chamada crise dos refugiados parece aproveitar acima de tudo à extrema-direita, que sempre soube explorar os sentimentos de populações acossadas. No entanto, em termos económicos, há um outro grupo de interesses que, longe dos holofotes mediáticos, tem prosperado com esta situação: falamos das indústrias do sector da defesa. O tipo de resposta privilegiado pela União Europeia (UE), a consagração conceptual e real da “Europa-Fortaleza”, representa uma enorme benesse para as empresas deste sector, que fornecem às forças que controlam e policiam as fronteiras europeias, equipamentos, treino, sistemas e tecnologia. No reverso da medalha, se olharmos para o aumento de 61% nas exportações de armas para o Médio Oriente entre 2006-10 e 2011-15, é sem espanto que repararemos que são exactamente muitas das mesmas empresas que, garantindo que não faltam armas, alimentam os conflitos dos quais muitos dos refugiados fogem.

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    O controlo fronteiriço.

    Antes de mais, há que abordar criticamente a ideia de “crise dos refugiados”. É verdade que nunca houve tanta gente a tentar chegar à Europa. No entanto, a novidade fica-se aqui pelo destino e nem aí é absoluta: em finais de 2015 havia, de acordo com a Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), cerca de 60 milhões de refugiados no mundo. A imensa maioria destes mantém-se nos próprios países de origem ou em países limítrofes. Durante todo esse ano, à Europa chegou pouco mais de um milhão de pessoas, ou seja, uma ínfima parte da totalidade. A haver no entanto uma tendência assinalável, seria esta: há 10 anos, os países que não pertencem ao mundo rico alojavam 70% dos refugiados mundiais; em 2014 já alojavam mais de 86%.

    Assim, aquilo a que por aqui de forma umbiguista se chama “crise dos refugiados” é infelizmente o dia-a-dia de dezenas de milhões de pessoas há muitos e muitos anos. Esta designação e o enfoque mediático recebido surgem porque, por uma vez, a Europa rica vê esbarrar contra as suas muralhas os corpos das vítimas da sua riqueza, vê desaguar nas suas praias os cadáveres da sua prosperidade. Confrontadas com isto, a resposta das elites europeias é a de todos os poderosos quando os miseráveis avançam sobre os seus territórios: meter trancas à porta(1). Esta tendência securitária e de militarização das fronteiras não é no entanto novidade. As bases da actual política fronteiriça foram lançadas em 1985 com o Tratado de Schengen, onde a abertura gradual das fronteiras internas era já acompanhada pelo controlo cada vez mais apertado das externas. Foram estas as linhas base que em 1999 passaram a lei na UE, com o Tratado de Amesterdão. A partir de 2004, o Programa de Haia, definiu a agenda para as áreas “de liberdade, de segurança e de justiça”, priorizando a luta “contra a imigração ilegal”, falando-se já então de “cooperação com países terceiros” ou de “gestão integrada das fronteiras externas da União”.

    Um efeito concreto destas políticas é hoje a Eurosur, (o “sur” no nome vem da palavra “surveillance”, vigilância em inglês). Menina dos olhos da “Europa-Fortaleza”, este sistema dos sistemas de vigilância fronteiriça foi lançado oficialmente em Dezembro de 2013. Tem como objectivo primário a partilha, em tempo real, de imagens e dados obtidos por satélites, drones. aviões e outros sensores, entre Estados membros da UE, através de uma rede de Centros de Coordenação Nacional, coordenada pela Frontex, a agência fronteiriça europeia. É importante notar que embora a Frontex esteja legalmente obrigada a disponibilizar informação e documentação relevante, os relatórios das suas operações são confidenciais e não estão disponíveis quer ao público, quer ao Parlamento Europeu, graças à sua natureza difusa, algures entre uma polícia fronteiriça e um serviço de informação.

    fronteiras-02Protege quem diz proteger.

    Afirmando repetidamente, com o devido eco acrítico nos media, que a culpa pela morte de migrantes (o termo preferido, porque “refugiados” significa outra coisa) é dos traficantes, a UE pretende antes de mais dissociar-se do sofrimento de milhões e da morte de milhares, condenados pelas suas políticas fronteiriças. Em segunda instância, ao tratar estes acontecimentos de forma descontextualizada, tenta obscurecer o seu papel e responsabilidades na génese da crise. Basta olharmos para os números dos tempos recentes, para termos uma ideia da falácia que é o objectivo assumido do Eurosur de “salvar vidas de migrantes”: 3700 mortos/desaparecidos no Mediterrâneo em 2015(2), mais de 3100 até ao início de Agosto de 2016 (contra 1900 no mesmo período em 2015), sendo que, de acordo com a Organização Mundial para as Migrações, o número de chegadas de barco à Europa é apenas ligeiramente superior ao mesmo período do ano anterior.

    Quando questionada sobre este aumento do número de mortes no mar, a Frontex acabou por reconhecer que o aumento do controlo e a apreensão de barcos alterou o comportamento dos traficantes, aumentando os riscos para os migrantes: “Notámos que os barcos de borracha estão mais superlotados do que antes”, afirmou Ewa Moncure, porta-voz da Frontex ao EUobserver. Tanto por haver mais pessoas em cada barco, quanto por se terem começado a utilizar embarcações mais pequenas.

    Ora, para perceber que os desenvolvimentos em 2015 e 2016 não foram obra do acaso e quais as reais prioridades da UE, basta recordar o que aconteceu em Outubro de 2014. Uma operação da Marinha Italiana, “Mare Nostrum”, que, com um orçamento mensal de 9 milhões de euros, tinha como foco principal operações de busca e resgate foi cancelada. Estima-se que tenha contribuído para que mais de 130,000 vidas tenham sido salvas. A operação que a substituiu, “Triton”, sob a alçada da Frontex, com um orçamento inicial três vezes inferior, (2,9 milhões de euros) tinha por sua vez como foco “a protecção das fronteiras europeias”, ou seja o combate às operações dos traficantes. O porquê da substituição pode ser entrevisto nas palavras da ministra para os negócios estrangeiros britânica à época, que fazendo eco de outras posições semelhantes, disse: “Não apoiamos operações planeadas de busca e resgate. (…) O governo considera que as mesmas funcionam como um incentivo à travessia”. Esclarecedor. Ainda antes da implementação da operação Triton, inúmeras vozes apontaram que a mesma levaria a um aumento inevitável do número de naufrágios, o que se viria a comprovar. Ou seja, os acontecimentos em 2015 e 2016 foram em grande parte uma consequência directa e mensurável da estratégia adoptada a partir de Novembro de 2014. Esta por sua vez resultava de um cálculo político aparentemente claro: alguns milhares de mortos adicionais eram um preço aceitável para desincentivar futuras travessias.

