shop-cart

Lendo: Especismo não, abolição!

Especismo não, abolição!

Especismo não, abolição!


Especismo não, abolição!” (1)

Notas introdutórias sobre a exploração de animais para consumo

Nas últimas décadas, o Movimento pela Libertação Animal tem adquirido uma importância significativa nas sociedades ocidentais, envolvendo um crescente número de activistas. Divergindo das perspectivas bem-estaristas e humanistas, procura combater todas as formas de exploração de animais não-humanos com vista à erradicação daquele que assume como uma das suas principais raízes: o especismo. Criado em Janeiro de 2016, o Movimento pela Abolição dos Matadouros (MAM-Portugal) surgiu no contexto nacional justamente para denunciar o especismo e as suas múltiplas intersecções com os demais sistemas de opressão (e.g., sexismo, racismo, xenofobia, capacitismo, heterossexismo e capitalismo), contribuir para a libertação animal, ao mesmo tempo que pretende estabelecer políticas de aliança com outros movimentos sociais. Apresenta-se como um colectivo horizontal, anti-capitalista e não-partidário, que actua no sentido de potenciar a igualdade, a autonomia e as relações de cooperação e de apoio mútuo, e de activismo anti-especista. O artigo que se segue é da sua autoria.

mam_portugal

MAM-Portugal (mamportugal2016@gmail.com)  |  Facebook

No passado dia 4 de Junho, realizou-se em Lisboa a Marcha pela Abolição dos Matadouros. Integrada numa rede internacional, que envolveu este ano 25 cidades de 17 países, esta marcha foi convocada pelo MAM-Portugal e preparada em colaboração com os grupos Acção Directa e ActiVismo, tendo contado com cerca de 200 activistas. No âmbito da sua preparação, o MAM-Portugal organizou 30 acções em cinco cidades portuguesas (Almada, Braga, Coimbra, Lisboa e Porto), que incluíram a exibição de documentários, debates, projecções fotográficas e acções de rua, apelando ao fim da exploração dos chamados “animais de consumo” (e.g., vaca, porca e galinha).

Actualmente, mais de 53 mil milhões de animais sencientes (2) (terrestres) são mortos com vista à produção de carne, sobretudo na região Norte do globo. Embora inúmeros estudos apontem os severos impactos da indústria da agropecuária ao nível dos direitos dos animais não-humanos, da saúde humana e da gestão dos recursos naturais (e.g., FAO, 2006), a produção mundial de carne passou de 191 milhões de toneladas, em 1993, para aproximadamente 300 milhões de toneladas em 2010, de acordo com os dados produzidos pela divisão responsável pela estatística da FAO (2013).

O complexo industrial-animal está hoje organizado a partir do exercício da violência contra animais não-humanos e da apropriação sistemática dos seus corpos. Milhões de vacas, porcas, galinhas e ovelhas são confinadas a espaços reduzidos, insalubres e, muitas vezes, sem luz solar ou artificial. Além da manipulação abusiva dos seus corpos e dos respectivos processos biológicos, são sujeitas a inúmeras formas de mutilação, sem recurso a anestesia, tais como a castração, o corte de cauda, o debicar e o descornar. São injectadas com hormonas, vacinas e antibióticos para acelerar o crescimento da massa corporal. São impedidas de participar em actividades específicas da sua espécie; são-lhes quebradas as relações de parentesco; estabelecem relações sociais muito limitadas; não conseguem comunicar eficazmente com os membros do seu grupo (CiWF, 2006).

porcosA exploração dos “meat animals” está profundamente radicada no carnismo, isto é, a ideologia que condiciona, sustenta e legitima o consumo de (determinados) animais não-humanos (Joy, 2010). O carnismo atribui diferentes graus de comestibilidade a animais não-humanos conforme a sua espécie: por exemplo, nas sociedades ocidentais, os “animais de consumo” tendem a corresponder àqueles que são exclusivamente herbívoros, aos quadrúpedes e aos ruminantes domesticados, ao passo que as espécies não-edíveis incluem os “pet animals”, os primatas, os carnívoros e os roedores. Diferentemente dos “animais de companhia”, os “meat animals” constituem meros utensílios destinados à satisfação dos interesses humanos, com os quais não é expectável o desenvolvimento de relações afectivas e de proximidade.

O (eventual) rompimento das fronteiras que separam, de forma dualista, animais edíveis de animais não-edíveis evoca frequentemente estímulos negativos (e.g., o consumo de “carne” de cão ou de gato). Porém, a associação de prazer ou repulsa ao consumo de animais não tem que ver com as suas características intrínsecas, mas antes com o modo como estes são conceptualizados em termos de comestibilidade. Ainda que tenda a ser visto como normal, natural e necessário, o consumo de “carne” é resultado da actuação de diferentes agentes de socialização (e.g., família, escola, Estado, média) que, de forma continuada, hierarquizam as espécies, configuram os palatos e policiam as preferências alimentares não-normativas, transformando o carnismo numa ideologia que nos parece irrefutável histórica e biologicamente. A prática de comer animais é, pois, uma construção social. É uma escolha, não é um imperativo.