    Mas a UE não se limita a fechar as suas próprias fronteiras. Também tem tentado cooperar com outros países para que estes parem os refugiados tão longe quanto possível do espaço europeu. Uma espécie de outsourcing policial comummente chamado “exteriorização de fronteiras” ou, se quisermos ir pelo eufemismo oficial, “gestão partilhada de migrações”. O publicado Manual do Eurosur, por exemplo, faz referência ao fortalecimento das capacidades desses países através de “programas co-financiados pela UE”, a “dar habilitações e assistência técnica”, assim como ao “treino de autoridades de países terceiros em actividades de controlo fronteiriço”.

    Se a face mais visível deste tipo de parceria é o acordo com a Turquia, em troca de contrapartidas, para a “gestão” do fluxo de refugiados que buscam entrada na UE pela Grécia, existem outros menos notáveis mas não menos interessantes. Apenas como exemplo, em Fevereiro de 2015, o governo de François Hollande concedeu uma licença de exportação(3) à Thales para a entrega de material militar ao Egipto, apesar de admitir graves violações dos direitos humanos por parte do governo egípcio. Uma das razões apontadas para a concessão desta licença foi o papel que a marinha egípcia desempenha no controlo dos fluxos migratórios para a Europa. Outra, os objectivos partilhados no combate ao terrorismo. O material militar em causa: 24 “caças” Rafale e uma Fragata. Semanas antes o Egipto tinha começado a bombardear supostas posições do Estado Islâmico na Líbia. A mesma Líbia que foi reduzida a escombros em 2011 e lançada no caos por uma operação “defensiva” da NATO, fortemente promovida pela UE, com a França à cabeça. A mesma Líbia de onde partem a maioria dos barcos com refugiados que “ameaçam” as fronteiras da UE. Este tipo de nexo causal é recorrente pelo Médio Oriente. Salvar vidas nunca foi, nem é, afinal, uma prioridade.

    fronteiras-01Ou protege quem?

    O mundo pós 11 de Setembro, com todas as suas guerras, conflitos e intervenções mais ou menos directas, tem sido uma fonte de lucro (literalmente) brutal para as grandes empresas de armamento. O crescimento do sector de segurança fronteiriça vem no seguimento desses mesmos desenvolvimentos, como parte de um ciclo virtuoso aparentemente imparável de capital e morte. Em pano de fundo, uma indústria que lucra com todos os aspectos das políticas com que a UE espalha a tragédia: primeiro, alimentando conflitos que provocam fugas em massa e, depois, impedindo as vítimas de escapar à tragédia, em busca de uma vida com possibilidades de futuro.

    Em 2015, a BAE Systems, a maior empresa europeia de armamento registou 21,8% dos seus lucros com vendas para a Arábia Saudita. Também em 2015 a Arábia Saudita começou a sua campanha militar no Iémene, levando a que, em Agosto do mesmo ano o presidente do Comité Internacional da Cruz Vermelha, Peter Maurer, dissesse que o país “ao fim de cinco meses, pareça a Síria ao fim de cinco anos”. Tal como a BAE Systems, outras grandes fabricantes europeias de armas, como a Airbus, a Leonardo-Finmeccanica ou a Thales têm no Médio Oriente um foco: todas têm vendido muito e bem com os conflitos na região. Na hora de responder à vaga de refugiados que esses conflitos causam, a indústria volta a sorrir. Uma fronteira é muito mais do que apenas uma vedação: falamos de torres de vigia, equipamento de controlo de multidões, telecomunicações, radares, helicópteros, sistemas informáticos, aviões, navios, armamento, tecnologia de identificação e vigilância, bases de dados, investigação, treino de pessoal e muito mais.

    As mesmas empresas que garantem que armas e munições não faltem nos vários conflitos, também garantem esta segunda linha de encomendas potenciais, tanto aos Estados membros da UE, como aos países com os quais a União tem acordos de cooperação de “gestão de migrações”. Nomes como Leonardo-Finmeccanica, Airbus, Thales, Safran ou Indra, entre outros, são recorrentes quer se analisem contratos de venda de armas, tecnologia relacionada e de controlo fronteiriço quer se olhe para os gastos em lóbi junto das autoridades europeias relevantes.

    Chegamos aqui a uma das questões fundamentais de toda esta problemática. Um lóbi tão forte que tem um papel preponderante na definição das próprias políticas da UE. A Organização Europeia para a Segurança (OES), que inclui, entre outras, a Thales, a Fineccanica e a Airbus, tem sido o grupo mais activo na promoção de uma abordagem securitária) das fronteiras. Muitas das suas propostas acabaram em políticas comunitárias oficiais (nomeadamente a transformação próxima da Frontex em Guarda Costeira e Fronteiriça da Europa, que dotará a nova agência de poderes extra para ultrapassar os Estados membros na compra de meios de controlo, podendo até forçá-los a fortalecerem as suas fronteiras e a comprarem ou actualizarem equipamentos). Não é de estranhar, portanto, que as empresas mais proeminentes no OES sejam ao mesmo tempo precisamente as que mais lucram com o financiamento europeu a projectos de pesquisa, investigação e desenvolvimento de equipamentos e tecnologias de controlo fronteiriço.