O carnismo constitui uma sub-ideologia do especismo: além de ser uma forma de preconceito contra os indivíduos que não pertencem à espécie humana, este designa também um conjunto de instituições materiais, discursos culturais e práticas sociais que garantem e perpetuam a subordinação estrutural de animais não-humanos. Imbricado na tradição filosófica ocidental, o especismo relaciona-se com o paradigma antropocentrista, que impõe e privilegia as necessidades de indivíduos humanos como o único referencial, sobrepondo-as aos interesses das demais espécies, principalmente de animais não-humanos.

Conceptualizando os critérios que estabelecem as diferenças entre indivíduos humanos e não-humanos, o legado filosófico antropocêntrico contribuiu, justamente, para a manutenção do dualismo humano-animal no imaginário ocidental, o qual estabelece uma oposição binária onde as duas partes se excluem mutuamente, onde os indivíduos humanos emergem como o Centro e os animais não-humanos surgem como o “Outro”. Esta noção de “humano” é projectada pelas culturas ocidentais como uma categoria universal mas corresponde, por defeito, ao homem, branco, heterossexual, cisgénero, católico, capacitado, adulto, de classe média/alta. Neste sentido, as diferenças entre os indivíduos humanos, e entre estes e animais não-humanxs, são entendidas em relação a um Centro androcêntrico, isto é, são uma expressão subalternizada de alteridade e não uma expressão igualitária de diversidade.

Num contexto de crescimento da violência estrutural contra animais não-humanos, de iminente colapso ambiental, de agravamento das desigualdades sociais e de intensificação do controlo e da repressão, o MAM-Portugal procura contribuir para a criação no contexto português de espaços de capacitação para a acção que promovam a convergência e o redimensionar de diferentes lutas numa agenda política explicitamente anti-capitalista e anti-autoritária, interseccional e articulada a partir das bases. Durante os últimos meses, projetou-se, dialogou-se e cozinhou-se numa lógica pautada pela ética DIY (isto é, “Faz Tu Mesmo”, que rejeita o sonho capitalista assente no consumo e no lucro), pela descentralização e horizontalidade, pela igualdade e solidariedade, mostrando-se que é possível levar a cabo uma luta auto-organizada, autónoma e auto-financiada através da qual aprendemos, fazendo em conjunto.

Porque a opressão não constitui um processo arbitrário e ocasional, importa promover a politização da acção colectiva contra o especismo, a (re)significação de animais não-humanxs a partir de perspectivas emancipatórias, bem como a prefiguração de modelos de organização social e económica alternativos que instiguem a abolição de todas as formas de opressão humana e animal. Desde os nossos múltiplos lugares de enunciação, nós – anti-capitalistas, feministas, fufas, bissexuais, queers, heteras, não-binárias, trans, galdérias, anti-fascistas, monogâmicas, poliamorosas, anti-assimilacionistas e libertárias – daremos o nosso contributo.

Referências:
Compassion in World Farming Trust. (2006). Trust Stop – Look – Listen: Recognising the Sentience of Farm Animals.
Consultado a 3 Fevereiro de 2011 em http://www.ciwf.org.uk/.

Food and Agriculture Organization of the United Nations. (2006). Livestock’s Long Shadow: Environmental Issues and Options. Consultado a 17 de Março de 2014 em http://www.shabkar.org/download/pdf/Livestock_s_Long_Shadow.pdf.

Food and Agriculture Organization of the United Nations. (2013). FAO Statistical Yearbook 2013. Consultado a 5 de Setembro de 2015 em http://www.fao.org/docrep/018/i3107e/i3107e.PDF.

Joy, Melanie. (2010). Why We Love Dogs, Eat Pigs, and Wear Cows: An Introduction to Carnism. San Francisco, CA: Conari Press.

NOTAS
(1)
Uma das palavras de ordem da Marcha pela Abolição dos Matadouros (Lisboa, Junho de 2016).

(2) A senciência consiste na capacidade de sentir emoções e sensações (e.g., dor, prazer, fome, sede, calor, frio, etc.). Um animal não-humano senciente é capaz de interpretar informação, compreender o seu contexto, estabelecer relações com os seus pares, analisar perigos, etc.

A story about


Written by

Jornal Mapa

Show Conversation (0)

Bookmark this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

0 People Replies to “Especismo não, abolição!”