    O quadro geral é assim o de uma UE senão em subserviência declarada, pelo menos em convergência de interesses com a indústria do armamento, da repressão e do controlo. Num mercado – o da segurança fronteiriça – avaliado em cerca de 15 mil milhões de euros em 2015 e que se prevê atinja mais de 29 mil milhões anuais em 2020. Uma liderança política alinhada com o aparelho da indústria militar-securitária que utiliza tecnologias que apontam, interna e externamente, para algumas das populações mais vulneráveis do planeta, violando-lhes os direitos, nomeadamente o de procurar asilo. Numa altura que é de definições, a UE escolhe o seu lugar, lado a lado com o mundo dos negócios que lucra com a própria tragédia que ajuda a criar.

    Notas:
    (1) O orçamento da Frontex passou de 6.3 milhões de euros, em 2005, para 238,7 milhões em 2016
    (2) International Organization for Migration, Mixed Migration Flows in the Mediterranean and Beyond: compilation of available data and information – annual report 2015, 2016
    (3) Entre 2005 e 2014, os Estados membros da UE concederam licenças de exportação de armas para o Médio Oriente e o Norte de África no valor de mais de 82 mil milhões de euros.

    fronteiras-empresas

    Dado o número de intervenientes, de subsidiárias e subcontratadores, não há uma forma completa de olhar para as empresas que fornecem equipamentos e serviços para o controlo fronteiriço. Pelo que se pode ver, as mais activas no lobby sobre segurança nas fronteiras, são exactamente as mesmas que mais beneficiam com os gastos comunitários relacionados com essas políticas. Nomeadamente:

    Airbus

    A Airbus é, de facto, uma das maiores “clientes” dos financiamentos europeus para projectos de pesquisa e desenvolvimento. Lucra também com as compras que os novos Estados membros da UE têm de fazer de forma a cumprirem os critérios de Schengen (por exemplo, em 2004, a Roménia assinou um contrato com a Airbus para o fornecimento de um “Sistema Integrado de Segurança Fronteiriça para monitorização, segurança e comunicação).

    Em consórcio com a Atlas Elektronik, a Airbus foi responsável, ainda como exemplo, pelo programa “Spacionav” para a guarda costeira francesa. Espanha e Bulgária adquiriram programas semelhantes.

    Os helicópteros da Airbus são preferidos por várias agências de controlo fronteiriço da UE, nomeadamente a alemã e a bielorrussa. Radares (por exemplo para a Bulgária) e redes de comunicações (por exemplo para a Finlândia) são outras das formas de a Airbus lucrar com a deriva securitária do controlo e gestão das fronteiras.

    Criticada por promover um drone “testado” por Israel em Gaza para monitorização de refugiados, a Airbus respondeu que o que “os parceiros de tecnologia decidem fazer com os seus próprios desenvolvimentos nos seus países, […] é com eles”1

    Leonardo (Finmeccanica)

    Há pouco tempo, a Finmeccanica alterou o seu nome para Leonardo, possivelmente para tentar fugir a uma reputação em queda, na sequência de uma sucessão de escândalos de corrupção.

    Já em 2009, a Finmeccanica identificava o “controlo fronteiriço e os sistemas de segurança” como uma das principais portas através da qual se via bem a luz de futuras encomendas.

    No geral, a empresa e as suas subsidiárias fornecem uma grande variedade de equipamentos de “gestão fronteiriça” que abrange a vigilância, a detecção biométrica, o controlo de acesso, a segurança do perímetro e sistemas de comunicações, comando e controlo.

    Os seus helicópteros são usados por muitos Estados membros e países vizinhos. Estónia, Argélia, Bulgária, Polónia e Finlândia são grandes clientes desta empresa que também fornece sistemas de vigilância costeira e radares. Estas compras são frequentemente financiadas pela UE.

    Thales

    A empresa afirma ter vendido (chave na mão) mais de 50 dos sistemas que estão em uso em campos relacionados com a segurança interna e o controlo fronteiriço (Letónia, França, Estónia, Espanha, entre outros). O seu relatório de contas de 2011 já deixava transparecer um forte crescimento dos lucros relacionados com negócios de protecção de fronteiras. Em Novembro de 2015, vários meios de comunicação deram voz a rumores de que a Thales estava, a pedido do governo tunisino, a construir um muro na fronteira com a Líbia. A Tunísia teria coberto os primeiros 5 milhões de dólares necessários para o projecto, mas estaria a tentar arranjar fundos europeus para os passos seguintes.

    Indra

    Em 2015, o mercado da segurança e defesa deu à Indra 19% dos seus negócios (0,54 mil milhões de euros). A segurança fronteiriça é uma parte importante deste negócio. A empresa afirma que os seus “sistemas protegem mais de 5,000 km de terra e fronteiras marítimas em vários países de diferentes continentes”. O Sistema Integrado de Vigilância da Indra combina controlo de tráfego marítimo com monitorização e vigilância. Está em uso na maioria das fronteiras marítimas do Estado Espanhol, assim como na Letónia, na Roménia e em Portugal. Num acordo de 25,5 milhões de euros com Portugal, a Indra começou a implantar uma rede de estações de detecção de movimentos dos barcos dentro do seu campo de influência.

    Safran

    Quem trata da maior parte do trabalho relacionado com o controlo das fronteiras é a Morpho (anteriormente conhecida por Sagem Securité), uma subsidiária da francesa Safran. A Morpho é especialista em soluções electrónicas de segurança, com um enfoque em sistemas de identificação biométrica. Em 2015, os negócios relacionados com “identidade e segurança” corresponderam a 9,2% das suas receitas (1,6 mil milhões de euros). Em Fevereiro de 2013, a Comissão Europeia assinou com a Morpho (em consórcio com a Accenture e a HP) um contrato no valor de 70 milhões de euros para a manutenção do Sistema Europeu de Informação de Vistos (Visa Information System – VIS), uma base de dados utilizada para armazenar e partilhar dados biométricos relacionados com pedidos de vistos por cidadãos de países terceiros. A Safran tem equipamentos e tecnologia sua no Serviço de Identidade e Passaportes do Reino Unido, nos portões de controlo automáticos dos aeroportos franceses, na Estónia, na Lituânia, Eslováquia, Finlândia, Albânia, Holanda e Eslovénia.

    Israel

    Graças a um acordo de 1996, Israel é o único país de fora da UE cujas empresas são elegíveis para receber fundos comunitários através do Programa Quadro de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico. Empresas essas que têm, de facto, provas dadas em termos de segurança fronteiriça, incluindo o muro de separação na Faixa de Gaza, a vedação na fronteira com o Egipto ou as centenas de pontos de controlo fixos ou móveis que polvilham a Cisjordânia. Um dos ditos pontos fortes de marketing da indústria de defesa israelita é precisamente que os seus equipamentos e tecnologias foram testadas no “campo de batalha”. Israel, um país cuja economia equivale a 0.6% do PIB global, é o um dos principais exportadores de equipamento militar do mundo (em 2007 exportou 10% do total global e em 2012 foi considerado o 6º maior exportador). Não é de estranhar, pois, que no Verão de 2015 se tenha ouvido dizer que a Bulgária e a Hungria estavam a considerar a possibilidade de comprar vedações de design israelita, ou que o controlo de multidões e segurança dos jogos olímpicos deste ano tenha sido assegurado por material e treino israelitas.

    A Elta, uma subsidiária da estatal Israel Aerospace Industries estava, nos finais de 2015 em contacto com vários governos europeus por causa do seu sistema de “Patrulha Fronteiriça Virtual”, baseado na monitorização das redes sociais e na interceptação de comunicações móveis, uma de várias áreas onde são considerados pioneiros.

    1The Electronic Intifada, 2 de Junho de 2015

  • Ocupação: uma carta de S. Paulo

    Ocupação: uma carta de S. Paulo

    Manuel Bivar
    Miguel Carmo
    Fotos de Leandro Moraes (Revista Vaidapé)

     

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    A meio do mês do maio, umas quatro horas da manhã, um grupo de secundaristas é expulso do ocupado Colégio Estadual de Cavalcanti e caminha de noite e à chuva, durante horas, em direção à ocupação da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). São 36 moças e moços que entram na cidade universitária descendo um barranco, onde são acolhidos com espanto por alguns estudantes. “Não é terrorista, é secunda!”, recorda um deles sorrindo. Ali é-lhes entregue uma sala. “Os secundaristas são nossa inspiração.” Frase que se repete em bocas muito diferentes, desde que no final de 2015 a região de São Paulo assistiu a um movimento de ocupação de escolas secundárias e técnicas que teve no seu ápice mais de 200 escolas ocupadas. Espécie de surto que tem contado em vários momentos com a colaboração dos movimentos de sem teto e o apoio de muita gente. Uma semana depois, num debate organizado pelo movimento negro no interior da Funarte ocupada em São Paulo, equipamento do Ministério da Cultura (MinC), uma mulher negra toma a palavra: “Foi preciso chegar a velha para endoidecer, fui no cerco à casa do Temer, junto dessas 30 mil pessoas, e depois da PM [Polícia Militar] atacar caminhei, caminhei pela cidade até Ipiranga.”

    É difícil caminhar na megalópole de 11 milhões onde o vertiginoso crescimento da segunda metade do século XX foi acompanhado de lógicas de planeamento que privilegiaram o automóvel e a segregação. Em São Paulo há poucas praças, as calçadas são estreitas, os viadutos muitos, o verde dos semáforos para pedestres dura segundos e a confrontação diária com a arrogância dos automobilistas que aceleram para matar pedestres e ciclistas pesa. Em 2015, o tempo gasto diariamente pelos paulistanos no trânsito era em média de 2 horas e 38 minutos.

    Talvez por isso, quando no 15 de outubro de 2011 (o 15O) um grupo decide montar acampamento debaixo dum viaduto no Vale de Anhangabaú, no centro da cidade, as principais pautas não foram as das praças europeias e estadunidenses. O Brasil de 2011 declarava crescimento e não crise, e o Ocupa Sampa, que reuniu mais de 250 barracas por 2 meses, falou de transportes, espaço público, problemas ambientais e indígenas e declarou luta à desigualdade social, homofobia, violência policial contra negros, machismo, especulação imobiliária e a falta de moradia para a população pobre.

    Transportes públicos foram uma das principais causas do movimento e o MPL (Movimento Passe Livre), que dois anos mais tarde protagonizou as maiores manifestações do Brasil contemporâneo, integrou o Ocupa Sampa. O acampamento foi considerado um laboratório de novas práticas sociais e políticas e sobretudo de novas mídias digitais. Os acampados reconheciam que os problemas ali falados eram incomparavelmente mais importantes para Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo, do que para Higienópolis, o bairro chique do centro da cidade, mas que a internet, principal ferramenta de comunicação do movimento, não chegava ao “pessoal da periferia”.

    leandro_moraes_revista_vaidape_9-jpgTambém a questão do transporte foi o mote para um protesto em Higienópolis, quando em frente ao luxuoso shopping, com o nome do bairro, se juntaram em junho de 2011 umas mil pessoas convocadas por facebook para o Churrascão da Gente Diferenciada. Os ricos moradores de Higienópolis tinham declarado guerra à Prefeitura, que anunciara a construção de uma estação de metrô no centro do bairro, porque traria “gente diferenciada”, “o povão”, e um “bando de camelôs e maconheiros”. A prefeitura acatou e decidiu não construir o metrô. O Churrascão teve certo impacto e foi inspiração de um movimento em Porto Alegre, no mesmo ano, que lutou contra a construção de um parque de estacionamento na principal praça da cidade. Movimento este que se prolongou e contribuiu para o início do levante de 2013.

    As incursões de gente diferenciada no shopping Higienópolis continuaram. Em fevereiro de 2012, o Comitê Contra o Genocídio da Juventude Negra juntou 300 pessoas em passeio pelo shopping que gritaram contra o racismo e a política de “higienismo social”. A Nova Luz, um mega projeto imobiliário para a zona central da cidade conhecida como Cracolândia, foi um dos projetos higienistas referidos pelos manifestantes. Ironicamente, como explicava Wilson Honório do coletivo Quilombo, Raça e Classe, Higienópolis funda-se quando a estação de trem da Luz é inaugurada e a burguesia paulistana foge da zona pois “começou a sentir o cheiro de preto e pobre”.

    Talvez este protesto tenha sido o precursor dos chamados rolezinhos. Em São Paulo, o primeiro deu-se no shopping Metrô Itaquera, no final de 2013, quando cerca de 6 mil adolescentes convocados pelas redes sociais ali passearam. Segundo pesquisa do jornal Folha de S. Paulo, 82% dos paulistanos se declaravam contra estas reuniões de jovens periféricos e na maioria negros que “apenas queriam ‘causar’ e chamar a atenção” e eram favoráveis à sua repressão e proibição. O movimento foi desconsiderado por muitos como apolítico e talvez tenha sido com espanto que em 2015 a população de São Paulo se confrontou com uma, nunca antes vista, mobilização política de adolescentes. 

    Mãe, Pai! Tô na ocupação, é só pra tu saber eu luto pela educação!” Há um funk secundarista que se ouve nas escolas, nas ocupações e sempre que se reune um grupinho deles. Após toda a perseguição sofrida na ocupação do Centro Paula Sousa, os estudantes mandam recado para seus pais em vésperas de uma expulsão violenta no início deste maio, 2016. O Centro, responsável pelas escolas técnicas do Estado de São Paulo, esteve ocupado durante uma semana na sequência do escândalo de desvio de verbas referentes ao fornecimento de refeições na rede de escolas.

    A história que antecede é conhecida: em novembro de 2015 são ocupadas mais de 200 escolas em resposta à proposta de reorganização feita em setembro pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo do governo de Geraldo Alckmin (PSDB). Estava previsto o fecho de 94 escolas, a recolocação de 400 mil alunos e professores, e a separação por diferentes escolas dos vários ciclos de idade, com efeitos diretos sobre famílias com vários irmãos na mesma escola. E.E. Diadema no ABC paulista e E.E. Fernão Dias na capital são as primeiras, entre 9 e 10 de novembro, iniciativa que alastra em menos de 20 dias às duas centenas de escolas. No final do mês, um domingo, o vazamento para a imprensa de uma reunião da Secretaria Estadual mostra que a mobilização está sendo tratada como “questão de guerra”. Na segunda-feira há um acirramento da violência da PM contra os estudantes. A luta cresce. Os estudantes contam em vários momentos com o apoio logístico de pais, do sindicato de professores (APEOESP) e do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Nos primeiros dias de dezembro o governador anuncia a revogação do plano de reorganização e o Secretário de Educação demite-se. Após o recuo, várias celebrações e manifestações tomam ruas e escolas. No dia 9, um grande protesto unificado percorre o centro, a Paulista e a Consolação. Ruas cortadas com fogo e lixo e contentores. Alguns bancos são atacados e orelhões arrancados. No final do ano grande parte das escolas tinha sido desocupada livremente seguindo as sugestões do Comando das Escolas Ocupadas, que reúne em assembleia as muitas ocupações. Mas o movimento não parou, virou “um ciclo sem fim.”

    leandro_moraes_revista_vaidape_10-jpgQuando perguntámos a um grupo de secundaristas como nasceu a ideia de ocupar a resposta é Chile. O documentário A Revolta dos Pinguins e o manual, também chileno, Como ocupar um colégio?, traduzido em outubro passado pelo coletivo Mal-Educado. O movimento secundarista não assume uma liderança dirigista, tem uma cultura de horizontalidade e de autonomia da luta de cada escola, o que traz à memória o MPL que em junho de 2013 obrigou o governo estadual a voltar atrás no desejo de aumentar as tarifas de transporte público. Alguns deles tiveram no levante de 2013, com 14 e 15 anos, a primeira vivência de manifestações, onde começaram a “criar pensamento crítico”, como nos explicam. As decisões do Comando saídas de uma assembleia em novembro de 2015 são explícitas: 1. Não desocuparemos as escolas; 2. Não queremos nenhuma negociação a portas fechadas; 3. Nosso posicionamento será sempre declarado em público; 4. Entidades como UMES, UBES e UNE (Uniões de estudantes municipal, paulista e brasileira) não nos representam! Nossa luta é uma só! No documentário Acabou a Paz, Isto aqui vai virar o Chile! Escolas Ocupadas em SP, de Carlos Pronzato, uma moça diz: “É como na discussão sobre feminismo. Homem está totalmente convidado a participar mas ele jamais poderá interromper uma mulher ou tomar a frente, a mesma coisa com a relação dos movimentos com a gente, eles devem nos apoiar mas nunca tomar a frente.”

    Neste março recomeçaram as ocupações secundaristas, desta vez rastilhadas pelo “roubo da merenda”, esquema que envolve diretamente o governador do estado, Alckmin, e o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), Capez. A ocupação do Centro Paulo Souza ganha visibilidade e em seguida a da ALESP. Esta, liderada pelas uniões estudantis conseguiu que fosse aberta uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar irregularidades. No portão muitos entregavam sacos com comida e roupa através das grades aos ocupantes sitiados pela PM. Um padre da esquerda católica discursa na ocupação: “vocês estão purificando a Assembleia.” Também a torcida do Corinthians, Gaviões da Fiel, a maior e mais antiga claque organizada do país, toma posição levando faixas contra o roubo da merenda para os estádios desde o início do ano, o que gerou uma onda de revistas compulsivas pela PM a adeptos e na sua sede.

    O movimento secundarista rola agora em muitas outras cidades. Neste maio, cresceu no Rio Grande do Sul um movimento de ocupações que se espalha por várias dezenas de escolas. No Rio de Janeiro, a ocupação da Secretaria de Educação foi fortemente reprimida e novamente ocupada. Em Goiás, onde o historial de ocupações autónomas remonta também a novembro de 2015, idem. Um espetro secundarista percorre o movimento social, num encontro que não é livre de tensões, mas que não deixa por isso de ser produtivo: “nós passámos umas dez ocupações e o que sentimos na ocupação da USP foi muito partidarismo, até um certo elitismo, trataram-nos literalmente como crianças, quando para muita gente ali é a sua primeira ocupação. Secunda é muito família, mesmo com as divergências de ideais e políticas tem essa comunhão”. E continuam, com um enfático ‘a gente’ que nos fica a ressoar na cabeça: “a gente se respeita, e a gente entende que tem um alvo e um objetivo maior, a gente consegue deixar as nossas diferenças ideológicas no gelo, não que eu não tenha a minha posição, eu tenho a minha posição, mas o objetivo maior agora não é ficar falando o que você faz ou deixa de fazer, é falar o que a gente vai fazer. A gente consegue ter essa maturidade de passar por cima das diferenças e de construir a combatividade da luta junto.”

    Alguns secundaristas vindos da USP começam a chegar à Funarte no centro de São Paulo nos primeiros dias de ocupação. É um movimento que se alastrou pelo país contra a extinção do MinC e contra o novo governo Temer. As primeiras ocupações começam em Curitiba e São Luís no dia 13 de maio e desde aí muitas outras: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador, Natal. No dia 18, há prédios do Minc ocupados em pelo menos 12 capitais estaduais, no final do mês são já 27 prédios ocupados, não sobrando nenhum estado de fora. A ocupação é por tempo indeterminado, diz a assembleia em São Paulo. “Funarte é pouco”, “Não estamos aqui só pelo MinC”, se vai ouvindo noutras ocupações. Gabriel Medina, militante do PT e do coletivo ARRUA diz-nos que “o fundamental é a ocupação ser um espaço de experimentação e troca de linguagens artísticas para pensar estratégias potentes de diálogo com a cidade, os cidadãos, os trabalhadores, para melhorar a nossa capacidade de resistência”. Entretanto começa a circular nos celulares a nova versão de Carmina Burana, Fora Temer!, tocada por uma enorme orquestra improvisada na Funarte do Rio.

    Uma espécie de épico governamental e mediático desenrola-se em paralelo. Após a constituição do governo provisório composto apenas por homens brancos, “machistério” diz-se, cinco mulheres recusam sucessivamente os convites para encabeçar a Secretaria Nacional da Cultura, a última delas a cantora Daniela Mercury, lugar por fim aceite por Marcelo Calero, homem. Com o alastrar das ocupações, com a equipa do filme Aquarius denunciando o golpe em Cannes, o governo recua e anuncia a volta da pasta ministerial. Entre muitas respostas, a da Frente Nacional de Teatro: “As ocupações não estão aqui para negociar pontos do governo golpista, mas sim para enfraquecer, atacar e acuar esse governo. É importante dizer abertamente: nenhuma das nossas reivindicações terá sido atendida enquanto o governo como um todo não cair. A reabilitação de um MinC e outros ministérios, no contexto de exceção que configura o atual golpe, significa apenas um recuo tático da parte dos golpistas, que visam ganhar tempo diante da evidência de que vão cair (…). O momento é de ir para cima deles com ainda mais energia, e em conjunto com todos aqueles que percebam o desmonte que se está fazendo. Não podemos deixá-los respirar! Ofensiva total!”

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    As ocupações da Funarte, e uma “cultura” em confronto com o governo, não são uma novidade pós-impeachment. Em São Paulo, a Funarte foi ocupada em Julho de 2011. A ocupação com o lema “é hora de perder a paciência” apresenta-se contra a mercantilização da cultura, a precariedade das condições de trabalho, a redução dos editais públicos e do orçamento para a Cultura. Os trabalhadores do MinC fizeram longas greves nacionais em 2011 e 2014. As políticas culturais do MinC de Gilberto Gil/Juca nos governos Lula já vinham sendo desmontadas nos últimos governos PT. Para Ana Beatriz, do Grupo de Articulação Política Preta (GAPP) da ocupação da Funarte-SP, e Fernando, antigo aluno da Escola Livre de Teatro na periferia de Santo de André, a política de edital, os Pontos de Cultura, os CEUs produziram transformações importantes na periferia brasileira e na população negra. Ana fala dos CEUs (centros culturais nas periferias com cinema, teatro, piscina e biblioteca) criados entre 2001 e 2004 pela prefeitura de São Paulo e dos editais do Minc: “a periferia ia se assistir nos CEUs, lugares de encontro, e algumas pessoas começaram a pensar que podiam viver de propostas artísticas. Isso da população negra ter um trabalho não braçal era impensável até então. (…) Os grupos que se tinham organizado por conta desse movimento já tinham um pensamento artístico quando surgem os editais.” Para Fernando, “esses editais deram um boom em espaços periféricos que já desenvolviam ações e que foram assim empoderados, mas já não saem editais para os Pontos de Cultura há alguns anos”. O MinC Gil/Juca reconheceu através dos Pontos de Cultura que a cultura já estava sendo produzida na periferia e que necessitava apenas de ser apoiada e legitimada. Compreende-se assim a ideia, repetida em muitos momentos, de que já tem “golpe antes do golpe” e a vontade de prolongar a luta muito para além do “volta MinC” ou do “Fora Temer”. Ao contrário do que insistem os editoriais da Folha de S. Paulo, a ocupação da Funarte não se reduz à polarização Fora Temer – Volta Dilma.

    Desde os primeiros momentos crescem várias ocupações dentro da ocupação. A do GAPP, a partir de uma evidência inicial: a branquitude maioritária da assembleia e a invisibilidade da periferia. “As pautas relevantes para a maior parte da população não tinham relevo na ocupação, não tínhamos uma voz de decisão dentro dela e, numa lógica de produzir uma ideia de representatividade negra, eramos sempre chamados quando se precisava de uma imagem para os mídia. Aí começámos a chamar amigos e conhecidos de coletivos periféricos, de Pontos de Cultura, de culturas tradicionais para englobar um grupo que está propondo uma ocupação concetual e artística pensando o colonialismo brasileiro dentro de uma ocupação de artistas que era majoritariamente branca.” Numa das assembleias, este grupo decide acompanhar todas as intervenções de negros com um gesto coletivo silencioso disperso pela assembleia: corpos negros levantam-se em uníssono, sempre muito devagar, com o punho esquerdo prolongando-se acima. Este gesto teve outra vantagem: a disputa pelo protagonismo político veiculada aos eixos partidários, sempre esgotante nos espaços assembleários, ficava assim debilitada.

    A ocupação secundarista e a ocupação LGBT são outras duas ocupações que ganham força e se cruzam numa multiplicidade de outras presenças.

    No documentário Temporada de Caça (1988) várias pessoas são entrevistadas na Paulista, a grande avenida ladeada de arranha-céus, sobre a vaga de assassinatos de travestis e homossexuais durante a Operação Tarântula, lançada em 1987 pela Polícia Civil de São Paulo com o objetivo oficial de “processar os travestis e homossexuais por ultraje ao pudor público e crime de contágio de AIDS”. Tranquilamente, os entrevistados apoiam a matança. Este ano, também na Paulista, a Parada LGBT de São Paulo reuniu dois milhões de pessoas. A mudança é avassaladora mas não consensual e a avenida é recorrentemente chamada de Sodoma. Silas Malafaia, famoso pastor da Assembleia de Deus falava para a “Igreja baixar o porrete em cima desses caras” e Marcos Feliciano, o pastor e deputado (PSC) que propôs a lei de cura gay em 2013, enquanto ocupava o cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara durante o governo PT, é um feroz crítico da Parada. O pastor Sargento Isidório, deputado estadual, vai mais longe em suas análises e associa a grave seca que atingiu São Paulo em 2014 ao facto de ali se realizar a maior parada gay do mundo.

    leandro_moraes_revista_vaidape_4-jpgUma avenida dividida. De um lado, em frente ao enorme edifício espelhado e gradeado da Federação das Indústrias do Estado de S. Paulo (FIESP) exigiu-se a destituição da presidenta Dilma Rousseff, do outro, no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (Masp) gritava-se “golpe”. A 13 de maio, 128 anos depois da abolição da escravatura, um grupo de negras, negros e negrex reuniu-se em frente à FIESP a que chamaram A Casa Grande Moderna. No dia antes Michel Temer tomava posse como presidente interino, recebia em seu gabinete a benção de Silas Malafaia e extinguia o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que incorporou no Ministério da Justiça entregue a Alexandre Moraes, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo. Moraes é acusado dos crimes de maio de 2006 quando a polícia assassinou pelo menos 493 pessoas em suposta retaliação aos ataques do Primeiro Comando da Capital, organização que controla o tráfico de droga da cidade e de quem o ministro terá sido advogado. O movimento Mães de Maio lembra todos os anos pelas ruas de São Paulo a matança indiscriminada de seus filhos. O ministro é ainda acusado de violência diante de protestos, como o que ocorreu na Paulista no início do ano organizado pelo MPL e que resultou em vários feridos. Sob a sua gestão foram pela primeira vez utilizados blindados israelitas para enfrentar manifestações que agora estarão mais livres para atuar depois de Dilma Rousseff, em seus últimos dias de governo, ter aprovado um novo quadro legal antiterrorismo.

    No centro da avenida, a faixa vermelha da ciclovia é metáfora das divisões do país. Em 2015, o deputado estadual Raymond Diwan (PSDB) entrou com queixa na justiça contra as ciclovias promovidas pelo prefeito Hadad (PT), “nem na China, que é um país comunista, a faixa é vermelha”, dizia. Uma famosa semióloga descrevia as ciclovias como a mais descarada propaganda vermelha do PT e apontando o “problema do vermelho para o nosso sistema nervoso central”.

    São Paulo, uma cidade onde o carnaval não tem tradição teve este ano o maior carnaval de rua de sempre com cerca de dois milhões de pessoas em 355 blocos. Estes blocos, com reivindicações políticas das mais variadas, ocupam as ruas com festa e purpurina, promovem a libertação dos corpos e novas formas de ver a cidade, o que tem sido importante para uma forte queerização do centro. Têm sido frequentes as represálias a blocos que negam registar-se no carnaval oficial da prefeitura e a comunicar seu percurso à polícia. Outros movimentos, como o do Parque Augusta que enfrentou uma empreiteira ocupando um pedaço de mata atlântica e exigiu a construção de um parque, parecem estar a ganhar força. Peter Pál Pelbart descreveu este movimento como um caminho inverso ao dos bandeirantes, um adentrar da cidade para proteger a floresta.

    Projetos como o Florestas de Bolso e Novas Árvores Por Aí querem invadir São Paulo de mata atlântica, quebram calçadas e plantam trepadeiras no minhocão, o enorme viaduto construído durante a ditadura militar e que rasga o centro da cidade. 

    No centro dezenas de enormes prédios estão ocupados por movimentos de luta por moradia como o MTST e a Frente de Luta por Moradia, entre outros. 15 mil moradores de rua dormem em diversos acampamentos.

    leandro_moraes_revista_vaidape_5-jpgDesde os anos 1980 que os movimentos sociais organizados em torno da moradia vêm ocupando terrenos da periferia. Em meados dos anos 1990 essas ocupações deslocam-se também para os edifícios do centro. Recentemente, na periferia e no centro, uma nova vaga de ocupações está em curso. As notícias sobre ocupações e despejos violentos executados pela PM são notícia frequente. Foi o caso do número 911 da Avenida Prestes Maia, de 22 andares, onde 378 famílias viviam na segunda maior ocupação vertical da América Latina. Ocupado pela primeira vez em 2002, despejado, ocupado novamente em 2010, enfrentou pelo menos 20 tentativas de reintegração de posse.

    Em junho de 2014, na véspera da Copa do Mundo, 300 famílias ocupam um terreno em Itaquera, próximo do estádio onde se deu o jogo de abertura. Dias depois já eram 2000 famílias acampadas, na maioria vindas dos bairros próximos, e que declaravam não conseguir mais pagar os altos valores do aluguer da região.

    Em São Paulo, entre 2008 e 2014, os preços de compra valorizaram-se em 200% e os do aluguer acompanharam a tendência – aumentos muito superiores aos ganhos salariais e de renda dos mais pobres. A situação agravou-se com a coincidência das obras da Copa do Mundo e Jogos Olímpicos e do aumento da disponibilidade de crédito, particularmente após 2009, quando o Minha Casa Minha Vida (MCMV) lançou 100 biliões de reais no crédito imobiliário em 2 anos. Informações de Raquel Rolnik em seu recente e lúcido livro A Guerra dos Lugares. Segundo a arquiteta e urbanista, não há dúvida que o MCMV, programa federal de estímulo à produção de casas de baixa renda, beneficiou sobretudo o setor imobiliário, em especial as grandes empreiteiras. O programa atribuiu o poder de decisão sobre a localização e desenho do projeto aos agentes privados e uma vez que o teto de preços e dimensões das unidades estavam previamente estabelecidos, o lucro do empreendedor baseou-se na redução do custo de produção. O resultado foi a construção de mega empreendimentos padronizados nas piores localizações das cidades, onde o solo é mais barato, fora da malha urbana, em áreas sem infraestrutura, sem comércio ou equipamentos públicos, precariamente conectadas ao tecido urbano e com condições inadequadas de transporte público.

    O número e proporção de população em favelas tem crescido. Em São Paulo, em 1973 eram 70 mil pessoas (1% da população), em 2000, 1.2 milhões (11%), números que se mantinham em 2010. Fala-se recorrentemente em violência nas periferias e favelas, diz Rolnik que “a violência policial que redesenhou as cidades nas últimas décadas permanece como uma das questões urbanas centrais e é estrutural e institucional. Representa uma das formas mais visíveis de dominação étnica e de classe e impõe limites para a extensão da cidadania e da democracia ao conjunto do território”. “Uma em cada quatro pessoas assassinadas em São Paulo é morta pela polícia”, anunciava este ano o jornal Globo.

    Uma “guerra dos lugares” está em curso e a ocupação é uma das suas manifestações.

    A sina do samba de Adoniran Barbosa tem cada vez menos adeptos. É isso que mostrou e mostra a luta do MPL:

    Não posso ficar nem mais um minuto com você

    Sinto muito amor, mas não pode ser

    Moro em Jaçanã

    Se eu perder esse trem

    Que sai agora às onze horas

    Só amanhã de manhã

    leandro_moraes_revista_vaidape_1O custo do transporte público e o direito à mobilidade foram as causas que uniram tanta gente nas manifestações de 2013. Uma luta específica sobre uma questão transversal e um ponto de fraqueza do sistema: é essa a inteligente estratégia do MPL. Junho foi forte, gente da mais diversa se encontrou e produziu protestos imprevisíveis. Eliane Brum assinou um artigo no El PaisBrasil sobre o ato realizado em frente à FIESP a 13 de maio: “as elites que apoiam o impeachment ainda não compreenderam: seus privilégios continuarão a ser contestados. (…) Tanto o PT quanto aqueles que agora estão (ou continuam) no poder ainda não compreenderam a potência de 2013. A polifonia que ocupou as ruas naquele momento, para além de qualquer controle possível, segue nas ruas, apesar das bombas de gás da polícia. É essa a força simbólica dos negros e negras e negrex que se postaram diante da “Casa Grande Moderna”. (…) Quem acha que é o fim da história ainda não entendeu que ela mal começou.”

    Talvez 2013 não explique a “potência” do ato em frente à FIESP. Talvez ela seja anterior, mais profunda, e esteja a vir da periferia. De uma periferia que cansou de ser analisada, de ser apalavrada pelo centro: o morro que descerá ao asfalto em defesa da democracia. “Não queremos nem precisamos que ninguém nos represente. Hoje, somos aproximadamente 106 milhões, devemos ser representados por nós mesmos (…). Da mesma forma que não tem sentido um pai de santo representar uma bancada de evangélicos, é pertinente que os pretos e favelados protagonizem sua nova história”, diz o dirigente do partido em formação Frente Favela Brasil. Uma periferia que agora, e essa é uma história bem recente, está conectada entre si. “O que eu vejo é que a periferia está completamente unida – você não tem noção de como está unida. Eu falo aqui [do celular] com todo mundo. Tem grupo no Brasil inteiro, até fora do país: grupo de pai de santo, mãe de santo, advogado, o pessoal do rap, de todas as periferias. Todo mundo trabalhando, filha. Não tem mais volta. (…) Essa juventude que está aí, essa massa gigantesca de 16, 17, vinte anos, nunca mais vai trabalhar de cabeça baixa. Pode trabalhar em silêncio, mas a cabeça nunca mais vai abaixar”, diz Eliane Dias, produtora dos Racionais Mc’s.

    Os secundaristas são também esses jovens periféricos que não parecem estar dispostos a ficar em silêncio. Alunos de escola pública, escola de pobre no Brasil, e que decidiram tomar o centro, tomar as instituições. Talvez perguntar, como faz Renan Porto, se não seria possível expandir a experiência dos secundaristas a outras instituições. “Por exemplo, pensar numa reapropriação de um hospital por parte dos seus usuários, amigos e familiares, e debater seus gastos, as políticas voltadas para ele”. Ou como sugere Raquel Rolnik, de ocupar para “liberar” o lugar, desafiando a tentativa das autoridades de excluí-lo, de ocupar para criar “processos coletivos de construção de ‘contraespaços’: movimentos de resistência à redução dos lugares a loci de extração de renda e, simultaneamente, movimentos de experimentação de alternativas e futuros possíveis”.

    Talvez seja esse o futuro.

    Chegou o tempo de ocupar tudo. De plantar mata atlântica, de despoluir o Tietê, o Pinheiros, o Tamanduateí. De virar negra e negra da terra. Negro e negrex. Enfim, de quebrar as estátuas dos bandeirantes e queimar a Casa Grande.

    Maio de 2016 (artigo disponível em www.buala.org)